ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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21 de março de 2011

a medida do homem

Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será colocada no vosso colo; porque com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos. (Lc 6, 36-38) Neste pequeno texto lido hoje na Missa, temos o resumo de todo o Evangelho. Infelizmente, a nossa sociedade não é cristã, ainda que faça referências à fé e à religião. Mesmo em comunidades que se reúnem nas igrejas, realizam trabalhos pastorais, etc., estas regras de vida que Jesus deixou, não estão sendo vividas. Talvez a questão de "dar" tenha sido parcialmente posta em prática (por exemplo, através das pastorais sociais, campanhas de doações e coisas semelhantes), mas todo o resto não é. Geralmente recorremos à frase "não julgueis e não sereis julgados", apenas em situações em que nós mesmos nos vemos como alvo de críticas ou fofocas. Entretanto, vivemos o tempo todo exercendo a usurpação de direito para julgar os outros.
Acredito que um ditado popular, absolutamente equivocado e repetido com muita frequência por aí, tenha origem numa confusa troca de palavras, tiradas do ensiamento de Jesus citado acima. No povo se diz: "Quem sou eu para perdoar? Só Deus é quem perdoa!". Em vez disso, deveria ser: "Quem sou eu para julgar? Só Deus é quem julga!". Quanto ao perdão, Jesus está claro: "Perdoai e sereis perdoados". Todos nós já experimentamos na própria pele as consequências das atitudes contrárias às palavras de Jesus. Certos grupos de pessoas - entre eles, os homossexuais - tornam-se particularmente o objeto de julgamentos injustos, baseados nas opiniões generalizadas, alimentadas por infundadas emoções negativas. É isso que chamamos de preconceito e de homofobia.
Jesus fala no Evangelho sobre a medida. Qual é a medida do homem? Falou sobre isso o Papa João Paulo II, durante a sua primeira viagem apostólica à Polônia, em 1979 (leia aqui). Com que medida se há de medir o homem? Medi-lo com a medida das forças físicas de que dispõe? Ou medi-lo com a medida dos sentidos, que lhe permitem o contato com o mundo exterior? Ou medi-lo com a medida da inteligência, o que se realiza através dos vários testes ou exames? (...) É preciso medir o homem com a medida do «coração». O coração na linguagem bíblica significa a interiorização espiritual do homem, significa em particular a consciência. É preciso portanto medir o homem com a medida da consciência, com a medida do espírito aberto a Deus. Só o Espírito Santo pode «encher» este coração, ou seja, conduzi-lo a realizar-se através do amor e da sabedoria.
A cada um que me despreza, somente por causa da minha identidade homossexual, pergunto: o que você sabe sobre mim, sobre o meu coração e a minha consciência? Por que você se coloca no lugar de Deus que tem a autoridade única para julgar? Se você é um cristão, use a recomendada pelo Papa "medida do coração" que significa, também, a medida de caridade e respeito.

20 de março de 2011

Transfiguração

A transfiguração de Jesus, lida e meditada na liturgia deste 2° Domingo da Quaresma (Mt 17, 1-9), ocupa o lugar de destaque na tradição e na espiritualidade da Igreja que celebra também uma festa especial dedicada a este misterioso acontecimento (no dia 06 de agosto). Recentemente, o Papa João Paulo II, chamou ainda mais a atenção do povo à transfiguração do Sengor, ao inseri-la no elenco dos cinco novos mistérios do Rosário (confira a Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae - aqui). Também a sua Exortação Apostólica, dedicada à vida cosagrada (Vita consecrata - aqui), tem a transfiguração como o ponto de partida e o fio condutor de todo o seu conteúdo. O Papa escreve: No Evangelho, são muitas as palavras e gestos de Cristo, que iluminam o sentido desta vocação especial. No entanto, para se abarcar numa visão de conjunto os seus traços essenciais, revela-se particularmente útil fixar o olhar no rosto resplandecente de Cristo, no mistério da Transfiguração. (n. 14) E continua mais adiante: O episódio da Transfiguração assinala um momento decisivo no ministério de Jesus. É um evento de revelação que consolida a fé no coração dos discípulos, prepara-os para o drama da Cruz, e antecipa a glória da ressurreição. É um episódio misterioso revivido incessantemente pela Igreja, povo a caminho do encontro escatológico com o seu Senhor. Como os três apóstolos escolhidos, a Igreja contempla o rosto transfigurado de Cristo, para se confirmar na fé e não correr o risco de soçobrar ao ver o seu rosto desfigurado na Cruz. Em ambos os casos, ela é a Esposa na presença do Esposo, que participa do seu mistério, envolvida pela sua luz. Esta luz atinge todos os seus filhos, todos igualmente chamados a seguir Cristo, repondo n'Ele o sentido último da sua própria vida podendo dizer com o Apóstolo: «Para mim, o viver é Cristo» (Fil 1,21). Mas uma singular experiência dessa luz que dimana do Verbo encarnado é feita, sem dúvida, pelos que são chamados à vida consagrada. Na verdade, a profissão dos conselhos evangélicos coloca-os como sinal e profecia para a comunidade dos irmãos e para o mundo. (n. 15)
No seu livro "Direção espiritual e homossexualidade" (Edições Loyola; São Paulo, 2006), o padre jesuíta James L. Empereur, apresenta uma clara analogia entre a vida consagrada e a vida das pessoas homossexuais. Logo, a meditação do Papa, ganha para nós um significado especial. Leia a argumentação do autor: Os gays cristãos possuem um carisma análogo ao carisma de uma vocação religiosa. (...) O que diferencia o carisma do homem gay do carisma de um homem membro de uma ordem religiosa é que o do homem gay é um carisma sexual. Assim como Deus ofereceu certo dom aos sacerdotes, irmãos ou irmãs na vida religiosa para que seguissem o evangelho com certo caráter público, assim Ele ofereceu aos homens gays e mulheres lésbicas um dom sexual especial, que exibe de maneira pública a diversidade e a beleza de Deus em nosso mundo. Todas as criaturas de Deus expõem a obra de Deus, mas o mundo também precisa de variação para que a riqueza dessa obra seja inequivocamente evidente. Deus dá a gays e lésbicas a variação um tanto surpreendente de sua sexualidade para ajudar seus irmãos e irmãs a ter uma compreensão maior da realidade de seu Deus. (...) Os religiosos são poucos em comparação à população total, e pede-se a eles que vivam de certa meneira, que carrega consigo certa qualidade contracultural. Se a vida religiosa é indistinguível do resto da vida cristã, parece não haver nenhum propósito para sua existência. (...) Também os homossexuais são uma minoria. Também eles devem viver vidas contraculturais. Percebemos nitidamente a lógica desta analogia, mas o autor observa que ela não é completa: A vida religiosa é uma vocação acima da vocação que recebemos de Deus ao sermos criados filhos ou filhas de Deus. A sexualidade gay é um fato da criação. (...) Ao contrário dos homens e mulheres religiosos, eles [os homossexuais] não tiveram escolha quanto à vocação. Não lhes perguntaram se queriam ser homossexuais. (...) O carisma não se baseia primariamente na escolha, mas em um dom oferecido a alguém para ser compartilhado porque o mundo necessita desse dom. (pp. 4-6).

José

Escrevi uma reflexão sobre a figura paterna, tendo São José como referência, no 3° dia da Novena de Natal (aqui). Acrescento agora alguns outros pensamentos. Ao longo de vários séculos, a Tradição da Igreja e a piedade popular, atribuíam a José uma idade bastante avançada, retratando-o como o ancião ao lado de jovem Maria Santíssima. Hoje, alguns autores, aventuram-se ao apresentar São José relativamente jovem (veja, p. ex., "São José jovem e santo - o segredo do sucesso familiar" de Dom Cipriano Chagas ou "José, Esposo e Pai" de José H. Prado Flores). De fato, a Sagrada Escritura não fala absolutamente nada sobre a idade do esposo de Maria. Segundo um destes autores (não me lembro bem qual deles) afirma ter sido devido a dificuldade em lidar com a questão de sexualidade que a Igreja (ao menos em sua expressão popular) preferiu uma versão mais segura de São José (isto é, José velho). Como, entretanto, tudo está perfeito nos planos de Deus e foi Ele quem quis garantir ao seu Filho uma infância melhor possível, certamente esta estranha desproporção de idades no Casal da Sagrada Família não teria razão para existir. O Papa João Paulo II, além de uma Exortação Apostólica (Redemptoris custos - aqui), dedicou a São José uma das catequeses em 1996 (o site do Vaticano disponibiliza apenas versões em italiano e espanhol, esta última aqui). O texto trata de união virginal de Maria e José: Pode-se supor que entre José e Maria, no momento do noivado, houvesse um entendimento sobre o projeto de vida virginal. De resto, o Espírito Santo, que tinha inspirado a Maria a escolha da virgindade em vista do mistério da Encarnação, e queria que esta acontecesse num contexto familiar idôneo ao crescimento do Menino, pôde suscitar também em José o ideal da virgindade. (...) José e Maria receberam a graça de viverem juntos o carisma da virgindade e o dom do matrimônio. A comunhão de amor virginal de Maria e José, embora constitua um caso muito especial, ligado à realização concreta do mistério da Encarnação, foi todavia um verdadeiro matrimônio. Na Exortação Redemptoris custos, o Papa afirma: Neste matrimônio não faltou nenhum dos requisitos que o constituem. (n. 7) Exatamente aqui vem a curiosidade. A Sagrada Família é o modelo de toda família cristã, portanto, de todo o matrimônio (cristão). Isso é muito claro, porque a sua essência está no amor. Mas, se - neste caso - não aconteceu a procriação como nós a entendemos e, mesmo assim, "não faltou nenhum dos requisitos que constituem o matrimônio", por que razão os opositores de união homossexual batem tanto nesta tecla, dizendo que por faltar "o requisito" da procriação, tal união está errada e, portanto, inadmissível. Com outras palavras: fundamental é o amor e mesmo que não haja procriação, a união de duas pessoas que se amam, está nos planos de Deus.

19 de março de 2011

o meu adversário

Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. (Mt 5,25) A frase do evangelho, lido na liturgia desta sexta-feira (Mt 5, 20-26), ajuda-me a compreender a minha própria experiência, vivida há alguns anos. Sempre tive a impressão de que citada recomendação de Jesus não se referia apenas a este mundo. Sempre entendia, também, de que a nossa vida é um caminho para o tribunal. E não é um tribunal qualquer, mas o Juízo de Deus (o catecismo fala de "Juízo Particular", na hora da morte e "Juízo Final", no fim dos tempos). Um dia vamos ter que prestar conta da nossa vida. Uma das coisas que precisa ser resolvida pelo caminho é a reconciliação. Por muitos anos, confesso, a questão de "adversários" era para mim apenas uma teoria. Só recentemente tive a experiência, bastante dolorosa, de maldade humana, crueldade, frieza etc. Mas, quase ao mesmo tempo (um pouco antes), tinha compreendido que prováveis adversários não são apenas os "outros". Santa Catarina que, em sua experiência mística, escutava e anotava a voz de Deus (o que podemos acompanhar, por exemplo, no livro "O Diálogo"), escreveu: Cada um é o primeiro próximo de si mesmo (2.6). Por analogia, digo que o primeiro adversário meu, posso ser eu mesmo. E, como diz Jesus acima, devo reconciliar-me comigo mesmo, enquanto estou caminhando para o tribunal. Foi, aliás, este o nome do meu blog anterior: "Reconciliado consigo mesmo". Naquela época, há alguns anos, foi a mais profunda experiência da minha vida e a fonte de grande alegria. Ou melhor: uma consolação. Depois de décadas de uma feia, infundada e exaustiva briga interior, aceitei a minha identidade homossexual. Primeiro, admiti essa possibilidade, depois aceitei e, finalmente, amei. Acredito que o mesmo caminho deve ser percorrido no processo de reconciliação com qualquer pessoa: admitir, aceitar, amar. Digo mais: enquanto não houver a reconciliação consigo mesmo, dificilmente acontecerá uma autêntica reconciliação com outra pessoa. A propósito da foto ilustrativa desta postagem, lembrei das palavras de São Paulo: Mas, se vos mordeis e vos devorais, vede que não acabeis por vos destruirdes uns aos outros. (Ga 5, 15). No "nosso caso", podemos tranquilamente omitir o final da frase ("uns aos outros"), sem alterar a essência da mensagem.

17 de março de 2011

quanto mais

Ao falar sobre a oração (Mt 7, 7-12), Jesus faz (novamente) a referência à experiência humana de relacionamentos (escrevi sobre isso recentemente aqui). Para compreendermos mais um pouco o amor de Deus, Jesus nos remete à pessoa(-s) mais amada(-s) a quem somos capazes de dar tudo, porque é o amor que nos impulsiona. E essa reflexão deve ser bastante concreta, profunda e prolongada. A recordação das emoções que tivemos (ou temos) ao estar com a pessoa amada e ao tentar fazê-la feliz, ajuda-nos a entrar, digamos, no coração de Deus. O termo-chave é a expressão usada por Jesus: "quanto mais": ...quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedirem! (v. 11). Se nos lembrarmos de que somos a imagem e semelhança de Deus, vamos entender que as nossas emoções e a nossa dedicação, são um pequeno reflexo da riqueza infinita do amor de Deus. É como uma gota perante o oceano. Com esta constatação a nossa oração fica diferente: mais confiante, mais alegre, mais bem-vinda. Poir isso, repito, é tão preciosa a nossa experiência de amar. Defendo a convicção de que as pessoas homossexuais não precisam pensar que estejam privadas de uma verdadeira vida de oração (ou vida espiritual, em geral). Podem até viver experiências mais profundas de intimidade com Deus, graças a sua natural (!) predisposição e sensibilidade.
Outra observação: no final da passagem do Evangelho de hoje, Jesus parece mudar de assunto. Pronuncia a famosa "regra de ouro": Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. (v. 12). Evidentemente, a frase "funciona" perfeitamente sozinha, mas se for lida (como deve) no contexto das afirmações anteriores (sobre a oração), pode ganhar o sentido mais pleno (e dar este sentido a tudo que já foi dito). O que é que eu quero que o "Outro" (Deus) me faça? Quero que me escute e atenda. Por isso, logicamente, eu devo escutá-lo e atendê-lo também. E isso não tem nada a ver com aquela expressão "toma-lá-dá-cá". É, simplesmente, uma maneira de retirar os obstáculos do caminho pelo qual nos chegam as bênçãos e as graças do Senhor.

exclusivo (brincadeira)

O centro da cidade, por volta das 07:30, pareceu-me hoje um pouco vazio. Será algum feriado ou é o medo da nuvem radioativa do Japão? Até metrô, normalmente invadido pela avalanche humana na Central do Brasil, dava impressão diferente. Aí começaram as minhas divagações... Pensei a respeito daquela ideia brilhante sobre a existência de vagões exclusivos (em certos horários) para mulheres. Nada contra (embora eu questione a multiplicação de algumas leis que complicam a vida). Algumas vezes acabei sendo empurrado exatamente para dentro de um vagão desses (ou entrei por simples falta de atenção e não por motivos ideológicos) e constatei que nem sempre esta exclusividade é tão exclusiva assim. Hoje, entretanto, fiquei pensando sobre o significado da palavra "exclusivo". O dicionário de língua portuguesa diz o seguinte: adj. Que exclui, que cabe por privilégio ou prerrogativa; privativo, restrito, especial: direito exclusivo, uso exclusivo. / Que repele tudo aquilo que é estranho: amor exclusivo. Tudo bem: o vagão exclusivo para mulheres "repele" homens, mas será que exclui também outros vagões? Dá para acompanhar? Será que o fato de mulheres terem o seu espaço no metrô significa, também, que deveriam usar exclusivamente esses vagões e não outros? (Entenda-se o tom de brincadeira). Nunca me aconteceu o "acidente" de ser expulso de um vagão para mulheres, mas se isso ocorresse, será que eu teria o direito de pedir que as mulheres se retirassem de todos os vagões "comuns"? Alguém, daqui a pouco, vai me chamar de retardado (porque "comum" significa "para todos")! Mas, se aqueles benditos vagões existem para o uso exclusivo das mulheres, por que elas não os usam exclusivamente? Alguém já imaginou a maior parte da composição de metrô repleta só de homens? E se todos fossem charmosos? E com uma só passagem você (eu?!) ficaria o dia inteiro, andando de um lado para o outro!

Estou delirando...

15 de março de 2011

Pai nosso

Jesus retoma um dos assuntos com os quais tinha iniciado este tempo da Quaresma: a oração. Outros são: a esmola e o jejum (veja esta reflexão). O Evangelho de hoje (Mt 6, 7-15) traz a oração "Pai nosso", sobre qual ja foi dito e escrito tanto, que vou me limitar apenas a um comentário, para não ser um "repetidor de ideias" (usando o termo de Augusto Cury).
Insisto aqui no assunto de estrago que faz a falta de uma séria e estruturada Pastoral para Homossexuais, ou - pelo menos - de um tratamento mais digno das pessoas com esta identidade (ou condição) dentro da Igreja. Geralmente funciona isso da segiunte maneira (ainda que não necessariamente com estas palavras): "Você está todo errado, por isso nem vou lhe dar atenção". E se, neste mesmo momeno, perguntarmos ao autor desta resposta tão caridosa e cristã, se o 'Pai nosso' é também o Pai dos homossexuais? - com certeza não vai querer se envolver nessa conversa. As consequências são devastadoras. Um(-a) homossexual - estou falando daqueles que ainda conseguem buscar uma vida espiritual - carrega "nas costas" o peso de culpa, muitas vezes só pelo fato de sentir algo diferente e, exatamente por isso, não se sente digno(-a) de falar com Deus. Abandona a oração e cai, ainda mais, no "abismo" de abandono e solidão. Tenho certeza absoluta de que deveria acontecer, justamente, o contrário. Se o motivo de eu não falar com Deus é algum tipo de "vergonha", significa que estou transferindo para Deus as características puramente humanas. Eu posso sentir algum constrangimento perante as pessoas e não por estar errado, mas por conhecer (e experimentar na pele) a incompreensão da mente preconceituosa. Uma das atitudes movidas pela vergonha é a tentativa de se esconder ou de esconder "aquilo". E isso não funciona com Deus. Enquanto as pessoas se perguntam: "Será que ele é?", Deus sabe perfeitamente quem sou. E mais: em Deus o saber e o amar são a mesma coisa. Por isso não devo sentir nenhum constrangimento (a não ser aquele que vem da grandeza do amor divino), ao me aproximar de Deus. Até mesmo quando a minha consciência (e não as pessoas) me diz que pequei, não devo fugir de Deus, mas chegar perto e dizer: "Como o Senhor já sabe, pequei...". Santa Teresa d'Àvila deixou um testemunho muito interessante a respeito disso: Comecei (...) a meter-me tanto em ocasiões de pecado muito grandes e a andar tão estragada minha alma em muitas vaidades, que eu já tinha vergonha de voltar a me aproximar de Deus em tão particular amizade como é a conversa da oração. (...) Esse foi o mais terrível engano que o demônio me podia fazer sob o véu de parecer humildade, pois comecei a temer ter oração, por ver-me tão perdida. ("Livro da vida", cap. 7, 1)
Lembro-me de uma pregação, na qual o padre estava contando sobre o ancião que foi procurado por um jovem. "Diga-me, o que eu faço para ser santo?" - prguntou jovem. "Pega um pedaço de papel e escreve a oração 'Pai nosso'. Depois medita sobre estas palavras todos os dias. Isso é suficiente" - respondeu o ancião.
Quero propor aos (eventuais) Leitores este exercício, pelo menos por uma semana. Tenho certeza que os frutos não serão poucos nem pequenos.