ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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12 de março de 2011

O amor é essencial

Lida nesta "sexta-feira depois das cinzas" passagem do Evangelho (Mt 9, 14-15) contém apenas dois versículos, mas revela algo muito importante: para mostrar os mistérios do Reino de Deus, Jesus faz constantes referências à experiência humana mais profunda e essencial - o amor. Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão. (v. 15)  Vou dizer aqui uma coisa muito simples: se eu não tivesse experimentado o amor (ainda que homossexual) e, também, a perda do "noivo", nunca compreenderia este texto do Evangelho (e tantos outros). Digo mais: não teria como compreender nem Jesus, nem o amor de Deus. Seria para mim apenas uma bela teoria. Louvado seja Deus por ter me concedido a graça de amar e de ser amado. Evidentemente não ponho aqui em dúvida a autenticidade e a profundidade do amor que tenho experimentado com os meus pais, mas tenho certeza que foi o viver um "novo amor" que me ajudou a acolher e a compreender melhor a Palavra e o amor de Deus.

10 de março de 2011

Campanha da Fraternidade [1]

História e motivação (fonte: CNBB):
A Campanha da Fraternidade, idealizada pelos padres da Cáritas Brasileira em 1961, foi realizada no ano seguinte em Natal (Rio Grande do Norte). Este projeto foi lançado, em nível nacional em 1963, sob o impulso do Concílio Vaticano II e realizado pela primeira vez na quaresma de 1964. Os conhecedores do assunto dividem a CF em três etapas: Renovação da Igreja e do cristão (1964-1971), Realidade social do povo e promoção da justiça social (1972-1984) e Situações existenciais do povo brasileiro (desde 1985). A Campanha da Fraternidade é uma atividade ampla de evangelização desenvolvida num determinado tempo (quaresma), para ajudar os cristãos e as pessoas de boa vontade a viverem a fraternidade em compromissos concretos no processo de transformação da sociedade a partir de um problema específico que exige a participação de todos na sua solução. É grande instrumento para desenvolver o espírito quaresmal de conversão, renovação interior e ação comunitária como a verdadeira penitência que Deus quer de nós em preparação da Páscoa.
Meu comentário:
Considero a Campanha da Fraternidade uma iniciativa preciosa. Entre tantos frutos deste trabalho registro aqui a criação da Pastoral para Homossexuais pelo Padre Antônio Transferetti. Ele mesmo conta essa hostória: Em 1995, o tema da Campanha da Fraternidade foi A Fraternidade e os Excluídos. Como homossexuais, travestis e prostitutas são excluídos pela sociedade, resolvi trabalhar com eles. Estudei a homossexualidade para entender mais de perto os problemas que eles enfrentam. Fazíamos reuniões nas quais eles contavam seus problemas e dramas pessoais. Também fazíamos trabalho de orientação sexual e prevenção a doenças sexualmente transmissíveis. (Leia o texto da entrevista aqui). Tenho, entretanto, uma observação a respeito da associação da Campanha com a Quaresma. Para ser mais claro: imagine que você está numa estação de metrô e chega uma composição, curiosamente, com vários vagões quase vazios e apenas um totalmente cheio de passageiros. Qual seria a sua decisão mais lógica? Certamente a de entrar num vagão mais vazio. Tenho a impressão de que a CNBB, ao lançar a Campanha da Fraternidade exatamente no tempo da Quaresma, preferiu "enfiar" o povo no vagão cheio. Com efeito, o conteúdo próprio deste tempo litúrgico, tão rico e profundo, acaba sendo esvaziado. Para mim isso é um resquício inquestionável da funesta influência da TL (teologia da libertação). É uma pena! Há tantos períodos durante o ano que seriam ótimos para concentrar a nossa atenção nos desafios e propósitos da Campanha da Fraternidade. Como resultado, temos aqueles paupérrimos (em conteúdo) textos da Via Sacra e de outros exercícios quaresmais. Cria-se na nossa mente uma convicção errada sobre a finalidade da Quaresma. Encontrei no blog da Diversidade Católica (aqui) uma reflexão que segue um pouco essa ideia [o blog em sí é ótimo e sou um dos seus seguidores"]: (A Quaresma) é um período em que toda a Igreja busca silenciar-se para tirar desse silêncio os frutos de uma reflexão aguda sobre o que cada um de nós pode fazer para melhorar a sua realidade e a dos que estão à sua volta. Eu diria que não é só isso. Há algo mais para refletir. O Papa Bento XVI, no livro-entrevista "Luz do mundo", fala sobre isso: O nosso sermão, o nosso anúncio é predominantemente orientado para a organização do mundo melhor, enquanto que o mundo verdadeiramente melhor já quase não é mencionado. Aqui temos de fazer um exame de consciência. Naturalmente que se tenta ir ao encontro dos ouvintes, dizer-lhes o que está no horizonte. Mas a nossa missão é ao mesmo tempo abrir esse horizonte, ampliar e olhar para além disso. Estas coisas são conceitos difíceis para os homens de hoje. Parecem-lhes irreais. Querem, em vez disso, respostas concretas para o agora, para o sofrimento do dia-a-dia. Mas essas respostas ficam incompletas se não sentirem e reconhecerem intimamente que vão para além desta vida materialista, que existe um juízo, que existem a misericórdia e a eternidade. Nessa medida, temos também de encontrar novas palavras e novos meios para possibilitar ao homem a ruptura com a finitude. (p. 170)
Voltando ao assunto, espero celebrar um dia a Campanha da Fraternidade com o tema "Fraternidade e pessoas homossexuais". O lema pode ser tirado, por exemplo, da 1 Carta de São João: "O amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus" (1Jo 4, 7)

O tripé

Com o rito da imposição das cinzas durante a Santa Missa, começou, nesta quarta-feira, a Quaresma. O texto do Evangelho (Mt 6, 1-6. 16-18) apresenta o "tripé" da vida cristã: a oração, a esmola e o jejum. É interessante notar que Jesus diz: "quando deres esmola", "quando orardes" e "quando jejuardes" (cf. Mt 6, 2. 5. 16). Provavelmente hoje o Senhor diria: "Dá esmola e, quando deres esmola...", "Orai e quando orardes...", "Jejuai e quando jejuardes...", pois na nossa civilização moderna tudo isso jão não é tão óbvio assim. Vejo estes três termos como verdadeiras palavras-chaves que abrem as portas para realidades muito mais ricas e profundas do que o seu significado apenas literal. Trata-se de três encontros ou, melhor, de três tipos de encontros que resumem toda a existência cristã. A oração, evidentemente, indica todo tipo de nosso encontro com Deus. A esmola é o termo (entre os três em questão), talvez, mais "obscuro" que pode levar a interpretações equivocadas, se ficarmos aprisionados apenas no seu significado literal e em suas expressões práticas ao longo da história. Na verdade, trata-se de todo tipo de nosso encontro com o próximo. Quem sabe, a palavra "oferta" ou "oferecimento", fique melhor nesta interpretação. Por fim, o jejum (também com um significado literal bastante reduzido), indica, de fato, o encontro consigo mesmo. Vários mestres de espiritualidade falam de "autoconhecimento" como a peça indispensável para uma vida interior. Voltando à comparação com a chave e a porta, é como se você abrisse cada uma destas três portas e, atrás delas, descobrisse uma enorme quantidade de outras portas com diversos espaços a serem explorados. Enquanto a oração, a esmola e o jejum são as chaves para estas realidades e experiências, é o amor que deve mover a pessoa que queira entrar. Assim, a oração consiste no amor a (e de) Deus, a "esmola" acontece no amor a (e de) pessoas e o jejum contêm o verdadeiro amor a si próprio, sem ser confundido com o egoísmo ou egocentismo. Podemos também dizer de "convivência" com Deus, com o próximo e cnsigo mesmo. Outro ainda conteúdo destes três encontros, destacado especialmente no tempo da Quaresma, é a reconciliação: com Deus, com as pessoas e consigo mesmo. Não preciso dizer que cada uma destas experiências é um desafio bem grande, mas é por isso que procuramos vários exercícios práticos para crescer e amadurecer nestas três dimensões da vida. Vale a pena tentar...

8 de março de 2011

Sagrada Humanidade

O carnaval está chegando ao fim e, para nós - católicos, começa amanhã (Quarta-feira de Cinzas) um período importante e profundo: a Quaresma. Por mais que pareça, não é um tempo triste, embora fale da cruz e da morte de Cristo e, também, insista na necessidade de conversão e penitência. Em vez de algum tipo de tristeza, a Quaresma ajuda a redescobrir a essência da verdadeira alegria: a salvação. É muito comum os cristãos estabelecerem alguns propósitos (vale aqui a comparação com os exercícios físicos, embora trate-se principalmente da alma). A finalidade da Quaresma é (digamos: a curto prazo) a preparação para a celebração da Páscoa da Ressurreição do Senhor Jesus. A longo prazo, estes quarenta dias ajudam-nos a compreender a necessidade de conversão contínua e de um aperfeiçoamento das qualidades pessoais do cristão (isto é, das virtudes, entre as quais destaca-se o amor). A Quaresma é, por excelência, o tempo de oração mais intensa e mais profunda, ou seja, uma formação espiritual para desenvolver cada vez mais a vida de oração (pois a oração em si não termina com o fim da Quaresma).
Ao ler, recentemente, o "Livro da vida" de Santa Teresa d'Ávila (Tradução de Marcelo Musa Cavallari; Editora Penguin Classics Companhia das Letras, São Paulo 2010), encontrei (entre tantas outras coisas belíssimas) uma excelenta dica para o tempo da Quaresma. Santa Teresa aconselha meditar (com o uso criativo da própria imaginação) a Sagrada Humanidade de Jesus. Transcrevo aqui dois trechos do texto:
Pode-se imaginar-se diante de Cristo e acostumar-se e enamorar-se muito de sua sagrada Humanidade e trazer-lhe sempre consigo e falar com Ele, pedir-lhe por suas necessidades e queixar-se de seus trabalhos, alegrar-se com Ele em suas alegrias e não esquecê-lo por causa delas. Sem procurar orações compostas, mas sim palavras conformes a seus desejos e necessidades. É uma excelente maneira de avançar e muito rápida. E quem trabalhar para trazer consigo essa preciosa companhia e se aproveitar muito dela e de verdade tomar amor a esse Senhor a quem tanto devemos, eu o considero bem avançado. [p. 115]
Teve início em mim muito maior amor e confiança nesse Senhor ao vê-lo como alguém com quem tinha conversa tão frequente. Via que, ainda que fosse Deus, era Homem, que não se assusta com as fraquezas dos homens, que entende nossa composição miserável, sujeita a muitas quedas por causa do primeiro pecado que Ele veio para reparar. Posso conversar como com um amigo, ainda que seja o Senhor, porque percebo que não é como os que aqui temos por senhores, que põem todo o senhorio em autoridades postiças: tem que ter hora para falar com eles, e pessoas designadas para falar com eles. [p. 353]
Uma das práticas típicas da Quaresma é a "Via Sacra". À semelhança das meditações da "Novena" e da "Oitava" de Natal, em breve irei postar aqui algumas reflexões de "Via Sacra". Como tudo neste blog, serão os textos elaborados do ponto de vista de um homossexual.

6 de março de 2011

genética e homossexualidade

Já escrevi aqui algumas vezes sobre a principal dificuldade enfrentada num (eventual) diálogo sobre a homossexualidade. Quando leio os argumentos, tanto dos "simpatizantes" quanto "antipatizantes", tenho a impressão de que, ao falar, estamos usando idiomas diferentes (ainda que tenha sido a mesma língua portuguesa). Muitas vezes, altera-se (propositalmente) o conteúdo das afirmações de opositores, para "ganhar pontos" em sua própria argumentação. É evidente que, desta maneira, o diálogo torna-se ainda mais difícil (ou praticamente impossível). Acrescentemos aqui toda aquela carga emocional e já temos pronta uma briga sem fim. Como exemplo, trago aqui uma declaração de José Manuel Giménez Amaya, professor de Anatomia e Embriologia na Universidade Autônoma de Madri e diretor do grupo de pesquisa "Ciência, razão e fé" da Universidade de Navarra. O texto completo encontra-se no portal católico de notícias, Zenit (aqui). O professor Amaya diz: "Há condicionamentos genéticos do homem que têm relação com seu comportamento, mas não se pode dizer que são absolutamente determinantes. Infelizmente, muitas vezes, quando se fala sobre os chamados genes que regulam o nosso comportamento, por exemplo, o ‘gene da conduta sexual', pretende-se dar a entender que tudo no homem é determinado pelo genoma. E neste caso, é importante notar, portanto, que, do ponto de vista científico, esta tese não pode ser sustentada." A pergunta que surge naturalmente é: como é que um professor universitário tira conclusões tão precipitadas? Como ele sabe o que, de fato "pretende-se dar a entender". Na linguagem popular, isso se chama "colocar palavras na boca do outro". Quem pretende aqui alguma coisa é o próprio Amaya. Se a frase em questão tivesse o termo "muito" no lugar de "tudo", não seria tão tendenciosa. Desta maneira as coisas ficariam mais objetivas. Vejamos: Quando se fala sobre os chamados genes que regulam o nosso comportamento, por exemplo, o ‘gene da conduta sexual', pretende-se dar a entender que muito no homem é determinado pelo genoma. Pretende-se, sim, professor. Todos os cientistas, sem "interesses partidários" (homo- ou heterossexuais), continuam as pesquisas, em mais diversas áreas de conhecimento do ser humano, procurando (entre muitas outras coisas) aproximar-se de uma explicação mais ampla das origens de homossexualidade. Acontece que, quando um cientista é mais cientista e menos ativista, os resultados de seu trabalho merecem crédito. O que se sabe realmente é que para formar (por exemplo) uma identidade sexual, contribuem muitos fatores, sem excluir, evidentemente, o da genética. Li recentemente uma matéria de Dr. Dráuzio Warella (aqui), médico oncologista e escritor brasileiro, conhecido por popularizar a medicina através de programas de rádio e TV. Esta é a sua opinião:
Existe gente que acha que os homossexuais já nascem assim. Outros, ao contrário, dizem que a conjunção do ambiente social com a figura dominadora do genitor do sexo oposto é que são decisivos na expressão da homossexualidade masculina ou feminina. (...) Sinceramente, acho essa discussão antiquada. Tão inútil insistirmos nela como discutir se a música que escutamos ao longe vem do piano ou do pianista. A propriedade mais importante do sistema nervoso central é sua plasticidade. De nossos pais herdamos o formato da rede de neurônios que trouxemos ao mundo. No decorrer da vida, entretanto, os sucessivos impactos do ambiente provocaram tamanha alteração plástica na arquitetura dessa rede primitiva que ela se tornou absolutamente irreconhecível e original. Cada indivíduo é um experimento único da natureza porque resulta da interação entre uma arquitetura de circuitos neuronais geneticamente herdada e a experiência de vida. (...) Teoricamente, cada um de nós tem discernimento para escolher o comportamento pessoal mais adequado socialmente, mas não há quem consiga esconder de si próprio suas preferências sexuais. Até onde a memória alcança, sempre existiram maiorias de mulheres e homens heterossexuais e uma minoria de homossexuais. O espectro da sexualidade humana é amplo e de alta complexidade, no entanto; vai dos heterossexuais empedernidos aos que não têm o mínimo interesse pelo sexo oposto. Entre os dois extremos, em gradações variadas entre a hetero e a homossexualidade, oscilam os menos ortodoxos. Como o presente não nos faz crer que essa ordem natural vá se modificar, por que é tão difícil aceitarmos a riqueza da biodiversidade sexual de nossa espécie? Por que insistirmos no preconceito contra um fato biológico inerente à condição humana? Em contraposição ao comportamento adotado em sociedade, a sexualidade humana não é questão de opção individual, como muitos gostariam que fosse, ela simplesmente se impõe a cada um de nós. Simplesmente, é!

5 de março de 2011

quanta bobagem!

Encontrei hoje um blog, cujo nome pode deixar perplexa qualquer pessoa razoavelmente sensata: "Como diexar de ser homossexual" (se quiser, confira aqui). Eis a pequena amostra de uma "lógica", no mínimo, curiosa: A pergunta a ser feita não é “de onde vem a homossexualidade” mas sim, “de onde vem o desejo homossexual”.homossexualidade e desejo homossexual são duas situações distintas e desvinculadas. Sim, isso mesmo! Desvinculadas! Isso por que alguém pode sentir desejo homossexual e não ser homossexual e outro alguém pode ser homossexual sem sentir desejo homossexual. Homossexualidade é um comportamento! Desejo homossexual é um afeto; um “sentimento”! Vejamos com exemplos: um homem que quer ser padre católico, mas ele sente desejo sexual por homens. Ele sabe que a religião dele proíbe relacionamento sexual para pessoas que queiram exercer esta profissão (padre). Além disso, o Catolicismo, que é uma religião livremente inspirada na Bíblia, diz que o homossexualismo é pecado. Desta forma, este homem que quer ser padre católico, mas sente desejo homossexual, escolheu não praticar sexo com homens tendo em vista a sua prioridade, que é ser padre católico. Este homem, portanto, NÃO É HOMOSSEXUAL, pois ele não quer praticar sexo com homens, por causa daquilo que é mais valoroso e importante para ele. O fato de ele SENTIR algo não é suficiente para fazê-lo PRATICAR este algo. Este homem, portanto, não é homossexual por que escolheu não se comportar homossexualmente.
De acordo com essa argumentação não seria possível comer um peixe assado (ou frito se preferir). O que faz o peixe ser um peixe é, entre outras coisas, o fato de viver na água. Logicamente, o peixe tirado do seu ambiente natural, deixa de ser peixe. Ou, então, o homem que, por natureza, movimenta-se andando (eventualmente, correndo ou engatinhando). Quando esse mesmo homem decide viajar de avião, certamente comete algo contra natureza e deixa... de ser homem... E isso mesmo? QUANTA BOBAGEM...

3 de março de 2011

três ideias

No quinto capítulo do livro “Luz do mundo” (entrevista do Papa Bento XVI concedida a Peter Seewal), encontrei três ideias interessantes que merecem o aprofundamento que, por sua vez, resolveria certa contradição existente entre elas. Nesta parte da conversa, intitulada “A ditadura do relativismo”, o Papa fala sobre o conceito de verdade e uma forte e perigosa corrente de pensamento filosófico. As frases finais deste primeiro trecho espantam positivamente e parecem trazer uma nova esperança para todas as minorias (por que não, também, na dimensão da sexualidade?). É notório o fato de o conceito de verdade se encontrar sob suspeita. De fato, é verdade que ele tem vindo a ser frequentemente mal utilizado. Em nome da verdade, atingiu-se intolerância e crueldade. Por esta razão teme-se que alguém diga “esta é a verdade”, ou então “eu sou detentor da verdade”. Nós nunca temos a verdade, no melhor dos casos, ela tem-nos a nós. (...) Uma grande parte dos filósofos atuais chega a afirmar que o homem não é capaz da verdade. Mas, segundo esta perspectiva, ele também não teria capacidade para o ethos. Então, não teríamos critérios. Só teríamos de ter em conta a forma como nos organizamos de uma maneira geral, e a opinião da maioria é que serviria como único critério válido. Quão destrutivas conseguem ser as maiorias é algo que a história já nos mostrou bastas vezes, em sistemas como o nazismo ou o marxismo, que também foram particularmente contra a verdade. (p. 57-58)
Em seguida, vem um pensamento de Bento XVI que, sem dúvida, pode nos deixar desanimados: Por exemplo, quando se quer, em nome da não-discriminação, obrigar a Igreja Católica a mudar a sua opinião relativamente à homossexualidade ou à ordenação de mulheres, isso quer dizer que ela já não poderá viver a sua própria identidade, e que, em vez disso, há uma religião negativa abstrata que se transforma em critério tirânico e que todos devemos seguir. (p. 59) Surgem na memória vários personagens e fenômenos históricos que enfrentavam forte oposição da Igreja que, por muito tempo, não queria mudar a sua opinião para “viver a sua própria identidade”. Entre os personagens podemos mencionar Giordano Bruno, Galileu e tantos outros e, entre “fenômenos”, a situação dos escravos, das mulheres, dos índios, dos suicidas. Se tivermos como fazer uma comparação real, ficaríamos surpresos em ver como mudou, de fato, a “opinião da Igreja”.
Finalmente, vem um pensamento cheio de esperança (por isso escrevi que os três pontos de vista, num só capítulo do livro, se não forem aprofundados e desenvolvidos, excluem-se mutuamente). (...) há novos despertares católicos, uma dinâmica de movimentos novos (...). São jovens que, animados pelo entusiasmo de terem reconhecido em Cristo o Filho de Deus, querem levá-lo ao mundo. (...) Aí estão a surgir continuamente movimentos novos. Trata-se, portanto, da força de um recomeço e de uma nova vida. (...) É uma força da vida que gera um entusiasmo sempre renovado e que, depois, apresenta novos caminhos. Menos evidente, mas inegável, é o surgimento aqui, no Ocidente, de novas iniciativas católicas que não resultam da imposição de uma estrutura, de uma burocracia. A burocracia está gasta e cansada. Essas iniciativas vêm de dentro para fora, nascem da alegria dos jovens. O cristianismo assume talvez um outro rosto, bem como uma outra forma cultural. Não detém a posição de comando na opinião mundial – aí mandam outros. Ele é, porém, a força da vida sem a qual todo o resto não subsistiria. Motivo pelo qual, por aquilo que me é dado ver e viver, sou otimista quanto ao fato de o cristianismo estar perante uma nova dinâmica. (p. 64) Um dos “novos movimentos”, dentro da Igreja Católica, é, exatamente, o dos homossexuais católicos (ainda que não reconhecido plenamente por ela, não deixa de ser um “novo despertar católico”). Possui o seu entusiasmo a sua dinâmica (apesar de toda timidez), é a “força de um recomeço e de uma vida nova”, “vem de dentro para fora” fazendo com que o “cristianismo assuma um outro rosto e uma outra forma cultural” e “não resulta da imposição de uma estrutura”. Estou especialmente grato ao Papa pela preciosa orientação: para ser bem sucedido, o movimento dos gays católicos (e de outros grupos parecidos) tem que ter, como principais protagonistas, os jovens. E nós (os jovens por mais tempo), precisamos investir no acolhimento e na formação da juventude, bem como em várias formas de incentivá-la para tal movimento.