ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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28 de maio de 2014

Uma bela tentativa, mas...


A homossexualidade continua despertando grandes polêmicas em todos os campos, desde o religioso, pelo moral, social e cinematográfico, até o político. Enquanto a reflexão não sai da pura teoria, os efeitos de tal discussão - além de elevar a temperatura do discurso - geralmente permanecem na mesma dimensão, quer dizer, na teoria. Eu sempre senti  falta de uma voz nestas polêmicas. A voz essencial e mas preciosa: de próprias pessoas homossexuais que não se limitariam ao que "está escrito na Bíblia" ou ao que "dizem as estatísticas", mas compartilhariam a sua experiência pessoal. Foi por isso que fiquei tão feliz, quando o Papa Francisco, em sua entrevista à revista "La Civiltá Cattolica", no ano passado, disse: "Deus, quando olha a uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem". [Leia mais aqui

Pois bem... A quem "eles" irão querer escutar? Um(a) homossexual que se sente feliz, ao realizar o maior sonho de sua vida, tendo vivido em um relacionamento duradouro e feliz? Certamente não, pois o objetivo "deles" é encontrar mais um pau para bater no cachorro. A meta aqui, por mais que pareça ser, não é um diálogo, nem qualquer tentativa de conhecer objetivamente o "nosso" lado. Quando se parte daquela predominante repulsa à homossexualidade (leia-se: a homofobia), nenhum diálogo é possível, tampouco qualquer conhecimento objetivo.

Achei necessária esta introdução à leitura de uma entrevista, publicada recentemente no portal "Alateia" e intitulada "Ser homossexual é um sofrimento, não uma escolha nem um pecado em si". O entrevistado é Philippe Ariño, homossexual espanhol de 34 anos, que mora atualmente na França.

Nesta entrevista (e também em outra, ao portal "Zenit" - aqui), Philippe faz uma apologia à continência sexual, o que, em si, até parece louvável. Como o seu argumento, porém, usa o exemplo das próprias frustrações nos relacionamentos homossexuais do passado: "Ao me relacionar com outros homens ou olhar para eles de maneira possessiva, eu sentia satisfação no momento. Mas estava sozinho e nunca me sentia completo. É então que caímos na tentação de achar que podemos viver a sexualidade como os outros, mas, na verdade, a sexualidade só pode ser vivida na diferença sexual".

A mesma frustração pessoal do rapaz aparece ainda mais claramente em seguida: "Antes eu me sentia sempre inferior aos homens, porque a homossexualidade é invejosa. Agora, após descobrir que Deus me ama e que sou seu filho, querido e amado, não me sinto inferior a nenhum homem. Assim, depois de muitos anos, descobri a beleza da amizade masculina, que eu não trocaria pelas relações do passado - quando eu fingia estar me realizando".

Sem dúvida, para quem nunca experimentou o amor em sua relação homossexual, não é tão difícil preferir a amizade e não querer trocá-la pelas relações frustradas do passado. A lógica das afirmações acima lembram-me muito aqueles testemunhos fervorosos de ex-católicos que "encontraram Jesus" em uma comunidade evangélica e se tornaram fiéis devotos (não raramente fanáticos), só porque - devido à própria ignorância e à preguiça - no passado viviam como "católicos de carteirinha". Nada mais fácil do que transferir aos outros a culpa pelos próprios defeitos pessoais...

A frustração do passado é uma geradora de desprezo em relação a todos que, numa realidade semelhante, conseguiram ser felizes. O texto da entrevista traz a pergunta (associada a uma imposição): "Pessoas como você, que abandonam seu passado, não são muito queridas pela comunidade LGBT. Como você se relaciona com o universo que frequentava?". A resposta revela o real objetivo da entrevista "politicamente correta":

"Eles me colocaram na lista negra. Ficam me ameaçando [sic!] e me etiquetam de homofóbico, mas eu não teria sobrevivido junto deles: é um mundo de mentiras, que exteriormente se mostra alegre, mas dentro está cheio de raiva e tristeza. (...) Os ativistas podem aplaudir quando você fala, mas você só é visto em sua sexualidade, como se fosse um animal [sic!] ou um indivíduo de série B que precisa ter direitos especiais. É por isso que eu digo que somos os piores inimigos de nós mesmos".

Quem quiser, leia o texto inteiro da entrevista. Entre outros assuntos, há indiretas à adoção das crianças pelos casais homoafetivos, junto com a crítica do casamento entre as pessoas do mesmo sexo e, finalmente, a "definição" do relacionamento homossexual como "uma amizade ambígua, incapaz de amor, da qual só deriva o sofrimento".

Uma analogia simples que me vem à mente é com alguém que, por algum motivo, nunca aprendeu a nadar (ou a andar de bicicleta) e agora cria uma "definição" daquilo, como algo terrível, impossível, prejudicial e, certamente, antinatural. Isso acontece sempre quando se procura colocar as próprias frustrações pessoais como uma base do discurso.

Enfim, Philippe Ariño, por mais que se apresente como um homossexual e católico, não me representa...

21 de janeiro de 2014

Ações essenciais


Há um ano, o Governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral sancionou a Lei N° 6394 de autoria da deputada estadual do Rio, Myrian Rios (PSD). A lei institui o "Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" no âmbito do Estado do Rio de Janeiro. O texto parece um conto de fadas e certamente tem como anexo (?) a regulamentação bem precisa por parte da Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos. Afinal, alguns termos carecem de uma definição mais detalhada, por exemplo:

Parágrafo Único - O Programa deverá envolver diretamente a comunidade escolar, a família, lideranças comunitárias, empresas públicas e privadas, meios de comunicação, autoridades locais e estaduais e as organizações não governamentais e comunidades religiosas, por meio de atividades culturais, esportivas, literárias, mídia, entre outras, que visem a reflexão sobre a necessidade da revisão sobre os valores morais, sociais, éticos e espirituais (Deixando de lado as imperfeições gramáticas, pergunto: “a reflexão sobre a necessidade da revisão dos valores morais, sociais, éticos e espirituais” precisa de uma lei? E se alguém não quiser refletir? Será multado ou preso? Isso, sem dúvida precisa ser regulamentado...)

Art. 2º- O Poder Executivo deverá firmar convênios e parcerias articuladas e significativas, com prefeituras municipais e sociedade civil, no sentido de possibilitar a execução do cumprimento ao disposto nesta Lei, com os seguintes objetivos: I – promover o resgate da cidadania; II – fortalecer as relações humanas; III – valorizar a família, a escola e a comunidade como um todo. (Qual é o conceito da família? A legislação estadual obedece a nacional que define a família como “comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; independentemente de orientação sexual” [Lei nº 11.340; art. 5º, inciso II, e parágrafo único]?)

Parágrafo Único - Serão desenvolvidas ações essenciais que contribuam para uma convivência saudável entre pessoas, estabelecendo relações de confiança e respeito mutuo, alicerçada em valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais, como instrumento capaz de prevenir e combater diversas formas de violência. (Qual é o significado do termo “ações essenciais”? O "Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" prevê, também, as ações essenciais para combater a homofobia, estabelecendo relações de confiança e respeito mútuo entre as pessoas heterossexuais e homossexuais? Ou os valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais não permitem isso? Em que baseiam-se esses valores? Na doutrina católica? A deputada, em outro momento, descreve-se assim: Em 2003, cheguei à Comunidade Canção Nova e lá eu me restaurei. Encontrei na fé um alicerce e recebi forças de Deus para me tornar uma nova mulher. Naquele momento, o meu maior desejo era ser totalmente de Deus e, por Ele, eu mudei.)

Justificativa - Infelizmente, a sociedade de uma maneira geral vem cada dia mais se desvencilhando dos valores morais, sociais, éticos e espirituais. Valores esses que são de extrema importância para que nossa sociedade caminhe para o crescimento. Sem esse tipo de valor, tudo é permitido, se perde o conceito do bom e ruim, do certo e errado. Perde-se o critério do que se pode e deve fazer ou o que não se pode. Estamos vivendo em um mundo onde o egoísmo e a ganância são predominantes. (É uma impressão minha, ou as afirmações acima realmente fazem alusão aos costumes e comportamentos, vistos como errados pelos católicos fundamentalistas?)

Justificativa [continuação] - Na busca de um mundo melhor o programa, descrito nesse projeto, objetiva formular proposta de ações educativas e sugestivas, direcionadas a criança, jovens e adultos despertando uma grande mudança na sociedade fluminense.Diante dessa realidade, a criação do programa supracitado, que tem como objetivo principal conscientizar e reinserir valores de suma importância para que possamos construir um futuro melhor, onde haja principalmente respeito pelo próximo. (Como neste contexto fica, por exemplo, a manifestação pública de afeto entre as pessoas do mesmo sexo, tal como o beijo, considerado por muitos católicos e evangélicos uma falta de respeito?)

A deputada mantêm um blog (ou mantinha, pois as últimas postagens são do ano passado). Lá mesmo, além de publicar a lei em questão, divulgou uma nota esclarecedora:

Gostaria de conversar com vocês sobre algumas polêmicas que vêm sendo questionadas a respeito da aprovação do Projeto de Lei de minha autoria, que institui o Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais.
Para esclarecer algumas informações erradas que estão circulando na mídia, eu não sou ex-atriz, sou e sempre serei atriz, pois sou apaixonada pela arte da interpretação.
Também gostaria de corrigir a matéria que divulgou que faço parte da bancada evangélica da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Respeito todas as religiões, mas sou missionária consagrada da comunidade católica Canção Nova.
Esse projeto foi feito com a intenção de fazer mudanças positivas na nossa sociedade, e não tem como propósito atacar ninguém por motivo algum.

Jacques Gruman procura respostas ao questionamento parecido com o meu: Afinal de contas, existirá definição universal para valorização da família ? E para alicerces espirituais? Quem vai fazer a lista dos “valores morais” sugeridos pela lei? E acrescenta: A autora do projeto de lei, que vive às custas dos nossos impostos, é a senhora Myrian Rios, ex-atriz, missionária católica conservadora. Como muitos de seus pares, faz carreira confundindo púlpito com tribuna, defendendo propostas “cristãs” arcaicas e destilando um preconceito raivoso contra os homossexuais. Chegou a fazer campanha contra o sexo anal (!). Não compreende e se revolta com as profundas mudanças comportamentais das últimas décadas, que se refletem em indivíduos e famílias, regurgita conceitos que não se sustentam nas mais elementares evidências científicas e, presa a um maniqueísmo pueril, nos ameaça com leis absurdas.

Repito: a Lei Estadual N° 6394 vigora no Estado do Rio de Janeiro há um ano. Em lugar algum consegui encontrar as notícias sobre a regulamentação e a execução desta lei...

16 de janeiro de 2014

Só eu sei as esquinas...

Se compararmos a vida com uma caminhada, a esquina pode ser o sinônimo de uma virada, ou de um marco que fica gravado na história pessoal. É neste sentido que escuto a música de Djavan que inspirou o título desta postagem. Graças aos meus pais, eu sou desde criança, um homem apaixonado pelos livros, ou melhor, pelos escritos em geral. Alguns textos ficaram impregnados na minha alma, por terem causado as mais autênticas e profundas reviravoltas interiores. A minha juventude ficou marcada por alguns conjuntos de texto, digamos, paradoxais, pois misturaram suavemente, por exemplo, as reflexões filosófico-teológicas de Karol Wojtyla (João Paulo II) e a ficção infantil de Tove Jansson (sem saber naquela altura da homossexualidade dela). Os impactos existenciais que formaram a minha trajetória começam pelos textos, mas estendem-se, também, aos filmes, à música e as obras de arte. Em todo este universo de expressão humana, o que mais me fascina é o ato (ou o processo) de criar. Sou um homem apaixonado pelo mistério que envolve a concepção, a mais real gestação e, por fim, o nascimento das ideias que tomam forma, seja de um texto, de uma sinfonia, ou de um desenho. É algo que retratam, por exemplo, os filmes: “Amadeus” ou “O som do coração” (com o fantástico FreddieHighmore)

É incomparável a sensação de encontrar um texto, uma cena, uma pintura, enfim, uma obra que expresse, com a fascinante exatidão, aquilo que você está sentindo, mas nunca teve a capacidade de descrever. É com essa fascinação que transcrevo aqui, com a devida autorização, um dos textos de Matheus Gabry. É um jovem estudante de Design de Interiores, apaixonado por arquitetura, livros, fotos, músicas e tudo aquilo que o faz manter contato com sua própria alma (a a alma do universo). Os belíssimos textos de sua autoria estão vinculados às fotos no seu perfil do facebook. 

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Quando encontrei o amor

Sabe, tem um trecho de uma música que gosto muito:

If God had a name what would it be?
And would you call it to his face?
If you were faced with Him in all His glory
What would you ask if you had just one question?”
– One of Us - Joan Osborne

A tradução dela é essa:

“Se Deus tivesse um nome, qual seria?

E como você o chamaria na sua frente?
Se você se encontrasse com Ele em toda sua glória
O que você perguntaria se tivesse apenas uma pergunta?”

Acho que tenho encontrado o amor, mas quando digo isso não digo em relação ao amor físico ou humano, acho que tenho encontrado um tipo único de amor desde que me permiti deixar ser amado. Quando penso em como poder ser o amor de Deus eu logo penso em algo que não posso definir e nem tampouco medir ou descrever, nem mil linhas seriam capazes de expressar o que possa ser esse Amor.

Quando eu era criança e já sabia que eu possuía entendimento sobre certas coisas e sabia que eu tinha uma diferença que ainda é muito mal vista hoje em dia, quando eu me maltratava com apenas 6 ou 7 anos perguntando para mim mesmo se Deus me amava mesmo eu sendo um menininho que gostava de outros meninos. Eu simplesmente achava que Deus nunca iria me olhar com bons olhos, que eu era muito diferente e mal por ser assim, e que eu causava vergonha em Deus.

O tempo foi passando e eu tive que lidar sozinho com essa minha “diferença”, durante a escola, ainda que não soubessem de mim e dessa minha diferença - talvez até soubessem, mas não perguntassem ou tocassem no assunto por medo de como eu iria reagir -. O fato é que desde essa fase de crescimento eu achei que tinha perdido a companhia Dele, eu achava que Ele me protegia e ainda se importava comigo porque eu era um fruto de sua criação, mas não porque eu trazia tanta alegria como um outro menino que gostasse de meninas trazia para Ele. E por muitas vezes eu me sentia com um único destino pelo qual a “sociedade” e a comunidade religiosa achava que seria o correto para mim: o inferno. E eu temia muito isso, eu temia muito com todas as minhas forças que esse fosse o meu destino intransmutável.

Foi quando então eu comecei a me tornar um pouco mais pensante e menos fanático por leis, dogmas ou “conceitos divinos” com os quais eu cresci aprendendo. Foi quando eu finalmente tive a coragem de pensar em Deus como um ser que poderia ser negro ao invés de branco e de barba branca grande, foi quando eu comecei a pensar em Deus como um ser que não tem definição de gênero, etnia ou classe social. Foi quando eu comecei a ver Deus como a formiga que está caminhando sobre os meus pés carregando uma folha pesada até o formigueiro, como o passarinho que faz o seu ninho, como a abelha que está a toda hora buscando pólen. Como a perfeita combinação de cores do pôr-do-sol. Quando eu finalmente tentei ver a grandeza de Deus no minimalismo de sua criação que percebi que Deus é um ser muito além do que meus olhos ou sentidos captam ou podem captar. Deus… uma entidade regida de luz e amor, um ser incapaz de renegar a sua criação, pelo contrário, doar uma parte sua em sacrifício humano para demonstrar para alguém tão desacreditado como eu de que Ele me amava acima de tudo aquilo que eu fui, sou e ainda posso ser. Deus e essa mania de nos olhar como crianças indefesas que muitas das vezes fazem as coisas sem pensar, brincam e se machucam, ralam os joelhos, ferem o coração. E Ele?! Bem, Ele sempre foi o papai protetor que esteve por perto observando cada movimento meu e me levantando de todos os tombos e tropeços da vida, sempre me acalmando e me prometendo que independente de qualquer coisa Ele me amou, me ama e me amará para todo o sempre.

Posso não ser um portador de uma necessidade especial, posso não ter um tumor ou outra limitação física, posso não ser uma pessoa portadora de depressão ou qualquer outra doença da alma, mas eu fui por muito tempo uma pessoa que recusava o maior desejo de Deus para mim: ser livre para ser o que sou e se sentir amado. Hoje eu descobri o quanto importa para Ele que eu seja aquilo que meu coração pede, por mais que eu erre, por mais que eu fique na pior, por mais que eu esteja num balanço suspenso em que a qualquer momento eu possa cair, Ele nunca soltará minha mão e muito menos soltará a sua. Ele te ama, e isso te basta, ainda que você não entenda o quanto isso é grandioso, por mais que você ache que não tenha nada, você tem tudo desde que nasceu. Você tem vida, você tem o amor verdadeiro de Alguém especial e mesmo que você não queria ter esse amor, isso nunca irá mudar. Isso é o mais perfeito. Você tem amor. - Matheus Gabry


12 de janeiro de 2014

As novidades do Batismo


O título resume o conteúdo do texto a seguir, embora a sua expressão possa sugerir uma direção diferente da reflexão. Sim, o Batismo, enquanto Sacramento, traz uma novidade total para quem o recebe. É uma nova identidade, é a filhação divina, é a marca de Deus que não se apaga por toda a eternidade...

Queria, entretanto, falar hoje de outras coisas. Se não existir a regra que manda inventar um título curto, o mais correto seria: "As novidades anunciadas na Festa do Batismo do Senhor 2014". Todos os anos, nesta ocasião, a Igreja inicia o tempo litúrgico chamado "comum" (que, cá entre nós, não é o nome dos mais bonitos). É para destacar o encerramento das festividades natalinas e dar um tempo para o novo período forte na liturgia que é, sem dúvida, a quaresma e a Páscoa. Podemos dizer que o Batismo do Senhor é o último domingo do ciclo de Natal e, ao mesmo temo, o primeiro do tempo comum. É bastante curiosa a analogia que aparece aqui com a figura de João Batista que pertence, ao mesmo tempo, ao Antigo e ao Novo Testamento.

A notícia do Batismo do Senhor de 2014 é o anúncio de novos cardeais. Entre eles está o Arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta. Ele mesmo, em março do ano passado, em uma entrevista à revista ISTOÉ, foi interrogado sobre esse assunto:

ISTOÉ: O sr. almeja ser cardeal?

D. Orani - Não coloco como preocupação minha, mas da cidade. Todo dia eu escuto essa cobrança. Mas estou muito tranquilo. Se o novo papa decidir que o Rio não vai ter mais cardeal, não será problema para mim, mas talvez para a cidade.

Na mesma entrevista o futuro cardeal respondeu às perguntas referentes às pessoas homossexuais:

ISTOÉ - O sr. é a favor da união civil ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo?

D. Orani - São coisas diferentes. Uma coisa é a família, o casamento, que tem a ver com a natureza humana. Outra coisa são essas uniões, que envolvem direitos civis, de herança, por exemplo. A gente não entra nessa história. Eu creio que essas questões começaram a surgir por falta de respeito ao outro, perseguições e mortes. Não podemos ter um mundo intolerante dessa forma, nem de um lado nem de outro. O outro tem sua liberdade de opção, sabendo até que eu não posso concordar com ele.

ISTOÉ - Um homossexual é bem recebido na Igreja?

D. Orani - A Igreja é a que mais procura respeitar as pessoas, acolher e ajudar nos conflitos que cada um possa ter no coração. Tenha a opção sexual que tiver, a Igreja deve acolher. Porque Cristo quando veio foi a todos e falou com todo mundo. Ninguém está sendo expulso da Igreja por uma coisa ou outra.

Ainda que a expressão "opção sexual", usada pelo D. Orani, sugira - digamos - certa insegurança dele no assunto, a resposta em si mostra a sua abertura para com o mundo real. No mesmo sentido e no tom ainda mais acolhedor, D. Orani teria respondido a um rapaz, Rafael, durante a JMJ 2011 em Madri. Rafael relata assim a resposta do Arcebispo:

[D. Orani] disse que não podemos negar que há homoafetivos em nossa Igreja, até porque nossa Igreja é um grande corpo, e Cristo como autor da fé chama a todos a viver essa sua diversidade e pluralidade, e que ele, como bispo, não podia negar a vivência de Igreja, a comunhão de fé a ninguém. E acrescentou que todos aqueles que proclamam o Credo e têm suas experiências com o Cristo, e O reconhecem como Senhor têm espaço e lugar em nossa Igreja. Segundo ele, essa é uma pequena expressão do que é o Reino de Deus, a Nova Jerusalém, e sublinhou que Cristo convida a todos; aqueles que se sentem cativados respondem a esse chamado, seja gay ou hétero. "A Igreja está aqui para todos", concluiu. 

O portal terra, em julho do ano passado divulgou a seguinte notícia: O Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta e seus auxiliares tiveram que repercutir as duas entrevistas dada pelo Papa Francisco antes de deixar o Brasil, nas quais tocou em assuntos polêmicos, como a aceitação de homossexuais na igreja. “A igreja nunca rejeitou essas pessoas. Temos pessoas trabalhando na direção de nos aproximarmos mais”, disse o Arcebispo.

Enfim, o que muda com a indicação e a próxima nomeação de D. Orani como cardeal, é o peso de suas palavras. Esperamos apenas uma continuação em sua abertura a este assunto e que ele faça o contaste em relação ao seu colega, D. Odilo Pedro Scherer de São Paulo.

Retomando a expressão (um tanto discutível) de D. Orani: "A Igreja nunca rejeitou essas pessoas", aproveito o gancho para citar a declaração de um outro bispo, D. João Carlos Petrini, Presidente da Comissão para Vida e Família da CNBB. Em sua entrevista, concedida ao portal Estadão (e publicada ontem), D. Petrini responde, em primeiro lugar, a uma pergunta geral [os grifes são meus]:

Estadão: Do ponto de vista das famílias, que mudanças podem ocorrer na Igreja diante do discurso de acolhimento do papa Francisco?

D. Petrini: Eu diria que o papa Francisco está destravando a Igreja. Pela linguagem, pelo gesto. Está abrindo para o essencial, a misericórdia de Deus que acolhe, que perdoa, que abraça. Multidões inéditas vão à Praça São Pedro. A família talvez seja o ponto mais sensível da vida da Igreja. A transmissão da fé não se recebe dos padres, mas da avó, da mãe, do pai. Essa transmissão está em crise. Os recasados, os divorciados não são poucos. Vejo muitos que têm sincero sofrimento por não chegar ao sacramento. O papa quer consultar o mundo inteiro sobre as práticas, a realidade, em busca de um caminho.

No final da conversa ouvimos o tom da esperança:

Estadão: O que significa na prática o acolhimento de casais homossexuais?

D. Petrini: O acolhimento de homossexuais na Igreja não é novidade, quando ainda os homossexuais não levantavam a bandeira forte, ideologicamente poderosa, a Igreja acolhia, ouvia, orientava.

Estadão: Qual é sua orientação para batismo de crianças filhas de casais do mesmo sexo?

D. Petrini: A orientação que temos conversado entre os bispos é que acima de tudo o batismo é bom para a criança. Quem vai educar essa criança na fé católica? Tem alguém que vai cuidar seriamente disso? Tem. Então está bem, vamos batizar. Se for só para fazer fotografia, chamar a imprensa, a resistência é maior. Mas se for sincero, o acolhimento é direto.

Estas são, ao meu ver, as novidades da Festa do Batismo do Senhor 2014.

9 de novembro de 2013

Um tom diferente

Não sei se esse fenômeno é um dos efeitos diretos do estilo (e do discurso) do Papa Francisco, mas quem costuma acompanhar os pronunciamentos dos bispos católicos, aqui no Brasil, pode notar uma suave mudança de tom. É claro, ainda não desapareceram os gritos no estilo inquisitório, mas surgem, também, as mensagens conciliadoras e - digamos - expiatórias. A confissão de culpa histórica (e atual), feita em nome de uma instituição, ainda que pelo dirigente de um nível intermediário, anima e traz a esperança. Afinal, é na tradição católica que temos o "propósito de emenda", logo depois de um "arrependimento". Quem, por sua vez, acompanha os discursos do Santo Padre, vai encontrar facilmente o eco de suas palavras no texto a seguir. É um dos artigos, publicados no site da CNBB, escrito pelo Bispo de Jales (SP), Dom Demétrio Valentini. Antes de transcrever as suas palavras, quero lembrar aqui de que foi o Dom Demétrio que, em 2010, criticou o fundamentalismo de muitos religiosos, no contexto da briga pelo 3° Plano Nacional de Direitos Humanos. De acordo com a "Folha de São Paulo", parte dos religiosos (reunidos em maio de 2010 em Brasília, na 48ª Assembleia Geral da CNBB) não aceitava que o plano de direitos humanos tratasse de questões como a profissionalização de prostitutas, a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo e a união civil gay. Diante disso, Dom Demétrio disse: "Tenho esperança de que prevaleça o bom senso. Tenho a esperança de que não vamos fazer um documento marcado pelo fundamentalismo".
 
 
 
No artigo "O horizonte da missão", publicado (no dia 17 de outubro deste ano) na página oficial da CNBB, Dom Demétrio escreve, entre outras coisas, o seguinte:
 
Na história houve, certamente, alguns equívocos sérios em torno da Evangelização. Dá para fazer uma importante constatação: quando a Igreja fez da evangelização uma “conquista”, impondo sobre os povos um domínio cultural e político, ela confiou no seu poderio humano, e não na força libertadora do Evangelho. Assim fazendo, ela não anunciou o Evangelho livremente, como São Paulo. Mas cobrou uma pesada conta, nem tanto em benefícios que ela recebeu, mas no prejuízo que ela provocou nos povos, a quem ela anunciou um “evangelho” deformado pela submissão exigida dos povos “conquistados”.
 
Quando a Igreja não se deixa converter pelo Evangelho que ela prega, ela acaba se pervertendo a si mesma, e aos povos por ela “submetidos” a um evangelho deturpado.
 
É diante da missão que a Igreja experimenta a absoluta necessidade de continuar se convertendo. Assim, a missão, voltada para fora da Igreja, acaba se voltando para a própria Igreja, que se torna, também ela, destinatária do Evangelho de Cristo.
 
De tal modo que, na Igreja, o chamado vem sempre ligado ao envio, a comunhão é sempre vinculada à missão. Assim a Igreja é sempre estimulada a levar aos outros o que ela mesma vive. O Evangelho anunciado precisa ser um Evangelho vivido.

18 de outubro de 2013

Shawn Thomas

Shawn Thomas une em suas músicas o testemunho cristão e a própria identidade homossexual. Vale a pena conhecer melhor e apreciar a sua arte.

I see the Christ in you.
I know that there is truth.
And deep inside your heart
resides a grace that's shining through.
I see the Christ in you,
in everything you do.
And when the world yells, 'Crucify!'
that part of you will rise...
and they will see the Christ in you."
 
Eu vejo o Cristo em você.
Não sei qual é a sua verdade.
Mas no fundo do seu coração
reside a graça que está brilhando.
Eu vejo o Cristo em você,
e em tudo que você faz.
E quando o mundo grita: "Crucifica-o!"
essa parte de você vai aparecer...
e eles vão ver o Cristo em você.
 
 

16 de outubro de 2013

Teresa e a solidão

 
Quem já leu alguns escritos de Santa Teresa d'Ávila (Doutora da Igreja; 1515-1582), por exemplo, "Livro da vida", "Caminho de perfeição", "Castelo interior", ou outros, percebe facilmente a profunda analogia que existe entre as experiências místicas e... eróticas. Afinal, o essencial, em ambas as dimensões, é a experiência de amor. Por mais que alguém se espante com tal comparação, para mim vale a frase do Evangelho de hoje (Lc 11, 37-41): Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? O mesmo Criador que se revela na infinita riqueza dos fenômenos da alma, manifesta o seu amor em - também infinita - riqueza dos fenômenos do corpo. É claro que trata-se de uma enorme desproporção, pois - como nós, cristãos, acreditamos - a alma é imortal e o corpo (pelo menos em sua forma atual) não é. A desproporção não é, entretanto, uma oposição. Ainda que a Palavra de Deus tenha revelado a rivalidade que existe entre essas duas dimensões do ser humano, a espiritual e a carnal, não há necessidade de demonizar o corpo e, particularmente, a sua experiência sexual, como costumam fazer muitos cristãos.
 
Anselm Grün, monge beneditino e escritor (mais um dos autores, criticados por causa da originalidade de suas ideias), em seu livro "Mística e eros" (Ed. Lyra; Curitiba, 2002), escreve: Eu sei que, a partir da minha história de vida, sempre tenho estado em dificuldades com a minha própria sexualidade, principalmente quando quero padronizá-la ou perco a relação com ela, separando-a, reprimindo-a, ou quando, coisa maximamente preferível, quero elevar-me acima dela. Quando eu a acolho com reconhecimento, como força que me faz sentir vivo, que quer me conduzir para além de mim mesmo, que me faz ser completamente homem, então há instantes nos quais a minha sexualidade se transforma em energia espiritual. Então percebo em mim mesmo uma profunda paz (p. 119).
 
Voltando à Santa Teresa, devo dizer que ao ler os seus textos, sobretudo os autobiográficos, percebo aquela analogia da qual falei acima. Ainda que ela tenha falado de coisas muito mais sublimes e místicas, sinto-me tocado e compreendo, um pouco melhor, as coisas que sinto. Digamos que a "alta mística" de uma Santa Doutora, ajuda a desvendar a "baixa mística" de um homossexual... Vejamos, por exemplo, este texto:
 
Se alguma coisa pudesse dar consolo, seria conversar com quem tivesse passado por esse tormento. (...) É como alguém que está com a corda no pescoço e está sufocando, que procura tomar fôlego. Assim me parece que esse desejo de companhia é nossa fraqueza, pois, como a dor nos põe em perigo de morte, assim o desejo que a alma e o corpo têm de não se separar é o que pede socorro para tomar fôlego. E falando, queixando-se e divertindo-se, busca remédio para viver (Santa Teresa, Livro da vida, Ed. Penguin Classics Companhia das Letras, São Paulo, 2010; p. 183).
 
Ou este trecho, que parece tão familiar para nós, os GLBTT:
 
Era esta visão: vi-me em oração sozinha num campo grande, ao redor de mim pessoas de diferentes tipos me cercavam. Todas, parecia-me, tinham armas nas mãos para ferir-me: umas, lanças; outras, espadas; outras, adagas; e outras, estoques muito grandes. Enfim, eu não podia sair por nenhum lado sem que me pusesse em perigo de morte. E sozinha, sem achar uma pessoa do meu lado. Estando meu espírito nessa aflição, pois não sabia o que fazer de mim, ergui os olhos ao céu e vi Cristo, não no céu, mas acima de mim bem alto no ar. E estendia a mão em minha direção e dali me favorecia de um modo que eu não temia mais todas as outras pessoas, nem elas, ainda que quisessem, podiam me causar dano. (...) falo de amigos e parentes e, o que mais me espanta, pessoas muito boas. Por todos me vi tão pressionada, pensando eles que faziam um bem, que não sabia como me defender nem o que fazer (idem, p. 381-382).
 
Mais um texto. Lindo!
 
Via um anjo junto de mim do lado esquerdo em forma corporal, o que não costumo ver, a não ser por maravilha. (...) Não era grande, mas pequeno, muito bonito, o rosto tão aceso que parecia dos anjos muito elevados que parecem que se abrasam inteiros. (...) Via em suas mãos um dardo de ouro grande e no final da ponta me parecia haver um pouco de fogo. Ele parecia enfiá-lo algumas vezes em meu coração e chagava às entranhas. Ao tirá-lo me parecia que as levava consigo e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão grande a dor que me fazia dar aqueles gemidos, e tão excessiva suavidade que põe em mim essa enorme dor que não há como desejar que se tire nem se contenta a alma com menos do que Deus. Não é uma dor corporal, mas espiritual, ainda que não deixe o corpo de participar em alguma coisa e até bastante (idem, p. 267-268).
 
 

2 de outubro de 2013

O Papa entrevistado

 
O Papa Francisco não gosta de dar entrevistas.
Imagine, se ele gostasse!
 
Durante o voo ao Brasil para a JMJ, o Papa disse: Verdadeiramente eu não dou entrevistas, mas é porque não sei, não consigo. Sou assim! Sinto um pouco de dificuldade em fazê-lo, mas agradeço a companhia. Na viagem de volta a Roma, um dos jornalistas franceses, Antoine-Marie Izoard, retrucou: Para um Papa que não quer dar entrevistas, estamos-lhe verdadeiramente gratos. O padre Antonio Spadaro, SJ, assim relata o desabafo do Papa, antes de iniciar "oficialmente" a conversa: Pouco antes da audiência que concedeu aos jesuítas da "Civiltà Cattolica", o Papa tinha-me falado da sua grande dificuldade em dar entrevistas. Tinha-me dito que prefere pensar, mais do que dar respostas imediatas em entrevistas de momento. Sente que as respostas corretas lhe vêm depois de ter dado a primeira resposta.
 
Podemos ler hoje, na íntegra, uma nova entrevista do Papa. Desta vez é o relato de sua conversa com o jornalista italiano Eugenio Scalfari (fundador e primeiro diretor do jornal "la Repubblica", que - de acordo com várias fontes - "se autoidentifica ateu"). Antes de entrar ao mérito da entrevista, gostaria de lembrar que as declarações do tipo "entrevista inédita e histórica" ignoram a existência de entrevistas, inclusive em forma de livros, concedidas aos jornalistas por outros Papas. Os relatos de conversas papais de hoje inserem-se, sem dúvida, em um gênero literário escolhido pelos Papas na segunda metade do século XX: com uma série aberta em 1967 pelos "Diálogos" de Paulo VI com Jean Guitton, continuada por João Paulo II, em suas conversas com André Frossard e Vittorio Messori e pelo Papa Bento XVI, em suas conversas com Peter Seewald (iniciadas anda antes de sua eleição para ocupar a sede petrina). De fato, cada entrevista é única, inédita e exclusiva (o termo adorado pelos jornalistas), mas vale a pena reconhecer o trabalho e os méritos de outros colegas, entrevistadores dos Papas.
 
Em sua nova entrevista, o Papa repete os temas que o acompanham desde o início. Claro, é sempre uma abordagem nova, uma espécie de insistência de quem sente a necessidade de explicar, talvez porque perceba alguma dificuldade de ouvintes em compreender certas ideias. Mais ou menos assim, como você conversa com um estrangeiro e procura, com os gestos, a mímica e o tom de voz, ajuda-lo a entender do que você está falando. Temos, portanto, aqui - de novo - a cultura do diálogo, o amor ao próximo, as injustiças sociais, a necessidade de reformas na Igreja e no mundo.
 
Acho muito importante destacar o estilo da conversa que pouco ou nada tem de uma clássica entrevista jornalística. O tom, os temas, o senso de humor em cutucar o interlocutor e fazer piada, os desabafos muito íntimos sobre as experiências pessoais... tudo isso cria um clima de um bate-papo de velhos amigos, com o direito de um tapinha nas costas, entre um e outro puxão de orelha. Neste caso, a cordialidade não é banalidade, nem diplomacia superficial. Impressionam ripostas rápidas e certeiras, sem violar a profunda reverência de um para o outro. O início e o final da conversa me deixaram esperançoso por uma continuação. O Papa disse no início: Às vezes, após um encontro, desejo marcar outro porque novas ideias surgem e descubro novas necessidade. Isso é importante: conhecer as pessoas, ouvir, expandir nosso círculo de ideias. E termina com uma promessa: Eu lhe direi mais da próxima vez.
 
Recomendo a leitura de texto na íntegra e não apenas em fragmentos, fornecidos pela mídia (de diversas opções ideológicas). Quem quiser, leia também, os comentários de vários "católicos fundamentalistas" a-p-a-v-o-r-a-d-o-s, na mesma página, logo depois da entrevista. Certamente, entre os trechos mais criticados por eles, estão os que eu vou agora citar aqui.
 
  • O proselitismo é uma solene tolice ("nonsense" - outras fontes dizem besteira - "sciochezza" - seria bom verificar o original), não tem sentido. Nós temos que conhecer um ao outro, ouvir um ao outro e melhorar o nosso conhecimento do mundo ao nosso redor. Às vezes, após um encontro, desejo marcar outro porque novas ideias surgem e descubro novas necessidade. Isso é importante: conhecer as pessoas, ouvir, expandir nosso círculo de ideias. O mundo é cruzado por vias que se aproximam e se separam, mas o importante é que elas levem ao Bem.
  • Você sabe o que é ágape? É o amor pelos outros, como Nosso Senhor pregou. Não é fazer proselitismo, é amar. Amar o próximo, aquele fermento que serve ao bem comum.
  • Não gosto da palavra narcisismo. Ela indica um amor excessivo por si mesmo e isso não é bom, pode produzir sérios danos não só à alma do que dele sofre, mas também no relacionamento com outros, com a sociedade na qual se vive. O verdadeiro problema é que aqueles mais afetados por isso — que é, na realidade, um tipo de desordem mental — são pessoas que têm muito poder. Normalmente os chefes são narcisistas. Os líderes na Igreja frequentemente foram narcisistas, bajulados e negativamente influenciados por seus cortesãos. A corte é a lepra do Papado.
  • (...) quando encontro um clericalista, de repente, me torno anticlerical. O clericalismo não deveria ter qualquer coisa a ver com o cristianismo.
  • Pessoalmente, creio que ser uma minoria é realmente um ponto forte. Temos que se um fermento de vida e amor, e o fermento é infinitamente menor do que uma massa de frutas, flores e das árvores que nascem delas. Creio já ter dito que a nossa meta não é fazer proselitismo, mas ouvir às necessidades, desejos e desilusões, desespero, esperança.
  • Precisamos incluir os excluídos e pegar a paz.
  • Demos um passo à frente em nosso diálogo. Observamos que na sociedade e no mundo em que vivemos o egoísmo tem aumentado mais do que o amor pelos outros, e que os homens de boa vontade precisarão trabalhar, cada qual com os seus pontos fortes e experiência, para garantir que o amor aos outros aumente até que seja igual e possivelmente exceda o amor por si mesmo.
  • Pessoalmente creio que o chamado liberalismo irrestrito somente faz do forte mais forte e do fraco mais fraco e exclui os mais excluídos. Precisamos de grande liberdade, não descriminação, não demagogia e muito amor. Precisamos de regras para conduzir e também, se necessário, intervenção direta do estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis.

1 de outubro de 2013

+ Gefferson Ferrer



O Portal Gay1 informou ontem sobre a morte de um jovem, Gefferson Ferrer que se jogou do 3° piso, no shopping Taguatinga (Brasília, DF). Segundo o portal, Gefferson havia anunciado a sua morte no facebook. Nesta madrugada, o seu perfil ainda estava disponível, mas agora não existe mais. A sua despedida,
feita algumas horas antes do suicídio, expressa a profunda angústia e solidão. Uma das últimas postagens exibe o pensamento de Curt Cobain: "Se os meus olhos mostrassem a minha alma, todos, ao me verem sorrir, chorariam comigo" e a outra, traz a fase: "Tudo tem conserto menos a morte... a morte conserta tudo". Além dessas citações, havia as palavras do próprio Gefferson: "Obrigado gente pela força e pelo carinho de alguns, mas não tem volta, não... Um dia todos iremos embora e eu vou hoje!!!". Um pouco antes, o rapaz escreveu: "Só merece viver quem tem força pra enfrentar as armadilhas da vida e hoje eu não tenho mais força pra nada! Não tenho direito de amar muito menos de ser Amado. Viver com o coração cheio de dor eu não aguento por isso decidi partir pra nunca mais voltar". A página de notícias "Alto Paraíba" acrescenta a informação que o rapaz estava assistindo o filme "Invocação do mal" e, antes de terminar o filme, saiu e pulou.
 
 
Cada morte nos deixa perturbados, por mais que a cultura modera, justamente, a "cultura da morte", procure banaliza-la. Mais ainda, a morte suicida. Muitos sentem a tentação de julgar, outros de tentar explicar. Na verdade, estamos diante de um mistério, chamado "ser humano". O mistério é tão grande que até a Igreja (católica) que tem tanta dificuldade em modificar os seus pontos de vista e que, antigamente, negava às pessoas que tiraram a própria vida, o lugar na terra "benzida" e reservava um espaço à parte no cemitério para "tais pessoas". Hoje em dia, a Igreja diz: Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do  sofrimento ou da tortura, podem diminuir a responsabilidade do suicida. Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida (CIC, 2282-2283). Na prática, admite-se a suposição de que talvez, nos últimos instantes (entre o ato suicida e a morte efetiva), pela infinita misericórdia de Deus, ter-se-á arrependido de seu ato e obtido o perdão. Vale lembrar aqui o fato de que a Igreja que tenha declarado oficialmente a salvação eterna de muita gente (em forma de beatificação ou canonização), nunca se pronunciou a respeito da condenação no inferno de quem quer que seja.
 
Recentemente, o Papa Francisco, disse: Quantas pessoas tristes, quantas pessoas tristes, sem esperança! Pensai também nos muitos jovens que, depois de terem experimentado tantas coisas, não encontram sentido na vida e procuram o suicídio, como solução. Sabeis quantos suicídios de jovens há hoje no mundo? A cifra é alta! Por quê? Não têm esperança. Experimentaram tantas coisas e a sociedade, que é cruel — é cruel! — não nos pode dar esperança. A esperança é como a graça: não se pode comprar, é um dom de Deus. E nós devemos oferecer a esperança cristã com o nosso testemunho, com a nossa liberdade, com a nossa alegria. O dom da graça que Deus nos dá, traz a esperança. Nós, que temos a alegria de nos apercebermos que não somos órfãos, que temos um Pai, podemos permanecer indiferentes a esta cidade que nos pede, talvez também inconscientemente, sem o saber, uma esperança que ajude a olhar para o futuro com maior confiança e serenidade? Nós não podemos ser indiferentes.
 
Não sei como anda, neste sentido, a doutrina das Igrejas evangélicas. A morte de Gefferson trouxe a recordação de um outro jovem, Saulo Assis de Lima que se jogou de uma torre de telefonia em Porto Velho, Rondônia, em abril deste ano. Os relatos de amigos deste jovem de 23 anos não deixam dúvidas. Saulo foi expulso de casa pela família que é evangélica, por ele ter sido aidético e homossexual. De acordo com diversas fontes, o corpo de Saulo permaneceu muitos dias no IML da cidade. Surgiu, até, uma campanha no facebook: "Um funeral digno para Saulo".
 
Repito: não tenho o conhecimento suficiente sobre a doutrina evangélica e os seus "dogmas" sobre o suicídio. Talvez o ponto de partida tenha sido a história de Judas Iscariotes e uma associação inescrupulosa de versículos bíblicos, tais como: "Judas Iscariotes foi o traidor" (Mt 10, 4); "Satanás entrou em Judas" (Lc 22, 3); "Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!" (Mt 26, 24). Por sua vez, é mais que evidente, o discurso homofóbico da maioria dos pastores evangélicos. Voltemos, porém, ao contexto católico...
 
A Igreja católica que usa o termo "tendências homossexuais profundamente radicadas", na verdade revela a sua própria homofobia, profundamente radicada. Por mais que tente escondê-la sob uma veemente condenação de discriminação (injusta - sic!), logo acrescenta que quando é aceita a afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos. A Igreja não se surpreende com os comportamentos irracionais e violentos contra as pessoas homossexuais, mas é incapaz de admitir a sua própria contribuição para tais comportamentos. Vejamos alguns princípios que servem para a pregação da doutrina, nas igrejas e salas de catequese, nos encontros de oração e retiros, em formação de jovens e de todos os outros fiéis católicos. A Igreja afirma e ensina o seguinte:
 
Na "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"
  • Como acontece com qualquer outra desordem moral, a atividade homossexual impede a autorrealização e a felicidade porque contrária à sabedoria criadora de Deus.
  • Quando se entregam a uma atividade homossexual, elas [as pessoas homossexuais] reforçam dentro delas mesmas uma inclinação sexual desordenada, caracterizada em si mesma pela auto-complacência.
  • Uma pessoa que se comporta de modo homossexual, age imoralmente.
  • São Paulo apresenta o comportamento homossexual como um exemplo da cegueira em que caiu a humanidade.
  • A própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada.
  • O Autor [do Livro de Levítico] exclui do povo de Deus os que têm um comportamento homossexual.
  • O  fenômeno do homossexualismo, em suas múltiplas dimensões e com seus efeitos sobre a sociedade e sobre a vida eclesial, é um problema que afeta propriamente a preocupação pastoral da Igreja.
  • A prática do homossexualismo [está] ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de grande número de pessoas.
  • A opinião segundo a qual a atividade homossexual seria equivalente à expressão sexual do amor conjugal ou, pelo menos, igualmente aceitável, incide diretamente sobre a concepção que a sociedade tem da natureza e dos direitos da família, pondo-os seriamente em perigo.
  • A catequese poderá ajudar inclusive as famílias em que se encontrem pessoas homossexuais, a enfrentar um problema que as atinge tão profundamente.
 
Outros documentos:
  • Os atos homossexuais não se podem, de maneira nenhuma, aprovar. (...) Na Sagrada Escritura, as relações homossexuais são condenadas como graves depravações. (...) As legislações que favorecem as uniões homossexuais são contrárias à reta razão. A legalização das uniões homossexuais acabaria, portanto, por ofuscar a percepção de alguns valores morais fundamentais e desvalorizar a instituição matrimonial. (...) Há razões válidas para afirmar que tais uniões [homossexuais] são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efetiva incidência sobre o tecido social. (...) Todos os fiéis são obrigados a opor-se ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (...) O respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (1)
  • Existem setores onde não se trata de discriminação injusta tomar em consideração a tendência sexual, por exemplo, na adoção ou no cuidado das crianças, nó trabalho dos professores ou dos treinadores atléticos e no recrutamento militar. (...) A passagem do reconhecimento da homossexualidade como fator, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à proteção legislativa e à promoção da homossexualidade. (...) Existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.(2)
  • Certamente, na atividade pastoral estes homossexuais assim hão de ser acolhidos com compreensão e apoiados na esperança de superar as próprias dificuldades pessoais e a sua inadaptação social. (...) Segundo a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são atos destituídos da sua regra essencial e indispensável. Elas são condenadas na Sagrada Escritura como graves depravações e apresentadas aí também como uma consequência triste de uma rejeição de Deus. Este juízo exarado na Escritura Sagrada não permite, porém, concluir que todos aqueles que sofrem de tal anomalia são por isso pessoalmente responsáveis; mas atesta que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados e que eles não podem, em hipótese nenhuma, receber qualquer aprovação. (3)
  • O caminho formativo [dos candidatos ao sacerdócio] deverá ser interrompido no caso do candidato, apesar do seu empenho, do apoio do psicólogo ou da psicoterapia, continuar a manifestar incapacidade para enfrentar de modo realista, ainda que com o progresso do crescimento humano, as suas graves imaturidades (fortes dependências afetivas, notável falta de liberdade nas relações, excessiva rigidez de carácter, falta de lealdade, identidade sexual incerta, tendências homossexuais fortemente enraizadas, etc.). (4)
  • Será tarefa da família e do educador procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade: descobrir se se trata de fatores fisiológicos ou psicológicos, se esta será o resultado de uma falsa educação ou da falta de uma evolução sexual normal, se provém de um hábito contraído ou de maus exemplos ou de outros fatores. (...) Existe mais no profundo, a congênita fraqueza do homem, como consequência do pecado original; esta fraqueza pode levar à perda do sentido de Deus e do homem e ter suas repercussões na esfera da sexualidade. (5)
  • Uma problemática particular, que se pode manifestar no processo de maturação-identificação sexual, é a da homossexualidade, que, aliás, se difunde cada vez mais nas culturas urbanas. (...) Os jovens precisam de ser ajudados a distinguir os conceitos de normalidade e de anomalia, de culpa sugestiva e de desordem objetiva, evitando induzir hostilidade e, por outro lado, esclarecendo bem a orientação estrutural e complementar da sexualidade em relação à realidade do matrimônio, da procriação e da castidade cristã. (...) Muitos casos, especialmente quando a prática de atos homossexuais não se estruturou, podem ser ajudados positivamente por meio de uma terapia apropriada. (...) Os pais, por seu lado, no caso de advertirem nos filhos, em idade infantil ou adolescente, o aparecimento de tal tendência ou dos comportamentos com ela relacionados, façam-se ajudar por pessoas especializadas e qualificadas para darem todo o auxílio possível. (6)
Se estas afirmações não incentivam os atos violentos de homofobia e não agravam o estado de depressão e angústia em pessoas que não conseguem aceitar a própria homossexualidade, então... eu sou o Papai Noel. A Igreja que se declara, tão firmemente, como a "defensora da vida e dos direitos humanos", precisa fazer um sincero e humilde exame de consciência.

28 de setembro de 2013

João Paulo I

 
Neste 35° aniversário da morte de João Paulo I (28. 09. 1978), não pretendo falar de teorias de conspiração, intrigas no Vaticano e coisas parecidas. Quero agradecer a Deus por este raio de luz que iluminou a Igreja durante 33 dias. O "Papa do sorriso" deixou poucas palavras, mas vale a pena recordar algumas, pois não perderam a sua atualidade e, sem dúvida, podemos identificar nelas uma espécie de testamento espiritual daquele que, desde então, acompanha-nos como intercessor.
 
O site oficial da Santa Sé disponibiliza 29 textos, escritos ou pronunciados pelo Papa João Paulo I, entre homilias, discursos, cartas e mensagens. Vale a pena recordar aqui algumas de suas palavras:
 
  • Na aula de filosofia dizia-me o professor: — Tu conheces a torre de São Marcos? — Conheço. — Isso significa que ela entrou dalgum modo na tua mente: fisicamente ficou onde estava, mas no teu íntimo ela imprimiu quase um retrato seu, intelectual. Mas tu, por tua vez, amas a torre de São Marcos? Significa isto que aquele retrato te impele de dentro e te inclina, quase te leva e te faz ir, com o espírito, até à torre que está fora. Numa palavra: amar significa viajar, correr com o coração para o objeto amado. Diz a Imitação de Cristo: quem ama "currit, volat, laetatur": corre, voa e alegra-se (Imitação de Cristo, 1. III, c. V, n. 4). [Audiência, 27. 09. 1978]
  • As vezes diz-se: "estamos numa sociedade toda estragada, toda sem moral". Mas tal afirmação não é verdade. Há ainda tanta gente boa, tanta gente honesta. Pergunte-se antes: Que fazer para melhorar a sociedade? Eu responderia: Procure cada um de nós ser bom e contagiar os outros com uma bondade toda penetrada pela mansidão e pelo amor ensinado por Cristo. A regra de ouro de Cristo foi: "Não fazeres aos outros aquilo que não queres te seja feito a ti. Fazeres aos outros o que queres te seja feito a ti. Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". (...) Não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode. Peçamos ao Senhor a graça de que uma nova onda de amor para com o próximo invada este pobre mundo. [Angelus, 24. 09. 1978]
  • Uma alvorada de esperança paira sobre o mundo, mesmo se, de vez em quando, trevas densíssimas — que se distinguem pelos sinistros fulgores do ódio, do sangue e da guerra — parecem obscurecê-la. O humilde Vigário de Cristo, que, de ânimo tímido mas cheio de confiança, inicia a sua missão, está inteiramente pronto a servir a Igreja e a sociedade civil, sem qualquer discriminação de raças ou de ideologias, com o objetivo de que para o mundo nasça um dia mais claro e mais suave. [Radiomensagem, 27. 08. 1978]

27 de setembro de 2013

Causar


 
De uns tempos pra cá observo o surgimento de novas expressões linguísticas, principalmente entre os jovens e no ambiente das redes sociais. Eu sei que o fenômeno em si é tão antigo quanto a própria humanidade e os idiomas continuam evoluindo, sendo esse o sinal de sua vitalidade. Pois é... Um dos termos que conseguiu se instalar fora das conversas na net, é "causar" (recentemente ouvi isso da boca de uma funcionária - não tão jovem assim - no supermercado). Antigamente as pessoas causavam escândalos, revoluções, comoção, comentários, etc. Hoje em dia, estão apenas... causando. Pode ser até boa essa falta de um substantivo, após o verbo, pois deixa a avaliação da coisa por conta do espectador. Por outro lado, se o "causar" for o único objetivo, eu fico na dúvida em relação aos motivos desse tipo de ação. Como naquele antigo ditado "mal ou bem, mas falem de mim". Enfim, os fenômenos surgem e desaparecem e, talvez, a sobrevivência do "causar" esteja, justamente no... causar.
 
No último dia 25, o artista e fotógrafo espanhol, residente na Itália, Gonzalo Orquín, "causou", exibindo em uma galeria de Roma, 16 fotografias de casais homossexuais, tiradas no interior das igrejas da cidade, sugerindo aquele momento da cerimônia de casamento em que o padre diz: "agora pode beijar a noiva" (veja aqui e aqui).
 
 
De acordo com a mídia internacional (aqui, em inglês), o Vaticano "causou", logo em seguida: "Chegou uma carta do Vicariato de Roma, informando que a Igreja se posiciona contra a exposição. Conversei com os advogados e por razões de segurança decidimos não mostrar as fotos" - disse Orquín à imprensa. O porta-voz do Vicariato de Roma, Claudio Tanturri, disse que as fotos violam a Constituição italiana. "A Constituição italiana garante o respeito pelos sentimentos religiosos das pessoas e o papel dos lugares de culto. Portanto, as fotos não são adequados e não se conformam com a espiritualidade do lugar, ofendem um lugar para a expressão da fé ". O Vicariato de Roma confirmou o envio da carta e ameaçou tomar medidas legais, caso as fotos (que "poderiam ferir os sentimentos religiosos dos fiéis") não fossem retiradas. Gonzalo Orquin disse que todas as dezesseis fotos da exposição foram tiradas em igrejas da cidade, com as pessoas, tanto gays e heterossexuais que se ofereceram para aparecer nas imagens.

Anteriormente - na ocasião do "beijaço para Bento XVI" em Barcelona (2010) - escrevi aqui sobre a minha opinião (negativa) a respeito de certas formas de manifestações que, a princípio, seriam realizadas em prol da visibilidade e dos direitos de pessoas homossexuais. Houve, depois, o "beijaço para o Papa Francisco", aqui no Rio, durante a JMJ. Mais tarde "explodiu a bomba" com o beijo de duas mulheres, durante um culto evangélico, presidido pelo pastor (e deputado federal) Marco Feliciano.
 
Confesso que hoje a minha opinião já não é mais tão negativa. Acho interessante o fato de que a arma do protesto tenha sido o beijo, ou seja, algo totalmente oposto à violência . Podemos começar a discutir aqui sobre essa expressão de carinho e intimidade que o citado pastor tenha definido como "ato de vilipendiação ou de baderna" e o Vicariato de Roma, como algo que viola a Constituição do país, ofende um lugar para a expressão da fé e pode ferir os sentimentos religiosos dos fiéis. Aos mais ofendidos em seus sentimentos religiosos fundamentalistas que quiserem logo trazer a comparação com o beijo de Judas ("Judas, com um beijo trais o Filho do Homem" Lc 22, 48), quero citar outra frase de Jesus (de sua conversa com o fariseu Simão): "Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. (...) Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor." (Lc 7, 45. 47).  Antes, vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: “Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora” (Lc 7, 39-40). A mulher "causou" - o fariseu ficou escandalizado, Jesus, por sua vez, comovido e admirado.
 
A conclusão, portanto, pode ser essa: o "causar" pode ser uma ótima ocasião para avaliarmos os nossos pontos de vista. Certamente é isso que os "causadores" têm em mente, ao tomarem as suas atitudes. Afinal, o maior "causador" na história é o próprio Jesus...