ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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17 de fevereiro de 2011

o discernimento

Assim como as cores no arco-íris (veja o final da I leitura: Gn 9, 1-13), compõem-se as diversas respostas à pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8,27; a passagem inteira de hoje vai até o versículo 33). Entre todas e mais diversas opiniões, destaca-se a de Pedro: “Tu és o Messias”. Outro Evangelista, Mateus, acrescenta a revelação feita por Jesus em seguida: "Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isso, mas meu Pai que está nos céus" (Mt 16, 17). Surpreendente é a continuação da conversa. Depois de ouvir o que, de fato, significa ser Messias: sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, ser morto, e ressuscitar depois de três dias (cf. Mc 8, 31), o mesmo Pedro (talvez movido pela força do suposto elogio de Jesus) começa a chamar atenção do Mestre. Coitado, não tinha entendido nada. A reação de Jesus surpeende mais ainda: “Vai para longe de mim, Satanás!” Tu não pensas como Deus, e sim como os homens” (v. 33). Mateus transmite as palavras de Jesus com mais veemência: "Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo!", o que alguns traduzem como "tu és para mim uma pedra de tropeço" (Mt 16, 23). Será que Jesus está chamando Pedro de Satanás, como realmente parece? Acredito que não. Primeiro, porque Pedro não foi embora, o que seria a mais lógica consequência da ordem de Jesus. Segundo, porque a Palavra já havia anunciado de que o Satanás voltaria a atormentar Jesus. Voltemos à cena das tentações no deserto. Evangelista Lucas (4, 1-13) conclui aqueles acontecimentos assim: "Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião". (Lc, 4, 13) Acredito que as palavras tão duras do Senhor foram dirigidas ao próprio inimigo. Aconteceu, portanto, uma libertação de Pedro. O que impressiona naquele diálogo é a incrível capacidade do ser humano se ser influenciado (inspirado), tanto por Deus quanto pelo Satanás. Somos sensíveis, ou melhor, vulneráveis. Todos nós precisamos de um dom especial, chamado discernimento. São Paulo menciona-o no meio de muitos outros carismas, dons do Espírito Santo (cf. 1Cor, 12, 4-11). Digo mais: não é por acaso que o Evangelho mostra, justamente, Pedro como aquele que necessita de discernimento. Todos nós precisamos disso, mas de maneira ainda mais urgente, os dirigentes da Igreja. Até porque a pergunta continua sendo a mesma: "Quem dizem os homens que eu sou? E vós, quem dizeis que eu sou?" (Mc 8, 27. 29). A Constituição Pastoral "Gaudium et spes" do Concílio Vaticano II afirma: "Na realidade o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. (...) Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação" (n. 22).

16 de fevereiro de 2011

olhos curados

A liturgia da Missa de hoje traz o relato de mais um milagre realizado por Jesus: a cura de um cego em Betsaida (Mc 8, 22-26). É interessante a semelhança de varios detalhes neste milagre com a cura de um surdo que falava com dificuldade, lembrada na passagem do Evangelho (Mc 7, 31-37), da sexta-feira passada (leia aqui a reflexão). Mais uma vez o Senhor retira o doente para fora da multidão e dedica-lhe uma atenção especial e, de novo, utiliza a sua própria saliva como uma espécie de "remédio". Igualmente, surge uma impressão de que Jesus tivesse alguma dificuldade em realizar esta cura ou, então, como se o caso deste cego (como foi o daquele homem surdo) fosse especialmente complicado. Repito, aqui também, que tal interpretação deve ser descartada pelo fato de Jesus ser Deus todo-poderoso. Certamente, como escrevi no texto sobre a cura do homem surdo, a mensagem do Evangelho revela o amor atencioso do Senhor e a verdade de que Ele se dedica a cada um de nós de maneira especial, individual e pessoal. Por mais que tenha tratado com o mesmo amor toda a humanidade, nunca é uma relação com a "massa", mas sim, como se cada pessoa fosse a única no mundo. O que, de fato, chama atenção no texto sobre o cego de Betsaida, é o diálogo de Jesus com ele: “Estás vendo alguma coisa?” O homem levantou os olhos e disse: “Estou vendo os homens. Eles parecem árvores que andam”. Então Jesus voltou a por as mãos sobre os olhos dele e ele passou a enxergar claramente. Ficou curado, e enxergava todas as coisas com nitidez. (vv. 23b-25) Existe uma diferença enorme entre "enxergar todas as coisas com nitidez" e "ver os homens que parecem árvores que andam". Devemos admitir que, ainda que não necessariamente em forma de árvores, enxergamos as pessoas de (ou em) diversas formas. É que a forma ofusca a nossa visão da essência (ou do conteúdo). Assim, vemos negros e brancos, jovens e velhos, pobres e ricos, comuns e famosos, homossexuais e heterossexuais... e assim por diante. E, a partir desta nossa visão parcial, julgamos, classificamos e desprezamos os outros por vários motivos. Nossos olhos (e o nosso coração) precisam ser curados"

Esta passagem do Evangelho lembra-me a pregação de um sacerdote (!). Ele falava de uma mulher, chamada Marta, católica praticante e atuante na Igreja que participava de encontros da Renovação Carismática e até exercia um ministério de cura interior. A sua experência religiosa consistia, entre outras coisas, em possuir o "dom de escuta", ou seja, de receber revelações e inspirações divinas e, misteriosamente, ouvir Jesus falando com ela. Dedicava muito tempo à oração e ao atendimento das pessoas. Tinha, entretanto, um sério problema (como ela achava), bem dentro de casa. A sua filha adolescente, Michelle, havia revelado recentemente a sua "identidade homossexual". A mãe ficou apavorada quando ouviu Michelle dizer: "Eu sou lésbica". Evidentemente, o nome da filha não saía mais das orações de Marta. Em varios momentos do dia e, especialmente na hora da Comunhão diária, a mulher repetia com simplicidade e com muita confiança no seu angustiado coração: "Senhor! Toma conta da Michelle!". Alguns dias mais tarde, de repente, logo depois de receber Jesus na Eucaristia e de ter repetido diversas vezes a sua jaculatória: "Senhor! Toma conta da Michelle!", Marta ouviu no coração aquela voz que conhecia bem e amava tanto: "Marta! Quem é Michelle?". Mulher ficou surpresa e não foi com o fato de ouvir Jesus, mas com esta pergunta. Pensou, já respondendo a Ele: "Como assim, Senhor? O Senhor sabe de todas as coisas e conhece todas as pessoas... Michelle me disse que é... nem consigo repetir esta palavra. Onde foi, Senhor, que eu errei como mãe? E o que as pessoas vão dizer? Todos aqui, na igreja, me conhecem... O que é que eu faço agora, Senhor? ...Jesus, o Senhor pode curá-la?". Depois ficou quieta, como já tinha aprendido, há muito tempo. Era a hora de ouvir Jesus falar. Desta vez Ele demorou um pouco mais para responder para, finalmente, repetir: "Marta! Quem é Michelle?". A mulher sentiu um calafrio e uma sensação de insegurança. "Entendo... não sou mais digna de servir ao Senhor nem de ouvir as suas palavras... Com a filha desse jeito, acabou tudo..." - pensou. A voz de Jesus, agora com mais força e maior ainda ternura, repetiu: "Marta! Quem é Michelle? É preciso que você responda não a mim, mas a si mesma!". "Senhor!" - quase gritou Marta - "Michelle é a minha filha muito amada!". Jesus disse a ela: "Marta! Vou deixar agora algumas coisas muito bem claras para você. Primeiro: Michele, antes de tudo que se possa dizer dela, ou o que ele mesma queira dizer, é a filha muito amada do Pai Eterno. Foi também por ela que derramei o meu sangue na cruz. Segundo: realmente ela é a sua filha amada e somente a partir desta verdade é que você deve olhar a ela. Todo o resto é... o resto. Agora: não diga que você não é mais digna de servir a mim e a minha Igreja. Na verdade, ninguém é digno, mas sou Eu quem escolhe e chama para o ministério. Quero curar os seus olhos e o seu coração para que você sempre veja as pessoas assim como Eu as vejo: como filhos e filhas, muito amados por Deus". Marta sentiu uma paz imensa no seu interior. Todas aquelas preocupações desapareceram, enquanto surgia outra, diferente: como agora expressar este novo amor, nascido no coração curado, a sua filha. "Ela precisa muito de mim" - pensou. E disse as velhas palavras de nova maneira: "Senhor, toma conta da Michelle, tua e minha filha muito amada. Toma conta de mim, também!".

14 de fevereiro de 2011

mais uma polêmica

O Portal Gay1 publicou (aqui) uma matéria sobre críticas de "ativistas LGBTs" dirigidas ao novo aplicativo para iPhone, aprovado pela Igreja Católica, que tem a finalidade de ajudar no exame de consciência (em preparação ao Sacramento da Reconciliação, Confissão). Infelizmente, a dura crítica feita por Wayne Besen (diretor executivo da Truth Wins Out - organização de defesa dos direitos LGBT nos EUA), baseia-se numa confusão de termos. Besen diz: "gays católicos não precisam de se confessar, eles precisam de sair do armário e desafiar o dogma anti-gay. A falsa ideia de que ser gay é algo que se deve ter vergonha tem destruído muitas vidas. Esta aplicação para o iPhone facilita e promover esses danos", enquanto a pergunta que faz parte do exame de consciência é: "Tenho sido culpado de qualquer atividade homossexual?". Compreendo o caráter emocional das expressões do ativista, mas vejo, também, alguns equívocos nítidos (é porque as emoções "desligam" o raciocínio). Primeiro: dizer que "gays católicos não precisam de se confessar" é uma usurpação. Quem é que vai me dizer de que preciso? Ele é, por acaso, o dono da minha consciência? Segundo: a pergunta no aplicativo fala de "atividade homossexual" e não de "ser homossexual" e isso é uma diferença substancial (para quem faz funcionar a sua inteligência, caso tenha uma). O Catecismo da Igreja Católica afirma (e muitos documentos da Santa Sé repetem, com estas ou outras palavras): "Um número não desprezível de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais. Eles não escolhem a sua condição de homossexuais; essa condição constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza." (n. 2358) No parágrafo anterior (2357), o Catecismo declara: "Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves a Tradição sempre declarou que «os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados». São contrários à lei natural, fecham o ato sexual ao dom da vida, não procedem de uma verdadeira complementaridade afetiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados." Qualquer que seja a nossa opinião a respeito destas definições, é o ponto de vista do Magistério da Igreja. Como a Confissão Sacramental, com todas as suas regras, tem sido definida pela mesma autoridade, fica claro para cada católico praticante (seja homo- ou heterossexual), o que é que entra na "lista" dos pecados a serem declarados diante do sacerdote. É claro, achar o sacerdote de uma mente aberta, que consiga acolher um homossexual com atenção e caridade, já é outra história...

os irmãos

A liturgia de hoje comemora dois irmãos santos: Cirilo e Metódio, "apóstolos dos eslavos" (usando a expressão do Papa João Paulo II de sua Encíclica Slavorum Apostoli de 1985; leia aqui). Curiosamente, a primeira leitura (Gn 4, 1-15.25) traz a trágica história de outros dois irmãos, Caim e Abel. A mensagem imediata da liturgia é clara: Jesus veio para superar, também, toda a inimizade entre irmãos. Como nada foi por acaso em seu ministério, também a escolha de dois pares de irmãos (Pedro e André; Tiago e João) para o grupo mais próximo de discípulos, não aconteceu à toa. Mais tarde, o Senhor confirma a identidade mais profunda de todos os seus verdadeiros seguidores: sois irmãos (cf. Mt 23, 8 e muitos outros textos). Interessante como entra, neste contexto, a leitura da breve passagem do Evangelho de hoje (Mc 8, 11-13). Quando os fariseus pedem, ou melhor, exigem, um sinal de Jesus, Ele responde: "Por que esta gente pede um sinal? Em verdade vos digo, a esta gente não será dado nenhum sinal" (v. 12). Jesus que vivia realizando milagres e sinais extraordinários, nega este privilégio aos homens de coração fechado e de intenções duvidosas. Podemos, creio eu, fazer aqui um paralelo. Talvez, como em outros casos, aquele pedido dos fariseus tenha sido transmitido ao Mestre pelos discípulos (cf. Jo 12, 20-22 ou Mc 3, 32). Mais tarde, Jesus repete, com outras palavras, aquilo que disse na ocasião da multiplicação dos pães. Vejamos. Os discipulos disseram-lhe: "Este lugar é deserto e a hora é avançada. Despede esta gente para que vá comprar viveres na aldeia." Jesus, porém, respondeu: "Não é necessário: dai-lhe vós mesmos de comer" (Mt 14, 15-16). Chegou outro momento em que Jesus disse: "dai-lhes vós mesmos o sinal que estão precisando". Mas como e onde aconteceu isso? Na última ceia. Antes de dizer: "É necessário que eu vá" (Jo, 16, 7), Jesus deixa aos seus seguidores um legado essencial: "Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." (Jo 13, 34-35) E, depois, pede ao Pai este dom para todos os seus discípulos: "para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim" (Jo 17, 23). O amor fraterno dos cristãos é o sinal! Não é por acaso que até os mais antigos testemunhos dos pagãos, em relação aos cristãos, transmitem uma frase de admiração: "Vejam como eles se amam".
Resumindo: todos nós carregamos um pouco (ou muito?) da herança de Caim, inclusive em nossos relacionamentos de irmãos de sangue. Às vezes aqueles "conflitos de competição" dos tempos de infância, perduram até a idade adulta (se não forem resolvidos em algum momento). Há, entretanto, muitos testemunhos de "irmãos duplamente": irmãos de sangue e irmãos em Cristo. Isso é especialmente precioso quando se trata de um homossexual que, dentro de família, encontra o maior aliado, justamente, na pessoa de irmão ou irmã. Nesses momentos é Jesus que dá, depois de milênios, um "desfecho" ao dramático diálogo do livro de Gênesis: E o Senhor perguntou a Caim: “Onde está o teu irmão Abel?” Ele respondeu: “Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?” (Gn 4, 9). Jesus e cada verdadeiro cristão responde: "Sim, sou o guarda e o guardião do meu irmão!"...

12 de fevereiro de 2011

multiplicação dos pães

É impressionante ler hoje a passagem evangélica sobre a multiplicação dos pães (Mc 8, 1-10), no contexto da primeira leitura (Gn 3,9-24), na qual Deus revela as consequências do pecado: (...) amaldiçoado será o solo por tua causa! Com sofrimento tirarás dele o alimento todos os dias da tua vida. Ele produzirá para ti espinhos e cardos e comerás as ervas da terra; comerás o pão com o suor do teu rosto até voltares à terra de que foste tirado, porque és pó e ao pó hás de voltar. (vv. 17b-19) A mensagem principal é clara: Jesus veio para remover toda e qualquer maldição que pesava sobre o homem. Mesmo que o pão continue ainda custando o suor do rosto (em todos os sentidos desta expressão), a perspectiva já é totalmente diferente. Embora Jesus não tenha ficado por aqui (naquela forma corpórea de outrora) para multiplicar os pães (o que seria um desastre para preguiçosa e acomodada natureza humana!), abriu para nós o caminho para a plenitude da vida. Até mesmo o suor do rosto tornou-se um dos meios de santificação. Fala sobre isso, de um modo espetacular, o Papa João Paulo II, em sua encíclica "Laborem exercens" (leia aqui).
Mas há, como sempre, uma outra coisa que chama minha atenção: é a postura dos discípulos. Mesmo tendo visto e experimentado tantos milagres do Mestre, continuam naquela postura mesquinha e imatura: Os discípulos disseram: “Como poderia alguém saciá-los de pão aqui no deserto?” (Mc 8, 4). Infelizmente, esta mentalidade de coração pequeno, perpetua-se pelos séculos até os dias de hoje. Sinceramente, Jesus tem muita paciência com seus seguidores e, especialmente, com os escolhidos para ocuparem - digamos - cargos de confiança. Se eu os mandar para casa sem comer, vão desmaiar pelo caminho, porque muitos deles vieram de longe. (v. 3) Jesus se preocupa com todos, particularmente com aqueles que vieram de longe. E, até hoje, o Senhor acolhe e cuida de cada um que vem de uma "terra distante": do ateismo, de falsas doutrinas, das drogas, de uma família destruída, da solidão, da homossexualidade... E, até hoje, os "apóstolos" dizem: como poderia alguém saciá-los aqui? A falta de fé e de amor faz com que neguem o pão da Eucaristia, da Palavra, da compreensão, do diálogo (e de muitas outras riquezas que o próprio Jesus lhes deu para administrarem e distribuirem) a tantos necessitados. Até quando as lições do Evangelho continuarão sendo uma letra morta para os cristãos e, principalmente, para os líderes da Igreja?

11 de fevereiro de 2011

Efatá

Providencialmente, neste Dia Mundial do Doente, a liturgia traz a cena de cura de "um homem surdo que falava com dificuldade" (Mc 7, 31-37). Temos, também, o pecado de Adão e Eva na primeira leitura (Gn 3, 1-8) e o Salmo que fala da felicidade daquele cujo pecado foi perdoado (Sl 31[32]). Tudo isso, no contexto da memória de Nossa Senhora de Loudes. Pois bem, um "material" para riquíssima meditação. Vou me deter, entretanto, apenas na cura do homem surdo. O que chama atenção é a maneira singular de Jesus realizar este milagre. Lembra um pouco a cura de um cego (leia Mc 8, 22-26) e não somente por causa de saliva que Jesus usa como "remédio". É um "trato" personalizado, por assim dizer. Jesus "afastou-se com o homem, para fora da multidão" (e, no outro caso, "tomou o cego pela mão e levou-o para fora da aldeia", cf. Mc 8, 23). Enquanto na maioria dos seus milagres, bastava uma palavra ou um simples toque de mão, nestes casos Jesus dedica uma atenção especial ao doente. À primeira vista parecem ser problemas mais graves do que todos os demais, mas precisamos descartar logo esta interpretação. Jesus é todo-poderoso e não existe caso mais ou menos difícil para Ele. Lázaro, morto havia quatro dias, foi ressuscitado apenas com um grito do Senhor (cf. Jo 11, 1-44). Acredito que a mensagem desta cena esteja falando sobre a maneira da qual Jesus trata cada pessoa: como se fosse a única na face da terra. Ele me conhece (muito melhor do que eu mesmo e muitíssimo melhor do que me "conhecem" outras pessoas) e, conhecendo-me profundamente, ama-me com o amor infinito. Dedica toda a sua atenção a mim, ou melhor, a cada um de nós. É muito importante nunca se esquecer disso!
Uma outra observação: em todas as pregações e explicações, em todos os comentários litúrgicos e teológicos, os autores entendem que a expressão "Efatá!", que quer dizer: “Abre-te!” (Mc 7, 34) Jesus teria dirigido (obviamente?) ao surdo. Hoje, no entanto, me ocorreu a ideia diferente. O texto diz: Olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!”. Seria: "Homem! Abre-te!"? (Marcos acrescenta: Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. Mc 7, 35). Na minha opinião, Jesus dirigiu esta ordem ao próprio céu (se fosse diferente, quem sabe, Ele teria olhado ao homem surdo). Talvez não haja tanta importância nisso, mas quero deixar registrada aqui mais uma das minhas experiências com a Palavra de Deus.
Voltando ao Dia Mundial dos Doentes, quero notificar que, algum tempo atrás, este seria também o nosso dia (na época em que a homossexualidade era considerada uma doença). Como isso já não acontece, graças a Deus (pelo menos nos ambientes sérios e racionais), que tal sugerir à Igreja a instituição da Jornada Mundial de Homossexuais? Seria ótima oportunidade para divulgar e colocar em prática a proposta da própria Igreja sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais. É neste sentido que repito: Efatá, abre-te! E não falo para o céu, porque não sou Jesus e, também, porque o céu já esta aberto. Aliás, nunca ficou fechado.

10 de fevereiro de 2011

Escolástica e outras mulheres

Hoje a liturgia está cheia de mulheres: na I leitura (Gn 2, 18-25), no Salmo (127[128]) e no Evangelho (Mc 7, 24-30) e ainda na memória litúrgica de Santa Escolástica, irmã gêmea de São Bento (nasc. em 480 na Itália). A minha reflexão vai hoje em direção de mulher, ou melhor, de uma visão da mulher que perdura por séculos, desde os tempos do Antigo Testamento, até os dias de hoje. É, sem dúvida, uma visão injusta, preconceituosa e totalmente contrária ao desígnio de Deus. E, para piorar, muitos pontos desta visão encontram argumentos na Sagrada Escritura, quer dizer, na interpretação errônea da Palavra de Deus. Comecemos pela frase lida hoje na Missa: da costela tirada de Adão, o Senhor Deus formou a mulher e conduziu-a a Adão. (Gn 2, 22) Muitos tomam esta revelação para afirmar a superioridade do homem em relação à mulher, esquecendo das palavras do próprio Criador, presentes na mesma passagem: Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele. (Gn 2, 18) Graças a Deus, a humanidade e, principalmente, a Igreja, já avançaram nesta questão, pelo menos na teoria. É bom lembrar a Carta Apostólica de João Paulo II sobre a dignidade e a vocação da mulher ("Mulieris dignitatem", leia aqui). Infelizmente, a Igreja dos tempos de Santa Escolástica, estava ainda longe deste reconhecimento da dignidade feminina. O próprio Evangelho, igualmente mal-interpretado, pode criar a impressão de Jesus que dá pouca atenção à mulher, quem sabe, pelo simples fato de ser uma mulher e ainda uma pagã. Mais uma vez, cabeças duras de muitos homens, parecem ter argumento para o seu "machismo". Eu leio esta passagem (e todas as outras) a partir da Pessoa de Jesus. O Senhor conhecia os corações e os pensamentos de todos. Sabia, portanto, qual era o tamanho de fé, coragem, determinação e do amor materno daquela mulher. Sabia, também, como eram pequenos na mesma fé, coragem, determinação  e no amor, os seus discípulos homens. Na minha opinião, Jesus deu-lhes uma lição dessas virtudes, pondo à prova aquela mulher. Notemos como ela entra imediatamente na "linha de pensamento" de Jesus, retomando a figura de crianças e cachorrinhos. Em sua humildade não se ofendeu (o que aconteceria, com certeza, caso algum dos apóstolos, ou homens em geral, estivesse no lugar dela). Ambos, Jesus e a mulher, acabam dando um espetáculo de fé e comunhão. Algo parecido aconteceu com a Samaritana e tantas outras mulheres. E o que dizer sobre a "bendita entre todas as mulheres", Maria Santíssima? Nenhum dos homens, ao longo dos séculos, chegou perto do nível de sua fé, sua entrega, seu amor. Apesar disso tudo, as gerações inteiras de homens cristãos (seguindo seus "irmãos mais velhos", os judeus), passaram a vida tratando as mulheres como coisas que só existiam para satisfazer seus caprichos masculinos. Até o Salmo de hoje pode ser lido de maneira equivocada: A tua esposa é uma videira bem fecunda no coração da tua casa (Sl 127[128], 3). Se é uma videira, então posso cortá-la à vontade.
Conclusão: a história nos mostra como uma leitura errônea da Bíblia é capaz de sustentar, por séculos, a postura de preconceito, discriminação e injustiça. A esperança vem da vitória (ainda parcial) das mulheres que, depois de milênios inteiros de sofrimento, começam a conquistar, aos poucos, o espaço designado-lhes pelo próprio Criador. Um dia isso vai acontecer, também, com os homossexuais. Que tal começarmos pela revisão de nossas interpretações bíblicas?
Para terminar, cito um pequeno trecho da Carta Apostólica de João Paulo II sobre a dignidade da mulher:
O gênero humano, que se inicia com a chamada à existência do homem e da mulher, coroa toda a obra da criação; os dois são seres humanos, em grau igual o homem e a mulher, ambos criados à imagem de Deus. (...) Na descrição de Gênesis 2, 18-25, a mulher é criada por Deus «da costela» do homem e é colocada como um outro «eu», como um interlocutor junto ao homem, o qual, no mundo circunstante das criaturas animadas, está só e não encontra em nenhuma delas um «auxiliar» que lhe seja conforme. A mulher, chamada desse modo à existência, é imediatamente reconhecida pelo homem «como carne da sua carne e osso dos seus ossos» (cf. Gn 2, 23) (...) O texto bíblico fornece bases suficientes para reconhecer a igualdade essencial do homem e da mulher do ponto de vista da humanidade. Ambos, desde o início, são pessoas, à diferença dos outros seres vivos do mundo que os circunda. A mulher é um outro «eu» na comum humanidade. (Mulieris Dignitatem, n. 6).