ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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28 de maio de 2014

Uma bela tentativa, mas...


A homossexualidade continua despertando grandes polêmicas em todos os campos, desde o religioso, pelo moral, social e cinematográfico, até o político. Enquanto a reflexão não sai da pura teoria, os efeitos de tal discussão - além de elevar a temperatura do discurso - geralmente permanecem na mesma dimensão, quer dizer, na teoria. Eu sempre senti  falta de uma voz nestas polêmicas. A voz essencial e mas preciosa: de próprias pessoas homossexuais que não se limitariam ao que "está escrito na Bíblia" ou ao que "dizem as estatísticas", mas compartilhariam a sua experiência pessoal. Foi por isso que fiquei tão feliz, quando o Papa Francisco, em sua entrevista à revista "La Civiltá Cattolica", no ano passado, disse: "Deus, quando olha a uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem". [Leia mais aqui

Pois bem... A quem "eles" irão querer escutar? Um(a) homossexual que se sente feliz, ao realizar o maior sonho de sua vida, tendo vivido em um relacionamento duradouro e feliz? Certamente não, pois o objetivo "deles" é encontrar mais um pau para bater no cachorro. A meta aqui, por mais que pareça ser, não é um diálogo, nem qualquer tentativa de conhecer objetivamente o "nosso" lado. Quando se parte daquela predominante repulsa à homossexualidade (leia-se: a homofobia), nenhum diálogo é possível, tampouco qualquer conhecimento objetivo.

Achei necessária esta introdução à leitura de uma entrevista, publicada recentemente no portal "Alateia" e intitulada "Ser homossexual é um sofrimento, não uma escolha nem um pecado em si". O entrevistado é Philippe Ariño, homossexual espanhol de 34 anos, que mora atualmente na França.

Nesta entrevista (e também em outra, ao portal "Zenit" - aqui), Philippe faz uma apologia à continência sexual, o que, em si, até parece louvável. Como o seu argumento, porém, usa o exemplo das próprias frustrações nos relacionamentos homossexuais do passado: "Ao me relacionar com outros homens ou olhar para eles de maneira possessiva, eu sentia satisfação no momento. Mas estava sozinho e nunca me sentia completo. É então que caímos na tentação de achar que podemos viver a sexualidade como os outros, mas, na verdade, a sexualidade só pode ser vivida na diferença sexual".

A mesma frustração pessoal do rapaz aparece ainda mais claramente em seguida: "Antes eu me sentia sempre inferior aos homens, porque a homossexualidade é invejosa. Agora, após descobrir que Deus me ama e que sou seu filho, querido e amado, não me sinto inferior a nenhum homem. Assim, depois de muitos anos, descobri a beleza da amizade masculina, que eu não trocaria pelas relações do passado - quando eu fingia estar me realizando".

Sem dúvida, para quem nunca experimentou o amor em sua relação homossexual, não é tão difícil preferir a amizade e não querer trocá-la pelas relações frustradas do passado. A lógica das afirmações acima lembram-me muito aqueles testemunhos fervorosos de ex-católicos que "encontraram Jesus" em uma comunidade evangélica e se tornaram fiéis devotos (não raramente fanáticos), só porque - devido à própria ignorância e à preguiça - no passado viviam como "católicos de carteirinha". Nada mais fácil do que transferir aos outros a culpa pelos próprios defeitos pessoais...

A frustração do passado é uma geradora de desprezo em relação a todos que, numa realidade semelhante, conseguiram ser felizes. O texto da entrevista traz a pergunta (associada a uma imposição): "Pessoas como você, que abandonam seu passado, não são muito queridas pela comunidade LGBT. Como você se relaciona com o universo que frequentava?". A resposta revela o real objetivo da entrevista "politicamente correta":

"Eles me colocaram na lista negra. Ficam me ameaçando [sic!] e me etiquetam de homofóbico, mas eu não teria sobrevivido junto deles: é um mundo de mentiras, que exteriormente se mostra alegre, mas dentro está cheio de raiva e tristeza. (...) Os ativistas podem aplaudir quando você fala, mas você só é visto em sua sexualidade, como se fosse um animal [sic!] ou um indivíduo de série B que precisa ter direitos especiais. É por isso que eu digo que somos os piores inimigos de nós mesmos".

Quem quiser, leia o texto inteiro da entrevista. Entre outros assuntos, há indiretas à adoção das crianças pelos casais homoafetivos, junto com a crítica do casamento entre as pessoas do mesmo sexo e, finalmente, a "definição" do relacionamento homossexual como "uma amizade ambígua, incapaz de amor, da qual só deriva o sofrimento".

Uma analogia simples que me vem à mente é com alguém que, por algum motivo, nunca aprendeu a nadar (ou a andar de bicicleta) e agora cria uma "definição" daquilo, como algo terrível, impossível, prejudicial e, certamente, antinatural. Isso acontece sempre quando se procura colocar as próprias frustrações pessoais como uma base do discurso.

Enfim, Philippe Ariño, por mais que se apresente como um homossexual e católico, não me representa...

16 de abril de 2014

Paradigmas, preconceitos e novos céus

Reproduzo aqui o excelente texto de David Santos, do seu blog “Culto diferente”.


PARADIGMAS, PRECONCEITOS E NOVOS CÉUS


O preconceito é a atitude discriminatória, baseada em juízo preconcebido de algo ou alguém que fere diretamente um modelo estabelecido de mundo ideal e que outrora possa ter sido a solução para dada situação ou momento, mas que perdeu a relação com realidade. Logo o preconceito está diretamente ligado a paradigmas e à manutenção do status quo. Sendo assim, o preconceito nada mais é que a exteriorização violenta e amedrontada da nossa aversão a mudanças.

Há uma história bíblica que exemplifica bem a relação preconceito versus paradigma:

Samuel o profeta, foi designado por Deus para ungir um Rei para Israel, enviado a casa de Jessé, fez passar diante de si todos os filhos deste: Eram homens fortes, bonitos, inteligentes, capazes de conduzir o povo diante das guerras intermináveis com os cananeus; Aos olhos de todos, reis em potencial. Por fim, Samuel questiona se não havia nenhum outro filho, porque Deus não o havia tocado a respeito dos que tinha visto. Sim, havia mais um filho, este, sem muita importância ficou esquecido no campo junto às ovelhas que cuidava.

Davi era pequeno, magro, ligado às artes, poeta e músico, de coração sensível, estava mais para “bobo da corte” que para Rei. Mandaram chamá-lo, e quando este chegou a Samuel, Deus disse: Este é o Rei! [I Samuel 16]. Samuel então questiona a Deus, sobre o “absurdo” que estava fazendo, ao que recebe de resposta: “O Senhor não vê como o homem, o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração”.

O que Samuel não percebeu é que Deus estava quebrando paradigmas e com isso o preconceito que havia no coração do profeta e do povo. Eles conheciam Saul, o atual Rei, que tinha tudo o que os reis dos povos vizinhos tinham, era o estereótipo de rei bem-sucedido, o modelo ideal, mas que representava um tempo passado, algo que para o atual momento era antiquado e impedia-os de ter experiências mais profundas com Deus.

E assim, Deus estava dizendo a Israel, “vamos mudar as coisas por aqui”, está na hora de viver coisas diferentes, experimentar o novo, façamos loucuras em favor da vida abundante, “a virgem dará luz a uma criança” e nunca mais o mundo será o mesmo. [Isaías 7:14; Isaías 43:19-21]

E no decorrer da história, podem-se observar várias outras situações parecidas, onde pela fé, homens e mulheres mudaram o status quo, quebrando paradigmas em favor da vida e construindo um novo mundo [Hebreus 11:32-40].

O próprio Jesus era exímio em quebrar paradigmas, em mudar a ordem das coisas, seu discurso era desafiador, dizia: “Ouviste o que foi dito, mas eu, porém vos digo (...)”, por isso sofreu preconceito por parte dos lideres religiosos da época, sendo perseguido e morto.

É evidente que todos nós temos preconceitos, em maior ou menor intensidade, vivemos envoltos em paradigmas. E quando o Apostolo Paulo nos exorta a não julgarmos, ele o faz tendo em mente todas as variáveis da vida, pois, nosso julgamento preconcebido, pode estar intoxicado por um paradigma, que nem ao menos temos a noção de que existe ou que esteja lá [Mateus 15: 19-20].

E como podemos estreitar nossos afetos e relacionamentos, se estivermos atormentados pelo preconceito?

O preconceito tem origem no medo, o medo produz tormento, e atormentados, teremos atitudes de defesa, agredindo o outro, agindo pela lei do “olho por olho e dente por dente”, logo, não seremos aperfeiçoados no amor [I João 4:18-21].

Quem tem preconceito com negros, é infeliz porque eles deixaram de ser escravos, acredita ainda que são pessoas inferiores e por isso devem ficar excluídos da sociedade. Os homens tem medo da emancipação das mulheres, temem que elas assumam o controle que eles acreditam possuir, assim, se tornam machistas, na ânsia de defender o seu lugar, diminuem, agridem, excluem. Temem que assegurando os direitos civis aos homossexuais, de forma sobrenatural, todos os héteros se transformem em gays, e assim, acabe a família, e toda a estrutura social que conhecemos hoje. E a lista não termina: estrangeiros, pessoas com deficiência, nativos de determinada região, gêneros musicais, lembra-se do rock a “música do diabo”, do axé, e do funk carioca, tão discriminado, hoje música de “elite”.

Também, entre os próprios cristãos: católicos, protestantes históricos, tradicionais, reformados, pentecostais, avivalistas, neopentecostais; todos a seu modo, temem a mudança do status quo, temem a ruptura com o paradigma que criaram, pois assim, podem perdem seu lugar de poder, perdem sua hegemonia.

Logo, precisamos de um novo discurso, sobretudo de uma nova práxis, para um novo tempo. Um discurso que reconhece que a verdade nunca foi absoluta, mas que dialoga com o tempo, cultura e experiências de vida.

E como conselho dado a crianças, exorto, tenha em ti o mesmo espírito que houve em Cristo, enfrente seus medos, enfrente seus preconceitos, quebre paradigmas, mude o estado das coisas: quebre o sábado, não apedreje mesmo que a lei ordene isso, fuja da hipocrisia de uma santidade fingida, para que o Reino seja estabelecido.

Este é o novo de Deus, novos relacionamentos, novos afetos. Não tema ser reconhecido como amigo dos pecadores, não tema ser reconhecido como cristão, até que haja novos céus e nova terra onde reine a justiça, a paz e a alegria.

Este texto foi escrito com base numa conversa realizada com os JBZL (Jovens Betesda Zona Leste), sobre o tema: "Só os preconceituosos herdarão o Reino de Deus" capítulo do livro de Elienai Cabral Junior - “E se alguém acender a Luz”.

7 de fevereiro de 2014

Deixar lesbianismo?


A frase acima [o título] parece estar incompleta. É a minha reação espontânea que faz acrescentar ali as palavras que faltavam. Seria assim: "Deixar de usar o termo 'lesbianismo', bem como 'homossexualismo' e 'gayzismo' - este último que nem existe nos dicionários legítimos e sérios, pois é uma debochada criação de Olavo de Carvalho [o ex-mago] e repetida pelo seu discípulo, padre Paulo Ricardo, seguido pelos milhares católicos homofóbicos". Tudo bem, a "minha frase" ficou mais longa e distante da "revelação" feita pelo portal "nova guia". O título original da matéria é: "Atriz global Claudia Jimenez deixa lesbianismo".

O título é como a chave de uma fechadura. Se estiver enferrujada, não vai funcionar bem. Não preciso ser um profissional de jornalismo para detectar os erros grosseiros, pelo menos dois, na abertura da matéria. Não sei de onde surgiu a mania de chamar atores e atrizes da Rede Globo de Televisão de "globais", se 99% deles não passam de nacionais. É quase como atribuir aos atores da Band o apelido de bandidos. Mas isso é de menos.

O que é que queria dizer a expressão "deixar lesbianismo"? Será que a pessoa que fez esse "anúncio de um milagre" ouviu falar de bissexualidade? De fato, vivemos numa época de notícias igualmente rápidas e superficiais. Isto é, uma época da difusão de burrices, a verdadeira epidemia de palavras sem conteúdo.

O próprio artigo cita os desabafos da atriz que disse, por exemplo: "Não tinha sensualidade, era muito mais gorda do que sou hoje. Não tinha forma nem vaidade. Achava que não tinha cacife para seduzir um homem. Como tinha de ser amada, me joguei nas mulheres". Tirando a curiosa ingenuidade da atriz, ao considerar mais fácil encontrar (sim, seduzir) alguém dentro de uma minoria, parece ser uma enorme arrogância afirmar que para se relacionar, ou - usando a sua expressão - se jogar nos braços de uma mulher, não precisava de sensualidade, forma e vaidade. Por que? Porque o relacionamento homoafetivo é um vaso sanitário?

A matéria fornece várias "pérolas" que seriam cômicas se não fossem trágicas: "As declarações da atriz, que não associa homossexualidade a algo inato à pessoa e sim como comportamento que pode ser superado, deixou a militância LGBT do país em polvorosa"; "Claudia deixou nas entrelinhas que sua opção pelo lesbianismo se deveu a diversos fatores externos como trauma de infância, rejeição e carência afetiva". No cotexto da última frase, acho interessante mencionar aqui o título da entrevista, concedida pela atriz ao jornal "Folha de São Paulo" (que, aliás, é a única fonte devidamente citada no artigo): "Claudia Jimenez diz que rejeição fez florescer seu lado cômico". Coerência jornalística? Que nada!

Quando a gente pensa que uma tese bizarra já tenha sido superada, neste caso de "cura gay", de repente aparece alguém que lança uma declaração brilhante, como esta: "Que outros sigam o exemplo de Claudia. Há saída para o comportamento homossexual". Só faltou o final lógico da frase: "...no caso de pessoas bissexuais".

5 de fevereiro de 2014

Bonança após a tempestade?


O título faz alusão ao texto do Livro de Tobias: Porque vós não vos comprazeis em nossa perda: após a tempestade, mandais a bonança; depois das lágrimas e dos gemidos, derramais a alegria (Tb 3, 22). Preciso acrescentar aqui que a frase acima localizei apenas na Bíblia "Ave Maria" e constatei a ausência desta e de várias outras frases nas demais edições da Bíblia (CNBB, Jerusalém etc.), além de não encontrar - evidentemente - o próprio Livro de Tobias nas edições não-católicas. Não é este, entretanto, o assunto de hoje. Seja qual for a fonte dessa intuição sobre os fenômenos da natureza (transferidos de certa forma à convivência humana), parece óbvio que depois de algum tempo de agitação, venha um pouco de paz. É assim que tudo funciona, desde os microscópicos organismos, até às galáxias mais distantes. Ou melhor, desde o palpitar do nosso coração, através da respiração, até ao sexo, tudo tem que ter o ritmo, tem que ser um ciclo, uma onda, com altos e baixos. Nós temos isso no sangue. Está gravado na nossa natureza. É muito provável que seja por isso que sentimos, intuímos, as pulsações da terra, do mar e do ar. E da história, por que não? Sabemos que após a tempestade vem a bonança. Ou, pelo menos, deveria vir.

Desde a última sexta-feira vivemos uma espécie de tempestade, causada pelo "beijo gay" que tenha sido exibido no último capítulo da telenovela da Globo, o "Amor à vida". Estou falando, principalmente, sobre a tempestade que explodiu no microcosmo (ou, talvez, macro-), chamado pomposamente de "redes sociais" que, como todo mundo sabe, se concentram sobretudo no facebook. Temos, é claro, os reflexos no twitter, nos blog's e nos portais que representam este ou aquele lado do palco ideológico-doutrinal da comunicação social. Muitos comemoraram. Muitos se lamentaram. Não tive a menor vontade de calcular as proporções...

Juro que não vou reproduzir aqui, nem em parte, aquelas grandiosas batalhas cibernéticas ou os tratados teológico-pedagógico-jurídicas, contra ou a favor do beijo gay em si, ou da novela, ou da própria Rede Globo em geral. Já escrevi, já fui criticado, já excluí gente da minha lista de contatos, enfim... A tempestade está dando a impressão de querer ir embora, ainda que com alguns trovões e relâmpagos em forma de um "até logo!". O sossego vai durar até a próxima oportunidade. Exatamente assim, como acontece na própria natureza. Digamos, em nosso contexto (LGBT), tivemos a tempestade do Bolsonaro, mais tarde aquela do Feliciano e agora essa do casal Félix e Niko. Os meteorólogos também dão nomes aos tufões e ciclones. Nada original... 

O que me trouxe aqui é a pergunta: será que depois de uma tempestade, realmente vem a bonança?

As redes sociais têm a sua dinâmica própria que em parte demonstra a evolução da mentalidade humana. Tirando uma margem que a tela de um computador proporciona, isto é, aquela diferença entre as coisas que se tem a coragem de escrever, mas nunca se diria na cara do outro, em sua grande parte, a discussão tão acalorada como essa, mostrou o crescimento vertiginoso de posicionamentos radicais. O que mais chamou a minha atenção foi o fato de observar isso principalmente entre os jovens. Eu sei que a juventude é radical (OK, digamos: idealista) por natureza e que a moderação (no bom e no mau sentido) ocorre com o tempo, através de choques com a realidade, de decepções, de cansaço e de comodismo, bem como através de estudo e de um amadurecimento em geral. 

A humanidade apresenta a mesma dinâmica de forma ainda mais clara. É uma interminável conquista, é a descoberta, é o avanço constante. Sem dúvida, como em cada caminhada, houve tropeços, capazes até de travar por algum tempo o natural progresso da civilização. Tais tropeços tornaram-se, no entanto, uma fonte de sabedoria e enriqueceram a consciência coletiva do gênero humano, passando de uma geração para outra. E é, justamente, neste fluxo de gerações que a gente deposita a expectativa dos tempos melhores. Repete-se, de certa forma, a experiência do povo de Israel que, no final de sua longa peregrinação rumo à terra prometida, constatou que era preciso que morresse aquela geração e surgisse a outra, para obter a vitória definitiva (cf. Jos 5, 6-7). É tão natural a suposição - quase automática - de que cada nova geração supere em suas qualidades a geração anterior.

A impressão que tenho, após a leitura das berrantes declarações homofóbicas daqueles que representam a Igreja Católica Apostólica Furiosa, é que as coisas irão piorar. Essas pessoas, ainda que confusas em sua argumentação e apresentando as falhas graves na compreensão e no uso da língua portuguesa, estão profundamente convencidas quanto à razão exclusiva e absoluta daqueles princípios que nós tão bem conhecemos e que tanto mal já nos fizeram. É como a "Fúria Jovem" da torcida de um clube esportivo. Pior... É como a "Juventude Hitlerista" (Hitlerjugend). Esta analogia pode parecer drástica demais, porém, trata-se de uma lógica semelhante: ainda que por motivos diferentes, o braço jovem de cada uma dessas instituições conhece bem o atalho que reduz ao mínimo a distância entre a ideia e o ato. A crueldade das declarações verbais anuncia uma nova, maior onda da homofobia, com a base no cego fundamentalismo cristão. Lamentavelmente...

2 de janeiro de 2014

Ano novo de novo


Começo com um texto de Carlos Drummond de Andrade, "Desejos de Ano Novo":

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui para adiante vai ser diferente.

A contagem do tempo faz parte da nossa cultura. Aliás, tem a origem eterna (que paradoxo!). Deus inspirou o homem a orar, pedindo o dom da sabedoria, assim: Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria! (Sl 89[90], 12). Contamos, então, os dias, as semanas, os meses e os anos. Como é diferente essa contagem quando se trata de tempo compartilhado com uma pessoa amada. "Hoje completamos o primeiro mês do nosso namoro..." e assim por diante. Quando não se conta mais os meses, mas sim, os anos e as décadas, a sensação é de uma vida realizada...

A Igreja proclama com certa frequência os anos comemorativos e os jubileus. Ainda que não se tratasse de datas muito precisas, tivemos a maior celebração jubilar dos nossos tempos, comemorando os 2 mil anos do nascimento de Jesus. Na proximidade dessa data, antes e depois, tivemos o Ano Mariano, Ano Paulino, Ano do Rosário, Ano Eucarístico, Ano da Fé etc. Tudo isso com o objetivo de aprofundar o conhecimento de cada mistério da fé e de aprender a vivê-lo mais intensamente (é claro, não apenas no período indicado, mas a partir dele). A curiosidade desses "calendários" especiais na Igreja é que nunca coincidem com a agenda civil, isto é, começam e terminam em datas diferentes e até distantes do dia 01 de janeiro ou 31 de dezembro (assim como o ano litúrgico que começa no 1° domingo do Advento e termina mais ou menos um mês antes do fim do ano civil). Talvez seja uma questão de mostrar a independência "deste mundo", embora, por exemplo, o Papa João Paulo II, tendo abraçado algumas ideias da ONU, proclamava os anos temáticos (ou, pelo menos escrevia as mensagens especiais) de acordo com a iniciativa dessa instituição (assim foi com o Ano da Juventude em 1985 e o Ano dos Idosos em 1999).

A Arquidiocese do Rio promove agora o Ano da Caridade, com o início no dia 20 de janeiro (a festa de São Sebastião) e o encerramento no dia de Cristo Rei (23 de novembro).

Finalmente, para alguns autores, entre eles o blogueiro Gunter Zibell (um dos membros do "GGN - o Jornal de todos os Brasis"), o ano 2013 pode ter sido considerado como o "Ano da globalização da discussão de direitos LGBT" (leia aqui). Vale a pena ler a matéria e seguir também os links indicados pelo autor para ter uma visão mais completa.

Nesta altura só me resta desejar um feliz 2014 a todos os meus Amigos Leitores e não menos amados Leitores casuais. Faço isso dando a continuação ao belíssimo texto do Poeta, com o qual comecei essa reflexão.


Para você, desejo o sonho realizado.
O amor esperado. 
A esperança renovada. 

Para você, desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar. 

Para você neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família esteja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de lhe desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente para repassar
o que realmente desejo a você.
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes
e que eles possam te mover a cada minuto,
rumo à sua felicidade!

Carlos Drummond de Andrade, "Desejos de Ano Novo"

22 de dezembro de 2013

Natal quer dizer nascimento


Parece uma burrice declarar (no título deste texto) algo tão óbvio, mas a minha impressão constante é que muitas coisas óbvias perderam, há décadas, o seu significado original e por isso acho válida a tentativa de resgatar um pouco daquilo que é essencial. Não sei se é a pressa de fazer as coisas ou a quantidade delas, mas o fato é que acabamos estacionando na superfície. É uma pena. Mas quem se importa com isso? Aqueles que se importam vivem na solidão e frequentemente caem em depressão. A superficialidade apavora-os e a própria impotência ainda reforça aquele pavor. Uma das prováveis saídas (ainda que ilusórias) é cavar na essência das coisas e tentar descrevê-las daquela perspectiva, se é que existem palavras suficientes para tal descrição. E, se existirem, serão compreendidas ou, novamente, irão cair no abismo da superficialidade e do mal-entendido? Seja o que for, ainda creio na importância da palavra - dita e, ainda mais, escrita. Talvez alguém leia e seja tocado. Algumas palavras salvam vidas ou, pelo menos, prorrogam o prazo de partida voluntária. Algumas palavras são como o combustível para levantar o voo. Até a próxima queda. Ou, até a próxima palavra salvadora. É a Palavra que se fez carne e habitou entre nós. É o Nascimento que gera novos nascimentos...

É neste sentido leio e transcrevo aqui as palavras de Murilo, publicadas originalmente no Portal Todavia e disponibilizadas, também, no Blog do Grupo Diversidade Católica. Vale a pena ler o texto inteiro. Destaco aqui a parte que mais chamou a minha atenção.

Murilo diz: "Eu digo que eu sou até mais cristão por ser gay - e mais gay por ser cristão. Se tem uma experiência na minha trajetória que associou tudo isso, foi o dia em que eu saí do meu próprio armário: me senti vivo como nunca antes, deixando pra trás um Murilo que era uma mentira, e me sentindo mais livre, sem amarras. Se não foi Deus quem me proporcionou esse bem, essa bênção e essa liberdade, eu não sei mais quem foi". 

Recorro, de novo, ao conceito do óbvio. Será que só para mim ficou nítida a analogia entre o Natal (nascimento, parto) e a saída do armário? Ainda que, como em Belém, logo tenha aparecido um monte de Herodes, querendo matar o menino? Quantos cristãos-Herodes irão considerar tal associação uma blasfêmia? Evidentemente, só aqueles com o espírito de humildade, como os pastores dos arredores da Cidade de Davi, serão admitidos à contemplação daquela Luz.

Que não falte, então, a coragem e a fé de Maria e de José, àqueles que querem reviver (ou viver pela primeira vez) o verdadeiro Nascimento do Salvador.

Feliz Natal a todos!

3 de novembro de 2013

Entre a cruz e o arco-íris

 
O título do livro de Marília Camargo César faz alusão à expressão "entre a cruz e a espada" e situa-se, de fato, no espaço intermediário que divide as duas realidades, neste caso, a religião cristã e o mundo LGBT. Talvez mais uma frase idiomática ajude a definir o livro: "em cima do muro". A primeira impressão que me ocorreu durante e depois da leitura é que a autora está em cima do muro o que não precisa ser entendido como uma crítica. Ela simplesmente não "puxa sardinha para o seu lado" (para usar mais uma expressão popular), porque não existe o lado dela, nesta questão. Existe sim, mas não pertence ao duelo "Igreja (s) & LGBT". O lado dela é o ser humano, sem outros adjetivos, títulos e sobrenomes. Marília repete várias vezes, nas páginas deste livro, a sua humilde confissão: "eu não sabia... eu precisava estudar, ouvir, ler, estar junto..". Provavelmente essa tenha sido a maior lição da obra que, por sua vez, deixa no ar um sabor de algo incompleto. Também neste caso não é uma crítica, porque o mergulho no mistério do ser humano, em sua religiosidade e sua sexualidade, nunca poderá ser completo, pois trata-se de profundezas impenetráveis por inteiro. Podem e devem ser tocadas essas profundezas e ainda trazidas a um encontro, por mais que tal encontro pareça impossível, ou inútil. Este livro é uma espécie de abre-alas. É, também, mais um livro na minha estante, ao lado de outros autores, como Edith Modesto, James Alison, José Lisboa, José Trasferetti, Klecius Borges, James L. Empereur, Kimeron N. Hardin, Didier Eribon, Nelson Luiz de Carvalho, Betty Fairchild e Nancy Hayward, Márcio El-Jaick, Jean Luc Schwab, Felipe Alface, Daniel A. Helminiak, Amílcar Torrão Filho, M. A. Prado e F. Machado e alguns outros. Faz parte, como todos os outros, da tentativa de estabelecer um diálogo, um conhecimento mútuo, afim de preparar o terreno para futura convivência mais respeitosa e acolhedora.
 
Para quem está acostumado com o pensamento católico, o livro "Entre a cruz e o arco-íris" ajudará compreender um pouco mais a doutrina protestante, pois este é um dos pontos de partida da autora. Pode servir também de inspiração para um trabalho paralelo que inclua os teólogos católicos.
 
Concordo com a opinião de David Santos, autor do blog "Culto diferente" que diz:
 
Minha critica em relação a ele, deve-se ao fato de que, como sempre, os debates resumem-se apenas à cama, não se leva em conta que heterossexuais se unem em matrimonio por muito mais motivos que apenas o sexo, homossexuais também!!  Faltou relatos de casais homoafetivos, cuja união seja consistente como as idealizadas pela igreja, e que conseguem equilibrar sexualidade e religião. Assim como a autora, devia possuir seus preconceitos pelo desconhecimento, a sociedade precisa também saber que há homossexuais que, como muitos heterossexuais, não são promíscuos e querem viver uma vida moralmente sadia em seus relacionamentos. A falta de conhecimento, ainda é a maior fonte de preconceitos!!
 
Por sua vez, Sérgio Viula, um dos entrevistados no livro (e um sábio que tive a honra de conhecer pessoalmente neste ano), em seu blog "Fora do armário", afirma:
 
O livro tem a seu favor duas coisas, pelo menos:
 
1. A tentativa de dar voz as dois lados (ou mais): gente religiosa (a maioria) ou não (como o meu caso); sejam contra ou a favor; gente que é LGBT, e nega-se; gente que é LGBT, e afirma-se com reservas; gente que é LGBT, e afirma-se sem medo de ser feliz; e gente que jamais soube o que é ser LGBT, mas mesmo assim não para de fiscalizar a sexualidade alheia;
 
2. O livro identifica ideias, acontecimentos, comportamentos, mudanças em relação ao tema ao longo da história, tocando em religião (e ausência dela), psicologia, política, estatísticas, testemunhos pessoais de conversão, “des-conversão”, ex-gays, ex-ex-gays, suicídios e crimes motivados por homo-transfobia e seus efeitos, entre outras coisas. Tem muita informação bem sistematizada, tanto do passado como do presente.
 
Bem, vale a pena ler – não como manual de fé e prática. Chega disso!!!! Mas como fonte de conhecimento sobre diversas facetas da mesma questão: a recriminação dos que se arvoram representantes de Deus, da família, dos bons costumes, e os avanços dos direitos humanos na forma dos direitos civis dessas minorias, por tanto tempo discriminadas, renegadas, mal-compreendidas. Apesar do livro cutucar o Movimento LGBT em diversos momentos, não deixa barato para os fundamentalistas.

23 de outubro de 2013

O padre e a sua buzina


O Portal Pheeno trouxe a notícia direto das redes sociais: "GO: padre faz buzinaço após ver beijo gay no semáforo". Trata-se de um dos padres-cantores/pregadores, conhecidos, por exemplo, através da TV Canção Nova e, evidentemente, seguido pelos milhares de fiéis. O padre chama-se Cleidimar Moreira e pode ser localizado no facebook aqui. Ele mesmo descreveu, da seguinte maneira, o que tinha acontecido (a postagem é de 17 de outubro):

Não tome decisões erradas!
Muitos estão se entregando a sentimentos falsos e acaba tomando decisões erradas, contrariando a vontade de Deus. Alguns dias atrás eu estava parado em um semáforo. Ao olhar de lado, estavam dois rapazes jovens se beijando. Eu buzinei e esbravejei, pois não concordo com isto. Os dois saíram rindo de mim, creio que também riem de Deus. O que acho incrível é que nem casal... heterossexual fica se beijando nas ruas por aí. Parece que fazem isto para afrontar a sociedade. Deus criou homem e mulher, qualquer outra realidade é patológica e para mim pode ser tratado. Não te entregue a sentimentos falsos, peça a Deus para lhe revelar o que é verdade do que é falso e sempre escolha pelo verdadeiro, por Deus.
Deus lhe abençoe!
 
A publicação foi "curtida", até o momento presente, por 3192 pessoas e compartilhada por 604. Haja paciência para ler todos os comentários e as respostas direcionadas a alguns deles. A maioria esmagadora, resume-se em curtas frases do tipo:
  • "Parabéns Padre. O mundo esta virando Sodoma/Gomorra. Deus o abençoe"
  • "Parabéns Pe. por defender as nossas famílias. Deus abençoe !!!"
  • "concordo Padre, mais temos que aceitar calados, isto é fim do mundo"
  • "parabéns pela posição clara.."
  • "Precisamos de padres assim, que falem a verdade, e não passam a mão na cabeça de ninguém."
  • "isso mesmo...temos q ter convicção naquilo q acreditamos...isso em nome de Jesus..!!!!!"
  • "Concordo plenamente! Corrigir o erro é obra de misericórdia!"
  • "Amo muito suas palavras, suas testemunhas da verdade. Serve de aprendizado para todos nós! A sua bênção!"
  • "O Sr. está certo! Tenho nojo disso! Isso não é de Deus!!!!"
Alguns comentários são um pouco mais longos (mantenho a versão original): 
  • "Que suas palavras cheguem aos ouvidos de mts que estão deixando se levar por esta mentira, que casais do mesmo sexo tem a liberdade de escolha, de serem felizes com seus parceiros. Muitos dls não tem o mńimo respeito pelas famílias, com suas atitudes!"
  • "Tem razão padre,. O mundo está a um passo de cair em um abismo infernal pelos pecados da humanidade, infelizmente, mas a Mãezinha é intercessora pelos que creem nela e em Jesus. Que a paz de Jesus e o amor de nossa Senhora esteja contigo hoje e sempre. Amém!"
  • "Essas pessoas que fazem estas cenas obscenas em pleno dia e locais públicos, temos que rezar 1.000.000.000 de Ave Maria para que se convertam. Ave Maria,...(1.000.000.000 x 1.000.000.000.000). E assim caminha a humanidade."
  • "E engracado,pra nao dizer ironico,e qe eles exigem respeito,mas eles nao respeitam ninguem,e muito menos respeitam as crencas religiosas,isto e o cumulo do absurdo,eu penso qe se qerem ser respeitado,entao respeitem"
  • "Trata-se de um Atentado Violento ao Pudor Pe Cleidimar Moreira. o Senhor tem toda a razão em esbraveja!"; "Concordo com o senhor padre, Jesus abomina essas praticas e a sociedade deveria fazer o mesmo. Nao tenho preconceito, apenas nao aceito isso."...
Nessa avalanche de baboseiras, aparecem umas três vozes sensatas, naturalmente contestadas pela maioria:
  • "2 em cada 3 suicídios de pessoas até 25 anos no Brasil são de gays. Parabéns, Padre, por contribuir com o desespero dos homossexuais. Jesus estará te julgando no dia certo, tenha certeza!"
  • [em resposta a um comentário]: "Não é escolha, se ser gay fosse escolha, ninguém iria escolher isso.... Respeite..."
  • "Tudo o que incomoda no outro é o que carregamos dentro da gente, Padre, Freud já dizia..."
  • [em resposta a mais um comentário]: "Sua família está ameaçada pelos gays? Será q vc é hetero mesmo? Um hetero nunca tem problema com a sexualidade alheia."
  • "O sr. Pe. Cleidimar precisa aprender que estamos em uma democracia, onde as pessoas não são obrigadas a terem a mesma crença, valores e etc. que nós cristãos católicos e cristãos em geral! Em um país livre, o sr. pode professar a sua fé e precisa respeitar quem professa um outro crer diferente do nosso!!! O sr. se sentiu no direito de esbravejar e eles no direito de rirem! Isto é Democracia!!! Ore por eles!!! Como psicólogo em potencial eu digo para o sr., que não é deste saber, que a ciência psicológica não trata a homossexualidade como doença e, por tanto, não oferece cura para o que não se considera doença! Porém, esta não impede aquele que deseja busca-la por qualquer meio que seja! Estude um pouco mais! Irá fazer bem para o sr.!! E melhor, se proponha a trabalhar evangelizando estes a quem o sr. parece abominar, mas, a quem Deus ama!!!!!"
  • "homens de DEUS não julgam deixam isto pra DEUS...e o sr como padre devia da o exemplo... é por isto que sua igreja ta cada vez mais em decadência...fazem e acontecem e acham q estão certos, tu deve ter aprendido muito bem que vc esta aqui para conduzir o rebanho e não julga-lo por que quando vc se for será julgado como todo mundo e ate onde sei os pesos são iguais. não fala bobagem sr padre mostre que é mesmo um homem de DEUS e respeite os iguais e o que não são iguais a ti....faz um favor e deixa o julgamento nas mão de DEUS....pue que não é por que vc é padre que é melhor que nos e pelo que vi ali no comentário a cima é bem pior que os que tens julgado...obrigado..." ...
Acredito que as conclusões muito elaboradas não sejam necessárias. Enquanto alguns proclamam: "Precisamos de padres assim!", há quem reconheça o equívoco desse representante da Igreja Católica, ainda que o padre em questão, sem dúvida, se sinta bajulado apoiado pelos seus "filhos espirituais". Talvez a citação de uma fonte diferente consiga apelar ao bom senso do cidadão e motorista, Claudemir Moreira:
 
O artigo 41 do Código de Trânsito Brasileiro define o uso da buzina. O condutor de veículo só poderá fazer uso de buzina, desde que em toque breve, nas seguintes situações:
I - para fazer as advertências necessárias a fim de evitar acidentes;
II - fora das áreas urbanas, quando for conveniente advertir a um condutor que se tem o propósito de ultrapassá-lo.

17 de outubro de 2013

O porquê do(s) Feliciano(s)

 
Quando tudo parecia ser o fim da tempestade, eis que está de volta o personagem que, há pouco, ocupava as manchetes da mídia e, em particular, da mídia GLBTTS: o Deputado Marco Feliciano. Ainda que o mais recente projeto não tenha sido, literalmente, de sua autoria, inevitavelmente todos fazem a associação direta com o dito cujo. A notícia diz o seguinte: A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), aprovou um projeto de lei nesta quarta-feira que livra templos religiosos de punição por preconceito ao recusar a permanência de pessoas “em desacordo com suas crenças”. O texto impede que igrejas sejam criminalizadas ao não permitir casamentos entre homossexuais, por exemplo. O texto propõe a alteração da Lei 7.716, de 5 de janeiro de 1989, que define crimes resultantes do preconceito de raça e cor. O autor do projeto, o deputado Washington Reis (PMDB-RJ), sugeriu a inclusão de uma ressalva no artigo que trata sobre a incitação de preconceito. Apesar de o texto sugerido não falar em gays, o autor da proposta cita na justificativa que crenças religiosas não estão de acordo com a “prática homossexual”. O texto ainda precisa passar pela Comissão de Constituição de Justiça (CCJ). Atualmente, incitar o preconceito pode levar a uma pena de um a três anos de reclusão, além de multa.
 
Complementando, de outra fonte: A Lei livra os templos religiosos da lei de discriminação e os autoriza de vetar casamento gay, batizado de filhos de casais homossexuais e outras cerimônias religiosas. A proposta permite ainda que padres e pastores não aceitem a presença de gays em seus cultos. O objetivo do projeto é evitar que os religiosos sejam criminalizados caso se recusem a aceitar homossexuais em seus templos.
 
Li nestes dias o ótimo texto, escrito por Vinícius, no seu blog "...E Sempre Há Muito A Ser Dito". É a Carta a Feliciano. Entre outras coisas importantes (por isso vale a pena ler o texto inteiro), Vinícius escreve:
 
Infelizmente sei que esta carta jamais chegará até você, embora eu sonhe que um dia você digite seu lindo e gracioso nome no Google e ache mais uma de suas estripulias por lá. Infelizmente, devem haver vários resultados. Possivelmente nenhum relevante para a raça humana, mas é o seu papel, certo? Você deve ter sido destinado a isso: a ser alguém que veio trazer a tempestade. A bonança ainda ficaremos aguardando.
 
Voltando aos seus sentimentos em relação a nós, não heterossexuais, fico me perguntando: "Por que será que somos pauta principal em tudo o que ele faz? Será que isso é coisa da mídia?". Fico pensando se você é algo fabricado para nos espantar das outras atrocidades políticas que acontecem no Brasil. Acho essa uma possibilidade bastante válida. Mas não creio que é somente isso: você tem sentimentos muito fortes além disso.
 
Como acontece na blogosfera, deixei o meu comentário, vinculado ao texto de Vinícius: Excelente texto, pelo menos para nós, porque, como você mesmo diz, o destinatário da carta, muito provavelmente, não terá a mesma cultura para responder (ainda que tenha lido). Eu mesmo procuro refletir sobre as questões que envolvem a homossexualidade e a doutrina cristã. Cada vez mais me convenço de que o diálogo seja muitíssimo difícil (e para muitos, impossível) e o obstáculo já está no início de qualquer tentativa, pois consiste em profundas diferenças linguísticas. É, justamente, a questão de orientação/opção, natural/antinatural, homossexualidade/homossexualismo e assim por diante. O curioso é que muitos religiosos, de um lado negam a nossa existência enquanto seres humanos e, por outro lado - como você aponta - dedicam muito tempo e muita atenção à nossa vida. Pode parecer uma conclusão pessimista, mas acredito que as reflexões - como a sua - tenham uma enorme importância para (lenta, mas eficaz) formação da mentalidade de muita gente. Obrigado por isso!

Aí veio uma dica de um outro blogueiro, Rubens, que disse: Para que vocês entendam o motivo do Feliciano e do Malafaia não largarem do nosso pé:


9 de outubro de 2013

Em parte, sou um conservador

 
O conservadorismo e o progressismo são dois conceitos que preenchem a cena política, revelam-se nas conversas à mesa do boteco e detectam-se em todos os níveis da vida eclesial. A regra que diz: "Os opostos se atraem", muitas vezes precisa de uma vírgula, para constatar: "atraem-se, para a guerra". Paradoxalmente, porém, com certa frequência, descobrimos que os mesmos opostos conseguem coexistir - sem entrar em guerra - dentro da mesma pessoa. Entre os famosos, o excelente exemplo, é o Beato João Paulo II, de quem se diz que era um progressista em questões da doutrina social e o conservador, em relação à doutrina moral. Mas, talvez, o paradoxo tenha sido apenas aparente. Se olharmos a um dos princípios fundamentais que, além do Evangelho, movia a atuação desta Papa - e este principio é o personalismo ético - ali mesmo iremos encontrar a luta pelos direitos trabalhistas, o combate à fome, o apelo pala paz, bem ao lado de absoluta proibição de preservativos, a veemente condenação das práticas (e uniões) homossexuais, do aborto e do divórcio.
 
É neste sentido que eu mesmo me defino como um conservador parcial. De um lado, penso sobre a releitura das passagens bíblicas sobre a criação do ser humano, a redefinição do conceito de castidade e o reconhecimento de homossexualidade como planejada (e não apenas admitida) por Deus. Por outro lado, porém, defendo a monogamia (mesmo em uniões homoafetivas) e questiono a parte mais radical da "ideologia trans".
 
Acho muito precioso e construtivo o livro de Klecius Borges, "Muito além do arco-íris - amor, sexo e relacionamentos na terapia homoafetiva". A obra reúne os questionamentos, trazidos pelos gays ao consultório de psicoterapia e apresenta os conselhos de um profissional (o próprio autor, psicoterapeuta, analista junguiano e mestre em psicologia clínica). Várias ideias sobre a estratégia de superação de traumas e problemas de relacionamento, são ótimas e, sem dúvida, muito úteis. O ponto de partida para todo este trabalho é o questionamento da heteronormatividade. Pergunto-me, entretanto, se a monogamia faz parte da (rejeitada) heteronormatividade, ou antes, é um princípio de "antroponormatividade", ou seja, define a forma de um laço afetivo fundamental que faz parte da natureza humana.
 
A proposta de experimentar o relacionamento poliamoroso (que permite ter um envolvimento sexual e emocional com mais de um parceiro), aparece várias vezes nas páginas do livro. Clecius escreve, por exemplo: Criados numa cultura homocentrada, na qual o casamento monogâmico representa o modelo saudável de relacionamento, e a não exclusividade sexual é tratada como traição, passível de várias penalidades, inclusive o divórcio, é natural que os homens gays (assim como os héteros) internalizem esse modelo a ser respeitado (p. 26-27). Relatando o caso de Samuel e Léo, o autor escreve: O que Samuel, e certamente também Léo, não sabe é que essa maneira de amar tem hoje um nome, poliamorosidade - isto é, o desejo e a capacidade de amar e de se relacionar amorosa e sexualmente com mais de um parceiro sem alimentar os sentimentos de posse e de exclusividade comuns nos relacionamentos tradicionais -, e é cada vez mais aceita e praticada por grupos de vanguarda comportamental. (...) compreendê-la e aceitá-la como uma forma legítima e saudável (...) me parece muito promissor, pois nela está plantada a semente de uma transformação criativa dos modelos tradicionais que, como sabemos, podem ser profundamente aprisionadores (p 72 e 74).
 
A minha opinião negativa sobre tal proposta, baseia-se na experiência própria e diz respeito apenas da minha perspectiva existencial. Enquanto não critico, nem condeno, as pessoas que vivem assim por opção livre e consciente, eu mesmo não consigo me ver nessa situação. Ainda que eu ame (de certa forma) e considere amigos, todos os meus 3 ex-namorados, não consigo imaginar a vida em formação de um triângulo (neste caso: um quadrado) como a união poliamorosa (poligâmica). Confesso que a cena de intimidade entre nós 4, até me parece possível (e interessante), mas apenas como travessura e não um estado permanente de "namoro". Acredito que o desejo primordial de poder chamar alguém de "(só) meu", faça parte na natureza do ser humano e não seja o atributo da heteronormatividade.
 
Mencionada acima, a minha contestação de algumas ideias mais extremas da "ideologia trans" é ainda mais firme. Tenho consciência de estar diante de um profundo, delicado e complexo mistério do ser humano, em busca de adequação da própria corporeidade com a afetividade e a identidade sexual. Estou totalmente a favor de todos os esforços possíveis que possam trazer a paz e a felicidade a uma pessoa. Reconheço, também, o enorme sacrifício com que as pessoas transgêneras pagam por isso. Não sou capaz, porem, de compreender aquela parte da teoria do gênero que propõe a livre e frequente mudança de sexo. Para mim, isso é a falta de identidade. Essa sugestão podemos observar na enquete "Teste a sua dependência de gênero", proposta pelo site da Letícia Lanz.
 
É possível perceber aqui que, em certas coisas, sou tradicionalista e conservador. Já era mais do que isso. Demorei mais de 30 anos para admitir a minha própria homossexualidade. Talvez, daqui a outros 30 anos (caso esteja vivo), aceite as ideias apresentadas aqui. Vou ter que admitir, também, que - devido à minha idade - tudo isso permanecera, realmente, apenas no nível das ideias. 

8 de outubro de 2013

Quando um gay é padre

 
Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. (Papa Francisco, entrevista).
 
O título deste texto parece estar "deslocado". Seria mais lógico escrever "quando um padre é gay". Mas, escrevi de propósito. Eu sei que muitos homossexuais "se descobriram" ainda na adolescência, mas pode acontecer o contrário, ou seja - neste caso - o cara sentiu a vocação, entrou no seminário, tornou-se padre e só depois se deu conta que era gay. Conto de fadas? De fato, a figura de sacerdote católico, não é das mais simpáticas hoje em dia. A postura de muitos padres que conhecíamos, o "tsunami" de notícias sobre a pedofilia (comprovada, ou não) de muitos, a nossa própria percepção da Igreja, enquanto uma instituição hipócrita e homofóbica... tudo isso contribuiu para com essa antipatia generalizada em relação aos clérigos (o que chamamos de anticlericalismo). Quando, então, surge uma história como essa (de um padre que demorou em reconhecer a sua própria homossexualidade), logo questionamos tudo e nem temos mais vontade de prosseguir a leitura.
 
Pode ser, entretanto, que as palavras do Papa, produzam em nós um pouco de paciente atenção. Pois, entramos no mistério do homem e devemos (podemos?) acompanha-lo a partir da sua condição. É necessário sempre considerar a pessoa.
 
Como - certamente - seria difícil escutar um desabafo desses, fica mais fácil ler. O blog Engasgay informa sobre um ex-padre argentino (Andrés Gioeni) que tinha escrito uma carta ao Papa Francisco. A carta (na íntegra, em espanhol) pode ser encontrada no facebook. Existe, na mesma rede social, um grupo, chamado "Para que el Papa Francisco responda la carta de Andrés" - tudo indica, então, que a história é verídica.
 
 
O que chama a minha atenção, é a parte em que o ex-padre conta a sua história:
 
Fiquei oito anos no seminário. Não me sentia sozinho, tinha uma família lá. Foi mais difícil quando virei sacerdote, aos 27. Vi que não era tão fácil, tinha muitas responsabilidades, ficava sozinho. Mas gostava de celebrar a missa. Aí comecei a me dar conta do que estava acontecendo: algo que não era, para mim, natural. Eu me condenava. No seminário, a questão da homossexualidade só era tratada em algumas aulas. No dia a dia, era um tabu. Olhando agora para trás, vejo que no seminário já sabia [que era gay], mas eu negava. Se percebia que estava gostando de algum companheiro, logo me reprimia, falava a mim mesmo: "O que está acontecendo? Está louco?". Dois seminaristas fizeram insinuações pra mim, queriam me namorar. Eu achava que fosse loucura, negava aquilo. Eles saíram do seminário, eu fiquei. Me dei conta de que era gay mesmo quando já era sacerdote. (...) E passei a me perguntar se era algo transitório ou para a vida. Quando me dei conta que era para a vida, cortei laços com a igreja. Vim para Buenos Aires começar uma nova vida.
 
O texto acima parece não fazer parte da carta em si. No texto enviado ao Papa, consta: Eu era uma vez um padre, pastor, compartilhava o zelo missionário e a necessidade de afirmar a abertura eclesial. Então eu decidi me abrir a um outro lado, quando descobri a minha própria tendência homossexual e admiti a minha incapacidade de exercer o ministério pastoral em celibato. Hoje os meus caminhos vão em outras direções e a minha vocação é tingida com outros tons. Um pouco antes, na mesma carta, Andrés usa a expressão "meu agnosticismo atual".
 
Deixando de lado as condenações apressadas, quase automáticas e os rótulos do tipo "hipócrita", "safado", "perverso", etc., faço algumas perguntas. O que deveria fazer um padre com a própria experiência, parecida com a do Andrés? Qual é a postura mais correta, em relação à própria consciência, ao ministério, à Igreja, à fé?
 
Sondando as opiniões de alguns amigos, católicos praticantes e (a princípio) livres da homofobia que ofusca a objetividade, o que mais ouvi era a opinião de que tal padre deveria deixar o ministério. Na linguagem oficial da Igreja, isso se chama "o pedido de demissão do estado clerical" e acontece por meio de um processo canônico que pode incluir, também, a dispensa do celibato. Na prática, isso significa que o ex-padre continua sendo um membro da Igreja, podendo levar a vida sacramental (Confissão, Comunhão), inclusive casar na igreja (com uma mulher). Sim, alguns detalhes mudam de figura quando ele se decide viver na prática a sua homossexualidade. Aí, como cada pessoa que opta pela prática de atos homossexuais como um estilo de vida, tal indivíduo (ex-padre em questão) não receberá a absolvição, nem poderá comungar. Vale acrescentar que, mesmo assim, ainda não se trata de excomunhão. Essa última sentença ocorre (entre vários outros casos), quando um padre abandona o ministério, sem mencionado processo canônico, ou é expulso pela própria Igreja. Enfim, nenhuma dessas situações, até a própria excomunhão, não precisa levar ninguém ao agnosticismo...
 
Será que existe alguma saída diferente? Imagino um padre que tenha admitido a própria homossexualidade, só depois da ordenação sacerdotal. Tendo passado por todas as etapas de negação, revolta, depressão, acusação de Deus e dos outros - finalmente reconcilia-se consigo mesmo e, ainda que desafiando as leis da Igreja, considera correto o exercício de seu ministério com a própria sexualidade, inclusive com a prática de atos homossexuais. É claro que, mesmo definindo a homossexualidade como algo permitido (ou, até, concedido) por Deus, o maior questionamento refere-se ao celibato. Eu já ouvi um padre que disse: "O celibato impede que eu me case, mas como a Igreja não considera válida a união homoafetiva, então, mesmo vivendo com outro homem, não estou quebrando o celibato". Bem... parece uma desculpa esfarrapada e aquela das mais grossas. Afinal, o celibato não é apenas um sinônimo de "solteirice consagrada por causa do Reino de Deus", mas também a castidade. Talvez seja, então, uma definição diferente da própria castidade? Tipo: "Eu pecaria contra castidade, caso traísse o meu namorado". Evidentemente, isso já está a um milhão de anos-luz da doutrina da Igreja...
 
Concluindo: a questão é mais que complexa. Não deve ser tão rara, como parece (algo desse tipo conta o filme polonês "Em nome..."). Porém, a verdadeira conclusão é a mesma que a introdução a este texto:
 
É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. (Papa Francisco, entrevista).