ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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30 de setembro de 2011

saber ler a Bíblia

São Jerônimo, Doutor da Igreja (n. 347; +420), cuja memória celebramos neste último dia do mês da Bíblia, disse: "Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo" (o que inclui também a capacidade de interpretá-la). É neste contexto que trago hoje um trecho do (surpreendente!) livro de José Lisboa, “Acompamhamento de vocações homossexuais". Antes de ler o próprio texto, vale a pena saber um pouco mais sobre o autor.

Jose Lisboa Moreira de Oliveira, nascido aos 14 de agosto de 1956, é o sacerdote da Sociedade das Divinas Vocações (Vocacionistas), natural de Araci (Bahia), doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, formador, autor de vários livros e dezenas de artigos sobre o tema da vocação e da animação vocacional, membro da Equipe de Reflexão Teológica da Conferência Nacional dos Religiosos do Brasil, foi assessor do Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999-2003) e atualmente é Diretor-Presidente do Instituto de Pastoral Vocacional (IPV), gestor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília, onde também é professor de Antropologia da Religião e Ética.

...com outras palavras, o padre José Lisboa não pertence àquele pequeno grupo de sacerdotes católicos que, tidos pela hierarquia como bizarros, balançam no limiar entre a legitimidade de seu ministério e uma eventual suspensão de ordens ou, até, excomunhão. No contexto de sua ficha, cheia de méritos e reconhecimento, o livro em questão torna-se, de fato, uma leitura que espanta positivamente e desperta a esperança de uma provável mudança de mentalidade. Penso comigo mesmo: os componentes daquele ambiente fechado e petrificado, chamado “alto clero”, têm que ouvir a voz de um dos seus mais próximos e respeitados colaboradores. A não ser que já estejam preparando uma sentença de Pilatos... Vamos, pois, ao texto.

O ser homossexual, em si mesmo, não representa nenhum pecado e nenhuma culpa, assim como o ser heterossexual não é garantia de perfeição e de santidade. O que a Bíblia não aprova é um determinado tipo de prática da homossexualidade que inverte e perverte a dinâmica da sexualidade desejada pelo Criador para a pessoa humana (Cf. Gn 2, 18-25). Ela não condena a homossexualidade em si, uma vez que o ser humano não pode ser condenado por uma situação que ele mesmo não teve a liberdade, a consciência e a responsabilidade suficientes para escolher. (...) Acredito que nessa mesma direção devem ser interpretados os textos oficiais da Igreja Católica que tratam dessa questão. Tomando como referência o Catecismo da Igreja Católica de 1992, aprovado pelo papa João Paulo II, acredito que seja possível fazer essa leitura, superando a mentalidade de que tais documentos discriminam homossexualidade enquanto tal. (...) Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 2357-2359. Isso fica mais claro quando se analisam os textos bíblicos usados para dar fundamentação às afirmações magisteriais (Gn 19, 1-29; Rm 1, 24-27; 1Cor 6, 10; 1Tm 1-10). Todas essas referências bíblicas são unânimes em condenar os "abusos" (Gn 19, 4), o desrespeito ao corpo e as paixões descontroladas (Rm 1, 24-26), os relacionamentos injustos (1Cor 6, 10) e desregrados (1Tm 1, 10). Nenhum deles condena a identidade sexual da pessoa, mas a depravação, ou seja, um exercício da sexualidade que degrada e avilta a pessoa humana, imagem e semelhança do Criador. Na verdade o que é detestável é a "prostituição", isto é, toda forma de relação sexual-genital que torna a pessoa menos humana e que, por isso, ofende o Criador. Por essa mesma razão, a Bíblia condena também as relações sexual-genitais entre pessoas heterossexuais que não dignificam o ser humano e que o transformam em objeto. O que está em jogo e é detestável é a coisificação, a manipulação, da pessoa humana. Uma relação sexual-genital narcisista, voltada para a pura satisfação egoísta, custe o que custar (cf. 1Ts 4, 3-8; 1Cor 6, 15-20; 2Cor 12, 21; Gl 5, 19; Rm 1, 26-27).
[Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira, "Acompanhamento de vocações homossexuais",
Editora Paulus, São Paulo, 2007, pp. 13 e 15.]

12 de setembro de 2011

o nome de Maria

Hoje a Igreja celebra a memória do Santíssimo Nome de Maria. O beneditino, Anselm Grün, em seu livro "Festas de Maria" [Ed. Santuário, Aparecida-SP, 2009], explica:

"Nomen est omen" (o nome é um presságio), diziam os latinos. O nome já diz alguma coisa do seu usuário. (...) O nome Maria deriva de duas raízes, uma egípcia e outra hebraica. Myr no Egito significa amada, enquanto em hebraico é uma abreviação de Javé. Assim, Maria ou Myrjam significa "amada de Javé" ou "muito amada de Deus". (...) Deus a escolheu para ser Vaso do Espírito Santo e Mãe de Deus.

Conforme outra etimologia, Maria pode significar "a exaltada e sublime". Na Tradição o termo "Maria" foi derivado de outras palavras. A palavra hebraica "mar" quer dizer amargo; "jam" significa mar. Maria seria chamada então "mar de amargura". Seria uma alusão à "Mãe dolorosa" que participa do sofrimento de Cristo.

Outros derivam Maria de "mir", que significa "iluminador". Então Maria seria a iluminadora do mar ou, como foi chamada pela tradição, "Estrela do mar". Bernardo de Claraval diz desta Estrela do Mar: "Experimenta tirar Maria, esta Estrela do mar, do grande e vasto mar! O que sobra além da treva avassaladora que tudo envolve nas sombras da morte e da escuridão cerrada". [p. 97-98]

10 de setembro de 2011

o cisco e a trave [2]

Volto a comentar o Evangelho de ontem (leia a primeira parte desta reflexão aqui). A advertência de Jesus: Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. (Lc 6,41-42) parece contradizer todo o seu (tão detalhado) ensinamento sobre a correção fraterna, proclamado no último domingo (Mt 18, 15-20) [leia essa reflexão]. À primeira vista, a frase: Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! (Mt 18, 15), não combina com a outra: Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? (Lc 6, 41). Uma leitura atenta, porém, leva-nos a compreender esses dois textos como complementares. Mais uma vez, essencial é o amor, como a única motivação de cada atitude. Quem quer tirar o cisco do olho de alguém, permanece numa postura de falso e soberbo juiz. Provavelmente, a sua iniciativa de apontar o erro do outro, tenha sido uma tentativa de se apresentar como o melhor. Com outras palavras, quem pretende tirar o cisco do olho de alguém, diz: "Você está errado". Quem abraça o delicado desafio, chamado "correção fraterna", diz: "Eu me preocupo com você".

Ao comparar estes dois textos do Evangelho, veio-me na memória um livro que tinha lido, há muitos anos. O título é: "Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar" de Adele Faber e Elaine Mazlish ([Editora Summus, 2003] - um best seller nos Estados Unidos, com mais de dois milhões de exemplares vendidos. As autoras desenvolvem um método efetivo e respeitoso para o diálogo com as crianças. O livro é ilustrado com divertidos quadrinhos que demonstram situações concretas e oferecem soluções inovadoras para problemas comuns em famílias, como lidar com sentimentos negativos, expressar emoções, conseguir a cooperação das crianças e resolver conflitos). Resumindo, o livro mostra (entre outras coisas) a grande diferença entre a sentença: "você está errado!" e uma descrição de seus próprios sentimentos: "Fiquei triste ao ver você fazendo isso. Não sei se entendi bem. Vamos conversar sobre isso?". A primeira opção não supõe a presença de amor. A segunda, pelo contrário, revela-o. Acredito que, justamente aqui, está toda a diferença.

1 de julho de 2011

A serenidade de Dunand

O site português "Rumos Novos" (aqui) publicou a entrevista com Jean-Michel Dunand, autor do livro De la honte à la lumière ("Da vergonha à luz"). Para facilitar a leitura aqui no Brasil, a mesma entrevista foi adaptada e publicada pelo IHU (Instituto Humanitas Unisinos - aqui). Agora resta-nos esperar a edição do próprio livro por aqui.

O que chama a minha atenção é a serenidade de Dunand. Sua resposta à pergunta "O que você está pedindo à Igreja hoje?" revela um coração livre de revolta:

Eu não reivindico nada, exceto o direito de viver sem ser amputado de uma parte perdida de mim mesmo. Como católico, eu quero poder viver a minha fé e o desenvolvimento da minha sexualidade e da minha ternura partilhadas com alguém do mesmo sexo. Eu não sou um ativista que lança a bandeira da causa gay. Mas eu não posso aderir a estas certezas segundo as quais "a homossexualidade é contra a natureza e fora do plano de Deus". Isto leva a um impasse. Se eu reivindico algo é uma mudança e uma humildade do olhar. Com as pessoas “homossensíveis” – prefiro falar assim, pois não nos reduz à sexualidade – estamos muitas vezes diante de percursos fraturados, de vidas acidentadas. Mas também de verdadeiras sensibilidades em relação à beleza, à arte, à espiritualidade. Veja o número de homossexuais entre os grandes artistas, designers de moda... Estes são, em todos os casos, vidas singulares que não se pode julgar sem conhecer, nem vasculhar sua intimidade. Diante da mulher adúltera do Evangelho, o que Jesus faz? Ele não a questiona, mas afasta os olhos, inclinando-se ao chão para escrever; ele afasta também os acusadores, pois todos vão se retirando na medida em que ele os faz perceber seu próprio pecado. Não encerremos as pessoas em nossas normas e em nossos olhares inflexíveis.

Jean-Michel Dunand deixa uma mensagem importante para todos os cristãos: Antes de arriscar uma palavra, ter tempo para ouvir as pessoas homossexuais. Antes de discutir sobre ideias, conhecer vidas. Foi poder falar e ser ouvido que, pessoalmente, me salvou. No meu trabalho eu sou discreto sobre a minha vida pessoal, mas eu sei que eu tenho a confiança do meu bispo, do meu diretor diocesano, do meu diretor da escola, eu sou franco com eles. Foi Freud quem disse: “Quando alguém fala, é dia!” É talvez justamente por que faça dia que eu escrevi e publiquei este livro.
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Jean-Michel Dunand

15 de junho de 2011

Prêmio Ratzinger




De acordo com o Portal GaudiumPress (aqui), um patrólogo italiano (leigo), um sacerdote espanhol e um jovem cisterciense alemão são os primeiros vencedores do "Prêmio Ratzinger", instituído pela "Fundação Vaticana Joseph Ratzinger - Bento XVI". A cerimônia de entrega será na Sala Clementina do Palácio Apostólico, no Vaticano, no próximo dia 30 de junho, e contará com a presença do próprio Papa, que entregará pessoalmente os prêmios. Cada um dos vencedores receberá um diploma do Papa com um cheque de 50 mil euros. Os fundos provêm dos direitos de autoria dos livros do Papa, mas também de doadores particulares. A escolha dos três ganhadores foi feita pelo comitê científico da Fundação e confirmada pelo Santo Padre. Os critérios para a escolha, segundo os organizadores, são três: a excelência do estudo; pessoas pouco conhecidas e premiadas até agora, e/ou jovens teólogos; não exclusão de teólogos de outras profissões cristãs, não se restringindo a católicos somente. A Fundação Vaticana Joseph Ratzinger - Bento XVI, com sede na Via della Conciliazione, em Roma, pretende promover o pensamento teológico através de diversas iniciativas culturais e científicas. A primeira delas é o "Prêmio Ratzinger", entregue uma vez por ano.

Não sei bem como fazer isso na prática, mas gostaria que fosse inserido na lista de candidatos para este prêmio, quem sabe, no ano que vem, o jovem teólogo, ainda pouco conhecido e premiado até agora que, entretanto, apresenta a excelência do estudo em uma área pouco explorada pela teologia católica. O candidato, JAMES ALISON, nascido em 1959 em Londeres, é sacerdote jesuíta, teólogo e escritor. Estudou, viveu e trabalhou no México, Brasil, Bolívia, Chile e Estados Unidos, bem como sua terra natal, a Inglaterra. Obteve o doutorado em Teologia pelas Faculdades Jesuítas de Belo Horizonte. Na introdução ao livro de James Alison "Fé Além do Ressentimento: Fragmentos católicos em voz gay" (São Paulo: É Realizações, 2010), o seu professor de Belo Horizonte, Pe. João Batista Libanio escreveu: Conheci Alison quando fez teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte, tendo-o como aluno. (...) Já naqueles idos percebia que ali jazia enorme potencial cultural, que se desabrochou em teologia tão criativa como aparece no livro. Vale dele naquele tempo o provérbio latino: ex digito gigans. Pelo dedo se conhece o gigante. (...) Alison trabalha com imensa originalidade textos e contextos bíblicos do Primeiro e do Segundo Testamento. Consegue, sem forçar a exegese, conduzir o leitor à profunda compreensão da passagem bíblica. Logo no primeiro capítulo, nos surpreende com releitura extremamente original e fecunda da cura do cego de nascimento. Escapa das interpretações comuns e conhecidas, introduzindo o leitor, com sutileza, em novo campo hermenêutico. (...) Não se trata de clássica obra acadêmica, mas de ensaio com toques geniais e originais. Esse tipo de escrito não necessita de carregar-se de outras autoridades. Vale por ele mesmo. Isso o autor passa com modéstia no livro.

Enfim... Em outra postagem (aqui) deixei mais algumas informações, além das dicas sobre como adquirir o livro. Agora é só promover uma campanha para levar James Alison ao "Prêmio Ratzinger". Alguém tem ideia como fazer isso?


11 de junho de 2011

Oração de Jesus



Você já ficou com aquela sensação de ter algo martelando na sua cabeça? E quando isso persiste por dias, semanas e até mesmo anos? E quando a questão se refere à Palavra de Deus, portanto, à sua fé e à compreensão da vida em todas as suas dimensões? Pois bem, há gente que prefere, simplesmente, "deixar pra lá" o que, às vezes, é uma solução razoável e significa "dar tempo", permitir que a "coisa" evolua por conta própria para que se possa, um dia, voltar de novo ao assunto. Outros, diante do enigma, "jogam tudo para o alto", porque constatam o abalo em algum dos alicerces do seu sistema de valores e conceitos. Pior que, nesses casos, o que fica, é uma ruína. E a ruína não costuma ser coisa boa. Quando se trata de alguma "pergunta-sem-resposta" relacionada à Bíblia, muitos declaram - com aquela expressão de Einstein ou Cristóvão Colombo e com brilho nos olhos - "Viu? Não falei que a Bíblia é uma mentira?!". Eu, porém, prefiro admitir que o problema não esteja na Sagrada Escritura, mas na pequenez do meu intelecto. Por isso continuo aguardando a resposta e, quando possível, interrogando àqueles que poderiam ter alguma pista. Não foi por acaso que o Senhor disse: Não obstante, a casa de Israel diz: ‘A conduta do Senhor não é correta! É a minha conduta que não é correta, casa de Israel, ou antes, é a vossa que não é correta? (Ez 18, 29)

Depois dessa introdução, vamos ao que interessa. Nesta semana (7ª da Páscoa, dias da novena de Pentecostes e Semana de Oração pela Unidade de Cristãos), ouvimos na liturgia as passagens do Evangelho de João, acompanhadas por trechos dos Atos dos Apóstolos. Na quarta-feira passada, a meu ver, os textos entraram em choque (At 20, 28-38; Sl 67[68], 29-30. 33-36; Jo 17, 11b-19). Vou começar pelo Evangelho: Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que me deste, para que eles sejam um assim como nós somos um. (Jo 17, 11b) A leitura mais ampla deste capítulo mostra Jesus que, várias vezes, suplica ao Pai o mesmo dom para os seus discípulos: que sejam um (cf. Jo 17, 19. 21-23). O Salmo 67 parece reforçar ainda mais essa prece: Suscitai, ó Senhor Deus, suscitai vosso poder, confirmai este poder que por nós ma­nifestastes (v. 29). Como na liturgia é o Evangelho que define o contexto de todas as leituras, permito-me ter essa interpretação do Salmo. Até aqui, tudo bem.

Providencialmente, nessa mesma semana, eu estava lendo o 2° volume do livro "Jesus de Nazaré" de Bento XVI. Isso é dito pelo Senhor muito claramente: a unidade não vem do mundo; é impossível extraí-la das forças próprias dele. Bem vemos como essas forças levam à divisão. (...) A unidade só pode vir do Pai por meio do Filho. (...) Mas a força de Deus age penetrando no meio do mundo, onde vivem os discípulos. Aquela deve ser uma qualidade tal que permita ao mundo reconhecê-la e, desse modo, chegar à fé. O que não deriva dele, pode e deve absolutamente ser algo que seja eficaz no mudo e para o mundo e também para que lhe seja perceptível. É precisamente isto que a oração de Jesus pela unidade tem em vista: que se torne visível aos homens a verdade da sua missão, por meio da unidade dos discípulos. A unidade deve ser visível, reconhecível; e reconhecível precisamente como algo que não existe em qualquer outra parte do mundo; algo que é inexplicável com base nas forças próprias da humanidade e, consequentemente, torna visível o agir de uma força diversa. Por meio da unidade humanamente inexplicável dos discípulos de Jesus através dos tempos, é legitimado o próprio Jesus. Torna-se evidente que Ele é verdadeiramente o "Filho". Desse modo, Deus aparece reconhecível como Criador de uma unidade que supera a tendência do mundo à desintegração. Foi por isso que Jesus rezou: por uma unidade, que só é possível a partir de Deus e por meio de Cristo, mas uma unidade que aparece de modo tão concreto que se torna evidente a força presente e operante de Deus. (Bento XVI, "Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição"; Editora Planeta do Brasil; São Paulo, 2011; p. 95). Eu sei que o conceito de um blog prevê, geralmente, as postagens mais curtas, mas achei indispensável essa argumentação do Papa.

Pois bem, voltemos às leituras bíblicas. Na primeira leitura, Paulo, em sua comovente despedida com os anciãos de Éfeso, disse: Eu sei que, depois que eu for embora, aparecerão entre vós lobos ferozes, que não pouparão o rebanho. Além disso, do vosso próprio meio aparecerão homens com doutrinas perversas que arrastarão discípulos atrás de si. (At 20, 29-30) É o mesmo Apóstolo que escreveu: Rejeitamos todo procedimento dissimulado e indigno, feito de astúcias, e não falsificamos a palavra de Deus. Pelo contrário, manifestamos a verdade e, assim, nos recomendamos a toda consciência humana, diante de Deus. (2Cor 4, 2) Ou seja, Paulo não estava "inventando modas". Podemos constatar isso, não apenas lendo a Bíblia, mas analisando a história e olhando aos tempos atuais. Mas, o que, de fato, quer dizer isso tudo? A conclusão à qual cheguei é inacreditável. Por isso escrevi no início que a "coisa" está martelando na minha cabeça. Parece que o Pai não atendeu a oração de Jesus, seu Filho amado! E isto fica ainda mais grave, quando comparado com outro episódio, do mesmo Evangelho de João. Diante do túmulo de seu amigo Lázaro, Jesus, levantando os olhos para o alto, disse: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste! Eu sei que sempre me ouves, mas digo isto por causa da multidão em torno de mim, para que creia que tu me enviaste”. Dito isso, exclamou com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” O morto saiu, com as mãos e os pés amarrados com faixas e um pano em volta do rosto. (Jo 11, 41-44) Notemos que é o mesmo argumento que Jesus usa para "convencer" o Pai, pedindo a unidade dos discípulos: para que sejam perfeitamente unidos e o mundo conheça que tu me enviaste (Jo 17, 23). Pode parecer uma constatação grosseira, mas Lázaro saiu vivo do túmulo, enquanto os discípulos de Jesus, desde o início é até hoje, continuam "perfeitamente" desunidos. Falando sobre a oração de Jesus, houve, sim, um caso de Ele não ser atendido pelo Pai, mas foi uma situação totalmente diferente e o próprio Jesus tinha feito essa ressalva: Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres. (Mt 26, 39) Como sabemos, o Pai não afastou o cálice do seu Filho. Alguém já imaginou a semelhança dessas duas preces? Jesus teria dito: "Meu Pai, se é possível, guarda-os em teu nome, para que eles sejam um assim como nós somos um! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres!" Até porque, no projeto do Pai, há superação do pecado e de todas as suas consequências, inclusive da divisão. Enquanto no episódio de Babel, o próprio Deus teria impedido a orgulhosa pretensão de união entre homens que queriam, por conta própria, chegar com uma torre até o céu (cf. Gn 11, 1-9), em Jesus quis fazer, exatamente, o contrário. Entretanto, parece que a maldição de Babel continua sobre a humanidade que não se entende, inclusive entre os que falam o mesmo idioma. Se o Pai não escutou a prece de Jesus, para que serve a fé ou a oração? Mas, será que não escutou mesmo? Qual é a resposta? Não sei se existe uma. Há teorias.

Uma delas parece interpretar a oração de Jesus como a ordem dirigida aos discípulos. É como se Jesus fizesse de conta que estava orando, mas na realidade estava "mandando recado" para os discípulos de todos os tempos. É na mesma página do citado livro de Bento XVI que lemos: (...) a fadiga em prol de uma unidade visível dos discípulos de Cristo permanece uma tarefa urgente para os cristãos de todos os tempos e lugares. (p. 95) Em sua catequese, proferida na ocasião da Semana de Oração pela Unidade de Cristãos 2011 (celebrada no hemisfério norte em janeiro), o Papa disse que é importante crescer cada dia no amor recíproco, comprometendo-nos a superar as barreiras que ainda existem entre os cristãos; sentir que existe uma verdadeira unidade interior entre todos aqueles que seguem o Senhor; colaborar o mais possível, trabalhando juntos sobre as questões ainda abertas; e sobretudo permanecendo conscientes de que neste itinerário o Senhor deve assistir-nos, ainda nos deve ajudar muito, pois sem Ele, sozinhos, sem «permanecer nele», nada podemos (cf. Jo 15, 5) (leia o texto aqui). De acordo com estas palavras (diferentemente daquelas escritas no livro e citadas anteriormente), existe uma "unidade interior" dada, certamente, por Deus, mas cabe a nós construir a exterior. Quer dizer que o Pai atendeu Jesus em parte? E o que seria essa unidade interior, já existente? Indiretamente, ainda no mesmo livro, Bento XVI parece tocar neste assunto: Jesus rezou por qual unidade? Qual é o seu pedido para a comunidade dos crentes ao longo da história? (p. 93) Depois de elogiar o teólogo luterano Rudolf Bultmann (1884-1976) e, também, de polemizar com ele, o Papa chega às conclusões citadas acima. Estamos, portanto, de volta ao ponto de partida.

Existe outra teoria, bastante simples e muito comum em toda a doutrina/espiritualidade católica, que responde à pergunta: "O Pai não atendeu a prece de Jesus?". O Pai atendeu, sim, a oração do Filho e concedeu o dom da unidade aos cristãos. Eles, porém, nunca souberam acolher este dom. Que ótimo! Mas, Deus não podia fazer com que soubéssemos fazê-lo, como Ele mesmo prometeu na profecia de Ezequiel: Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo. Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei em vós o meu espírito e farei com que andeis segundo minhas leis e cuideis de observar os meus preceitos. (Ez 36, 26-27)? Este já seria assunto para outra reflexão para abordari a relação do plano de Deus com a livre vontade do homem...

Para concluir, proponho a minha teoria, parecida - em parte - com a anterior: O Pai atendeu o pedido de Jesus e concedeu o dom da unidade aos cristãos, mas não do jeito que nós imaginamos. Um pouco nesta linha responde o Beato João Paulo II à pergunta de Vittorio Messori, no livro "Cruzando o limiar da esperança" (Editora Livraria Francisco Alves; Rio de Janeiro, 1994). V. Messori: Por que o Espírito Santo teria permitido tantas e tais divisões e inimizades entre aqueles que no entanto se dizem seguidores do mesmo Evangelho, discípulos do mesmo Cristo? [De acordo com a nossa reflexão, podemos traduzir essas palavras, sem alterar o sentido delas: Por que o Pai não atendeu ao pedido de Jesus, ou, se atendeu, como fez isso?]. João Paulo II: Para esta pergunta podemos achar duas respostas. Uma, mais negativa, vê nas divisões o fruto amargo dos pecados dos cristãos. A outra, pelo contrário, mais positiva, é gerada pela confiança Naquele que tira o bem até mesmo do mal, das fraquezas humanas: por isso, não poderia ser que as divisões tenham sido também um caminho que levou e leva a Igreja a descobrir as múltiplas riquezas contidas no Evangelho de Cristo e na redenção operada por Cristo? Talvez tais riquezas não pudessem vir à luz de maneira diferente... (p. 147)

Seria, talvez, uma analogia com as palavras de Jesus: Pobres vós tereis sempre convosco. (Mt 26, 11) que em nosso contexto, diria: "Divisões vós tereis sempre entre vós". Em ambos os casos, a necessidade (carência), torna-se ocasião para o exercício de caridade.

Para complementar esta reflexão, leia o texto sobre a ideia de ecumenismo que envolve homo e heterossexuais (aqui).

10 de junho de 2011

James Alison - o Livro


Recebi ontem em casa o livro de James Alison (padre jesuíta), "Fé além do ressentimento. Fragmentos católicos em voz gay" (Editora É Realizações; São Paulo, 2010). Quero recomendá-lo a todos! Li, por enquanto, apenas o "Prefácio à edição brasileira", escrito pelo autor e a "Apresentação", feita pelo teólogo, Pe. João Batista Libanio (o texto disponível no site da Editora "É Realizações" aqui). Pe. J.B. Libanio tem a sua própria página na internet - aqui (confira a sua biografia na Wikipedia - aqui). O autor do livro, Pe. James Alison (nascido em 1959 em Londres, mora em São Paulo) pode ser localizado no seu própro portal - aqui. Como a apresentação da obra pode ser lida na íntegra através do link indicado acima, vou transcrever apenas um pequeno trecho (só para despertar a curiosidade!): [James] Evita gerar no leitor extremos do sentimento de rejeição da condição gay ou de compaixão pela vítima ou de revolta contra o sistema social ou contra a máquina eclesiástica. Atravessam-lhe a obra transparência e honestidade do relato. Em qualquer situação existencial, gay ou não, o leitor se toca. A pessoa gay certamente encontra uma palavra de libertação, não pela via barata da contestação, mas por honesto processo reestruturante interno, baseado fundamentalmente na ação criativa e bondosa de Deus e apoiado por inúmeras passagens da Escritura feita em voz gay.

Pe. James Alisson escreve no "Prefácio à edição brasileira": Os capítulos deste livro são diversas tentativas de permanecer fiel à vocação de teólogo católico sem evitar o campo onde é mais difícil proclamar a verdade na cultura atual da nossa Igreja: o campo gay. É um campo minado de escândalo, de meias verdades, de silêncios covardes, de rabos presos, de enrustidos que perseguem os outros, de mendacidade em geral, e produz em todos nós efeitos espirituais e morais sumamente tóxicos. Porém, creio que a minha tarefa como teólogo e como padre não é deixar-me fascinar por aquilo que estrututa a mendacidade e viver gritando contra; é oferecer recursos para aqueles que queiram ousar avançar além das posições oficiais, posições que, como se torna cada vez mais evidente, fundamentam-se numa falsa caracterização daquilo que é a pessoa gay.

A parte que mais me toca no texto é: O meu sonho como padre, um sonho que por enquanto vive sem nenhum apoio ou aprovação eclesiástica, é criar uma pastoral que tenha coração para abarcar o desenvolvimento humano completo e a formação profissional de tantos jovens gays nas nossas cidades que ou vivem assombrados pela rejeição familiar ou procuram sobreviver por meio do sexo pago. 
 
A informação importante para quem estiver preocupado com a legitimidade (católica) das opiniões contidas no livro: (...) nem este livro, um dos raros escritos por um padre católico assumidamente gay que mostra um desacordo com a posição oficial, nem os outros mais recentes, nos quais tenho aprofundado mais a mesma matéria, receberam qualquer tipo de crítica eclesiástica nas suas versões inglesa, espanhola ou italiana, nem o seu autor sofreu qualquer espécie de reprimenda oficial. Tomara que no Brasil seja possível impedir que a Igreja destrua a sua credibilidade entre os próprios fiéis reproduzindo es reações defensivas e contrárias à verdade nessa esfera, atitude que a tem caracterizado em muitos outros países, e possamos começar a trabalhar esses assuntos à luz do dia, de maneira honesta, serena e adulta.

Padre James Alison
Pois bem. Essa é apenas uma introdução. Se Deus quiser, vou voltar ao assunto ainda muitas vezes. Por enquanto deixo aqui algumas dicas sobre a compra do livro.

Fiz a solicitação do produto no site da Editora É Realizações (aqui) na quarta-feira (dia 06) e, como decidi utilizar o boleto bancário, efetuei o pagamento no dia seguinte (evidentemente, há várias opções de pagamento com diversos cartões de crédito). O preço líquido é de R$ 55,00 e o frete é calculado de acordo com o local de entrega (definido pelo CEP) + custo do serviço de entrega, em três opções: PAC-CORREIO [R$ 11,90]; E-SEDEX [R$ 7,43]; SEDEX [R$ 20,70] (preços referentes à entrega no Rio de Janeiro). Tudo levou uma semana. Outro detalhe: a encomenda chega em uma embalagem comum (leia-se discreta) - há quem se preocupe com isso. Em qualquer sistema de busca na web, podem ser encontradas outras livrarias virtuais que possibilitam a compra, com preços e condiçãoes de pagamento/entrega semelhantes.

BOA LEITURA!

1 de junho de 2011

Dia da Criança

Embora a comemoração do Dia da Criança, aqui no Brasil, tenha a data marcada para 12 de outubro, é hoje que a maioria dos países do mundo presta homenagem aos pequeninos (confira aqui). No contexto de reflexões sobre a homossexualidade, raramente o nosso pensamento se volta à criança como sujeito, digno de atenção. Em vez disso, muitos enxergam nela apenas o objeto/alvo de disputa, como acontece na briga pelo kit-antihomofobia, ou em polêmica sobre a adoção de crianças por casais homoafetivos. O assuto "criança" entra em pauta, evidentemente, quando falamos sobre a pedofilia. Tudo isso é importante, mas onde é que fica a contribuição ativa da própria criança? Lembro-me de um ditado que dizia: "Peixes e crianças não têm a voz". Que pena! Sei que é um assunto extremamente delicado, por isso proponho a reflexão de alguém que já era criança (como todos nós) e, justamente no período de infância, experimentava os primeiros sinais de sua homossexualidade. O texto completo encontra-se no blog "Papai Gay" (aqui). Entre outras coisas, o Autor diz: Criança gay não é como Papai Noel: EXISTE! Para quem duvida, vou esclarecer. De onde vieram todos os gays que vemos por aí? De outro planeta? Já nasceram adultos? Eram hoterosexuais até o fim da adolescência? (...) Desde muito novo, lá pelos meus 5 ou 6 anos eu já havia me dado conta que era gay. Sabia exatamente o que isso significava: ser atraído pelo mesmo sexo. Eu me apaixonava pelos amiguinhos, pelos amigos do meu pai, pelos porteiros, mas é claro, tudo dentro da inocência e cabeça de uma criança. Sentia vontade de ver homens pelados, como eu acredito que as crianças heteros sentem vontade de ver peitos e revistas de mulheres peladas escondido. Lembro bem da revista de homens nus que minha empregada tinha, eu já estava com 8 anos, e devorava cada foto da mesma. Qual a conclusão? Eu era uma criança gay! Nada mudaria essa verdade.

O texto acima, carregado de emoção, encontra respaldo nos argumentos profissionais. Kimeron N. Hardin, doutorado em psicologia, diretor do Centro de Combate à Dor da Universidade em São Francisco, escreve em seu livro "Auto-estima para homossexuais. Um guia para o amor próprio" (Editora Summus, São Paulo, 2000): Muitos adultos gays e lésbicas lembram de terem se sentido desdenhados, de maneira direta ou não-verbal, devido à sua atração por pessoas do mesmo sexo. Mesmo que a sua família não tenha discutido abertamente a questão da sua homossexualidade, ou até mesmo da sexualidade em geral, você provavelmente conhecia a postura da sua família sobre essas questões e aprendeu a esconder esses sentimentos. O reconhecimento precoce por parte de uma criança de sua atração por pessoas do mesmo sexo, numa família ou cultura sem atitudes tolerantes em relação a essa orientação, pode fazer com que a criança desenvolva uma fragmentação de sua identidade, criando uma pública e outra privada ou secreta. (...) As crianças gays e lésbicas têm uma probabilidade muito maior de fugir de casa e até de tentar o suicídio do que seus correlatos hetrossexuais, provavelmente para escapar de um sistema familiar disfuncional que resiste à noção de uma criança com uma identidade que não se adapta a ele. (...) Crianças gays e lésbicas sadias frequentemente aprendem a compartimentar as suas vidas, guardando suas partes secretas (sua sexualidade) bem lá no fundo. Elas desenvolvem um exterior conformista, que segue as regras do sistema familiar e lhes permite funcionar numa relativa segurança, até serem capazes de se mudar para um ambiente mais saudável ou que as aceite melhor. (p. 43 e 47)

31 de maio de 2011

Visitação de Nossa Senhora

A riqueza de conteúdo da festa de hoje, longe de ser apenas uma comemoração devocional, faz com que possamos abordá-la sob diversos ângulos.

[1] Muitos destacam a caridade como consequência prática de um encontro pessoal com Deus. Maria, ao saber do Anjo sobre a gravidez avançada de sua idosa parenta Isabel, imediatamente põe-se a caminho para prestar-lhe serviços necessários.

[2] Os apóstolos (para não dizer militantes) “pró-vida” que se dedicam à batalha contra a prática do aborto, apontam o importante detalhe da saudação de Isabel: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? (Lc 1, 42-43). O fato de Isabel ter chamado Maria de mãe e não de, por exemplo, “futura mãe”, confirma a convicção dos cristãos de que a vida de cada ser humano inicia-se no momento da concepção, pois já neste momento faz-se presente o sopro de Deus sobre a matéria, isto é, a alma de um novo ser.

[3] O Beato Papa João Paulo II atribui a Maria o título de “mulher eucarística” e nos ajuda a compreender o episódio da visitação de um novo jeito: De certo modo, Maria praticou a sua fé eucarística ainda antes de ser instituída a Eucaristia, quando ofereceu o seu ventre virginal para a encarnação do Verbo de Deus. (...) Maria antecipou também, no mistério da encarnação, a fé eucarística da Igreja. E, na visitação, quando leva no seu ventre o Verbo encarnado, de certo modo Ela serve de «sacrário» – o primeiro «sacrário» da história –, para o Filho de Deus, que, ainda invisível aos olhos dos homens, Se presta à adoração de Isabel, como que «irradiando» a sua luz através dos olhos e da voz de Maria. (João Paulo II, Encíclica Ecclesia de Eucharistia, n° 55).

[4] Como, porém, a Providência Divina inseriu a Festa da Visitação de Maria na proximidade de Pentecostes e o próprio acontecimento revela coisas importantes sobre a ação do Espírito Santo, é justo que leiamos o texto do Evangelho (Lc 1, 39-56), também nessa perspectiva. Já mencionado fenômeno sobrenatural de Isabel ter a revelação da verdadeira identidade de sua jovem parenta, mostra a interevenção do Espírito Santo: Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. (v. 41). Podemos notar certa analogia entre este acontecimento e uma conversa de Jesus com os discípulos: Jesus (...) perguntou aos discípulos: “Quem é que as pessoas dizem ser o Filho do Homem?” (...) “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus então declarou: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. (Mt 16, 13. 15-17). Tanto Isabel quanto Pedro, não descobriram a verdadeira identidade da pessoa na sua frente, por conta própria. Foi lhes revelada. Essa verdade é muito importante também para nós, para admitirmos as nossas limitações humanas em questão de reconhecimento da real identidade de outras pessoas. Com outras palavras, é o Espírito Santo que abre nosso coração e nossos olhos para o mistério do ser humano, para que vejamos nele a criatura amada e adotada por Deus como filho ou filha. Desta maneira somos curados de todo tipo de preconceito.

Anselm Grün, alemão, monge beneditino, autor de vários livros sobre a espiritualidade, num belíssimo – como sempre – texto, ajuda-nos a compreender melhor esse aspecto da Visitação de Nossa Senhora. É o trecho do livro “Festas de Maria” (Editora Santuário, Aparecida – SP, 2009). Maria transpõe uma alta montanha para chegar até Isabel. Entre nós e o outro frequentemente há montanhas de preconceitos e empecilhos, montanhas de pensamentos que nos impedem de chegar até o outro. (...) Precisamos transpor a montanha de nossos medos e bloqueios e os montes de nosso comodismo para chegar realmente ao outro. Quando tivermos saído de nós mesmos, então conseguiremos aproximar-nos do outro (...). Então encontramos no outro o mistério de Deus que supera sua inteligência. Agora reconhecemos ter encontrado a Mãe de Nosso Senhor. E desse encontro desperta em nós alguma coisa que ajuda a viver. O menino que está em nós pula; no outro, tocamos em nosso âmago. No encontro com o outro, encontramo-nos conosco mesmos, entramos em contato com a origem incorrupta e autêntica do nosso ser. Ao mesmo tempo, num encontro autêntico, abre-se para nós o mistério do outro. Percebemos quem ele é realmente, percebemos que nele a Mãe de Nosso Senhor vem a nós, que o mistério mais profundo do outro é o próprio Cristo. E assim, no encontro com o outro, tocamos no próprio Deus. O encontro autêntico faz os dois tocarem sempre num mistério que os ultrapassa: liberta densidade e presença, a ponto de o próprio Deus tornar-se experimentável. (p. 73-74)

22 de maio de 2011

Cristo reduzido

Eu não tenho doutorado em teologia. A minha reflexão contém questionamentos, feitos por um cristão, que encontra dificuldades em entender e interpretar certas afirmações, referentes à fé. E quando faço comentários relacionados à obra de alguém que é considerado um dos maiores teólogos de hoje, admito, evidentemente, a minha desvantagem. Tenho em mãos o 2° volume do livro escrito pelo Papa Bento XVI, “Jesus de Nazaré” (Editora Planeta; São Paulo, 2011) e tomo a iniciativa de polemizar com o Autor, encorajado por uma das suas frases, encontradas bem no início do texto. Depois de dedicar a maior parte da Introdução aos teólogos, o Papa faz uma espécie de convite geral: Embora sempre continue, naturalmente, havendo detalhes a discutir, espero que me tenha sido concedido aproximar-me da figura de Nosso Senhor de um modo que possa ser útil a todos os leitores que queiram encontrar Jesus e acreditar n’Ele. (p. 14). E em sua entrevista com o jornalista alemão Peter Seewald, lançada em forma de livro (“Luz do mundo”; Editora Lucerna; Cascais, Portugal, 2010), Bento XVI diz: “Eu queria publicar o livro para ajudar as pessoas” (p. 163). Acho importante destacar este detalhe, porque a associação de um discurso, digamos obscuro, com o nome do autor deste porte, pode causar confusão na cabeça de um simples leitor. Corrija-me, quem quiser. Sinceramente, vou ficar muito grato por isso.

No primeiro capítulo, o Papa fala, entre outras coisas, sobre as profecias do Antigo Testamento e a sua plena realização na pessoa de Jesus. O trecho em questão (e em questionamento) é este: Jesus reivindica efetivamente um direito régio. Ele quer que se compreendam o seu caminho e as suas ações com base nas promessas do Antigo Testamento, que n’Ele se tornam realidade. O Antigo Testamento fala d’Ele; e vice-versa, Ele age e vive na Palavra de Deus e não segundo programas e desejos próprios. A sua pretensão baseia-se na obediência à ordem do Pai. O seu caminho situa-se no âmbito da Palavra de Deus. (p. 18) Para mim, da frase sublinhada, surge uma pergunta: Afinal, quem é Jesus? Não é Ele a Palavra se fez carne e veio morar entre nós? (Jo, 1, 14) E mais: a Palavra era Deus (...) Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo o que existe. (...) Ela estava no mundo, e o mundo foi feito por meio dela, mas o mundo não a reconheceu. (cf. Jo 1, 1b. 3. 10). O que, então quer dizer: Ele age e vive na Palavra de Deus e não segundo programas e desejos próprios, se Ele mesmo é a Palavra e se o plano da salvação de toda a humanidade é, justamente, o seu maior projeto e o mais ardente desejo. Até que alguém me prove o contrário, tenho a impressão de ver um Cristo reduzido, apenas, à natureza humana. Teria sido Ele um grande e dedicado servo de Deus que abriu mão de seus planos e desejos, um revolucionário carismático que, por seus méritos, recebeu o nobre título de Filho de Deus?

O Catecismo da Igreja Católica, entretanto, diz algo diferente: O acontecimento único e totalmente singular da Encarnação do Filho de Deus não significa que Jesus Cristo seja em parte Deus e em parte homem, nem que seja o resultado da mescla confusa entre o divino e o humano. Ele se fez verdadeiramente homem permanecendo verdadeiro Deus. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A Igreja teve de defender e clarificar esta verdade de fé no decurso dos primeiros séculos, diante das heresias que a falsificavam. (n° 464) Em seguida, o próprio Catecismo, menciona as principais heresias. O docetismo gnóstico, desde os tempos apostólicos, mais do que a divindade de Cristo, negava a sua verdadeira humanidade. Paulo de Samósata (séc. III) afirmava que Jesus teria sido o Filho de Deus por adoção e não por natureza. O arianismo (séc. IV) dizia que o Filho de Deus seria de uma substância diferente da do Pai. A heresia nestoriana via em Cristo uma pessoa humana unida à pessoa divina do Filho de Deus. Os monofisitas afirmavam que a natureza humana tinha deixado de existir, como tal, em Cristo, sendo assumida pela sua pessoa divina de Filho de Deus. No século V, alguns fizeram da natureza humana de Cristo uma espécie de sujeito pessoal. Diante de todas essas teorias equivocadas, a Igreja, por meio de concílios, dogmas e outros escritos, incessantemente confirmava (e confirma até hoje) que Jesus é inseparavelmente verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É verdadeiramente o Filho de Deus feito homem, nosso irmão, e isso sem deixar de ser Deus, nosso Senhor. (cf. Catecismo da Igreja Católica, n° 465-469) Ainda hoje aparecem ideias de um “Cristo reduzido”, seja na teologia da libertação, seja na de prosperidade. Continua em vigor, portanto, a declaração do IV Concílio ecumênico de Calcedônia (ano 451): Na linha dos santos Padres, ensinamos unanimemente a confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, o mesmo perfeito em divindade e perfeito em humanidade, o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, composto de uma alma racional e de um corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade, consubstancial a nós segundo a humanidade, semelhante a nós em tudo, com exceção do pecado; gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nesses últimos dias, para nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, Mãe de Deus, segundo a humanidade. Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único, que devemos reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é de modo algum suprimida por sua união, mas antes as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas em uma só pessoa e uma só hipóstase. (Catecismo da Igreja Católica, n° 467)

Deu para acompanhar? Tudo bem - vai me dizer alguém – mas, por que razão, tudo isso teria tanta importância? Respondo: se Jesus Cristo pode ser reduzido dessa maneira, então TUDO pode ser reduzido. Digam que isso não acontece ou que, se estiver acontecendo, não faz mal a ninguém. Engana-se quem pensa assim. Vamos aos exemplos que interessam. Se reduzirmos o matrimônio apenas à procriação (como querem muitos), obviamente, não haverá mais motivo para discutir o “casamento gay”. Outra coisa é ainda mais grave e, infelizmente, mais comum: reduzir os homossexuais a sexo. Nesta altura, eu nem quero mais concordar com o termo “homossexual” porque ele me reduz a sexo. Eu juro que faço, também, algumas outras coisas na vida! Alguém já notou que, curiosamente, o termo “heterossexual”, não parece tão sexual )leia-se: indecente) quanto o “homossexual”? Há quem veja os homossexuais, exclusivamente, pelo prisma das “paradas de orgulho gay”, ou seja, como um bando de palhaços (semi)nus, pintados em cores estranhas, fazendo bagunça na rua. Eu gosto de brincar e adoro sexo. Mas, pelo amor de Deus, não sou só isso! Não admito ser reduzido a isso! Mas, como escrevi antes, se Cristo pode ficar reduzido, todo o resto também pode. É a questão da mentalidade humana, influenciada por aqueles que possuem algum tipo de autoridade. Voltando ao livro do Papa, tenho uma intuição de que existam vários e sérios argumentos para debater a minha crítica, pelo menos do ponto de vista teológico. O meu questionamento, porém, é de natureza, digamos, pedagógica. Não questiono tanto o que Bento XVI escreveu, quanto a maneira equivocada de enxergar a pessoa de Jesus, por causa daquelas suspeitas afirmações.

9 de maio de 2011

O motivo de procurar

Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos. (Jo 6, 26) A resposta de Jesus à multidão, tem o contexto mais amplo. Logo depois do milagre de multiplicação dos pães (Jo, 6, 5-15), à vista do sinal que Jesus tinha realizado, as pessoas exclamavam: “Este é verdadeiramente o profeta, aquele que deve vir ao mundo”. Quando Jesus percebeu que queriam levá-lo para proclamá-lo rei, novamente se retirou sozinho para a montanha. (vv. 14-15). Evidentemente, seria ótimo ter um rei desse tipo. Ele resolveria todos os problemas e nem seria mais necessário trabalhar e se preocupar com coisa alguma. Mas Jesus não quer ser um rei dos acomodados e preguiçosos. Nem deseja um reino aqui, neste mundo (embora o seu início e constante crescimento, aqui na terra, faça parte do plano). Expressa isso bem o Apóstolo Paulo, quando diz: Se é só para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, somos, dentre todos os homens, os mais dignos de compaixão. (1Cor 15,19) Cá, entre nós, Paulo - com esta frase - derruba, por completo, toda - assim chamada - "teologia da prosperidade", cuja onda incontrolável observamos, há umas décadas. Santa Catarina de Sena, ao transcrever suas lucuções interiores no livro "O Diálogo" (Ed. Paulus; São Paulo, 1984), fala de três tipos de adesão a Deus: [1] por medo do castigo, [2] devido os dons recebidos (ou em busca deles) e [3] por amor. Somente a terceira motivação está correta (agradável aos olhos de Deus) e verdadeiramente frutuosa. Deixando de lado a possibilidade de não procurar a Deus (estou me dirigindo àqueles que se preocupam com a sua fé e a vida espiritual), com frequência nos vemos no primeiro e/ou segundo "degrau". Como aqueles homens que correram atrás de Jesus, porque "comeram pão e ficaram satisfeitos", nós também procuramos por Ele, quando estamos em alguma emergência. Isso faz parte da natureza humana, o que documenta a própria Sagrada Escritura. Vejamos um resumo da história de Israel do Antigo Testamento, no Salmo 106(105):
7 Nossos pais, no Egito, não compreenderam teus milagres;
não se lembraram de tuas numerosas graças;
revoltaram-se contra o Altíssimo junto ao mar Vermelho.
13 Depressa esqueceram suas obras,
não esperaram que executasse seu plano.
15 Concedeu-lhes o que pediam, satisfez a sua gula.
19 Fizeram um bezerro em Horeb
e adoraram o metal fundido;
21 Esqueceram o Deus, que os tinha salvado,
que tinha feito façanhas no Egito
43 Muitas vezes ele os libertou,
mas eles se obstinavam na sua rebeldia
e se arruinaram por causa de suas iniquidades.
44 Contudo ele olhou para sua desgraça,
quando escutou suas súplicas.
Jesus no Evangelho, com outras palavras, diz o mesmo: Quantas vezes eu quis reunir teus filhos como uma galinha reúne seus pintainhos debaixo das asas, mas não quisestes! (Mt 23,37) Santa Catarina (transmitindo a voz de Deus) escreve sobre os pecadores que, forçados pelos sofrimentos da vida e medo dos castigos futuros, procuram livrar-se do egoísmo. (...) Mas o temor servil (medo de castigos), sozinho, não é suficiente para fazer o pecador progredir. (...) [n° 49; p. 113] Inicialmente imperfeito, o homem vive no temor servil; com perseverança e esforço, chega ao amor interesseiro das consolações (espirituais) no qual se compraz olhando-me como algo útil para si mesmo. Tal é o roteiro de quem deseja chegar ao amor-amizade e filial. Este último é o amor perfeito; com ele alcança-se a herança do reino. [n° 63; p. 134] Julguei oportuno tratar de tais enganos, nos quais costumam cair os cristãos da "caridade comum" que vivem com pouco esforço em tempo de consolações (...) Estes ditos enganos acontecem com aqueles que me amam imperfeitamente, com aqueles que procuram o dom, não o doador. (...) A alma que chegou ao terceiro estado - de amor-amizade e de amor filial - já não me ama interessadamente. Comporta-se como amigo íntimo. O amigo verdadeiro, ao receber um presente, olha primeiro para o coração e o amor do doador; depois examinará o objeto e o conservará como recordação. [n° 72; pp. 151-152]
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Embora Santa Catarina, Doutora da Igreja, tenha falado sobre os mais altos níveis de vida mística, as suas orientações são muito úteis para o crescimento de nossa - mais comum e humilde - espiritualidade. E mais uma coisa: examinar as nossas motivações, por exemplo, no cultivo de relacionamentos pessoais, contribui muito para o amadurecimento de nosso amor. As mencionadas pela santa três fases do amor a Deus, aplicam-se perfeitamente à nossa experiência do amor humano. Quando nos apaixonamos e conseguimos conquistar aquela pessoa especial, inicialmente somos capazes de maiores sacrifícios, generosos gestos de admiração, etc. (para agradar o outro), mas, muitas vezes, o que nos impulsiona, é o medo de perder aquela pessoa. Na etapa seguinte, quando já sentimos mais segurança no relacionamento, começamos a agir com a finalidade de obter "consolações" (como diria Catarina), ou seja: a nossa própria satisfação. É difícil, muitas vezes, admitir nessa fase, o nosso próprio egoísmo. Na minha opinião, é justamente nesta segunda etapa, que o relacionamento corre mais risco de se esgotar emocionalmente o que, com frequência, leva diretamente ao rompimento. Lembremos o que disse Catarina: "Tal é o roteiro de quem deseja chegar ao amor-amizade", ou seja, aquela temporada (logo após a primeira paixão e a luta pela conquista), marcada pelo nosso natural egoísmo, faz parte do roteiro. É importante detectar e admitir isso. O egoísmo pode ser superado. É, muitas vezes, uma batalha feroz contra nós mesmos, mas, vale a pena, pois, nasce assim, o amor-amizade (podemos chamá-lo, também, de amor-respeito, amor-partilha e - como na vida mística - o amor-união). Agora, neste terceiro degrau, o relacionamento tem muito mais probabilidade de ser feliz e duradouro. É o que desejo a todos!

22 de abril de 2011

Via Sacra [14]

XIV Estação: Jesus é sepultado

Ao entardecer, veio um homem rico de Arimatéia, chamado José, que também se tornara discípulo de Jesus. Ele foi procurar Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que lhe entregassem o corpo. José, tomando o corpo, envolveu-o num lençol limpo e o colocou num túmulo novo, que mandara escavar na rocha. Em seguida, rolou uma grande pedra na entrada do túmulo e retirou-se. Maria Madalena e a outra Maria estavam ali sentadas, em frente ao sepulcro. (Mt 27, 57-61) Provavelmente, todos nós já sepultamos alguém. Por mais que tenha sido anunciada, a morte sempre nos surpreende. Enterramos nossos pais, irmãos, amigos. Às vezes precisamos enterrar aquela pessoa, com a qual nos unia um laço particular de amor e paixão. Há vários relatos sobre as famílias de homossexuais mortos, que impediam a presença do namorado/amante do(-a) falecido(-a) no enterro. A dor da perda, multiplica-se, com a semelhante proibição. Nessas horas dá vontade de gritar: "Vocês não conheceram o seu filho (a sua filha)! Ele (ela) gostaria muito de que eu lhe prestasse a última homenagem!". Hoje em dia, chegam às vezes, notícias sobre a decisão judicial acerca da herança de um homossexual falecido, concedida ao parceiro. Certamente, a herança, não é a coisa mais importante, naquelas momentos. A vida que precisa seguir em frente, é o verdadeiro desafio. Nelson Luiz de Carvalho, em seu espetacular livro "O 3° travesseiro" (Ed. Arx; São Paulo, 2005), retrata os momentos do enterro, vividos pelo amante do rapaz que tinha sofrido um acidente fatal: Ao ouvir que o caixão seria fechado, fui envolvido por uma força muito parecida com a do vento. Meu corpo continuava inerte enquanto minha alma se arrastava pelo chão. As pessoas se movimentavam como em câmera lenta. Gritos, choros, desmaios. Desespero. Empurrado para trás por um sopro de sentomentos descontrolados, me separei do abraço seguro do meu pai. Sozinho e quase fora do salão, acompanhei com os olhos, segundo a segundo, a tampa da morte selar a vida. Duas almas gêmeas foram estraçalhadas naquele instante. (p. 209) E conclui, sobre a vida que precisava continuar: (...) desde aquele triste acidente de carro, vivo apenas para viver. Não existe nada na Terra capaz de arrancar esse vazio do meu peito. A saudade é a pior coisa do mundo. (...) Caminhando pelas estreitas alamedas do cemitério, espero por um milagre que nunca aconteceu. O silêncio da morte é enorme. O do meu coração, maior ainda. (p. 210) A última parte do texto está no capítulo final do livro, intitulado "Cinco Anos Depois". Nesta XIV Estação da Via Sacra, uno-me com todos os homossexuais que sofreram o semelhante trauma. É claro que não são apenas os homossexuais que perdem seus entes queridos. Todos os outros, porém, recebem um apoio, por exemplo, de uma "Pastoral de Consolação e Esperança", ou coisa parecida. Os gays, não. Com esta meditação, quero preencher, modesta e simbolicamente, esse lacuna.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Foste sepultado e, a partir daquele momento, todos os túmulos ganharam um novo significado. Como escreve o Teu Apóstolo, Paulo: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. (...) Como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos serão vivificados. Cada qual, porém, na sua própria categoria: como primícias, Cristo; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. (1Cor 15, 20. 22-23) Jeus, consola os que choram. Dá-me a graça de enxergar a morte de pessoa amada e o seu túmulo, com os olhos da fé. Ensina-me a olhar, também assim, à minha própria morte.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [12]

XII Estação: Jesus morre na cruz

Pelas três da tarde, Jesus deu um forte grito: “Eli, Eli, lamá sabactâni?”, que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46) Jesus nunca foi abandonado por Deus, até porque Ele próprio é Deus. Na hora da morte, porém, Jesus experimentou o ápice de toda angústia humana. A partir daquele momento, também a sensação de ser abandonado por Deus, foi consagrada. Não é mais identificada com a blasfêmia. Quando sentimo-nos abandonados por Deus, estamos muito mais perto dele do que pode parecer. Muitos homossexuais experimentam esta angústia, alimentada, inclusive, por aqueles que se consideram representantes de Deus neste mundo. Não nos esqueçamos de que, ao pé da cruz, além de Maria Santíssima e o discípulo amado, estavam, justamente, os "representantes de Deus" que, naquela hora, não paravam de zombar de Jesus. Cristo está sendo representado, de maneira mais eloquente, pelos perseguidos e, por isso mesmo, angustiados, do que por aqueles que exibem os seus títulos e ministérios eclesiásticos. O livro "Vidas em arco-íris" (Editora Record; Rio de Janeiro, 2006) de Edith Modesto (fundadora do movimento dos pais de homossexuais), reune vários depiomentos de gays e lésbicas. Uma parte é dedicada à relação dessas pessoas com Deus. Um dos entrevistados, Bruno, diz: A adolescência foi quando começaram as crises, porque, para mim, que era protestante, eu tinha a minha realidade formada, eu acreditava em todo aqule mundo que a religião mostra. Então, na adolescência, óbvio que depois aconteceu de eu me apaixonar por outro rapaz e não entender o que estava acontecendo. Eu me preocupava com a minha família religiosa, e com Deus... Tinha uma coisa de Deus extremamente presente, absolutamente cruel. Eu iria ser muito castigado... Seria a minha destruição, com certeza. (p. 102) Betty Fairchild e Nancy Hayward, em seu livro "Agora que você já sabe: o que todo pai e toda mãe deveriam saber sobre a homossexualidade" (Ed. Record; Rio de Janeiro, 1996), citam a obra de McNeill, "The Church and the Homosexual": O homossexual passa por uma grande angústia mental e por um profundo sentimento de alienação, frequentemente se considerando uma pessoa banida, não apenas da sociedade, mas também do amor divino. (p. 188) Jesus crucificado deixou um testamento muito importante para todos aqueles que experimentam a sensação de serem abandonados por Deus: Não tenhas medo que fui eu quem te resgatou, chamei-te pelo próprio nome, tu és meu! Pois és muito precioso para mim, e mesmo que seja alto o teu preço, é a ti que eu quero! Para te comprar, eu dou, seja quem for; entrego nações, para te conquistar! Não tenhas medo, estou contigo! (Is 43, 1b. 4-5a)

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Eu sei que Tu estás sempre comigo. Nunca me abandonaste. Houve momentos em que gritei por me sentir desamparado. Peço-Te, abençoa todos os homossexuais, sobretudo os que se sentem abandonados ou condenados por Deus. Também aqueles que foram expulsos das Igrejas. Dá-nos a graça de experimentarmos a Tua presença e o Teu amor em nossa vida.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

21 de abril de 2011

Via Sacra [11]


XI Estação: Jesus é pregado na cruz

Dedico esta XI Estação a todos os homossexuais torturados e assassinados por causa de sua identidade homossexual. Didier Eribon conclui a introdução ao seu livro "Reflexões sobre a questão gay" (Ed. Companhia de Freud; Rio de Janeiro, 2008), com o seguinte texto: No momento em que termino este prefácio, leio nos jornais que um jovem gay foi assassinado nos Estados Unidos, numa cidadezinha do Wyoming. Foi torturado pelos dois agressores e abandonado, agonizante, pendurado numa cerca de arame farpado. Tinha 22 anos. Chamava-se Matthew Shepard. Sei bem que não é o único homossexual a ter conhecido sorte tão trágica nos Estados Unidos nos últimos anos. Sei igualmente que, em muitos países, os gays, as lésbicas, os bissexuais e os transexuais são regularmente, sistematicamente, vítimas de violências como essa. Um relatório da Anistia Internacional publicou recentemente uma lista aterrorizante e, com certeza, bem incompleta. Mas é a foto de Matthew Shepard que hoje tenho diante dos olhos; o relato do que ele sofreu. Como não pensar nele quando me preparo para publicar este livro? Como não pedir ao leitor para nunca esquecer, ao lê-lo, qua não são apenas problemas teóricos que estão em jogo? (p. 23) Jesus disse: Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. (Mt 25, 40) Jesus continua sendo crucificado. E a Igreja, em vez de lavar os pés dos mais marginalizados, continua lavando as suas próprias mãos.


ORAÇÃO

Senhor Jesus! Foste humilhado, torturado e crucificado. Olha com amor àqueles que são crucificados por causa de sua homossexualidade. Recebe-os no Teu reino.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

29 de março de 2011

Perdoar 70 × 7

Evangelho de hoje: Mt 18, 21-35. Geralmente os pregadores explicam que “70×7” significa “sempre”. Os números na Bíblia têm sua rica simbologia e o “7” refere-se à perfeição (plenitude). Eu compreendo estas palavras de Jesus também de outra maneira. Se compararmos os efeitos de ofensa (tais como mágoa, raiva, ressentimento, rancor, etc.) com as feridas no corpo, a recomendação de Jesus é como uma receita médica: "Aplique na ferida o bálsamo do perdão, quantas vezes for necessário". O perdão começa com uma decisão, mas não é só isso, pois lidamos com nossas emoções machucadas. Nem a razão, nem a força de vontade, conseguem dissolver os sentimentos de dor, humilhação e perda. É necessário o exercício do perdão para - por assim dizer - convencer o coração. Outro componente deste bálsamo é a graça de Deus que obtemos através de oração e, também, ao experimentarmos o perdão de Deus. É por isso que Jesus conta a parábola sobre os dois devedores. As dívidas são extremamente diferentes: uma enorme fortuna e, por outro lado, apenas cem moedas. O empregado perdoado não teve compaixão do comanheiro, mas nós devemos tê-la e é, justamente, a consciência de sermos perdoados por Deus, que nos inspira para perdoarmos aos outros. Precisamos compreender que estamos, exatamente, no lugar do primeiro empregado da parábola. Por mais graves e dolorosas ofensas que tenhamos sofrido neste mundo, todas elas estão sendo representadas com aquelas cem moedas. As nossas culpas diante de Deus são, por sua vez, aquela enorme fortuna. Por que tanta desproporção? Santa Catarina de Sena, no livro “O diálogo” (o fruto de sua experiência mística de ouvir a Deus), explica esta questão: Sendo eu [Deus] um bem infinito, a ofensa cometida contra mim pede satisfação infinita. (2.1) Vossa natureza humana era incapaz de satisfazer pela culpa e de cancelar a mancha do pecado de Adão, mancha que estragara a humanidade e lhe dera o mau cheiro da culpa. (...) Ocorreu que o humano se unisse à Deidade eterna; somente assim foi possível dar satisfação por todos os homens. (10.5) Desta união das duas naturezas, recebi e aceitei o sacrifício do Sangue. Era sangue humano, mas mesclado, amalgamado com a natureza divina, com o fogo do meu amor. (...) Foi somente desta forma – na virtude da divindade (de Cristo) – que se tornou possível a reparação da culpa humana; foi assim que se cancelou a mancha do pecado de Adão. Dela restou apenas uma cicatriz, que é a inclinação para o mal e os defeitos corporais, à semelhança da cicatriz que fica quando uma pessoa é curada de uma ferida. (4.2)
Escrevo tudo isso, porque não há um ser humano na face da terra que não tenha sido ofendido e, por isso, não precisasse dessas lições de perdão. Escrevo isso neste blog, dedicado à homossexualidade, pois são os homossexuais que têm muito mais ocasiões de sofrer ofensas. É por isso que se torna tão necessário para nós o exercício diário de perdão. Jesus disse: Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso. (Lc 6, 36) E João Paulo II escreveu: Estou plenamente consciente de quanto o perdão possa parecer contrário à lógica humana, que obedece frequentemente a dinamismos de contestação e represália. Pelo contrário, o perdão inspira-se na lógica do amor, aquele amor que Deus nutre por cada homem e mulher, por cada povo e nação, pela família humana inteira. (...) Como atesta a Sagrada Escritura, Deus é rico de misericórdia e não cessa de perdoar a todos os que regressam a Ele (cf. Ez 18, 23; Sl 32-31, 5; 103-102, 3.8-14; Ef 2, 4-5; 2Cor 1, 3). O perdão de Deus torna-se, em nossos corações, fonte inexaurível de perdão também no nosso interrelacionamento, ajudando-nos a vivê-lo sob o signo de uma verdadeira fraternidade. (Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1996). [leia o texto inteiro aqui]

27 de março de 2011

O poço

A Igreja propõe hoje a leitura de uma longa e profunda mensagem do Evangelho (Jo 4, 5-42) sobre o encontro de Jesus com a samaritana. Em resumo: a mulher fica surpresa pelo fato de Jesus, um judeu, está falando com ela. Um simples diálogo sobre a água para matar sede, entra numa dimensão sobrenatural: Jesus fala de água viva. Em seguida, o Senhor mostra que sabe tudo sobre a mulher, inclusive sobre os seus "pontos fracos", mas não a condena, nem sequer critica. De fato, esta revelação, torna-se para samaritana a "pista" para descobrir a verdadeira identidade de Jesus, o Messias e Salvador. A mulher quer saber algo mais sobre a maneira certa de adorar a Deus e, em seguida, corre para anunciar aos habitantes daquela cidade a presença de Cristo.
Transcrevo aqui um trecho do livro de Françoise Dolto e Gérard Sévérin, "Os Evangelhos à luz da psicanálise" (Ed. Verus; Campinas, SP, 2010):
Jesus mostra que, se nós pensamos em parar em nosso corpo e em nosso prazer, jamais ficaremos extasiados na dimensão para a qual nosso ser é chamado. Ele não satisfaz essa mulher segundo o seu pedido, mas a questionou num lugar desconhecido para ela. Se Jesus a tivesse satisfeito, ela teria ficado lá, passiva. Questionada, ela é transportada a outro lugar. Buscando por meio de nosso corpo e em companhia dos outros, vamos descobrir que somos habitados não somente por necessidades, mas também pelo desejo que nos leva muito além do que o nosso corpo pode alcançar, um desejo que, para além dos sentidos, ainda faz apelo a outra comunicação. Essa mulher vai descobrir que o desejo jorra constantemente de reviravolta em reviravolta. O desejo que nos aflige é muitas vezes surpreendente. Jesus leva essa mulher a descobrir que além de todos os homens com quem ela procurava acalmar sua sede, para além das suas necessidades de segurança, de seus desejos carnais, ela buscava outra coisa. Mais do que em seus amantes, encontrou em Jesus alguém que a preenche. (p. 153)

26 de março de 2011

Filho pródigo

Acho difícil resumir a reflexão sobre esta belíssima parábola de Jesus (Lc 15, 11-32) em apenas uma postagem do blog. É um texto tão rico que inspira livros inteiros, além de séries de pregações (como as de um retiro espiritual). João Paulo II tomou a história do filho pródigo como base da Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia sobre a reconciliação e penitência na missão da Igreja hoje (leia aqui). Entre livros, dignos de atenção, destaco "A volta do filho pródigo" de Henri J. M. Nouwen (Ed. Paulinas; São Paulo 1997). Para abordar apenas um dos aspectos - certamente não essencial - desta parábola, confrontarei um trecho do livro de Nouwem com outro texto, tirado da obra de Didier Eribon, "Reflexões sobre a questão gay" (Ed. Companhia de Freud; Rio de Janeiro, 2008).
Henri J. M. Nouwem, no capítulo 2, dedicado ao filho mais jovem (o pródigo), escreve: O filho indo embora é, portanto, um ato mais grave do que parece à primeira vista. É uma rejeição cruel do lar no qual o filho nasceu e foi criado e uma ruptura com a mais preciosa tradição apoiada pela comunidade maior da qual ele faz parte. Quando Lucas escreve "partiu para uma região longínqua", ele se refere a muito mais do que ao desejo de um jovem de ver o mundo. Ele se refere a uma quebra drástica da maneira de viver, pensar e agir que recebeu como um legado sagrado das gerações passadas. Mais do que desrespeito, é uma traição aos valores cultuados pela família e pela comunidade. O país distante é o mundo no qual não se respeita o que em casa é considerado sagrado. (p. 41)
O julgamento é claro, severo e usa termos fortes. É, no entanto, uma avaliação "de fora". Basta olhar nos olhos daquele jovem ou tentar colocar-se no lugar dele, para que tudo mude totalmente. Talvez não tenha sido cruel a sua atitude de rejeitar "a mais preciosa tradição, o legado sagrado da maneira de viver, pensar e agir", mas - pelo contrário - todas essas coisas (tradição, modo de pensar, etc.) tornaram-se insuportáveis, portanto cruéis, principalmente em sua expressão prática de intolerância, rejeição, agressividade, etc.
Dider Eribon dedica um capitulo do seu livro (coincidentalmente também o 2°), à "Fuga para a cidade". Escreve: Entendemos que um dos princípios estruturantes das subjetividades gays e lésbicas consiste em procurar os meios de fugir da injúria e da violência, que isso costuma passar pela dissimulação de si mesmo ou pela emigração para lugares mais clementes. Por isso é que as vidas gays olham para a cidade e suas redes de sociabilidade. São muitos os que procuram deixar o lugar onde nasceram e onde passaram a infância para vir se instalar em cidades mais acolhedores. Marie-Ange Schiltz escreve, comentando o resultado de estudos recentes, que, "comparando com as pesquisas feitas na população geral, fica claro que a partida do lar familiar e o acesso à independência econômica são mais rápidas entre os jovens homossexuais". Esse movimento de fuga seguramente conduz os homossexuais para a cidade grande. (p. 31)
A parábola de Jesus tem o final feliz (em sua parte principal): o retorno do filho pródigo para casa. Em algumas famílias acontece, justamente, este abraço do pai (da mãe e dos irmãos), no ato sincero de acolher o filho ou a filha homossexual que, após uma fuga, tem a coragem de voltar para o convívio familiar. Este novo convívio, graças ao amadurecimento interior dos familiares, torna-se possível (ainda que exista ainda algum "irmão mais velho", preso em sua falta de amor).

20 de março de 2011

Transfiguração

A transfiguração de Jesus, lida e meditada na liturgia deste 2° Domingo da Quaresma (Mt 17, 1-9), ocupa o lugar de destaque na tradição e na espiritualidade da Igreja que celebra também uma festa especial dedicada a este misterioso acontecimento (no dia 06 de agosto). Recentemente, o Papa João Paulo II, chamou ainda mais a atenção do povo à transfiguração do Sengor, ao inseri-la no elenco dos cinco novos mistérios do Rosário (confira a Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae - aqui). Também a sua Exortação Apostólica, dedicada à vida cosagrada (Vita consecrata - aqui), tem a transfiguração como o ponto de partida e o fio condutor de todo o seu conteúdo. O Papa escreve: No Evangelho, são muitas as palavras e gestos de Cristo, que iluminam o sentido desta vocação especial. No entanto, para se abarcar numa visão de conjunto os seus traços essenciais, revela-se particularmente útil fixar o olhar no rosto resplandecente de Cristo, no mistério da Transfiguração. (n. 14) E continua mais adiante: O episódio da Transfiguração assinala um momento decisivo no ministério de Jesus. É um evento de revelação que consolida a fé no coração dos discípulos, prepara-os para o drama da Cruz, e antecipa a glória da ressurreição. É um episódio misterioso revivido incessantemente pela Igreja, povo a caminho do encontro escatológico com o seu Senhor. Como os três apóstolos escolhidos, a Igreja contempla o rosto transfigurado de Cristo, para se confirmar na fé e não correr o risco de soçobrar ao ver o seu rosto desfigurado na Cruz. Em ambos os casos, ela é a Esposa na presença do Esposo, que participa do seu mistério, envolvida pela sua luz. Esta luz atinge todos os seus filhos, todos igualmente chamados a seguir Cristo, repondo n'Ele o sentido último da sua própria vida podendo dizer com o Apóstolo: «Para mim, o viver é Cristo» (Fil 1,21). Mas uma singular experiência dessa luz que dimana do Verbo encarnado é feita, sem dúvida, pelos que são chamados à vida consagrada. Na verdade, a profissão dos conselhos evangélicos coloca-os como sinal e profecia para a comunidade dos irmãos e para o mundo. (n. 15)
No seu livro "Direção espiritual e homossexualidade" (Edições Loyola; São Paulo, 2006), o padre jesuíta James L. Empereur, apresenta uma clara analogia entre a vida consagrada e a vida das pessoas homossexuais. Logo, a meditação do Papa, ganha para nós um significado especial. Leia a argumentação do autor: Os gays cristãos possuem um carisma análogo ao carisma de uma vocação religiosa. (...) O que diferencia o carisma do homem gay do carisma de um homem membro de uma ordem religiosa é que o do homem gay é um carisma sexual. Assim como Deus ofereceu certo dom aos sacerdotes, irmãos ou irmãs na vida religiosa para que seguissem o evangelho com certo caráter público, assim Ele ofereceu aos homens gays e mulheres lésbicas um dom sexual especial, que exibe de maneira pública a diversidade e a beleza de Deus em nosso mundo. Todas as criaturas de Deus expõem a obra de Deus, mas o mundo também precisa de variação para que a riqueza dessa obra seja inequivocamente evidente. Deus dá a gays e lésbicas a variação um tanto surpreendente de sua sexualidade para ajudar seus irmãos e irmãs a ter uma compreensão maior da realidade de seu Deus. (...) Os religiosos são poucos em comparação à população total, e pede-se a eles que vivam de certa meneira, que carrega consigo certa qualidade contracultural. Se a vida religiosa é indistinguível do resto da vida cristã, parece não haver nenhum propósito para sua existência. (...) Também os homossexuais são uma minoria. Também eles devem viver vidas contraculturais. Percebemos nitidamente a lógica desta analogia, mas o autor observa que ela não é completa: A vida religiosa é uma vocação acima da vocação que recebemos de Deus ao sermos criados filhos ou filhas de Deus. A sexualidade gay é um fato da criação. (...) Ao contrário dos homens e mulheres religiosos, eles [os homossexuais] não tiveram escolha quanto à vocação. Não lhes perguntaram se queriam ser homossexuais. (...) O carisma não se baseia primariamente na escolha, mas em um dom oferecido a alguém para ser compartilhado porque o mundo necessita desse dom. (pp. 4-6).

14 de março de 2011

Tudo que fazemos

No Evangelho de hoje (Mt 25, 31-46), Jesus não deixa a mínima margem de dúvida: qualquer coisa que fazemos em relação às pessoas, estamos fzendo isso a Ele. Ainda que o Senhor tenha mencionado "apenas" famintos, sedentos, estrangeiros, nus, doentes e prisioneiros, compreendemos que a lista não está completa nem fechada. Trata-se de todos os necessitados, com os quais Jesus se identifica, chamando-os de "menores de meus irmãos" e de "pequeninos". (cf. vv. 40. 45) Encontrei uma explicação profunda das necessidades humanas e de seu lugar nos planos de Deus. É "O Diálogo" de Santa Catarina de Sena (1347-1380), um livro no qual a santa mística e Doutora da Igreja, descreve a sua experiência de conversar com Deus (Santa Catarina de Sena, "O Diálogo", Ed. Paulus; São Paulo 1985). Deus revela o mistério das necessidades humanas: Poderia ter criado os indivíduos, dotando-os de todo o necessário, seja na alma como no corpo; mas preferi que um necessitasse do outro; que fôsseis administradores meus no uso das graças e benefícios recebidos. Dessa forma, querendo ou não, o homem haveria de praticar a caridade, muito embora não seja meritória a benevolência não realizada por meu amor. Como vês, a fim de que os homens exercitássem o amor, fí-los meus administradores e os coloquei em diferentes estados de vida, em diferentes posições. (p. 40) Para quem presta atenção, esta é mais uma prova de que a diversidade faz parte integral e indispensável do plano de Deus. Um pouco antes, no mesmo capítulo, Santa Catarina transmite outra parte desse mesmo pensamento divino: Quem me ama, procura ser útil ao próximo. Nem poderia ser de outra maneira, dado que o amor por mim e pelo próximo são uma só coisa. Tanto alguém ama o próximo, quanto me ama, pois de mim se origina o amor ao outro. O próximo, eis o meio que vos dei para praticardes e manifestardes a virtude que existe em vós. (...) Quem se apaixona por mim, jamais cessa de trabalhar pelos outros. (p. 39) Tudo isso nos leva diretamente ao texto da Primeira Carta de São João que afirma, de diversas maneiras, a mesma verdade. A partir deste ponto de vista, não pode ser considerada uma blasfêmia, a seguinte frase: "Eu era um homossexual e me acolhestes, respeitastes, reconhecestes a minha dignidade e os meus direitos, por isso vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo!" (Mt 25, 34). Creio que não seja necessário mencionar a versão oposta dessa declaração do Senhor...
Para não deixar esta reflexão "unilateral" demais, proponho uma pergunta: e nós, os homossexuais, podemos (e devemos) exercer o dever de caridade de que maneira? Como amar os homo e heterossexuais, os familiares, os opositores e até agressores? Não podemos, pois, fechar-nos em nós mesmos e em algum tipo de "nosso mundo". Amor gera amor, gentileza gera gentileza, bondade e tolerância gera bondade e tolerância. Ainda que seja necessário amar os inimigos, abençoar aqueles que nos amaldiçoam e perdoar àqueles que nos perseguem. O primero passo é, sem dúvida, a oração por essas pessoas, depois vem a palavra amiga e, em seguida, o gesto concreto. Tudo isso motivado no amor ao Senhor e fortalecido no amor que Ele tem por cada um de nós. Parece banal demais? Ou patético? Mas isso é a mais pura realidade! É o caminho para o céu.