ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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5 de janeiro de 2011

Reflexões da virada 2010/2011

Eu não saí do armário, mas alguém, de repente, abriu a porta e várias pessoas me viram ali, dentro. E agora continuo convivendo com os mesmos amigos e conhecidos e ninguém toca no assunto. Tento captar as “entrelinhas” em nossas conversas. Por enquanto, nada. Não me importo muito com isso. Diria: “Por mim, tanto faz”. Fico rindo comigo, ao lembrar-me de como ficava irritado com esta resposta. Foi na época do meu “caso amoroso” (namoro, relacionamento... não sei a palavra certa) com o Deley. Naquele tempo, ouvir isso (“Por mim...”), soava como: “Não me importo com você”. Talvez esteja exagerando, mas então, foi essa a minha sensação. Anos se passaram, várias coisas aconteceram e hoje somos amigos. Agora não preciso mais “arrancar” as respostas dele nem puxar a conversa. Parece que aquela tensão de antigamente sumiu. Amadurecemos? Talvez. O tempo, ao passar, fez isso por nós? Talvez. Uma coisa sei hoje: o meu olhar a todas essas coisas ficou mais sereno. Estou pronto para um novo relacionamento? Ah, não tenho certeza. E não tenho pressa. Sem dúvida, existe, lá no fundo, uma disposição para isso. Mas, parece, estou mais exigente em relação ao eventual candidato. Surgiu, recentemente, um. Não passou no teste. Antigamente ficaria feliz com qualquer oferta. Hoje já é outra coisa. Talvez fique sozinho por resto da vida? Já não me assusta tanto esta perspectiva. Em algum lugar do meu coração está viva uma esperança de que vai aparecer aquele príncipe encantado (e encantador). Pode ser comodismo. Não sei dizer. Mas estou tranquilo.

Oitava de Natal (8° dia)


OS MAGOS

TEXTO BÍBLICO: Mt 2, 1. 11
Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente. (...) Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
O último dia da oitava de Natal traz a misteriosa cena com os magos do oriente. Celebra-se, ao mesmo tempo (por uma coincidência, neste ano) a festa da Epifania (em grego: "manifestação"). A tradição e a piedade popular atribuem aos magos a identidade de reis (não mencionada no Evangelho), provavelmente por influência do Salmo 71(72) [Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes; os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons. v. 10]. Também o número destes visitantes (três) é fruto da piedosa imaginação sugerida, talvez, pelo número de presentes. O sentido litúrgico e teológico leva-nos a contemplar o caráter universal da salvação que Jesus trouxe. De certo modo, os magos representam “todos os povos”, com suas tradições, culturas e histórias diferentes. Cristo veio a todos. Uma verdade que só aos poucos foi conquistando espaço no coração dos seguidores de Jesus (e, ainda hoje, continua encontrando resistência). E esta afirmação sobre a Igreja surpreende, porque na sua própria constituição está o envio (ou a ordem) de Jesus que, pouco antes de sua Ascensão, disse: Ide, pois, e ensinai a todas as nações (Mt 28, 19). Na versão de Marcos, a ordem do Senhor é ainda mais ampla: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura (Mc 16, 15). Lucas acrescenta: Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras (Lc 24, 45) que era necessário tudo isso que aconteceu com Ele e que se pregasse, em seu nome, a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações (cf. Lc 24, 47). Lembramos, entretanto, as dificuldades de Pedro, mesmo depois de ter recebido o Espírito Santo em Pentecostes (leia At 10, 9ss). O Senhor precisou usar de “efeitos especiais” para convencê-lo (Em verdade, reconheço que Deus não faz distinção de pessoas; At 10, 34) e levar os irmãos a esta convicção: Portanto, também aos pagãos concedeu Deus o arrependimento que conduz à vida! (At 11, 18). Também Paulo obteve esta descoberta em circunstâncias dramáticas: Era a vós [judeus] que em primeiro lugar se devia anunciar a palavra de Deus. Mas, porque a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os pagãos (At 13, 46). E, quando abraçou este princípio, tornou-se Apóstolo dos Gentios. E da própria causa. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus. (Gal 3, 28), pois Deus deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2, 4).
2) Quando Paulo fala de “judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher” (Gal 3, 28), usa os termos e conceitos daquela época. Hoje, evidentemente, não seriam mais “escravo e livre”, mas talvez “analfabeto e letrado”, “empregado e desempregado”, “rico e pobre”, “branco e não-branco”, “hetero- e homossexual”. Com outras palavras: as “categorias” de pessoas que, em Cristo, foram “anuladas”, para formar um só povo, uma só família, dependem da mentalidade de cada época e geração. Podemos dizer que Jesus é uma denúncia constante de desigualdades e exclusões. Enquanto, aos olhos humanos, existem sempre alguns “estranhos”, como se apresentam, exatamente, os magos do oriente (os estrangeiros), Deus mostra, através deles que, para Ele, todos são importantes. Importantes porque amados. E a presença de “estranhos” serve para quebrar a rotina, para despertar e sensibilizar.
3) Há séculos, existem interpretações do significado de cada um dos presentes trazidos pelos magos. A mais difundida decifra todos estes dons como uma expressão (ou profissão) de fé. O incenso é visto como o sinal de fé na divindade do recém-nascido, o ouro como o reconhecimento de sua realeza e a mirra (naquela época usada nos procedimentos médicos e nos funerais) expressa a fé na humanidade verdadeira do Messias e alude o desígnio divino de seu sofrimento e morte. Com outras palavras: em nome de toda a humanidade, os magos do oriente, adoraram Jesus e professaram a sua fé, reconhecendo nele verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o rei do universo e salvador do gênero humano, nascido para se oferecer no sacrifício redentor.
4) Animado com a presença dos misteriosos visitantes diante da manjedoura de Jesus, vou também eu, o estranho como eles. Compreendo que eles trouxeram algo que possuíam, dentro das suas condições. Eu não vou levar nem ouro (não tenho), nem mirra (não sei onde encontrar), nem mesmo o incenso (vou deixar aos padres esta tarefa). Simbolicamente, porém, vou apresentar tudo isso. A minha adoração e louvor ao meu Senhor, Deus e Rei. Vou levar, também, a minha homossexualidade, com tudo que ela significa para mim. Com suas sombras, angústias, dúvidas e medos. Mas, sem dúvida, com uma enorme gratidão pela graça de autoconhecimento e auto-aceitação. Com toda sensibilidade, própria desta condição. E, principalmente, com a mais preciosa experiência de amar e ser amado. Vou levar até Jesus, também, toda essa luta pela dignidade, respeito e reconhecimento que uma multidão dos meus irmãos e irmãs, no mundo inteiro, trava incansavelmente, enfrentando incompreensões, zombarias, humilhações, agressões e a própria morte. Entrego tudo isso nas mãos do Menino de Belém, confiante de que nenhum esforço ou sacrifício será em vão. E desejo muito que todos estes meus irmãos e irmãs, os homossexuais, fizessem a mesma visita a Jesus. Pois, quem o encontra, volta para casa por outro caminho, como os magos do oriente (confira Mt 2, 12).
ORAÇÃO
Hoje não podia ser diferente. O louvor e a súplica inspiram-se no trecho do Salmo 71(72), 10-14:

Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes;
os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons.
Todos os reis hão de adorá-lo,
hão de servi-lo todas as nações,
porque ele livrará o infeliz que o invoca,
e o miserável que não tem amparo.
Ele se apiedará do pobre e do indigente,
e salvará a vida dos necessitados.
Ele livrará da injustiça e da opressão,
e preciosa será a sua vida ante seus olhos.

Oitava de Natal (7° dia)


A PAZ

TEXTO BÍBLICO: Lc 2, 21
Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
A maternidade divina de Maria Santíssima, celebrada no primeiro dia do ano civil, permite-nos olhar ao mistério de Deus, de seu amor e de seus desígnios, com os olhos dela. O Papa João Paulo II falou muito em “entrar na escola de Maria” (confira a Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae”, aqui). Este olhar é um modo de enxergar o invisível, de descobrir o sentido profundo e oculto das coisas. É um olhar de delicadeza, respeito e ternura. Um olhar necessário em cada tipo de convivência. Seria demais pedir isso e desejar aos outros, no início de um ano novo? Augusto Cury, em seu livro “Maria, a maior educadora da História” (Editora Planeta; São Paulo, 2007), propõe um estudo da pessoa de Maria, do ponto de vista de um psicólogo: A imagem que se tem de Maria no inconsciente coletivo é de uma mulher pobrezinha, coitada, sofredora, muito diferente da sua personalidade à luz da psicologia. Maria era espantosamente forte, mais forte do que os fariseus de Jerusalém. Seu Filho, quando adulto, elevou a arte da intrepidez ao máximo. Nunca reclamou, nem quando foi abandonado. Nunca desistiu, nem quando traído. Nunca puniu, mesmo quando zombaram dele ou o torturaram. (p. 42-43) Maria educou, dentro das suas limitações, Jesus para que corresse risco, fosse intuitivo, tivesse compromisso social, contemplasse a fauna e a flora, protegesse sua emoção; para que ele experimentasse a natureza humana em grande estilo e se tornasse uma dádiva para a humanidade. (p. 145)
2) Desde 1968, a Igreja promove, junto à maternidade divina de Maria, o Dia Mundial da Paz. Notamos, imediatamente, a conexão com a “escola de Maria”. Esta escola nos ensina a buscar e construir a paz. Não é coisa fácil, exige um esforço, ou melhor: um sacrifício. Talvez o maior seja este: “amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem” (Mt 5, 44), mas “sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (cf. Mt 10, 16) e “se vos perseguirem numa cidade, fugi para uma outra” (Mt 10, 23) e, se fugirdes, não leveis ódio nem desejo de vingança, nos vossos corações. Não pagueis a ninguém o mal com o mal. Aplicai-vos a fazer o bem diante de todos os homens. Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens. Não vos vingueis uns aos outros (...). (Rm 12, 17-19). Já percebemos: a escola de Maria é a escola do Evangelho. Um dos “alunos” que concluiu seus estudos ali, e com louvor, foi São Francisco de Assis. A ele é atribuída autoria do famoso texto: Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz! Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. (...) Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido (...). É perdoando que se é perdoado...
3) Aqui na terra não se pode obter a paz a não ser que seja salvaguardado o bem das pessoas e que os homens comuniquem entre si, com confiança e espontaneidade, suas riquezas de coração e de inteligência. Vontade firme de respeitar a dignidade de outros homens e povos, ativa fraternidade na construção da paz, são coisas absolutamente necessárias. Deste modo a paz será também fruto do amor, que vai além do que a justiça é capaz de proporcionar. (...) É a razão por que todos os cristãos são insistentemente chamados a que, vivendo a verdade na caridade (cf. Ef 4, 15), se unam aos homens verdadeiramente pacíficos, a fim de implorar e estabelecer a paz. (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, n° 78)
ORAÇÃO
Oremos pela paz. Salmo 129(121):
Para os montes levanto os olhos:
de onde me virá socorro?
O meu socorro virá do Senhor,
Criador do céu e da terra.
Ele não permitirá que teus pés resvalem;
não dormirá aquele que te guarda.
Não, não há de dormir, nem adormecer
o guarda de Israel.
O Senhor é teu guarda,
o Senhor é teu abrigo, sempre ao teu lado.
De dia, o sol não te fará mal;
nem a lua durante a noite.
O Senhor te resguardará de todo o mal;
ele velará sobre tua alma.
O Senhor guardará os teus passos,
agora e para todo o sempre.

Oitava de Natal (6° dia)


O DOM
TEXTO BÍBLICO: Jo 1, 16-18
Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça. Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
O 6° dia da oitava de Natal coincide com o fim de ano. Neste último dia, inevitavelmente nos vem o resumo do ano inteiro. Foi bom? Foi ruim? ...foi diferente, com certeza. Coisas que aconteceram como consequências de atos e circunstâncias antigos e que, por sua vez, irão trazer reviravoltas no futuro. Tirei lições, mas se aprendi algo, saberei mais tarde. Em tudo que aconteceu, pude experimentar a veracidade da promessa do Senhor: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16, 13a). Com frequência não temos a capacidade de entender, nem a Palavra de Deus, nem os acontecimentos da nossa própria vida. Nem estes últimos, à luz daquela primeira. Mas Deus conhece as nossas limitações. Como ocorre com a Igreja ao longo dos séculos, acontece, também, com cada discípulo de Jesus, em particular. As coisas se “encaixam” aos poucos. Começamos a compreender, com mais clareza, a nós mesmos, o mundo que nos cerca, as coisas que acontecem e... o plano de Deus. Quanto mais compreendemos (ainda que por uma intuição apenas), ficamos mais dispostos a aceitar este plano, pois é um plano de amor e salvação. Eu sei que, a maioria das respostas, só teremos lá, na casa do Pai, mas, em sua infinita bondade, Ele nos mostra coisas novas e nos ajuda a caminhar. “A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1, 17). Este é o meu resumo do ano que está terminando.
2) Em seu livro “Direção espiritual e homossexualidade” (Edições Loyola; São Paulo, 2006), o padre jesuíta James L. Empereur, fala muito sobre a homossexualidade como um dom, até mesmo um carisma. Nada de deficiência ou desvio. Faz a comparação com a vocação à vida religiosa (consagrada), sem se esquecer de uma diferença importante: A comparação do carisma de gays e lésbicas com o chamado para a vida religiosa não constitui uma analogia completa. (...) Os religiosos são poucos em comparação à população total, e pede-se a elas que vivam de certa maneira, que carrega consigo certa qualidade contracultural. (...) Também os homossexuais são uma minoria. Também eles devem viver vidas contraculturais. (...) Ao contrário dos homens e mulheres religiosos, eles não tiveram escolha quanto à vocação. Não lhes perguntaram se queriam ser homossexuais. (...) O carisma não se baseia primariamente na escolha, mas é um dom oferecido a alguém para ser compartilhado porque o mundo necessita desse dom. (p. 5-6) A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (Jo 1, 17).
3) Padre James reflete sobre o sentido de homossexualidade como um carisma: Assim como Deus ofereceu certo dom aos sacerdotes, irmãos ou irmãs na vida religiosa para que seguissem o evangelho com certo caráter público, assim Ele ofereceu aos homens gays e mulheres lésbicas um dom sexual especial, que exibe de maneira pública a diversidade e a beleza de Deus em nosso mundo. Todas as criaturas de Deus expõem a obra de Deus, mas o mundo também precisa de variação um tanto surpreendente de sua sexualidade para ajudar seus irmãos e irmãs a ter uma compreensão maior da realidade de seu Deus. (p. 5) “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.” (Jo 1, 18).
4) Falando de analogias, encontramos um pensamento (ou uma lógica) semelhante, no livro-entrevista, “Cruzando o limiar da esperança”, que tem o Papa João Paulo II como protagonista, numa conversa com o escritor e jornalista italiano Vittorio Messori (Editora Francisco Alves; Rio de Janeiro, 1994): Poderíamos, de fato perguntar-nos: por que o Espírito Santo permitiu todas essas divisões (entre os discípulos de Jesus)? (...) Para esta pergunta podemos achar duas respostas. Uma, mais negativa, vê nas divisões o fruto amargo dos pecados dos cristãos. A outra, pelo contrário, mais positiva, é gerada pela confiança Naquele que tira o bem até mesmo do mal, das fraquezas humanas: por isso, não poderia ser que as divisões tenham sido também um caminho que levou a Igreja a descobrir as múltiplas riquezas contidas no Evangelho de Cristo e na redenção operada por Cristo? Talvez tais riquezas não pudessem vir à luz de maneira diferente... (p. 147).
“Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.” (Jo 1, 18).
ORAÇÃO
Neste fim de ano e diante de tanto pensamento positivo, louvo ao Senhor, mas também confio a Ele o ano de 2011 que está chegando. Salmo 65(66), 1-5:

Aclamai a Deus, toda a terra,
cantai a glória de seu nome,
rendei-lhe glorioso louvor.
Dizei a Deus: “Vossas obras são estupendas!
Tal é o vosso poder que os próprios inimigos vos glorificam.
Diante de vós se prosterne toda a terra,
e cante em vossa honra a glória de vosso nome.”
Vinde contemplar as obras de Deus:
Ele fez maravilhas entre os filhos dos homens.

Oitava de Natal (5° dia)

A INFÂNCIA

TEXTO BÍBLICO: Lc 2, 39-40
Após terem observado tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galiléia, à sua cidade de Nazaré. O menino ia crescendo e se fortificava: estava cheio de sabedoria, e a graça de Deus repousava nele.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
A recordação da infância traz, para todos nós, uma variedade de sensações, boas e ruins. Ninguém duvida, e a própria ciência confirma que, exatamente, naquele período ocorreu a grande parte de toda a nossa formação: física, emocional, psíquica, etc. É claro que preferimos voltar às recordações boas e felizes. Aquelas outras vêm sem serem chamadas. A maravilhosa riqueza do ser humano consiste, também, no fato de poder continuar crescendo, também na vida adulta e até na velhice (veja a postagem anterior sobre isso, aqui). As experiências do passado, particularmente da infância, positivas e negativas, tornam-se como que um “material de construção”. Vale lembrar que, a revelação sobre Jesus e a sua infância, refere-se, de certo modo, a cada um de nós (lembrando, como na recente “Novena de Natal”, as palavras de João Paulo II: “pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, se uniu de certo modo a cada homem”, Encíclica Redemptor hominis, n° 13). A Bíblia diz que “a graça de Deus repousava nele”. Nesta “construção” nunca estamos sozinhos. Precisamos, entretanto, aprender a acreditar nesta graça e a viver nela. Insisto, portanto, sobre a importância de uma pastoral para os homossexuais.
2) No seu livro “Vidas em arco-íris. Depoimentos sobre a homossexualidade” (Editora Record; Rio de Janeiro, 2006), Edith Modesto (Fundadora do Grupo de Pais de Homossexuais), reúne várias entrevistas com os gays e lésbicas, abordando os mais diversos assuntos. Um deles é a infância. Transcrevo dois depoimentos: [Otávio] – A minha homossexualidade veio crescendo comigo. Fez parte do meu dia-a-dia. Nunca escolhi – e ninguém escolhe – ser, e não teve época, nasceu comigo... Desde que comecei a perceber a diferença entre meninos e meninas, já sabia que gostava de meninos. E nunca duvidei ou tentei trocar a minha sexualidade. Hoje e sempre tive e tenho certeza dela. Ninguém alicia ninguém para ser homo. (p. 81) [Paulo] – Minha homossexualidade foi percebida por mim desde a infância. Só que eu não aceitava essa condição de maneira alguma. Hoje eu tenho certeza de que sou homossexual e isso não me atrapalha em nada. Já duvidei várias vezes porque não era fácil eu ter que esconder isso dos outros. Eu achava que era o único homossexual no mundo. (p. 78)
3) Os profissionais (psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, etc.) falam sobre a importância desse período na vida e na formação de cada ser humano. Kimeron H. Hardin, no livro “Auto-estima para homossexuais. Um guia para o amor próprio” (Editora Summus; São Paulo, 2000), escreve: Como uma criança gay ou lésbica, você provavelmente aprendeu a evitar discutir a sua sexualidade em desenvolvimento, especialmente as áreas consideradas anormais ou desviantes. Uma possível crença condicionada estabelecida para você nessa época pode, portanto, ter sido parecida com o “Nunca compartilhe os seus verdadeiros sentimentos íntimos com ninguém ou será rejeitado”. É possível ver como uma regra desse tipo pode inibir a sua capacidade de estabelecer relacionamentos apropriados quando adulto (p. 25). Por sua vez, Richard A. Isay, em sua obra “Tornar-se gay. O caminho da auto-aceitação” (Editora Summus; São Paulo, 1998), afirma: Muitos já se sentiram diferentes desde a infância, tendo preferido a companhia de meninas à de meninos, sendo mais musicais e artísticos, mais expressivos emocionalmente e menos interessados em esportes competitivos que seus amigos e irmãos. Estas percepções são reais; são expressões de sua masculinidade atípica. Muitos adolescentes e adultos gays que reprimiram seus sentimentos homossexuais na infância conseguem resgatar a lembrança de terem um comportamento atípico e inconscientemente a usam para se proteger da memória de um antigo desejo homossexual por eles rejeitado.
ORAÇÃO
Agradeço a Deus pela minha infância. Não por ter sido algo perfeito ou paradisíaco. Mas o Senhor me acompanhou e protegeu. Usando palavras do rei Davi: “Quem sou eu, Senhor Deus, e o que é minha casa, para que me tenhas conduzido até aqui?” (2Sm 7, 18). Quero, também, interceder por todas as crianças, especialmente aquelas que trazem em si a identidade homossexual.
Salmo 8, 2-5:

Ó Senhor, nosso Deus,
como é glorioso vosso nome em toda a terra!
Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus.
Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor
que confunde vossos adversários,
e reduz ao silêncio vossos inimigos.
Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos,
a lua e as estrelas que lá fixastes:
“Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele?
Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?”

Oitava de Natal (4° dia)


SIMEÃO E ANA

TEXTO BÍBLICO: Lc 2, 29-32
Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra. Porque os meus olhos viram a vossa salvação que preparastes diante de todos os povos, como luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
A essência desta cena do Evangelho (e também da Festa de Apresentação do Senhor, celebrada anualmente no dia 2 de fevereiro) consiste no mistério da presença (ou da vinda) de Messias, Deus que se fez homem, no meio da humanidade e, especialmente, entre o povo eleito. Por isso, a entrada ao Templo de Jerusalém, torna-se um ato solene e simbólico. É o momento anunciado, ao longo dos séculos, também no Salmo 23(24): Levantai, ó portas, os vossos frontões, erguei-vos, portas antigas, para que entre o rei da glória (é interessante notar que o mesmo texto é interpretado, também, como a profecia da ascensão de Jesus, a sua entrada triunfal, ao templo da glória celeste). Embora Jesus seja sempre o centro de todo o anúncio do Evangelho, chamam a nossa atenção, também, os personagens de cada cena. Neste caso, além de Maria e José, fazem-se presentes a profetisa Ana (mencionada, na liturgia, no dia seguinte desta oitava) e o velho Simeão. É ele, quem, digamos, “rouba a cena”. Sem ofuscar Jesus, é claro. Até porque Jesus é a “Luz que brilha nas trevas e as trevas não conseguiram dominá-la” (Jo 1, 5). O próprio Simeão, movido pelo Espírito Santo, afirma o mesmo: “Uma luz que brilha para os gentios e para a glória de Israel, o seu povo” (Lc 2, 32). O tema, ou melhor, a simbologia da luz, aparece na liturgia (em várias regiões do mundo, na Festa da Apresentação, realiza-se a bênção das velas), fazendo eco à “grande liturgia da luz”, celebrada na Vigília Pascal. Mais uma vez percebemos a ligação direta de Natal (a Encarnação do Verbo Divino), com o Mistério Pascal (Paixão, Morte e Ressurreição do Filho de Deus, o Salvador). Compreendo que Ana e Simeão não estiveram lá por acaso, o que pode significar que o Espírito Santo, Autor da Bíblia, aponta-os como uma inspiração para meditar e orar. Por mais que tentemos fugir do assunto, a velhice é algo muito real e a maioria de nós vai chegar lá.
2) O Papa João Paulo II dedicou aos anciãos uma carta (leia, na íntegra, aqui). Entre outras coisas, escreve: A Escritura conserva uma visão muito positiva do valor da vida. O homem permanece sempre criado à « imagem de Deus » (cf. Gn 1, 26), e cada idade possui a sua beleza e missão. Mais, a idade avançada encontra na palavra de Deus uma grande consideração, a tal ponto que a longevidade é vista como sinal da benevolência divina (cf. Gn 11, 10-32) [n° 6]. No templo de Jerusalém Maria e José, que levaram Jesus para oferecê-lo ao Senhor, ou melhor, de conformidade com a Lei, para resgatá-lo como primogênito, encontram o velho Simeão, que há longo tempo esperava o Messias. Tomando entre seus braços o Menino, ele bendiz a Deus e irrompe no Nunc dimittis: « Agora, Senhor, podes deixar o Teu servo partir em paz... » (Lc 2, 29). Junto a ele encontramos Ana, viúva de oitenta e quatro anos, assídua frequentadora do Templo, que naquela ocasião tem a alegria de ver a Jesus. O Evangelista anota que ela « pôs-se a louvar a Deus e a falar do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém » (Lc 2, 38). [n° 7] A velhice, portanto, à luz do ensinamento e no léxico próprio da Bíblia, apresenta-se como « tempo favorável » para levar a bom termo a aventura humana, e faz parte do desígnio divino a respeito de cada homem como tempo no qual tudo converge, para que ele possa compreender melhor o sentido da vida e alcançar a « sabedoria do coração ». (...) Ela constitui a etapa definitiva da maturidade humana e é expressão da bênção divina. [n° 8]
3) Richard A. Isay, em seu livro “Tornar-se gay. O caminho da auto-aceitação” (Editora Summus; São Paulo, 1998), dedica bastante espaço aos gays idosos (p. 125-137). Derrubando a ideia de que “Os homossexuais idosos estão fadados a viver na solidão”, descreve vários exemplos de tratamento psicoterapêutico, com excelentes resultados. O texto de Isay termina com as seguintes afirmações: Tornando-se mais positivamente gays e procurando um amor que nutra o seu bem-estar, os idosos costumam melhorar sua saúde física e fortalecer a sua saúde emocional, e podem, através disso, perpetuar a sua vida. (...) Os idosos podem demonstrar aos mais jovens e desanimados que é possível viver vidas longas, felizes e saudáveis. Tornando-se modelos de longevidade e amor, eles podem mostrar que envelhecer como gay não impossibilita novos relacionamentos ou contatos íntimos. O fato de os gays idosos se tornarem tais modelos é importante, não apenas para os gays jovens, mas para os próprios idosos também. Desta maneira, aqueles que estão envelhecendo podem lutar contra o preconceito de nossa sociedade, que faz com que um número excessivo de gays disponha-se a agir de maneira autodestrutiva. (p. 136-137)
ORAÇÃO
Lembremos hoje de todos os homossexuais idosos, muitos deles bastante sofridos e desanimados. Citando, ainda, Richard A. Isay: Os idosos homossexuais, ao contrário dos heterossexuais, tiveram que lidar durante toda a sua vida adulta com a estigmatização social, sentindo-se à margem da cultura predominante. Peçamos, também, para nós, o dom de encarar o tempo que passa, com simplicidade, alegria e otimismo. O ponto de partida para oração de hoje é o Salmo 70(71), 9-12. 17-20:

Na minha velhice não me rejeiteis;
ao declinar de minhas forças não me abandoneis,
porque falam de mim meus inimigos
e os que me observam conspiram contra mim,
dizendo: “Deus o abandonou.
Persegui-o e prendei-o,
porque não há ninguém para livrá-lo.”
Ó Deus, não vos afasteis de mim.
Meu Deus, apressai-vos em me socorrer.
Vós me tendes instruído, ó Deus, desde minha juventude,
e até hoje publico as vossas maravilhas.
Na velhice e até os cabelos brancos,
ó Deus, não me abandoneis,
a fim de que eu anuncie à geração presente a força de vosso braço,
e vosso poder à geração vindoura,
e vossa justiça, ó Deus, que se eleva à altura dos céus,
pela qual vós fizestes coisas grandiosas.
Senhor, quem vos é comparável?
Vós me fizestes passar por numerosas e amargas tribulações,
para, de novo, me fazer viver
e dos abismos da terra novamente me tirar.

foi sem querer


Aconteceu, justamente no período das Festas, uma inesperada interrupção de serviços do meu modem. No início deve ter sido falha minha (um atraso em pagamento da conta), mas depois tive que ouvir, algumas vezes, a promessa: "dentro de 24 horas a sua conexão será reestabelecida". 24 horas viraram 48, 72, 96... depois perdi a conta. Mas, finalmente, hoje estou aqui de volta. Mesmo tendo passado o tempo da Oitava de Natal, publico todos os textos pendentes. Talvez sirva para alguma coisa. Ah! Feliz 2011 para todos!