ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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5 de março de 2011

quanta bobagem!

Encontrei hoje um blog, cujo nome pode deixar perplexa qualquer pessoa razoavelmente sensata: "Como diexar de ser homossexual" (se quiser, confira aqui). Eis a pequena amostra de uma "lógica", no mínimo, curiosa: A pergunta a ser feita não é “de onde vem a homossexualidade” mas sim, “de onde vem o desejo homossexual”.homossexualidade e desejo homossexual são duas situações distintas e desvinculadas. Sim, isso mesmo! Desvinculadas! Isso por que alguém pode sentir desejo homossexual e não ser homossexual e outro alguém pode ser homossexual sem sentir desejo homossexual. Homossexualidade é um comportamento! Desejo homossexual é um afeto; um “sentimento”! Vejamos com exemplos: um homem que quer ser padre católico, mas ele sente desejo sexual por homens. Ele sabe que a religião dele proíbe relacionamento sexual para pessoas que queiram exercer esta profissão (padre). Além disso, o Catolicismo, que é uma religião livremente inspirada na Bíblia, diz que o homossexualismo é pecado. Desta forma, este homem que quer ser padre católico, mas sente desejo homossexual, escolheu não praticar sexo com homens tendo em vista a sua prioridade, que é ser padre católico. Este homem, portanto, NÃO É HOMOSSEXUAL, pois ele não quer praticar sexo com homens, por causa daquilo que é mais valoroso e importante para ele. O fato de ele SENTIR algo não é suficiente para fazê-lo PRATICAR este algo. Este homem, portanto, não é homossexual por que escolheu não se comportar homossexualmente.
De acordo com essa argumentação não seria possível comer um peixe assado (ou frito se preferir). O que faz o peixe ser um peixe é, entre outras coisas, o fato de viver na água. Logicamente, o peixe tirado do seu ambiente natural, deixa de ser peixe. Ou, então, o homem que, por natureza, movimenta-se andando (eventualmente, correndo ou engatinhando). Quando esse mesmo homem decide viajar de avião, certamente comete algo contra natureza e deixa... de ser homem... E isso mesmo? QUANTA BOBAGEM...

3 de março de 2011

três ideias

No quinto capítulo do livro “Luz do mundo” (entrevista do Papa Bento XVI concedida a Peter Seewal), encontrei três ideias interessantes que merecem o aprofundamento que, por sua vez, resolveria certa contradição existente entre elas. Nesta parte da conversa, intitulada “A ditadura do relativismo”, o Papa fala sobre o conceito de verdade e uma forte e perigosa corrente de pensamento filosófico. As frases finais deste primeiro trecho espantam positivamente e parecem trazer uma nova esperança para todas as minorias (por que não, também, na dimensão da sexualidade?). É notório o fato de o conceito de verdade se encontrar sob suspeita. De fato, é verdade que ele tem vindo a ser frequentemente mal utilizado. Em nome da verdade, atingiu-se intolerância e crueldade. Por esta razão teme-se que alguém diga “esta é a verdade”, ou então “eu sou detentor da verdade”. Nós nunca temos a verdade, no melhor dos casos, ela tem-nos a nós. (...) Uma grande parte dos filósofos atuais chega a afirmar que o homem não é capaz da verdade. Mas, segundo esta perspectiva, ele também não teria capacidade para o ethos. Então, não teríamos critérios. Só teríamos de ter em conta a forma como nos organizamos de uma maneira geral, e a opinião da maioria é que serviria como único critério válido. Quão destrutivas conseguem ser as maiorias é algo que a história já nos mostrou bastas vezes, em sistemas como o nazismo ou o marxismo, que também foram particularmente contra a verdade. (p. 57-58)
Em seguida, vem um pensamento de Bento XVI que, sem dúvida, pode nos deixar desanimados: Por exemplo, quando se quer, em nome da não-discriminação, obrigar a Igreja Católica a mudar a sua opinião relativamente à homossexualidade ou à ordenação de mulheres, isso quer dizer que ela já não poderá viver a sua própria identidade, e que, em vez disso, há uma religião negativa abstrata que se transforma em critério tirânico e que todos devemos seguir. (p. 59) Surgem na memória vários personagens e fenômenos históricos que enfrentavam forte oposição da Igreja que, por muito tempo, não queria mudar a sua opinião para “viver a sua própria identidade”. Entre os personagens podemos mencionar Giordano Bruno, Galileu e tantos outros e, entre “fenômenos”, a situação dos escravos, das mulheres, dos índios, dos suicidas. Se tivermos como fazer uma comparação real, ficaríamos surpresos em ver como mudou, de fato, a “opinião da Igreja”.
Finalmente, vem um pensamento cheio de esperança (por isso escrevi que os três pontos de vista, num só capítulo do livro, se não forem aprofundados e desenvolvidos, excluem-se mutuamente). (...) há novos despertares católicos, uma dinâmica de movimentos novos (...). São jovens que, animados pelo entusiasmo de terem reconhecido em Cristo o Filho de Deus, querem levá-lo ao mundo. (...) Aí estão a surgir continuamente movimentos novos. Trata-se, portanto, da força de um recomeço e de uma nova vida. (...) É uma força da vida que gera um entusiasmo sempre renovado e que, depois, apresenta novos caminhos. Menos evidente, mas inegável, é o surgimento aqui, no Ocidente, de novas iniciativas católicas que não resultam da imposição de uma estrutura, de uma burocracia. A burocracia está gasta e cansada. Essas iniciativas vêm de dentro para fora, nascem da alegria dos jovens. O cristianismo assume talvez um outro rosto, bem como uma outra forma cultural. Não detém a posição de comando na opinião mundial – aí mandam outros. Ele é, porém, a força da vida sem a qual todo o resto não subsistiria. Motivo pelo qual, por aquilo que me é dado ver e viver, sou otimista quanto ao fato de o cristianismo estar perante uma nova dinâmica. (p. 64) Um dos “novos movimentos”, dentro da Igreja Católica, é, exatamente, o dos homossexuais católicos (ainda que não reconhecido plenamente por ela, não deixa de ser um “novo despertar católico”). Possui o seu entusiasmo a sua dinâmica (apesar de toda timidez), é a “força de um recomeço e de uma vida nova”, “vem de dentro para fora” fazendo com que o “cristianismo assuma um outro rosto e uma outra forma cultural” e “não resulta da imposição de uma estrutura”. Estou especialmente grato ao Papa pela preciosa orientação: para ser bem sucedido, o movimento dos gays católicos (e de outros grupos parecidos) tem que ter, como principais protagonistas, os jovens. E nós (os jovens por mais tempo), precisamos investir no acolhimento e na formação da juventude, bem como em várias formas de incentivá-la para tal movimento.

24 de fevereiro de 2011

moderna torre de Babel

A história bíblica dos ambiciosos construtores de uma torre é bastante conhecida (confira em Gn 11, 1-9). Quase no final do texto Deus declara: Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro. (Gn 11, 7). Muitos teólogos apontam o dia de Pentecostes como o início da restauração de todas as coisas em Cristo (contrapondo, por assim dizer, o Pentecostes a Babel). Com efeito, o derramamento do Espírito Santo, é o fruto da redenção realizada por Cristo em sua paixão, morte e ressurreição. Atos dos Apóstolos descrevem um dos sinais da ação do Paráclito: "começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem" (At 2, 4), causando espanto de todos que ali se encontravam naquela ocasião. Pois bem, estou observando, há muito tempo, um fenômeno não menos espantoso e muito desanimador. Digo desanimador, porque a coisa não só carece de solução, mas ainda parece piorar cada vez mais. É a nova torre de Babel, é o retrocesso de Pentecostes. Acredito que tenham contribuído para esta confusão vários fatores. Primeiro: observo um verdadeiro dilúvio de ideias e palavras que, também graças à rapidez e facilidade de comunicação, conseguem nos alcançar, cercar e afogar. Outra coisa, à qual o Papa Bento XVI chamou atenção em sua primeira encíclica, é o problema com o significado de palavras. O documento papal, dedicado ao amor (divino e humano), traz logo no início a seguinte observação: O amor de Deus por nós é questão fundamental para a vida e coloca questões decisivas sobre quem é Deus e quem somos nós. A tal propósito, o primeiro obstáculo que encontramos é um problema de linguagem. O termo « amor » tornou-se hoje uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, à qual associamos significados completamente diferentes. ("Deus caritas est, n. 2; leia na íntegra aqui). O mesmo acontece com muitos outros termos (sobretudo com os mais profundos e importantes). Finalmente, como terceiro, vejo o grave problema de falta de atenção, proveniente de cada vez mais baixo nível de cultura pessoal. Acontece uma triste banalização de tudo e de todos. Na prática, falamos (e escrevemos) sem entender bem as palavras, escutamos (lemos) sem prestar devida atenção àquele que fala (escreve) e àquilo que está sendo dito (escrito). Tudo se torna banal, sem importância e, porque já estão chegando novos conteúdos (tratados de maneira igualmente superficial), o que foi declarado há cinco minutos, cai no abismo de esquecimento. É, provavelmente, um delírio da minha mente cansada e decepcionada, mas sinto-me profundamente incomodado com tudo isso. Não tenho vontade (nem espaço) para citar todos os exemplos mais recentes, por isso vou me limitar a apenas um. Já fiz, neste blog, alguns comentários sobre o livro "Luz do mundo" (entrevista de Peter Seewald com o Papa Bento XVI). Finalmente comprei (ontem) este livro. A primeira decepção foi o fato de ser uma edição portuguesa, o que não facilita a keitura aqui, no Brasil (adoro Portugal, amo os portugueses, tenho grandes amigos de lá, inclusive blogueiros!). Mesmo com o acordo ortográfico (entende-se: a aproximação de várias versões do mesmo idioma), há diferenças consideráveis que atrapalham um pouco. Mas não era sobre isso que queria dizer. Quem comete os delitos da "nova torre de Babel" é o jornalista Peter Seewald. Eu sei que conversar com o Papa, ainda que este seja um velho amigo, pode deixar qualquer um meio tonto (embora o próprio Seewald constate o contrário: "Ora, com Bento XVI, ninguém precisa tremer"; p. 11). Entretanto - pelo amor de Deus e pelo respeito ao interlocutor e aos leitores - não precisava banalizar tanto as coisas. É óbvio, também de ponto de vista profissional, que para cada entrevista precisa se preparar! Primeira asneira (como dizem os portugueses) está logo na introdução. Seewald, em pose de um pavão, escreve: "Nunca antes na história da Igreja um Pontífice tenha dialogado sob a forma de uma entrevista pessoal e directa." (p. 7). Não precisa ser um vaticanólogo (vaticanista), para saber que, durnate o pontificado de João Paulo II, tal evento (entrevista) aconteceu, pelo menos, três vezes, resultando com os livros: "Não tenham medo" (entrevista com jornalista e escritor francês André Frossard em 1983), "Cruzando o limiar da esperança" (entrevista com o esctitor italiano Vittorio Messori em 1994) e "Memória e identidade" (colóquios com os padres poloneses, professores de filosofia: Józef Tischner e Krzysztof Michalski, editados pouco antes da morte do Papa). Confesso que estou apenas no início de letura do livro "Luz do mundo", mas pelo que já li, espero encontrar mais provas da falta de preparação profissional de Peter Seewald. No primeiro capítulo, ao fazer uma das perguntas ao Papa, o jornalista cita uma "frase de Santo Agostinho". A resposta de Bento XVI diz tudo: "Essa expressão não é bem assim e não foi formulada por Santo Agostinho, mas podemos deixar isso aqui em aberto" (p. 19). Imagino aquele discreto sorriso do Papa, como se estivesse pensando: "Vá com calma, garoto! Tentarei explicar tudo mais devagar..." Uma formiguinha tentando conversar com o gigante. Lamentável, Peter! Fala sério...

o que cortar?

A passagem do Evangelho de hoje (Mc 9, 41-50) já deu muita dor de cabeça aos pregadores (e aos seus ouvintes). Afinal, cortar ou não cortar a mão? O que é que Jesus quer dizer com isso? Até os mais radicais defensores de leitura da Bíblia ao pé da letra, ficam confusos diante destas palavras de Jesus. Acredito que a chave esteja na expressão repetida várias vezes no mesmo trecho: “é melhor” (e no caso da pedra de moinho amarrada ao pescoço, “melhor seria”). É ma mesma figura linguística que usamos na hora de declarar algo (ou alguém) como muitíssimo importante para nós. Apaixonado diz: “Eu prefiro morrer do que me separar de você”, pai ao filho: “se você me desobedecer mais uma vez, eu arranco a sua cabeça”, professor aos alunos: “se alguém colar, vou quebrar o seu braço” (há muitos outros exemplos que incluem atos de “arrancar cabelos”, “esfolar vivo”, “levar à lua” ou “mostrar paraíso”, etc.). Com outras palavras, é o uso proposital de exagero para chamar atenção e sensibilizar a consciência de outrem. Jesus sabia perfeitamente que no meio de seus discípulos havia (e ainda há!) indivíduos com a consciência torta e o coração endurecido. Sabia, também, que não é exatamente a mão, o pé ou o olho que levam alguém a pecar, pois estes são meros instrumentos e não autores (inventores) das maldades. Em outra ocasião o Senhor disse claramente: é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos, devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. (Mc 7, 21-22; cf. Mt 15, 19) Por mais estranhas que pareçam, estas duras palavras de Jesus revelam o seu amor e a sua preocupação para conosco. Como se dissesse: “Meu filho, o pecado é um perigo grande e muito real! Se for o caso, eu prefiro ver você mutilado, de que fora da casa do meu Pai. Tome, portanto, muito cuidado!”. O que devemos cortar muitas vezes são as ocasiões do pecado e, às vezes, também, alguns relacionamentos. Li em algum lugar o comentário de um padre que associa a "ordem" de cortar a mão com os pecados sexuais. Coitado, deve ter sentido muito remorso pelo mau uso de sua mão. Por que não ler o contexto mais amplo da passagem? Jesus diz, um pouco antes: Quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa. (v. 41). O primeiro pecado cometido com a mão seria, então, mantê-la fechada (por aqui dizem “mão de vaca”), ou seja, omitir-se no dever de caridade fraterna. É, aliás, um delito muito frequente, inclusive nas tentativas de interpretar a Bíblia. Há milhares de cristãos que gostariam de cortar certas partes do corpo de homossexuais (como se a sexualidade estivesse presente apenas naquelas partes). Eu digo: corta a minha cabeça e arranca o meu coração, porque a homossexualidade está ali. Voltando à pedra do moinho amarrada ao pescoço, pergunto qual é o maior escândalo: dois homens que se abraçam e beijam ou todo tipo de intolerância, preconceito, desprezo e soberba que apresentam muitos seguidores de Cristo?

23 de fevereiro de 2011

no princípio, agora e sempre

João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue”. Jesus disse: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor”. (Mc 9, 38-40) Esta pequena passagem do Evangelho de hoje lembra a permanente desproporção (um verdadeiro abismo) entre a infinita sabedoria do amor divino trazido por Jesus e a pequenez do coração humano de seus discípulos. Exatamente como naquele tempo (no princípio), também agora (e sempre), vários discípulos de Jesus questionam o fato de que alguém que "não anda com eles" (o termo usado na Bíblia de CNBB, no versículo 38) tem a ousadia de fazer qualquer coisa, usando o nome do Mestre. Aquela ideia "monopolista" de João (compreende-se que ele ainda estava em processo de formação), tem muitos seguidores. Ignorando as palavras de Jesus: O discípulo não está acima do mestre, nem o servo acima do seu senhor (Mt 10, 24), muitos cristãos (e muitos líderes) ficam furiosos, quando alguém que "não anda com eles" (por exemplo na mesma visão da sexualidade), tem a coragem de falar e agir em nome de Jesus. Qual é a resposta do Senhor? Não o proibais! Ficou claro agora? Santa Teresa d'Ávila escreveu no seu "Livro da vida": Assim como há muitas moradas no céu, há muitos caminhos (cap. 13, n. 13). Alguém queira afirmar que Teresa contradiz as palavras de Jesus: "Eu sou o caminho" (Jo 14, 6)? Só pode pensar assim quem não compreende que Jesus, o Caminho, e a encarnação da infinita variedade (diversidade!) de caminhos. A primeira leitura de hoje (Eclo 4, 12-22), ajuda-nos a compreender isso: A sabedoria comunica a vida a seus filhos e acolhe os que a procuram. Quem a ela se apega herdará a glória; para onde for, Deus o abençoará. No começo, ela o acompanha por caminhos contrários, trazendo-lhe temor e tremor; começa a prová-lo com a sua disciplina, até que ele a tenha em seus pensamentos e nela deponha sua confiança. Então voltará a ele em linha reta, o confirmará e lhe dará alegria, lhe revelará os seus segredos e lhe dará o tesouro da ciência e da compreensão da justiça. (vv. 12, 14. 18-21) João passou por estes caminhos. O temor e tremor iniciais, em admitir aqueles que "não andavam com eles", deram lugar ao amor incondicional: Sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte. Filhinhos, não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade! (1Jo 3, 14. 18).

22 de fevereiro de 2011

Um livro perigoso

Alguém disse que livros são como pessoas. Você gosta de uns, por outros se apaixona e com alguns, simplesmente, se decepciona. Recentemente ganhei de presente o livro de Ana Beatriz Barbosa Silva, “Mentes perigosas. O psicopata mora ao lado” (Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2008). Apesar de uma longa lista de títulos e méritos e de outra, não menor, de livros já publicados, é difícil (para mim) associar Ana Beatriz com a nobre missão de escritora (a não ser que chamemos assim todo aquele que escreve qualquer coisa, inclusive os “artistas” que deixam as marcas de sua criatividade em banheiros públicos). A linguagem tosca e irritante do livro não é o seu único problema. Muito mais grave é a pobreza metodológica e realmente perigoso é o conceito de obra toda: as suas teses, os argumentos e as conclusões (explícitas e implícitas igualmente). Um dos princípios chega ao delírio: “os psicopatas vivem entre nós”. A insistência e o tom – por assim dizer – desta afirmação evocam o grito de João Batista no deserto e do próprio Jesus: “O reino de Deus está próximo”. Há uma diferença básica. O livro em questão anuncia a chegada do inferno. É assustador ler a advertência, repetida várias vezes pela autora, de não se precipitar em “identificar” os psicopatas, tendo ao mesmo tempo todo o conteúdo do livro que induz, exatamente, a esta atitude. Diria que o livro é extremamente antipedagógico. Basta ler algumas frases paranóicas, logo no início da obra: “Pare e pense nos seus vizinhos; nos jovens nas escolas; nos trabalhadores da sua rua; nos profissionais de várias áreas; nos amigos dos seus amigos; nas mães que zelam pelos seus filhos; nos líderes religiosos e nos políticos de sua nação. Pare e pense agora nos seus familiares, no seu chefe, no seu subordinado. Será que todos, sem exceção, são dotados de consciência? Torcemos para que SIM! Contudo, lamentavelmente, não é bem assim que a realidade se mostra. Poderíamos responder a essa mesma pergunta com um vigoroso NÃO!” (p. 35-36). A nota biográfica de autora do livro descreve a riqueza de sua formação profissional e fala de sua atuação de “diretora das clínicas Medicina do Comportamento no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde atende os pacientes e supervisiona os profissionais da sua equipe (médicos e psicólogos)”. Diante desta “ficha” causa o espanto uma enorme quantidade de argumentos, fornecidos por ela para comprovar as suas teorias, tendo como a fonte principal... a mídia. Não raras vezes lemos uma história, copiada literalmente de um jornal (com o nome completo do acusado), que termina com a seguinte conclusão: “É importante ressaltar que em momento algum afirmo que as pessoas aqui descritas são psicopatas de fato” (p. 107). É impressionante como uma profissional, tendo citado com predileção e generosidade, as matérias de jornais, revistas e programas de televisão, não percebe, em nenhum momento que, exatamente, a mídia (em sua grande maioria) possui todas as características de um psicopata. Tudo que Ana Beatriz fala sobre o psicopata, encaixa-se perfeitamente no perfil da maior parte de jornalismo sensacionalista que lemos, ouvimos ou assistimos diariamente. É um jornalismo psicopata: “engana e representa muito bem, é frio, mentiroso, insensível, manipulador, perverso, impiedoso, imoral, sem consciência e desprovido de compaixão culpa ou remorso. Pode arruinar empresas e famílias, provocar intrigas, destruir sonhos. Por ser charmoso, eloquente, inteligente, envolvente e sedutor, não costuma levantar suspeita de quem realmente é. A sua natureza é devastadora e assustadora. O seu jogo se baseia no poder e na autopromoção às custas dos outros. Como animal predador, vampiro ou parasita humano, sempre suga suas presas até o limite de uso e abuso. Saber identificá-lo pode ser antídoto (talvez o único) contra o seu veneno paralisante e mortal.” (Todos estes termos fazem parte do “cardápio” encontrado no livro). Conclusão: agradeço de coração a Violetinha (minha amiga) que me presenteou com o livro (adoro ler!), mas, em hipótese alguma, recomendo esta obra a quem quer que seja. Pelo contrário: considero “Mentes perigosas” um livro perigoso. Imagino um momento desastroso em que a mesma autora se decida a escrever o livro sobre "as mentes homossexuais" (já que essa é a sua série: mentes inquietas, insaciáveis, com medo, etc.).

Cátedra de Pedro

A cátedra significa autoridade. E nós, católicos, reconhecemos, aceitamos e respeitamos o ministério petrino. É por isso que consideramos tão importante tudo o que diz o Papa. Obviamente, reconhecer a autoridade não significa idolatrar um ser humano. A figura de pastor e das ovelhas não tem nada a ver com a nossa identificação irrestrita com estas criaturas: simpáticas, mas mudas e, digamos, pouco inteligentes (pelo menos no conceito geral). O pastor que une e guia as ovelhas (o rebanho) é Jesus Cristo que deixou aqui na terra o seu representante: Pedro e todos os seus sucessores. O Papa é chamado “Vigário de Cristo” (Santa Catarina de Sena usa o termo “meu Cristo na terra”). Para compreender melhor a nossa relação com o sucessor de Pedro, podemos lembrar de uma cena bíblica, descrita por um dos seus protagonistas, Apóstolo Paulo – irmão no ministério apostólico, mas como membro da Igreja, também “ovelha”, em relação com o pastor. Aliás, sobre Pedro costuma-se dizer que é “primeiro entre iguais” e um dos títulos oficiais do Sumo Pontífice á “servo dos servos de Deus”. A cena em questão se deu em Antioquia e Paulo descreve tudo detalhadamente em sua Carta aos Gálatas (2, 11-14). O texto é tão espetacular que vale a pena a sua transcrição: Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe francamente, porque era censurável. Pois, antes de chegarem alguns homens da parte de Tiago, ele comia com os pagãos convertidos. Mas, quando aqueles vieram, retraiu-se e separou-se destes, temendo os circuncidados. Os demais judeus convertidos seguiram-lhe a atitude equívoca, de maneira que mesmo Barnabé foi levado por eles a essa dissimulação. Quando vi que o seu procedimento não era segundo a verdade do Evangelho, disse a Cefas, em presença de todos: Se tu, que és judeu, vives como os gentios, e não como os judeus, com que direito obrigas os pagãos convertidos a viver como os judeus?
Para termos mais clareza, é bom lembrar de que tudo isso aconteceu bem depois do dia de Pentecostes, em que os Apóstolos receberam o Espírito Santo. Por assim dizer, a Igreja já estava em “pleno andamento”. Mesmo assim, usando palavras de Paulo ("ovelha do rebanho", ainda que, também um Apóstolo, que chega a chamar o seu Papa, praticamente de “pagão”), Pedro foi “censurável”, tomando “atitude equivocada”, isto é “dissimulação” (estes são os termos da Bíblia “Ave Maria”. A tradução da CNBB usa, também, a palavra “hipocrisia” no v. 13). É curioso que a festa de hoje está associada com o surgimento do cristianismo nesta cidade (Antioquia), na qual Pedro foi o primeiro bispo.
Ora, o objetivo desta postagem não é ofender ou desprezar o Sumo Pontífice. Tenho muito carinho e respeito por ele. Que tal, entretanto, celebrar a festa de hoje (da Cátedra de São Pedro) como ocasião para refletir sobre a (sobrecarregada) humanidade do Papa e rezar mais por ele?