ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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4 de outubro de 2011

honestidade intelectual

Um sujeito que se apresenta no twitter como "Sacerdote incardinado na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro", escreve, entre outras bobagens:

Ser de direita significa lutar até o derramamento de sangue contra a gayzificação da sociedade brasileira. [aqui cabe a pergunta: trata-se de sangue de quem?]
Ser de direita significa defender a família, os valores do trabalho, da dignidade, da honra, da pátria, de Deus, ser homofóbico.
Ser de direita significa ser católico tradicional, odiar comunistas, judeus, maçons, a democracia como tal.

É óbvio que não preciso ler essas coisas. Por outro lado, o twitter - neste caso - é público. Quando pensei em mencionar esse lamentável fato por aqui, vinha-me à mente e expressão do tipo: "tenho pena desse padre, vamos orar por ele". Mas, foi então que me lembrei de uma expressão do Padre José Lisboa (leia aqui): "a honestidade intelectual". Em nome da mesma, não posso dizer que o sentimento que brota do meu coração é a pena. Pois, é raiva mesmo. Isso me assemelha àquele canalha? Acho que não. A diferença entre raiva e ódio é muito grande. Conclusão: antigamente eu acreditava que não existem pessoas essencialmente más. Eu era muito ingênuo na época...

23 de setembro de 2011

o que dizem

O tema de - assim chamada - opinião pública foi abordado nesta quinta-feira nas leituras da Missa. Quem de nós, homens e mulheres GLBTS, não sofreu por causa desse fenômeno. Em nossos tempos a coisa ficou ainda mais grave, devido à rápida circulação de tal opinião. Podemos ter certeza de que o intercâmbio das notícias é capaz não só de derrubar o coronel Kadafi, mas, igualmente, tem o poder de infernizar a nossa própria vida. Não raramente, é a nossa sexualidade que se torna o alvo de divagações compartilhadas com total crueldade...

Vejamos as leituras. Os três versículos do Evangelho (Lc 9, 7-9) contêm tais termos como: Herodes ouviu falar... ficou perplexo... porque alguns diziam... outros diziam... Parece familiar? Pois é... Compare, também, com o texto desta sexta-feira (Lc 9, 18-22). O profeta Ageu (Ag 1, 1-8), por sua vez, é o mensageiro do Senhor que contesta (e detesta), justamente, a opinião pública: Este povo diz: "Ainda não chegou o momento de edificar a casa do Senhor". (v. 2) E reage assim: subi ao monte, trazei madeira e edificai a casa; ela me será aceitável, nela me glorificarei, diz o Senhor. (v. 8)

Conclusão: a opinião dos outros, capaz de nos empurrar ao vale de uma depressão, com frequência não está de acordo com a realidade e costuma estar em oposição com a "opinião" que o próprio Deus tem a nosso respeito. Acho bom e útil lembrar-se disso e, quando necessário, saber mandar aquela gente fofoqueira para o quinto dos infernos.

25 de agosto de 2011

Orações para Bobby

Acabei de assistir (finalmente!) o filme "Prayers for Bobby" ["Orações para Bobby"]. Profundo, emocionante e, principalmente, real. Quem dera que todos os pais assistissem também! Aliás, as famílias inteiras. E, de modo especial, os jovens homossexuais que enfrentam duras batalhas (internas e externas! Recomendo a todos (inclusive aos padres, pastores e demais agentes de pastoral em qualquer Igreja cristã). O filme pode ser encontrado, por exemplo, no site "Gay Load" (aqui). A frase de Mary Griffith: "A Bíblia diz que as pessoas podem mudar", torna-se realidade, mas de maneira totalmente diferente daquela em que tinha sido pronunciada no início da história.

24 de agosto de 2011

Preconceito superado

Segundo Augusto Cury (autor da teoria sobre a inteligência multifocal, comentada em mais de 20 livros) o fato de não ocultar os defeitos humanos dos discípulos de Jesus é uma das provas de autenticidade do Evangelho. Podemos, de fato, apontar inúmeras falhas e limitações daqueles homens. O apóstolo Pedro, por exemplo, é um mestre em imperfeições e, ao mesmo tempo, uma pedra bruta, lapidada pacientemente pelo Senhor, até alcançar a beleza de um diamante na hora do testemunho supremo, o martírio (não descrito na Bíblia, mas relatado pela tradição cristã).

Hoje a liturgia traz o nome de um outro discípulo de Jesus, Natanael, mais conhecido com o nome de Bartolomeu. Segundo os biblistas, o nome mais popular daquele homem aponta o pai dele, Tolomeu (sendo o prefixo "bar" o sinônimo de filho). O Evangelho lido hoje na Missa (Jo 1, 45-51) revela sua natureza preconceituosa: Filipe encontrou-se com Na­tanael e lhe disse: “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e também os profetas: Jesus de Nazaré, o filho de José”. Natanael disse: “De Nazaré pode sair coisa boa?” Filipe respondeu: “Vem ver!” (vv. 45-46). No questionamento de Natanael identificamos com facilidade as dúvidas e perguntas retóricas presentes, também, em nossa própria mentalidade. Seja um país, uma cidade, um grupo específico da sociedade, nós também perguntamos: "dali pode sair coisa boa?" Basta ler, por exemplo, alguns textos oficiais da Igreja sobre a homossexualidade, para detectar esse "espírito de Natanael". Acrescentemos: Natanael antes de seu encontro pessoal com Jesus. Neste sentido a resposta de Filipe é simples e reveladora: "Vem ver!". Uma resposta eficaz que se parece com a palavra de ordem.

Resta-nos apenas recomendar essa ordem a todos que (ainda) questionam o "mundo GLST" como algo que não tem capacidade de gerar "coisa boa". Digo: "Vem ver!"


A tradição diz que Natanael (Bartolomeu) morreu por esfolamento.

30 de junho de 2011

Cardeal insiste

É impressionante a insistência do arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, quanto ao caráter ofensivo das imagens de santos usadas na recente Parada do Orgulho GLBT em São Paulo. Vale citar aqui as palavras do Evangelho: Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: “Por que tendes esses maus pensamentos em vossos corações? (Mt 9, 4). Será que Dom Odilo tem, também, o poder de conhecer os pensamentos dos outros? Em mais um artigo, publicado no site de sua arquidiocese (aqui), o cardeal diz: Eu não queria escrever sobre esse assunto; mas diante das provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã, durante a Parada Gay deste último domingo, não posso deixar de me manifestar em defesa das pessoas que tiveram seus sentimentos e convicções religiosas, seus símbolos e convicções de fé ultrajados. Ficamos entristecidos quando vemos usados com deboche imagens de santos, deliberadamente associados a práticas que a moral cristã desaprova e que os próprios santos desaprovariam também. (...) O uso desrespeitoso da imagem dos santos populares é uma ofensa aos próprios santos, que viveram dignamente; e ofende também os sentimentos religiosos do povo. Ninguém gosta de ver vilipendiados os símbolos e imagens de sua fé e seus sentimentos e convicções religiosas. Da mesma forma, também é lamentável o uso desrespeitoso da Sagrada Escritura e das palavras de Jesus – “amai-vos uns aos outros” – como se ele justificasse, aprovasse e incentivasse qualquer forma de “amor”; o “mandamento novo” foi instrumentalizado para justificar práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus.

Interrompo aqui a transcrição das palavras de Dom Odilo, para abrir o espaço ao autor das imagens, o fotógrafo Ronaldo Gutierrez (a entrevista com ele pode ser lida aqui). Não é bom ouvir na TV e ler nos jornais pessoas dizendo que você as está ofendendo, quando minha única intenção era ajudar. Venho recebendo algumas mensagens pesadas, que machucam. Mas já esperava por essa reação negativa. Não é com a religião que estou mexendo, é com as pessoas que dizem que mandam nela. (...) Acho a vida dos santos um exemplo de bondade e amor ao próximo, mas não é isso que vejo naqueles que comandam. Sei que a grande maioria dos católicos é formada por gente muito boa e que quer ajudar. Outros, infelizmente, aqueles que detêm os meios de comunicação, são preconceituosos e ignorantes.

Voltando ao texto do cardeal, lemos: A Igreja católica refuta a acusação de “homofóbica”. Investiguem-se os fatos de violência contra homossexuais, para ver se estão relacionados com grupos religiosos católicos. A Igreja Católica desaprova a violência contra quem quer que seja; não apoia, não incentiva e não justifica a violência contra homossexuais.

Após essa contradição (um tanto velada), o autor comete outras. Ao dizer sobre o atendimento aos portadores do vírus HIV, lemos que a Igreja a Igreja foi pioneira no acolhimento e tratamento de soro-positivos, sem questionar suas opções sexuais. Logo em seguida o cardeal (visivelmente indeciso) afirma que a sexualidade não depende de “opção”, mas é um fato de natureza e dom de Deus, com um significado próprio, que precisa ser reconhecido, acolhido e vivido coerentemente pelo homem e pela mulher.

Ainda mais curiosa é a frase que diz: Embora respeitando as pessoas homossexuais e procurando acolhê-las e tratá-las com respeito, compreensão e caridade, ela [a Igreja] afirma que as práticas homossexuais vão contra a natureza; essa não errou ao moldar o ser humano como homem e mulher. Essa coisa de acolher as pessoas homossexuais pela Igreja e tratá-las com respeito, nem vou comentar...

O fragmento a seguir requer uma reflexão especial. Antes, responda quem quiser, a duas perguntas: [1] Qual é a organização interessada em impor a todos um determinado pensamento sobre a identidade do ser humano? [2] Será que colocar no mesmo saco a homossexualidade, o descontrole nos ecossistemas, doenças e desastres ambientais, não induz o leitor (e o fiel católico) à homofobia?

Dom Odilo continua: Causa preocupação a crescente ambiguidade e confusão em relação à identidade sexual, que vai tomando conta da cultura. Antes de ser um problema moral, é um problema antropológico, que merece uma séria reflexão, em vez de um tratamento superficial e debochado, sob a pressão de organizações interessadas em impor a todos um determinado pensamento sobre a identidade do ser humano. Mais do que nunca, hoje todos concordam que o desrespeito às leis da natureza biológica dos seres introduz neles a desordem e o descontrole nos ecossistemas; produz doenças e desastres ambientais e compromete o futuro e a sustentabilidade da vida. Ora, não seria o caso de fazer semelhante raciocínio, quando se trata das leis inerentes à natureza e à identidade do ser humano? Ignorar e desrespeitar o significado profundo da condição humana não terá consequências? Será sustentável para o futuro da civilização e da humanidade?

O final do texto revela mais um equívoco: As ofensas dirigidas não só à Igreja Católica, mas a tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas não são construtivas e não fazem bem aos próprios homossexuais, criando condições para aumentar o fosso da incompreensão e do preconceito contra eles. E não é isso que a Igreja Católica deseja para eles, pois também os ama e tem uma boa nova para eles; e são filhos muito amados pelo Pai do céu, que os chama a viver com dignidade e em paz consigo mesmos e com os outros.

Falando de ofensas à Igreja católica e a tantos outros grupos cristãos, no contexto das imagens usadas na Parada, o cardeal, provavelmente, esqueceu-se de um fato, conhecido por todos e não apenas pelos teólogos. É, justamente, o uso das imagens pela própria Igreja católica, que tantos outros grupos cristãos (sobretudo evangélicos) consideram ofensivo em si. Quanto à última frase, só posso dizer que, exatamente, é com dignidade, em paz conosco mesmos e com os outros que queremos viver. Mas, por enquanto, a Igreja (que o cardeal representa) não deixa!

22 de junho de 2011

pérolas e porcos


Confesso que sempre quando escrevo aqui, tenho a sensação de um olhar crítico que (supostamente) me acompanha. Aquela sensação (suposição) diminui, ao lembrar-me de que, provavelmente, não tenho tantos leitores assim e, estes que tenho, estão no "mesmo barco", portanto a leitura deles, talvez, não tenha sido tão crítica. Mesmo assim, algo me diz que, caso as minhas reflexões chegassem às pessoas, digamos, "cristãs-ortodoxas" (no sentido de uma adesão incodicional à doutrina oficial da Igreja e não de uma denominação), logo teria recebido as mais duras críticas, relacionadas, sobretudo, ao simples fato de escrever do ponto de vista de um homossexual e católico, mais do que, propriamente, ao conteúdo dos meus textos. Uma das coisas que imagino, desde o dia em que comecei a comentar as leituras bíblicas proclamadas na liturgia, é aquela observação sarcástica de um "alguém" que diria: "Tá vendo! Não tem coragem de falar sobre todos os textos!". O Evangelho de ontem (terça-feira) seria um dos exemplos dessa minha "omissão". Por isso, mesmo tendo passado de meia-noite, recorro às passagens bíblicas do dia que, há pouco, acabou. Não quero me justificar ou tentar explicar qualquer coisa, até porque, não assumi compromisso algum com ninguém sobre isso. Ou seja, não sou (ainda) um colunista em nenhum dos sites ou jornais católicos. Quem sabe, um dia...

Fiquei pensando o dia inteiro sobre as palavras de Jesus que alguém, talvez, gostasse de "jogar na minha cara", justamente, devido ao fato de eu ter "ousado" tocar nos assuntos sagrados. Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem com o pés e, voltando-se contra vós, vos despedacem. (Mt 7, 6) Não tenho a menor dúvida de que existem - e muitos - os católicos e evangélicos "ortodoxos" (não quero usar o termo "fundamentalistas" embora o sentido seja o mesmo) que digam: "Permitir que um gay fale sobre a Bíblia é o mesmo que dar aos cães as coisas santas e atirar pérolas aos porcos". E nem preciso dizer quem seriam esses cães ou porcos (nós, homossexuais, já ouvimos coisas piores a nosso respeito). Permito-me, entretento, propor uma interpretação diferente e a minha argumentação não terá nada inventado, mas vem da própria leitura. Aliás, do conjunto das leituras, conforme a orientação da própria Igreja: A estrutura atual [do Lecionário], além de apresentar com frequência os textos mais importantes da Escritura, favorece a compreensão da unidade do plano divino, através da correlação entre as leituras do Antigo e do Novo Testamento, centrada em Cristo e no seu mistério pascal. Certas dificuldades que se sentem ao querer identificar as relações entre as leituras dos dois Testamentos devem ser consideradas à luz da leitura canônica, ou seja, da unidade intrínseca da Bíblia inteira. Onde se sentir a necessidade, os organismos competentes podem prover à publicação de subsídios que tornem mais fácil compreender o nexo entre as leituras propostas pelo Lecionário, que devem ser todas proclamadas na assembleia litúrgica, como previsto pela liturgia do dia. (Bento XVI, Exortação Apostólica Verbum Domini, n° 57)

Pois bem. É, justamente, no "nexo entre as leituras", que vejo uma pista para esta reflexão. A primeira leitura, tirada do Livro de Gênesis (Gn 13,2.5-18), além de contar sobre a sábia decisão de Abrão (de se separar de Ló, para evitar a discórdia), menciona a cidade de Sodoma e os seus habitantes que eram péssimos, e grandes pecadores diante do Senhor. (v. 13) Faço uma simples pergunta (que vejo, justamente, no conjunto de dois textos): será que insistir em usar as passagens bíblicas, referentes à cidade de Sodoma, como o "martelo dos gays", não é o mesmo que dar as coisas sagradas aos cães e atirar pérolas aos porcos? Só que, neste caso, os cães e os porcos, não são os homossexuais, mas aqueles que os odeiam e perseguem. O uso da Sagrada Escritura para incitar o ódio e o preconceito é ilícito e indigno do nome de cristão. À luz dessa observação, ganham um novo sentido as palavras de Jesus da mesma leitura do Evangelho: Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. Nisto consiste a Lei e os Profetas. (v. 12) Você quer ser respeitado? Respeite! Até as frases seguintes podem ajudar aos cristãos a compreenderem e aceitarem a diversidade dos outros, por mais estreita seja a porta e apertado o caminho, o ato de acolher os irmãos "diferentes", leva à vida! (cf. v. 14)

17 de junho de 2011

olho doente

O olho é a lâmpada do corpo. Se o teu olho é sadio, todo o teu corpo ficará iluminado. Se o teu olho está doente, todo o corpo ficará na escuridão. Ora, se a luz que existe em ti é escuridão, como será grande a escuridão. (Mt 6, 22-23)

Depois da última postagem (aqui) fiquei inquieto por não ter comentado mais sobre aquele artigo do cardeal Scherer (aqui). A primeira ideia que me vinha era a respeito da arte de escrever. O texto pode estar dentro dos padrões de gramática/linguística, teologia e até - quem sabe - lógica. Mas, ao mesmo tempo, pode ser altamente antipedagógico. Os professores de língua portuguesa, os teólogos e os profissionais em direito, podem se debruçar sobre tal redação e dizer que tudo está em ordem. Quando, porém, um "leitor comum" lê aquilo, as coisas ficam diferentes. Um redator sábio e respeitador da pessoa do leitor, pensa nos efeitos de sua própria erudição e não usa truques baratos de lavagem cerebral (leia sobre isso aqui). O que dizer sobre a frase na qual Dom Odilo põe na mesma linha (equipara): amor possessivo, ciumento, irresponsável diante das consequências, anárquico, promíscuo, violento, sádico, devasso, egoísta, comprado ou vendido, contrário à natureza? Um dos truques que revelam má fé é colocar o termo mais importante no final da frase. Acrescente ainda o contexto geral do artigo - a condenação da Parada Gay de São Paulo pelo uso das palavras de Jesus "Amai-vos uns aos outros" - e você terá o perfil completo do autor e a intenção real para escrever tais coisas. O problema é o mesmo que Jesus aponta no Evangelho de hoje: Se o teu olho está doente, todo o corpo ficará na escuridão. Ora, se a luz que existe em ti é escuridão, como será grande a escuridão. Ninguém duvida que, ao falar do "amor contrario à natureza", o cardeal tenha se referido aos homossexuais. Ainda que não concordemos com tal conceito (debatido veementemente pela ciência), vamos tolerá-lo por um instante, para perceber o pecado ainda mais grave. Apresentar a lista que comporta - e tem intenção de igualar - o amor homossexual com amor possessivo, ciumento, irresponsável diante das consequências, anárquico, promíscuo, violento, sádico, devasso, egoísta, comprado ou vendido, é um ato anticristão e desumano. Os bajuladores do cardeal, juntamente com os católicos ingênuos de um lado e, de outro, os preconceituosos homofóbicos, acabam de receber mais uma arma para odiar e agredir os homossexuais. A esperteza do autor do texto consiste em falar muito mais nas entrelinhas do que literalmente. Já imagino aquele sorriso cínico e a resposta: "mas eu nem usei a palavra homossexual!".

Não sei até quando vamos suportar as autoridades (religiosas, políticas, etc.) que nos acham idiotas. Pior que, enquanto tenhamos como dar (ou não) o voto de confiança a um representante político do povo, não podemos fazer o mesmo em relação às autoridades eclesiásticas. Por isso temos prelados que, não raramente, mostram-se possessivos, ciumentos, irresponsáveis diante das consequências, anárquicos, promíscuos, violentos, sádicos, devassos, egoístas - pelo menos seus sermões e artigos, pois é Deus (e só Ele) quem julga a sua vida pessoal e a sua consciência. E se alguém usurpa para si o direito de julgar o meu amor, é porque os seus olhos estão doentes (cf. Mt 6, 22).

16 de junho de 2011

amai-vos

A 15ª Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, marcada para o próximo dia 26 de junho (veja a programação completa aqui), tem como o lema as palavras de Jesus "Amai-vos uns aos outros", complementadas pelo apelo "Basta de homofobia!". Como era de se esperar, os representantes de Igrejas cristãs, não deixam de reagir. No site da CNBB (aqui) e na "Folha de São Paulo" foi publicado o artigo do Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo. Entre outras coisas, Dom Odilo escreve: Jesus não excluiu a ninguém do seu amor. Amou pessoas concretas, defendendo e restituindo a dignidade aos humilhados; amou os doentes, os pobres, as crianças, os homens, as mulheres. Em cada pessoa viu e amou um filho de Deus. Acolheu e perdoou os pecadores, mesmo não aprovando todos os seus comportamentos e atitudes, recomendando-lhes que não voltassem a pecar. Ensinou a amar também os inimigos e, ainda no momento extremo de seu suplício na cruz, ele próprio perdoou aos algozes: “Pai, perdoai-lhes; não sabem o que fazem”. Amou com amor puro, genuíno, transparente, sem apossar-se das pessoas como se fossem objetos de desejo; amou como Deus ama. Sim, amadas por Jesus, as pessoas sentiam-se amadas por Deus, dignificadas, profundamente valorizadas, restituídas à vida, felizes.


Logo em seguida, porém, manda um recado para os organizadores e participantes da Parada: “Amai-vos uns aos outros”, é apenas uma parte do mandamento novo de Jesus; sem a outra parte – “como eu vos amei” -, as belas palavras de Jesus ficam genéricas, ambíguas, expostas à instrumentalização subjetiva e ao deboche desrespeitoso. De fato, várias supostas maneiras de amar não são recomendadas por Jesus: amor possessivo, ciumento, irresponsável diante das consequências, anárquico, promíscuo, violento, sádico, devasso, egoísta, comprado ou vendido, contrário à natureza... Não são expressões de autêntico amor e, no mínimo, não podem pretender-se legitimadas pela recomendação de Jesus – “amai-vos uns aos outros”.

E encerra o seu artigo com a seguinte conclusão: Instrumentalizar essas palavras sagradas para justificar o contrário do que elas significam é profundamente desrespeitoso e ofensivo, em relação àquilo que os cristãos têm como muito sagrado e verdadeiro.

A eloquência do discurso não é capaz de substituir a razão, mas, infelizmente, mostra a enorme dificuldade (ou mesmo inviabilidade) de qualquer diálogo. Ainda bem que haja alguém que discorde com essa (minha) opinião desanimadora sobre a (impossível) comunicação entre a Igreja e o mundo GLBTS.

No último sábado (11/06), o 9º. Ciclo de Debates (que faz parte da programação oficial do 15º Mês do Orgulho LGBT de São Paulo) discutiu as relações entre religião, Estado e movimento LGBT. A pesquisadora associada do Núcleo de Estudos para Prevenção da AIDS (NEPAIDS/USP), Cristiane Gonçalves da Silva, disse que é possível dialogar com a base de religiosos, independente do reacionarismo que têm manifestado suas lideranças parlamentares e clericais (leia matéria sobre isso aqui). Para Cristiane, há uma falta de espaços reais de diálogo sobre o assunto. Por isso, uma parcela grande dos religiosos ficam restritos ao acesso às informações de seus pastores, que por interesses particulares, distorcem os fatos e as argumentações para seu público. “Ainda que alguns achem utópico, considero o diálogo com estes setores um caminho possível, pois a maioria dos crentes só recebe a mensagem de que têm que ser contra os direitos LGBT para não serem presos, conforme prevê a lei em discussão”, apostou ela, ressaltando que as autoridades religiosas representam o dogma muito mais do que as vivências religiosas individuais. A escola se constitui o lugar privilegiado para o diálogo com comunidades religiosas mais fechadas, já que na mídia a maioria dos debates se dá entre radicais. Para ela, é possível, também, utilizar da internet como ferramenta para esse diálogo possível e necessário.

É aqui que entramos nós, blogueiros, apesar de toda a modéstia de meios que temos...

11 de junho de 2011

morde e assopra



Não vou comentar a novela, apesar do título desta postagem. Acabei de ler uma notícia no portal Gaudium Press (noticiário católico - aqui), sobre a participação do observador permanente do Vaticano junto a ONU, arcebispo Silvano Maria Tomasi. Não é nenhuma surpresa que o pralado tenha insistido em dizer que os melhores interesses da criança são primariamente servidos no contexto da família tradicional (baseada no casamento heterossexual). Não somos tão burros assim para não saber para quem é este recado. O que me impressiona é que o arcebispo (assim como a Igreja em geral) consegue, no mesmo discurso (aposto que sem um piscar de olho), detonar qualquer possibilidade de relação afetiva entre as pessoas do mesmo sexo (como se não existisse) e, logo em seguida, expressar a preocupação de garantir amor, cuidado e assistência a aqueles afetados pela violência e pelo abuso, visando um mundo onde estas crianças podem perseguir seus sonhos e aspirações de um futuro livre de violência. Excelência! O senhor já pensou que algumas dessas crianças têm sonhos e aspirações de um futuro livre de violência causada pela homofobia que o senhor, ainda que indiretamente, alimenta?

Putz! Morde e assopra. Cuidado para não se lambuzar!

8 de junho de 2011

Efeito bumerangue

Quando a gente pensa que alguma coisa já tenha sido superada, de repente aparece de novo como bumerangue. Só para lembrar: bumerangue (em inglês: boomerang) é um objeto de arremesso, criado para voltar à mão do arremessador. Provavelmente muitos se lembram daqueles desenhos animados em que o personagem lançava o bumerangue e acabava sendo atingido por ele. Como diz Homer Simpson, nada é tão engraçado como uma pancada na cabeça. Mas isso serve apenas para desenho animado, porque na vida real dói de verdade e nem um pouco é engraçado.

Pois bem... Encontrei hoje no site das notícias católicas Zenit a informação sobre a Federação Internacional de Associações de Médicos Católicos, cujo presidente, Josep Maria Simon afirma que condição homossexual pode ser prevenida e mudada com uma atenção personalizada ou com um acompanhamento em grupo, mas não tem tratamento farmacológico. A entrevista com Agência Zenit (aqui) traz outras "revelações", tais como: O pesquisador psiquiátrico da Universidade de Columbia, Robert Spitzer, que participou diretamente da decisão, em 1973, de retirar a homossexualidade da lista de desordens mentais da Associação Psiquiátrica Americana, reconheceu, décadas mais tarde, a possibilidade de que uma pessoa homossexual mude sua tendência. No mesmo artigo da Zenit encontra-se o link pra acessar o documento "Homossexualidade e esperança" (aqui), da Associação dirigida po J. M. Simon. Quem quiser, ao abrir aquilo em nova janela (ou guia), clique no canto superior esquerdo (Translations in Other Languages) e localize Portuguese. Aparece o link daquele texto em português e um outro: "HOMOSSEXUALIDADE um guia de orientação aos pais para a formação da criança" (em pdf. - aqui) que é a introdução ao livro com o mesmo nome, escrito por Joseph Nicolosi e Linda Ames Nicolosi. Entre outras coisas, o casal afirma: Não podemos concordar com as pessoas – muitas delas profissionais especializados, psicólogos, psiquiatras e outros – que dizem que cada um de nós pode “ser qualquer coisa que queremos ser”, em termos de identidade de gênero ou orientação sexual. (...) Mas a raça humana foi planejada para dois gêneros: macho e fêmea; não há nenhum terceiro gênero. Além disso, a civilização já nos mostrou que a família humana natural (pai, mãe e filhos), com todos seus defeitos, é o melhor meio ambiente possível para a nutrição de gerações futuras. (...) Agora esperamos que Homossexualidade: um guia de orientação aos pais para a formação da criança continue a responder à necessidade crescente. A maioria dos pais de crianças pré-homossexuais que vêm a nós em busca de ajuda são pessoas de fé religiosa — católicos, protestantes, mórmons, judeus —, mas alguns, também, são secularistas que intuitivamente sentem que a humanidade é projetada para ser heterossexual. Nós podemos sentir empatia com a preocupação desses pais, porque compartilhamos sua visão de mundo.

Clicando em Portuguese-Language Translation of "Homosexuality and Hope", estamos sendo redirecionados para outro lugar e, depois, para o artigo publicado em profamília (aqui). Não vou transcrever o texto nem seus fragmentos. Quem quiser, leia por conta própria. Vai encontrar "capítulos" do tipo: "Ninguém nasce homossexual", "Há prevenção para a atração pelo mesmo sexo", "Terapia", etc.

Por curiosidade, acessei também o arquivo daquele site, com o tag "Homossexualismo"... Vejam as pérolas: Estudo afirma que gays podem abandonar a homossexualidade, Resposta ao movimento homosexual , União civil de homossexuais, É tempo de boicotar a Walt Disney Company, além de vários artigos em espanhol.

Pensei que o Papai Noel não existe...
Ele volta feito bumerangue.

5 de junho de 2011

Enquete

Encontrei no blog amigo "Homorrealidade" (aqui).

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3 de junho de 2011

Compare

Deixo aqui dois vídeos que têm muito em comum. Compare o tom do discurso e a reação dos ouvintes...


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Este é o comentário de um blog amigo (Homorrealidade - aqui):

A falta de Amor somada com a falta de Inteligência torna possível a existência de homens como Malafaia e Bolsonaro - Triste Vídeo - Triste Realidade!

Uma pena que toda essa "cristandade" não seja utilizada para cuidar do Bra$il que realmente necessita... Saúde e educação desmoronam diariamente e a meta desse grupo de fanáticos religiosos é combater "Direitos Fundamentais" de pessoas que nada fizeram a eles...
Aceitar e respeitar as diferenças parece ser um exercício distante e impossível diante de tanto ódio e violência.
São Lobos em peles de Cordeiros... mas a fantasia começa a ficar curta pois o apetite destes lobos por sangue de LGBTTs assassinados só cresce!

A união da falta de AMOR com a crescente falta de INTELIGÊNCIA dos fieis e eleitores criou Malafaias e Bolsonaros.

É triste a percepção da realidade. A Ignorância desses iludidos fieis é utilizada em favor do Crime disfarçado de religião.

2 de junho de 2011

Mundos paralelos

A teoria dos mundos paralelos pertence originalmente à ficção científica, mas conquistou espaço, também, nas pesquisas da física quântica. Segundo alguns cientistas, entre os que abraçaram a ideia, os mundos paralelos são incomunicáveis entre si. Outros sustentam o contário. Por exemplo, a "teoria das cordas" (aqui) diz que nosso próprio universo é como uma bolha que existe lado a lado de universos paralelos semelhantes e esses universos podem entrar em contato entre si.

Não vou entrar em detalhes. Sempre tive problemas com ciências exatas. Bem, exceto à química, cujo professor era homossexual e costumava dar notas melhores aos rapazes, ainda que fossem analfabetos nessa matéria. Mas isso não vem ao caso. Ou vem? Quero utilizar aquela teoria para retratar a existência de, pelo menos, dois universos paralelos. Nem sei direito como definir o campo ou a dimensão em que eles se encontram (ou melhor: desencontram!). Seja o nível espiritual, cultural, moral, linguístico... enfim. Estou falando de "mundo gay" e "mundo das Igrejas" (ou religiões em geral). Quando leio ou escuto os argumentos de ambos os lados - pois "funciono", de certa forma, tanto em um, quanto no outro mundo - vejo razões, sinto paixões, reconheço preocupações. Entretanto, diferentemente da "teoria das cordas", não consigo perceber grandes possibilidades de diálogo e, menos ainda, de compreensão mútua. Talvez eu seja um pessimista. Com frequência, fico perguntando a mim mesmo: o que, de fato, pode ser feito para que o contato desses mundos paralelos aconteça? No momento, vejo-me numa "esquizofrenia existencial" que pode ser vista, também, como "hipocrisia forçada" ou "inevitável vida dupla". Com outras palavras: quando, de alguma maneira, estou "atuando" na Igreja, obviamente oculto o meu "lado B", quer dizer, a identidade homossexual. E, ao "atuar" no "mundo gay", por exemplo neste blog, escondo os pormenores da minha ligação com a Igreja. Posso estar errado, mas a intuição me diz que, justamente como na "teoria das cordas", quando esses universos (paralelos) interagem, acontece um Big Bang. Tenho certeza de não estar preparado para tal ocorrência na minha vida. Por outro lado, vejo a urgente necessidade desse contato. Como construir as pontes? Certamente, já existem sinais de aproximação. Nem todos nas Igrejas cristãs são homofóbicos. E nem todos no mundo GLBTS são "antieclesiais" (atnticlericais, antipapistas, anticristãos, etc.). Há esperança, apesar de muitos obstáculos. A minha esperança, em particular, está na ação do Espírito Santo e na promessa de Jesus de que o Paráclito nos conduzirá à plena verdade (cf. Jo 16, 13).

Encontrei, no blog "GLS é humano" (aqui) um vídeo que retrata bem a trágica realidade dos "mundos paralelos". Se a legenda ficar pequena demais para sua leitura, clique no canto inferior direito do vídeo e assista diretamente no YouTube.


30 de maio de 2011

consciência tranquila



Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que aquele que vos matar julgará estar prestando culto a Deus. Agirão assim, porque não conheceram o Pai, nem a mim. Eu vos digo isto, para que vos lembreis de que eu o disse, quando chegar a hora. (Jo 16, 2-4a) Não sei se os autores de declarações escritas e faladas recentemente que incentivam a homofobia, usando argumentos bíblico-teológico-cristãos, são capazes de compreender esta mensagem de Jesus (é do Evangelho de hoje: Jo 15, 26-16, 4a). Desde os carrascos de Jesus e de Estêvão, ate os dias de hoje, só mudam as trajes dos religiosos que expulsam, condenam e matam, achando que estão prestando culto a Deus. A palavra, proclamada nas alturas de uma autoridade religiosa, tem o poder de matar. Ainda que nem sempre no sentido literal (graças a Deus). E o que, de fato, pode assustar, é tal de "consciência tranquila", diante de tudo isso. Dom Anuar Battisti, Arcebispo de Maringá-PR, escreve sobre o combate que se faz com fé e retidão observando valores e apostando no ser humano. Este artigo, "A consciência tranquila é o melhor travesseiro", pode ser lido aqui.

Diante da onda de "direitos", levando em conta os desejos e sentimentos, em nome da "liberdade de escolha" e do "livre arbítrio", a sociedade legítima comportamentos com base, apenas, na opinião de alguns. Entretanto, as consequências serão incontáveis e os desastres sociais incontroláveis. Portanto, analisar os recentes episódios que atacam os valores da Família, finalizo com a certeza de que a Igreja manifestou a sua contrariedade à decisão do Supremo Tribunal Federal. Nós, Igreja, também neste caso, "combatemos o bom combate". Nada melhor do que ter uma consciência tranquila.

Excelentíssimo Dom Anuar! O senhor pode ter certeza de que Saulo dormiu com consciência tranquila, depois da execução de Estêvão, pois tinha prestado culto a Deus. Pelo menos assim pensava, até a sua queda no caminho a Damasco...

28 de maio de 2011

os perseguidos

O Evangelho de hoje (Jo 15, 18-21) traz o anúncio de Jesus sobre as perseguições que sofreriam os seus seguidores. A mensagem é clara e refere-se aos cristãos perseguidos por causa do nome de Jesus.  Eu já imaginei, muitas vezes, as críticas de minhas reflexões bíblicas, publicadas neste blog, caso tivesse, entre os Leitores, alguém que segue a linha - digamos - politicamente correta da doutrina católica e, sobretudo, tem a mente fechada às considerações existenciais, feitas do ponto de vista de um homossexual. Aparentemente, não dá para equiparar (adoro esta palavra!) as perseguições de cristãos ao sofrimento de homossexuais, agredidos por aqueles que odeiam a sua identidade. Pensando bem, porém, acredito que dá. Primeiro: Jesus se dirige a seus discípulos, ou seja, às pessoas que acreditam nele e procuram segui-lo. Muitos homossexuais o fazem. Segundo: o mundo nos odeia, assim como odiou a Jesus (cf. v. 18). Outra coisa: os homossexuais, de certo modo, não pertencem a este mundo, pelo menos ao mundo de padrões sociais, comportamentais, etc. Somos diferentes e somos minoria. Por isso o mundo nos odeia. Agora vem a ideia, talvez, mais polêemica: no Evangelho, Jesus diz: eu vos escolhi e apartei do mundo (v. 19). Abre-se aqui a discussão sobre a origem de homossexualidade e sobre o seu lugar nos planos de Deus. Foi Ele que quis que eu fosse assim? Ou, pelo menos, permitiu? Eu acredito que sim, pois foi Jesus quem disse Não se vendem dois pardais por uma moedinha? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai (Mt 10, 29). Seria absurdo dizer que a minha identidade sexual (que não depende da minha vontade) tenha "escapado " do controle de Deus. Por isso, a leitura daquela frase, pode incluir homossexuais, "escolhidos e apartados do mundo". Para finalizar, tenho mais um pensamento bastante polêmico. Um católico fundamentalista vai me dizer que, no texto, trata-se daqueles que estão sendo perseguidos "por causa do nome de Jesus" (cf. v. 21), ou seja, daqueles que acreditam e proclamam o nome do Senhor. Sem dúvida, essa é a primeira interpretação do texto. Mas, não necessariamente, única. Eu, como homossexual, posso ser odiado, desprezado e perseguido, "em nome de Jesus", sendo este nome usado (e abusado), justamente, por meus perseguidores. Jesus revela ainda a razão que move os perseguidores: Tudo isto eles farão contra vós por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou (v. 21). Digam que não é verdade! Temos, portanto, a passagem inteira, interpretada sob um ângulo diferente. Que tal? Será uma heresia ou blasfêmia?

O Papa Bento XVI, no 2° volume do livro "Jesus de Nazaré" (Editora Planeta; São Paulo, 2011), diz: O anúncio do Evangelho permanecerá sempre sob o signo da cruz. Isso mesmo devem os discípulos de Jesus aprender novamente em cada geração. A cruz é, e continua sendo, o sinal do "Filho do homem": no fim de contas, na luta contra a mentira e a violência, a verdade e o amor não têm outra arma senão o testemunho do sofrimento. (p.55)

25 de maio de 2011

A mola e a bola

Não pretendo entrar em detalhes da Terceira Lei de Newton (“Para cada ação há sempre uma reação, oposta e de mesma intensidade”), tampouco da Lei de Hooke (sobre a elasticidade de corpos). Estas e tantas outras leis e teorias procuram descrever e calcular os fenômenos que acontecem ao nosso redor. Não pretendo, também, escrever sobre coisas óbvias, embora tenha impressão de que o tal do óbvio não está tão evidente para muita gente. Gostaria de aplicar o método de Jesus para comentar certas situações e opiniões que, recentemente, ganharam bastante espaço na mídia, em nossas conversas e até em nobres salões onde estão sendo definidas as regras de vida. O método de Jesus chama-se parábola, parente próxima de alegoria. O Senhor dizia: vejam os lírios no campo, os pássaros, a mulher na cozinha e o rico que fazia festas todos os dias, etc. Por trás das figuras e imagens, surgia o mistério, revelado aos que tinham olhos para ver e ouvidos para ouvir. Muitos, porém, continuavam franzindo a testa e rangendo os dentes. O coração deles permanecia endurecido. Outros, enteretanto, ficavam fascinados com novos horizontes e abraçavam uma nova vida, nascida da nova visão. O primeiro fruto dessa boa-nova foi a alegria que nada e ninguém conseguia apagar. Tudo isso aconteceu há quase dois mil anos. Tudo isso está acontecendo hoje.

O portal católico Zenit publicou (em 27/02 – aqui) um texto que, entre outras coisas, afirma: Durante muitos anos, grupos homossexuais advogaram pela tolerância e pela eliminação das leis que eles consideravam discriminatórias. Agora que, em grande medida, eles venceram sua batalha, seu entusiasmo pela tolerância desapareceu. Os cristãos, que por razões de consciência sentem que não podem ser favoráveis ao comportamento homossexual, sofrem cada vez mais pressões.

Quando leio essas (e tantas outras) declarações de gente espantada e amargurada com o “avanço da minoria homossexual”, lembro-me, imediatamente, da mola e da bola. A bola quica e a mola se estica, depois de comprimida. É a coisa mais natural, previsível e comprovada pelas leis da física. Algo analógico acontece na história da humanidade. Basta ler um pouco de história, por exemplo, do ponto de vista de revoluções e guerras ou, simplesmente, de tantas transformações sociais, religiosas e políticas, mais ou menos pacíficas. A experiência de opressão, humilhação, persegição, etc., torna-se, em algum momento, a força da reação. Enquanto a Terceira Lei de Newton fala de "mesma intensidade", a força da reação social, geralmente, devolve com juros. É, justamente, como a mola. Comprimida e solta em seguida, a mola não volta, simplesmente, ao estado anterior de “relaxada”, mas pula mais alto e, só depois de alguns movimentos para cima e para baixo, alcança o equilíbrio. O que, no caso de mola ou bola acontece em poucos instantes, na história da humanidade leva bastante tempo. Podemos dizer que a comunidade GLBTS, oprimida por séculos, está ganhando a oportunidade de respirar. É claro que vai saltar o mais alto possível. Até mesmo para assegurar os seus direitos, negados por tanto tempo. Provavelmente, vai acontecer algum exagero, o que é natural. Exatamente, como aconteceu na abolição da escravatura, na emancipação da mulher, nos movimentos antirracistas, sem falar dos judeus, depois do Holocausto. Quem tem boa memória ou gosta de vasculhar a história, vai constatar que, em todos estes fenômenos, houve alguns equívocos. O mesmo acontece com a criança que começa a dar primeiros passos. Alguém viu uma criança que tenha desistido de ficar em pé por causa de tombos que levou? Como dizia Kleber Bambam do BBB-1, “faz parte”. Por isso, digo a todos os apavorados com as reivindicações da “lobby gay”: tenham paciência! Se vocês também colaborarem, em breve vamos alcançar o equilíbrio, desejado por todos. Haverá novo céu e nova terra. Nos parques da cidade veremos casais hetero e homossexuais, passeando de mãos dadas. Ninguém em nossas escolas vai ridicularizar e agredir os meninos efeminados e meninas com jeito de garoto. Em nossas festas de família haverá casais homossexuais e os pais irão convidar o namorado do filho para um churrasco. No exército, no futebol e em todas as outras áreas, ninguém vai ficar barrado no seguimento de sua carreira profissional. Haverá Pastoral para Homossexuais e os gays serão admitidos ao sacerdócio. Desaparecerão deputados idiotas e padres, jornalistas, professores (etc.) preconceituosos. Homossexuais poderão doar sangue.

Sonho? Delírio? Ou a lei da mola e da bola.
Se deixar quieto, haverá equilíbrio.

As vozes da Igreja [3]

O portal da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB - aqui), tornou-se ultimamente palco de debates sobre a homossexualidade. Vários prelados, certamente "pegaram a onda" e, como surfistas profissionais, deslizam pelo assunto que, recentemente, está - digamos - na moda. A unanimidade dos hierarcas da Igreja Católica do Brasil, revela-se apenas na repetição daquele (discutível) slogan de "não equiparar as uniões de pessoas do mesmo sexo à família". Fora disso, é pura diversidade (de opiniões). O Arcebispo de Uberaba (MG), Dom Aloísio Roque Oppermann, no artigo "O direito de ser protegida", usa a metade do texto para elogiar e defender homossexuais. É verdade que, no final dessa parte, aplica uma alfinetada (de duvidosa ironia), mas diante de tanto carinho anterior, quase não dá para senti-la. A segunda parte do texto já é outra história (aquela sobre "não equiparar"), embora apareça, como pérola no meio de bijuteria, um pensamento intrigante (sublinhado por mim). O artigo não é muito grande, por isso decidi transcrevê-lo na íntegra. Para quem quiser conferir na fonte, clique aqui.
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O direito de ser protegida
23 de maio de 2011
Dom Aloísio Roque Oppermann scj
Arcebispo de Uberaba - MG


Não vemos dificuldade em aceitar - como justiça líquida e garantida - que as pessoas que sentem atração sexual por representantes do mesmo sexo, sejam respeitadas. Na homofilia tratamos com seres livres, cuja dignidade humana não pode ser ferida. São seres humanos particularmente dotados para certas artes e ciências. São filhos e filhas de Deus. Não escolheram sua condição, e por isso “merecem ser tratados com respeito”, livres de “qualquer sinal de discriminação injusta” (Catecismo da Igreja Católica, nº 2358). Os motivos da tendência homossexual ainda são amplamente inexplicados, havendo razoável certeza em não atribuí-los a causas genéticas. Talvez a pedagogia futura saiba explicar melhor do que nós, a gênese da tendência. Então sim, existirá a possibilidade de escolha. Por enquanto, não devemos amargurar a vida dessas pessoas. A homossexualidade não é fenômeno moderno. Ela atravessa todos os tempos da história da humanidade, ora com presença mais explícita, ora menos acentuada. Entre eles há até grandes benfeitores da raça humana.


Mas no fragor dessa luta, todos devemos estar concordes em reconhecer o valor da instituição familiar tradicional, dessa união estável entre um homem e uma mulher. Inclusive os homossexuais vão me dar razão, pois eles provieram de uma união dessas. As diferenças sexuais do masculino e do feminino são originárias, e não produtos de uma cultura posterior, como querem alguns próceres da ONU. A família monogâmica, e o matrimônio natural entre um homem e uma mulher são a raiz fundamental de todo Direito. Segundo as Escrituras, são destinados a “serem uma só carne” (Gn 1, 27). Outros tipos familiares podem existir, mas não devem ser equiparados à Família, que é baseada na complementaridade dos dois sexos, à procriação e educação dos filhos. [1] Equiparar todos os tipos de união possível seria ameaçar a estabilidade do grupo primordial, que tem a capacidade única de integrar as gerações e acolhe-las. Ela recebeu de Cristo um privilégio inestimável de ter sua união elevada à categoria de Sacramento. O que não é o caso das outras uniões. A Família tem o direito de ser vigorosa e sadia. [2] Isso só será possível se receber a proteção privilegiada do poder público. Na atualidade se está vendo exatamente o contrário.
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Faço mais alguns comentários:
[1] Na minha opinião, da mesma maneira como não é necessário insistir (brigar) para dar à união de pessoas do mesmo sexo o nome de "matrimônio" (ou "casamento"), também podemos abrir mão do termo "família". Por que não dizer "comunidade", "núcleo", "círculo", etc.?. Por outro lado, a história (também da Igreja) mostra-nos que certos nomes, títulos e termos, originalmente reservadas para uma só realidade, acabaram espalhando-se por toda parte. Todos se lembram das palavras de Cristo: não chameis a ninguém na terra de mestre, pai ou guia (cf. Mt 23, 8-10). Entretanto, é justamente na Igreja que encontramos uma multidão de mestres, pais e guias. Como se Jesus falasse: você pode ser tudo, menos mestre, pai e guia. E hoje, os mesmos mestres, pais e guias dizem: esses uniões podem ser tudo, menos família. A solução é simples: vamos voltar à versão original. Eles renunciam os seus títulos e nós abrimos mão do termo "família". Está combinado?
[2] A família torna-se sadia, vigorosa e está protegida quando, por meio de uma evangelização levada a sério e, também, por meio das leis adquadas (civis e religiosas), está sendo preparada para acolher, com amor e respeito, os filhos (próprios e dos outros), inclusive os filhos e filhas homossexuais. A família é sadia e vigorosa quando, no processo de educação dos filhos (e também no habitual modo de pensar, falar e agir da própria família) exclui-se rigorosamente todo e qualquer tipo de preconceito. Também a homofobia.

17 de maio de 2011

Nosso Dia

Hoje é o Dia Internacional de combate à Homofobia. A data foi escolhida para lembrar a exclusão da homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 17 de maio de 1990. O Dia foi oficializado em 1992. Nesta ocasião, muitos veículos de comunicação, fazem uma homensagem ou, ao menos, mencionam o fato. E não se trata apenas de meios de comunicação que representam o "mundo gay". Como exemplo, trago um fragmento do material publicado no blog "Textos de Thereza Pires" (aqui). Thereza Pires apresneta-se assim: Carioca do Rio Comprido, moro no Rio, Graduada em Jornalismo pela UFRJ, Membro da Anistia Internacional [Todos os meus textos estão disponíveis para reprodução parcial ou total, desde que a fonte seja citada]. Thereza dedica um pensamento de ternura:
~ para meu filho, que tem a coragem e a coerência de se expor e pelos seus amigos e amigas gays
~ para Harvey Milk, primeiro politico assumidamente gay, vítima de crime de ódio
~ mais uma vez e sempre, pelos gays enforcados no Irã, pelos mortos por skinheads, ou mortos por gays enrustidos assassinos
~ para Judy Shepard, mãe coragem que tenta superar, com ativismo pela causa da não homofobia, o desespero te ter perdido o filho Matthew Sheppard de forma brutal
~ [aqui quero acrescentar: para Angélica Ivo, mãe de Alexandre Thomé Ivo Rajão e para os demais familiares e parentes deste menino de 14 anos, assassinado por crime de ódio - homofobia - no dia 21/06/10 na cidade de São Gonçalo - RJ (veja o blog: aqui)]
~ Para cada um que já foi vítima de chacota, deboche e escárnio na vida social, escolar ou profissional e pelas famílias que apoiam e compreendem seus meninos e meninas gays, sendo - elas mesmas - muitas vezes repelidas e discriminadas, em geral pelos parentes mais próximos
~ por quem precisa viver "na clandestinidade", mesmo sem desejar e apela para casamentos de mentirinha
~ para os gays soropositivos e os que já desenvolveram a AIDS, mas as famílias, com quem dividem o teto, nem de longe imaginam mesmo qual sua orientação sexual
~ para os excomungados da Igreja Catolica Romana e pelos excluídos nas religiões fundamentalistas
~ para as mães que tentam militar em favor da não homofobia - com boa vontade, é certo - mas não conseguem reinventar a maternidade pois, elas mesmas, são as primeiras a discriminar e não ousam reconhecer isso
~ para travestis e transexuais - que me inspiram especial carinho e que são, às vezes, discriminados pela própria comunidade LGBT.
Agradeço a Theresa pela sua atenção e carinho. O apoio de pessoas reconhecidas na sociedade e não necessariamente ligadas com o nosso ambiente, é muito importante para nós, homossexuais (e outros membros do mundo da diversidade sexual). Assim, mais gente (de mente abera e coração sensivel), terá a oportunidade de perceber que não se trata de uma obsessão ou de usurpação por parte de um pequeno grupo de pessoas, mas que, de fato, a luta é pela dignidade de todos os seres humanos.

15 de maio de 2011

CNBB - duas notas

Não estou falando de duas notas em categorias escolares, embora este ponto de vista possa servir como introdução. Neste caso, as duas notas seriam: 10 e 0. Até parece uma goleada. Infelizmente, o time da CNBB não é o vencedor, pelo menos no balanço final. As duas notas, sobre as quais pretendo escrever, são as recentes declarações da cúpula da Igreja Católica no Brasil. Uma observação importante: vou interpretar apenas duas de um número maior de notas emitidas, nestes dias, pela CNBB. Os bispos do Brasil, reunidos em Aparecida (interior de SP), nos últimos dias 4 a 13 de maio, na 49ª Assembléia Geral, abordaram diversos temas, emitindo no final alguns textos, tais como “As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil”, a “Moção de Apoio à Frente Parlamentar Mista em Defesa da Vida - Contra o aborto”, homenagem na ocasião da (próxima) beatificação de Irmã Dulce e da (recente) beatificação de João Paulo II, além de vários outros. Um dos textos que quero abordar é o “Compromisso solidário da CNBB com a Causa Indígena no Brasil” e o outro, “Nota da CNBB a respeito da decisão do Supremo Tribunal Federal quanto à união entre pessoas do mesmo sexo”. O primeiro destes documentos pode ser encontrado, por exemplo, no portal da Canção Nova (aqui) [não consegui localizá-lo no site da CNBB]. O outro está – evidentemente – no site da CNBB (aqui). A leitura fica muito mais interessante, quando se faz a comparação destas duas declarações. Ambas começam em tom solene, mas logo tomam rumos diferentes. Vejamos o início do “Compromisso solidário com a causa indígena”: Reunidos na 49ª Assembléia Geral, nós, bispos do Brasil, mais uma vez tomamos conhecimento dos sofrimentos e injustiças que afetam os povos indígenas do nosso País. Por isso, não podemos deixar de reagir, de forma solidária e comprometida, diante da grave situação em que se encontram tantos desses nossos irmãos. Beleza! Nota 10! Que tal, ao falar de homossexuais, começar da mesma maneira? Reunidos na 49ª Assembléia Geral, nós, bispos do Brasil, mais uma vez tomamos conhecimento dos sofrimentos e injustiças que afetam as pessoas homossexuais do nosso País. Por isso, não podemos deixar de reagir, de forma solidária e comprometida, diante da grave situação em que se encontram tantos desses nossos irmãos. Em vez disso, suas excelências (e algumas eminências), falam que equiparar as uniões entre pessoas do mesmo sexo à família descaracteriza a sua identidade e ameaça a estabilidade da mesma. Tudo bem, há, no meio do texto, uma frase cautelosa que diz: As pessoas que sentem atração sexual exclusiva ou predominante pelo mesmo sexo são merecedoras de respeito e consideração. Repudiamos todo tipo de discriminação e violência que fere sua dignidade de pessoa humana – mas não e é a mesma coisa, nem o mesmo efeito, quando se fala, mais adiante, sobre a ameaça que as uniões homoafetivas trazem para família. É o mesmo que dizer: não se pode discriminar nem tratar com violência as pessoas homossexuais, mas cuidado, porque essas mesmas pessoas desestabilizam a família que, como se sabe, é um recurso humano e social incomparável, além de ser também uma grande benfeitora da humanidade. Ela favorece a integração de todas as gerações, dá amparo aos doentes e idosos, socorre os desempregados e pessoas portadoras de deficiência. Portanto têm o direito de ser valorizada e protegida pelo Estado. Vamos defender a família de todos que pretendem ameaçá-la (e que todos que nos escutam, escolham a maneira de lutar por isso, até mesmo com paus, pedras, facas e armas de fogo, se for necessário). É claro que os bispos não chegam a este ponto, mas trata-se de um jeito antipedagógico de dizer as coisas. As ideias de violência podem, facimente, nascer numa mente "católico-homofóbica" (é o que não falta por aqui). Vejamos, também, outro trecho do texto sobre a causa indígena: Muitos povos indígenas enfrentam conflitos decorrentes da não demarcação de suas terras, perseguição de suas lideranças, ameaças de morte, assassinatos, prisões ilegais, criminalização de suas lutas e outras agressões à sua dignidade e aos seus direitos constitucionais. Esses conflitos são responsáveis pelo alto índice de violência que, de 2003 a 2010, ceifou a vida de 499 indígenas. No texto “dedicado” aos homossexuais poderia ser, mais ou menos, assim: Muitos homossexuais enfrentam conflitos decorrentes da falta de espaço na vida social e religiosa, perseguição de suas lideranças, ameaças de morte, assassinatos, prisões ilegais, criminalização de suas lutas e outras agressões à sua dignidade e aos seus direitos constitucionais. Esses conflitos são responsáveis pelo alto índice de violência que, apenas em 2010, ceifou a vida de 260 homossexuais e de outros 65, nos primeiros três meses deste ano. No Brasil, um homossexual é morto a cada 36 horas e esse tipo de crime aumentou 113% nos últimos cinco anos. Que ilusão! Não há nada sobre isso! A ausência – no texto dos bispos - de qualquer menção sobre a trágica situação de homossexuais, tem uma explicação. Na nota sobre as uniões entre pessoas do mesmo sexo, os bispos apontam a fonte de sua inspiração: motivados pelo Documento de Aparecida, propomo-nos a renovar o nosso empenho por uma Pastoral Familiar intensa e vigorosa. Para quem não sabe, o Documento de Aparecida é o fruto da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, inaugurada pelo Papa Bento XVI e realizada em Aparecida no ano de 2007. O documento trata a “questão homossexual” assim: Entre os pressupostos que enfraquecem e menosprezam a vida familiar encontramos a ideologia de gênero, segundo a qual cada um pode escolher sua orientação sexual, sem levar em consideração as diferenças dadas pela natureza humana. Isto tem provocado modificações legais que ferem gravemente a dignidade do matrimônio, o respeito ao direito à vida e a identidade da família. [n° 40] Sinceramente, uma premissa dessas é como querer chegar ao Corcovado de barco. Conclusão: é ótimo que os indígenas são reconhecidos como “nossos irmãos”. E é péssimo que os homossexuais não têm o mesmo privilégio. É louvável que os bispos católicos do Brasil querem defender os índios. E é lamentável que – de fato – condenam os homossexuais.
P.S. Nesta reflexão lembrei-me da história de Susana do Antigo Testamento (leia o capítulo 13 do Livro de Daniel). Acusada por dois velhos perversos, estava prestes a ser condenada pela assembleia dos anciãos de Israel (olha a analogia). Deus ouviu a prece da mulher inocente e suscitou o espírito íntegro de um adolescente chamado Daniel, para socorrê-la. Daniel pediu que se ouvisse os dois acusadores separadamente. Inspirado por Deus, o jovem dirige à assembleia dos anciãos uma exortação: Como sois idiotas, israelitas! Sem julgamento e sem formar uma idéia clara acabais de condenar à morte uma mulher israelita! (Dn 13, 48) e, depois, recebe o primeiro dos homens com estas palavras: Ó homem envelhecido na malícia, agora teus pecados vão aparecer, tudo o que já vinhas praticando, ao dar sentenças injustas, condenando o inocente e deixando sair livre o culpado, quando a palavra do Senhor é: ‘Cuidado para não condenar à morte o inocente e o justo!’ (Dn 13, 52-53). Confesso que, ao ler as declarações da CNBB, referentes a homossexuais, tenho vontade de repetir os dizeres de Daniel. O curioso é que os bispos, ao tratarem da “causa indígena”, declaram: É necessário ouvir os povos indígenas (...), bem como combater a violência e proteger a integridade física dos membros de suas comunidades. Pergunto: e não é necessário ouvir e defender os homossexuais? A omissão, neste sentido, é contribuir para a sentença da morte deles! Como sois idiotas, homens envelhecidos na malícia! Sem julgamento e sem formar uma idéia clara acabais de condenar à morte os inocentes! (Cf. Dn 13, 48. 52)
P.S. [2] Mais uma interrogação: se, dentro de uma comunidade indígena, fossem "detectados" alguns homossexuais (o que, sem dúvida, ocorre de fato), esta comunidade não mereceria mais todo aquele cuidado da CNBB? Ou mereceria? O que prevalece nesse caso: a "causa indígena" ou a "questão homossexual"? Hein?
Hein ???

10 de maio de 2011

Equiparação

O documento da Santa Sé (de 2003), assinado pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Card. Ratzinger (atual Papa Bento XVI), “Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais” (aqui), afirma: Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. Não pretendo entrar, hoje, no mérito da frase, tampouco de todo este documento. Faço, entretanto, uma pergunta, inspirada no termo "equiparar" em conjunto com a mensagem litúrgica desta segunda-feira (a 1ª leitura relata o martírio de Estêvão: At 7,51-8,1a). De acordo com o Dicionário do Aurélio (on-line), "equiparar", significa: Comparar pessoas ou coisas, considerando-as iguais. / Igualar em condições ou em benefícios. Pois bem. O documento da Igreja diz que as uniões homossexuais - nem por analogias remotas - podem ser comparadas/igualadas ao matrimônio (deixo a discussão para outra hora, assinalando apenas que tenho sérias dificuldades para concordar com isso). A minha pergunta é: a perseguição e a morte de homossexuais, por causa de sua orientação sexual, podem ser equiparadas ao martírio de Estêvão (e de tantos outros mártires venerados pela Igreja)? Já ouço vozes que gritam: "Blasfêmia!" Vamos, então - desta vez - à fonte ainda mais legítima, do que um simples dicionário. O Catecismo da Igreja Católica diz: O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que vai até à morte. O mártir dá testemunho de Cristo, morto e ressuscitado, ao qual está unido pela caridade. Dá testemunho da verdade da fé e da doutrina cristã. Suporta a morte com um ato de fortaleza. (n° 2473) Por que razão, os homossexuais, travestis e tantos outros, estão sendo perseguidos, agredidos e assassinados? Por serem fiéis à verdade sobre si mesmos! Por amarem, do jeito que amam! Encontramos na Palavra de Deus as seguintes revelações: [Jesus respondeu:] Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. (Jo 18,37) e Eu sou o caminho, a verdade e a vida. (Jo 14,6), ou então, Deus é amor. (1Jo 4, 8) Será, de fato, uma blasfêmia, chamar de mártires, aqueles que sofrem e morrem por amor e pela verdade? Para nós, potenciais mártires (...portanto, vigiai, pois não sabeis o dia, nem a hora! [Mt 25, 13]), fica a preciosa lição, deixada pelo Santo Estêvão: Enquanto o apedrejavam, Estêvão clamou dizendo: “Senhor Jesus, acolhe o meu espírito”. Dobrando os joelhos, gritou com voz forte: “Senhor, não os condenes por este pecado”. E, ao dizer isto, morreu. (At 7, 59-60)