ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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16 de janeiro de 2011

A Igreja recomenda

A ideia de uma Pastoral, estruturada para acolher e atender os homossexuais, não é minha. A própria Igreja, através de alguns documentos, recomenda este trabalho. A Congregação para a Doutrina da Fé, chefiada por vários anos pelo atual Papa Bento XVI (então Cardeal Joseph Ratzinger), enviou a todos os bispos da Igreja Católica a "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"(leia aqui o texto completo). Apesar de apresentar várias opiniões discutíveis (até mesmo do ponto de vista da ciência), o documento traz um incentivo (não sei se posso chamá-lo de uma ordem) aos bispos: Esta Congregação encoraja, pois, os Bispos a promoverem, nas suas dioceses, uma pastoral para as pessoas homossexuais, plenamente concorde com o ensinamento da Igreja. (...) Um programa pastoral autêntico ajudará as pessoas homossexuais em todos os níveis da sua vida espiritual, mediante os sacramentos e, particularmente, a frequente e sincera confissão sacramental, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual. Desta forma, a comunidade cristã na sua totalidade pode chegar a reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando-lhes tanto a desilusão como o isolamento. Desta abordagem diversificada podem advir muitas vantagens, entre as quais não menos importante é a constatação de que uma pessoa homossexual, como, de resto, qualquer ser humano, tem uma profunda exigência de ser ajudada contemporaneamente em vários níveis. Evidentemente, os trechos acima, parecem bastante animadores e, realmente, vale a pena aproveitá-los para dar o primeiro passo. O resto do texto é, digamos, extremamente cauteloso (para não dizer contraditório), mas isso também podemos compreender. O próprio assunto continua ainda assustando os líderes da Igreja, assim como a maioria do povo. Precisamos de tempo, de perseverança e de uma corajosa clareza na hora apresentar ao povo tal projeto. Lembro-me, neste momento, das primeiras iniciativas em implantar as casas de acolhimento para portadores do vírus HIV (anos 80). Houve muitos protestos, não raro bastante violentos, promovidos pelos habitantes naquelas localidades. Muitas casas, simplesmente, não tiveram chance alguma para começar a sua missão. E tudo isso devido uma tremanda falta de conhecimento básico da coisa. Assim como, naquela época (e às vezes até hoje), as pessoas acreditavam que o vírus "se pega" respirando com o mesmo ar, do mesmo jeito muitos acham que os gays, só pela sua presença, irão "perverter os normais", especialmente as crianças e os jovens, mas também alguns piedosos e honestos pais e mães de família. Outra "ideia genial" diz que a moda, promovida pelo poderoso lobby gay, faz com que "a praga entra até na Igreja, como se não bastasse a invasão na mídia e o escândalo das paradas de orgulho gay". Resumindo: temos argumento nas mãos (a recomendação do Vaticano), mas também um árduo e longo trabalho pela frente. Vamos? Alguém se arrisca?

14 de janeiro de 2011

Pastoral para Homossexuais

Continuo a reflexão inspirada na passagem do Evangelho de hoje (Mc 2, 1-12), iniciada nesta madrugada (leia aqui ou desca um pouco no blog). Talvez por ter sido a madrugada, escrevi que esta passagem bíblica "é a imagem, ou melhor, a "Carta Magna" (a constituição) de uma verdadeira Pastoral para Homossexuais". Não retiro as minhas palavras, embora sejam, talvez, enfáticas demais. Acrescento logo: esse não é o único texto do Evangelho que me leva a compreender melhor, ou idealizar, uma Pastoral voltada aos Homossexuais: a necessidade de sua existência, a estrutura e a metodologia. Em outras ocasiões proponho-me desenvolver esta reflexão. Volto, por ora, à cena com o paralítico, trazido pelos quatro amigos, até Jesus. Uma coisa me impressiona devido à diferença em relação a tantos outros casos de cura realizada por Jesus. Com frequência o Senhor revela a fé daquela pessoa curada como - digamos - um "veículo" da graça acontecida. Ou, então, como a condição necessária para tal cura. Mais ainda: como que "saíndo de cena", Jesus aponta a fé como a própria causa do milagre. Vejamos alguns exemplos. O centurião romano que pedia a cura para seu servo amado (em breve uma reflexão especial sobre este caso), ouviu as palavras do Senhor admirado: "Nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé" (Lc 7, 9) e "seja-te feito conforme a tua fé" (Mt 8, 13). À mulher que sofria de hemorragia disse: "Tua fé te salvou" (Mt 9, 22; Mc 5, 34; Lc 8, 48). O mesmo declarou ao cego Bartimeu (Mc 10, 52; Lc 18, 42) e na versão de Mateus (9, 29) a dois cegos: "Seja-vos feito segundo vossa fé". Temos ainda a cananéia que pedia a libertação do demônio para sua filha (Mt 15,29): "Ó mulher, grande é a tua fé! Seja-te feito como desejas", a pecadora perdoada (Lc 7, 50), o único dos dez leprosos curados que voltou para agradecer (Lc 17, 19). Sempre: "Tua fé te salvou!" Tua fé. No milagre com o paralítico em questão acontece algo diferente. Diz o Evangelista que os quatro homens abriram o teto, bem em cima do lugar onde ele estava e, pelo buraco, desceram a maca em que o paralítico estava deitado. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Filho, os teus pecados são perdoados” e depois: "eu te digo: levanta-te, pega a tua maca, e vai para casa!" (Mc 2, 4-5 e 11), ou seja, a fé dos amigos contribuiu para a cura daquele homem. Aqui está a essência de todo e qualquer projeto ou trabalho pastoral. Inclusive da Pastoral para Homossexuais. Como falei na postagem anterior, longe de mim identificar a homossexualidade com a paralisia. Mas existe, sim (e entre os homossexuais numa dimensão bem preocupante) a paralisia espiritual que se manifesta em várias formas: o afastamento da Igreja, o abandono da oração e da Bíblia, a sensação de exclusão ou excomunhão e, não raro, uma postura de desprezo, em relação a tudo que está ligado à Igreja, ao cristianismo e à religião em geral. A consequência mais grave e dolorosa é o afastamento do próprio Deus. A perda da fé. O papel da Pastoral, portanto, é levar aquela pessoa (que tem suas razões para tal jeito de ser) até Jesus. Fazer com que aconteça este encontro pessoal com o Salvador. Ele tem o poder de perdoar os pecados (quem de nós não precisa disso?) e de dizer: "Levanta-te e vai para casa" (vai e leva a tua vida, sê feliz, íntegro, realizado). É um caminho, sem dúvida, longo, acidentado, desafiador, mas único. E necessário. É um caminho "pelo amor de Deus". E aos irmãos.

A fé - um projeto ousado

Nesta sexta-feira da I semana do tempo comum lemos o Evangelho segundo São Marcos (Mc 2, 1-12): Reuniu-se uma tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto à porta. E ele os instruía. Trouxeram-lhe um paralítico, carregado por quatro homens. Como não pudessem apresentar-lho por causa da multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Jesus se achava e, por uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico. Sabemos o que aconteceu depois, mas já esta descrição inicial merece muita atenção. Pessoalmente, vejo nestes poucos versículos, uma inspiração para uma autêntica e vitoriosa Pastoral para Homossexuais. Vou explicando passo a passo. Primeiro: cinco homens, um deles paralítico, carregado pelos quatro demais. Impossível não notar uma incrível e profunda sintonia entre eles. Uma meta bem definida: encontrar Jesus. E não é uma pretensão, uma fantasia ou uma conquista qualquer. É uma necessidade. E, também, uma expressão concreta e corajosa da fé. Com outras palavras: estes homens são "os necessitados de Jesus". Não me detenho - de propósito - sobre o mal específico do qual sofria aquele homem, só para não criar uma falsa associação de homossexualidade com a paralisia. Não é este o meu objetivo. Insisto em dizer que os homossexuais têm pleno direito de serem pessoas religiosas e terem o seu espaço na Igreja. Voltando ao texto do Evangelho: os quatro homens abraçam o desafio e não desanimam com as dificuldades que, desde o início, não são poucas nem pequenas. Já o próprio peso, carregado não se sabe por quanto tempo e que tipo de caminhos, exigia força, equilíbrio, delicadeza e perseverança. Eles não estavam levando um saco de batatas e tinham plena consciência disso. E, exatamente como acontece na vida, quando já estavam perto da meta, surgiu de surpresa um obstáculo novo e maior de todos. Este momento é muito importante para perceber todo o sentido da mensagem. Diz Marcos que os quatro homens não conseguiram apresentar o paralítico a Jesus por causa da multidão. Que multidão é essa? São os ouvintes de Jesus, seus seguidores, discípulos. Mas que multidão é essa que impede - também hoje - os necessitados chegarem perto de Jesus? São os ouvintes dele, seguidores, discípulos. Os cristãos. Agora percebemos que para uma "equipe de necessitados" que realmente deseja encontrar Jesus, um "muro" feito de seguidores de Jesus, ou um "muro" da instituição chamada Igreja, é mais difícil a ser escalado do que o muro daquela casa. Aqueles quatro homens, entretanto, mostram uma determinação extraordinária que só pode nascer no coração cheio de amor. O amor que não desiste e que descobre, ou inventa, soluções. Para mim, esta é a imagem, ou melhor, a "Carta Magna" (a constituição) de uma verdadeira Pastoral para Homossexuais. Aquela barreira humana (intransponível, como dizem, "em nome de Jesus") vai existir sempre. Mas, enquanto existir este amor corajoso, criativo, delicado e inteligente, no coração dos cristãos que não abandonam a sua fé só por serem homossexuais, será possível o maravilhoso encontro com Jesus que acolhe e apoia, atende e compreende, porque ama. É por isso que acredito nesta ideia de uma Pastoral específica para nós. Ela pode funcionar em pequenos grupos - como este do Evangelho - desde que tenha o mesmo objetivo (de encontrar Jesus) e a mesma união. E tudo isso inspirado e alimentado pelo amor ao Senhor e aos irmãos.

13 de janeiro de 2011

Jesus e o leproso

O Evangelho lido hoje (Mc 1,40-45) conta sobre um leproso [que] chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: “Eu quero: fica curado!” No mesmo instante, a lepra desapareceu, e ele ficou curado. Como sempre, além de relatar fatos concretos, o Evangelho traz uma mensagem. A lepra (conhecida também como hanseníase, morfeia, mal de Hansen, mal de Lázaro), até hoje assusta, ainda que - graças ao avanço da medicina - não seja mais considerada como uma doença incurável e fatal (aquela que leva, inevitavelmente, à morte). Nos tempos de Jesus, entretanto, além de ser realmente incurável, a lepra trazia também a marca de maldição (castigo pelos pecados) e, especialmente na mentalidade dos judeus, a "impureza" física refletia o estado espiritual da pessoa afetada. De acordo com as normas da lei religiosa, o leproso era obrigado a permanecer nos lugares afastados da população "normal" e, caso precisasse passar por uma via pública, tinha que fazer barulho e gritar: "Impuro! Impuro!". A simbologia do leproso é, portanto, muito clara: é o maldito, o excluído. Neste contexto, a leitura do texto revela, em primeiro lugar, a fé (e a coragem como sua expressão concreta) daquele homem que "chegou perto de Jesus". Interessante, também, é a descrição, um tanto imprecisa, feita por Marcos. O Evangelista diz que o homem "pediu", mas o que realmente temos aqui, é uma firme profissão de fé, uma impressionante certeza: "Se queres, tens o poder de curar-me". Jesus reage imediatamente. Lembramos que cada gesto, cada atitude de Cristo é, também, um ensinamento. Depois de curar o leproso, Jesus faz dois pedidos (ou dá duas ordens) a ele: Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles! (Mc 1, 44) A primeira questão, talvez, esteja associada ao cuidado de Jesus de evitar o sensacionalismo exagerado e a distorção de sua identidade pela multidão entusiasmada, ou seja, para que a sua missão não fosse reduzida a de um "curandeiro" (lembramos a reação de Jesus depois da multiplicação dos pães: ele se escondeu do povo que queria proclamá-lo rei. Confira Jo 6,15). O segundo pedido, feito ao "ex-leproso", certamente ia ajudá-lo no retorno à sociedade, através do reconhecimento de sua cura pelas autoridades.
Pois bem. Para minha "leitura existencial" (de um homossexual e católico), a mensagem de hoje fica muito clara e consoladora. Jesus veio para nos curar, para reconhecer e fazer reconhecida a nossa dignidade, para nos dar, de novo, o lugar no meio da sociedade, para abolir todas as exclusões. E quando Ele diz "Eu quero, fica curado", não se refere apenas a um toque de sua mão, mas a todo o sacrifício que realizou de si próprio na cruz, para nos dar a salvação. Ele se fez um excluído, condenado, amaldiçoado (um "leproso"!), só para oferecer a todos a inclusão, a aceitação, a bênção e uma vida digna, livre e plena. São Marcos conclui o seu relato: Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos. (Mc 1, 45) Como se Jesus trocasse de lugar com o leproso...

Santo Hilário

Hoje, na liturgia, comemora-se Santo Hilário, Bispo e Doutor da Igreja. Nascido por volta do ano 300 na cidade Pictavium, então no Império Romano, hoje Poitiers (cidade localizada no centro-oeste da França). Hilário é famoso pela luta contra a heresia dos arianos (a ponto de ser chamado o "Martelo dos Arianos"). Falecido em 368, deixou várias obras (tratados teológicos, cartas, etc.), além de alguns discípulos, entre os quais destaca-se São Martinho, posteriormente bispo de Tours.
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Escrevo sobre Santo Hilário, neste blog dedicado a reflexões sobre a homossexualidade (no contexto de uma espiritualidade católica), por mais um motivo. Não, não tenho indícios de que ele tenha sido gay. Muito pelo contrário. A tradição (apoiada pela documentação) afirma: Tão grande era o respeito que lhe tinham os habitantes de Pictavium que, por volta de 353 d.C., ainda um homem casado, ele foi aclamado bispo da cidade (o conceito de celibato clerical estava apenas começando a emergir no ocidente). Há informações, também, sobre a sua filha, Santa Abra. Entretanto, é o seu nome que merece um pouco de atenção. De acordo com vários dicionários, a palavra "hilário", um adjetivo proveniente do latim, significa: alegre, jovial contente, e tem como sinônimos: engraçado, divertido, empolgante, diferente, legal, espantoso. Vejamos agora uma outra palavra: "gay". Conquanto a cultura contemporânea em geral tenha herdado o termo diretamente do inglês (gay = "alegre, jovial"), o inglês assimilou-o do francês arcaico (gui, com o mesmo significado) e este obteve-o do latim tardio (gaiu, com semelhante significado). A palavra originariamente não tinha conotação sexual necessária. Era usada para designar uma pessoa espontânea, alegre, entusiástica, feliz. O termo gay, já marcado pela conotação sexual, ao ser difundido pelos países lusófonos, era utilizado principalmente de forma pejorativa contra homens gays. Contudo, a utilização da palavra pelos próprios homossexuais, a se referirem a si mesmos, fez com que a conotação negativa fosse amenizada. Em outras palavras, os homossexuais apropriaram-se da palavra, na busca de retirar-lhe, assim, a carga insultuosa. (informações colhidas no site Wikipedia). Resumindo: percebemos facilmente que as palavras "gay" e "hilário", têm praticamente o mesmo significado. Por que, então, não cultivar uma devoção particular a este Santo. A minha oração poderia começar assim: "Ó grande Santo Hilário! Tu foste chamado de engraçado ou alegre, devido o seu nome e eu, por motivos de minha sexualidade, sou chamado, também assim. Mesmo que, no fundo, o significado deste nome ou apelido, possa ter conotações muito diferentes e, às vezes, ofensivas, peço-te a proteção e intercessão. Durante a tua vida enfrentaste muita oposição e foste perseguido, mas não desanimaste na busca e defesa da verdade. Espero obter de Deus, pela tua intercessão, um pouco de alegria e jovialidade e muita perseverança na mesma busca e defesa da verdade e da dignidade de cada ser humano. Amém!".
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OBSERVAÇÂO: Em breve pretendo falar sobre outros santos, reconhecidos como intercessores ou padroeiros de homossexuais (São Sérgio e São Baco, Santas Perpétua e Felicidade, São Sebastião e outros).

12 de janeiro de 2011

entre arte e pornografia

Recomendo uma excelente matéria no site obvious - "Caminhos cruzados: a arte, a nudez e a pornografia", de Rejane Borges. O site inteiro, aliás, merece ser conhecido e visitado. Para despertar um pouco de curiosidade, transcrevo um pequeno trecho do texto: O corpo humano causa fascínio e é exaltado como algo naturalmente belo. Como instinto, a nudez sempre foi e será o meio pelo qual o homem busca uma conexão com o seu próprio ser e com a criação. (...) Desde os primórdios dos tempos a nudez pertence à arte, estando presente nos ateliês de artistas clássicos e contemporâneos, assim como está presente em todas as outras vertentes artísticas. O corpo humano é visto como uma obra de arte. E como tal é contemplado. Afinal, é uma notável composição de músculos, uma máquina que reage e funciona à base de emoções. Que sangra, que expressa. Que causa prazer para quem sente e vê, de uma desconcertante (im)perfeição.

curiosidades de um discurso

Tenho muito respeito pelo Papa Bento XVI. Recentemente li, em algum lugar, uma opinião de alguém, dizendo que "enquanto as multidões iam para VER João Paulo II, agora vão para OUVIR Bento XVI". É, sem dúvida, um pensador e tanto. Mas não vou exagerar em elogios. Há coisas que despertam meus questionamentos. Por exemplo, o discurso do Papa ao Corpo Diplomático acreditado junto ao Vaticano, no último dia 10 de janeiro (leia aqui na íntegra). O tema principal: a violação do direito de liberdade religiosa em várias partes do mundo, especialmente no Oriente Médio. Uma frase do Papa chamou minha atenção e - como de costume - logo traduzi esta afirmação para a realidade abordada especificamente neste blog. O (eventual) Leitor pode ver que não estou "puxando a sardinha para o meu lado". A frase é seguinte: O peso particular de uma determinada religião numa nação não deveria jamais implicar que os cidadãos pertencentes a outra confissão fossem discriminados na vida social ou, pior ainda, que se tolerasse a violência contra eles. É evidente que o Papa, sendo um lider religioso, vai abordar, exatamente, esta (religiosa) dimensão da vida humana. Parece, no entanto, que trata-se de uma lei universal: a minoria não deve ser perseguida pela maioria, aliás, ninguém deve ser perseguido por ninguém. Repito, então, a mesma frase, com a minha interpretação: O peso particular de uma determinada orientação sexual numa nação (sociedade) não deveria jamais implicar que os cidadãos pertencentes a outra orientação fossem discriminados na vida social ou, pior ainda, que se tolerasse a violência conta eles. Parece simples e lógico. Mais uma vez, na metade de uma leitura, sinto-me animado e começo imaginar "coisas" (por exemplo que, em breve, o Papa vai condenar a homofobia). E, mais uma vez, na continuação da mesma leitura, as minhas esperanças desaparecem. Basta ler isso: Continuando a minha reflexão, não posso passar sem referir outra ameaça à liberdade religiosa das famílias em alguns países europeus, onde é imposta a participação em cursos de educação sexual ou cívica que propagam concepções da pessoa e da vida pretensamente neutras mas que, na realidade, refletem uma antropologia contrária à fé e à reta razão. (...) Menos justificáveis ainda são as tentativas de contrapor ao direito da liberdade religiosa pretensos novos direitos, promovidos ativamente por certos setores da sociedade e inseridos nas legislações nacionais ou nas diretrizes internacionais, mas que, na realidade, são apenas a expressão de desejos egoístas e não encontram o seu fundamento na natureza humana autêntica.

Certamente não preciso explicar do que o Papa está falando...