ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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5 de janeiro de 2011

Oitava de Natal (6° dia)


O DOM
TEXTO BÍBLICO: Jo 1, 16-18
Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça. Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
O 6° dia da oitava de Natal coincide com o fim de ano. Neste último dia, inevitavelmente nos vem o resumo do ano inteiro. Foi bom? Foi ruim? ...foi diferente, com certeza. Coisas que aconteceram como consequências de atos e circunstâncias antigos e que, por sua vez, irão trazer reviravoltas no futuro. Tirei lições, mas se aprendi algo, saberei mais tarde. Em tudo que aconteceu, pude experimentar a veracidade da promessa do Senhor: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16, 13a). Com frequência não temos a capacidade de entender, nem a Palavra de Deus, nem os acontecimentos da nossa própria vida. Nem estes últimos, à luz daquela primeira. Mas Deus conhece as nossas limitações. Como ocorre com a Igreja ao longo dos séculos, acontece, também, com cada discípulo de Jesus, em particular. As coisas se “encaixam” aos poucos. Começamos a compreender, com mais clareza, a nós mesmos, o mundo que nos cerca, as coisas que acontecem e... o plano de Deus. Quanto mais compreendemos (ainda que por uma intuição apenas), ficamos mais dispostos a aceitar este plano, pois é um plano de amor e salvação. Eu sei que, a maioria das respostas, só teremos lá, na casa do Pai, mas, em sua infinita bondade, Ele nos mostra coisas novas e nos ajuda a caminhar. “A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1, 17). Este é o meu resumo do ano que está terminando.
2) Em seu livro “Direção espiritual e homossexualidade” (Edições Loyola; São Paulo, 2006), o padre jesuíta James L. Empereur, fala muito sobre a homossexualidade como um dom, até mesmo um carisma. Nada de deficiência ou desvio. Faz a comparação com a vocação à vida religiosa (consagrada), sem se esquecer de uma diferença importante: A comparação do carisma de gays e lésbicas com o chamado para a vida religiosa não constitui uma analogia completa. (...) Os religiosos são poucos em comparação à população total, e pede-se a elas que vivam de certa maneira, que carrega consigo certa qualidade contracultural. (...) Também os homossexuais são uma minoria. Também eles devem viver vidas contraculturais. (...) Ao contrário dos homens e mulheres religiosos, eles não tiveram escolha quanto à vocação. Não lhes perguntaram se queriam ser homossexuais. (...) O carisma não se baseia primariamente na escolha, mas é um dom oferecido a alguém para ser compartilhado porque o mundo necessita desse dom. (p. 5-6) A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (Jo 1, 17).
3) Padre James reflete sobre o sentido de homossexualidade como um carisma: Assim como Deus ofereceu certo dom aos sacerdotes, irmãos ou irmãs na vida religiosa para que seguissem o evangelho com certo caráter público, assim Ele ofereceu aos homens gays e mulheres lésbicas um dom sexual especial, que exibe de maneira pública a diversidade e a beleza de Deus em nosso mundo. Todas as criaturas de Deus expõem a obra de Deus, mas o mundo também precisa de variação um tanto surpreendente de sua sexualidade para ajudar seus irmãos e irmãs a ter uma compreensão maior da realidade de seu Deus. (p. 5) “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.” (Jo 1, 18).
4) Falando de analogias, encontramos um pensamento (ou uma lógica) semelhante, no livro-entrevista, “Cruzando o limiar da esperança”, que tem o Papa João Paulo II como protagonista, numa conversa com o escritor e jornalista italiano Vittorio Messori (Editora Francisco Alves; Rio de Janeiro, 1994): Poderíamos, de fato perguntar-nos: por que o Espírito Santo permitiu todas essas divisões (entre os discípulos de Jesus)? (...) Para esta pergunta podemos achar duas respostas. Uma, mais negativa, vê nas divisões o fruto amargo dos pecados dos cristãos. A outra, pelo contrário, mais positiva, é gerada pela confiança Naquele que tira o bem até mesmo do mal, das fraquezas humanas: por isso, não poderia ser que as divisões tenham sido também um caminho que levou a Igreja a descobrir as múltiplas riquezas contidas no Evangelho de Cristo e na redenção operada por Cristo? Talvez tais riquezas não pudessem vir à luz de maneira diferente... (p. 147).
“Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.” (Jo 1, 18).
ORAÇÃO
Neste fim de ano e diante de tanto pensamento positivo, louvo ao Senhor, mas também confio a Ele o ano de 2011 que está chegando. Salmo 65(66), 1-5:

Aclamai a Deus, toda a terra,
cantai a glória de seu nome,
rendei-lhe glorioso louvor.
Dizei a Deus: “Vossas obras são estupendas!
Tal é o vosso poder que os próprios inimigos vos glorificam.
Diante de vós se prosterne toda a terra,
e cante em vossa honra a glória de vosso nome.”
Vinde contemplar as obras de Deus:
Ele fez maravilhas entre os filhos dos homens.

Oitava de Natal (5° dia)

A INFÂNCIA

TEXTO BÍBLICO: Lc 2, 39-40
Após terem observado tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galiléia, à sua cidade de Nazaré. O menino ia crescendo e se fortificava: estava cheio de sabedoria, e a graça de Deus repousava nele.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
A recordação da infância traz, para todos nós, uma variedade de sensações, boas e ruins. Ninguém duvida, e a própria ciência confirma que, exatamente, naquele período ocorreu a grande parte de toda a nossa formação: física, emocional, psíquica, etc. É claro que preferimos voltar às recordações boas e felizes. Aquelas outras vêm sem serem chamadas. A maravilhosa riqueza do ser humano consiste, também, no fato de poder continuar crescendo, também na vida adulta e até na velhice (veja a postagem anterior sobre isso, aqui). As experiências do passado, particularmente da infância, positivas e negativas, tornam-se como que um “material de construção”. Vale lembrar que, a revelação sobre Jesus e a sua infância, refere-se, de certo modo, a cada um de nós (lembrando, como na recente “Novena de Natal”, as palavras de João Paulo II: “pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, se uniu de certo modo a cada homem”, Encíclica Redemptor hominis, n° 13). A Bíblia diz que “a graça de Deus repousava nele”. Nesta “construção” nunca estamos sozinhos. Precisamos, entretanto, aprender a acreditar nesta graça e a viver nela. Insisto, portanto, sobre a importância de uma pastoral para os homossexuais.
2) No seu livro “Vidas em arco-íris. Depoimentos sobre a homossexualidade” (Editora Record; Rio de Janeiro, 2006), Edith Modesto (Fundadora do Grupo de Pais de Homossexuais), reúne várias entrevistas com os gays e lésbicas, abordando os mais diversos assuntos. Um deles é a infância. Transcrevo dois depoimentos: [Otávio] – A minha homossexualidade veio crescendo comigo. Fez parte do meu dia-a-dia. Nunca escolhi – e ninguém escolhe – ser, e não teve época, nasceu comigo... Desde que comecei a perceber a diferença entre meninos e meninas, já sabia que gostava de meninos. E nunca duvidei ou tentei trocar a minha sexualidade. Hoje e sempre tive e tenho certeza dela. Ninguém alicia ninguém para ser homo. (p. 81) [Paulo] – Minha homossexualidade foi percebida por mim desde a infância. Só que eu não aceitava essa condição de maneira alguma. Hoje eu tenho certeza de que sou homossexual e isso não me atrapalha em nada. Já duvidei várias vezes porque não era fácil eu ter que esconder isso dos outros. Eu achava que era o único homossexual no mundo. (p. 78)
3) Os profissionais (psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, etc.) falam sobre a importância desse período na vida e na formação de cada ser humano. Kimeron H. Hardin, no livro “Auto-estima para homossexuais. Um guia para o amor próprio” (Editora Summus; São Paulo, 2000), escreve: Como uma criança gay ou lésbica, você provavelmente aprendeu a evitar discutir a sua sexualidade em desenvolvimento, especialmente as áreas consideradas anormais ou desviantes. Uma possível crença condicionada estabelecida para você nessa época pode, portanto, ter sido parecida com o “Nunca compartilhe os seus verdadeiros sentimentos íntimos com ninguém ou será rejeitado”. É possível ver como uma regra desse tipo pode inibir a sua capacidade de estabelecer relacionamentos apropriados quando adulto (p. 25). Por sua vez, Richard A. Isay, em sua obra “Tornar-se gay. O caminho da auto-aceitação” (Editora Summus; São Paulo, 1998), afirma: Muitos já se sentiram diferentes desde a infância, tendo preferido a companhia de meninas à de meninos, sendo mais musicais e artísticos, mais expressivos emocionalmente e menos interessados em esportes competitivos que seus amigos e irmãos. Estas percepções são reais; são expressões de sua masculinidade atípica. Muitos adolescentes e adultos gays que reprimiram seus sentimentos homossexuais na infância conseguem resgatar a lembrança de terem um comportamento atípico e inconscientemente a usam para se proteger da memória de um antigo desejo homossexual por eles rejeitado.
ORAÇÃO
Agradeço a Deus pela minha infância. Não por ter sido algo perfeito ou paradisíaco. Mas o Senhor me acompanhou e protegeu. Usando palavras do rei Davi: “Quem sou eu, Senhor Deus, e o que é minha casa, para que me tenhas conduzido até aqui?” (2Sm 7, 18). Quero, também, interceder por todas as crianças, especialmente aquelas que trazem em si a identidade homossexual.
Salmo 8, 2-5:

Ó Senhor, nosso Deus,
como é glorioso vosso nome em toda a terra!
Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus.
Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor
que confunde vossos adversários,
e reduz ao silêncio vossos inimigos.
Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos,
a lua e as estrelas que lá fixastes:
“Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele?
Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?”

Oitava de Natal (4° dia)


SIMEÃO E ANA

TEXTO BÍBLICO: Lc 2, 29-32
Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra. Porque os meus olhos viram a vossa salvação que preparastes diante de todos os povos, como luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
A essência desta cena do Evangelho (e também da Festa de Apresentação do Senhor, celebrada anualmente no dia 2 de fevereiro) consiste no mistério da presença (ou da vinda) de Messias, Deus que se fez homem, no meio da humanidade e, especialmente, entre o povo eleito. Por isso, a entrada ao Templo de Jerusalém, torna-se um ato solene e simbólico. É o momento anunciado, ao longo dos séculos, também no Salmo 23(24): Levantai, ó portas, os vossos frontões, erguei-vos, portas antigas, para que entre o rei da glória (é interessante notar que o mesmo texto é interpretado, também, como a profecia da ascensão de Jesus, a sua entrada triunfal, ao templo da glória celeste). Embora Jesus seja sempre o centro de todo o anúncio do Evangelho, chamam a nossa atenção, também, os personagens de cada cena. Neste caso, além de Maria e José, fazem-se presentes a profetisa Ana (mencionada, na liturgia, no dia seguinte desta oitava) e o velho Simeão. É ele, quem, digamos, “rouba a cena”. Sem ofuscar Jesus, é claro. Até porque Jesus é a “Luz que brilha nas trevas e as trevas não conseguiram dominá-la” (Jo 1, 5). O próprio Simeão, movido pelo Espírito Santo, afirma o mesmo: “Uma luz que brilha para os gentios e para a glória de Israel, o seu povo” (Lc 2, 32). O tema, ou melhor, a simbologia da luz, aparece na liturgia (em várias regiões do mundo, na Festa da Apresentação, realiza-se a bênção das velas), fazendo eco à “grande liturgia da luz”, celebrada na Vigília Pascal. Mais uma vez percebemos a ligação direta de Natal (a Encarnação do Verbo Divino), com o Mistério Pascal (Paixão, Morte e Ressurreição do Filho de Deus, o Salvador). Compreendo que Ana e Simeão não estiveram lá por acaso, o que pode significar que o Espírito Santo, Autor da Bíblia, aponta-os como uma inspiração para meditar e orar. Por mais que tentemos fugir do assunto, a velhice é algo muito real e a maioria de nós vai chegar lá.
2) O Papa João Paulo II dedicou aos anciãos uma carta (leia, na íntegra, aqui). Entre outras coisas, escreve: A Escritura conserva uma visão muito positiva do valor da vida. O homem permanece sempre criado à « imagem de Deus » (cf. Gn 1, 26), e cada idade possui a sua beleza e missão. Mais, a idade avançada encontra na palavra de Deus uma grande consideração, a tal ponto que a longevidade é vista como sinal da benevolência divina (cf. Gn 11, 10-32) [n° 6]. No templo de Jerusalém Maria e José, que levaram Jesus para oferecê-lo ao Senhor, ou melhor, de conformidade com a Lei, para resgatá-lo como primogênito, encontram o velho Simeão, que há longo tempo esperava o Messias. Tomando entre seus braços o Menino, ele bendiz a Deus e irrompe no Nunc dimittis: « Agora, Senhor, podes deixar o Teu servo partir em paz... » (Lc 2, 29). Junto a ele encontramos Ana, viúva de oitenta e quatro anos, assídua frequentadora do Templo, que naquela ocasião tem a alegria de ver a Jesus. O Evangelista anota que ela « pôs-se a louvar a Deus e a falar do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém » (Lc 2, 38). [n° 7] A velhice, portanto, à luz do ensinamento e no léxico próprio da Bíblia, apresenta-se como « tempo favorável » para levar a bom termo a aventura humana, e faz parte do desígnio divino a respeito de cada homem como tempo no qual tudo converge, para que ele possa compreender melhor o sentido da vida e alcançar a « sabedoria do coração ». (...) Ela constitui a etapa definitiva da maturidade humana e é expressão da bênção divina. [n° 8]
3) Richard A. Isay, em seu livro “Tornar-se gay. O caminho da auto-aceitação” (Editora Summus; São Paulo, 1998), dedica bastante espaço aos gays idosos (p. 125-137). Derrubando a ideia de que “Os homossexuais idosos estão fadados a viver na solidão”, descreve vários exemplos de tratamento psicoterapêutico, com excelentes resultados. O texto de Isay termina com as seguintes afirmações: Tornando-se mais positivamente gays e procurando um amor que nutra o seu bem-estar, os idosos costumam melhorar sua saúde física e fortalecer a sua saúde emocional, e podem, através disso, perpetuar a sua vida. (...) Os idosos podem demonstrar aos mais jovens e desanimados que é possível viver vidas longas, felizes e saudáveis. Tornando-se modelos de longevidade e amor, eles podem mostrar que envelhecer como gay não impossibilita novos relacionamentos ou contatos íntimos. O fato de os gays idosos se tornarem tais modelos é importante, não apenas para os gays jovens, mas para os próprios idosos também. Desta maneira, aqueles que estão envelhecendo podem lutar contra o preconceito de nossa sociedade, que faz com que um número excessivo de gays disponha-se a agir de maneira autodestrutiva. (p. 136-137)
ORAÇÃO
Lembremos hoje de todos os homossexuais idosos, muitos deles bastante sofridos e desanimados. Citando, ainda, Richard A. Isay: Os idosos homossexuais, ao contrário dos heterossexuais, tiveram que lidar durante toda a sua vida adulta com a estigmatização social, sentindo-se à margem da cultura predominante. Peçamos, também, para nós, o dom de encarar o tempo que passa, com simplicidade, alegria e otimismo. O ponto de partida para oração de hoje é o Salmo 70(71), 9-12. 17-20:

Na minha velhice não me rejeiteis;
ao declinar de minhas forças não me abandoneis,
porque falam de mim meus inimigos
e os que me observam conspiram contra mim,
dizendo: “Deus o abandonou.
Persegui-o e prendei-o,
porque não há ninguém para livrá-lo.”
Ó Deus, não vos afasteis de mim.
Meu Deus, apressai-vos em me socorrer.
Vós me tendes instruído, ó Deus, desde minha juventude,
e até hoje publico as vossas maravilhas.
Na velhice e até os cabelos brancos,
ó Deus, não me abandoneis,
a fim de que eu anuncie à geração presente a força de vosso braço,
e vosso poder à geração vindoura,
e vossa justiça, ó Deus, que se eleva à altura dos céus,
pela qual vós fizestes coisas grandiosas.
Senhor, quem vos é comparável?
Vós me fizestes passar por numerosas e amargas tribulações,
para, de novo, me fazer viver
e dos abismos da terra novamente me tirar.

foi sem querer


Aconteceu, justamente no período das Festas, uma inesperada interrupção de serviços do meu modem. No início deve ter sido falha minha (um atraso em pagamento da conta), mas depois tive que ouvir, algumas vezes, a promessa: "dentro de 24 horas a sua conexão será reestabelecida". 24 horas viraram 48, 72, 96... depois perdi a conta. Mas, finalmente, hoje estou aqui de volta. Mesmo tendo passado o tempo da Oitava de Natal, publico todos os textos pendentes. Talvez sirva para alguma coisa. Ah! Feliz 2011 para todos!

26 de dezembro de 2010

Oitava de Natal (3° dia)


OS INOCENTES

TEXTO BÍBLICO: Mt 2, 3. 16-18
A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele. (...) Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar e Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado os magos. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias: “Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem” (Jr 31, 15).
LEITURA/REFLEXÃO
1)
O mistério da iniquidade manifesta-se na pessoa de Herodes de maneira assustadora. Até onde pode chegar a maldade de um ser humano? O texto do Evangelho diz que o rei “ficou perturbado”. De todo o contexto podemos constatar que a causa maior desse estado emocional foi o medo. O medo que gera a agressão. Os cientistas observam que um animal assustado, ferido ou ameaçado, costuma reagir com o ataque. O ser humano também. Augusto Cury diz, no seu livro “Revolucione sua qualidade de vida” (Ed. Sextante, Rio de Janeiro, 2002): Em psiquiatria, chamamos o medo doentio de fobia. Fobia é uma reação exagerada, desproporcional, diante de um objeto, situação ou ser vivo. (p. 23). O mesmo autor, em outra sua obra, ajuda-nos a entrar no mistério de iniquidade do rei Herodes: Muitos ditadores, psicopatas e líderes políticos cometeram atrocidades porque deram ao pensamento consciente um crédito que ele nunca teve. Não entenderam que o pensamento é irreal, que pensar é interpretar, e interpretar é passível de inúmeras distrações maiores ou menores, dependendo do exercício da sabedoria. Se as interpretações forem contaminadas, seremos capazes de cometer injustiças, de discriminar, julgar, excluir. (...) Quem compreende esse processo aprende que os fortes compreendem e os fracos julgam. Descobre que os fortes acolhem e perdoam, mas os fracos condenam e excluem. (A. Cury, “Os segredos do Pai-nosso”, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2006, p. 35-36).
2) Alguém vai dizer que comparar os meninos-mártires de Belém aos jovens e adultos, agredidos e até assassinados, por causa de sua homossexualidade, seria uma blasfêmia. Mas, quem mede a inocência ou o pecado, é somente Deus. A verdade é que uma orientação sexual, independente do livre arbítrio, portanto involuntária (e é uma ignorância falar de "opção sexual"!), não pode ser a razão ou justificativa para atitudes de humilhação e agressão. Aliás, o que é que pode justificar a agressão? Foi, exatamente, neste ano de 2010, que recebemos mais notícias sobre a perseguição de homossexuais. Acredito que apenas tivemos mais acesso a estes acontecimentos, o “mundo gay” ganhou um pouco mais de visibilidade. Neste terceiro dia da oitava de Natal, quero prestar homenagem a todos os homossexuais, vítimas de homofobia. Em primeiro lugar aqueles que foram mortos literalmente. Outros, que morreram, assassinados “indiretamente”, ou seja, foram levados ao suicídio, devido uma insuportável pressão dos outros (às vezes dos próprios familiares!). Muitos tiveram uma morte “moral” ou “social”, caíram em depressão ou adquiriram outro tipo de doença psíquica, pelo mesmo motivo. Outros ainda, sobreviveram, mas a vida deles nunca mais voltou ao normal. Não temos estatísticas e nem podemos ter, mas com certeza, são milhares. Se isso ajudar, quero dizer que acredito no potencial espiritual do sacrifício. Não fosse assim, Deus não teria permitido, nem a morte dos inocentes em Belém, nem sangue dos mártires, derramado ao longo dos séculos e nem mesmo a morte do seu próprio Filho Jesus Cristo. A fé cristã baseia-se nesta verdade: o sangue dos mártires é a semente dos cristãos. Por analogia, digo: os homossexuais, perseguidos e mortos, ao oferecerem o seu sofrimento a Deus, em união com Cristo crucificado, estão levando à vitória definitiva, toda esta luta pelo reconhecimento, pela aceitação e pelo direito de amar, que ainda continua, em todos os continentes do mundo.
3) Relembremos algumas notícias:
- No Iraque, somente em 2008, foram registrados 285 homossexuais executados por ordem do governo, entre eles vários adolescentes, “suspeitos” desse “crime contra a democracia”.
- O número de gays assassinados no Brasil tem aumentado nos últimos anos. Em 2007 foram 122, em 2008 – 190 e em 2009 – 198 (registrados). Depois do Brasil, o México (35) e os Estados Unidos (25) foram os países mais homofóbicos em 2009.
- A maioria dos agressores (54%) conhece a vítima – 16% são da própria família e 38% são conhecidos, colegas de trabalho ou vizinhos.
- Seth Walsh estava na sexta série quando a sua mãe declarou-lhe o amor incondicional, depois da “revelação” de homossexualidade feita por ele. Infelizmente, a reação da mãe era exceção. As agressões, humilhações, insultos e provocações repetidas, sem cessar, pelos colegas, quebraram o Seth por dentro. Enforcou-se no quintal de sua casa. Tinha treze anos.
- Billy Lucas, 15 anos, de Greensburg, Indiana, enforcou-se por mesmo motivo e Asher Brown, 13 anos, dos subúrbios de Houston, atirou em si mesmo.
- Tyler Clementi, o calouro da Universidade Rutgers, pulou da ponte George Washington, em Nova York, depois que seu encontro sexual com outro homem foi transmitido on-line.
Estes são apenas alguns exemplos dos vários suicídios de jovens adolescentes gays que foram hostilizados por colegas, em pessoa ou on-line, nas últimas semanas e meses. Embora muitos meios de comunicação falem de “estatísticas forjadas pelo lobby gay”, é necessário e urgente que tenhamos consciência, de que não se trata apenas de estatísticas, mas de vida humana e, também, de que estamos recebendo apenas algumas informações daquilo que acontece, todos os dias, na maioria dos países do mundo.
ORAÇÃO
Rezemos hoje por todos que têm mente e coração mesquinhos como Herodes. Peçamos, também, que o Senhor da Vida e do Amor, receba no seu Reino, todos aqueles que foram martirizados por causa de sua homossexualidade, console e sustente os que sofrem todo tipo de perseguição e que conceda a todos os governantes, legisladores, educadores e pais, uma luz e o coração sensível, para que façam o que deve ser feito nesta situação de emergência. O Salmo 123(124) é proclamado na Festa dos Santos Inocentes:

Se o Senhor não estivesse ao nosso lado
enquanto os homens investiram contra nós,
com certeza nos teriam devorado
no furor de sua ira contra nós.
Então as águas nos teriam submergido,
a correnteza nos teria arrastado
e, então, por sobre nós teriam passado
essas águas sempre mais impetuosas.
O laço arrebentou-se de repente,
e assim nós conseguimos libertar-nos.
O nosso auxílio está no nome do Senhor,
do Senhor que fez o céu e fez a terra!

Oitava de Natal (2° dia)


JOÃO

TEXTO BÍBLICO: (1 Jo 4, 7-9)
Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
27 de dezembro, o segundo dia da oitava de Natal, a Igreja dedica a São João, Apóstolo e Evangelista. A figura de João é, sem dúvida, simpática. Foi ele o “discípulo predileto” do Senhor, repousou a sua cabeça no peito do Mestre durante a Última Ceia, permaneceu ao pé da cruz junto com Maria, enquanto os outros preferiram salvar a própria pele. Foi ele que correu ao túmulo vazio de Jesus e acreditou na sua ressurreição. Finalmente, o único que não teve a morte violenta no martírio, foi agraciado com as visões da Jerusalém celeste e dos horrores (e da glória) do fim dos tempos. O Papa Bento XVI dedicou a ele, em 2006, três catequeses, no ciclo dedicado aos Apóstolos (confira: [1], [2], [3]). Aqui, neste blog, o discípulo amado já teve um destaque, no trecho do livro de Anselm Grün "Lutar e amar - Como os homens encontram a si mesmos" (aqui), em um surpreendente contexto homoerótico.
2) Os evangelistas trazem, entretanto, mais alguns pormenores sobre João. Dois episódios tornam a imagem deste homem mais humana, sem diminuir os seus méritos e ofuscar a sua simpatia. Um deles é o pedido, dirigido ao Mestre e feito, junto com o irmão Tiago, com o auxílio da mãe de ambos (cf.: Mt 20, 20-28; Mc 10, 35-45; Lc 22, 24-30). Certamente sem ter compreendido o sentido da missão de Jesus e a dimensão do seu reino, pediram que os dois pudessem se sentar, um à direita e outro à esquerda do Senhor. Jesus teve paciência (e até tentou explicar algo a eles), mas os "colegas" nem tanto. Todos os discípulos do Mestre revelaram-se... humanos. Esta também é uma mensagem importante para nós. Aliás, é muito interessante ler o Evangelho a partir deste princípio. Vamos encontrar pessoas humanas, normais, limitadas, mesmo assim, sempre amadas e acompanhadas por Jesus. Como seria mais serena a nossa vida, se todos admitissem que nem os apóstolos, nem os cristãos (de todas as gerações e de todos os “níveis”) são anjos, mas sim, seres humanos. Viva a humildade!
3) O outro episódio com João (de novo acompanhado pelo irmão), merece um pouco mais de atenção. O Evangelista Lucas (em Lc 9, 51-56) conta que quando Jesus resolveu dirigir-se a Jerusalém, enviou antes alguns mensageiros, para prepararem as localidades pelo caminho para a sua passagem. Surgiu logo um obstáculo: os habitantes de uma aldeia, samaritanos, não quiseram receber Jesus. Vendo isso, Tiago e João (apelidados “Boanerges”, Filhos do Trovão; cf. Mc 3, 17) disseram: “Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma?”. Com outras palavras: “Mestre, vamos fazer aqui uma pequena Sodoma?”. Eles se lembravam bem o que tinha acontecido com aquela grande cidade (veja Gn 20, 1-29). E tudo isso por causa da falta de hospitalidade, exatamente como neste caso da aldeia samaritana. Jesus confirma esta motivação da destruição de Sodoma quando, em outro momento, prepara os discípulos para a missão: Se entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saindo pelas suas praças, dizei: “Até o pó que se nos pegou da vossa cidade, sacudimos contra vós; sabei, contudo, que o Reino de Deus está próximo”. Digo-vos: naqueles dias haverá um tratamento menos rigoroso para Sodoma. (Lc 10, 10-12). Muitos autores debatem aquela interpretação da destruição de Sodoma como castigo divino motivado pela homossexualidade. Durante vários séculos circulava essa distorção, a ponto de atribuir aos homossexuais o “nome” de “sodomitas”. Pensando bem, é justamente o contrário o que acontece. O pecado de Sodoma continua sendo cometido, exatamente, contra os homossexuais e tantos outros seres humanos que estão sendo rejeitados, desprezados e humilhados. Voltando ao episódio com João e Tiago, notamos uma diferença. É Jesus que anuncia novas todas as coisas. Como se dissesse: “Muito bem, meus discípulos. Vejo que vocês fizeram o trabalho de casa: conhecem as Escrituras. Mas precisam aprender uma lição. O tempo de reagir com violência, por qualquer motivo que seja, acabou”. Lucas descreve isso assim: Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. “Não sabeis de que espírito sois animados. O Filho do homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para salvá-las”. (Lc 9, 55-56). Quem sabe, João e Tiago, lembraram-se de um trecho do Salmo 76(77), 11: Eu confesso que esta é a minha dor: “A mão de Deus não é a mesma: está mudada!”. Ou, então, viram-se, de repente, na figura de Jonas, frustrado pelo fato de Deus não ter destruído a cidade de Nínive (leia o capítulo 5 do Livro de Jonas).
4) Finalmente, uma imagem de João que deve ficar gravada no nosso coração. Diz uma tradição que João, já idoso, andava no meio dos cristãos e repetia sem parar: “Filhinhos, amai-vos uns aos outros!”.
ORAÇÃO
Vamos pedir ao Senhor que nos ensine a interpretar corretamente a Bíblia e, também, que nos ajude a reagir de acordo com a sua vontade em todas as situações da vida. Mas, antes de tudo, precisamos louvar ao Senhor. A inspiração será o texto escrito por João (Ap 4, 11. 5, 9):

Vós sois digno, Senhor nosso Deus,
de receber honra, glória e poder!
Porque todas as coisas criastes,
é por vossa vontade que existem
e subsistem porque vós mandais.
Vós sois digno, Senhor nosso Deus,
de o livro nas mãos receber
e de abrir suas folhas lacradas!
Porque fostes por nós imolado;
para Deus nos remiu vosso sangue
dentre todas as tribos e línguas,
dentre os povos da terra e nações.

Oitava de Natal (1° dia)


A FAMÍLIA

TEXTO BÍBLICO: (Col 3, 13-15)
Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. E sede agradecidos.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
No domingo dentro da oitava de Natal a Igreja celebra a solenidade da Sagrada Família: Jesus, Maria e José. Neste ano é o dia seguinte depois do Natal. A doutrina católica dedica bastante tempo e espaço ao assunto de família. Basta lembrar a Exortação Apostólica de João Paulo II “Familiaris consortio” (1981), as mensagens para os encontros mundiais das famílias e tantos outros textos. O valor e a importância da família são inquestionáveis. Entretanto, os documentos da Igreja, o que é compreensível, falam geralmente de um ideal de família. É claro, abordam os problemas familiares também, mas sempre com referência ao “projeto de Deus”. Eu acredito que cada família seja um projeto de Deus e um projeto muito singular. Quem sabe, um dia, vamos receber algum texto, assinado pelo Papa, ou por alguma Congregação da Santa Sé, que ajude às famílias a lidar, com claro e delicado amor, com os seus membros homossexuais (em geral, embora não exclusivamente, trata-se de filhos). E espero que não se pareça esse texto com as declarações da Sagrada Congregação para a Educação Católica (de 1974): “Para que se possa falar de pessoa amadurecida, o instinto sexual deve superar duas formas típicas de imaturidade: o narcismo e a homossexualidade, e conseguir a heterossexualidade”. Obviamente, é esse tipo de pensamento que deve ser superado e não a homossexualidade.
2) Seria impossível citar aqui todos os testemunhos, tanto dos pais, quanto dos filhos, sobre o “impacto de revelação” (ou descoberta) da homossexualidade de um(a) adolescente ou jovem membro de família. Costuma ser chocante, também, a “saída do armário” de um pai ou uma mãe de família. Por isso, acredito, é de suma importância, o zelo em construir um relacionamento familiar muito sincero, carinhoso, aberto ao diálogo e ao conhecimento mútuo. É como um “pano de fundo” para eventual declaração do tipo: “pai, mãe, sou gay”. De fato, não é a própria declaração, ou melhor, a própria verdade revelada, que causa o choque maior. É o coração duro e fechado, frieza no relacionamento, falta de diálogo, arrogância e ignorância. Por isso é ótimo que a Igreja procura tanto cuidar de casais, mesmo antes de iniciarem a vida em comum. O celebrante, no casamento, pergunta aos noivos se estão dispostos a receber e educar os filhos que Deus lhes confiar e espera um “sim” que dure por todo o resto da vida deles. Em cada “curso de noivos” deveria ser mencionada a probabilidade de “filhos que Deus lhes confiar”: deficientes física ou mentalmente (quanto preconceito ainda existe em relação a estes filhos) e – por que não? – diferentes sexualmente (ou melhor: em sua sexualidade). Aquela expressão “receber e educar” deve ser, com certeza, entendida como: “vocês estão dispostos a AMAR os filhos que Deus lhes confiar?”.
3) Kimeron Hardin, professor de anestesia, psiquiatria e psicologia em São Francisco, é o autor do livro “Auto-estima para homossexuais. Um guia para o amor próprio” (Edições GLS Summus, São Paulo, 2000). Entre diversos assuntos, fala, evidentemente, sobre a família: Muito da linguagem nas mensagens que você envia a si mesmo vem de comunicação que aprendeu no início de sua vida familiar. Você pode chegar a ouvir essas mensagens repetidas na voz da pessoa que as enviou quando você era criança. É importante reconhecer as várias formas de comunicação que a sua família usava para que você se torne capaz de enxergar como pode ainda estar se comunicando consigo mesmo e com os outros. (p. 44-45) O fato de a sua família acreditar em alguma coisa a seu respeito não faz disso uma verdade. O fato de eles terem lhe ensinado o que sabiam não significa que o que eles lhe ensinaram seja útil para você. De fato, em muitos casos, o que eles aprenderam como heterossexuais a respeito de gays e lésbicas ou a respeito de sexualidade de uma maneira geral pode ser bem doentio e nocivo para você. (p. 53-54)
ORAÇÃO
Rezemos por todas as famílias e, especialmente, por aquelas que têm, entre seus membros, os homossexuais. (Sl 88[89], 2-3. 6-7. 15-16):

Cantarei, eternamente, as bondades do Senhor;
minha boca publicará sua fidelidade de geração em geração.
Com efeito, vós dissestes:
A bondade é um edifício eterno.
Vossa fidelidade firmastes no céu.
Senhor, os céus celebram as vossas maravilhosas obras,
e na assembléia dos anjos a vossas fidelidade.
Quem poderá, nas nuvens, igualar-se a Deus?
Quem é semelhante ao Senhor entre os filhos de Deus?
A justiça e o direito são o fundamento de vosso trono,
a bondade e a fidelidade vos precedem.
Feliz o povo que vos sabe louvar:
caminha na luz de vossa face, Senhor.