ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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16 de maio de 2014

Onde está o Demônio?


É um saco viver numa época em que a menor notícia boa tem que ser ofuscada pelos fanáticos da Igreja Católica Apostólica Furiosa. Coitados, não sabem (porque não consta na Bíblia) que a mentira - à qual com tanta frequência recorrem - tem pernas curtas e ainda é a obra do Demônio (isso sim, eles devem saber, pois consta na Bíblia: Jo 8, 44). Vamos, porém, aos poucos, seguindo a ordem das coisas...

1. A NOTÍCIA BOA
No último dia 6 de maio (terça-feira), o Papa Francisco teve como um dos concelebrantes da Santa Missa na capela da Casa de Santa Marta, o Padre Michele De Paolis (salesiano italiano, nascido em 09 de março de 1921), um dos fundadores da Comunidade "Emmaus" (1978) e, segundo algumas fontes, cofundador do grupo  italiano AGEDO (associação de amigos, parentes e pais de pessoas homossexuais e transexuais, fundada em 1992 na cidade de Milão [breve história em italiano, aqui]). O próprio Padre Michele assim relata o encontro [fonte, em italiano - o texto traduzido graças aos recursos da tecnologia]: 

Eu concelebrei com o Papa Francisco. Li o Evangelho. Após a celebração, o Papa recebeu os presentes em outra sala. Eu e o meu companheiro fomos os últimos. Em apenas alguns minutos - muito intensos - eu falava de "pedras rejeitadas", com as quais convivo. Entreguei ao Papa alguns presentes (um crucifixo, um cálice com a patena em madeira de oliveira, belíssimos) e falei sobre as nossas iniciativas em andamento, relacionadas aos imigrantes de Lampedusa. O Papa ficou muito feliz. Eu disse ao Papa: "Nós adoraríamos ser recebidos em uma audiência com o pessoal da [Comunidade] Emmaus! É possível?" Ele respondeu: "Tudo é possível! Converse com o Cardeal Maradiaga e combine tudo com ele". Em seguida, ele beijou a minha mão! Eu o abracei e chorei... 

A informação sobre o encontro do Padre Michele com o Papa Francisco foi publicada na página "Católicos LGBT's" no facebook. A mesma página cita o trecho de um artigo do Padre Michele De Paolis, escrito para um grupo LGBT de Lecce (Itália):

Aqueles que desejam transformá-los em 'heterossexuais', por assim dizer, estarão forçando-os a agir contra a sua natureza e tornando-os psicopatas infelizes. Precisamos colocar em nossas cabeças que Deus, nosso Pai, quer que nós, suas crianças, sejamos felizes e frutifiquemos com os dons que Ele colocou em nossa natureza! (...) Vocês têm o direito de procurar um parceiro. E não se preocupem: onde existe o ágape, existe Deus. Vivam a sua vida com alegria. E com a nossa mãe Igreja precisamos ter paciência. A atitude da Igreja com os homossexuais mudará. Neste sentido, inúmeras iniciativas já foram empenhadas. 

2. A NOTÍCIA RUIM
A "fumaça de Satanás", isto é, a repercussão na "mídia católica [furiosa]" foi abundante. As aspas referem-se tanto ao termo "mídia" (pois trata-se de portais, páginas etc. - nada que seja um veículo oficial da Igreja, enquanto instituição), quanto à palavra "católica" (porque, no momento em que o autor questiona a legitimidade do ministério petrino do Papa Francisco, de fato, deixa de ser católico).

A notícia sobre o encontro do Padre Michele De Paolis com o Papa Francisco foi repetida pelos blogueiros (ditos) católicos e - como de costume - distorcida. 

Um blog de Portugal, "perspectivas", assinado por Orlando Braga, abre mão de sua "catolicidade" ao dizer (aqui): 

A quem "o papa" beija as mãos? Na foto, vemos o cardeal Bergoglio, também conhecido por "papa Francisco", a beijar as mãos de Michele de Paolis, um clérigo salesiano de 93 anos. (...) O beija-mão aconteceu no passado dia 6 de Maio depois de uma missa em Santa-Marta. O dito "papa" convidou Michele de Paolis para ler o Evangelho do dia. Depois da missa, o "papa" inclinou-se profundamente perante ele e beijou-lhe as mãos. (...) Estará o leitor a imaginar o "papa" a beijar as mãos a um franciscano da Imaculada, ou a um qualquer membro da SSPX [Associação de São Pio X - veja aqui]? Se imagina, desiluda-se! O "papa" só demonstra a sua infinita humildade e beija as mãos a quem defende o "casamento" gay, o "casamento" gay entre sacerdotes da Igreja Católica [sic!], a legalização da pedofilia e da eutanásia [sic! sic!]. É desta gente que o "papa" gosta.

A verdadeira cusparada de desprezo (baseada em uma série de equívocos) encontrei na página "Rainha Maria" (olha o nome!). O autor do texto, Dilson Kutscher, publica uma foto e escreve a seguir:



Quando o demônio faz homilia em missa concelebrada pelo Pontífice no Vaticano [é o título da matéria]. (...) Padre Michele que apoia a ordenação de mulheres, o casamento gay, o fim do celibato, faz homilia em missa concelebrada pelo Pontífice (que festa para Satanás ver aquele que se diz servo de Cristo apoiar tais coisas e ainda fazer homilia numa missa concelebrada por um papa em pleno Vaticano). Dom [quer dizer, Padre] Michele concelebrou com o Papa argentino e pregou, como mostra a imagem acima, a homilia na Casa Santa Marta. Pelo visto, o Papa Francisco, ao permitir que este padre apóstata modernista, concelebre junto com ele e ainda faça a homilia, deve concordar em seu coração, com as mesmas posições apóstatas modernistas deste padre. Francisco concelebrando com este padre e permitindo que o mesmo faça a homilia, passa de forma sutil e indireta, uma mensagem de apoio à ordenação das mulheres, ao casamento gay e ao fim do celibato (as vezes os atos demonstram mais do que palavras escritas em documentos, declarações etc.).

Talvez não seja suficiente citar, mais uma vez, o relato do próprio Padre Michele que disse: "Li o Evangelho", nem mesmo a afirmação do citado acima esquisitão que, mesmo tratando o Papa de cardeal Bergoglio, também conhecido por 'papa Francisco', escreveu que o Padre foi convidado pelo Papa para ler o Evangelho do dia. Recorrendo a mais uma fonte, o portal "Especial sobre o Papa" da Comunidade Católica "Canção Nova", encontramos [AQUI] o texto da homilia proferida pelo próprio Santo Padre no dia 06 de maio na capela da Casa da Santa Marta no Vaticano. Logo, dizer que "o demônio faz homilia em missa concelebrada pelo Pontífice", é a prova não apenas de uma total incompetência jornalística, mas, antes de tudo, o sinal claro da falta de boa vontade e de compromisso com a verdade.

O mesmo ponto de vista, privado de boa vontade e baseado na mentira, encontramos em outras páginas na internet, por exemplo:

"blogonicus": "Papa Francisco beija a mão de sacerdote anti-clerical (sic!) e gayzista". Aqui, o autor (Danilo) reproduz a matéria (e as inverdades) da página "Rainha Maria", acrescentando apenas o neologismo "gayzista" (criado provavelmente por Olavo de Carvalho e repetido pelo Padre Paulo Ricardo). A mesma matéria foi reproduzida pela página "Sinais do Reino" (de uma autoria desconhecida).

O portal "Fratres in unum", além de repudiar o encontro do Papa com o Padre Michele (e ironizar, especialmente a atitude do Santo Padre de beijar a mão do sacerdote), presta, de fato, um serviço à verdade, citando algumas frases do Padre Michele (sem mencionar as fontes):

Estou espantado com o fato de que muitos homens da Igreja (...) ignoram completamente o fenômeno da homossexualidade, que a ciência já esclareceu de modo inequívoco: a orientação homossexual não é escolhida livremente pela pessoa. O rapaz e a moça se descobrem dessa maneira: trata-se de uma abordagem profundamente enraizada na personalidade, que constitui um aspecto essencial da própria identidade: não é uma doença, não é uma perversão. O rapaz ou a moça homossexual podem dizer a Deus: "Você nos fez assim!". 

Algumas pessoas de Igreja dizem: "Tudo bem ser homossexual, mas não deve ter relações sexuais, não podem amar uns aos outros!" Isso é a máxima hipocrisia. É como dizer a uma planta que cresce: "Você não deve florescer, não deve dar frutos!". Isso sim é contra a natureza.

Confesso a vocês que no começo eu também tinha meus preconceitos. Então, estudei e consegui. Sucessivamente tentei entrar na lógica do Evangelho; eu queria olhar para as coisas da parte de Deus. Entendo que o Pai não exclui do seu amor nenhum de seus filhos e não julga a pessoa com base em seus impulsos sexuais, que são atribuições da natureza e não de uma escolha voluntária.

1 de maio de 2014

Novidades...


Realmente, abandonei um pouco este blog. Sinceramente, todo esse papo sobre a busca de diálogo entre o "mundo LGBT" e o "mundo católico", já conseguiu encher o meu saco (desculpem pela expressão!), embora tenha sido eu mesmo quem se comprometeu com esse assunto. A minha ausência - só para não ser totalmente injusto comigo mesmo - surgiu também devido às buscas em outras áreas, digamos, profissionais que, graças a Deus, ocupam uma parte do meu tempo (e da minha mente). Talvez, um dia, escreva sobre isso por aqui. 

Isso foi uma tentativa de justificar a escassez das novas postagens no blog. E peço desculpas aos (eventuais) Leitores que, mesmo assim, procuram as novidades aqui. Eu realmente fico muito feliz com a presença e atenção de cada Leitor  que o meu "contador de visitas" consiga detectar...

Um tanto desanimado distraído, encontrei hoje uma notícia interessante que gostaria de reproduzir aqui. Antes, queria dizer que percebo a diferença entre as opiniões pessoais de quem quer que seja (e por mais "católicas" que pareçam ser) e uma declaração oficial da Igreja, ou de uma instituição direta e legalmente ligada à Igreja. Ainda que as mais azedas declarações de um Padre Ricardo da vida tenham a grande influência na formação de mentes fanáticas de certos católicos, evidentemente, uma declaração clara (diria: feita com todas as letras) de uma instituição da Igreja católica tem - para mim - o peso e a importância muito maiores. E quando tal declaração é, finalmente, positiva e sensata, não posso não enxergar aqui um sinal de esperança dos tempos melhores. 

Estou falando de uma nota oficial da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, publicada no perfil oficial da mesma no facebook (aqui) e divulgada, também, pelo portal 'brasilpost'.

Parabenizo os membros da Comissão Justiça e Paz pela coragem e clareza de sua declaração!

Eis a nota:

Nota da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo

Fiel à sua missão de anunciar e defender os valores evangélicos e civilizatórios dos Direitos Humanos, a Comissão Justiça e Paz de São Paulo (CJPSP) vem a público manifestar-se por ocasião da 18ª Parada do Orgulho LGBT que se realiza na Av. Paulista no próximo domingo, dia 04 de maio de 2014.

Nosso posicionamento se fundamenta na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, aprovada pelo Concílio Vaticano II, que diz: “As alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrais e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.”

Assim, a defesa da dignidade, da cidadania e da segurança das pessoas LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais – é imprescindível para a construção de uma sociedade fraterna e justa. Por isso não podemos nos calar diante da realidade vivenciada por esta população, que é alvo do preconceito e vítima da violação sistemática de seus Direitos Fundamentais tais como a saúde, a educação, o trabalho, a moradia, a cultura, entre outros. Além disso, enfrentam diariamente insuportável violência verbal e física, culminando em assassinatos, que são verdadeiros crimes de ódio.

Diante disso, convidamos as pessoas de boa vontade e, em particular, a todos os cristãos, a refletirem sobre essa realidade profundamente injusta das pessoas LGBT e a se empenharem ativamente na sua superação, guiados pelo supremo princípio da dignidade humana.


São Paulo, 30 de abril de 2014.

25 de março de 2014

A orientação e os juristas


O portal da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro divulgou uma nota sobre a reunião plenária da União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro - UJURCAT-RJ. O texto traz a conclusão daquela reunião plenária:

A União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro - UJURCAT-RJ em sua reunião plenária, realizada no dia 24 de março de 2014, com a presença de Sua Eminência Cardeal Dom Orani João Tempesta, digníssimo arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, aprovou por unanimidade posição contrária a inserção do termo 'gênero' e da expressão 'orientação sexual' como princípio e/ou diretriz do Plano Nacional de Educação - PNE. Trata-se de termo e de expressão carregados de ambiguidade e de ideologias, que não se prestam a definição de diretriz e de princípio. A propósito a referência à vedação de discriminação por motivo de sexo, prevista no Artigo 3°, inciso IV, da Constituição Federal, é adequada, consentânea e legítima e tem o apoio da UJURCAT.

Não pretendo entrar em discussão sobre o primeiro dos termos, isto é, 'gênero' que, de fato, precisa de uma definição mais clara ou, ao menos, mais conhecida para deixar de ser "um termo carregado de ambiguidade". A meu ver, o problema não é a falta de definição, mas a existência de muitas definições. Escrevi sobre uma delas neste blog (aqui).

O que me deixou curioso é a "posição contrária" dos juristas católicos do Rio em relação à expressão "orientação sexual". Se não for a orientação, então, é o que? A opção? Gostaria muito de crer que não seja isso o que queriam dizer os juristas católicos do Rio! Qual, então, é o problema em usar a expressão "orientação sexual", se ela aparece, também, em alguns documentos oficiais da própria Igreja? Existe, aliás, certa inconsequência na linguagem, digamos, institucional, da Igreja Católica.

Por um lado, o representante da Santa Sé na ONU, em dezembro de 2008, apresentou a posição da Igreja sobre a proposta da "Declaração sobre os direitos humanos, orientação sexual e identidade de gênero", com as seguintes afirmações:

Em particular, as categorias "orientação sexual" e "identidade de gênero", usadas no texto, não encontram reconhecimento, nem clara e partilhada definição no direito internacional. Se elas tivessem que ser tomadas em consideração na proclamação e na tradução prática dos direitos fundamentais, seriam causa de uma grave incerteza jurídica, como também viriam a minar a habilidade dos Estados para aderir e pôr em prática convenções e padrões novos e já existentes sobre os direitos humanos.

Até aqui, a argumentação da UJURCAT-RJ está dentro do padrão. Será mesmo que existe um "padrão" no discurso oficial da Igreja? Em um outro documento que só aparentemente não tem nada a ver com as declarações do representante da Santa Sé na ONU, encontramos a mesma expressão "orientação sexual", porém, sem qualquer contestação da mesma:

Na avaliação da possibilidade em viver, na fidelidade e alegria, o carisma do celibato, como um dom total da própria vida à imagem de Cristo, Cabeça e Pastor da Igreja, tenha-se presente que não basta certificar-se da capacidade de abstinência do exercício da genitalidade, mas é necessário igualmente avaliar a orientação sexual segundo as indicações promulgadas por esta Congregação. [Congregação para Educação Católica, Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio; n. 8; Vaticano, 2008].

O texto indica mais um documento: "Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais e da sua admissão ao seminário e às ordens sacras". Aqui, de fato, não encontramos a controversa expressão "orientação sexual", porque o texto insiste em repetir a fórmula "tendências homossexuais profundamente radicadas", além de introduzir a teoria sobre as "tendências homossexuais que sejam apenas expressão de um problema transitório como, por exemplo, o de uma adolescência ainda não completa" e que "devem ser claramente superadas, pelo menos três anos antes da Ordenação Diaconal" [n. 2].

Em mais um documento, "Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais", a Igreja tenta explicar a sua postura em relação à expressão "orientação sexual":

A pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual. Toda e qualquer pessoa que vive sobre a face da terra conhece problemas e dificuldades pessoais, mas possui também oportunidades de crescimento, recursos, talentos e dons próprios. A Igreja oferece ao [talvez "no" - obs. minha] atendimento da pessoas humana aquele contexto de que hoje se sente exigência extrema, e o faz exatamente quando se recusa a considerar a pessoa meramente como um "heterossexual" ou um "homossexual", sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna. [n. 16] 

A mesma instituição (a Igreja católica), ainda que em um tom de crítica, não hesita ao usar a mesma expressão "orientação sexual". Em uma nota sobre o livro de Pe. André Guindon, "The sexual creators. An ethical proposal for concerned christians" (1986), a Santa Sé diz:

Parece que ele [Pe. André Guindon] não reconhece muita liberdade às pessoas homossexuais, em relação com a orientação sexual das mesmas, nem a possibilidade de abstinência sexual. (...) A possibilidade de uma pessoa homossexual mudar para uma orientação heterossexual, mediante a psicoterapia [sic!], é ridicularizada e rejeitada

Existe, portanto, algo chamado "orientação sexual"? Uma coisa semelhante afirmou o Beato João Paulo II, ainda no início de seu pontificado, quando elogiou os bispos norte-americanos por terem escrito uma carta ao Povo de Deus:

Como homens que têm palavras de verdade e o poder de Deus (2  Cor 6, 7), como autênticos mestres da lei de Deus e pastores compadecidos, afirmastes também com justiça: "O comportamento homossexual... enquanto coisa distinta da orientação sexual, é moralmente desonesto". Na clareza [sic!] desta verdade, exemplificastes a caridade efetiva de Cristo: não traístes aqueles que, por causa da homossexualidade, se encontram perante problemas mais difíceis, como aconteceria se, em nome da compreensão e da compaixão, ou por qualquer outro motivo, tivésseis despertado uma falsa esperança a qualquer irmão ou irmã.

Percebe-se, então, que o termo "orientação sexual" tem conquistado o espaço na linguagem e no entendimento da Igreja, assim como (ou, ainda mais) na cultura da sociedade em geral. Notamos, ao mesmo tempo, uma constante tentativa de fuga desse assunto por parte da Igreja, enquanto instituição. As agremiações do tipo da UJURCAT, citada acima, podem contribuir melhor para a compreensão mais ampla de uma realidade que talvez nunca tenha a sua definição completa e absoluta, mas nem por isso deixa de fazer parte vital da nossa existência e da nossa convivência. Além disso, o termo "orientação" é muito mais correto do que a palavra "opção" que continua circulando por aí e ainda causa bastante confusão. Não canso de dizer que o fato de ser um homossexual não é a minha opção. Talvez seja a orientação e, sem dúvida, é a minha identidade.

25 de fevereiro de 2014

O Papa e as famílias


A Santa Sé divulgou hoje, 25 de fevereiro, a Carta às Famílias, escrita pelo Papa Francisco. O texto, como tudo do Papa Francisco, é simples, objetivo e cheio de carinho. Eu leio a "Carta" com bastante esperança, lembrando de uma atenção nova e diferente da Igreja, voltada aos casais formados pelas pessoas do mesmo sexo. Talvez tenha chegado a hora de corrigir as afirmações anteriores, baseados nitidamente no medo perante o desconhecido que definiam como sendo abominável a "equiparação" das uniões homossexuais ao matrimônio e à família (escrevi sobre isso, p.ex. aqui). Como sabemos, o questionário, elaborado pelo Vaticano e enviado aos quatro cantos do mundo, aborda também o tema das uniões de pessoas do mesmo sexo, como um dos temas do próximo Sínodo dos Bispos. Falando, justamente do Sínodo, cujo tema será "Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização", o Papa Francisco faz um pedido importante: "(...) unamo-nos todos em oração para que a Igreja realize (...) um verdadeiro caminho de discernimento e adote os meios pastorais adequados para ajudarem as famílias a enfrentar os desafios atuais com a luz e a força que provêm do Evangelho". No início da "Carta", o Papa coloca-se, literalmente, à porta da casa de cada família, para conversar. Não é difícil imaginar este homem, entrando no lar formado por dois homens ou duas mulheres, assim como à mais humilde casa de uma mãe solteira ou mesmo de um casal heterossexual que vive sem o vinculo sacramental do Matrimônio. O Papa diz a cada uma dessas famílias: "Efetivamente, hoje, a Igreja é chamada a anunciar o Evangelho, enfrentando também as novas urgências pastorais que dizem respeito à família". E acrescenta: "[Jesus] é a fonte inesgotável daquele amor que vence todo o isolamento, toda a solidão, toda a tristeza". No final ainda diz: "Queridas famílias, a vossa oração pelo Sínodo dos Bispos será o tesouro precioso que enriquecerá a Igreja".

Há quem diga que não faz bem criar as expectativas, afinal trata-se de um sínodo, isto é, de uma reunião de trabalho que reunirá muitos bispos do mundo inteiro e que, em sua grande maioria, não têm a mente tão aberta quanto o Papa. Por outro lado, como disse o cardeal alemão Walter Kasper, "a Igreja não é uma democracia (...), porque, no final, quem decide é o Papa". Temos ainda outros sinais de esperança. É o pronunciamento do Secretário do Sínodo dos Bispos, o cardeal Lorenzo Baldisseri que, entre outras coisas, disse: "As respostas [ao questionário enviado pela Santa Sé aos católicos do mundo inteiro] apresentam muito sofrimento, sobretudo da parte dos que se sentem excluídos ou abandonados pela Igreja, por se encontrarem num estado de vida que não corresponde à sua doutrina e à sua disciplina". O mesmo cardeal afirmou ainda que as respostas ao questionário que já chegaram ao Vaticano (em aproximadamente 80% do total esperado), sublinham "a urgência de tomar consciência das realidades vividas pelas pessoas, de retomar o diálogo pastoral com as pessoas que se afastaram, por várias razões". E acrescenta: "A figura do Papa Francisco comprova, dia após dia, uma nova abordagem humana e cristã que faz vibrar as pessoas, dispondo-as à escuta e ao acolhimento daquilo que é bom para elas, mesmo quando há sofrimento".

Finalizo a reflexão com as palavras do próprio Papa, pronunciadas no início do recente "Consistório sobre a família", no dia 20 de fevereiro. Podemos notar facilmente que tanto o otimismo exagerado, quanto o pessimismo desesperado, não deve nos acompanhar. Antes, o realismo...

Eu diria que são dois lados da mesma moeda...
De um lado: "Nestes dias, refletiremos especialmente sobre a família que é a célula fundamental da sociedade humana. Desde o início, o Criador colocou a sua bênção sobre o homem e a mulher, para que fossem fecundos e se multiplicassem sobre a terra; e assim a família torna presente, no mundo, como que o reflexo de Deus, Uno e Trino".
Do outro lado: "Procuraremos aprofundar a teologia da família e a pastoral que devemos implementar nas condições atuais. Façamo-lo com profundidade e sem cairmos na 'casuística', porque decairia, inevitavelmente, o nível do nosso trabalho. Hoje, a família é desprezada, é maltratada, pelo que nos é pedido para reconhecermos como é belo, verdadeiro e bom, formar uma família, ser família hoje; reconhecermos como isso é indispensável para a vida do mundo, para o futuro da humanidade".

Uganda


Dizer que a humanidade é uma grande família é repetir aquela linda teoria que não tem muito a ver com a realidade. No mesmo dia em que a presidente Dilma tinha afirmado que faz parte do bom senso não se meter nos negócios de outros países e que o que importa é que sejam reconhecidas as coquistas sociais na Venezuela (certamente, a vida que perderam os manifestantes, executados pelo regime do Maduro imaturo, não se enquadram nessas conquistas), um outro presidente, chamado Yoveri Museveni, lá em Uganda, disse: "Os estrangeiros não podem nos dar ordens. É nosso país. Eles devem nos apoiar, ou senão guardar sua ajuda. Eu aconselho aos amigos ocidentais que não façam deste assunto um problema, porque eles têm muito a perder". Será que ele se inspirou na "presidenta"? É claro, não podia faltar as referências religiosas. O deputado David Bahati, que promoveu a lei, considerou que esse "voto contra o demônio" é "uma vitória para a Uganda".

O primeiro pensamento que surgiu na minha mente foi: "Graças a Deus que eu não moro em Uganda"... O segundo (ainda no mesmo espírito mesquinho e egoísta) dizia: "Graças a Deus que Uganda não é uma potência, ou referência mundial, semelhante aos Estados Unidos". Mas, quando respirei um pouco e permiti que a notícia tocasse nas camadas um pouco mais nobres da minha humanidade, refleti: "Meu Deus! E os homossexuais de Uganda? Como agora será a vida deles?!"...

A lei prevê a sentença de prisão perpétua no caso de reincidência, criminaliza qualquer tipo de "promoção" da homossexualidade e obriga os cidadãos (certamente punindo qualquer desobediência nesse caso) a denunciarem qualquer pessoa que se identifique como homossexual. A pressão internacional obteve a correção do projeto original que incluía a pena da morte para quem fosse flagrado pela segunda vez realizando um ato homossexual. Como se sabe, porém, cada lei tem também uma dimensão educativa, portanto não serão muito surpreendentes os atos de "julgamento popular", com o direito ao linchamento dos acusados (se presenciamos isso no Brasil, imaginem em Uganda!)...

Só nos resta pedir a misericórdia de Deus e, com a mesma insistência, levantar a nossa voz em protesto, inclusive em campanhas de coleta de assinaturas e outras formas de apelos às autoridades do mundo todo. Ainda que tenhamos - como eu tive - os impulsos bastante mesquinhos e egoístas, tentemos pensar nos outros que, de fato, são nossos irmãos, apesar de morarem em um lugar tão distante e desconhecido.

PEÇA QUE OS LÍDERES DE UGANDA E DO MUNDO TODO PROTEJAM AS PESSOAS LGBT EM UGANDA. ASSINE A PETIÇÃO AQUI
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Obs. 1.: As informações obtive na página "Homorrealidade" e sobre a campanha de assinaturas, no facebook.
Obs. 2.: Achei curioso o fato de que, ao transmitir a mesma notícia nos telejornais da TV Globo, o apresentador William Bonner usou o termo "homossexualidade" e - mais tarde - outro apresentador, William Waack, a palavra "homossexualismo"...
Obs, 3.: Leia também, no Blog "Diversidade Católica", sobre o mesmo assunto: "O Núncio Apostólico em Uganda contra a nova lei anti-gay" e "A maré está virando contra a homofobia"

7 de fevereiro de 2014

Deixar lesbianismo?


A frase acima [o título] parece estar incompleta. É a minha reação espontânea que faz acrescentar ali as palavras que faltavam. Seria assim: "Deixar de usar o termo 'lesbianismo', bem como 'homossexualismo' e 'gayzismo' - este último que nem existe nos dicionários legítimos e sérios, pois é uma debochada criação de Olavo de Carvalho [o ex-mago] e repetida pelo seu discípulo, padre Paulo Ricardo, seguido pelos milhares católicos homofóbicos". Tudo bem, a "minha frase" ficou mais longa e distante da "revelação" feita pelo portal "nova guia". O título original da matéria é: "Atriz global Claudia Jimenez deixa lesbianismo".

O título é como a chave de uma fechadura. Se estiver enferrujada, não vai funcionar bem. Não preciso ser um profissional de jornalismo para detectar os erros grosseiros, pelo menos dois, na abertura da matéria. Não sei de onde surgiu a mania de chamar atores e atrizes da Rede Globo de Televisão de "globais", se 99% deles não passam de nacionais. É quase como atribuir aos atores da Band o apelido de bandidos. Mas isso é de menos.

O que é que queria dizer a expressão "deixar lesbianismo"? Será que a pessoa que fez esse "anúncio de um milagre" ouviu falar de bissexualidade? De fato, vivemos numa época de notícias igualmente rápidas e superficiais. Isto é, uma época da difusão de burrices, a verdadeira epidemia de palavras sem conteúdo.

O próprio artigo cita os desabafos da atriz que disse, por exemplo: "Não tinha sensualidade, era muito mais gorda do que sou hoje. Não tinha forma nem vaidade. Achava que não tinha cacife para seduzir um homem. Como tinha de ser amada, me joguei nas mulheres". Tirando a curiosa ingenuidade da atriz, ao considerar mais fácil encontrar (sim, seduzir) alguém dentro de uma minoria, parece ser uma enorme arrogância afirmar que para se relacionar, ou - usando a sua expressão - se jogar nos braços de uma mulher, não precisava de sensualidade, forma e vaidade. Por que? Porque o relacionamento homoafetivo é um vaso sanitário?

A matéria fornece várias "pérolas" que seriam cômicas se não fossem trágicas: "As declarações da atriz, que não associa homossexualidade a algo inato à pessoa e sim como comportamento que pode ser superado, deixou a militância LGBT do país em polvorosa"; "Claudia deixou nas entrelinhas que sua opção pelo lesbianismo se deveu a diversos fatores externos como trauma de infância, rejeição e carência afetiva". No cotexto da última frase, acho interessante mencionar aqui o título da entrevista, concedida pela atriz ao jornal "Folha de São Paulo" (que, aliás, é a única fonte devidamente citada no artigo): "Claudia Jimenez diz que rejeição fez florescer seu lado cômico". Coerência jornalística? Que nada!

Quando a gente pensa que uma tese bizarra já tenha sido superada, neste caso de "cura gay", de repente aparece alguém que lança uma declaração brilhante, como esta: "Que outros sigam o exemplo de Claudia. Há saída para o comportamento homossexual". Só faltou o final lógico da frase: "...no caso de pessoas bissexuais".

21 de janeiro de 2014

Ações essenciais


Há um ano, o Governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral sancionou a Lei N° 6394 de autoria da deputada estadual do Rio, Myrian Rios (PSD). A lei institui o "Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" no âmbito do Estado do Rio de Janeiro. O texto parece um conto de fadas e certamente tem como anexo (?) a regulamentação bem precisa por parte da Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos. Afinal, alguns termos carecem de uma definição mais detalhada, por exemplo:

Parágrafo Único - O Programa deverá envolver diretamente a comunidade escolar, a família, lideranças comunitárias, empresas públicas e privadas, meios de comunicação, autoridades locais e estaduais e as organizações não governamentais e comunidades religiosas, por meio de atividades culturais, esportivas, literárias, mídia, entre outras, que visem a reflexão sobre a necessidade da revisão sobre os valores morais, sociais, éticos e espirituais (Deixando de lado as imperfeições gramáticas, pergunto: “a reflexão sobre a necessidade da revisão dos valores morais, sociais, éticos e espirituais” precisa de uma lei? E se alguém não quiser refletir? Será multado ou preso? Isso, sem dúvida precisa ser regulamentado...)

Art. 2º- O Poder Executivo deverá firmar convênios e parcerias articuladas e significativas, com prefeituras municipais e sociedade civil, no sentido de possibilitar a execução do cumprimento ao disposto nesta Lei, com os seguintes objetivos: I – promover o resgate da cidadania; II – fortalecer as relações humanas; III – valorizar a família, a escola e a comunidade como um todo. (Qual é o conceito da família? A legislação estadual obedece a nacional que define a família como “comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; independentemente de orientação sexual” [Lei nº 11.340; art. 5º, inciso II, e parágrafo único]?)

Parágrafo Único - Serão desenvolvidas ações essenciais que contribuam para uma convivência saudável entre pessoas, estabelecendo relações de confiança e respeito mutuo, alicerçada em valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais, como instrumento capaz de prevenir e combater diversas formas de violência. (Qual é o significado do termo “ações essenciais”? O "Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" prevê, também, as ações essenciais para combater a homofobia, estabelecendo relações de confiança e respeito mútuo entre as pessoas heterossexuais e homossexuais? Ou os valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais não permitem isso? Em que baseiam-se esses valores? Na doutrina católica? A deputada, em outro momento, descreve-se assim: Em 2003, cheguei à Comunidade Canção Nova e lá eu me restaurei. Encontrei na fé um alicerce e recebi forças de Deus para me tornar uma nova mulher. Naquele momento, o meu maior desejo era ser totalmente de Deus e, por Ele, eu mudei.)

Justificativa - Infelizmente, a sociedade de uma maneira geral vem cada dia mais se desvencilhando dos valores morais, sociais, éticos e espirituais. Valores esses que são de extrema importância para que nossa sociedade caminhe para o crescimento. Sem esse tipo de valor, tudo é permitido, se perde o conceito do bom e ruim, do certo e errado. Perde-se o critério do que se pode e deve fazer ou o que não se pode. Estamos vivendo em um mundo onde o egoísmo e a ganância são predominantes. (É uma impressão minha, ou as afirmações acima realmente fazem alusão aos costumes e comportamentos, vistos como errados pelos católicos fundamentalistas?)

Justificativa [continuação] - Na busca de um mundo melhor o programa, descrito nesse projeto, objetiva formular proposta de ações educativas e sugestivas, direcionadas a criança, jovens e adultos despertando uma grande mudança na sociedade fluminense.Diante dessa realidade, a criação do programa supracitado, que tem como objetivo principal conscientizar e reinserir valores de suma importância para que possamos construir um futuro melhor, onde haja principalmente respeito pelo próximo. (Como neste contexto fica, por exemplo, a manifestação pública de afeto entre as pessoas do mesmo sexo, tal como o beijo, considerado por muitos católicos e evangélicos uma falta de respeito?)

A deputada mantêm um blog (ou mantinha, pois as últimas postagens são do ano passado). Lá mesmo, além de publicar a lei em questão, divulgou uma nota esclarecedora:

Gostaria de conversar com vocês sobre algumas polêmicas que vêm sendo questionadas a respeito da aprovação do Projeto de Lei de minha autoria, que institui o Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais.
Para esclarecer algumas informações erradas que estão circulando na mídia, eu não sou ex-atriz, sou e sempre serei atriz, pois sou apaixonada pela arte da interpretação.
Também gostaria de corrigir a matéria que divulgou que faço parte da bancada evangélica da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Respeito todas as religiões, mas sou missionária consagrada da comunidade católica Canção Nova.
Esse projeto foi feito com a intenção de fazer mudanças positivas na nossa sociedade, e não tem como propósito atacar ninguém por motivo algum.

Jacques Gruman procura respostas ao questionamento parecido com o meu: Afinal de contas, existirá definição universal para valorização da família ? E para alicerces espirituais? Quem vai fazer a lista dos “valores morais” sugeridos pela lei? E acrescenta: A autora do projeto de lei, que vive às custas dos nossos impostos, é a senhora Myrian Rios, ex-atriz, missionária católica conservadora. Como muitos de seus pares, faz carreira confundindo púlpito com tribuna, defendendo propostas “cristãs” arcaicas e destilando um preconceito raivoso contra os homossexuais. Chegou a fazer campanha contra o sexo anal (!). Não compreende e se revolta com as profundas mudanças comportamentais das últimas décadas, que se refletem em indivíduos e famílias, regurgita conceitos que não se sustentam nas mais elementares evidências científicas e, presa a um maniqueísmo pueril, nos ameaça com leis absurdas.

Repito: a Lei Estadual N° 6394 vigora no Estado do Rio de Janeiro há um ano. Em lugar algum consegui encontrar as notícias sobre a regulamentação e a execução desta lei...

12 de janeiro de 2014

As novidades do Batismo


O título resume o conteúdo do texto a seguir, embora a sua expressão possa sugerir uma direção diferente da reflexão. Sim, o Batismo, enquanto Sacramento, traz uma novidade total para quem o recebe. É uma nova identidade, é a filhação divina, é a marca de Deus que não se apaga por toda a eternidade...

Queria, entretanto, falar hoje de outras coisas. Se não existir a regra que manda inventar um título curto, o mais correto seria: "As novidades anunciadas na Festa do Batismo do Senhor 2014". Todos os anos, nesta ocasião, a Igreja inicia o tempo litúrgico chamado "comum" (que, cá entre nós, não é o nome dos mais bonitos). É para destacar o encerramento das festividades natalinas e dar um tempo para o novo período forte na liturgia que é, sem dúvida, a quaresma e a Páscoa. Podemos dizer que o Batismo do Senhor é o último domingo do ciclo de Natal e, ao mesmo temo, o primeiro do tempo comum. É bastante curiosa a analogia que aparece aqui com a figura de João Batista que pertence, ao mesmo tempo, ao Antigo e ao Novo Testamento.

A notícia do Batismo do Senhor de 2014 é o anúncio de novos cardeais. Entre eles está o Arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta. Ele mesmo, em março do ano passado, em uma entrevista à revista ISTOÉ, foi interrogado sobre esse assunto:

ISTOÉ: O sr. almeja ser cardeal?

D. Orani - Não coloco como preocupação minha, mas da cidade. Todo dia eu escuto essa cobrança. Mas estou muito tranquilo. Se o novo papa decidir que o Rio não vai ter mais cardeal, não será problema para mim, mas talvez para a cidade.

Na mesma entrevista o futuro cardeal respondeu às perguntas referentes às pessoas homossexuais:

ISTOÉ - O sr. é a favor da união civil ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo?

D. Orani - São coisas diferentes. Uma coisa é a família, o casamento, que tem a ver com a natureza humana. Outra coisa são essas uniões, que envolvem direitos civis, de herança, por exemplo. A gente não entra nessa história. Eu creio que essas questões começaram a surgir por falta de respeito ao outro, perseguições e mortes. Não podemos ter um mundo intolerante dessa forma, nem de um lado nem de outro. O outro tem sua liberdade de opção, sabendo até que eu não posso concordar com ele.

ISTOÉ - Um homossexual é bem recebido na Igreja?

D. Orani - A Igreja é a que mais procura respeitar as pessoas, acolher e ajudar nos conflitos que cada um possa ter no coração. Tenha a opção sexual que tiver, a Igreja deve acolher. Porque Cristo quando veio foi a todos e falou com todo mundo. Ninguém está sendo expulso da Igreja por uma coisa ou outra.

Ainda que a expressão "opção sexual", usada pelo D. Orani, sugira - digamos - certa insegurança dele no assunto, a resposta em si mostra a sua abertura para com o mundo real. No mesmo sentido e no tom ainda mais acolhedor, D. Orani teria respondido a um rapaz, Rafael, durante a JMJ 2011 em Madri. Rafael relata assim a resposta do Arcebispo:

[D. Orani] disse que não podemos negar que há homoafetivos em nossa Igreja, até porque nossa Igreja é um grande corpo, e Cristo como autor da fé chama a todos a viver essa sua diversidade e pluralidade, e que ele, como bispo, não podia negar a vivência de Igreja, a comunhão de fé a ninguém. E acrescentou que todos aqueles que proclamam o Credo e têm suas experiências com o Cristo, e O reconhecem como Senhor têm espaço e lugar em nossa Igreja. Segundo ele, essa é uma pequena expressão do que é o Reino de Deus, a Nova Jerusalém, e sublinhou que Cristo convida a todos; aqueles que se sentem cativados respondem a esse chamado, seja gay ou hétero. "A Igreja está aqui para todos", concluiu. 

O portal terra, em julho do ano passado divulgou a seguinte notícia: O Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta e seus auxiliares tiveram que repercutir as duas entrevistas dada pelo Papa Francisco antes de deixar o Brasil, nas quais tocou em assuntos polêmicos, como a aceitação de homossexuais na igreja. “A igreja nunca rejeitou essas pessoas. Temos pessoas trabalhando na direção de nos aproximarmos mais”, disse o Arcebispo.

Enfim, o que muda com a indicação e a próxima nomeação de D. Orani como cardeal, é o peso de suas palavras. Esperamos apenas uma continuação em sua abertura a este assunto e que ele faça o contaste em relação ao seu colega, D. Odilo Pedro Scherer de São Paulo.

Retomando a expressão (um tanto discutível) de D. Orani: "A Igreja nunca rejeitou essas pessoas", aproveito o gancho para citar a declaração de um outro bispo, D. João Carlos Petrini, Presidente da Comissão para Vida e Família da CNBB. Em sua entrevista, concedida ao portal Estadão (e publicada ontem), D. Petrini responde, em primeiro lugar, a uma pergunta geral [os grifes são meus]:

Estadão: Do ponto de vista das famílias, que mudanças podem ocorrer na Igreja diante do discurso de acolhimento do papa Francisco?

D. Petrini: Eu diria que o papa Francisco está destravando a Igreja. Pela linguagem, pelo gesto. Está abrindo para o essencial, a misericórdia de Deus que acolhe, que perdoa, que abraça. Multidões inéditas vão à Praça São Pedro. A família talvez seja o ponto mais sensível da vida da Igreja. A transmissão da fé não se recebe dos padres, mas da avó, da mãe, do pai. Essa transmissão está em crise. Os recasados, os divorciados não são poucos. Vejo muitos que têm sincero sofrimento por não chegar ao sacramento. O papa quer consultar o mundo inteiro sobre as práticas, a realidade, em busca de um caminho.

No final da conversa ouvimos o tom da esperança:

Estadão: O que significa na prática o acolhimento de casais homossexuais?

D. Petrini: O acolhimento de homossexuais na Igreja não é novidade, quando ainda os homossexuais não levantavam a bandeira forte, ideologicamente poderosa, a Igreja acolhia, ouvia, orientava.

Estadão: Qual é sua orientação para batismo de crianças filhas de casais do mesmo sexo?

D. Petrini: A orientação que temos conversado entre os bispos é que acima de tudo o batismo é bom para a criança. Quem vai educar essa criança na fé católica? Tem alguém que vai cuidar seriamente disso? Tem. Então está bem, vamos batizar. Se for só para fazer fotografia, chamar a imprensa, a resistência é maior. Mas se for sincero, o acolhimento é direto.

Estas são, ao meu ver, as novidades da Festa do Batismo do Senhor 2014.

9 de janeiro de 2014

Cidadania ou gueto


A luta pelos direitos da "Comunidade LGBT" tem várias faces e isso não seria tão surpreendente, afinal - como simbolicamente mostra a nossa bandeira - a diversidade é a palavra-chave. Podemos, no entanto, pensar na diversidade de objetivos, ou concentrar a nossa atenção em um só: a cidadania plena? Provavelmente sem nos darmos conta, acabamos copiando algumas iniciativas equivocadas, presentes na sociedade moderna.

Li recentemente no facebook a notícia sobre um colégio em Londrina (PR) que, a partir deste ano, terá um banheiro exclusivo para os alunos homossexuais. Como sempre acontece nas redes sociais, depois da publicação da notícia, surgiram os mais diversos comentários. Um deles parece aprovar a ideia:

Aqui em Brasília não foram poucos os casos de constrangimento de homossexuais e pessoas trans no uso do banheiro que chegaram até a Coordenação de Diversidade da Secretaria de Educação. Na maior parte das vezes, a escola não tem a menor ideia de como tratar desse assunto. A saída, geralmente é oferecer o banheiro da sala de professores/as para esses alunos e alunas o que acaba sendo aceito tanto pelas famílias como pelos/as estudantes. No caso da escola do Paraná, a decisão talvez tenha seguido o caminho mais fácil para a direção e principalmente para os estudantes gays, mas não sei se é a mais acertada. O banheiro, lugar de intimidade, como não poderia deixar de ser, é um espaço (um dos poucos) para se expressar a sexualidade na escola. É lá que acontece (ao menos no banheiro dos meninos), as disputas de quem tem o pau maior, de quem goza primeiro. É lá que meninos desenham seus órgãos sexuais e os das meninas além de deixar recados cheios de erotismo, tesão e machismo nas portas e paredes. Não deixa de ser assim, um espaço pedagógico. Não deixa de ser assim, um espaço de construção do "macho". Acontece que gays e trans não são bem-vindos nesse clube. Se ousarem frequentar, serão vítimas no mínimo, de algum tipo de agressão física ou verbal. Quantos de nós pensou duas vezes antes de entrar no banheiro da escola? Apesar do fetiche que um banheiro masculino nos provoca, a possibilidade de levar uma porrada ou ser xingado de viado fazia, ao menos em mim, criar a habilidade de segurar o xixi por horas. Criar um banheiro exclusivo ou compartilhar o banheiro da sala de professores/as pode ser um paliativo,às vezes até necessário, para a própria segurança dos estudantes gays, lésbicas ou trans, mas para além disso, é importante que a escola discuta a sexodiversidade na escola. O problema é que quando a discussão acontece, ela é permeada pelo mesmo conservadorismo e fundamentalismo que tanto combatemos no campo da política. Nós, professores/as, não somos imunes à homofobia e muito menos às condicionalidades da cultura. Aliás,não esqueçamos que a escola é (re) produtora dessas mesmas condicionalidades. Se não reconhecer isso, se a escola decidir não fazer o debate democrático, corremos o risco de continuarmos excluindo uma parcela da população do pétreo direito à educação. 

Outro participante da conversa apresenta a opinião diferente:

Eu sou um defensor ferrenho do banheiro sem distinção de gênero. Banheiro público serve para necessidades fisiológicas que são comuns a todas as pessoas. É óbvio que separar é a solução mais fácil, mas, definitivamente, não resolve problemas que venham a surgir. Até porque, admitindo que essa separação seja uma boa ideia, como é que se vai fiscalizar se os gays usarão banheiros para gays? Vão fazer os gays usarem marcas no uniforme para identificá-los? Dizer que um banheiro exclusivo protege os gays é um absurdo sem tamanho. Com isso, estão dizendo que, para não correrem risco de serem violentados, os gays precisam estar separados dos demais, em guetos. Vai na contramão de todos os esforços que existem no sentido de fazer com que nos apoderemos dos espaços que são nossos da mesma maneira que são de todas as outras pessoas. É o mesmo que criar vagões exclusivos para mulheres em trens e metrôs para evitar o assédio. 

Certamente, no caso de pessoas homossexuais, toda essa questão parece ser mais fácil. Ser gay não me torna menos homem (como muitos acham), assim mesmo como uma lésbica não deixa de ser mulher, só pelo fato de ser homossexual. A situação se torna bem mais delicada quando pensamos no transexual e transênero. Neste sentido, acho eu, a conversa deve continuar...

Essa polêmica me levou, mais uma vez, a uma analogia. Nestes dias li uma matéria no portal católico de notícias (Agência Fides), sobre a situação dos cristãos na Síria. O Arcebispo sírio-católico Jacques Behnan Hindo disse: Os cristãos da Síria esperam que a Conferência de Genebra 2 abra para a Síria perspectivas de democracia, liberdade e igualdade. Justamente por isso, são contrários a toda tendência islâmica que pretenda impor na Síria uma Xariá [conjunto dos preceitos morais islâmicos que compõem o Corão e que orientam a vida civil e religiosa dos muçulmanos] como fonte da atual jurisdição, reduzindo a comunidade cristã à categoria de "minoria protegida". Os cristãos não podem aceitar esta involução que os reduziria ao gueto das minorias toleradas e representaria também um retrocesso no percurso histórico da nação. Na Síria, os cristãos sempre foram parte integrante da Pátria comum, cidadãos a pleno título e não "minoria". O povo sírio não quer a barbárie e a tirania fantasiadas com palavras religiosas. E entre dois males, é humano escolher sempre o menor.

No texto acima, basta substituir a palavra "cristãos" por "homossexuais" (ou "não heterossexuais") e ficará clara a nossa batalha pelos direitos. É a luta pela cidadania e não pelo gueto.

11 de novembro de 2013

Uma pausa

(Foto: fonte)
 
Chegou a hora de descansar um pouco e já estou viajando (esta postagem foi programada para ser publicada nesta data, mas não estou, no momento, em casa). Os lugares que estou visitando são lindos e um tanto afastados da civilização. Não tenho o acesso diário à net, mas prometo, de vez em quando, dar um "olá" aqui, talvez com algumas novidades.
 
Bem... Os meus sonhos ainda não se realizaram. Algumas decisões existenciais foram adiadas um pouco, mas vejo nisso tudo a Providência de Deus. Foi sobre isso que conversei com os meus amigos ontem no bar. Todos estavam de acordo com a ideia de que as decisões desse porte (aquelas existenciais), não fossem o fruto de um impulso. A fé na Providência de Deus não justifica a imprudência. Tipo: "largar tudo", OK... e depois? Deus providenciará? Mas Ele já providenciou a minha inteligência, a experiência de algumas décadas de vida e o exemplo daqueles que quebraram a cara, só porque não se preocuparam com o futuro. Quando Jesus fala sobre isso no Evangelho, usa a expressão "preocupações desmedidas", o que sugere que outras, aquelas "medidas", sejam boas e importantes.
 
Enfim... Queria encontrar o "meu coreano" (que, perfeitamente, pode ser um brasileiro, desde que seja meu). Queria namorar, noivar, casar, viver junto, cuidar (dele), trabalhar, ser feliz (com ele). Aliás, foi essa a pergunta que uma das amigas me fez ontem: "E agora, com tudo o que você faz, você não está feliz?". Lembro-me (apesar de ter sido na hora da terceira caipirinha) que, como resposta, eu tinha feito um gesto com as mãos, como se quisesse pegar algo. Se não me engano, respondi: "Sim, estou feliz, mas estou procurando uma felicidade mais palpável"... Por mais que alguém possa interpretar isso assim, não se trata apenas de "apalpar a carne". É a questão de ter alguém - como diz aquela famosa frase - quem pudesse chamar de meu (e de ser assim chamado também). Sim! De poder tocar também!
 
OK. Espero ter ótimas férias e poder retornar com novas forças e novas ideias, daqui a um mês.
 
Um beijo para todos!

5 de novembro de 2013

Preparando o Sínodo

 
Nestes dias correu na mídia a notícia sobre um questionário, enviado pela Santa Sé a todas as dioceses do mundo e relacionado ao Sínodo dos Bispos, previsto para o mês de outubro de 2014 que será dedicado aos "Desafios pastorais da família no contexto da evangelização". Os nossos amigos portugueses do Grupo "Rumos Novos" (organização que trabalha no acompanhamento, oração e partilha com homossexuais católicos portugueses) emitiram a nota à imprensa, expressando o júbilo com o qual receberam tal notícia: Como católicos não podemos deixar de reconhecer a atuação do Espírito Santo no seio da sua Igreja, pois é a primeira vez que o Vaticano pediu tal tipo de opiniões aos católicos de base, pelo menos desde o pós-Vaticano II.
 
Quem acompanha a dinâmica pastoral da Igreja católica aqui no Brasil e - suponho - em outros países da América Latina, sabe que esta metodologia, pelo menos de vez em quando, está sendo aplicada no nível diocesano. Aqui, no Rio, podemos ver isso, por exemplo, na elaboração dos sucessivos "Planos de Pastoral de Conjunto". Há sempre um questionário prévio e, mais tarde, as "assembleias gerais" que recolhem - ao menos em teoria - as conclusões das reuniões no nível paroquial. O que chama atenção é a participação direta dos leigos, principalmente no nível paroquial. As assembleias contam com a presença de 2-3 delegados leigos por paróquia e - evidentemente - com a maciça participação do clero que, no final, elabora o texto conclusivo. Tive a oportunidade de participar de alguns trabalhos em preparação do penúltimo (10°) Plano de Pastoral de Conjunto da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e pude constatar que, na prática, nem sempre as ideias e as intervenções diretas dos leigos estavam sendo contempladas. Foi também nessas horas, diga-se de passagem, que senti mais profundamente a falta de uma estruturada Pastoral de Homossexuais. Outra coisa que pode ser observada sempre nessas ocasiões, tanto no nível paroquial, quanto no arquidiocesano, é - digamos - onipresença do típico comodismo, além de todas as dificuldades em compreender as questões propostas. No nível paroquial, antes de serem promovidas as assembleias para reunir a representação de toda comunidade, os questionários são encaminhados aos grupos, movimentos e pastorais que atuam na paróquia. Os fenômenos citados acima (o comodismo, a falta de compreensão) fazem-se presentes já naquele nível básico. Não raramente, o maior problema é o prazo que costuma ficar "em cima da hora", devido à demora em entregar o questionário (porque o padre guardou o papel e se esqueceu dele, ou não deu a menor importância), depois, em reunir as pessoas e, finalmente, em ter a vontade, a coragem, a paciência e a inteligência, para responder a todas as perguntas. Ainda que, em alguns casos, tudo corra bem e tenha sido levado a sério, aquela imensidão de papeis chega à Comissão Arquidiocesana que procura redigir as conclusões que correspondam à maioria das respostas. É claro que, nessas horas, perdem-se algumas ideias. Aí sim, acontece a Assembleia Arquidiocesana, na qual são apresentadas e votadas aquelas conclusões da Comissão. Há possibilidade de entrar com as intervenções que, caso aceitas pela mesa diretora, também estão sendo submetidas à votação. Encerrada a Assembleia, a mesma Comissão elabora o texto final. Lembro-me daqueles trabalhos do 10° Plano de Pastoral de Conjunto que o livrinho ("documento final") tinha-me surpreendido com algumas imprecisões.
 
Escrevi tudo isso para expressar certa preocupação com a aplicação desta metodologia nos trabalhos do Sínodo dos Bispos. Afinal, trata-se agora de uma dimensão incomparável, mundial. Além disso, por mais que se negue a sua existência, a "inquisição", ou pelo menos, a censura, não deixou de funcionar, em todos os níveis da realidade eclesial. A questão torna-se ainda mais delicada por causa de um assunto específico que foi inserido no texto da Santa Sé de maneira bastante corajosa e inédita.
 
Não consegui localizar o questionário na íntegra em nenhum dos sites oficiais da Igreja do Brasil, transcrevo aqui os temas principais do documento e as quatro perguntas referentes às pessoas homossexuais e às uniões entre as pessoas do mesmo sexo, baseando-me em uma fonte de Portugal (aqui).
 
Resta-nos confiar na graça do Espírito Santo e contar com a honestidade de todos os envolvidos neste Sínodo dos Bispos, em todos os níveis, desde agora até a sua conclusão e aplicação na vida prática da Igreja.
 
II Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos
DESAFIOS PASTORAIS DA FAMÍLIA NO CONTEXTO DA EVANGELIZAÇÃO
DOCUMENTO PREPARATÓRIO
Vaticano 2013
I – O SÍNODO: FAMÍLIA E EVANGELIZAÇÃO
II – A IGREJA E O EVANGELHO SOBRE A FAMÍLIA
O projeto de Deus Criador e Redentor
O ensinamento da Igreja sobre a família
III – QUESTIONÁRIO
1. Sobre a difusão da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja a propósito da família
2. Sobre o matrimônio segundo a lei natural
3. A pastoral da família no contexto da evangelização
4. Sobre a pastoral para enfrentar algumas situações matrimoniais difíceis
5. Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo
a) Existe no vosso país uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma ao matrimônio?
b) Qual é a atitude das Igrejas particulares e locais, quer diante do Estado civil promotor de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quer perante as pessoas envolvidas neste tipo de união?
c) Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver em conformidade com este tipo de união?
d) No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças, como é necessário comportar-se pastoralmente, em vista da transmissão da fé?
6. Sobre a educação dos filhos no contexto das situações de matrimônios irregulares
7. Sobre a abertura dos esposos à vida
8. Sobre a relação entre a família e a pessoa
9. Outros desafios e propostas (vale a pena citar a última pergunta)
Existem outros desafios e propostas a respeito dos temas abordados neste questionário, sentidos como urgentes ou úteis por parte dos destinatários?

1 de novembro de 2013

Guerra santa ou suja


Faço aqui uma analogia, tendo em vista as manifestações que vem acontecendo nas maiores cidades do Brasil, desde os meados deste ano. É difícil não concordar com a opinião da maior parte da mídia (sem esquecer de seu jeito tendencioso em apresentar os fatos) de que as ações dos grupos de vândalos, acabam desmoralizando a luta democrática e legítima de quem quer que seja. Independentemente das intenções da mídia e de toda a sua típica distorção da verdade, neste caso concordo com essa opinião. A conclusão está clara e serve para outros contextos: como desmoralizar uma luta justa e legítima? Criar um foco diferente e atrair a ele todas as atenções, usando simultaneamente o artifício chamado "generalização". Assim, as manifestações tornam-se ruins, porque destroem o patrimônio público e privado, atrapalham a vida dos cidadãos inocentes e honestos, portanto precisam ser repudiadas pela sociedade em geral.
 
Vejamos agora o outro exemplo deste mesmo fenômeno que consiste em desmoralizar uma luta legítima. O portal católico "Veritatis splendor", através de seu perfil no facebook, afirma:
 
Quando a propaganda Gay começou por volta de uns 10 anos, já falávamos que o próximo passo seria a defesa da Pedofilia. Disseram que estávamos malucos... Pois aí está. E isso não é porque somos profetas. Apenas sabemos o que as organizações que promovem isso querem: a descristianização do mundo. Tudo que o Evangelho defendeu, por eles será combatido. Tudo o que o Evangelho condenou, por eles será exigido de nós. Simples, assim!
 
Em seguida, o mesmo perfil, remete o leitor a uma matéria, publicada no site ACI Digital (serviço de notícias em Português do grupo ACI, encabeçado pela Agência Católica de Informações, reconhecida juridicamente como uma associação educativa sem fins lucrativos vinculada à Igreja Católica): intitulada Insólito: Psiquiatras dos EUA aceitam a pedofilia como "orientação sexual". De acordo com o texto, a Associação Americana de Psiquiatria dos Estados Unidos (APA) aceitou dentro da quinta edição do seu Manual de Diagnóstico e Estatística das Desordens Mentais a "orientação sexual pedofílica", e a diferenciou da "desordem pedofílica".
 
Seja qual for a origem e a veracidade dessa notícia, fica muito mais fácil apoiar e divulgar a ideia, lançada em 2010, que diz (no citado site "Veritas splendor"): Pedofilia e homossexualismo: de mãos dadas. O autor do texto, Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz, escreve:
 
Homossexualismo e pedofilia estão de tal modo entrelaçados que é difícil, até no plano dos conceitos, separar um do outro. (...) A relação homossexualismo-pedofilia é também confirmada pelo psiquiatra americano Richard Fitzgibbons, especialista no tratamento de sacerdotes que cometeram abusos contra menores. Diz ele: “todos os sacerdotes que tratei que estão envolvidos sexualmente com crianças estiveram envolvidos previamente em relações homossexuais adultas”. Para o psicólogo José María Amenós Vidal da Universidade Central de Barcelona (Espanha), há evidência científica que corrobora o vínculo entre homossexualismo e pedofilia, a partir de pesquisas feitas com primatas em cativeiro. (...) O combate ao homossexualismo e a pregação da cultura da castidade são dois motivos pelos quais a Igreja, e em particular o atual Papa (o texto é de 2010, trata-se, portanto, do Papa Bento XVI), deveria ser condecorada como benfeitora da humanidade e protetora dos pequeninos. Ao contrário, o combate à castidade e a promoção do homossexualismo – bandeiras defendidas pelo governo Lula mais do que qualquer outro – constituem um grande serviço à difusão da pedofilia.
 
Repito: seja qual for a autoria e a veracidade dessas notícias, estamos diante de um golpe baixo e desonesto. Os homossexuais, os ativistas dos movimentos LGBT, em sua maioria esmagadora, estão totalmente contra a pedofilia. Os pedófilos, infelizmente, encontram-se em todos os ambientes sociais, desde o clero católico e pastores evangélicos, no meio dos professores e todo tipo de profissionais, bem como, em sua maioria, dentro da própria casa. Estão também no universo LGBT. Do mesmo jeito, porém, como a Igreja Católica levanta a voz de autodefesa e contesta a associação direta entre o clero e a pedofilia, eu quero questionar as ideias simplistas, injustas e difamatórias que associam a homossexualidade à pedofilia. A pedofilia é crime e gravíssimo pecado. Entretanto, assim como apenas alguns padres são pedófilos, também alguns homossexuais o são. Igualmente, alguns homossexuais são ateus - não raramente por terem sofrido uma longa e pesada discriminação por parte dessa ou daquela Igreja cristã. Os homossexuais, porém, não têm por seu princípio, a "descristianização do mundo", como afirma o texto acima. Pelo contrário, muitos ainda estão procurando os caminhos de diálogo e de aproximação entre a própria identidade homossexual e a fé cristã.
 
Quem, porém, lê as conclusões "católicas", citadas acima, terá muito mais facilidade em apedrejar os "perversos veados, pederastas e pedófilos", em nome de Jesus e em nome de uma "purificação da sociedade”.