ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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12 de janeiro de 2011

Jesus é o Senhor

As leituras desta primeira semana do tempo comum trazem uma espécie de "resumo" ou "roteiro" de toda a missão de Jesus. Hoje, na primeira leitura, lemos: Visto que os filhos têm em comum a carne e o sangue, também Jesus participou da mesma condição, para assim destruir, com a sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo (...) [Hb 2,14]. E continua: Por isso devia fazer-se em tudo semelhante aos irmãos, para se tornar um sumo sacerdote misericordioso e digno de confiança nas coisas referentes a Deus, a fim de expiar os pecados do povo. [Hb 2, 17] Volta aqui, mais uma vez, aquela afirmação de João Paulo II (citada neste blog várias vezes) sobre "Jesus que se uniu, de certo modo, a cada homem" (veja aqui). Entretanto, tal expressão, não anula o fato de que Jesus é o Senhor, ou seja, é Ele que tem a autoridade suprema, os seus próprios planos, muitas vezes tão diferentes dos nossos e, frequentemente - digamos - maiores do que toda a capacidade de nossa inteligência humana. Fala sobre isso o Evangelho lido também hoje: Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”. Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. [Mc 1, 36-37]. Ou seja: "Simão, você não vai me dizer o que, como e quando devo fazer. Eu sou o Senhor, eu sou o Sumo Sacerdote misericordioso, mesmo que você não consiga enxergar. Eu tenho a minha lógica e a minha dinâmica". Com outras palavras: todas as tentativas de impor a Jesus coisas que Ele, na nossa opinião, deveria fazer ou atribuir-lhe estas ou aquelas características são, simplesmente, sinais de nossa falta de humildade. Ele é o Senhor. Portanto, as questões, por exemplo, de "curar as pessoas de homossexualismo" que vários "cristãos" levantam, não são bem assim como paracem. Primeiro: Jesus cura, sim, também hoje, se, quando e como Ele mesmo quiser, desde que aquilo que atormenta alguém seja uma doença (física, espiritual, emocional, etc.) e não é o caso de homossexualidade. Segundo: Ele pode transformar água em vinho, morto em vivo e, também, um homossexual em heterossexual, pois para Ele nada é impossível. Agora, cabe a Jesus, porque Ele é o Senhor, fazê-lo (ou não), no momento e da maneira que Ele bem entender. Por isso, todas as aspirações daqueles que se autodenominam "seguidores de Jesus", de impor, exigir ou mandar, não passam de imaturidade, ignorância, arrogância, soberba, preconceito e falta de fé. Jesus, e somente Ele, é o Senhor.

11 de janeiro de 2011

Homossexuais e Eucaristia (2)

Na postagem anterior sobre este assunto (aqui) citei a opinião do então Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI). Mais precisamente, o texto refere-se à situação dos "casais de segunda união" (casados na igreja, depois divorciados e casados novamente, sem o Sacramento do Matrimônio). Temos, portanto, uma analogia entre esses casais e as pessos homossexuais que vivem, também, numa união não reconhecida pela Igreja como legal (legítima). Um ponto de vista bastante diferente sobre a relação entre "tais pessoas" e a Eucaristia, apresenta o padre jesuíta Matthew Linn, no livro escrito em conjunto com o seu irmão Dennis e a cunhada Sheila Fabricant Linn ("Abuso espiritual & vício religioso"; Editora Verus, Campinas-SP, 2000; p. 76-77 e 136). Estes três autores formam uma equipe de pregadores de retiros e escritores (outros livros deles: "Cura dos oito estágios da vida" e "Não perdoe cedo demais", da mesma editora) - sempre no contexto (com aprovação, supõe-se) da Igreja Católica. Embora o texto não fale (de novo), literalmente, sobre os homossexuais, podemos facilmente e sem exagero algum, inclui-los na lista de "casos" mencionados. Resta agora apenas uma reflexão pessoal de cada homossexual que se identifica (apesar de todas as dificuldades) com a Igreja Católica.
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[Padre Matthew Linn, jesuíta]: Durante anos segui ao pé da letra a lei que recebessem a comunhão somente aqueles que reconhecessem a autoridade do papa, não fossem divorciados e não estivessem em pecado mortal. Eu negava comunhão a uma parte do corpo místico de Cristo, embora afirmasse durante a comunhão que me tornava um com o corpo de Cristo. Ignorei o fato de Jesus ter dado comunhão a Judas e de nós chegarmos como pessoas feridas, rezando: “Dizei uma só palavra e serei salvo.” Hoje acredito que a Eucaristia é um sacramento de salvação para ser recebido em resposta ao amor de Deus, não como medalha de honra ao mérito do amor de Deus conseguido através de boas ações. O rebelde em mim quer deixar de lado a letra da lei e agir de acordo com uma lei de amor mais elevada (cf. Mt 22, 34-40). Mas a criança responsável e obediente em mim tem medo de desconsiderar a lei. Sou tentado a obedecer por medo e acho difícil pôr de lado a lei e, com amor, convidar todos para a comunhão. Obedeço por medo, porque não quero arriscar ser censurado pelos bispos e outras autoridades da Igreja. Como é que posso então amar com minha energia rebelde e ainda manter satisfeita minha criança obediente e responsável? Nos nossos retiros, quando me perguntam sobre a comunhão, cito duas regras, dizendo: “Temos uma regra que não permite que eu publicamente convide a todos para receber a comunhão. Temos outra regra (eu sorrio) que me diz para não recusar comunhão a ninguém que venha recebê-la. Faça o que você acredita que Jesus quer que você faça.” Aposto que você pode adivinhar o que acontece. Rezo pelo dia em que essas regras farisaicas acabem sendo postas de lado. Até lá, isso é o melhor que posso fazer, porque ainda sou uma criança responsável em processo de cura, assim como é o resto da Igreja. (p. 76-77)
Através dos séculos, quando os cristãos recebem a Eucaristia, as palavras permanecem as mesmas: “O Corpo de Cristo”, às quais a pessoa que comunga responde: “Amém”. Santo Agostinho lembrou às pessoas que comungam que “amém” quer dizer: “Sim, eu sou”. Ao dizer “amém”, o comungante faz a afirmação mais radical possível para um cristão, ou seja: “Sim, eu sou o corpo de Cristo”. Até o nome “cristão”, que vem de alter Christus (outro Cristo), declara: “Sim, eu sou o corpo de Cristo”. Durante os primeiros séculos da Igreja, todos os cristãos, e não somente os padres, eram considerados e reconhecidos como aqueles cuja identidade mais profunda era aquela do alter Christus. Porque nossa mais profunda identidade é Cristo (cf. Gal 2, 20), nossa resposta à lei canônica, à autoridade da Igreja ou a qualquer situação da vida reflete nosso verdadeiro eu, até o ponto de podermos dizer (...): “Eu fiz o que Jesus teria feito!” (p. 136)
(Matthew* Linn, Sheila Fabricant Linn, Dennis Linn; “Abuso espiritual & vício religioso”; Editora Verus, Campinas, SP, 2000) * Matthew é sacerdote jesuíta.

Homossexuais e Eucaristia (1)

Provavelmente a maioria dos homossexuais católicos vive um grave conflito interior em relação à Eucaristia. Muitos, simplesmente, abandonaram a Missa e a Comunhão, desde o momento em que assumiram (ainda que apenas perante si mesmos) a sua identidade homossexual. Outros tiveram experiências traumáticas ao procurarem a Confissão ou aconselhamento junto a um sacerdote. Alguns (talvez graças a uma sensibilidade de sua consciência) recorrem ao Sacramento da Reconciliação, desde que não estejam vivendo num relacionamento "estável", mas procuram a absolvição (e o acesso à Eucaristia) depois de cada "pecado contra castidade". Acredito que, devido à dolorosa ausência de formação espiritual específica, voltada diretamente aos homossexuais (Pastoral para Homossexuais!), existe grande confusão neste assunto. Quem não abandonou definitivamente a Igreja, procura "improvisar". Ou, então, encontra algum meio para "casar" a sua fé com a própria sexualidade. Como não encontrei ainda o texto que fale exatamente sobre esta questão, resolvi recorrer às opiniões mais "genéricas" que podem ser interpretadas, também, no contexto da homossexualidade. Nesta primeira parte da reflexão "Homossexuais e Eucaristia", trago o ponto de vista do Cardeal Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI). No livro-entrevista com Peter Seewald, "O sal da terra" (Editora Imago; Rio de Janeiro, 1997, p. 163-165), então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, fala sobre os "casais de segunda união" (aqueles que vivem uma vida conjugal sem o Sacramento do Matrimônio, por terem sido casados anteriormente com outras pessoas) e a sua relação com a Comunhão Eucarística. Faço esta citação por considerar bastante próxima a analogia destes casais (heterossexuais, mas não sacramentais) com o relacionamento homoafetivo. Digo logo que a opinião do atual Papa não é muito animadora. Na próxima postagem prometo apresentar um outro ponto de vista...
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[Cardeal Joseph Ratzinger sobre as pessoas que vivem num casamento civil não reconhecido pela Igreja]:
Neste caso, devo precisar primeiro, num sentido jurídico, que essas pessoas não estão excomungadas num sentido formal. A excomunhão é um conjunto de medidas punitivas da Igreja, é uma limitação de se ser membro da Igreja. Essa punição da Igreja não lhes foi imposta. Mesmo que, por assim dizer, o que salta logo à vista, o fato de não poderem comungar, se aplique a eles. Mas, como disse, não estão excomungados num sentido jurídico. São membros da Igreja que não podem comungar por causa de determinada situação na vida. Não há nenhuma dúvida de que isso seja um grande peso, precisamente no nosso mundo, em que o número de casamentos desfeitos aumenta cada vez mais. Julgo que esse peso pode ser suportado quando, por um lado, se torna claro que também existem outras pessoas que não podem comungar. O problema só se tornou tão dramático porque a comunhão é, por assim dizer, um rito social, e uma pessoa é realmente marcada quando não participa. Quando se voltar a tornar visível que muitas pessoas têm de dizer a si mesmas que têm alguma coisa na consciência, e que assim não podem ir à comunhão, e quando, como diz São Paulo, desse modo se voltar a fazer a distinção do Corpo de Cristo, logo tudo será diferente. É uma condição. O segundo ponto é que devem sentir que, apesar disso, são aceitas pela Igreja, que a Igreja sofre com elas. [Peter Seewald: "Parece uma ilusão".] Naturalmente, isso deveria poder tornar-se visível na vida de uma comunidade. E, pelo contrário, também se faz alguma coisa pela Igreja e pela humanidade ao tomar essa renúncia sobre si, ao dar, por assim dizer, testemunho do caráter único do casamento. Julgo que disso também faz parte algo que é muito importante: que se reconheça que o sofrimento e a renúncia podem ser algo positivo, e que temos de voltar a encontrar uma nova relação com eles. E, por fim, que voltemos a tomar consciência de que também se pode participar da missa, da Eucaristia, de modo fecundo, sem ir sempre à comunhão. É uma questão difícil, mas julgo que, quando diversos fatores que estão relacionados uns com os outros se resolverem, também isso será mais fácil de suportar. [Peter Seewald: "O padre pronuncia as palavras: “Felizes os convidados para a ceia do Senhor”. Por conseguinte, os outros deveriam sentir-se infelizes.] Infelizmente, a tradução tornou o sentido da frase pouco claro. Essa expressão não se relaciona diretamente com a Eucaristia. É tirada do Apocalipse e refere-se ao convite para o banquete nupcial definitivo, representado na Eucaristia. Quem, portanto, não pode comungar no momento, não tem de estar excluído do banquete nupcial eterno. Trata-se sempre de um exame de consciência, de que se pense ser algum dia capaz desse banquete eterno, e que agora também se comungue. Mesmo quem agora não possa comungar, é admoestado através desse apelo, como também todos os outros, a pensar no seu caminho, que um dia será aceito nesse banquete nupcial eterno. E talvez, porque sofreu, possa ter ainda melhor aceitação. (p. 163-165)
(Cardeal Joseph Ratzinger&Peter Seewald; “O sal da terra”; Editora Imago; Rio de Janeiro, 1997)

10 de janeiro de 2011

Batismo de Jesus

Duas frases chamam minha atenção na leitura do Evangelho neste Domingo, em que a Igreja, encerrando as festividades natalinas, celebra o Batismo do Senhor. Primeira é a reação de João Batista. O Evangelista diz que ele protestou (leia Mt 3, 14) . Protestou, porque não conseguia entender o motivo da presença de Jesus, naquele momento e naquele lugar. João pregava a conversão, chamava os pecadores à penitência e único que não se encaixava nesse apelo e nessa multidão era, exatamente, Jesus. Como se João falasse: "O que é que você está fazendo aqui? Este não é o seu lugar!" O protesto é um dos efeitos princiais da falta de compreensão. Existem coisas que ultrapassam a capacidade da nossa inteligência. E uma das formas mais frequentes de protesto é a rejeição. Mais uma vez voltamos à definição da homofobia. É um protesto, uma rejeição (muitas vezes violenta!) de algo e de alguém que um ser humano (um grupo, uma sociedade) não é capaz de compreender e, portanto, de aceitar, acolher ou, mesmo, tolerar.

A segunda frase é de Jesus. Se entrarmos no sentido exato e profundo daquilo que Jesus disse, vamos ficar espantados: "Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!". Parece nada demais, mas é Deus (que assumiu, em Jesus, a natureza humana, sem deixar ou diminuir a divina) quem diz a um ser humano: "nós devemos". Deus se rebaixa a ponto de tratar o homem como parceiro. E não um parceiro qualquer, mas um "filho muito amado". Mesmo que não tenhamos escutado literalmente, mas foi isso que o Pai do céu disse, no momento em que se realizava o nosso Batismo. É bom lembrarmos disso sempre. Por mais que nos sintamos rejeitados, desprezados e insignificantes, Deus diz: tu és o meu filho(-a) muito amodo(-a).

8 de janeiro de 2011

Homossexuais e defuntos

O que têm em comum os homossexuais e os defuntos, além do fato de que cada um dos seres humanos (hetero-, homo-, bi-, trans- e metrossexual), em algum momento, vai morrer e será, de fato, um defunto? Uma leitura atenta da legislação da Igreja (chamada também “Direito Canônico”) pode nos levar a conclusões interessantes. Os católicos mais velhos ainda se lembram de situações constrangedores e duplamente tristes de uma postura intransigente dos padres em relação ao sepultamento dos suicidas, bem como em questão de cremação do corpo (às vezes determinada previamente, no testamento, pelo próprio falecido). Não bastava a tristeza dos familiares causada pela perda de um ente querido, o ponto de vista da Igreja, enquanto instituição, agravava ainda mais o desespero deles. Vieram, então, as reformas promovidas pelo Concílio Vaticano II. Terminado em 1965, o Concílio foi sendo colocado em prática aos poucos. Entre os mais diversos assuntos, tinha sido revisto o ponto de vista acerca de suicídio e de cremação dos corpos. De fato, o Código de Direito Canônico, não menciona os suicidas e o Catecismo da Igreja Católica afirma: Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida. (n° 2282) E acrescenta: A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida. (n° 2283) Em relação à cremação dos corpos de defuntos o Código de Direito Canônico (Cân. 1176 § 3) afirma: A Igreja recomenda insistentemente que se conserve o costume de sepultar os corpos dos defuntos; mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido escolhida por motivos contrários à doutrina cristã. O comentário para este parágrafo esclarece: A disciplina da Igreja sobre a cremação de cadáveres, que por razões históricas era totalmente contrária, foi modificada [em 1963]. Com as modificações introduzidas pelo novo Ritual de Exéquias é possível realizar os ritos exequiais inclusive no próprio crematório, evitando porém o escândalo ou o perigo de idiferentismo religioso. (Código de Direito Canônico; Edições Loyola, São Paulo 2001; p. 297).
Voltando à pergunta inicial: o que têm a ver os homossexuais com o sepultamento de suicidas ou com a cremação dos corpos? A chave da resposta está no texto acima: A disciplina da Igreja (...), que por razões históricas era totalmente contrária, foi modificada. Hoje em dia, a disciplina da Igreja é totalmente contrária, por exemplo, à união estável entre as pessoas do mesmo sexo, à Comunhão Eucarística dos homossexuais que vivem um relacionamento homoerótico [em breve voltarei a este assunto], à adoção de filhos pelos casais homossexuais, à admissão dos gays ao sacerdócio, etc.
Sejam razões históricas, culturais, teológicas, morais ou outras, a Igreja – ainda que demoradamente – modifica a sua disciplina. Citei aqui apenas dois exemplos, mas podemos procurar mais: a posição sobre os escravos, negros, mulheres, sobre a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário ou, então, a opinião modificada sobre Galileu* ou Giordano Bruno e tantos outros personagens da história. Tendo em vista o fato de serem necessários séculos entre a condenação e a reabilitação de Galileu, podemos ficar moderadamente animados. Talvez não aconteça em nossa geração (embora pareça que agora o ritmo destas “descobertas” esteja um pouco mais acelerado), mas pelo menos não precisamos ter aquela sensação de um colapso total ou de estarmos numa rua sem saída. Sem dúvida, é grande e importante a contribuição da ciência que, unida a uma reflexão séria de mentes abertas, produz algumas modificações.
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*LEITURA ADICIONAL:
Profundas transformações sociais aconteceram nos últimos quinhentos anos, durante os quais a compreensão da natureza da matéria e da estrutura do universo passou por importantes revisões. Não há dúvida de que mais revisões estão por vir. Tais rupturas podem ser penosas quando se tenta atingir uma síntese confortável entre a ciência e a fé, principalmente se a Igreja se ligar a uma visão anterior das coisas e incorporar isso em seu sistema de crenças fundamentais. A harmonia de hoje pode ser a discórdia de amanhã. Nos séculos XVI e XVII, Copérnico, Kepler e Galileu (que acreditavam em Deus com muita convicção) desenvolveram uma ideia que os foi atraindo aos poucos: a de que o movimento dos planetas só poderia ser compreendido de forma adequada se a Terra se movesse em torno do Sol, em vez de o contrário. (...) Em princípio, muitos da comunidade científica não ficaram convencidos. Entretanto, ao final, os dados e a consistência das previsões da teoria foram aceitos até pelo mais cético dos cientistas. A Igreja Católica, contudo, sustentou sua oposição com firmeza, alegando que tal ponto de vista era incompatível com as Sagradas Escrituras. Olhando em retrospectiva, fica claro que se basear na Bíblia para fazer tais alegações é uma atitude bastante limitada; contudo, esse confronto alastrou-se durante décadas e causou, no fim das contas, danos consideráveis tanto à ciência quanto à Igreja. (Francis S. Collins, “A linguagem de Deus”; Editora Gente; São Paulo, 2007; p. 66-67)

7 de janeiro de 2011

preces natalinas

A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro facilita a participação dos fiéis nas Missas de domingos e solenidades, por meio de folheto que contém todos os textos litúrgicos daquele dia. Nas recentes celebrações, de 1 de janeiro (Santa Mãe de Deus, Maria) e da Epifania (2 de janeiro), as “Preces da Comunidade” trouxeram um destaque interessante. Não sei se é o autor dos textos que mudou ou foi algo que mudou no autor. Todos os católicos da cidade rezaram assim:
Pai Santo, sem o respeito mútuo diante das diferenças entre pessoas e povos. Dai-nos a graça de vencermos todas as formas de preconceito e discriminação (1 de janeiro).
Ainda mais generosas foram as preces do dia da Epifania (“dia dos reis” celebrado, neste ano, no dia 2 de janeiro):
- Pela Santa Igreja de Deus, para que, na fidelidade do Evangelho, anuncie sempre mais um mundo de paz e fraternidade, onde as diferenças sejam acolhidas de modo enriquecedor.
- Pelas comunidades cristãs, para que, através do testemunho e do efetivo empenho, sejam firmes construtoras de um mundo sem preconceito nem discriminação.
- Por todas as pessoas que carregam dentro de si sentimentos de divisão, preconceito e indiferença ao próximo, para que, deles libertadas, acolham a comunhão que brota da gruta de Belém.
- Pelas vítimas da divisão, da violência, preconceito e indiferença ao próximo e de tudo mais que segrega pessoas, para que, unidos a Cristo, perseverem na esperança de fraternidade e união.
- Por nós que, alegremente, celebramos a Epifania do Senhor, para que as alegrias da solenidade de hoje se traduzam em gestos concretos de acolhimento, partilha e sentido do bem comum.

Para completar o sonho que, em parte, tornou-se realidade, imaginei um representante da Pastoral para Homossexuais, vestido numa camisa do grupo, com uma logomarca bem visível, lendo estas preces para toda comunidade paroquial.
Impossível?
Acho que não...

6 de janeiro de 2011

Sinagoga de Nazaré

Que ninguém se escandalize: Jesus "saiu do armário" em grande estilo. Fala sobre isso a liturgia de hoje (leia Lc 4, 14-22a). Aliás, a passagem do Evangelho, lida hoje na Missa, relata apenas a primeira parte deste acontecimento. O termo "sair do armário" entrou de vez na linguagem moderna e está relacionado diretamente com a revelação da identidade homossexual de um indivíduo. Entretanto, no sentido mais amplo, podemos falar aqui de todo tipo de "autorrevelação". A pessoa assume e mostra aquilo que, de fato, é. Neste caso, o "armário" de Jesus era o período de, aproximadamente, 30 anos, chamado "vida oculta". Depois de passar este tempo todo, Jesus vai à sinagoga de Nazaré, faz a leitura da profecia de Isaías (61, 1-2a) e diz: "Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir" (Lc 4, 21). Podemos (nós, os gays) tirar algumas conclusões desta comparação. Primeira delas parece indicar a "saída do armário" como inevitável ou até necessária. Falam sobre isso muitos autores, entre os quais, psicólogos e terapeutas. Muitos homossexuais dão testemunho sobre a sensação de alívio, após este ato de coragem e apesar de vários "efeitos colaterais" do choque inicial. Outra conclusão pode não ser tão clara, mas o fato de Jesus ter aguardado até alcançar a idade adulta para se revelar como Messias, sugere certa precaução ou prudência, em questão do "momento exato", também para assumir publicamente a homossexualidade. Embora muitos adolescentes tenham experimentado fortes pressões (internas e externas), sem dúvida devem ter muita paciência e sabedoria para tal decisão. A leitura da passagem completa, inclusive sobre a reação dos ouvintes, leva-me a uma outra conclusão. Mais uma vez, vem na minha mente a frase de João Paulo II (na verdade, é uma afirmação do Concílio Vaticano II, citada e desenvolvida pelo Papa), mancionada algumas vezes neste blog (p.ex. na "Novena de Natal" - aqui): Pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, se uniu de certo modo a cada homem. (Encíclica Redemptor hominis, n° 13). O Evangelista Lucas conta o que aconteceu depois da declaração de Jesus. No início todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça, que procediam da sua boca (Lc 4, 22a) e diziam: Não é este o filho de José?" (v. 22b). A admiração transforma-se logo em questionamento e este tem uma direção clara: o pai (a mãe, a família). É notável a frequente preocupação dos pais, diante do filho ou filha homossexual que acaba de se revelar. Geralmente dizem: "O que os outros vão pensar e falar sobre nós, sobre nossa família?!". O evangelho de Lucas continua mostrando Jesus na tentativa de uma argumentação, um diálogo. Infelizmente não há diálogo: a estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga. Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual era construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo. Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se (Lc 4, 28-30). Eu leio este texto como uma declaração de amor e solidariedade de Jesus para com cada pessoa rejeitada e não compreendida, inclusive com cada homossexual que sai do armário e enfrenta uma tempestade. Jesus diz: eu também passei por isso e por outras coisas, ainda piores. Eu te amo, compreendo e acolho. Não temas. Eu estou contigo.