ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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26 de dezembro de 2010

Oitava de Natal (2° dia)


JOÃO

TEXTO BÍBLICO: (1 Jo 4, 7-9)
Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
27 de dezembro, o segundo dia da oitava de Natal, a Igreja dedica a São João, Apóstolo e Evangelista. A figura de João é, sem dúvida, simpática. Foi ele o “discípulo predileto” do Senhor, repousou a sua cabeça no peito do Mestre durante a Última Ceia, permaneceu ao pé da cruz junto com Maria, enquanto os outros preferiram salvar a própria pele. Foi ele que correu ao túmulo vazio de Jesus e acreditou na sua ressurreição. Finalmente, o único que não teve a morte violenta no martírio, foi agraciado com as visões da Jerusalém celeste e dos horrores (e da glória) do fim dos tempos. O Papa Bento XVI dedicou a ele, em 2006, três catequeses, no ciclo dedicado aos Apóstolos (confira: [1], [2], [3]). Aqui, neste blog, o discípulo amado já teve um destaque, no trecho do livro de Anselm Grün "Lutar e amar - Como os homens encontram a si mesmos" (aqui), em um surpreendente contexto homoerótico.
2) Os evangelistas trazem, entretanto, mais alguns pormenores sobre João. Dois episódios tornam a imagem deste homem mais humana, sem diminuir os seus méritos e ofuscar a sua simpatia. Um deles é o pedido, dirigido ao Mestre e feito, junto com o irmão Tiago, com o auxílio da mãe de ambos (cf.: Mt 20, 20-28; Mc 10, 35-45; Lc 22, 24-30). Certamente sem ter compreendido o sentido da missão de Jesus e a dimensão do seu reino, pediram que os dois pudessem se sentar, um à direita e outro à esquerda do Senhor. Jesus teve paciência (e até tentou explicar algo a eles), mas os "colegas" nem tanto. Todos os discípulos do Mestre revelaram-se... humanos. Esta também é uma mensagem importante para nós. Aliás, é muito interessante ler o Evangelho a partir deste princípio. Vamos encontrar pessoas humanas, normais, limitadas, mesmo assim, sempre amadas e acompanhadas por Jesus. Como seria mais serena a nossa vida, se todos admitissem que nem os apóstolos, nem os cristãos (de todas as gerações e de todos os “níveis”) são anjos, mas sim, seres humanos. Viva a humildade!
3) O outro episódio com João (de novo acompanhado pelo irmão), merece um pouco mais de atenção. O Evangelista Lucas (em Lc 9, 51-56) conta que quando Jesus resolveu dirigir-se a Jerusalém, enviou antes alguns mensageiros, para prepararem as localidades pelo caminho para a sua passagem. Surgiu logo um obstáculo: os habitantes de uma aldeia, samaritanos, não quiseram receber Jesus. Vendo isso, Tiago e João (apelidados “Boanerges”, Filhos do Trovão; cf. Mc 3, 17) disseram: “Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma?”. Com outras palavras: “Mestre, vamos fazer aqui uma pequena Sodoma?”. Eles se lembravam bem o que tinha acontecido com aquela grande cidade (veja Gn 20, 1-29). E tudo isso por causa da falta de hospitalidade, exatamente como neste caso da aldeia samaritana. Jesus confirma esta motivação da destruição de Sodoma quando, em outro momento, prepara os discípulos para a missão: Se entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saindo pelas suas praças, dizei: “Até o pó que se nos pegou da vossa cidade, sacudimos contra vós; sabei, contudo, que o Reino de Deus está próximo”. Digo-vos: naqueles dias haverá um tratamento menos rigoroso para Sodoma. (Lc 10, 10-12). Muitos autores debatem aquela interpretação da destruição de Sodoma como castigo divino motivado pela homossexualidade. Durante vários séculos circulava essa distorção, a ponto de atribuir aos homossexuais o “nome” de “sodomitas”. Pensando bem, é justamente o contrário o que acontece. O pecado de Sodoma continua sendo cometido, exatamente, contra os homossexuais e tantos outros seres humanos que estão sendo rejeitados, desprezados e humilhados. Voltando ao episódio com João e Tiago, notamos uma diferença. É Jesus que anuncia novas todas as coisas. Como se dissesse: “Muito bem, meus discípulos. Vejo que vocês fizeram o trabalho de casa: conhecem as Escrituras. Mas precisam aprender uma lição. O tempo de reagir com violência, por qualquer motivo que seja, acabou”. Lucas descreve isso assim: Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. “Não sabeis de que espírito sois animados. O Filho do homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para salvá-las”. (Lc 9, 55-56). Quem sabe, João e Tiago, lembraram-se de um trecho do Salmo 76(77), 11: Eu confesso que esta é a minha dor: “A mão de Deus não é a mesma: está mudada!”. Ou, então, viram-se, de repente, na figura de Jonas, frustrado pelo fato de Deus não ter destruído a cidade de Nínive (leia o capítulo 5 do Livro de Jonas).
4) Finalmente, uma imagem de João que deve ficar gravada no nosso coração. Diz uma tradição que João, já idoso, andava no meio dos cristãos e repetia sem parar: “Filhinhos, amai-vos uns aos outros!”.
ORAÇÃO
Vamos pedir ao Senhor que nos ensine a interpretar corretamente a Bíblia e, também, que nos ajude a reagir de acordo com a sua vontade em todas as situações da vida. Mas, antes de tudo, precisamos louvar ao Senhor. A inspiração será o texto escrito por João (Ap 4, 11. 5, 9):

Vós sois digno, Senhor nosso Deus,
de receber honra, glória e poder!
Porque todas as coisas criastes,
é por vossa vontade que existem
e subsistem porque vós mandais.
Vós sois digno, Senhor nosso Deus,
de o livro nas mãos receber
e de abrir suas folhas lacradas!
Porque fostes por nós imolado;
para Deus nos remiu vosso sangue
dentre todas as tribos e línguas,
dentre os povos da terra e nações.

Oitava de Natal (1° dia)


A FAMÍLIA

TEXTO BÍBLICO: (Col 3, 13-15)
Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. E sede agradecidos.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
No domingo dentro da oitava de Natal a Igreja celebra a solenidade da Sagrada Família: Jesus, Maria e José. Neste ano é o dia seguinte depois do Natal. A doutrina católica dedica bastante tempo e espaço ao assunto de família. Basta lembrar a Exortação Apostólica de João Paulo II “Familiaris consortio” (1981), as mensagens para os encontros mundiais das famílias e tantos outros textos. O valor e a importância da família são inquestionáveis. Entretanto, os documentos da Igreja, o que é compreensível, falam geralmente de um ideal de família. É claro, abordam os problemas familiares também, mas sempre com referência ao “projeto de Deus”. Eu acredito que cada família seja um projeto de Deus e um projeto muito singular. Quem sabe, um dia, vamos receber algum texto, assinado pelo Papa, ou por alguma Congregação da Santa Sé, que ajude às famílias a lidar, com claro e delicado amor, com os seus membros homossexuais (em geral, embora não exclusivamente, trata-se de filhos). E espero que não se pareça esse texto com as declarações da Sagrada Congregação para a Educação Católica (de 1974): “Para que se possa falar de pessoa amadurecida, o instinto sexual deve superar duas formas típicas de imaturidade: o narcismo e a homossexualidade, e conseguir a heterossexualidade”. Obviamente, é esse tipo de pensamento que deve ser superado e não a homossexualidade.
2) Seria impossível citar aqui todos os testemunhos, tanto dos pais, quanto dos filhos, sobre o “impacto de revelação” (ou descoberta) da homossexualidade de um(a) adolescente ou jovem membro de família. Costuma ser chocante, também, a “saída do armário” de um pai ou uma mãe de família. Por isso, acredito, é de suma importância, o zelo em construir um relacionamento familiar muito sincero, carinhoso, aberto ao diálogo e ao conhecimento mútuo. É como um “pano de fundo” para eventual declaração do tipo: “pai, mãe, sou gay”. De fato, não é a própria declaração, ou melhor, a própria verdade revelada, que causa o choque maior. É o coração duro e fechado, frieza no relacionamento, falta de diálogo, arrogância e ignorância. Por isso é ótimo que a Igreja procura tanto cuidar de casais, mesmo antes de iniciarem a vida em comum. O celebrante, no casamento, pergunta aos noivos se estão dispostos a receber e educar os filhos que Deus lhes confiar e espera um “sim” que dure por todo o resto da vida deles. Em cada “curso de noivos” deveria ser mencionada a probabilidade de “filhos que Deus lhes confiar”: deficientes física ou mentalmente (quanto preconceito ainda existe em relação a estes filhos) e – por que não? – diferentes sexualmente (ou melhor: em sua sexualidade). Aquela expressão “receber e educar” deve ser, com certeza, entendida como: “vocês estão dispostos a AMAR os filhos que Deus lhes confiar?”.
3) Kimeron Hardin, professor de anestesia, psiquiatria e psicologia em São Francisco, é o autor do livro “Auto-estima para homossexuais. Um guia para o amor próprio” (Edições GLS Summus, São Paulo, 2000). Entre diversos assuntos, fala, evidentemente, sobre a família: Muito da linguagem nas mensagens que você envia a si mesmo vem de comunicação que aprendeu no início de sua vida familiar. Você pode chegar a ouvir essas mensagens repetidas na voz da pessoa que as enviou quando você era criança. É importante reconhecer as várias formas de comunicação que a sua família usava para que você se torne capaz de enxergar como pode ainda estar se comunicando consigo mesmo e com os outros. (p. 44-45) O fato de a sua família acreditar em alguma coisa a seu respeito não faz disso uma verdade. O fato de eles terem lhe ensinado o que sabiam não significa que o que eles lhe ensinaram seja útil para você. De fato, em muitos casos, o que eles aprenderam como heterossexuais a respeito de gays e lésbicas ou a respeito de sexualidade de uma maneira geral pode ser bem doentio e nocivo para você. (p. 53-54)
ORAÇÃO
Rezemos por todas as famílias e, especialmente, por aquelas que têm, entre seus membros, os homossexuais. (Sl 88[89], 2-3. 6-7. 15-16):

Cantarei, eternamente, as bondades do Senhor;
minha boca publicará sua fidelidade de geração em geração.
Com efeito, vós dissestes:
A bondade é um edifício eterno.
Vossa fidelidade firmastes no céu.
Senhor, os céus celebram as vossas maravilhosas obras,
e na assembléia dos anjos a vossas fidelidade.
Quem poderá, nas nuvens, igualar-se a Deus?
Quem é semelhante ao Senhor entre os filhos de Deus?
A justiça e o direito são o fundamento de vosso trono,
a bondade e a fidelidade vos precedem.
Feliz o povo que vos sabe louvar:
caminha na luz de vossa face, Senhor.

25 de dezembro de 2010

A PALAVRA


A Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14) - a frase do Prólogo do Evangelho de São João marca o dia de hoje. É o mistério da Encarnação, no qual, Deus eterno e todo-poderoso, invisível, tornou-se visível, palpável, próximo. Emmanuel, o Deus-conosco. A mesma frase leva-me, também, a refletir um pouco sobre a palavra em si. Enquanto a Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós, a palavra humana continua na sua, tão comum, banalização e manipulação. É tão fácil usar a palavra (humana e divina) como instrumento de agressão. Às vezes, um texto, começa por despertar esperanças e, com a leitura mais atenta, acaba dissipando as mesmas esperanças...
Encontrei, nesta noite de Natal, o texto de homilia do bispo de Viseu (Portugal). Fiquei animado com o título: "A pior crise é a rejeição" (leia aqui), pois foi o mesmo assunto que abordei no 6° dia da recente "Novena de Natal" (aqui). O bispo, dom Ilídio Leandro, afirma: A crise pior é a rejeição – não haver lugar para as pessoas. E, depois, cita as situações de crianças, de famílias e de pobres. Ah, eu sei que seria um exagero esperar que um prelado falasse sobre a homofobia, a rejeição de homossexuais. Mas - pensei - tocar no assunto de rejeição, pode ajudar, também, a NOSSA CAUSA. Depois voltei à leitura. Chamou a minha atenção um trecho que fala de "famílias que não são reconhecidas nem protegidas na sua identidade e missão". Lembrei, então, de todas aquelas opiniões (lançadas, inclusive, pelos bispos católicos) sobre "o perigo" e "a ameaça" que a homossexualidade e os homossexuais representam em relação à família. Sem muito esforço podemos encontrar inúmeros exemplos de intolerância, desprezo e até ódio, justamente dentro de famílias que, "cumprindo a sua missão", rejeitam os homossexuais, em particular, os próprios filhos. Em conclusão, diria que a família que rejeita e agride os homossexuais está realmente ameaçada em sua estrutura e identidade. Pois, como ensina a Igreja: a família, no desígnio de Deus, é constituida como uma comunhão de amor e acolhimento. Vamos pensar nisso...

24 de dezembro de 2010

Onde nasceu Jesus?


Já era quase meia-noite. E Noite de Natal. Há duas horas, esta família tinha voltado para casa, depois da solene "Missa do galo". Mas, agora, a casa toda apresentava sinais de um violento terremoto. A árvore do Natal no chão, misturando-se os enfeites com os restos de comida e cacos que sobraram dos pratos. O pai, já bastante ebriagado, abria mais uma lata de cerveja. Estava sozinho, diante da tv, resmungando de vez em quando. A mãe, havia uma hora, permanecia sentada ao lado de um leito, no hospital. Acompanhava o seu filho único, o adolescente, que acabou sendo trazido à emergência, exatamente nesta noite santa. Hematomas na região dos olhos, nariz inchado e pior, duas costelas quebradas. Na verdade, não só costelas estavam quebradas, mas o rapaz todo: a sua alma, o seu coração, a sua dignidade. Para ele, o mundo tinha acabado. Em alguns momentos de lucidez pensava que certamente tinha cometido um erro ao escolher, justamente, a noite de Natal, para revelar aos pais a sua homossexualidade. Doeram os socos e pontapés recebidos do próprio pai. Doiam, ainda mais, as palavras do pai que disse ter aceito um filho drogado, ou até morto, do que um "boiola". A mãe, em silêncio, com olhos cheios de lágrimas olhava ao filho e relambrava as palavras do Papa que padre tinha lido na Missa: "demos graças a Deus por sua bondade conosco, e proclamemos alegremente aos que nos cercam a boa notícia de que Deus nos oferece libertar-nos de tudo que nos oprime; Ele nos dá a esperança, nos dá a vida".
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No mesmo bairro, uma outra família estava reunida em torno da mesa. Não costumavam ir à "Missa do galo". Acabada a sobremesa, iniciava-se a troca de presentes. Neste ano, a ceia de Natal era diferente. Houve um pouco de tensão e timidez no início, mas logo o clima de alegre acolhimento tomou conta de todos. Todos olhavam ao novo integrante da festa. Era o olhar de curiosidade, mas também de admiração. É que o filho único, jovem de 19 anos, obteve a aceitação dos pais para, pela primeira vez, trazer para casa, o seu namorado. O relacionamento deles já completava uns 6 meses, mas só em novembro do mesmo ano, o filho tomou coragem e conversou com os pais. Agora, tendo sido superada a difícil surpresa inicial, o jovem podia apresentar-lhes o amor de sua vida. Os pais retribuiram à surpresa do filho. Em segredo, prepararam um presente para o namorado dele. Mas o maior presente para os dois foi a declaração da mãe, confirmada pelo pai, que a partir deste momento, eles se alegravam, não apenas com um, mas com dois filhos. Filhos muito queridos.
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...onde nasceu Jesus?
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23 de dezembro de 2010

NOVENA DE NATAL (conclusões)


Pois bem, terminei a "Novena de Natal" antes do tempo. Para mim foi uma experiência ótima. Um pouco de mobilização para leitura, um pouco de desabafo. Caso houver Leitores, tenho a impressão que para os homossexuais a "novena" foi católica demais e para os católicos, foi homossexual demais. Com outras palavras: é uma previsão de insatisfação de ambos os lados (repito: caso houver Leitores). Mas, para mim, foi tão bom que já estou pensando em fazer uma "Oitava de Natal"... que tal?
Para quem quiser ter uma visão geral daquilo que foi feito (e, eventualmente, voltar a um dos assuntos), faço aqui um resumo:
A introdução (aqui) menciona um texto do Papa João Paulo II sobre Jesus que "se uniu (no mistério de sua Encarmação) a cada ser humano". Ainda que a novena quase não cita o próprio texto, todas as reflexões podem ser compreendidas melhor à luz desta afirmação.
1° dia (aqui): "O contexto histórico" - uma reflexão sobre Deus que entrou na história e sobre cada um de nós que, também, um dia aparecemos neste mundo.
2° dia (aqui): "Os segredos da gestação" - além de ser uma homenagem à vida, a postagem traz uma das teorias sobre possíveis fontes de homossexualidade.
3° dia (aqui): "A figura paterna" - reflexão sobre a importância de um pai na vida de cada pessoa e considerações sobre efeitos dolorosos da "figura paterna" negativa.
4° dia (aqui): "A mãe" - é uma homenagem a todas as mães e à sua sensibilidade. O texto traz, também, o testemunho de uma mãe. Há referência ao Grupo de Pais de Homossexuais (fundado por Edith Modesto).
5° dia (aqui): "Os anjos" - reflexão sobre a importância de amigos na vida de cada homossexual.
6° dia (aqui): "A rejeição" - faz analogia entre a falta de hospitalidade dos habitantes de Belém e o fenômeno da homofobia.
7° dia (aqui): "Os pastores" - uma meditação (e, por que não: uma proposta) sobre a pastoral de/para/com homossexuais e a sua importância.
8° dia (aqui): "O casamento" - aborda o tema de "casamento gay". Tenho consciência de que as minas opiniões pessoais são bastante polêmicas.
9° dia (aqui): "O amor" - uma visão de amor orientado pela ética personalista. O amor, com o qual não se brinca. Difícil, mas não impossível.


Aproveitando o momento, faço votos
de FELIZ NATAL
e ABENÇOADO ANO de 2011 (inteiro!)
-com muito mais amor
e muito menos preconceito !!!

22 de dezembro de 2010

NOVENA DE NATAL (9° dia)


O AMOR

TEXTO BÍBLICO: Lc 2, 13-14
De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste cantando a Deus: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e na terra, paz aos que são do seu agrado!”
LEITURA/REFLEXÃO
1)
Quando o amor invade o coração de uma pessoa, parece que todos os anjos cantam “Glória”. Deus que é amor criou-nos à sua imagem e semelhança. Por isso, a nossa existência só se realiza plenamente no amor, ou seja, existimos para amar e para sermos amados. O Papa Bento XVI ao apresentar, em janeiro de 2006, a sua primeira Encíclica “Deus caritas est”, confessou: A palavra «amor» hoje está tão sem brilho, tão remexida e tão abusada, que quase dá medo de pronunciá-la com os próprios lábios. E, no entanto, é uma palavra primordial, expressão da realidade primordial; não podemos simplesmente abandoná-la, temos de retomá-la, purificá-la e dar-lhe novamente seu esplendor originário, para que possa iluminar nossa vida e conduzi-la pelo caminho correto. Esta consciência me levou a escolher o amor como tema de minha primeira encíclica. (leia na íntegra aqui)
2) O Catecismo da Igreja Católica, por sua vez, assim resume o mistério do homem: Por ser à imagem de Deus, o indivíduo humano tem a dignidade de pessoa: ele não é apenas uma coisa, mas alguém. É capaz de conhecer-se, de possuir-se e de doar-se livremente e entrar em comunhão com outras pessoas (n° 357). A expressão “o homem não é apenas uma coisa, mas alguém”, evoca uma belíssima teoria (ou melhor: uma corrente de pensamento), chamada “a ética personalista” (ou “personalismo ético”). É à luz desta linha de pensamento (o “padrão” na doutrina católica), que vamos formular a reflexão de hoje. A ética personalista tem muitos mestres e seguidores (p. ex.: Jacques Maritain, Gabriel Marcel, Max Scheler), entre os quais destaca-se Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II. Todos os seus escritos, mesmo os anteriores ao pontificado, possuem os “rastros” desta ética. No livro de Paulo Cesar da Silva “A ética personalista de Karol Wojtyla” (Editora Santuário, Aparecida – SP, 2001), encontramos um resumo deste pensamento. Vou transcrever aqui algumas frases desta obra e quero propor (novamente) a leitura no “contexto existencial” de um homossexual. Acredito, pois, que o uso do termo “pessoa (s)”, apesar de clara e geral conotação heterossexual, permite uma reflexão, também neste ponto de vista, embora um dos princípios do personalismo seja o conceito de “ser humano como varão e mulher” (confira no site wikilingue – aqui).
3) Frases do livro "A ética personalista de Karol Wojtyla" de Paulo Cesar da Silva:
> A pessoa, só amando, possibilita a completa atualização de suas potencialidades. (p. 99)
> A existência humana se afirma na proporção em que o homem existe para os outros, ou numa frase limite: ser é amar. (p. 126)
> A pessoa é o ser que, conforme a própria natureza, tem o amor como referência. O dever e o amor, na pessoa, de certo modo, identificam-se. O homem, que assume a própria dignidade de ser pessoa, responde com o amor. (p. 103)
> A ausência do amor é a causa principal de destruição que começa pela pessoa e, em seguida, chega à comunidade. (p. 127)
> O amor contradiz a si quando nega a responsabilidade pela pessoa, sendo, na verdade, egoísmo com a pretensão de ser chamado de amor. (p. 178)
> A pessoa humana, precisamente porque se distingue ontologicamente das coisas e dos animais, não pode ser objeto de uso. Ela, unicamente, pode ser objeto do amor, o que exclui o uso. O amor é a norma personalista. O uso coisifica a pessoa, frustrando o seu processo de plenificação pessoal. (p. 16)
> Usar a pessoa é exatamente o oposto de amá-la. (p. 132)
> A esfera sexual, de forma particular, cria condições para que a pessoa seja tratada como objeto de uso. (p. 99)
> O impulso sexual é um elemento natural, inato e integrante do ser humano que se expressa pelo agir pessoal. Este impulso se origina, no homem, não de uma iniciativa livre de sua parte, mas é um ocorrer que alicerça, por sua vez, os autênticos atos humanos, refletidos e livres, autodeterminados e responsáveis. (...) A pessoa não se responsabiliza pelo que ocorre nela quanto à esfera sexual porque ela não é a sua autora. (p. 134)
> O amor afetivo gera necessidades e desejos de diversos topos na pessoa, como o de aproximação, de tornarem-se íntimas e de outro ser exclusivo. (p. 163)
> Quando as pessoas se amam verdadeiramente, o pudor é assimilado pelo amor (...), então não mais se envergonham de conviver sexualmente. (p. 200)
> O amor à pessoa é que justifica as várias expressões da ternura. A pessoa humana tem o direito de receber e de expressá-la. (...) A ternura é arte de sentir o homem todo, toda a sua pessoa, todas as vibrações da sua alma, até as mais profundas, pensando sempre no seu verdadeiro bem (p. 212-213)
ORAÇÃO
Neste último dia da novena, às vésperas de Natal, vou louvar a Deus que é amor, pela graça de poder participar de sua divina natureza. Vou pedir por todos aqueles que estão vivendo as maravilhas do amor, por aqueles que o procuram (ou esperam por ele) e, finalmente, por tantos que padecem todas as dores de um amor imperfeito, traído, rompido... e muitas outras situações. Que Menino-Amor, nascido em Belém, traga a todos nós uma nova força de amar e nunca desistir. Como inspiração, leiamos o trecho do Salmo 62(63), 2- 9. No final, rezemos um “Pai nosso” e uma “Ave Maria”.


Sois vós, ó Senhor, o meu Deus!
Desde a aurora ansioso vos busco!
A minh'alma tem sede de vós,
minha carne também vos deseja,
como terra sedenta e sem água!
Venho, assim, contemplar-vos no templo,
para ver vossa glória e poder.
Vosso amor vale mais do que a vida:
e por isso meus lábios vos louvam.
Quero, pois, vos louvar pela vida,
e elevar para vós minhas mãos!
A minh'alma será saciada,
como em grande banquete de festa;
cantará a alegria em meus lábios,
ao cantar para vós meu louvor!
Penso em vós no meu leito, de noite,
nas vigílias suspiro por vós!
Para mim fostes sempre um socorro;
de vossas asas à sombra eu exulto!
Minha alma se agarra em vós;
com poder vossa mão me sustenta.

20 de dezembro de 2010

NOVENA DE NATAL (8° dia)


O CASAMENTO

TEXTO BÍBLICO: Mt 1, 18. 24b-25
Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. (...) José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa. E, sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus.

LEITURA/REFLEXÃO
1) A posição da Igreja sobre o Matrimônio não deixa a mínima sombra de dúvida. Com muita frequência podemos ler e ouvir a confirmação do matrimônio heterossexual como o único possível e legítimo. Ainda mais, diante de inúmeras campanhas e decisões de parlamentos em vários países, a voz da Igreja parece ficar cada vez mais forte e clara. De certo modo, resumo de todo este ensinamento, encontramos no documento da Congregação para a Doutrina da Fé (de 2003), assinado pelo, então, Prefeito dessa Congregaçã, o Cardeal Joseph Ratzinger (hoje o Papa Bento XVI), "Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais" (leia na íntegra aqui):
Nenhuma ideologia pode cancelar do espírito humano a certeza de que só existe matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente, que através da recíproca doação pessoal, que lhes é própria e exclusiva, tendem à comunhão das suas pessoas. Assim se aperfeiçoam mutuamente para colaborar com Deus na geração e educação de novas vidas. (...) Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. (...) Em presença do reconhecimento legal das uniões homossexuais ou da equiparação legal das mesmas ao matrimônio, com acesso aos direitos próprios deste último, é um dever opor-se-lhe de modo claro e incisivo. Há que abster-se de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação. Nesta matéria, cada qual pode reivindicar o direito à objeção de consciência.
2) A minha opinião pessoal pode não agradar a muitos ativistas de movimento GLBTS que lutam, justamente, pelo reconhecimento das uniões de homossexuais (ao menos na lei civil), pelo direito de adotar filhos e pelo direito de pensão, entre outros. Há quem lute pelo reconhecimento de um casamento entre pessoas do mesmo sexo na Igreja, ou seja, como uma das formas de Sacramento do Matrimônio. A minha opinião é que toda esta luta (especialmente no último caso citado) é como aquela de Dom Quixote de la Mancha (de Cervantes): uma luta contra moinhos. Com outras palavras, acredito que a Igreja nunca vai abrir mão de sua doutrina sobre o matrimônio (casamento). Alguém vai dizer que isso é um monopólio? Respondo: sim, é um monopólio. Usando termos populares: é como se Deus entregasse os seus direitos autorais à Igreja. O casamento é, por natureza (em sua dimensão sobrenatural), hetrossexual. Pois bem, não há, então, solução? De novo apresento apenas a minha opinião pessoal: acho que se gasta, inutilmente, muita energia numa batalha já perdida, somente por causa de uma palavra - o casamento (matrimônio). Se este já tem a sua definição, para que tentar - em vão - alterar isso? Agora faço uma observação, para que esta opinião fique mais clara. Não sou contra o amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Ao contrário, acredito muito neste amor (pretendo dedicar a este assunto a meditação do 9° dia desta novena). Não sou contra o reconhecimento civil e religioso (!) das uniões estáveis entre as pessoas homossexuais. Falo apenas sobre o uso de termo "casamento" ou "matrimônio". Eu sei que são os termos importantes, cheios de conteúdo e de simbolismo. Sei, também, que este é um grande sonho de muitos homossexuais, mas... será que vale a pena brigar tanto pelo nome que usamos? Será que não vale mais a pena lutar mais pela realidade do que pelo nome da coisa? Por que não satisfaz o termo "união", "compromisso", ou outro qualquer? Porque parece "técnico" demais? Por não ser tão romântico? Ora, os homossexuais são mundialmente reconhecidos como pessoas mais sensíveis, criativas, poéticas, etc. Será que ninguém consegue inventar um termo novo, bonito e, também cheio de conteúdo e simbolismo?
3) Fairchild e Nancy Hayward, no livro “Agora que você já sabe. O que todo pai e toda mãe deveriam saber sobre a homossexualidade” (Editora Record; Rio de Janeiro, 1996), escrevem: Uma das principais preocupações dos pais amorosos é que seus filhos encontrem a felicidade no casamento. Para pais cientes de que seu filho é homossexual, esta esperança parece uma trágica farsa. A possibilidade de que um relacionamento homossexual possa proporcionar as mesmas ricas recompensas oferecidas pelo casamento tradicional parece remota, especialmente para aqueles que tenham ouvido apenas mitos e informações deturpadas a respeito da vida homossexual. Solidão e uma série de romances fracassados, aos quais se seguirão anos de solitária e desditosa velhice, parecem ser a única opção.
Nós, como pais, nos sentimos particularmente animados em ter boas notícias nessa área, porque compartilhamos a mesma preocupação - nós queremos que nosso filho ou filha experimentem os benefícios de um compromisso firme e maduro com aquela pessoa cujo amor significará mais do que qualquer coisa neste mundo. E isso acontece. Homens e mulheres homossexuais se apaixonam e vivem felizes tal como acontece com casais tradicionais. (p. 157-158).
ORAÇÃO
Hoje vou pedir ao Senhor a graça de reconhecimento de união estável de pessoas homossexuais pela Igreja. Oro, também, por aqueles que já vivem esta união, pelos que nela acreditam e estão procurando por "aquela pessoa especial". Depois do trecho do Salmo (Sl 85[86], 1-8), rezo um "Pai nosso" e uma "Ave Maria".
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Inclinai, ó Senhor, vosso ouvido,
escutai, pois sou pobre e infeliz!
Protegei-me, que sou vosso amigo,
e salvai vosso servo, meu Deus,
que espera e confia em vós!
Piedade de mim, ó Senhor,
porque clamo por vós todo o dia!
Animai e alegrai vosso servo,
pois a vós eu elevo a minh'alma.
Ó Senhor, vós sois bom e clemente,
sois perdão para quem vos invoca.
Escutai, ó Senhor, minha prece,
o lamento da minha oração!
No meu dia de angústia eu vos chamo,
porque sei que me haveis de escutar.
Não existe entre os deuses nenhum
que convosco se possa igualar;
não existe outra obra no mundo
comparável às vossas, Senhor!