ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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16 de abril de 2014

Paradigmas, preconceitos e novos céus

Reproduzo aqui o excelente texto de David Santos, do seu blog “Culto diferente”.


PARADIGMAS, PRECONCEITOS E NOVOS CÉUS


O preconceito é a atitude discriminatória, baseada em juízo preconcebido de algo ou alguém que fere diretamente um modelo estabelecido de mundo ideal e que outrora possa ter sido a solução para dada situação ou momento, mas que perdeu a relação com realidade. Logo o preconceito está diretamente ligado a paradigmas e à manutenção do status quo. Sendo assim, o preconceito nada mais é que a exteriorização violenta e amedrontada da nossa aversão a mudanças.

Há uma história bíblica que exemplifica bem a relação preconceito versus paradigma:

Samuel o profeta, foi designado por Deus para ungir um Rei para Israel, enviado a casa de Jessé, fez passar diante de si todos os filhos deste: Eram homens fortes, bonitos, inteligentes, capazes de conduzir o povo diante das guerras intermináveis com os cananeus; Aos olhos de todos, reis em potencial. Por fim, Samuel questiona se não havia nenhum outro filho, porque Deus não o havia tocado a respeito dos que tinha visto. Sim, havia mais um filho, este, sem muita importância ficou esquecido no campo junto às ovelhas que cuidava.

Davi era pequeno, magro, ligado às artes, poeta e músico, de coração sensível, estava mais para “bobo da corte” que para Rei. Mandaram chamá-lo, e quando este chegou a Samuel, Deus disse: Este é o Rei! [I Samuel 16]. Samuel então questiona a Deus, sobre o “absurdo” que estava fazendo, ao que recebe de resposta: “O Senhor não vê como o homem, o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração”.

O que Samuel não percebeu é que Deus estava quebrando paradigmas e com isso o preconceito que havia no coração do profeta e do povo. Eles conheciam Saul, o atual Rei, que tinha tudo o que os reis dos povos vizinhos tinham, era o estereótipo de rei bem-sucedido, o modelo ideal, mas que representava um tempo passado, algo que para o atual momento era antiquado e impedia-os de ter experiências mais profundas com Deus.

E assim, Deus estava dizendo a Israel, “vamos mudar as coisas por aqui”, está na hora de viver coisas diferentes, experimentar o novo, façamos loucuras em favor da vida abundante, “a virgem dará luz a uma criança” e nunca mais o mundo será o mesmo. [Isaías 7:14; Isaías 43:19-21]

E no decorrer da história, podem-se observar várias outras situações parecidas, onde pela fé, homens e mulheres mudaram o status quo, quebrando paradigmas em favor da vida e construindo um novo mundo [Hebreus 11:32-40].

O próprio Jesus era exímio em quebrar paradigmas, em mudar a ordem das coisas, seu discurso era desafiador, dizia: “Ouviste o que foi dito, mas eu, porém vos digo (...)”, por isso sofreu preconceito por parte dos lideres religiosos da época, sendo perseguido e morto.

É evidente que todos nós temos preconceitos, em maior ou menor intensidade, vivemos envoltos em paradigmas. E quando o Apostolo Paulo nos exorta a não julgarmos, ele o faz tendo em mente todas as variáveis da vida, pois, nosso julgamento preconcebido, pode estar intoxicado por um paradigma, que nem ao menos temos a noção de que existe ou que esteja lá [Mateus 15: 19-20].

E como podemos estreitar nossos afetos e relacionamentos, se estivermos atormentados pelo preconceito?

O preconceito tem origem no medo, o medo produz tormento, e atormentados, teremos atitudes de defesa, agredindo o outro, agindo pela lei do “olho por olho e dente por dente”, logo, não seremos aperfeiçoados no amor [I João 4:18-21].

Quem tem preconceito com negros, é infeliz porque eles deixaram de ser escravos, acredita ainda que são pessoas inferiores e por isso devem ficar excluídos da sociedade. Os homens tem medo da emancipação das mulheres, temem que elas assumam o controle que eles acreditam possuir, assim, se tornam machistas, na ânsia de defender o seu lugar, diminuem, agridem, excluem. Temem que assegurando os direitos civis aos homossexuais, de forma sobrenatural, todos os héteros se transformem em gays, e assim, acabe a família, e toda a estrutura social que conhecemos hoje. E a lista não termina: estrangeiros, pessoas com deficiência, nativos de determinada região, gêneros musicais, lembra-se do rock a “música do diabo”, do axé, e do funk carioca, tão discriminado, hoje música de “elite”.

Também, entre os próprios cristãos: católicos, protestantes históricos, tradicionais, reformados, pentecostais, avivalistas, neopentecostais; todos a seu modo, temem a mudança do status quo, temem a ruptura com o paradigma que criaram, pois assim, podem perdem seu lugar de poder, perdem sua hegemonia.

Logo, precisamos de um novo discurso, sobretudo de uma nova práxis, para um novo tempo. Um discurso que reconhece que a verdade nunca foi absoluta, mas que dialoga com o tempo, cultura e experiências de vida.

E como conselho dado a crianças, exorto, tenha em ti o mesmo espírito que houve em Cristo, enfrente seus medos, enfrente seus preconceitos, quebre paradigmas, mude o estado das coisas: quebre o sábado, não apedreje mesmo que a lei ordene isso, fuja da hipocrisia de uma santidade fingida, para que o Reino seja estabelecido.

Este é o novo de Deus, novos relacionamentos, novos afetos. Não tema ser reconhecido como amigo dos pecadores, não tema ser reconhecido como cristão, até que haja novos céus e nova terra onde reine a justiça, a paz e a alegria.

Este texto foi escrito com base numa conversa realizada com os JBZL (Jovens Betesda Zona Leste), sobre o tema: "Só os preconceituosos herdarão o Reino de Deus" capítulo do livro de Elienai Cabral Junior - “E se alguém acender a Luz”.

11 de abril de 2014

Uma parábola cinematográfica


O filme "Heterofobia" é chocante. E "chocante", enquanto um termo, tem dois lados, assim como uma moeda. O filme é chocante de tão real. Um dos melhores métodos pedagógicos é fazer com que a pessoa se veja no lugar do outro. Somente assim tem a possibilidade real de conhecer e compreender o outro. O filme, de uma maneira inédita e nada banal, faz isso e alcança um nível que, lamentavelmente, muitos não alcançam. Basta ler os (mais de 2.500) comentários no facebook. É por isso, também, que o filme é chocante. Várias pessoas se manifestaram chocadas, a partir de uma perspectiva de quem não entendeu nada. Essas pessoas, certamente, nunca irão ler as obras de Kafka, nem apreciar a arte de Picasso, ou Salvador Dalí. O mesmo aconteceu com as parábolas de Jesus. Muitos não entenderam (e não entendem até hoje). Outros entenderam bem, mas foi por isso que o crucificaram... Recomendo o filme e continuo torcendo e orando que muitos consigam compreender a sua mensagem. E que surta efeitos!


29 de março de 2014

Um "honesto" desonesto

Foto [editada] do Portal
do Ministério Público Federal

Paulo Vasconcelos Jacobina é Procurador Regional da República, Membro do Ministério Público, Bacharel em Direito e Mestre em Direito Econômico. É também autor de várias publicações profissionais e... religiosas. Em uma entrevista, concedida em 2012 ao portal "Missão Eylon", Paulo conta um pouco da história de sua conversão ao catolicismo. A conversa foi realizada na ocasião do lançamento de um dos seus livros, "Cartas a Probo", apresentado como "uma conversa cristã cobre o espiritismo". O final da entrevista merece uma atenção especial:

- [representante não assinado do portal]: Por que "Cartas a Probo"? Qual o significado do nome Probo?

- [Paulo Vasconcelos Jacobina]: Probo significa honesto, leal, no sentido de que estas cartas representam uma busca honesta e leal da verdade: são dirigidas aos que estão buscando a verdade lealmente, mesmo que em caminhos diferentes dos nossos. São um verdadeiro voto de confiança no leitor: sejamos honestos, leais no caminho da busca, e certamente Deus não deixará de nos iluminar com a Sua verdade.

É difícil não ficar admirado com tamanha apologia da honestidade, uma virtude tão rara hoje em dia. Naturalmente, espera-se que todos os textos deste autor tenham a mesma marca. Infelizmente, a admiração inicial muda de conteúdo. Continua sendo uma admiração, mas o seu sentido é negativo, torna-se um espanto. A expectativa transforma-se em decepção. Basta ler o mais recente artigo de Paulo Vasconcelos Jacobina, publicado no portal católico de notícias "Zenit" (28 de março de 2014), "Criminalizar discordâncias majoritárias sob o rótulo de fobia não é democrático".

Ainda que consigamos engolir a sua argumentação sobre a democracia, bem como a comparação (tolerável, mesmo que distante) com a situação das minorias muçulmanas no ocidente, não há possibilidade alguma de considerar honesta a sua afirmação sobre as ambições dos ativistas de "certas minorias sexuais", no contexto da luta pelo Plano Nacional de Educação. A desonestidade consiste em atribuir a estes ativistas os objetivos que, de fato, não existem, denegrindo assim a sua imagem. Certamente, como um profissional de Direito, o Procurador Regional da República e membro do Ministério Público, o autor entende a natureza e o peso de calúnia, difamação e injúria. Eis a sua tese:

Para essa militância radical, não somente a prática do incitamento a crimes contra homossexuais é considerado como "homofobia", mas qualquer posicionamento público, de cunho filosófico, científico ou religioso que não parta dos mesmos pressupostos que as minorias sexuais usam para ver-se e interpretar-se. Afirmar a possibilidade de que um ser humano controle seus impulsos sexuais, ou mesmo um simples chamado à castidade, à fidelidade, à responsabilidade com a prole e com o outro, a valorização da abertura à vida na conduta sexual, em nome de religião ou de aperfeiçoamento moral, ficariam classificados como "fala de ódio", "homofobia" e "intolerância" a serem combatidos e criminalizados pelo Estado.

Isso não é verdade, caro Doutor Jacobina! Embora não faltem indivíduos promíscuos entre as pessoas homossexuais, assim como entre as heterossexuais, nós estamos falando sobre os seres humanos que levam a sério a sua vida e o seu compromisso com a sociedade. Muitos, inclusive, vivem séria e profundamente a sua relação com Deus e com a Igreja (apesar de toda falta de acolhimento por parte da comunidade eclesial). Embora, em outra parte de sua entrevista, o senhor tenha considerado "democrático (...) aguentar não somente a discordância e até avacalhação humorística que deve ser resolvida no campo de debates francos", não tem nada de franco criar a imagem de pessoas homossexuais e de seus movimentos como inimigos de castidade, fidelidade e responsabilidade, ou como criaturas bizarras, movidas apenas por seus incontroláveis impulsos sexuais. Ainda que a nossa "conduta sexual" não possua uma natural abertura à vida (no sentido do ato de procriação), nós não desvalorizamos a própria abertura à vida, nem as pessoas que receberam este dom. Graças a Deus e graças aos avanços de democracia, os casais homoafetivos, em um número cada vez maior, têm a alegria de adotar os filhos. Posso lhe assegurar de que a responsabilidade pela prole nestas famílias supera a realidade de muitos casais heterossexuais.

A distorção de uma realidade, só por falta de conhecimento, misturada com a autêntica fobia e com a "democrática avacalhação humorística", leva muitos fanáticos aos crimes de agressão verbal e física, não raramente ao homicídio. A discriminação das pessoas homossexuais, principalmente com a base das convicções religiosas, ainda é um triste fato que, apesar dos inquestionáveis avanços da verdadeira democracia que respeita os direitos humanos, é um câncer no tecido da sociedade. O que me entristece é que os que se apresentam como honestos e leais defensores da verdade (ainda em nome de Jesus), acabam recorrendo à desonestidade para que, através de sua eloquência e de seus títulos, implantar ainda mais intolerância naqueles que se deixam levar por este tipo de discursos.
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Observação: Paulo Vasconcelos Jacobina, em seus artigos publicados no portal católico de notícias "Zenit", dedica-se quase exclusivamente aos assuntos ligados a pessoas homossexuais. Provavelmente não será um exagero imaginar o grau de sua "honestidade" ao abordar tal temática:

5 de fevereiro de 2014

Bonança após a tempestade?


O título faz alusão ao texto do Livro de Tobias: Porque vós não vos comprazeis em nossa perda: após a tempestade, mandais a bonança; depois das lágrimas e dos gemidos, derramais a alegria (Tb 3, 22). Preciso acrescentar aqui que a frase acima localizei apenas na Bíblia "Ave Maria" e constatei a ausência desta e de várias outras frases nas demais edições da Bíblia (CNBB, Jerusalém etc.), além de não encontrar - evidentemente - o próprio Livro de Tobias nas edições não-católicas. Não é este, entretanto, o assunto de hoje. Seja qual for a fonte dessa intuição sobre os fenômenos da natureza (transferidos de certa forma à convivência humana), parece óbvio que depois de algum tempo de agitação, venha um pouco de paz. É assim que tudo funciona, desde os microscópicos organismos, até às galáxias mais distantes. Ou melhor, desde o palpitar do nosso coração, através da respiração, até ao sexo, tudo tem que ter o ritmo, tem que ser um ciclo, uma onda, com altos e baixos. Nós temos isso no sangue. Está gravado na nossa natureza. É muito provável que seja por isso que sentimos, intuímos, as pulsações da terra, do mar e do ar. E da história, por que não? Sabemos que após a tempestade vem a bonança. Ou, pelo menos, deveria vir.

Desde a última sexta-feira vivemos uma espécie de tempestade, causada pelo "beijo gay" que tenha sido exibido no último capítulo da telenovela da Globo, o "Amor à vida". Estou falando, principalmente, sobre a tempestade que explodiu no microcosmo (ou, talvez, macro-), chamado pomposamente de "redes sociais" que, como todo mundo sabe, se concentram sobretudo no facebook. Temos, é claro, os reflexos no twitter, nos blog's e nos portais que representam este ou aquele lado do palco ideológico-doutrinal da comunicação social. Muitos comemoraram. Muitos se lamentaram. Não tive a menor vontade de calcular as proporções...

Juro que não vou reproduzir aqui, nem em parte, aquelas grandiosas batalhas cibernéticas ou os tratados teológico-pedagógico-jurídicas, contra ou a favor do beijo gay em si, ou da novela, ou da própria Rede Globo em geral. Já escrevi, já fui criticado, já excluí gente da minha lista de contatos, enfim... A tempestade está dando a impressão de querer ir embora, ainda que com alguns trovões e relâmpagos em forma de um "até logo!". O sossego vai durar até a próxima oportunidade. Exatamente assim, como acontece na própria natureza. Digamos, em nosso contexto (LGBT), tivemos a tempestade do Bolsonaro, mais tarde aquela do Feliciano e agora essa do casal Félix e Niko. Os meteorólogos também dão nomes aos tufões e ciclones. Nada original... 

O que me trouxe aqui é a pergunta: será que depois de uma tempestade, realmente vem a bonança?

As redes sociais têm a sua dinâmica própria que em parte demonstra a evolução da mentalidade humana. Tirando uma margem que a tela de um computador proporciona, isto é, aquela diferença entre as coisas que se tem a coragem de escrever, mas nunca se diria na cara do outro, em sua grande parte, a discussão tão acalorada como essa, mostrou o crescimento vertiginoso de posicionamentos radicais. O que mais chamou a minha atenção foi o fato de observar isso principalmente entre os jovens. Eu sei que a juventude é radical (OK, digamos: idealista) por natureza e que a moderação (no bom e no mau sentido) ocorre com o tempo, através de choques com a realidade, de decepções, de cansaço e de comodismo, bem como através de estudo e de um amadurecimento em geral. 

A humanidade apresenta a mesma dinâmica de forma ainda mais clara. É uma interminável conquista, é a descoberta, é o avanço constante. Sem dúvida, como em cada caminhada, houve tropeços, capazes até de travar por algum tempo o natural progresso da civilização. Tais tropeços tornaram-se, no entanto, uma fonte de sabedoria e enriqueceram a consciência coletiva do gênero humano, passando de uma geração para outra. E é, justamente, neste fluxo de gerações que a gente deposita a expectativa dos tempos melhores. Repete-se, de certa forma, a experiência do povo de Israel que, no final de sua longa peregrinação rumo à terra prometida, constatou que era preciso que morresse aquela geração e surgisse a outra, para obter a vitória definitiva (cf. Jos 5, 6-7). É tão natural a suposição - quase automática - de que cada nova geração supere em suas qualidades a geração anterior.

A impressão que tenho, após a leitura das berrantes declarações homofóbicas daqueles que representam a Igreja Católica Apostólica Furiosa, é que as coisas irão piorar. Essas pessoas, ainda que confusas em sua argumentação e apresentando as falhas graves na compreensão e no uso da língua portuguesa, estão profundamente convencidas quanto à razão exclusiva e absoluta daqueles princípios que nós tão bem conhecemos e que tanto mal já nos fizeram. É como a "Fúria Jovem" da torcida de um clube esportivo. Pior... É como a "Juventude Hitlerista" (Hitlerjugend). Esta analogia pode parecer drástica demais, porém, trata-se de uma lógica semelhante: ainda que por motivos diferentes, o braço jovem de cada uma dessas instituições conhece bem o atalho que reduz ao mínimo a distância entre a ideia e o ato. A crueldade das declarações verbais anuncia uma nova, maior onda da homofobia, com a base no cego fundamentalismo cristão. Lamentavelmente...

13 de janeiro de 2014

Travando a Igreja


Citei ontem a frase de D. João Carlos Petrini, o Presidente da Comissão Vida e Família da CNBB que disse que "o Papa Francisco está destravando a Igreja". O esforço do Pontífice é visível a cada momento. Ao mesmo tempo, parecendo uns vermes que saem de baixo da terra, surgem textos e atitudes que, sem sombra de dúvida, procuram o contrário, isto é, travar a Igreja. É isso mesmo, pois a mais prejudicada fica, exatamente, a Igreja, cujo nome usam os pretensiosos teólogos e moralistas do fundo do quintal. O prejuízo é tanto maior, quanto mais os mesmos recorrem aos poderosos meios de comunicação social, em particular, à internet. Eu sei que a Igreja, enquanto instituição, é (e quase sempre foi) uma máquina enorme e, portanto, lenta em suas reações. O indevido uso de seu nome, porém, merece ser detectado e repudiado de forma exemplar. É o caso do portal "Pro Ecclesia Catholica ~ Lutar pela Verdade, Mesmo Que Seja Preciso Morrer Por Ela" (detesto quando alguém escreve assim, abusando das maiúsculas) que venho apontar como merecedor de todo repúdio. Em nome de Jesus!

Em uma de suas publicações recentes, o portal pergunta (e responde): "Por que dizer não à adoção de crianças por casais homossexuais?". O autor, Pedro Henrique Alves (quem quiser, pode localizá-lo no facebook), começa a sua brilhante argumentação com a tese: "Vivemos um dilema social que é o problema dos órfãos". Ainda bem que ele não tenha optado pelo caminho mais curto, a exemplo do cientista "apocalíptico" do romance de Dan Brown "Inferno". No livro, "o dilema" foi o crescimento avassalador da população mundial que precisava ser desacelerado de maneira tanto rápida, quanto radical. Mesmo que o autor do texto sobre a adoção de crianças por casais homossexuais não tenha chegado à conclusão tão drástica, há um passo apenas, entre a propaganda fanática e o aumento do preconceito e da violência homofóbica. Sinceramente, eu fico tranquilo em relação aos estudiosos e atentos, mas preocupo-me com todos aqueles que a palavra "católico" priva de qualquer reflexão inteligente e objetiva. Estes, sim, facilmente caem nas ciladas do discurso fundamentalista.

Os leitores sensíveis às regras da língua portuguesa rapidamente ficam com uma pulga atrás da orelha, diante da seguinte introdução do autor: "Para uma maior compreensão do artigo seguiremos a linha das minhas 4 linhas argumentações [sic! - talvez tenha sido um erro de digitação e o certo seria "lindas"] sendo que elas serão colocada [sic!] em tópicos para maior visualização". Vejamos, portanto, essas linhas, ou lindas argumentações:

1- Problema: Imposição cultural
Hoje vemos que não curamos esta ferida social (o problema dos órfãos), mas avançamos. Porém não é difícil constatar que alguns grupos com a intenção de se consolidar, e estruturar suas opiniões [sic!] usam de assuntos terminantemente sérios para se impor como solução. Isso se dá claramente na adoção de crianças por "casais" homossexuais. Não estou dizendo que estes casais tenham a intenção de impor os seus dilemas sexuais aos outros, porém aqueles militantes que estão por trás das leis de legalização das adoções por parte dos homossexuais, que assim se fazem de anjos guardiões que pouco estão se importando com estas crianças e sim, usando deste meio para conseguir se infiltrar na sociedade cristã [sic!] a fim de (talvez "afim") de satisfazer as organizações internacionais que pressionam o governo para uma nova moral mundial.  

A teoria (o a obsessão) de uma grande e misteriosa conspiração mundial sempre faz muito sucesso. Olavo de Carvalho que o diga. O autor do artigo em questão, sem dúvida, tem aquele ex-mago filósofo por mestre. Basta ver os termos que usa (por exemplo "gayzismo")...

2- Problema: Imposição [da] homossexualidade como uma nova vertente sexual
Sabemos por estudos e principalmente pelo DR. Gerard Van den Aardweg (...) que o homossexualismo não é genético (...) e sim da esfera comportamental ou traumática [sic!]. Sendo assim o Dr. Gerard explica que a criança até atingir sua fase adulta de maturidade emocional, ela é totalmente influenciável e as condições de onde ela vive e com quem vive a influenciará (influenciarão) a tomar para si suas características futuras [sic!] na parte emocional, intelectual e sexual. Através dessa influência a militância gay vê a oportunidade de se consolidar na sociedade, fazendo das crianças presas fáceis e moldáveis para seus planos [sic! sic!]. Esta mesma estratégia é utilizada por exemplo através da cartilha Gay.

Agora vem a parte mais impressionante. Merece um prêmio, quem conseguir acompanhar o raciocínio a seguir. E uma reprovação, quem não perceber uma contradição mais que grosseira:

Não estou aqui colocando um ponto final sobre a sincera vontade de um ou dois homossexuais de ajudar sinceramente uma criança órfã, mas sim explicitar que uma criação de uma criança por um casal homossexual não é benéfica e sim traumática para a criança que se verá em um ambiente que lhe trará confusão e questionamentos sobre si e sua sexualidade, questões que não são abertas a interpretações ou argumentações, como se houvesse uma escolha a qual sexo seguir, sendo sexo é uma característica inerente a vontade e não está no âmbito da faculdade de escolha. Todos nós se nos colocarmos nus em frente (aqui fiquei na dúvida se é para nos colocarmos uns em frente dos outros, o que seria talvez um pouco indecente, ou, por exemplo, em frente de um espelho) veremos que temos o órgão sexual feminino ou masculino, temos útero e vagina ou pênis e testículos (independentemente de cirurgias), e não que alguém esteja impedido de escolher ser hétero ou não, pois isso é uma escolha que esta no campo ideológico, afinal isso é a liberdade de escolha, porém, não se pode igualizar a heterossexualidade com a homossexualidade como se ambas fossem biológica e geneticamente comprovada ser inerente ao ser humano; não há como apresentar o homossexual como um 3º sexo, e sim uma opção de vida e não um gênero sexual.


Bem... talvez isso já seja suficiente para formar uma opinião clara sobre o autor e as suas divagações. Nos dois pontos restantes do texto temos algo sobre os "traumas psicológicos" da criança adotada pelos homossexuais (uma difusão do “gayzismo” como uma vertente da sexualidade; conceitos totalmente confusos que na cabeça de uma criança causa grande tempestade de ideias imaturas quanto a si mesma; muitas dificuldades no desenvolvimento emocional etc.) e, finalmente, sobre a "política fútil" (Enquanto houver interesses de grupos minoritários sendo colocados acima dos interesses do Povo, aquela parte da constituição que diz “Todo poder emana do povo” é apenas uma grande “tertúlia flácida para dormitar bovino”. O povo brasileiro em sua maioria é terminantemente Cristão e contra a adoção de crianças por parte de homossexuais, ou será que irão negar isto também?)...


O antídoto está, simplesmente, no bom senso. Quem quiser, entretanto, desintoxicar a mente, pode recorrer ao texto "Contribuições da psicologia em relação à adoção de crianças por casais homoafetivos: uma revisão de literatura", publicado por Revistas Unijorge. O artigo sério, objetivo, baseado realmente nas pesquisas científicas e assinado por nomes de peso e autoridade muito maiores do que o nome de um estudante de teologia disléxico, portador de um cérebro bem lavado. No texto vamos encontrar as respostas para todas as (eventuais) dúvidas causadas pela desastrosa argumentação citada acima. Escolhi apenas duas frases que podem servir como resumo de toda reflexão sensata e serena:

Foi percebido que, para a criança, conviver com o homoafetivo se constitui em uma maior possibilidade de desenvolvimento do respeito e tolerância às diferenças individuais, características estas muito valiosas para vida em sociedade.

A adoção de crianças por casais homoafetivos não se apresenta como fator prejudicial ao desenvolvimento saudável da criança, pois assim como os casais heteroafetivos, os homoafetivos possuem condições de cuidar, educar e fornecer o que preciso for ao filho.

9 de janeiro de 2014

Cidadania ou gueto


A luta pelos direitos da "Comunidade LGBT" tem várias faces e isso não seria tão surpreendente, afinal - como simbolicamente mostra a nossa bandeira - a diversidade é a palavra-chave. Podemos, no entanto, pensar na diversidade de objetivos, ou concentrar a nossa atenção em um só: a cidadania plena? Provavelmente sem nos darmos conta, acabamos copiando algumas iniciativas equivocadas, presentes na sociedade moderna.

Li recentemente no facebook a notícia sobre um colégio em Londrina (PR) que, a partir deste ano, terá um banheiro exclusivo para os alunos homossexuais. Como sempre acontece nas redes sociais, depois da publicação da notícia, surgiram os mais diversos comentários. Um deles parece aprovar a ideia:

Aqui em Brasília não foram poucos os casos de constrangimento de homossexuais e pessoas trans no uso do banheiro que chegaram até a Coordenação de Diversidade da Secretaria de Educação. Na maior parte das vezes, a escola não tem a menor ideia de como tratar desse assunto. A saída, geralmente é oferecer o banheiro da sala de professores/as para esses alunos e alunas o que acaba sendo aceito tanto pelas famílias como pelos/as estudantes. No caso da escola do Paraná, a decisão talvez tenha seguido o caminho mais fácil para a direção e principalmente para os estudantes gays, mas não sei se é a mais acertada. O banheiro, lugar de intimidade, como não poderia deixar de ser, é um espaço (um dos poucos) para se expressar a sexualidade na escola. É lá que acontece (ao menos no banheiro dos meninos), as disputas de quem tem o pau maior, de quem goza primeiro. É lá que meninos desenham seus órgãos sexuais e os das meninas além de deixar recados cheios de erotismo, tesão e machismo nas portas e paredes. Não deixa de ser assim, um espaço pedagógico. Não deixa de ser assim, um espaço de construção do "macho". Acontece que gays e trans não são bem-vindos nesse clube. Se ousarem frequentar, serão vítimas no mínimo, de algum tipo de agressão física ou verbal. Quantos de nós pensou duas vezes antes de entrar no banheiro da escola? Apesar do fetiche que um banheiro masculino nos provoca, a possibilidade de levar uma porrada ou ser xingado de viado fazia, ao menos em mim, criar a habilidade de segurar o xixi por horas. Criar um banheiro exclusivo ou compartilhar o banheiro da sala de professores/as pode ser um paliativo,às vezes até necessário, para a própria segurança dos estudantes gays, lésbicas ou trans, mas para além disso, é importante que a escola discuta a sexodiversidade na escola. O problema é que quando a discussão acontece, ela é permeada pelo mesmo conservadorismo e fundamentalismo que tanto combatemos no campo da política. Nós, professores/as, não somos imunes à homofobia e muito menos às condicionalidades da cultura. Aliás,não esqueçamos que a escola é (re) produtora dessas mesmas condicionalidades. Se não reconhecer isso, se a escola decidir não fazer o debate democrático, corremos o risco de continuarmos excluindo uma parcela da população do pétreo direito à educação. 

Outro participante da conversa apresenta a opinião diferente:

Eu sou um defensor ferrenho do banheiro sem distinção de gênero. Banheiro público serve para necessidades fisiológicas que são comuns a todas as pessoas. É óbvio que separar é a solução mais fácil, mas, definitivamente, não resolve problemas que venham a surgir. Até porque, admitindo que essa separação seja uma boa ideia, como é que se vai fiscalizar se os gays usarão banheiros para gays? Vão fazer os gays usarem marcas no uniforme para identificá-los? Dizer que um banheiro exclusivo protege os gays é um absurdo sem tamanho. Com isso, estão dizendo que, para não correrem risco de serem violentados, os gays precisam estar separados dos demais, em guetos. Vai na contramão de todos os esforços que existem no sentido de fazer com que nos apoderemos dos espaços que são nossos da mesma maneira que são de todas as outras pessoas. É o mesmo que criar vagões exclusivos para mulheres em trens e metrôs para evitar o assédio. 

Certamente, no caso de pessoas homossexuais, toda essa questão parece ser mais fácil. Ser gay não me torna menos homem (como muitos acham), assim mesmo como uma lésbica não deixa de ser mulher, só pelo fato de ser homossexual. A situação se torna bem mais delicada quando pensamos no transexual e transênero. Neste sentido, acho eu, a conversa deve continuar...

Essa polêmica me levou, mais uma vez, a uma analogia. Nestes dias li uma matéria no portal católico de notícias (Agência Fides), sobre a situação dos cristãos na Síria. O Arcebispo sírio-católico Jacques Behnan Hindo disse: Os cristãos da Síria esperam que a Conferência de Genebra 2 abra para a Síria perspectivas de democracia, liberdade e igualdade. Justamente por isso, são contrários a toda tendência islâmica que pretenda impor na Síria uma Xariá [conjunto dos preceitos morais islâmicos que compõem o Corão e que orientam a vida civil e religiosa dos muçulmanos] como fonte da atual jurisdição, reduzindo a comunidade cristã à categoria de "minoria protegida". Os cristãos não podem aceitar esta involução que os reduziria ao gueto das minorias toleradas e representaria também um retrocesso no percurso histórico da nação. Na Síria, os cristãos sempre foram parte integrante da Pátria comum, cidadãos a pleno título e não "minoria". O povo sírio não quer a barbárie e a tirania fantasiadas com palavras religiosas. E entre dois males, é humano escolher sempre o menor.

No texto acima, basta substituir a palavra "cristãos" por "homossexuais" (ou "não heterossexuais") e ficará clara a nossa batalha pelos direitos. É a luta pela cidadania e não pelo gueto.

2 de novembro de 2013

A "objetividade católica"

 
Dicionário: Objetividade é a qualidade daquilo que é objetivo, externo à consciência, resultado de observação imparcial, independente das preferências individuais. No campo da ciência, objetividade é a propriedade de teorias científicas de estabelecer afirmações inequívocas que podem ser testadas independentemente dos cientistas que as propuseram. No campo do jornalismo objetividade é um atributo de um texto final. Para que um texto seja considerado objetivo, ele deve ser claro e conciso, além de apresentar um ponto de vista neutro.
 
Retorno à reflexão sobre o diálogo entre as pessoas LGBT e os católicos (ainda que nem todos do primeiro grupo tenham a vontade de participar de um diálogo semelhante e, também, ao falar de católicos, não me refiro necessariamente à Igreja enquanto instituição). De um lado temos a incrível abertura, bondade e desejo de promover a "cultura do encontro", por parte do Papa Francisco. Simultaneamente (e, muito provavelmente, em reação à postura do Papa) aparecem declarações cada vez mais diretas, antipáticas e, mesmo, hostis, relacionadas aos homossexuais e pronunciadas por aqueles que se declaram católicos fiéis, tradicionalistas, ortodoxos (ainda que o último termo nada tenha a ver com a Igreja Ortodoxa, mas trata-se do significado literal da palavra "ortodoxia", isto é, a fidelidade). Recentemente citei aqui alguns exemplos dessas declarações (1, 2, 3, 4, etc.),  inclusive com os comentários de leitores (igualmente "ortodoxos") que mostram nitidamente o efeito que elas produzem. Por enquanto é apenas um efeito verbal, mas - como nos mostra a história - o caminho entre as palavras inflamadas e atitudes agressivas é muito curto.
 
Não sou perito no direito penal, mas tenho a impressão de que alguns casos de "propaganda católica" estejam beirando o limite do crime de incitação à violência, como é o caso de equiparar a homossexualidade à pedofilia. Os profissionais afirmam que o direito positivo brasileiro cataloga como crime a incitação pública à pratica de qualquer fato delituoso, como também o é a apologia do crime, que se consubstancia na incitação ao crime. Induzir é persuadir, aconselhar, argumentar, pressupõe a iniciativa à prática e pode fazer-se por qualquer meio. Incitar é instigar, provocar, excitar a pratica do crime, por qualquer meio ou de qualquer forma, sem necessidade de sê-lo pelos meios de comunicação social ou de publicação. O crime é formal, independe do resultado ou da consequência da incitação e equipara-se à própria prática. Napoleão e Hitler, como tantos outros seres ignóbeis e cruéis, que emporcalharam a Terra, pretenderam ou ainda pretendem mudar a face do mundo, matando e violentando o homem.
 
O mais curioso - e ao mesmo tempo triste - é o fato de que os mesmos católicos que não economizam a criatividade no uso de adjetivos que expressam o seu desprezo aos homossexuais, tornam-se, repentinamente, "cordeiros levados ao matadouro", quando chega até eles qualquer crítica relacionada à Igreja. Para entender melhor essa ideia, proponho em seguida um exercício escolar. O texto original é composto de frases mais emblemáticas, tiradas do site do Padre Paulo Ricardo e de uma propaganda que recebem os assinantes daquele site.
 
Primeiro, vou transcrever a frase original:
 
Como dizia o servo de Deus Fulton Sheen, “não existem 100 pessoas que odeiam a Igreja Católica, mas existem milhões que odeiam aquilo que eles pensam ser a Igreja Católica.”
 
...em seguida, substituo o termo "Igreja Católica" por "homossexuais":
 
“não existem 100 pessoas que odeiam os homossexuais, mas existem milhões que odeiam aquilo que eles pensam ser os homossexuais.”
 
A Igreja, diga-se de passagem, contribui bastante para criar uma específica imagem dos homossexuais. Agora vai a outra afirmação (na qual, desta vez, não precisa trocar nenhuma palavra):
 
Em um mundo onde as aparências importam mais que a realidade, não são poucos os indivíduos à procura de um saber superficial, alcançado apenas para demonstrar posição social ou superioridade em relação às outras pessoas.
 
As frases seguintes são:
 
Importa apenas arrumar oportunidade para destilar um ódio quase que irracional à Igreja. Qualquer pedaço de pau serve para bater nela.
 
...e, em versão talvez ainda mais realista:
 
Importa apenas arrumar oportunidade para destilar um ódio quase que irracional aos homossexuais. Qualquer pedaço de pau serve para bater neles.
 
O texto original faz, também, referência aos estudos acadêmicos (anticlericais) e constata que, certamente, o propósito de quem estuda não seja a procura da verdade, mas a difamação e a propaganda suja. Será que não são os mesmos termos que podemos aplicar ao ponto de vista (e de ação) da maioria dos católicos (e da própria instituição), em relação aos homossexuais?
 
A observação mais curiosa está aqui: No culto secular à diversidade, nenhum preconceito é tolerado, a menos que o preconceito seja dirigido à religião – e, de modo particular, à religião cristã. Neste caso, não só é permitido ser intolerante, como a própria "classe intelectual” faz questão de estimular na juventude esta espécie de intolerância.
 
Falar de um "culto secular à diversidade"... já sabemos do que se trata. Não é, porém, a própria Igreja que faz questão de estimular a intolerância, em sua espécie particular, isto é, voltada contra os homossexuais e a sua luta pelos mais legítimos direitos?
 
Enfim, mais uma vez chego à conclusão de que o diálogo entre os católicos e as pessoas homossexuais é algo difícil-dificílimo (como diria a Valdirene da novela "Amor à vida")...

23 de outubro de 2013

O padre e a sua buzina


O Portal Pheeno trouxe a notícia direto das redes sociais: "GO: padre faz buzinaço após ver beijo gay no semáforo". Trata-se de um dos padres-cantores/pregadores, conhecidos, por exemplo, através da TV Canção Nova e, evidentemente, seguido pelos milhares de fiéis. O padre chama-se Cleidimar Moreira e pode ser localizado no facebook aqui. Ele mesmo descreveu, da seguinte maneira, o que tinha acontecido (a postagem é de 17 de outubro):

Não tome decisões erradas!
Muitos estão se entregando a sentimentos falsos e acaba tomando decisões erradas, contrariando a vontade de Deus. Alguns dias atrás eu estava parado em um semáforo. Ao olhar de lado, estavam dois rapazes jovens se beijando. Eu buzinei e esbravejei, pois não concordo com isto. Os dois saíram rindo de mim, creio que também riem de Deus. O que acho incrível é que nem casal... heterossexual fica se beijando nas ruas por aí. Parece que fazem isto para afrontar a sociedade. Deus criou homem e mulher, qualquer outra realidade é patológica e para mim pode ser tratado. Não te entregue a sentimentos falsos, peça a Deus para lhe revelar o que é verdade do que é falso e sempre escolha pelo verdadeiro, por Deus.
Deus lhe abençoe!
 
A publicação foi "curtida", até o momento presente, por 3192 pessoas e compartilhada por 604. Haja paciência para ler todos os comentários e as respostas direcionadas a alguns deles. A maioria esmagadora, resume-se em curtas frases do tipo:
  • "Parabéns Padre. O mundo esta virando Sodoma/Gomorra. Deus o abençoe"
  • "Parabéns Pe. por defender as nossas famílias. Deus abençoe !!!"
  • "concordo Padre, mais temos que aceitar calados, isto é fim do mundo"
  • "parabéns pela posição clara.."
  • "Precisamos de padres assim, que falem a verdade, e não passam a mão na cabeça de ninguém."
  • "isso mesmo...temos q ter convicção naquilo q acreditamos...isso em nome de Jesus..!!!!!"
  • "Concordo plenamente! Corrigir o erro é obra de misericórdia!"
  • "Amo muito suas palavras, suas testemunhas da verdade. Serve de aprendizado para todos nós! A sua bênção!"
  • "O Sr. está certo! Tenho nojo disso! Isso não é de Deus!!!!"
Alguns comentários são um pouco mais longos (mantenho a versão original): 
  • "Que suas palavras cheguem aos ouvidos de mts que estão deixando se levar por esta mentira, que casais do mesmo sexo tem a liberdade de escolha, de serem felizes com seus parceiros. Muitos dls não tem o mńimo respeito pelas famílias, com suas atitudes!"
  • "Tem razão padre,. O mundo está a um passo de cair em um abismo infernal pelos pecados da humanidade, infelizmente, mas a Mãezinha é intercessora pelos que creem nela e em Jesus. Que a paz de Jesus e o amor de nossa Senhora esteja contigo hoje e sempre. Amém!"
  • "Essas pessoas que fazem estas cenas obscenas em pleno dia e locais públicos, temos que rezar 1.000.000.000 de Ave Maria para que se convertam. Ave Maria,...(1.000.000.000 x 1.000.000.000.000). E assim caminha a humanidade."
  • "E engracado,pra nao dizer ironico,e qe eles exigem respeito,mas eles nao respeitam ninguem,e muito menos respeitam as crencas religiosas,isto e o cumulo do absurdo,eu penso qe se qerem ser respeitado,entao respeitem"
  • "Trata-se de um Atentado Violento ao Pudor Pe Cleidimar Moreira. o Senhor tem toda a razão em esbraveja!"; "Concordo com o senhor padre, Jesus abomina essas praticas e a sociedade deveria fazer o mesmo. Nao tenho preconceito, apenas nao aceito isso."...
Nessa avalanche de baboseiras, aparecem umas três vozes sensatas, naturalmente contestadas pela maioria:
  • "2 em cada 3 suicídios de pessoas até 25 anos no Brasil são de gays. Parabéns, Padre, por contribuir com o desespero dos homossexuais. Jesus estará te julgando no dia certo, tenha certeza!"
  • [em resposta a um comentário]: "Não é escolha, se ser gay fosse escolha, ninguém iria escolher isso.... Respeite..."
  • "Tudo o que incomoda no outro é o que carregamos dentro da gente, Padre, Freud já dizia..."
  • [em resposta a mais um comentário]: "Sua família está ameaçada pelos gays? Será q vc é hetero mesmo? Um hetero nunca tem problema com a sexualidade alheia."
  • "O sr. Pe. Cleidimar precisa aprender que estamos em uma democracia, onde as pessoas não são obrigadas a terem a mesma crença, valores e etc. que nós cristãos católicos e cristãos em geral! Em um país livre, o sr. pode professar a sua fé e precisa respeitar quem professa um outro crer diferente do nosso!!! O sr. se sentiu no direito de esbravejar e eles no direito de rirem! Isto é Democracia!!! Ore por eles!!! Como psicólogo em potencial eu digo para o sr., que não é deste saber, que a ciência psicológica não trata a homossexualidade como doença e, por tanto, não oferece cura para o que não se considera doença! Porém, esta não impede aquele que deseja busca-la por qualquer meio que seja! Estude um pouco mais! Irá fazer bem para o sr.!! E melhor, se proponha a trabalhar evangelizando estes a quem o sr. parece abominar, mas, a quem Deus ama!!!!!"
  • "homens de DEUS não julgam deixam isto pra DEUS...e o sr como padre devia da o exemplo... é por isto que sua igreja ta cada vez mais em decadência...fazem e acontecem e acham q estão certos, tu deve ter aprendido muito bem que vc esta aqui para conduzir o rebanho e não julga-lo por que quando vc se for será julgado como todo mundo e ate onde sei os pesos são iguais. não fala bobagem sr padre mostre que é mesmo um homem de DEUS e respeite os iguais e o que não são iguais a ti....faz um favor e deixa o julgamento nas mão de DEUS....pue que não é por que vc é padre que é melhor que nos e pelo que vi ali no comentário a cima é bem pior que os que tens julgado...obrigado..." ...
Acredito que as conclusões muito elaboradas não sejam necessárias. Enquanto alguns proclamam: "Precisamos de padres assim!", há quem reconheça o equívoco desse representante da Igreja Católica, ainda que o padre em questão, sem dúvida, se sinta bajulado apoiado pelos seus "filhos espirituais". Talvez a citação de uma fonte diferente consiga apelar ao bom senso do cidadão e motorista, Claudemir Moreira:
 
O artigo 41 do Código de Trânsito Brasileiro define o uso da buzina. O condutor de veículo só poderá fazer uso de buzina, desde que em toque breve, nas seguintes situações:
I - para fazer as advertências necessárias a fim de evitar acidentes;
II - fora das áreas urbanas, quando for conveniente advertir a um condutor que se tem o propósito de ultrapassá-lo.

5 de outubro de 2013

Não brigo por este "gender"

 
Todos se lembram do caso de um policial que, durante o protesto dos professores no Rio, forjou a posse de morteiros para deter um jovem manifestante. Exceto a nota oficial da PM, todas as reações na mídia, nas redes sociais e em conversas particulares, são unânimes: é algo revoltante, vergonhoso, inaceitável e digno de punição. Certamente, os policiais recebem a formação profissional, inclusive a instrução sobre a conduta ética. Por outro lado, as situações extremas e estressantes, facilitam (ainda que não justifiquem) o fracasso moral, principalmente no caso de pessoas que, talvez, não tenham firmeza em sua própria estrutura psíquica, quem sabe, devido, por exemplo, às falhas na educação em casa. Não estou aqui para julgar as pessoas. Há instituições e autoridades para isso. Entretanto, gostaria de usar este exemplo como a introdução a outra questão que considero infinitamente mais grave, com todos os adjetivos já citados: revoltante, vergonhoso e inaceitável. Digo "infinitamente mais grave" porque não se trata de uns policiais despreparados que permitem a confusão externa tomar conta do seu interior. Falo de pessoas cultas, formadas em filosofia e teologia, conhecedores e adeptos (pelo menos assim se declaram) do Evangelho e dos mandamentos de Deus. Pessoas que sabem perfeitamente qual é o conteúdo do 8° Mandamento, ainda que tenham alguma obsessão doentia com o 6°...
 
Assisti - ou, melhor: tentei assistir - o programa do Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, fiel discípulo de Olavo de Carvalho e, também (suponho), de Jesus, sobre a "Ideologia de gênero". A minha dificuldade consistiu não apenas no fato de discordar de sua argumentação, mas também, em algum problema técnico do site que não permitiu (até agora) uma formatação melhor do vídeo [ATUALIZAÇÃO 07/10/2013: o programa editado está aqui]. O padre que gosta de usar a expressão "gayzismo", copiada do seu mestre Olavo de Carvalho, retrata o estudo (e a legislação) a respeito da identidade de gênero, como uma das mais poderosas armas da "ditadura gay(zista)", a mesma que tem por objetivo - segundo ele - a destruição da sociedade e da Igreja (através da destruição de família tradicional), bem como a introdução da "nova ordem mundial". Tudo isso tem o tom apocalíptico e, de fato, serve para difundir, ainda mais, a intolerância, em particular, a homofobia. O discurso do padre é eloquente e sempre inclui a citação de uma série de nomes e fontes internacionais. Essa eloquência, porém, não é capaz de ocultar o falso princípio que, ao ser detectado, desmascara a verdadeira intenção do ensinamento. Não é a defesa da família, nem da sociedade, mas sim, mais uma tentativa de desmoralizar as pessoas homossexuais, atribuindo a elas algo que não existe. É, justamente, como forjar o flagrante, como no caso daquele policial. Por isso digo: essa briga que o padre apresenta, não é minha. Eu não brigo por este "gender", até porque ele não existe, da forma apresentada por este padre.
 
Vou tentar explicar a questão de maneira mais breve possível. Para um estudo maior, recomendo assistir o discurso do padre e ler todos os materiais que ele indica. O resumo da aula encontra-se no texto, publicado junto ao vídeo. É uma espécie de panfleto, certamente preparado para os escudeiros do padre, para ser multiplicado e distribuído pelo Brasil afora (quem sabe, nas Paradas de orgulho gay[zista]). O título do panfleto, diga-se de passagem, pode ser perfeitamente aplicado, em resposta, a toda argumentação da aula: "Gênero" - Defina ou então não use! A palavra gênero foi politizada. Se ela for utilizada em um texto, deve ser definida para que todos possam estar conscientes do seu significado. Algumas feministas radicais usam "gênero" em contraposição ao "sexo". "Sexo" diz respeito à realidade biológica de masculino e feminino. "Gênero" diz respeito ao condicionamento social e às práticas culturais relacionadas com a masculinidade e a feminilidade. Os que defendem esta definição o fazem por crerem que todas as evidentes diferenças entre homem e mulher não são naturais, mas são produzidas pela "socialização opressiva de gênero" e a mulher será livre somente quando não seja obrigada a ser feminina por sua cultura. Além disso, creem que, enquanto o "sexo" é uma realidade fixa, o "gênero" é algo que se pode escolher. Esta interpretação é particularmente popular entre homossexuais e lésbicas [sic! - como se as lésbicas não fossem homossexuais]. Esta definição declara guerra à feminilidade natural.
 
No vídeo, o padre Paulo Ricardo, reforça esta afirmação: Na verdade, o que está por trás, é um outro conceito. O que está por trás é o fato que - segundo essas pessoas - o homem é uma massinha de modelar e você é construído como homem, ou é construída como mulher, ou é construído como homossexual, ou como lésbica, ou como transexual. Isto é uma questão de opção e não é sequer uma coisa fixa.
 
Quem não percebe, exatamente por trás deste discurso, a intenção de desmoralizar a luta GLBTTS pelos próprios direitos e pela dignidade, corre o risco de ser agredido, amanhã mesmo, em uma esquina qualquer, por um "católico" que - induzido ao erro - vai punir você, por ter escolhido ser gay. Afinal, a ira de Deus volta-se contra os infiéis. Certamente, ele não vai entender que você está sendo fiel a si mesmo, à sua identidade, ao seu gênero que, entretanto, não foi criado por você.
 
E quem pensa que a opinião deste padre é algo raro e individual, engana-se redondamente. Basta entrar nos sites "católicos" e conferir. Um deles, "Annales Historiae", publica o mesmo pensamento: A heterossexualidade está na base da complementariedade entre os homens e as mulheres. Mas outros preferem ver nisso um ponto de exploração, de dominação e de intolerância. Para combater esta situação, então eles trabalham incansavelmente para destruir o que eles consideram como um preconceito. (...) O indivíduo é intimado a escolher entre todas estas possibilidades (heterossexual feminino, heterossexual masculino, homossexual masculino, homossexualidade feminina, bissexualidade, transsexualidade e indiferenciado), com o direito fundamental de trocá-las, quando lhe apetece. (Obs.: Os conhecedores de língua portuguesa, ao menos em Portugal, sugerem que se use o termo "transexualidade" - com um "s")
 
É tão óbvia a falte de lógica na argumentação sobre a "opção" que, somente através de uma lavagem cerebral, é possível implantá-la na cabeça de quem quer que seja.
 
O Papa Bento XVI fez uma referência à "ideologia do gênero": [O rabino-chefe de França, Gilles Bernheim] cita o célebre aforismo de Simone de Beauvoir: «Não se nasce mulher; fazem-na mulher – On ne naît pas femme, on le devient». Nestas palavras, manifesta-se o fundamento daquilo que hoje, sob o vocábulo «gender - gênero», é apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia. (...) O homem contesta o fato de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um facto pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez. É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada.
 
Talvez existam pessoas que pensam assim, ou movimentos que queiram difundir tal teoria, mas com certeza não são os homossexuais. Repito: nenhum homossexual acredita ter o poder de decidir sobre a sua própria orientação sexual. A sociedade, tampouco, tem esse poder, porque, se tivesse, já não existiria um homossexual sequer na face da terra, graças à pressão da sociedade, em sua maioria, homofóbica. Quanto à "natureza pré-constituída", sempre pensei que a Igreja tivesse pregado a superioridade da alma em relação ao corpo e das coisas espirituais em relação às materiais. Pois, muito mais do que a minha corporeidade, é a minha psíquica e a afetividade, que definem a direção da minha sexualidade. O que "pré-constituiu" a corporeidade daquela criança que nasceu com 4 pernas na Índia? Ou de outra que nasceu com 4 braços e 4 pernas? Que era a encarnação do deus Vishnu, como tantos afirmavam? Não! Foram realizadas várias cirurgias, para que essas pessoas pudessem ter a vida normal. Foi a corporeidade que impedia essa normalidade de viver. E o que dizer sobre a Letícia Lanz que nasceu com o corpo masculino, mas, em sua essência, sempre foi uma mulher? Ela mesma diz: Por décadas, tenho vivido com um nome que não corresponde à pessoa que eu sou e que, como qualquer outra pessoa, eu também desejaria poder mostrar ao mundo, com orgulho e dignidade, em todos as ocasiões.
 
Pelo que sei, a ciência ainda não possui métodos para consertar o interior de um ser humano. Consegue, porém - e com grande sucesso - adequar o corpo à identidade da pessoa. E todas as tentativas de "adequar" a sexualidade foram desastrosas.
 
Acrescento, no final, mais uma observação. Eu creio, assim como o Papa Bento XVI e como a maioria das pessoas não-heterossexuais, que a criatura humana foi feita por Deus nessa dualidade de homem e mulher. Ser gay, não anula o fato de ser homem, assim como ser lésbica, não anula a feminilidade. Essa é a situação das pessoas transgêneras, a quem devemos o respeito, merecido por cada ser humano. Elas também, assim como todos os seres humanos, não escolheram a sua sexualidade por mero capricho. A dualidade do ser humano contém muitas identidades. Deus que, em Jesus, ordenou: Dizei somente sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno (Mt 5, 37), não criou o mundo preto e branco, mas sim, muito colorido. Tentar corrigir a obra do Criador, ou negar a sua diversidade, é um ato de estupidez e a manifestação de soberba que resulta em violência. É, exatamente, por dizer "sim" a Deus e a si mesmo, que as pessoas não-heterossexuais defendem a sua identidade e lutam por seus direitos.
 
A ilustração que ajuda compreender a diversidade do ser humano, encontrei no blog do Vinícius: