ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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24 de maio de 2011

Vamos orar?

O tempo pascal tem o seu desfecho na solene celebração do dia de Pentecostes (neste ano: 12/06). Cinquenta dias depois da ressurreição de Jesus, foi derramado o Espírito Santo sobre os apóstolos, reunidos no cenáculo com Maria e outros irmãos e irmãs. Tradicionalmente, no período de 9 dias que precedem a celebração de Pentecostes, os cristãos revivem a experiência dos discípulos de Cristo, em forma de uma novena. É o tempo particularmente dedicado à oração. Eu sei que muitos entre nós homossexuais vivem brigando com a Igreja e com Deus. Certamente, não são poucos, que abandonaram a oração. Aproveitando a proximidade do dia de Pentecostes, quero propor um renovado esforço na busca de espiritualidade, ou seja, de uma vida marcada pelo sincero e amoroso colóquio com Deus. Podem nos ajudar, neste sentido, as palavras do Beato João Paulo II, de sua Encíclica Dominum et vivificantem (aqui). Confesso que eu, como homossexual que acredita em Jesus e procura segui-lo, fico animado, ao identificar-me com a mensagem do Papa:
É belo e salutar pensar que, onde quer que no mundo se reze, aí está presente o Espírito Santo sopro vital da oração. É belo e salutar reconhecer que, se a oração se encontra difundida por todo o universo, igualmente difundida é a presença e a ação do Espírito Santo, que «insufla» a oração no coração do homem em toda a gama incomensurável das mais diversas situações e das condições, umas vezes favoráveis, outras vezes contrárias à vida espiritual e religiosa. Em muitos casos, sob a ação do Espírito, a oração sobe do coração do homem, apesar das proibições e das perseguições (...). A oração continua a ser sempre a voz de todos os que aparentemente não têm voz (...). O Espírito Santo é o Dom, que vem ao coração do homem ao mesmo tempo que a oração. Na oração Ele manifesta-se, antes de mais e acima de tudo, como o Dom, que vem em auxílio da nossa fraqueza. (n° 65)
Então, vamos orar?

1 de maio de 2011

Divina Misericórdia

A Festa da Divina Misericórdia foi instituída pelo Beato João Paulo II em 2000 e esta decisão foi uma resposta aos apelos de Jesus, dirigidos a Santa Faustina Kowalska, ainda nos anos 30 do século XX. Irmã Faustina, beatificada em 1993 e canonizada em 2000, registrou em seu Diário as palavras de Jesus: Desejo que a Festa da Misericórdia seja refúgio e abrigo para todas as almas, especialmente para os pecadores. Nesse dia, estão abertas as entranhas da Minha misericórdia. Derramo todo um mar de graças sobre as almas que se aproximam da fonte da Misericórdia. A alma que se confessar e comungar alcançará perdão das culpas e das penas. Nesse dia, estão abertas todas as comportas divinas pelas quais fluem as graças. Que nenhuma alma tenha medo de se aproximar de Mim, ainda que seus pecados sejam como o escarlate. A Minha misericórdia é tão grande que, por toda a eternidade, nenhuma mente, nem humana, nem angélica, a aprofundará. Tudo o que existe saiu das entranhas da Minha misericórdia. A Festa da Misericórdia saiu das minhas entranhas. Desejo que seja celebrada solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa. A humanidade não terá paz enquanto não se voltar à fonte da Minha misericórdia. (n° 699) Durante a última viagem à Polônia, sua terra natal, em 2002, o Beato João Paulo II consagrou a nova igreja-santuário da Divina Misericórdia, em Cracóvia. Durante a homilia disse: "Pai eterno, ofereço-Te o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade do Teu diletíssimo Filho e nosso Senhor Jesus Cristo, pelos nossos pecados e pelos pecados de todo o mundo; pela Sua dolorosa Paixão, tem piedade de nós e de todo o mundo" (Diário, 476). De nós e do mundo inteiro... Quanta necessidade da misericórdia de Deus tem hoje o mundo! Em todos os continentes, do profundo do sofrimento humano, parece que se eleva a invocação da misericórdia. Onde predominam o ódio e a sede de vingança, onde a guerra causa o sofrimento e a morte dos inocentes, é necessária a graça da misericórdia para aplacar as mentes e os corações, e para fazer reinar a paz. Onde falta o respeito pela vida e pela dignidade do homem, é necessário o amor misericordioso de Deus, a cuja luz se manifesta o indescritível valor de cada ser humano. É necessária a misericórdia para fazer com que toda a injustiça no mundo encontre o seu fim no esplendor da verdade. (O texto na íntegra: aqui) E concluiu com a oração de entrega de toda a humanidade à Divina Misericórdia:
Deus, Pai misericordioso
que revelaste o Teu amor
no Teu Filho Jesus Cristo
e o derramaste sobre nós
no Espírito Santo, Consolador
confiamos-te hoje o destino
do mundo e de cada homem.
Inclina-te sobre nós, pecadores
cura a nossa debilidade
vence o mal
faz com que todos
os habitantes da terra
conheçam a tua misericórdia
para que em Ti, Deus Uno e Trino
encontrem sempre a esperança.
Pai eterno
pela dolorosa Paixão e Ressurreição
do teu Filho
tem misericórdia de nós
e do mundo inteiro.
Amém!
Seria uma insensatez, total e absurda, dizer que nós, os homossexuais, não precisamos da Divina Misericórdia. Jesus disse: Que nenhuma alma tenha medo de se aproximar de Mim, ainda que seus pecados sejam como o escarlate. E o Beato João Paulo II confirma estas palavras ao dizer: Onde falta o respeito pela vida e pela dignidade do homem, é necessário o amor misericordioso de Deus, a cuja luz se manifesta o indescritível valor de cada ser humano.

22 de abril de 2011

Via Sacra [14]

XIV Estação: Jesus é sepultado

Ao entardecer, veio um homem rico de Arimatéia, chamado José, que também se tornara discípulo de Jesus. Ele foi procurar Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que lhe entregassem o corpo. José, tomando o corpo, envolveu-o num lençol limpo e o colocou num túmulo novo, que mandara escavar na rocha. Em seguida, rolou uma grande pedra na entrada do túmulo e retirou-se. Maria Madalena e a outra Maria estavam ali sentadas, em frente ao sepulcro. (Mt 27, 57-61) Provavelmente, todos nós já sepultamos alguém. Por mais que tenha sido anunciada, a morte sempre nos surpreende. Enterramos nossos pais, irmãos, amigos. Às vezes precisamos enterrar aquela pessoa, com a qual nos unia um laço particular de amor e paixão. Há vários relatos sobre as famílias de homossexuais mortos, que impediam a presença do namorado/amante do(-a) falecido(-a) no enterro. A dor da perda, multiplica-se, com a semelhante proibição. Nessas horas dá vontade de gritar: "Vocês não conheceram o seu filho (a sua filha)! Ele (ela) gostaria muito de que eu lhe prestasse a última homenagem!". Hoje em dia, chegam às vezes, notícias sobre a decisão judicial acerca da herança de um homossexual falecido, concedida ao parceiro. Certamente, a herança, não é a coisa mais importante, naquelas momentos. A vida que precisa seguir em frente, é o verdadeiro desafio. Nelson Luiz de Carvalho, em seu espetacular livro "O 3° travesseiro" (Ed. Arx; São Paulo, 2005), retrata os momentos do enterro, vividos pelo amante do rapaz que tinha sofrido um acidente fatal: Ao ouvir que o caixão seria fechado, fui envolvido por uma força muito parecida com a do vento. Meu corpo continuava inerte enquanto minha alma se arrastava pelo chão. As pessoas se movimentavam como em câmera lenta. Gritos, choros, desmaios. Desespero. Empurrado para trás por um sopro de sentomentos descontrolados, me separei do abraço seguro do meu pai. Sozinho e quase fora do salão, acompanhei com os olhos, segundo a segundo, a tampa da morte selar a vida. Duas almas gêmeas foram estraçalhadas naquele instante. (p. 209) E conclui, sobre a vida que precisava continuar: (...) desde aquele triste acidente de carro, vivo apenas para viver. Não existe nada na Terra capaz de arrancar esse vazio do meu peito. A saudade é a pior coisa do mundo. (...) Caminhando pelas estreitas alamedas do cemitério, espero por um milagre que nunca aconteceu. O silêncio da morte é enorme. O do meu coração, maior ainda. (p. 210) A última parte do texto está no capítulo final do livro, intitulado "Cinco Anos Depois". Nesta XIV Estação da Via Sacra, uno-me com todos os homossexuais que sofreram o semelhante trauma. É claro que não são apenas os homossexuais que perdem seus entes queridos. Todos os outros, porém, recebem um apoio, por exemplo, de uma "Pastoral de Consolação e Esperança", ou coisa parecida. Os gays, não. Com esta meditação, quero preencher, modesta e simbolicamente, esse lacuna.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Foste sepultado e, a partir daquele momento, todos os túmulos ganharam um novo significado. Como escreve o Teu Apóstolo, Paulo: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. (...) Como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos serão vivificados. Cada qual, porém, na sua própria categoria: como primícias, Cristo; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. (1Cor 15, 20. 22-23) Jeus, consola os que choram. Dá-me a graça de enxergar a morte de pessoa amada e o seu túmulo, com os olhos da fé. Ensina-me a olhar, também assim, à minha própria morte.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [13]

XIII Estação: Jesus é descido da cruz

Um dos momentos anteriores vem na mente neste silencioso momento, em que o corpo de Jesus sem vida é descido da cruz. É o grito cruel dos religiosos, reunidos ao pé da cruz: Zombavam de Jesus os sumos sacerdotes, junto com os escribas e os anciãos, dizendo: “A outros salvou, a si mesmo não pode salvar! É Rei de Israel: desça agora da cruz, e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que o ama! Pois ele disse: ‘Eu sou Filho de Deus’”. (Mt 27, 41-43) Também os que passavam por ali o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: “Tu que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” (Mt 27, 39-40) Jesus tinha o poder de descer da cruz, assim como de se defender para não ser crucificado. Mas permaneceu fiel, no seu amor divino e humano, até o fim. Esta XIII Estação é, portanto, a revelação da fidelidade de Jesus. Como se Ele quisesse dizer: “Eu sou o que sou. Eu sou assim. Nada e ninguém vai tirar isso de mim. Foi para isso que eu vim”. No contexto de nossas reflexões sobre a homossexualidade, à luz da Paixão de Cristo, chegamos à questão de fidelidade à própria identidade. Embora haja, recentemente, um avanço de aceitação da homossexualidade, como algo inseparável da natureza humana e, portanto, uma clara oposição (apoiada pela lei, em alguns casos), diante das tentativas de “tratamentos” ou “terapias” para “curar” alguém desse “vício”, infelizmente existem ainda muitos que acreditam no êxito de tal procedimento. A profunda ignorância de tanta gente proclama a urgência de que o “gay vire homem”. Sinceramente, é o mesmo grito daqueles que zombavam de Jesus e exigiam que descesse da cruz. Ele não desceu, mas foi descido, somente depois de sua morte. Eu posso dizer que vou deixar de ser homossexual, só na hora da minha morte. Embora não tenha tanta certeza, pois o próprio Jesus disse sobre a vida além da morte: Quando ressuscitarem dos mortos, os homens e as mulheres não se casarão; serão como anjos no céu. (Mc 12,25). Essas palavras do Senhor parecem sugerir que a definição da sexualidade, ou pelo menos o casamento, é a coisa passageira e limitada apenas para esta vida (ou este mundo). Na eternidade não será assim. São Paulo, por sua vez, afirma: O amor jamais acabará. (...) Atualmente permanecem estas três: a fé, a esperança, o amor. Mas a maior delas é o amor. (1Cor 13, 8a. 13) Na eternidade, não teremos mais necessidade de fé e de esperança. Viveremos a plenitude de amor. Será que a orientação deste amor continuará, ou haverá uma transformação? Isso só vamos saber quando chegarmos lá. Como está escrito, “o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem coração algum jamais pressentiu”. (1Cor 2, 9)

ORAÇÃO

Senhor Jesus! A Tua fidelidade até o fim inspira a minha fidelidade. Creio que sou assim, porque o Criador me fez deste jeito. Tu disseste: Não se vendem dois pardais por uma moedinha? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. (Mt 10, 29) Pois é! Nada acontece sem o consentimento do Pai do céu. É com este consentimento do Pai, que eu sou homossexual. Embora muitos gritem, para que eu deixasse de ser o que sou, o Teu exemplo de permanecer na cruz até o fim, consola-me e fortalece. Obrigado, Jesus!
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [12]

XII Estação: Jesus morre na cruz

Pelas três da tarde, Jesus deu um forte grito: “Eli, Eli, lamá sabactâni?”, que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46) Jesus nunca foi abandonado por Deus, até porque Ele próprio é Deus. Na hora da morte, porém, Jesus experimentou o ápice de toda angústia humana. A partir daquele momento, também a sensação de ser abandonado por Deus, foi consagrada. Não é mais identificada com a blasfêmia. Quando sentimo-nos abandonados por Deus, estamos muito mais perto dele do que pode parecer. Muitos homossexuais experimentam esta angústia, alimentada, inclusive, por aqueles que se consideram representantes de Deus neste mundo. Não nos esqueçamos de que, ao pé da cruz, além de Maria Santíssima e o discípulo amado, estavam, justamente, os "representantes de Deus" que, naquela hora, não paravam de zombar de Jesus. Cristo está sendo representado, de maneira mais eloquente, pelos perseguidos e, por isso mesmo, angustiados, do que por aqueles que exibem os seus títulos e ministérios eclesiásticos. O livro "Vidas em arco-íris" (Editora Record; Rio de Janeiro, 2006) de Edith Modesto (fundadora do movimento dos pais de homossexuais), reune vários depiomentos de gays e lésbicas. Uma parte é dedicada à relação dessas pessoas com Deus. Um dos entrevistados, Bruno, diz: A adolescência foi quando começaram as crises, porque, para mim, que era protestante, eu tinha a minha realidade formada, eu acreditava em todo aqule mundo que a religião mostra. Então, na adolescência, óbvio que depois aconteceu de eu me apaixonar por outro rapaz e não entender o que estava acontecendo. Eu me preocupava com a minha família religiosa, e com Deus... Tinha uma coisa de Deus extremamente presente, absolutamente cruel. Eu iria ser muito castigado... Seria a minha destruição, com certeza. (p. 102) Betty Fairchild e Nancy Hayward, em seu livro "Agora que você já sabe: o que todo pai e toda mãe deveriam saber sobre a homossexualidade" (Ed. Record; Rio de Janeiro, 1996), citam a obra de McNeill, "The Church and the Homosexual": O homossexual passa por uma grande angústia mental e por um profundo sentimento de alienação, frequentemente se considerando uma pessoa banida, não apenas da sociedade, mas também do amor divino. (p. 188) Jesus crucificado deixou um testamento muito importante para todos aqueles que experimentam a sensação de serem abandonados por Deus: Não tenhas medo que fui eu quem te resgatou, chamei-te pelo próprio nome, tu és meu! Pois és muito precioso para mim, e mesmo que seja alto o teu preço, é a ti que eu quero! Para te comprar, eu dou, seja quem for; entrego nações, para te conquistar! Não tenhas medo, estou contigo! (Is 43, 1b. 4-5a)

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Eu sei que Tu estás sempre comigo. Nunca me abandonaste. Houve momentos em que gritei por me sentir desamparado. Peço-Te, abençoa todos os homossexuais, sobretudo os que se sentem abandonados ou condenados por Deus. Também aqueles que foram expulsos das Igrejas. Dá-nos a graça de experimentarmos a Tua presença e o Teu amor em nossa vida.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

21 de abril de 2011

Via Sacra [11]


XI Estação: Jesus é pregado na cruz

Dedico esta XI Estação a todos os homossexuais torturados e assassinados por causa de sua identidade homossexual. Didier Eribon conclui a introdução ao seu livro "Reflexões sobre a questão gay" (Ed. Companhia de Freud; Rio de Janeiro, 2008), com o seguinte texto: No momento em que termino este prefácio, leio nos jornais que um jovem gay foi assassinado nos Estados Unidos, numa cidadezinha do Wyoming. Foi torturado pelos dois agressores e abandonado, agonizante, pendurado numa cerca de arame farpado. Tinha 22 anos. Chamava-se Matthew Shepard. Sei bem que não é o único homossexual a ter conhecido sorte tão trágica nos Estados Unidos nos últimos anos. Sei igualmente que, em muitos países, os gays, as lésbicas, os bissexuais e os transexuais são regularmente, sistematicamente, vítimas de violências como essa. Um relatório da Anistia Internacional publicou recentemente uma lista aterrorizante e, com certeza, bem incompleta. Mas é a foto de Matthew Shepard que hoje tenho diante dos olhos; o relato do que ele sofreu. Como não pensar nele quando me preparo para publicar este livro? Como não pedir ao leitor para nunca esquecer, ao lê-lo, qua não são apenas problemas teóricos que estão em jogo? (p. 23) Jesus disse: Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. (Mt 25, 40) Jesus continua sendo crucificado. E a Igreja, em vez de lavar os pés dos mais marginalizados, continua lavando as suas próprias mãos.


ORAÇÃO

Senhor Jesus! Foste humilhado, torturado e crucificado. Olha com amor àqueles que são crucificados por causa de sua homossexualidade. Recebe-os no Teu reino.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [10]

X Estação: Jesus é despido de suas vestes

As vestes de Jesus estavam praticamente grudadas em Seu corpo por causa do sangue coagulado nas feridas causadas pelo açoitamento. (...) A roupa foi arrancada, causando surtos de dor pelo corpo de Jesus. (Frederick T. Zugibe, "A crucificação de Jesus: as conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal"; Ed. Idéia & Ação; São Paulo, 2008; p. 67) Nos textos devocionais de Via Sacra, fala-se frequentemene, nesta estação, sobre a imoralidade, associada à nudez. É interessante notar, neste contexto, que a vergonha causada pelo corpo nu, é a primeira consequência do pecado. Então os olhos de ambos se abriram, e, como reparassem que estavam nus, teceram para si tangas com folhas de figueira. (...) O Senhor Deus chamou o homem e perguntou: “Onde estás?” Ele respondeu: “Ouvi teu ruído no jardim. Fiquei com medo, porque estava nu, e escondi-me”. (Gn 3, 7. 9-10) Vamos colocar o pensamento em ordem. Se a vergonha, diante da nudez, é o efeito imediato do pecado e, por sua vez, Jesus sofreu, morreu (nu!) na cruz e ressuscitou, por que, então, a Igreja, ao longo dos séculos, cultiva e alimenta, até ao extremo, a vergonha da nudez? Será que, ao permitir ser despido de sus vestes e crucificado nu, Jesus não redimiu e santificou, também, a nudez humana? Outra observação importante: o ato de descobrir (expor) o corpo, em toda a sua extensão, é um elemento indispensável da experieência de intimidade no amor. Quanto maior o amor, menor é a vergonha diante da nudez. Na verdade, a vergonha desparece totalmente, sem ter algo a ver com aquilo que, na linguagem popular chamamos de "sem-vergonha". É na intimidade do amor que se revela a nudez redimida pelo amor de Deus. E é na nudez que se revela, por excelência, a beleza da criação. Para deixar as coisas bem claras: a "sem-vergonhice" consiste em ver o corpo do outro, como o objeto a ser usado para obter um prazer individual. É a expressão do egoísmo. Quando, porém, fico fascinado e - por que não - atraído, pela beleza do corpo do outro, mas enxergo muito mais do que apenas o corpo, sou capaz de desenvolver o profundo e sincero amor. Livro-me, então, das minhas roupas e, os dois, experimentamos a comunhão íntima do amor. Repito: ao redimir o homem, Jesus santificou e consagrou a nudez.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Desde pequeno, olho o Teu corpo nu, exposto na cruz. Obrigado pela redenção da nudez. Obrigado por tantos belíssimos corpos que já tive a graça de contemplar (e, alguns, de tocar). Peço-Te que o corpo humano, que me fascina tanto, não seja para mim apenas um objeto do desejo carnal, mas o caminho para crescer no amor pelo homem inteiro. Livra-me da hipocrisia de toda falsa vergonha. Junto contigo, Jesus, louvo o Pai Criador, magnífico Artista, Autor da maior beleza: o corpo humano.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

19 de abril de 2011

Via Sacra [9]

IX Estação: Jesus cai pela terceira vez

Eram na verdade os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas. E a gente achava que ele era um castigado, alguém por Deus ferido e massacrado. Mas estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos pagar caiu sobre ele, com os seus ferimentos veio a cura para nós. (Is 53, 4-5) Todo o sofrimento de Jesus - e não somente as suas quedas no caminho ao Calvário, como sugerem alguns - foi a consequência dos pecados de cada ser humano. Ao contemplarmos a Paixão de Cristo, desperta-se em nós o arrependimento de nossas fraquezas, precedido pelo exame de consciência. Estes dois atos (o exame de consciência e o arrependimento) e mais outros três (o propósito de emenda, a própria confissão perante o sacerdote e a penitência, cumprida posteriormente),  formam o conjunto das condições de uma boa confissão. Entre estes elementos da reconciliação sacramental, o exame de consciência parece representar a maior dificuldade. Muitas vezes temos dúvidas, tanto em questão o que é e o que não é um pecado, bem como em relação ao "tamanho" (a gravidade) de cada pecado. Lembro-me da conversa com um pastor evangélico que afirmava ter sido a "adoração das imagens", o mais grave de todos os pecados. Não adiantava explicar de que nós, os católicos, não adoramos, mas veneramos as imagens, ao homenagearmos as pessoas representadas nelas (Jesus, Maria, os Santos, etc.). Naquele conversa não recorri aos argumentos bíblicos ou teológicos, mas à lógica. Jesus disse no Evangelho: Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos. (Mt 22, 37-40). Logicamente, o maior pecado, será a falta de amor a Deus e ao próximo. O resto depende destes dois mandamentos. Em vários ambientes católicos (comunidades, movimentos, grupos de espiritualidade, etc.), existe uma obsessão relacionada aos "pecados contra castidade", tidos evidentemente, como as mais graves (vejam aqui a semelhança com a neurose de alguns grupos evangélicos, em relação às imagens católicas). Anselm Grün, monge beneditino e escritor, fez uma interessante observação: Projetamos sobre os outros o demônio que habita o nosso coração, endemoniniando-os, acusando-os de serem pouco ortodoxos ou cristãos sem muita convicção. (...) Os defeitos que se apontam nos outros são sempre os próprios defeitos. ("O ser fragmentado: da cisão à integração"; Ed. Idéias & Letras; Aparecida, SP, 2004; p. 71). A clássica (e histórica) obsessão da Igreja, em relação à sexualidade (ou: sexualidades), parece revelar a sombra interior, da mesma espécie, presente (mas não admitida) nos próprios líderes e membros desta instituição. E, muitas vezes, comete-se o maior pecado - a falta de amor - ao investir na "caça das bruxas", na área da(s) sexualidade(s).

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Sofreste por causa dos nossos pecados. Perdoa-nos, por favor! Dá-nos a luz interior, para reconhecermos tudo aquilo que nos afasta de Ti. Dá-nos o dom de um verdadeiro e profundo arrependimento. Não nos deixes cair em tentação e livra-nos do mal. Do mal de não amar.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

18 de abril de 2011

Via Sacra [8]

VIII Estação:
Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
que choram por Ele

Seguia-o uma grande multidão do povo, bem como de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se para elas e disse: “Mulheres de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’. Então começarão a pedir às montanhas: ‘Caí sobre nós!’, e às colinas: ‘Escondei-nos!’ Pois, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” (Lc 23, 27-31). Jesus Mestre ensina até o último instante e suas palavras, nestas circunstâncias, ganham ainda mais peso. Tornam-se testamento. Jesus sabe que, muitas vezes, choramos e nos lamentamos sobre os outros, para não olhar a nós mesmos, ao nosso interior. Da mesma maneira, censuramos outras pessoas, para abafar a voz da nossa própria consciência. As palavras iniciais de Jesus ("não choreis por mim"), por mais que pareçam, não constituem uma proibição. É a mesma história que a da afirmação do Senhor: O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos. (Mt 20, 28). Se fosse uma ordem explícita, não teria sentido (pois seria abominável nos olhos do Senhor) todo o serviço prestado a Ele (pela Igreja, por pessoas individualmente, etc.). Jesus se importa com as prioridades. Em primeiro lugar, Ele veio para servir e dar a vida em resgate por muitos. E, por isso mesmo, os que foram resgatados, procuram servi-lo. Da mesma maneira, quando Jesus diz "não choreis", não quer dizer que esteja nos ensinando a insensibilidade e a indiferença. Ele quer que choremos, mas, em primeiro lugar, sobre nós mesmos e sobre os que amamos. Assim, como Jesus chorou, olhando à cidade de Jerusalém: Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar. E disse: “Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados. Esmagarão a ti e a teus filhos, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada”. (Lc 19, 41-44) Choramos, porque amamos e nos preocupamos. E devemos chorar (com outras lágrimas), quando não amamos o suficiente. As mães de Jerusalém e de todos os lugares da terra, devem chorar sobre si mesmas, quando não são capazes de acolher os filhos, do jeito como eles são. Por exemplo, homossexuais. E devem, por mesmo motivo, chorar sobre estes filhos que não recebem o amor necessário, dentro de sua própria casa. A Igreja precisa chorar sobre si mesma, quando não consegue se libertar de preconceito e, por isso, não serve a Jesus, presente em cada pessoa homossexual. E deve chorar por estes seus filhos abandonados. Por serem abandonados.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Eu choro sobre Ti, sobre mim e sobre aqueles que amo, ou devo amar. Ajuda-me a compreender o sentido das lágrimas e perceber a diferença entre elas. Ajuda-me a chorar sobre os meus pecados. Ensina-me a chorar por amor. Acolhe todas as minhas lágrimas. E que nenhuma delas Te ofenda.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [7]

VII Estação: Jesus cai pela segunda vez

"O sol do meio-dia estava forte e o suor pingava do rosto e do corpo de Jesus. O forte calor do sol e o peso da barra da cruz em Seus ombros irritados, considerando a condição em que Ele se encontrava, causaram intensa fraqueza e tontura, fazendo com que Ele tropeçasse, se desequilibrasse e caisse. As Estações da Cruz (indicadas por São Francisco de Assis) mostram Jesus caindo três vezes. Mas essa suposição não é compatível com Seu estado clínico, porque, considerando-se Sua condição física, há poucas dúvidas de que Ele tenha caído inúmeras vezes antes de chegar ao Calvário. (...) Ele tinha cada vez mais dificuldade para se erguer cada vez que ia ao chão, na tentativa de suportar o peso da cruz." (Frederick T. Zugibe, "A crucificação de Jesus. As conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal"; Ed. Idéia&Ação; São Paulo, 2008; p. 66) Repito aqui o meu pensamento, apresentado na meditação da III Estação: a maioria dos textos devocionais, associa as quedas de Jesus ao pecado, mais ou menos da seguinte maneira: "Cristo cai de novo por terra. São os pecados horríveis que o oprimem. Tão depresa acostumo-me a praticar o mal." Eu não pretendo fugir deste assunto, mas acredito que haja muito mais significado no verbo "cair" e que Jesus, derrubado no chão, deseja unir-se com cada ser humano, em todo tipo de queda. Na ocasião da III Estação (aqui), refleti sobre a experiência de "cair em si" que, em muitos casos, pode ter sido algo muito doloroso (exemplo: as pessoas que se surpreendem com a descoberta de sua homossexualidade). Continuando, de certo modo, aquela meditação, proponho agora o fenômeno de "cair em depressão". Muitos autores afirmam que entre os grupos mais propensos a sofrer depressão, o grupo homossexual destaca-se de modo acentuado. (...) Alguns cientistas têm sustentado uma vinculação genética entre a homossexualidade e a depressão (uma proposta [...] não apenas perturbadora como também insustentável). Outros sugeriram que as pessoas cuja sexualidade não pressupõe filhos podem confrontar mortalidade mais cedo do que a maioria dos heterossexuais. Diversas outras teorias têm circulado, mas a explicação mais óbvia para as altas taxas de depressão gay é a homofobia. Os gays são mais vulneráveis a serem rejeitados por suas famílias do que as pessoas em geral. São mais propensos a problemas de ajuste social. Devido a tais problemas, são mais vulneráveis a abandonar a escola. Eles têm uma taxa mais elevada de doenças sexualmente transmitidas. Têm menos probabilidade de formar relações estáveis em sua vida adulta. É menos provável que tenham guardiões quando idosos. São mais vulneráveis a serem infectados pelo HIV; e mesmo os que não são soropositivos, quando ficam deprimidos são mais vulneráveis à prática de sexo inseguro e a contrair o vírus, o que, por sua vez, exacerba a depressão. E, acima de tudo, têm uma maior probabilidade de viver furtivamente e ter passado por intensa segregação em consequência disso. (Andrew Solomon; “O demônio do meio-dia”; Ed. Objetiva; Rio de Janeiro, 2010; pp. 305-306)
Em vez de reduzir a riquíssima simbologia das quedas de Jesus durante a Via Sacra a questões morais ou legais ("pecado"), prefiro abrir os meus olhos a tantas outras realidades e expressar a solidariedade aos irmãos que caíram ao fundo do poço de solidão, tristeza e desânimo.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Vejo-Te prostrado, outra vez, no caminho. Creio que cada instante de Tua passagem por este mundo, tem o profundo sentido. Também estas quedas. Ampara, com o poder do Teu amor, todo aquele que caiu em depressão. Olha, de maneira especial, àqueles que, não recebem apoio algum, em sua dolorosa experiência de homossexualidade incompreendida e perseguida.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [6]

VI Estação: Verônica enxuga o rosto de Jesus

Esta cena não foi registrada pelos evangelistas, mas é transmitida por meio da tradição, inclusive o nome daquela mulher sensível e corajosa. Verônica teria sido a mulher curada por Jesus de hemorragia (cf. Mt 9, 20-22) e o seu nome, em versão grega, seria Berenice, tendo mais tarde a forma latinizada "Verônica", o que por sua vez, evoca a sua atitude da via crucis (vera [lat.] = verdade + eikon [gr.] = imagem). É aquela que recebeu de Jesus um singular sinal de gratidão, em forma de sua face sagrada e maltratada, impressa na toalha. A tradição atribui ao gesto de Verônica e ao "presente" de Jesus, a origem do culto à Sagrada Face. O que chama atenção, é o encontro de duas virtudes no coração daquela mulher. Uma atenciosa delicadeza e compaixão, normalmente seria vista como aquele frágil lado feminino. Não é de se surpreender que os rapazes, com traços delicados e sensíveis, são desprezados por muitos, por serem efeminados (a maioria dos machões, mesmo entre os gays, usam - em sua ignorância - o termo "afeminados"). No exemplo de Verônica percebemos que a sensibilidade não é necessariamente o sinal de fraqueza, muito pelo contrário. Unida com a coragem, esta virtude torna-se o meio para um belíssimo exercício de amor. Imagino os soldados, surpresos e aborrecidos, mas impotentes, diante de tal gesto. No meio da multidão, sem dúvida, houve quem sentisse vergonha, por causa da própria indolência. Muitos se lamentavam, mas somente Verônica tomou atitude. Naquele oceano de indiferença e zombaria, misturadas com a medrosa inêrcia, aquela mulher, junto com a Mãe de Jesus, tornaram-se como ilhas de esperança, consolo e autêntico amparo, para Jesus que naufragava nas profundezas de dolorosa solidão. Medito e rezo, nesta Estação, pensando em todas as pessoas que foram - e ainda são - as minhas Verônicas. É impressionante como, em torno de um homossexual, estão sempre presentes as mulheres, contrariando aquela ideia de que os gays são antifeministas, por natureza (perversa, é claro!). Tenho certeza de que, na maioria das vezes, as mulheres são tratadas melhor pelos homossexuais do que por homens heterossexuais. Está aqui a minha homenagem a todas as minhas amigas, que pertencem a várias gerações e diferentes "classes sociais", moram em lugares diversos, mas sempre, quando enfrento algum tormento, estão comigo, com aquela toalha na mão, para enxugar o meu rosto. E preciso completar que fazem isso, sem esperar qualquer coisa em retribuição da minha parte. Pelo contrário: suportam com paciência as minhas frequentes e estúpidas irritações e outras neuroses.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Aprendo contigo a verdadeira gratidão. Obrigado por cada Verônica que puseste no meu caminho. Abençoa todas elas, uma por uma! Envia outras pessoas, sensíveis e corajosas, ao encontro dos meus irmãos e irmãs homossexuais, sobretudo aqueles que enfrentam, sozinhos, as ondas furiosas de preconceito e perseguição.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

17 de abril de 2011

Via Sacra [5]

V Estação: Jesus recebe ajuda de Simão Cireneu

Passava por ali certo homem de Cirene, chamado Simão, que vinha do campo, pai de Alexandre e de Rufo, e obrigaram-no a que lhe levasse a cruz. (Mc 15,21) As duas principais informações são estas: 1) Simão ajudou Jesus; 2) Simão foi obrigado (Lc 23, 26, diz: detiveram um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para que a carregasse atrás de Jesus). A tradição da Igreja acrescenta a história de profunda transformação daquele homem, após o encontro com Jesus e com a sua cruz (alguns autores dizem que ele não queria devolver a cruz no final do caminho). Há quem associe o nome de Rufo, mencionado pelo Apóstolo Paulo (em Rm 16, 13) a um dos filhos de Simão Cireneu, como eventual prova daquela tradição. Seja qual for a história real desse homem, a V Estação da Via Sacra, leva-me à reflexão sobre todas as pessoas que assumiram o papel de Cireneu na vida de muitos homossexuais. Às vezes é uma ajuda conquistada, depois de longas e duras batalhas (portanto forçada), como a lei contra a homofobia e vários sinais de avanço em questão de reconhecimento da dignidade e dos direitos de pessoas homossexuais na sociedade. Ainda que se trate de leis e instituições, na prática acaba sendo uma convivência com as pessoas que representam essas leis ou instituições. Acredito que haja casos de mudança no interior de algumas dessas pessoas, à semelhança da experiência de Simão, descrita pela tradição. Mais uma vez confirma-se a tese de que o preconceito pode ser superado quando surge a oportunidade de conhecer o "problema" de perto. Alguns, ao conhecerem o "mundo gay" (ou, melhor, um ser humano, concreto e real), tornam-se seus defensores, além de toda obrigação institucional, ou pelo menos, ficam curados de medo e de má vontade. Por outro lado, existem entidades nas quais eu não depositaria tanta confiança assim. Hoje em dia, por exemplo, a mídia parece estar ao nosso lado. Como, porém - na minha opinião - a mídia é como uma prostituta conformista, acredito que a simpatia atual por parte dela, em relação ao universo GLBT, é o efeito da "onda do momento" e nada mais (pelo menos, no sentido geral). Só espero que essa onda dure ainda por muito tempo. A Igreja, por sua vez, declara o seu papel de Cireneu para com as pessoas homossexuais, mas (com algumas exceções) isso não passa de uma bela teoria.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Quando vejo Simão de Cirene, renova-se no meu coração, a memória de todas as pessoas que me ampararam pelo caminho. Quero agradecer, Senhor, por todas as conquistas que aliviam a vida de homossexuais em nossa sociedade. Peço-Te a graça para toda a Igreja, para que encontre as maneiras melhores de acolher e acompanhar os homossexuais, através de um trabalho pastoral, levado a sério. Quando vejo Simão de Cirene, desperta-se no meu coração, o desejo de ajudar os outros a carregarem a sua cruz.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [4]

IV Estação: Jesus encontra a sua Mãe

Não há palavras que fossem capazes de descrever os sentimentos de Maria naquele momento. Vários autores falam de um encontro que trouxe conforto para Jesus, neste caminho rumo ao Calvário. Eu não tenho tanta certeza. Quando enfrento alguma dificuldade, procuro não envolver a minha mãe naquela situação e, quando ela pergunta, sempre digo: "Estou bem, mãe. Está tudo bem por aqui!". Não quero que ela fique preocupada (também porque acho que ela sempre exagera nesta questão). Talvez a minha reação, vontade e postura sejam diferentes, no caso de uma situação extrema, como a de Jesus na Via Sacra. Se eu estivesse morrendo, gostaria que ela estivesse ao meu lado? Com certeza. Entretanto, a sua dor iria aliviar ou aumentar a minha? De acordo com uma das reflexões anteriores (aqui), a dor é o elemento indispensável (e, até, "constituinte") de amor. O encontro de Jesus com Maria, na via sacra, era necessário e, embora não tenha deixado marca alguma nos textos sagrados, chegou até nós por meio da piedosa tradição do povo. Penso, nesta estação, em Maria Santíssima e no seu lugar no plano da salvação. Muitos teólogos e, de certa forma, o próprio Magistério da Igreja, falam de Maria como "corredentora". Este título não diminui, nem ofusca, os méritos infinitos de Cristo Jesus, o único Redentor da humanidade, mas Deus quis que Ela participasse, de modo todo singular, nesta obra (a mesma logica se dá em relação à intercessão e/ou mediação entre homens e Deus). Logo, em seguida, nesta IV Estação, o meu pensamento vai em direção da minha mãe. Como é importante, para um homossexual, o amor compreensivo e acolhedor de mãe! Eu sei que muitos não tiveram a felicidade de encontrar o apoio e o amor incondicional de suas mães. Ainda assim creio que o desejo maior de cada mãe é ver o seu filho feliz (ainda que, nem sempre, o conceito de felicidade, seja o mesmo para ambos - veja aqui). Muitas mães não estão angustiadas pelo fato de seu filho ser homossexual, mas pela perspectiva de sofrimentos (preconceitos, perseguições, etc.) que isso pode causar na vida deste filho. É algo parecido, um pouco, com a preocupação de mãe, com a sorte do filho-policial, piloto ou alpinista. A diferença evidente está na eventualidade de persuadir o filho para que desistisse daquela carreira, o que não pode ocorrer, no caso de um filho homossexual (e nem sempre a mãe se dá conta dessa diferença). Apesar de todas as dificuldades e limitações, a presença de mãe, no nosso caminho de homossexuais, é de suma impotrância.

ORAÇÃO

Senhor Jesus, obrigado pela Tua Mãe, Maria Santíssima! Mãe, consoladora dos aflitos, acompanha-nos em todos os instantes. O seu terno amor de mãe acolhe, também, os filhos e filhas homossexuais. E nós, muitas vezes machucados pela vida, contamos com este encontro. Pela intercessão de Maria das Dores, peço-Te, Jesus, por todos aqueles que, ao descobrirem a sua identidade homossexual, não tiveram a compreensão e o apoio da própria mãe. Abençoa as nossas mães, para que nunca desistam de seus filhos.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

16 de abril de 2011

Via Sacra [3]

III Estação: Jesu cai pela primeira vez

Os Evangelistas não mencionam nenhuma das três quedas de Jesus no caminho da cruz, celebradas entre as "estações" da Via Sacra. É a tradição que nos transmite esses fatos. Por sua vez, a devoção atribui imediatamente o significado às quedas. Jesus caiu sob o peso da cruz, para salvar os homens que caíram no pecado. Obviamente, a maioria das meditações desta terceira estação (assim como da sétima e da nona), gira em torno do pecado. Não pretendo fugir deste assunto. Vou abordá-lo, em uma das próximas ocasiões. Neste momento penso sobre outros significados da palavra "cair". Na parábola sobre o filho pródigo (Lc 15, 11-32), Jesus descreve o estado interior do rapaz, com a expressão: "Caiu em si" (v. 17). O termo é claro: o jovem viu, enxergou a sua situação. Tomou consciência. Como dizemos popularmente: "caiu a ficha dele". Quando vejo Jesus que, ao carregar a cruz, cai pela primeira vez, penso naqueles momentos, em que para mim "caiu a ficha", em relação da minha homossexualidade. Caí em mim, tomei consciência. Isso não aconteceu, porém, num só instante, mas aos poucos. Como uma leve pena ou folha seca, a "minha ficha" foi caindo lentamente, ainda que causasse o autêntico terremoto ao tocar no chão. "Eu sou homossexual!". Para muitos, esta descoberta tornou-se insuportável, a ponto de atentarem contra a própria vida. Outros, morreram social ou emocionalmente. Há quem, depois de algum tempo, conseguiu ficar em pé, reconciliando-se consigo mesmo. Se ele cair, não ficará prostrado, pois o Senhor segura sua mão. (Sl 37, 24) Hoje agradeço a Deus por esta reconciliação. Peço por aqueles que continuam em guerra consigo mesmos.

ORAÇÃO

Senhor Jesus, prostrado no chão! Tu me acompanhaste naqueles momentos em que, finalmente, admiti a minha homossexualidade. Foi um tempo difícil, pois os fundamentos do meu mundo ficaram abalados, mas tu seguraste a minha mão. Obrigado, Senhor! Olha com amor àqueles que ainda não se deram conta desta realidade e àqueles que procuram fugir da verdade. Estende a Tua mão protetora sobre aqueles, cuja percepção do sentido de viver, foi ofuscada pelo desespero ou depressão. Faze com que não desistam da vida e que se aceitem como são. Que consigam enxergar a homossexualidade como uma variação - e não aberração - da própria natureza. Dá-lhes a paz!

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [2]

II Estação: Jesus recebe a cruz

Bem antes de sua paixão, Jesus disse aos discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. (Mt 16,24) Contemplamos, nesta segunda estação, o momento em que o próprio Jesus tomou a cruz. E, para nós, "tomar a cruz", quer dizer: tomar o quê? Grande parte da reflexão teológica, ao longo dos séculos, identifica esta atitude com a penitência pelos pecados e, neste contexto, também com a aceitação de sofrimentos e adversidades, bem como a fidelidade aos deveres do estado de vida. Há, em todas estas interpretações, o aspecto negativo, triste e pesado. É impossível negar que carregar uma cruz seja uma coisa triste e dolorosa, mas será que aqui está a sua essência? Até hoje, os católicos são associados a uma postura passiva diante de dor, perseguição, pobreza, etc. Tudo está sendo resumido por uma palavra: a cruz. Para muitos, os católicos são aqueles "pobres coitados" que, com resignação, permitem ser pisoteados, humilhados e injustiçados, porque - segundo dizem - tudo isso faz parte da cruz de cada dia. Acredito que, para respondermos à pergunta sobre a verdadeira "essência" da cruz, seja necessário olhar de um ângulo diferente (e único correto): o ponto de vista do próprio Jesus. Como foi que Jesus encarou aquele madeiro? Como enxergou o significado da cruz? Pouco antes da sua morte, o Senhor declarou: Sinto agora grande angústia. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. (Jo 12, 27) Em outra ocasião disse: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos. (Jo 15, 13) Para Jesus, a cruz era a melhor maneira de amar. Ou melhor: a cruz é o amor! Não se trata de masoquismo, mas de um amor autêntico e exigente, capaz de se sacrificar por inteiro. Jesus sabia que essa foi a melhor maneira de expressar o amor ao Pai e aos homens. Jesus ficaria inconsolado se alguém impedisse a sua morte na cruz. Em consequência, "tomar a cruz", significa amar. Amar de maneira com a qual foi formado o nosso coração. Se o meu coração é homossexual, o meu amor será homossexual também.

ORAÇÃO
Senhor Jesus, tomaste a cruz para realizar divino plano de amor. Obrigado pela Tua cruz e também pela minha. Às vezes tenho dificuldades em compreender o significado da cruz da minha sexualidade. Peço-Te, por isso, que a luz do Teu Espírito ilumine sempre o meu coração, para que eu veja a importância do amor. E que eu saiba sofrer por amor, quando for necessário. Abençoa cada homossexual, sobretudo todo aquele que sofre por ser assim. Ajuda-nos a acreditarmos no amor. Cura-nos do medo de amar. Fortalece aqueles que são perseguidos, porque amam. Convence aqueles que foram desiludidos no amor, que vale a pena começar de novo.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

15 de abril de 2011

Via Sacra [1]

I Estação: Jesus é condenado à morte

Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Pilatos disse a Jesus: “O que é a verdade?Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus. (Jo 18, 37b-38) Um detalhe, aparentemente sem importância, resume o absurdo do “processo” que levou Jesus à condenação. Em Jesus cumprem-se os projetos maliciosos dos homens, registradas pelo profeta Jeremias: Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras. (Jr 18, 18) Jesus é rejeitado, julgado, condenado, humilhado, maltratado, crucificado e morto, porque os homens não deram atenção a suas palavras.
Várias pessoas têm dúvidas em relação à homossexualidade, não a compreendem, pensam que seja algo monstruoso. Têm medo de algo obscuro que teria sido “contra a natureza”. Não se dão conta de que muito mais contra a natureza humana seja viajar de avião, pois a natureza do ser humano é pisar no chão. Se a homossexualidade não estiver dentro da natureza humana, onde então estaria? O medo, a fobia, faz com que as pessoas fogem das respostas, ainda que tenham feito perguntas, como Pilatos. O medo e a falta de respostas, geram preconceito e incitam agressividade. Milhares de homossexuais são insultados, espancados, mortos. As recentes estatísticas apontam o crescimento do número de assassinatos de homossexuais, travestis e lésbicas no Brasil. É Jesus que continua sendo condenado.

ORAÇÃO
Senhor Jesus, foste condenado, porque o medo dominou o coração do homem e impediu o conhecimento da verdade. Tu és a Verdade. Tu nos chamas a vivermos a verdade do nosso ser. Dá-nos a graça de reconhecermos e respeitarmos a nossa própria dignidade e a dignidade de cada ser humano. Dá-nos, também, o dom de perdoar a todos aqueles que nos ofendem e agridem. Protege de todos os perigos, os nossos irmãos e irmãs homossexuais. Cura a humanidade do mal da homofobia. Liberta o coração humano de todo preconceito. Orienta a Tua Igreja, para que esteja realmente aberta e saiba acolher com amor e conduzir a Ti, todas as pessoas homossexuais.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

13 de abril de 2011

Via Sacra [introdução]

Diz uma antiga tradição que foi Maria Santíssima, a Mãe de Jesus, que percorreu, como primeira, todos os lugares que marcaram o doloroso caminho do Senhor, rumo ao Calvário. Os discípulos de Jesus, mesmo depois de sua ressurreição, preservaram este piedoso costume, assim como o próprio Crucifixo, o símbolo e a memória do amor infinito de Deus pelos homens. Proponho uma série de meditações, seguindo o esquema milenar das quatorze estações: a Via Sacra. Como introdução, trago um trecho de texto escrito pelo então Cardeal Joseph Ratzinger (hoje Papa Bento XVI) e lido no início da celebração de Via Sacra no Coliseu, na Sexta-feira da Paixão de 2005. Naquela hora, o Papa João Paulo II, já muito debilitado, assistia tudo via televisão, no interior de sua capela particular. Ofereço esta Via Sacra em homenagem deste Servo de Deus e grande apóstolo do homem, em vista de sua próxima beatificação (01 de maio).
Introdução à Via Sacra (Card. J. Ratzinger)
A Via-Sacra mostra-nos um Deus que partilha pessoalmente os sofrimentos dos homens, cujo amor não se mantém impassível nem distante, mas desce ao nosso meio até à morte na cruz (cf. Fil 2, 8). Este Deus que partilha os nossos sofrimentos, o Deus que Se fez homem para levar a nossa cruz, quer transformar o nosso coração de pedra chamando-nos a partilhar os sofrimentos alheios, quer dar-nos um «coração de carne» que não fique impassível diante dos sofrimentos alheios, mas se deixe comover e nos leve ao amor que cura e ajuda. (...) «Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me» (Mt 16, 24). Com estas palavras, o próprio Jesus nos dá a interpretação da «Via-Sacra», ensina-nos como devemos fazê-la e segui-la: a Via-Sacra é o caminho da perda de nós mesmos, isto é, o caminho do amor verdadeiro. Ele precedeu-nos neste caminho; este é o caminho que a devoção da Via-Sacra nos quer ensinar. (Leia o texto na íntegra aqui).
ORAÇÃO
Senhor Jesus! Venho seguir os Teus passos neste doloroso caminho da cruz. Tu me conheces profundamente. Trago a minha homossexualidade e tudo que nela é doloroso para mim. Como Tu, ao carregar a cruz, eu também experimento a solidão. Como Tu, encontro pelo caminho várias pessoas agressivas e preconceituosas, mas também, algumas pessoas cheias de amor, atenção, carinho e disposição. Ajuda-me a carregar a minha cruz e eu me proponho a ser o Teu Cirineu e a Tua Verônica. Peço a companhia de Tua Mãe compassiva. Abençoa, Senhor, todos os meus irmãos e irmãs, os homossexuais em toda a face da terra. Concede-nos a preciosa graça de fé, esperança e de amor verdadeiro. Abençoa aqueles que amamos, por quem estamos apaixonados. Abençoa aqueles que nos odeiam e perseguem. Abençoa, sobretudo, nossas mães e pais, nossos irmãos, irmãs e demais familiares. Ampara-nos na hora da dor. Consola-nos na hora da tristeza. Defende-nos na hora da tentação. Livra-nos de todo mal. Amém.

29 de março de 2011

Perdoar 70 × 7

Evangelho de hoje: Mt 18, 21-35. Geralmente os pregadores explicam que “70×7” significa “sempre”. Os números na Bíblia têm sua rica simbologia e o “7” refere-se à perfeição (plenitude). Eu compreendo estas palavras de Jesus também de outra maneira. Se compararmos os efeitos de ofensa (tais como mágoa, raiva, ressentimento, rancor, etc.) com as feridas no corpo, a recomendação de Jesus é como uma receita médica: "Aplique na ferida o bálsamo do perdão, quantas vezes for necessário". O perdão começa com uma decisão, mas não é só isso, pois lidamos com nossas emoções machucadas. Nem a razão, nem a força de vontade, conseguem dissolver os sentimentos de dor, humilhação e perda. É necessário o exercício do perdão para - por assim dizer - convencer o coração. Outro componente deste bálsamo é a graça de Deus que obtemos através de oração e, também, ao experimentarmos o perdão de Deus. É por isso que Jesus conta a parábola sobre os dois devedores. As dívidas são extremamente diferentes: uma enorme fortuna e, por outro lado, apenas cem moedas. O empregado perdoado não teve compaixão do comanheiro, mas nós devemos tê-la e é, justamente, a consciência de sermos perdoados por Deus, que nos inspira para perdoarmos aos outros. Precisamos compreender que estamos, exatamente, no lugar do primeiro empregado da parábola. Por mais graves e dolorosas ofensas que tenhamos sofrido neste mundo, todas elas estão sendo representadas com aquelas cem moedas. As nossas culpas diante de Deus são, por sua vez, aquela enorme fortuna. Por que tanta desproporção? Santa Catarina de Sena, no livro “O diálogo” (o fruto de sua experiência mística de ouvir a Deus), explica esta questão: Sendo eu [Deus] um bem infinito, a ofensa cometida contra mim pede satisfação infinita. (2.1) Vossa natureza humana era incapaz de satisfazer pela culpa e de cancelar a mancha do pecado de Adão, mancha que estragara a humanidade e lhe dera o mau cheiro da culpa. (...) Ocorreu que o humano se unisse à Deidade eterna; somente assim foi possível dar satisfação por todos os homens. (10.5) Desta união das duas naturezas, recebi e aceitei o sacrifício do Sangue. Era sangue humano, mas mesclado, amalgamado com a natureza divina, com o fogo do meu amor. (...) Foi somente desta forma – na virtude da divindade (de Cristo) – que se tornou possível a reparação da culpa humana; foi assim que se cancelou a mancha do pecado de Adão. Dela restou apenas uma cicatriz, que é a inclinação para o mal e os defeitos corporais, à semelhança da cicatriz que fica quando uma pessoa é curada de uma ferida. (4.2)
Escrevo tudo isso, porque não há um ser humano na face da terra que não tenha sido ofendido e, por isso, não precisasse dessas lições de perdão. Escrevo isso neste blog, dedicado à homossexualidade, pois são os homossexuais que têm muito mais ocasiões de sofrer ofensas. É por isso que se torna tão necessário para nós o exercício diário de perdão. Jesus disse: Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso. (Lc 6, 36) E João Paulo II escreveu: Estou plenamente consciente de quanto o perdão possa parecer contrário à lógica humana, que obedece frequentemente a dinamismos de contestação e represália. Pelo contrário, o perdão inspira-se na lógica do amor, aquele amor que Deus nutre por cada homem e mulher, por cada povo e nação, pela família humana inteira. (...) Como atesta a Sagrada Escritura, Deus é rico de misericórdia e não cessa de perdoar a todos os que regressam a Ele (cf. Ez 18, 23; Sl 32-31, 5; 103-102, 3.8-14; Ef 2, 4-5; 2Cor 1, 3). O perdão de Deus torna-se, em nossos corações, fonte inexaurível de perdão também no nosso interrelacionamento, ajudando-nos a vivê-lo sob o signo de uma verdadeira fraternidade. (Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1996). [leia o texto inteiro aqui]

17 de março de 2011

quanto mais

Ao falar sobre a oração (Mt 7, 7-12), Jesus faz (novamente) a referência à experiência humana de relacionamentos (escrevi sobre isso recentemente aqui). Para compreendermos mais um pouco o amor de Deus, Jesus nos remete à pessoa(-s) mais amada(-s) a quem somos capazes de dar tudo, porque é o amor que nos impulsiona. E essa reflexão deve ser bastante concreta, profunda e prolongada. A recordação das emoções que tivemos (ou temos) ao estar com a pessoa amada e ao tentar fazê-la feliz, ajuda-nos a entrar, digamos, no coração de Deus. O termo-chave é a expressão usada por Jesus: "quanto mais": ...quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedirem! (v. 11). Se nos lembrarmos de que somos a imagem e semelhança de Deus, vamos entender que as nossas emoções e a nossa dedicação, são um pequeno reflexo da riqueza infinita do amor de Deus. É como uma gota perante o oceano. Com esta constatação a nossa oração fica diferente: mais confiante, mais alegre, mais bem-vinda. Poir isso, repito, é tão preciosa a nossa experiência de amar. Defendo a convicção de que as pessoas homossexuais não precisam pensar que estejam privadas de uma verdadeira vida de oração (ou vida espiritual, em geral). Podem até viver experiências mais profundas de intimidade com Deus, graças a sua natural (!) predisposição e sensibilidade.
Outra observação: no final da passagem do Evangelho de hoje, Jesus parece mudar de assunto. Pronuncia a famosa "regra de ouro": Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. (v. 12). Evidentemente, a frase "funciona" perfeitamente sozinha, mas se for lida (como deve) no contexto das afirmações anteriores (sobre a oração), pode ganhar o sentido mais pleno (e dar este sentido a tudo que já foi dito). O que é que eu quero que o "Outro" (Deus) me faça? Quero que me escute e atenda. Por isso, logicamente, eu devo escutá-lo e atendê-lo também. E isso não tem nada a ver com aquela expressão "toma-lá-dá-cá". É, simplesmente, uma maneira de retirar os obstáculos do caminho pelo qual nos chegam as bênçãos e as graças do Senhor.

15 de março de 2011

Pai nosso

Jesus retoma um dos assuntos com os quais tinha iniciado este tempo da Quaresma: a oração. Outros são: a esmola e o jejum (veja esta reflexão). O Evangelho de hoje (Mt 6, 7-15) traz a oração "Pai nosso", sobre qual ja foi dito e escrito tanto, que vou me limitar apenas a um comentário, para não ser um "repetidor de ideias" (usando o termo de Augusto Cury).
Insisto aqui no assunto de estrago que faz a falta de uma séria e estruturada Pastoral para Homossexuais, ou - pelo menos - de um tratamento mais digno das pessoas com esta identidade (ou condição) dentro da Igreja. Geralmente funciona isso da segiunte maneira (ainda que não necessariamente com estas palavras): "Você está todo errado, por isso nem vou lhe dar atenção". E se, neste mesmo momeno, perguntarmos ao autor desta resposta tão caridosa e cristã, se o 'Pai nosso' é também o Pai dos homossexuais? - com certeza não vai querer se envolver nessa conversa. As consequências são devastadoras. Um(-a) homossexual - estou falando daqueles que ainda conseguem buscar uma vida espiritual - carrega "nas costas" o peso de culpa, muitas vezes só pelo fato de sentir algo diferente e, exatamente por isso, não se sente digno(-a) de falar com Deus. Abandona a oração e cai, ainda mais, no "abismo" de abandono e solidão. Tenho certeza absoluta de que deveria acontecer, justamente, o contrário. Se o motivo de eu não falar com Deus é algum tipo de "vergonha", significa que estou transferindo para Deus as características puramente humanas. Eu posso sentir algum constrangimento perante as pessoas e não por estar errado, mas por conhecer (e experimentar na pele) a incompreensão da mente preconceituosa. Uma das atitudes movidas pela vergonha é a tentativa de se esconder ou de esconder "aquilo". E isso não funciona com Deus. Enquanto as pessoas se perguntam: "Será que ele é?", Deus sabe perfeitamente quem sou. E mais: em Deus o saber e o amar são a mesma coisa. Por isso não devo sentir nenhum constrangimento (a não ser aquele que vem da grandeza do amor divino), ao me aproximar de Deus. Até mesmo quando a minha consciência (e não as pessoas) me diz que pequei, não devo fugir de Deus, mas chegar perto e dizer: "Como o Senhor já sabe, pequei...". Santa Teresa d'Àvila deixou um testemunho muito interessante a respeito disso: Comecei (...) a meter-me tanto em ocasiões de pecado muito grandes e a andar tão estragada minha alma em muitas vaidades, que eu já tinha vergonha de voltar a me aproximar de Deus em tão particular amizade como é a conversa da oração. (...) Esse foi o mais terrível engano que o demônio me podia fazer sob o véu de parecer humildade, pois comecei a temer ter oração, por ver-me tão perdida. ("Livro da vida", cap. 7, 1)
Lembro-me de uma pregação, na qual o padre estava contando sobre o ancião que foi procurado por um jovem. "Diga-me, o que eu faço para ser santo?" - prguntou jovem. "Pega um pedaço de papel e escreve a oração 'Pai nosso'. Depois medita sobre estas palavras todos os dias. Isso é suficiente" - respondeu o ancião.
Quero propor aos (eventuais) Leitores este exercício, pelo menos por uma semana. Tenho certeza que os frutos não serão poucos nem pequenos.