ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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6 de outubro de 2013

O passinho e o silêncio

O rapaz desta foto se parece um pouco com o G.
 
Estava pensando em interromper aquela série (meio pesada) de polêmicas, publicadas aqui, envolvendo os assuntos do Papa, dos fundamentalistas católicos, da superficialidade da mídia (inclusive, católica) - e tudo isso, em relação ao mundo GLBTTS que não é uma massa sem rosto, não se compõe apenas de movimentos militantes, mas é o mistério do ser humano. Sim, o tema é importante, urgente, necessário. Pensei, porém, em dar uma pausa.
 
Já tinha visto no facebook o vídeo encantador de um grupo de dançarinos, fazendo o seu performance no cruzamento do centro do Rio e na plataforma da Central do Brasil. Hoje encontrei (finalmente!) o vídeo no YouTube, divulgado pelo portal Pheeno, junto com a "Versão Bafo", na qual um dos dançarinos, Rene, usa o vestido (que coxas! - diga-se de passagem). Então, a ideia da postagem deste domingo, foi essa: apertar o play, deliciar-se, por exemplo, com o corpito do Pablinho Fantástico (o rapaz de cabelo cor-de-fogo que fica geralmente como o primeiro do lado direito) e deixar-se levar pelo funk-estilo-soft... No entanto, há mais coisas. Não posso deixar de mencionar aqui uma visita que fiz hoje, na casa de uma família. Daqui a pouco falo sobre isso. Primeiro, os dois vídeos:
 
 
 
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O título desta postagem é "O passinho e o silêncio". O que tem uma coisa com a outra? Talvez... a paixonite. Confesso que me encanto facilmente por certas coisas. Assim, fiquei encantado com a turma do passinho - eu que não curto o funk, em geral (já morei nos lugares, onde o funk-da-pesada, dominava todas as noites de sábado para domingo). Cheguei a declarar, naquela época, que "o funk não é música", mas depois de assistir uma obra de arte como essa, mudo a opinião.
 
A coisa (da paixonite) torna-se mais complexa, quando entra, não apenas em um vídeo, mas em cena real, uma pessoa encantadora. Já tive várias paixonites, outras ainda tenho.. Algumas agudas. Algumas adormeceram, com o tempo, dentro de mim. O mal da paixonite consiste em não conseguir avaliar a realidade com precisão. A gente começa a "imaginar coisas". Tive e tenho essas paixonites em relação aos "gays declarados", mas também, àqueles que se encaixam na famosa e clássica pergunta: "será que ele é?". É o caso do G. Sou amigo dessa família, mas - evidentemente - tudo isso trabalha em função da minha aproximação ao G. Hoje fui almoçar na casa deles. Deve ter sido por causa das minhas pesquisas de últimos dias e das coisas que tenho escrito neste blog recentemente que comecei a comentar os assuntos ligados à homossexualidade, à teoria do gênero, às reações dos fundamentalistas católicos ao que disse o Papa, etc. Preciso acrescentar que aquela família é católica e engajada na vida pastoral da comunidade paroquial. Inclusive, o próprio G...
 
Primeiro, a conversa fluiu de maneira bastante solta, isto é, sobre a escola e os planos do G. para o futuro. "Pesquei", em uma das falas dele, que o casamento não faz parte desses planos. Aí entra, ou o "gaydar", ou a paixonite: "Não pensa em casar, por que?"... Acendeu uma lampadazinha dentro da minha cabeça e me deu vontade de... compartilhar os resultados das minhas pesquisas. Falei do Papa e de suas declarações de respeito para com os homossexuais, também sobre a cabeça dura dos fundamentalistas. Toquei no assunto do "casamento gay", lembrei das palavras de Jesus, sobre os três tipos daqueles que não se casam (cf. Mt 19, 12), com o destaque na primeira situação, "dos que nasceram assim" e tal. Fiquei o tempo todo sentado no sofá, ao lado do G, mas nesta (longa) parte da conversa, não ousei olhar para ele. Tive medo de revelar mais do que deveria ou, talvez, de deixar me lavar pelo impulso e, por exemplo, declarar a minha paixonite por ele (para quem não sabe: sou gay quarentão e permaneço no armário). Todo mundo tinha algo para perguntar e opinar. Mas, o G. ficou em silêncio absoluto, enquanto abordávamos esses assuntos. Eu sei que posso estar totalmente enganado, afinal, a paixonite traz esse efeito, mas o silêncio dele falou, para mim, mais do que mil palavras. Ele que gosta de perguntar, levantar questões, dar opinião - dessa vez ficou quieto. Ao meu ver, quieto demais. Repito: posso estar enganado e, até, seria interessante saber a opinião dos (eventuais) leitores. Digo uma coisa: esse silêncio me levou a pensar que "tem alguma coisa aí"... e fiquei mais esperançoso com isso. Quem sabe, na próxima vez e, certamente, sem os familiares em volta, a gente volte ao assunto?
 
Esse foi o meu domingo do passinho e do silêncio. A paixonite aumentou...

3 de outubro de 2013

Meu zeloso guardador

 
No final deste dia, dedicado na Igreja aos Santos Anjos da Guarda (leia sobre este tema aqui e aqui), gostaria de prestar uma singela homenagem a meu amigo inseparável que nunca me abandona, pelo contrário, já me deu provas palpáveis de sua presença e de seu amor para comigo. Pois é, se não fosse um Anjo, eu o pediria para namorar comigo... pelo menos, de maneira mais visível. Bem... eu sei que os anjos do céu não se casam (cf. Mt 22, 30), portanto, certamente, não namoram, mas que o meu é um fofo, não tenho dúvida. Aliás, na minha opinião, ele faz parte do mundo GLBTTS, inserido no universo, pelo menos, correspondendo à letra "S", quer dizer, simpatizante - evidentemente simpatiza comigo. Só acho que ele se distrai no shopping... É, que eu sempre me perco no shopping. Mas, já passamos juntos no meio dos traficantes armados, já batemos com o carro, já apontaram em minha direção uma arma e - mais frequentemente - caminhamos nas madrugadas sem fim pelos bairros considerados perigosos e sempre chegamos bem em casa. Sim, nessas horas, particularmente senti a sua presença. Eu sei que o tal de Cupido, embora retratado como um anjinho, pertence a outra história, mas - como diz a Igreja - as sementes de verdade estão presentes e operantes nas diversas tradições religiosas e são um reflexo do único Verbo de Deus (veja aqui), portanto, não tenho certeza se não daria certo pedir ao meu Anjo da Guarda que me ajudasse a encontrar um namorado, fazendo o papel daquele Cupido. Ou, então, como fazia o Beato João XXIII, pedir ao eu Anjo da Guarda que conversasse com o seu colega, o Anjo da Guarda dessa ou daquela pessoa. Por exemplo, do Lucas ou do Gabriel... Falando nesses dois, eu acho que se o meu Anjo da Guarda assumisse um corpo, teria essa aparência, principalmente os cachos e aqueles olhos lindos que penetram a minha alma.
 
Essa coisa de assumir um corpo já aconteceu no passado (e deve estar acontecendo atualmente), basta ler o livro de Tobias, no qual a história com o anjo começa assim: Tobias encontrou um jovem de belo aspecto, equipado como para uma viagem. (Tb 5, 5) e termina dessa maneira: Então Tobit chamou seu filho e disse-lhe: Que havemos nós de dar a esse santo homem que te acompanhou? Meu pai, respondeu ele, que gratificação lhe havemos de dar? Que presente poderá igualar os seus benefícios? Ele levou-me e trouxe-me em boa saúde; foi receber o dinheiro de Gabael; fez-me ter uma mulher e afugentou dela o demônio; encheu de alegria os seus pais; livrou-me de ser devorado pelo peixe, e fez-te rever a luz do céu; enfim, ele cumulou-nos de toda a sorte de benefícios. Que presente poderia igualar a tudo isso? Rogo-te, meu pai, que lhe peças se digne aceitar a metade de tudo o que trouxemos. Chamaram-no, pois, o pai e o filho, e, tomando-o à parte, rogaram-lhe que aceitasse a metade de tudo o que tinham trazido. Então ele falou-lhes discretamente: Bendizei o Deus do céu, e dai-lhe glória diante de todo o ser vivente, porque ele usou de misericórdia para convosco. (...) Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos na presença do Senhor. (Tb 12, 1-6. 15) Notemos que uma das tarefas do Anjo parece muito com o trabalho de um Cupido.
 
Há quem considere as reflexões acima uma blasfêmia. Garanto, porém, que tenho o respeito profundo pelas coisas de Deus e acredito que a minha condição homossexual faça parte dos desígnios dele. A minha homossexualidade não anula a minha humanidade. A humanidade, por sua vez, contém o chamado ao amor, como a forma essencial de sua própria realização no plano de Deus. Evidentemente, posso me realizar amorosamente no serviço aos pobres, na dedicação generosa à ciência ou à arte. Posso, também, ter recebido uma vocação especial e sublime, ao celibato, mas tenho certeza de que não é todo homossexual que seja chamado a esta forma de vida. Aliás, a Igreja não admite, nem ao sacerdócio, nem à profissão religiosa nos conventos, "as pessoas com tendências homossexuais fortemente enraizadas". Logo, a plena realização humana, consiste em compartilhar o amor com outra pessoa. No caso de um/a homossexual, com a pessoa do mesmo sexo. E o meu Anjo da Guarda sabe de tudo e nem por isso me abandonou...
 
 
Quero terminar o texto com mais uma reflexão. Não sei se é uma questão de idade e, associada naturalmente a ela, a vocação à paternidade, mas reparo-me com um desejo que cresce no meu coração com o passar do tempo. É uma profunda, sincera e pura vontade de cuidar de alguém. Normalmente se pensa que a carência afetiva seja algo contrário, isto é, uma vontade de ter alguém que cuidasse da gente. Confesso, porém, que a minha visão de felicidade, aqui na terra, revela-se como a possibilidade de cuidar, de proteger. Assim imagino o meu namoro. Assim me sinto em relação a Lucas ou Gabriel. É uma sensação isenta de perversidade. É uma pena que ainda não aprendi a demonstrar isso de maneira mais clara e convincente. Talvez, um dia, o meu Anjo da Guarda me ensine essa arte, afinal é isso que ele faz comigo...
 
Todos os dias, antes de dormir, faço a saudação ao meu Anjo da Guarda, que aprendi ainda com a minha avó:

28 de setembro de 2013

Medo de perguntar


Os discípulos não compreenderam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto. (Lc 9, 45)

É o último versículo do pequeno trecho do Evangelho deste sábado. As perguntas, mas também o medo de fazê-las, acompanham-nos durante a vida inteira. Bem, pelo menos, depois de encerrarmos a nossa infância. É próprio de toda criança fazer perguntas de todo tipo, inclusive aquelas que deixam os adultos embaraçados. Talvez esta tenha sido uma das razões de Jesus afirmar: quem não receber como criança o Reino de Deus, nunca entrará nele (Mc 10, 15).

Entretanto, o próprio Jesus não respondia a todas as perguntas: Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-se e perguntaram-lhe: Com que direito fazes isso? Quem te deu esta autoridade? Respondeu-lhes Jesus: Eu vos proporei também uma questão. Se responderdes, eu vos direi com que direito o faço. Donde procedia o batismo de João: do céu ou dos homens? Ora, eles raciocinavam entre si: Se respondermos: Do céu, ele nos dirá: Por que não crestes nele? E se dissermos: Dos homens, é de temer-se a multidão, porque todo o mundo considera João como profeta. Responderam a Jesus: Não sabemos. Pois eu tampouco vos digo, retorquiu Jesus, com que direito faço estas coisas (Mt 21, 23-27). Algo parecido acontecia, quando se tratava de outras perguntas, feitas de má fé, por exemplo, sobre o imposto a ser pago - ou não - ao César (Mt 22, 15, 21), mas, principalmente, na hora do julgamento, diante do Sumo Sacerdote, de Herodes e de Pilatos. Pilatos perguntou-lhe outra vez: Nada respondes? Vê de quantos delitos te acusam! (Mc 15, 4).

Quais são as conclusões práticas para nós? Pelo menos duas... A principal maneira de seguir a Jesus, consiste em imitá-lo. Logo, não temos a obrigação de responder a todas as perguntas. Por outro lado, Jesus nem sempre responde aos nossos questionamentos, ainda que Ele próprio tenha sido a resposta a todas as interrogações do ser humano. Ou, então, Ele responde, sim só que somos nós que não sabemos ouvir...

Algumas perguntas existenciais sem resposta, levam muita gente a perder o sentido da vida, a ponto de acabar com ela com suas próprias mãos. "Por que eu?", "Por que nasci assim?", "Por que sinto isso?" - são as mais frequentes interrogações que fazem as pessoas homossexuais, pelo menos na hora da descoberta e, as vezas, pelo resto de sua vida. Muitos pais se perguntam "Onde nós erramos?", "Quem fez isso com o nosso filho/a nossa filha?", "O que fazer para livrá-lo(a) dessa desgraça?", além de todas aquelas, no estilo "O que irão dizer os vizinhos sobre a nossa família?". Há perguntas que não devem ser feitas, como aquela que fez, em público, o doutor César a seu filho Félix (na novela da Globo "Amor à vida"): "Quem é quem na cama? Quem é mulher e quem é homem?". Sem dúvida, alguns pais ficam curiosos e, sinceramente, não tenho certeza se eu mesmo negaria a resposta, caso a minha mãe me perguntasse. É, porque conheço a minha mãe e sei que ela faria (caso fizesse!) esta pergunta sem maldade e não para julgar, condenar, humilhar, etc. Não se trata de entrar em detalhes anatômicos, mas de querer saber como vai a vida amorosa do filho. Justamente, sem entrar em detalhes, a minha mãe conversa com o meu irmão (casado com uma mulher, com quem tem três filhos), sobre a vida conjugal dele. São as conversas cheias de tato, respeitosas, mesmo assim, tocam nos assuntos de intimidade. Acredito que, se eu vivesse em um relacionamento, as conversas com a minha mãe incluiriam tais assuntos.

Ah, quem nunca fez, no seu íntimo, aquela pergunta angustiante "Será que ele/ela é...?". As biblio- e videotecas estão repletas de obras que tentam descrever o arrependimento das pessoas que não tiveram coragem de dar aquele primeiro passo. As vezes funciona o "gaydar", cria-se aquele clima, surge a química. Comigo já funcionou... Ou, funcionava, antigamente. Mas, também, já fiz aquela pergunta, porém, eu acho que a forma, ou a hora, não tenham sido adequadas. Perdi o contato com alguns amigos por causa de algumas perguntas ousadas, ou entendidas mal...

Outra coisa, para muitos bastante polêmica, é a conversa entre os homossexuais, a respeito de sua "opção na cama". Aquele famoso: "ATV/PAS?". Vários comentários nas redes sociais expressam indignação com este tipo de pergunta. Eu diria o seguinte: exatamente assim, como em uma conversa respeitosa em família, o assunto não deve ser escancarado, nem colocado em primeiro lugar. Entretanto, penso que deve aparecer em algum momento e bem antes de duas pessoas decidirem ir para cama e antes de se apaixonar, um pelo outro. Por mais que se diga que "não existe 100% isso ou aquilo", não seria legal descobrir a eventual incompatibilidade, somente na hora "H".

Para terminar, deixo aqui uma pergunta aberta. Todos se lembram da revelação bíblica sobre a criação do ser humano. É o texto citado em quase todos os documentos da Igreja que descrevem a homossexualidade como profundamente desordenada e condenam os atos homossexuais. A parte principal dos argumentos não é a afirmação de que Deus tenha criado o homem a sua imagem e semelhança, mas que Ele "os fez homem e mulher", ordenando, logo depois, que fossem fecundos. A própria narração do Livro Sagrado, usando a sua predileta linguagem alegórica, diz o seguinte:

O Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.” Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais dos campos, e todas as aves dos céus, levou-os ao homem, para ver como ele os havia de chamar; e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome. O homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves dos céus e a todos os animais dos campos; mas não se achava para ele uma ajuda que lhe fosse adequada. Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem. "Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem. Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne (Gn 2, 18-24).
 
A minha pergunta é: o que teria dito o homem, se Deus, em vez de mulher, levasse para junto dele... o outro homem? Não daria a mesma resposta: "Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne"?

27 de setembro de 2013

Impressionismo cinematográfico

Procurei uma palavra que retratasse a minha impressão, depois de assistir o filme coreano "Hello my love" e me veio à mente, justamente, o impressionismo. O termo, obviamente, pertence ao mundo da arte de pintura (é um movimento artístico surgido na França no século XIX que criou uma nova visão conceitual da natureza utilizando pinceladas soltas dando ênfase na luz e no movimento - leia mais aqui). As cores frequentemente são empregadas puras na tela, em pinceladas desassociadas. Os impressionistas retratam em suas telas os reflexos e efeitos que a luz do sol produz nas cores da natureza. A fonte das cores está nos raios do sol. Uma mudança no ângulo destes raios implica na alteração de cores e tons. É comum um mesmo motivo ser retratado diversas vezes no mesmo local, porém com as variações causadas pela mudanças nas horas do dia e nas estações ao longo do ano. O estilo artístico que hoje fascina tanta gente, nem sempre foi acolhido com tanto entusiasmo. As maiores críticas recebeu logo no início. O pintor e crítico de Arte, Louis Leroy disse: “Selvagens obstinados, não querem por preguiça ou incapacidade terminar seus quadros. Contentam-se com uns borrões que representam suas impressões. Que farsantes! Impressionistas!”
 
Eu sei que o filme em questão pode despertar diversas emoções e muitos podem, simplesmente, não compartilhar o meu entusiasmo. Afinal, estamos diante de uma cultura oriental, tão distante da nossa. O tema principal gira em torno da homoafetividade, mas, o que posso dizer é que - como um soldado que põe tudo que tem dentro de um saco - o diretor, junto com toda a equipe do filme (que está longe de ser um saco) conseguiu, dentro de um pouco mais de 90 minutos, misturar - sem confundir - tanta coisa: amor e ódio, absurdo e mais pura lógica, fidelidade e traição, comédia e tragédia, covardia e coragem, religião, superstições e homofobia, sensualidade que não escandaliza, belíssimas paisagens e música, profundo mergulho na antiquíssima tradição oriental com o toque da moderna cultura ocidental, canalhice e nobreza, muita, muita chuva e realmente muita bebida, lágrimas e gargalhadas, homo- e hetroafetividade, família e amizade, sangue e morte, violência e ternura... e milhares de outras coisas. Vale acrescentar que o filme envolve, a ponto de você rir, chorar, xingar e torcer pelo final feliz. E tem mais: o elemento-surpresa, até o último minuto da história. E tudo isso protagonizado pelos lindos atores e atrizes!
 
É um filme a ser saboreado, como (e com) um bom vinho (que faz parte integral da trama). Recomendo especialmente aos casais (inclusive heterossexuais).
 
 

21 de setembro de 2013

Boa noite!

 
Na verdade verdadeira,
todo mundo tem
suas diferencices...
 
[ Saramandaia ]

19 de setembro de 2013

Quanto valem cinco minutos?



"Ah, depende" - vai dizer qualquer um e eu também diria. E os 5 minutos diferentes, surpreendentes e cheios de graça? Estes, sim! Têm o poder de transformar um dia chato em uma data inesquecível. Ainda que a grande parte daquela experiência se desenvolva, apenas, na imaginação da gente, os 5 minutos em questão, permanecem mais reais do que o resto da vida e da história. Sem dúvida, trata-se de um efeito extraordinário, capaz de alcançar aqueles "sensores de emoção", muito pessoais e incomparáveis. É a prerrogativa de cada ser humano - dizer: "eu sou assim". E é por isso que um evento qualquer torna-se para alguém o início de uma vida nova, o "divisor de águas", enquanto todo o resto da humanidade passa por aquele momento sem notar coisa alguma...
 
Eu sou assim: preciso de um ambiente pequeno e aconchegante, com a música (com preferência, apenas instrumental) e com algumas pessoas (com preferência, poucas e, necessariamente, simpáticas e... bonitas). É, justamente por isso (e por alguns outros motivos) eu não vou ao Rock in Rio... Quanto ao ambiente, acredite quem quiser, pode ser, até, um vagão do metrô que, apesar da hora do rush, está quase vazio, porque vai na direção oposta da multidão. Tipo, a linha 1 (Saens Peña - Cantagalo), por volta das 20 h.
 
O início, como em cada aventura, é inesperado e as aparências enganam. Pela plataforma correm alguns atrasados, mas correm bem, sem se incomodar com os objetos que carregam. Afinal, são jovens. Como uns garotos em mais uma travessura, sorrindo, colocam mochilas e algumas outras coisas no meio do vagão e, depois de um pedido de licença e de desculpas, começa o show. Os três rapazes são músicos. Tocam alguns trechos da mais ampla MP(B). A maestria chama atenção, mas só ela não completaria o espetáculo. O sorriso está perfeitamente sintonizado com a música, faz parte integral desta arte. Os músicos e, depois, algumas pessoas no vagão, deixam se levar pela melodia e agora os corpos retratam o ritmo. Parece que até o trem batuca junto.
 
Mais uns sorrisos, um "obrigado", o pandeiro, como uma sacolinha, recolhe as moedinhas e algumas amassadas notas azuis. Porta se abre - porta se fecha. O momento - em si - acabou, mas você foi transportado para uma dimensão indescritível. A vida ganhou o novo sentido. Se for possível, eu me casaria com o banjoísta (o músico que toca banjo e o dono de um lindo sorriso).
 
Agora vamos às pesquisas...
 
Basta digitar, em "busca" do YouTube, algo do tipo "música metrô rio" e logo você se depara com a imagem e o som bem familiares. É possível notar que a formação não é, exatamente, fixa, mas possui um nome e uma história. É o grupo chamado "Mambembes" (entre os significados, fornecidos pelos dicionários, está o de um grupo de artistas de rua). Mambembes têm a sua página no facebook e por ali consegui identificar a formação que encontrei na noite de terça-feira passada.
 
O grupo assim se descreve: Mambembes é o encontro de artistas com o intuito de realizar intervenções urbanas e onde quer que seja. Realiza intervenções pela cidade, isto é, a proposta, primeiramente, é atuar como músicos de rua. Mas somos, acima de tudo, músicos. O repertório abarca diversos estilos, mas os mais presentes fazem parte da música brasileira, principalmente a regional.

A página no facebook traz, também, a lista dos músicos:
Felipe Lemos - Pandeiro
Mário Laignier - Violino
Yuri Rodrigues - Banjo
 
Tive a honra de ver e ouvir o Felipe (o do pandeiro) e o Yuri (músico freelancer, compositor, arranjador, intérprete, professor particular... sim, é este com quem me casaria HAHAHA, falando mais sério: ele também tem uma página no facebook). Nessa ocasião o violonista, Mário, (provavelmente) tinha sido substituído por um outro músico que tocava uma escaleta (o instrumento de sopro com o teclado), parecido com o Jamiliano, mas não tenho certeza...
 
 

 

10 de setembro de 2013

O amigo do noivo

 
(...)  o amigo, que está aí esperando, se enche de alegria quando ouve a voz do noivo. Esta é a minha alegria, e ela é muito grande (Jo 3, 29).
 
Recebi recentemente o convite para um casamento. O meu amigo vai se casar com o seu namorado no mês que vem. OK... na verdade é o seguinte: só o termo "amigo" está exato nas afirmações acima. Na verdade, o meu amigo não veio para me fazer um convite, mas para saber o que eu penso a respeito... Também fiquei na dúvida se trata-se de um casamento civil mesmo, ou apenas de um ato de formalizar a união estável, através da certidão e da escritura registrada no cartório. Tentei, mais tarde, tirar essa dúvida, mas, até o momento presente, não obtive resposta. Pelo que descobri, a união estável registrada no cartório não altera o estado civil – ou seja, os dois continuam solteiros. Já o casamento, registrado no cartório de registros públicos, altera o estado civil e faz do cônjuge um “herdeiro necessário”, que não pode ficar sem ao menos parte da herança. Assim como no casamento convencional, os noivos podem escolher o regime de bens (comunhão parcial, comunhão total ou separação total) e mudar o sobrenome (veja o esclarecimento no portal do governo brasileiro). Por outro lado, desde o mês de abril deste ano, aqui no Estado do Rio (e em vários outros), todo casal homoafetivo pode solicitar junto ao cartório, a habilitação direta para o casamento civil... (leia a matéria no JB).
 
Entretanto, lembro-me de que o meu amigo tinha dito sobre o pedido de casamento que recebeu do seu namorado. Tratava-se, de fato (entre outras coisas, é claro), das questões de herança. O meu amigo é relativamente jovem (sim, maior de idade) e o seu amado tem uns 50 anos... Enfim, perante à questão principal, esses são apenas detalhes e a questão é o que é que eu penso sobre isso...
 
Confesso que fiquei, por um (demorado) momento, simplesmente calado. O que é que eu deveria responder? Já percebi que o povo tem, entre as suas mais (con)sagradas frases, aquela que é capaz de extrair lágrimas, até do mais macho entre os machos e que diz, simplesmente: "Eu estou realizando o meu sonho". Diante desta afirmação, até o mais chato e perspicaz jornalista, fica calado (quem não se lembra dessas mesmas palavras na boca do Neymar, ao afirmar a sua transferência para o "Barça"?). Enfim, isso encerraria a nossa conversa: "Vai lá e realiza o teu sonho", mas confesso que fiquei na dúvida. Afinal, mesmo sendo homossexual, ainda me considero um católico (e o meu amigo, também é). Na mesma hora vieram à minha memória todas aquelas frases - praticamente gritos - da doutrina católica (seguem alguns trechos de "Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais" da Congregação para a Doutrina da Fé, de 2003):
 
- Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. O matrimônio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural. Os atos homossexuais, de fato, «fecham o ato sexual ao dom da vida. Não são fruto de uma verdadeira complementaridade afetiva e sexual. Não se podem, de maneira nenhuma, aprovar». (n. 4);
- Em presença do reconhecimento legal das uniões homossexuais ou da equiparação legal das mesmas ao matrimônio, com acesso aos direitos próprios deste último, é um dever opor-se-lhe de modo claro e incisivo. Há que abster-se de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação. Nesta matéria, cada qual pode reivindicar o direito à objeção de consciência. (n. 5);
- As uniões homossexuais não desempenham, nem mesmo em sentido analógico remoto, as funções pelas quais o matrimônio e a família merecem um reconhecimento específico e qualificado. Há, pelo contrário, razões válidas para afirmar que tais uniões são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efetiva incidência sobre o tecido social. (n. 8);
- (...) todos os fiéis são obrigados a opor-se ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (n. 10).
- A Igreja ensina que o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. O bem comum exige que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial como base da família, célula primária da sociedade. Reconhecer legalmente as uniões homossexuais ou equipará-las ao matrimônio, significaria, não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade atual, mas também ofuscar valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade. A Igreja não pode abdicar de defender tais valores, para o bem dos homens e de toda a sociedade. (n. 11).
 
E agora, José? Fiquei pensativo, porque, de um lado acredito em milagres e um deles seria a mudança de opinião da Igreja sobre esse assunto. Por outro lado, há bastante tempo, discuto (inclusive aqui, neste blog) e discordo de certas afirmações, contidas nos textos doutrinais da Igreja. Seria eu, portanto, um "fiel rebelde" (o mesmo que "o infiel")? Seria eu, ainda, um católico?
 
Enfim, comecei depois "enrolar" um pouco o meu amigo, só para adiar a minha resposta definitiva. Perguntei sobre algumas coisas, falei sobre outras, até chegar à conclusão: "Não sei o que dizer". Sei, porém, o que vou fazer: vou ao casamento do meu amigo e darei a ele o meu total apoio. Afinal, sou o amigo do noivo!
 
Confesso que surgiu, na ocasião, um desejo no meu coração de... casar também. Bem... no meu caso é um pouco mais complicado. A princípio, falta um candidato...

27 de agosto de 2013

Dilemas



Ele na minha casa?
Eu na casa dele?
Nós dois em uma casa nova?
...tudo isso, no caso de morarmos juntos...

Cada um independente no sentido profissional e financeiro?
Eu trabalhando e ele estudando?
Ele trabalhando e eu desempregado?

...e no caso de não morarmos juntos...
Encontros no final de semana?
Motel? ...tudo bem: Hotel, pousada?

De qualquer maneira é necessária a estabilidade financeira de, pelo menos, um de nós...

É claro, antes de tudo isso deve existir o Outro
e o amor entre nós.

Escrevi tudo isso como um ensaio.
Mas também para dizer que já estou pronto...

Para não ficar aqui só no nível de sonhos, transcrevo um interessante texto de Dom Aloísio Roque Oppermann, SCJ, Arcebispo de Uberaba, publicado na página da CNBB (aqui) no dia 14 de maio de 2011. Achei simpático...
 
Por que os casais hetero não querem e os gays querem?
 
Nos tempos atuais, sobretudo no meio urbano, moços e moças, não fazem muita força para se casar “de papel passado”. A multidão dos que apenas “ajuntam os trapos”, e vão morar juntos, cresce de ano para ano. Basta percorrer um bairro novo. Parece que os jovens temem assumir compromissos definitivos. O computador que hoje é o último grito, amanhã vai para o aterro sanitário. Os parceiros, convidados para uma “união no Senhor”, parecem preferir a provisoriedade. Ademais, as leis civis embaralharam tanto o direito da família, que ninguém mais precisa casar perante a lei. A legislação não favorece a estabilidade familiar. Caso queiram um documento de união civil, basta dirigir-se ao poder público, que o atestado será fornecido em pouco tempo. E logo em seguida, caso o considerarem necessário, podem obter o “divórcio instantâneo”, sem problema. Por que ainda casar, se a nova geração não sente mais utilidade no reconhecimento público da sociedade? E vejam que ainda nem estou falando do casamento religioso.
Agora vejam a luta dos gays. Querem que suas uniões sejam equiparadas às de uma família tradicional. Querem que existam leis que garantam a herança para o parceiro; que cada qual possa ter acesso ao sistema de saúde; que possam adotar crianças... Eles sabem se mexer. Mas não é este seu objetivo principal. Onde querem chegar, é obter o reconhecimento público da sociedade. É exatamente o que “homem e mulher”, no casamento tradicional, julgam poder dispensar. A aprovação pública de casamentos heterossexuais não é apenas útil, mas uma garantia para a estabilidade da família. A legislação civil não se ocupa em facilitar a perenidade da família. Sua maior preocupação é criar leis que facilitem qualquer veleidade de separação. Agora digo uma coisa. Para quem tem fé cristã, e tem verdadeiro amor ao parceiro, receber a bênção de Deus se torna um imperativo categórico. Isso vem em primeiro lugar. Também casar perante a lei civil é de grande valor. Mas vem em segundo lugar.

27 de julho de 2013

Conversa com o Fulano

Fulano: É verdade que você participou de um encontro de gays?
Eu: Verdade! Foi o 1º Encontro de Relatos e Experiências “O jovem homossexual na Igreja”, promovido pelo Grupo “Diversidade Católica”, no contexto da JMJ Rio2013. Foi ótimo, por sinal!
Fulano: Hm, sei, encontro de gays. Então, qual é a sua opção sexual?
Eu: A minha opção sexual? No momento, é o celibato, quer dizer, não estou com ninguém...
Fulano: Ah, você sabe do que estou falando! Qual é a sua opção na cama?
Eu: Opção na cama? Geralmente adormeço de lado. Esquerdo...
Fulano: Você não entende! Estou perguntando se você é homem, ou mulher!
Eu: Vi uma reportagem sobre o censo realizado, há um tempo, na Rússia. Filmaram uma jovem agente que foi entrevistar o presidente Putin. Ela simplesmente leu as perguntas e a primeira foi: qual é o seu sexo. É homem, ou mulher? A matéria dizia que aquela jovem só não foi presa porque o presidente achou muito engraçado tudo isso. Ora, sou homem, quer ver a prova?
Fulano: Que isso? Que prova?
Eu: Olha, eu faço barba, tenho a voz grossa e tenho também outras coisas que só o homem tem. Você não lê a Bíblia? Deus fez o homem e a mulher. Bem, em grande parte são homens e mulheres heterossexuais. Mas alguns não são...
Fulano: Você quer dizer, são homossexuais e lésbicas?
Eu: Não. As lésbicas também são homossexuais. O termo vem da antiga língua grega. “Homos” quer dizer “igual” e “sexus” é o sexo. As pessoas homossexuais sentem atração física, emocional, estética, afetiva, em relação aos indivíduos do mesmo sexo. E isso acontece tanto entre homens, quanto entre as mulheres.
Fulano: Ah, é? Não sabia... Então, é isso que eu estou perguntando, desde o início.
Eu: Você quer saber, então, qual é a minha orientação sexual? Ou, melhor, a minha identidade sexual?
Fulano: Opção, orientação, identidade... Tudo mesma coisa!
Eu: Não é! De acordo com o Aurélio, opção é a faculdade, o direito, ou a ação de optar, escolher entre duas, ou várias coisas. Eu li, recentemente, um discurso do Papa Bento XVI que critica uma “filosofia da sexualidade, sob o vocábulo «gender - gênero». Ele diz: “De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia. (...) O homem contesta o fato de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um fato pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria”. E prossegue: “Onde a liberdade do fazer se torna liberdade de fazer-se por si mesmo, chega-se necessariamente a negar o próprio Criador; e, consequentemente, o próprio homem como criatura de Deus, como imagem de Deus, é degradado na essência do seu ser”. Logo, não existe tal de “opção sexual”. Eu usaria o termo “orientação”, mas não no sentido de que eu teria me orientado. Não sou eu que orienta a sexualidade. É ela que me orienta, fazendo com que eu me volte para uma, ou outra direção. E quanto à identidade, em certo sentido, é quando eu me identifico com a minha sexualidade. Para muita gente é um processo longo e, muitas vezes, bastante difícil e doloroso. Com bastante frequência as pessoas dizem de um ato de “assumir” a (homo)sexualidade, seja perante si mesmo, seja diante dos outros. E quando eu fizer essa opção de me assumir perante as pessoas, aí sim, você vai saber, se eu sou gay, ou não. Pois, é isso que você quer saber, não é?
Fulano: Quer dizer, há possibilidade de você virar gay?
Eu: Sim, existe essa possibilidade. Só precisaria de ser um gay, no máximo, do meu tamanho, porque se for maior, eu poderia não conseguir virar.
Fulano: Hã?
Eu: E também depende da posição em que ele estaria. Se estiver deitado, é sempre mais fácil virar um magrinho, do que um do tipo Jô Soares, já imaginou? Agora, em pé...
Fulano: Poxa, é tão difícil conversar com você!
Eu: Você acha difícil? Vou citar, de novo, o Papa Bento XVI: “o primeiro obstáculo que encontramos é um problema de linguagem”... É da Encíclica “Deus caritas est”...

23 de junho de 2012

Retorno do "Retorno (G-A-Y)"


Meus amores, desculpem-me por ter abandonado este espaço virtual ao longo de vários meses. Não sei explicar diteito o que houve. Talvez tenha sido algo como deixar a roupa suja de molho ou um frango temperado de repouso para o dia seguinte... Aos eventuais preocupados digo: não deixei de ser gay nem de ser católico. Não desisti também da ideia de promover a reconciliação desses dois mundos, pois creio que, como aconteceu em mim, pode acontecer no mundo também. Acontecer o que mesmo? A reconciliação entre gay e católico, entre o "mundo gay" e a Igreja Católica. Antigamente este blog levava o nome de "Reconciliado consigo mesmo". Um dia desisti dele, mas, voltei correndo e criei este "retorno". Quem sabe, dei uma pausa agora, para reviver, de fato, um retorno.. Há muitos temas, várias reflexões, experiências boas e menos boas... Enfim ,creio que a inspiração tenha voltado.

Agora assistam um interessante (e provocante) vídeo:

30 de agosto de 2011

os dedos que apontam

Acabei de ler um artigo no portal católico GaudiumPress (aqui) sobre a Missa celebrada pelo Papa Bento XVI no encerramento de um encontro com os seus ex-alunos. O título deste artigo cita (ou, melhor: interpreta) uma das frases do Pontífice: "A nossa época sofre a ausência de Deus". As palavras originais de Bento XVI afirmam, de fato, algo semelhante: "Neste tempo da ausência de Deus, quando a terra das almas está árida e seca e as pessoas ainda não sabem de onde brota a água viva, peçamos ao Senhor que se mostre. Queremos rezar a fim de que àqueles que alhures buscam a água viva, Deus mostre que Ele é a água viva e a fim de que não permita que a vida dos homens e a sua sede de grandeza se afoguem e sejam sufocadas no efêmero".

Por coincidência (existe isso?) ouvi recentemente a conversa de um idoso sacerdote com o Dom Orani (o Arcebispo do Rio de Janeiro). O padre dizia que já estava na hora de fazer algo sério com um problema que tem aumentado e causado - particularmente no seu coração - a enorme angústia (para não dizer revolta). Trata-se de noivos que aparecem para marcar o casamento em sua paróquia, mas apresentam tragicamente baixo nível de vida religiosa. No desabafo daquele padre havia um tom de cobrança direcionada ao Arcebispo (como se falasse "O senhor tem que fazer alguma coisa com isso! Por exemplo exigir mais ou então proibir tal cerimônia às pessoas ignorantes!"). Dom Orani respondeu com umas perguntas: "E o que você, padre, fez com que aquela pessoas não fossem ignorantes? Como cuidou de sua religiosidade quando, ainda eram crianças ou adolescentes? Você percebe que ao acusar não se sabe quem, acusa-se a si mesmo?" É como naquele ditado: "Enquanto eu aponto o dedo para o outro, há quatro dedos apontando para mim".

"Voltando às palavras do Papa sobre a "ausência de Deus". Em vez de dizer: "Peçamos ao Senhor que se mostre. Queremos rezar a fim de que àqueles que alhures buscam a água viva, Deus mostre que Ele é a água viva", podia ter declarado: "O Senhor quer se mostrar através de nós. Rezemos por nós mesmos para que sejamos sinais vivos da presença de Deus no mundo de hoje".

28 de junho de 2011

Não quero brigar

A comemoração do Dia Mundial do Orgulho LGBT (hoje, 28 de junho), leva-me à reflexão futurista. Compreendo, apoio e acompanho a luta atual pelos direitos e pela dignidade do povo LGBT (com o qual me identifico de coração). Reconheço, também, que - como em todo tipo de guerras e revoluções - nem todos os métodos possuam a mesma eficácia (ou, mesmo, razão) e, às vezes tenho a impressão de termos dado um ou outro passo para trás. Mas, como dizem, isso faz parte de todo um processo. É, justamente, nesta concepção - de um processo - que ponho a minha esperança. Espero estar ainda vivo quando o processo em questão der fruto principal que é a normalidade. Ou seja, quando não vamos precisar mais lutar. Ah, sim! Sempre haverá uma necessidade de novas conquistas e de - digamos - manutenção das metas alcanaçadas anteriormente. Espero, porém, o fim daquela guerra desesperada. Não quero mais brigar. Quero viver em paz. Neste sentido, vêm à minha mente as figuras de Martin Luther King, Mahatma Gandhi ou de Nelson Mandela. Ninguém vai dizer que os seus sonhos realizaram-se completamente, mas, ainda que faltem coisas para consertar, aquilo que existe, pode ser chamado de certa normalidade. Espero, portanto, que daqui a uns anos, o Dia Mundial do Orgulho LGBT (quem sabe, um feriado), será a ocasião para fazer piquenique no parque (depois de uma Missa de ação de graças) e relembrar o passado doloroso que tinha valido a pena de ser vivido, mas que, felizmente, será mesmo um passado. Alguém pode me chamar de otimista exagerado. Eu sei, também, que alguns militantes GLBT só se veem lutando, mas, repito, eu não quero mais brigar.

14 de junho de 2011

mitologia católica


São muito de recomendar os exercícios piedosos do povo cristão, desde que estejam em conformidade com as leis e as normas da Igreja, e especialmente quando se fazem por mandato da Sé Apostólica. (Concílio Vaticano II, Constituição Sacrosanctum concilium sobre a Sagrada Liturgia, n° 13)

Na ocasião da memória litúrgica de Santo Antônio, aparecem os problemas antigos e nunca resolvidos que podemos chamar de "mitologia católica". Justamente como na religiosidade da Grécia Antiga havia Afrodite - deusa do amor e da beleza, Ares - deus da guerra, Hades - deus da morte, e Atena - deusa da sabedoria e da coragem (e muitos outros personagens), assim nós temos Santo Antônio casamenteiro, São Pedro que cuida (ou não) da meteorologia e, também, uma série de especialistas em causas impossíveis. Para conseguir um marido (não sei se vale para uniões de pessoas do mesmo sexo), aconselha-se colocar o Santo de cabeça para baixo em um copo d'água, ou tirar o Menino Jesus do colo da imagem, e só devolver depois que se consegue um marido (ou, pelo menos, namorado). Vale muito, também, uma promessa, por exemplo, de comparecer nas 13 novenas, ininterruptamente, durante um ano. Sem falar das coisas mais modernas e bastante simples, como mandar imprimir alguns milhares de "santinhos", certamente com alguma "oração milagrosa" no verso. Não falta, nessas horas, a presença generosa da soberana mídia, que faz questão de dedicar a esse assunto seus preciosos minutos. E como sabemos, uma grande parte do "povo católico" costuma basear as suas convicções, inclusive religiosas, naquilo que vê e ouve na telinha. Não é de estranhar que os evangélicos zombam da Igreja católica. Culpados somos também nós, os "devotos".

Achei interessante como a liturgia de hoje parece trazer a resposta clara a este tipo de equívocos. Vale lembrar que trata-se, simplesmente, de segunda-feira da XI semana do tempo comum e não de um formulário próprio, dedicado a Santo Antônio.  

Na primeira leitura (2Cor 6,1-10) temos a exortação e uma espécie de autodefesa de Paulo: Nós vos exortamos a não receberdes em vão a graça de Deus (v. 1). Em tudo nos recomendamos como ministros de Deus, com muita paciência, em tribulações, em necessidades, em angústias, em açoites, em prisões, em tumultos, em fadigas, em insônias, em jejuns, em castidade, em compreensão, em longanimidade, em bondade, no Espírito Santo, em amor sincero, em palavras verdadeiras, no poder de Deus, em armas de justiça, ofensivas e defensivas, em honra e desonra, em má ou boa fama; considerados sedutores, sendo, porém, verazes; como desconhecidos, sendo porém, bem conhecidos; como moribundos, embora vivamos; como castigados, mas não mortos; como aflitos, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo muitos; como quem nada possui, mas tendo tudo. (vv. 4-10) Parece que Santo Antônio (o ministro de Deus, como conhecido, sendo porém, bastante desconhecido), também quer se defender de todo exagero e distorção. Mas, ele não precisa de defesa, porque está na glória do céu e nada o pode atingir. Ele, de fato, gostaria de defender o próprio povo. E, certamente, conta com os pregadores e catequistas (que o têm por padroeiro), que teriam coragem de repetir a expressão de Jesus do Evangelho de hoje (Mt 5,38-42), também no contexto das devoções, ou melhor, da espiritualidade: Ouvistes o que foi dito...? Eu, porém, vos digo... (cf. vv. 38-39). Ou seja, não é bem assim...

O mesmo serve para muitos outros assuntos. Também para o tema da homossexualidade. Ouvistes o que foi dito? Eu, porém, vos digo...

12 de junho de 2011

Meu Dia dos Namorados



O PRIMEIRO foi um tipo de “mestre” que me levou ao mundo desconhecido, mas acabou deixando-me esgotado, emocional e financeiramente. Fugi. O SEGUNDO surgiu como o antídoto do PRIMEIRO. Talvez tenha sido por isso que terminamos em ciúmes e brigas. Tudo terminou, também, porque no horizonte já havia aparecido o TERCEIRO. Com este príncipe encantado e encantador – eu acreditava – tinha tudo para dar certo. Por algum tempo deu mesmo, até que surgisse - desta vez, no horizonte dele - o outro príncipe. Fiquei só. Em um ato de desespero, lancei-me ao QUARTO (que seria, de novo, um remédio). Mas o QUARTO revelou-se um bandido. Sobrevivi àquele relâmpago por pouco. Continuei só. Recentemente, ousei dizer “não” a um eventual QUINTO, talvez, por medo de novos traumas. O que posso dizer hoje, depois dessa viagem de uns 12 anos? Não sou mais o mesmo. E agradeço pela riqueza das lições existenciais.

Os meus sinceros PARABÉNS para todos e todas:
namorados e namoradas
apaixonados e apaixoandas
casados e casadas
os/as que estão começando
e os/as que comemoram tantos e tantos anos de amor
aos/às que estão em crise
...enfim...
AMEM E SEJAM AMADOS/AMADAS

8 de junho de 2011

Beleza total


Depois de ter lido/assistido várias declarações homofóbicas, decidi parar com isso e ocupar-me com algo positivo e mais leve. Inspirei-me no Blog-Amigo: "O.C. - Ouriço-Cacheiro" (aqui) para refletir sobre a beleza. É algo muito pessoal e - falando ainda dos opositores (e agressores) do mundo GLBTS - é uma pena que a briga de dois lados toma geralmente rumo teórico, com argumentos criados nos escritórios de políticos ou de religiosos e não deixa espaço para uma partilha de experiências. Muitos falam de homossexualidade como "opção" (entende-se: escolha), ou "desvio de comportamento", "más influências", etc. Pergunto eu: onde nessa história fica o MEU PADRÃO DE BELEZA? É possível escolher aquilo de que se gosta, ou - logicamente - o gostar é independente da vontade? Vou dar um exemplo. Nunca gostei de leite. Se fosse uma questão de vontade, ao saber de todos os seus benefícios, tomaria a decisão de gostar de leite. A mesma coisa acontece, por exemplo, com a música. MPB - adoro. Funk - detesto. Música sertaneja - não gosto. Pois bem. Se o meu olhar volta-se com admiração (e desejo) em direção aos rapazes jovens, magros, não muito altos, cujo sorriso acho encantdor, será que haveria possibilidade de "redirecionar" a minha atenção, por exemplo, para mulheres? Só para deixar claro: eu não acho as mulheres feias por serem mulheres. Vou dizer assim: "Esta mulher é bonita" e "aquele garoto é lindo". Dá para notar a diferença? Talvez eu esteja confundindo a beleza com a atração, mas acho que, até certo ponto, ambas se misturam (ou, pelo menos, encontram e influenciam). Concordo com Juan Heféstion (do blog citado acima) quanto à importância da beleza interior. Acho, porém, que o que realmente importa é a BELEZA TOTAL, ou seja, a exterior e a interior, juntas. É verdade que uma é capaz de complementar algumas falhas da outra, mas não é mesma coisa que substituir. Quem, portanto, procura cuidar de sua própria beleza, vai prestar atenção tanto ao interior quanto ao exterior, notando que, quanto mais estiver em paz consigo mesmo, terá reflexos disso mais evidentes, também em sua aparência. Lembro-me de um conhecido meu que, um dia, perguntou: "Você está amando?". "Por quê?!" - devolvi a pergunta. "Porque tá bonito!". De fato, naquele tempo estava vivendo uma das melhores fases do meu relacionamento amoroso. O amor transborda e revela a BELEZA TOTAL da pessoa. E quanto ao "padrão da beleza"? Cada um tem o seu próprio...

3 de junho de 2011

Ao Eduardo


Caros Leitores Amigos. Escrevo neste espaço para todos, tendo deixado bastante claro o caráter deste blog, logo no topo da página. As minhas postagens nunca têm um único destinatário, mas estão dirigidas a todos. Todos também têm a liberdade de dar a sua opinião. Leio com atenção cada comentário. Desta vez, permito-me escrever a um comentarista (não digo leitor, pois tenho dúvidas a respeito do principal atributo deste nobre título [leitor], que é de... LER). Transformei a minha resposta, junto com o comentário, numa reflexão aberta a todos. Como digo no texto: pelo respeito aos meus Leitores.
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Caro Eduardo, recebi e publiquei o seu comentário (aqui) e decidi transcrevê-lo nesta nova postagem. Tenho impressão de que Você não tenha entendido - ou lido direito - o texto da postagem em questão. Pode ser que eu não tenha conseguido explicar direito o fato de ser, eu mesmo, um homossexual que, apesar de tudo, procura cultivar a própria identidade cristã-católica. Por isso usei aquela figura de um fenômeno pesquisado pela física quântica, chamado "mundos paralelos". Deixei clara a minha tentativa de buscar meios para construir pontes, contatos, encontros entre esses dois mundos: o "mundo gay" e o "mundo cristão". Ao ler o seu texto - que achei bastante amargo e, sim, um tanto grosseiro - penso que Você não tenha tido a mesma preocupação (de buscar possibilidades de contato e diálogo). Se Você quiser, leia outras reflexões neste blog. Vai poder perceber (talvez) o meu ponto de vista e, quem sabe, um pouco da minha experiência de cristão e de gay também.

Eu não tenho medo de encarar a verdade nua e crua. Com meus 45 anos tive bastante oportunidades de fazê-lo e sei que isso pode ser bastante doloroso. Quando Você se refere ao "meu meio", não sei se está falando do "meio cristão" (como sugerem suas palavras), ou ao "meio homossexual", pois pertenço a ambos (por mais incrível que pareça). Concordo com Você em questão de muitos pregadores que condenam a homossexualidade e praticam o mesmo. Se Você encontrar uma palavra no meu blog que tenha sido uma condenação à homossexualidade ou aos homossexuais, dou-lhe também razão e assumo que sou "velho tipinho hipócrita". Mas, primeiro, venha me provar isso. No seu perfil do blogger (aqui) não consta nada sobre a sua idade, mas suponho que Você seja uma pessoa jovem. Não tenho argumentos suficientes para achar que Você não goste de ler ou tenha alguma dificuldade em compreender o que esteja lendo. Se for verdade, é inútil pedir que Você releia o texto em questão e, se tiver cultura suficiente, retrate-se em um novo comentário. Sinceramente, não espero que isso aconteça... Mas, pelo respeito (conhece esta palavra?) aos Leitores do meu blog, publico aqui, tanto o seu comentário, quanto a minha resposta.

Última palavra: quando Você diz: "Torço para que você se liberte de você mesmo", vêm na mina mente aqueles gritos de Silas Malafaia ou de outros malucos por aí que querem curar os homossexualidade. Ou Você quer me curar do cristianismo? Há um bom tempo, reconciliei em mim estas duas maravilhosas realidades. Sou gay. Sou cristão. Graças a Deus!
_______________________________________________

TRANSCREVO AQUI O COMENTÁRIO DE EDUARDO
(o texto comentado por ele está aqui)

"No momento, vejo-me numa "esquizofrenia existencial" que pode ser vista, também, como "hipocrisia forçada" ou "inevitável vida dupla". Com outras palavras: quando, de alguma maneira, estou "atuando" na Igreja, obviamente oculto o meu "lado B", quer dizer, a identidade homossexual. E, ao "atuar" no "mundo gay", por exemplo neste blog, escondo os pormenores da minha ligação com a Igreja." [Este é o fragmento do meu texto, ao qual Eduardo faz referência]

[Aqui começa, de fato, o comentário de Eduardo]:
Ao ler isso,senti pena,nojo e sei lá *me recuperando do choque*...medo,acho que você tem medo de encarar a verdade com realmente ela é,nua e crua. '-'
MUITA hipocrisia.E pensar que muitos no seu meio fazem o mesmo.Padres,pastores,todos pregando que a homosexualidade é algo do demônio,e muitos praticando.E pensar que quase fui na de vocês.Reprimindo meus desejos,e vivendo uma vida amarga em nome da promessa de Deus,da sociedade integra e seus bons costumes,e blá,blá,blá...

O que dói profundamente é que muitos gays[coitados!] são enganados por pessoas como você,o velho tipinho hipocrita do "faça o que eu falo,mas não faça o que eu faço"[a sociedade tá cheio de gente assim],acaba os confundindo,deixando-os ainda mais confusos e negando quem realmente são[ao invés de ajudar,condenam].

Desculpe se pareci grosseiro,foi o único jeito que encontrei para mandar a falsa moral religiosa se f***!

Torço para que você se liberte de você mesmo.^^

2 de junho de 2011

Mundos paralelos

A teoria dos mundos paralelos pertence originalmente à ficção científica, mas conquistou espaço, também, nas pesquisas da física quântica. Segundo alguns cientistas, entre os que abraçaram a ideia, os mundos paralelos são incomunicáveis entre si. Outros sustentam o contário. Por exemplo, a "teoria das cordas" (aqui) diz que nosso próprio universo é como uma bolha que existe lado a lado de universos paralelos semelhantes e esses universos podem entrar em contato entre si.

Não vou entrar em detalhes. Sempre tive problemas com ciências exatas. Bem, exceto à química, cujo professor era homossexual e costumava dar notas melhores aos rapazes, ainda que fossem analfabetos nessa matéria. Mas isso não vem ao caso. Ou vem? Quero utilizar aquela teoria para retratar a existência de, pelo menos, dois universos paralelos. Nem sei direito como definir o campo ou a dimensão em que eles se encontram (ou melhor: desencontram!). Seja o nível espiritual, cultural, moral, linguístico... enfim. Estou falando de "mundo gay" e "mundo das Igrejas" (ou religiões em geral). Quando leio ou escuto os argumentos de ambos os lados - pois "funciono", de certa forma, tanto em um, quanto no outro mundo - vejo razões, sinto paixões, reconheço preocupações. Entretanto, diferentemente da "teoria das cordas", não consigo perceber grandes possibilidades de diálogo e, menos ainda, de compreensão mútua. Talvez eu seja um pessimista. Com frequência, fico perguntando a mim mesmo: o que, de fato, pode ser feito para que o contato desses mundos paralelos aconteça? No momento, vejo-me numa "esquizofrenia existencial" que pode ser vista, também, como "hipocrisia forçada" ou "inevitável vida dupla". Com outras palavras: quando, de alguma maneira, estou "atuando" na Igreja, obviamente oculto o meu "lado B", quer dizer, a identidade homossexual. E, ao "atuar" no "mundo gay", por exemplo neste blog, escondo os pormenores da minha ligação com a Igreja. Posso estar errado, mas a intuição me diz que, justamente como na "teoria das cordas", quando esses universos (paralelos) interagem, acontece um Big Bang. Tenho certeza de não estar preparado para tal ocorrência na minha vida. Por outro lado, vejo a urgente necessidade desse contato. Como construir as pontes? Certamente, já existem sinais de aproximação. Nem todos nas Igrejas cristãs são homofóbicos. E nem todos no mundo GLBTS são "antieclesiais" (atnticlericais, antipapistas, anticristãos, etc.). Há esperança, apesar de muitos obstáculos. A minha esperança, em particular, está na ação do Espírito Santo e na promessa de Jesus de que o Paráclito nos conduzirá à plena verdade (cf. Jo 16, 13).

Encontrei, no blog "GLS é humano" (aqui) um vídeo que retrata bem a trágica realidade dos "mundos paralelos". Se a legenda ficar pequena demais para sua leitura, clique no canto inferior direito do vídeo e assista diretamente no YouTube.


28 de maio de 2011

Mistérios, segredos e curiosidades


Aparentemente, estas três palavras podem, em certas circunstâncias, servir como sinônimos. Pelo menos as duas primeiras: mistério e segredo. No texto da I leitura de hoje (At 16, 1-10), entretanto, notamos a diferença. O mistério é algo divino, sobrenatural. É inexplicável (a não ser que Deus queira revelá-lo) e o homem não tem a ousadia de perguntar por quê. São estas palavras: O Espírito Santo os proibira de pregar a Palavra de Deus na Ásia (v. 6) e eles tentaram entrar na Bitínia, mas o Espírito de Jesus os impediu. (v. 7) Também a visão de um macedônio (v. 9) é um mistério. Experimentar a misteriosa presença de Deus na nossa vida é algo tremendamente fascinante (redundância proposital, pois faltam-me palavras). E como o homem é a imagem e semelhança de Deus, ele também tem seus mistérios, ou melhor, segredos. Paulo - para mim - era um homem divinamente misterioso e humanamente cheio de segredos. Não vou entrar no tema da suposta homossexualidade dele, mas a relação com Timóteo, mesmo nesse pequeno trecho, está recheada de mistérios (aliás: segredos). Paulo que acabara de brigar com os irmãos de origem judaica por causa do preceito de circuncisão, agora faz este ritual com o rapaz. Sei lá... E basta ler as suas cartas aos remetentes individuais (Timóteo, Tito, Filêmon), para ver como ele os tratava, em contraste com o tom da maioria de suas referências a mulheres. Na minha opinião, não é a questão de mentalidade patriarcal, típica aos judeus, nem de machismo ou anti-feminismo. É um dos segredos de Paulo. A curiosidade do texto, por sua vez, está na repentina mudança de forma gramática da narração. No início temos: Paulo foi...; Paulo e Timóteo transmitiam... e atravessaram...; eles tentaram... (vv. 1. 4. 6 e 7). No versículo 10, porém, lemos: Depois dessa visão, procuramos partir imediatamente para a Macedônia, pois estávamos convencidos de que Deus acabava de nos chamar para pregar-lhes o Evangelho. Todo mundo sabe que foi o Evangelista Lucas que, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu Atos dos Apóstolos, como o segundo volume de sua obra (cf. At 1, 1). A ele, o Apóstolo Paulo, refere-se em suas cartas: “Lucas, o querido médico” (Col 4, 14), “Só Lucas está comigo” (2Tm 4, 11) e, na carta a Filêmon, Paulo menciona-o entre outros colaboradores: Marcos, Aristarco, Demas (Flm v. 24). Alguns autores e a própria lógica nos dizem que foi naquele momento que Lucas se juntou à equipe dos evangelizadores. Pode ser óbvio, mas não deixa de ser uma curiosidade.

Como diria Jô Soares, sem querer insinuar coisa alguma, já insinuando, estes são alguns dos mistérios, segredos e curiosidades que encontrei na I leitura de hoje. Mais tarde pretendo comentar o Evangelho (Jo 15, 18-21).

27 de maio de 2011

Uma loucura

Hoje quase surtei. Tinha acabado de abrir a página da CNBB para ler a mais recente “voz da Igreja” (na onda da polêmica sobre uniões homoafetivas). Ao mesmo tempo, chegava aos meus ouvidos, o áudio da “propaganda partidária obrigatória”. Alguns minutos mais tarde, ouvi a Presidenta Dilma falando coisas estranhas. Conclusão: não entendi absolutamente nada. Nem do bispo, nem do PSOL, nem da Dilma. Ora, eu não fumei nehuma erva. Mas eles... não sei! Dom Antônio Augusto Dias Duarte (Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro), em seu texto “A Bíblia e o frei” (aqui), tenta ser eloquente, mas o fio condutor do discurso, acaba se emaranhando. Como em outros casos de artigos publicados pela CNBB, consegui pescar dois “peixinhos” (ou duas pérolas) - frases interessantes do autor: [1] Ainda há tempo – se alguns freis, alguns ministros de tribunais, alguns políticos, alguns padres e alguns pastores permitirem –, de recuperar plenamente o sentido da Bíblia como o grande código de vida para as culturas, incluindo aqui também a cultura gay, para pensar e direcionar melhor todas as considerações sobre a homossexualidade. [2] (...) A Bíblia sempre existirá para que cada pessoa, com suas particularidades e com sua história singular, reconheça-se e valorize-se como criatura de Deus e como filha no Filho Eterno do Pai por obra do Espírito Santo, a fim de que responda à vocação do amor e da comunhão nela inscrita e aceite a própria identidade sexual e a viva na sua especificidade e na sua complementaridade. Queira me desculpar Dom Antônio Augusto, mas o resto do texto é, para mim, uma confusão e tanto. Quem quiser, leia na fonte, sob a sua própria responsabilidade. O meu conselho é de desligar a TV e tentar se concentrar. O que aconteceu comigo foi ouvir duas vezes, no meio daquela leitura desafiadora, as exclamações de partidários do PSOL que pretendem defender “homens, mulheres e homossexuais”. Eu devo não ter escutado direito. Será possível? Pensando bem, é mesma lógica que o bispo usa em seu artigo e que, para contestar o fenômeno da homossexualidade, cita a Bíblia: “Deus disse: façamos o ser humano à nossa imagem e segundo a nossa semelhança (...). Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus os criou. Homem e mulher Ele os criou” (Gen 1, 25-27). Vale notar que essa é a principal argumentação dos religiosos, opositores da união afetiva de pessoas do mesmo sexo: Deus criou o macho e a fêmea (como gritavam os outdoors de Silas Malafaia, espalhados pela cidade). Isso significa que, na opinião deles, a pessoa homossexual não é homem nem mulher. Deve ser então um monstro! Ou bicho! Aí vem, depois, a Presidenta e diz que “não vai ser permitido a nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais”. Por estar tentando, naquele momento, decifrar o propósito do texto de Dom Antônio Augusto, tive a impressão de que a Dilma havia se inspirado em uma das teorias do prelado: Em primeiro lugar, é politicamente inexato dizer que as pessoas nascem assim, pré-determinadas a uma biologia ou sujeitas necessariamente a uma definição cultural sobre a sua raça ou sobre o seu sexo. Quem diria que persiste ainda a ideia de que a identidade sexual seja uma opção, quer dizer, uma escolha. Putz! Se eu soubesse...

Corrija-me quem quiser!
Localize na web aquela propaganda do PSOL, porque eu possa não ter entendido direito.
Leia o artigo do bispo, porque eu fiquei perdido.
Tente interpretar as palavras da Presidenta, porque... sei lá!

Eu desisto...
Alguém tem um pouco de erva para compartilhar comigo?

25 de maio de 2011

A mola e a bola

Não pretendo entrar em detalhes da Terceira Lei de Newton (“Para cada ação há sempre uma reação, oposta e de mesma intensidade”), tampouco da Lei de Hooke (sobre a elasticidade de corpos). Estas e tantas outras leis e teorias procuram descrever e calcular os fenômenos que acontecem ao nosso redor. Não pretendo, também, escrever sobre coisas óbvias, embora tenha impressão de que o tal do óbvio não está tão evidente para muita gente. Gostaria de aplicar o método de Jesus para comentar certas situações e opiniões que, recentemente, ganharam bastante espaço na mídia, em nossas conversas e até em nobres salões onde estão sendo definidas as regras de vida. O método de Jesus chama-se parábola, parente próxima de alegoria. O Senhor dizia: vejam os lírios no campo, os pássaros, a mulher na cozinha e o rico que fazia festas todos os dias, etc. Por trás das figuras e imagens, surgia o mistério, revelado aos que tinham olhos para ver e ouvidos para ouvir. Muitos, porém, continuavam franzindo a testa e rangendo os dentes. O coração deles permanecia endurecido. Outros, enteretanto, ficavam fascinados com novos horizontes e abraçavam uma nova vida, nascida da nova visão. O primeiro fruto dessa boa-nova foi a alegria que nada e ninguém conseguia apagar. Tudo isso aconteceu há quase dois mil anos. Tudo isso está acontecendo hoje.

O portal católico Zenit publicou (em 27/02 – aqui) um texto que, entre outras coisas, afirma: Durante muitos anos, grupos homossexuais advogaram pela tolerância e pela eliminação das leis que eles consideravam discriminatórias. Agora que, em grande medida, eles venceram sua batalha, seu entusiasmo pela tolerância desapareceu. Os cristãos, que por razões de consciência sentem que não podem ser favoráveis ao comportamento homossexual, sofrem cada vez mais pressões.

Quando leio essas (e tantas outras) declarações de gente espantada e amargurada com o “avanço da minoria homossexual”, lembro-me, imediatamente, da mola e da bola. A bola quica e a mola se estica, depois de comprimida. É a coisa mais natural, previsível e comprovada pelas leis da física. Algo analógico acontece na história da humanidade. Basta ler um pouco de história, por exemplo, do ponto de vista de revoluções e guerras ou, simplesmente, de tantas transformações sociais, religiosas e políticas, mais ou menos pacíficas. A experiência de opressão, humilhação, persegição, etc., torna-se, em algum momento, a força da reação. Enquanto a Terceira Lei de Newton fala de "mesma intensidade", a força da reação social, geralmente, devolve com juros. É, justamente, como a mola. Comprimida e solta em seguida, a mola não volta, simplesmente, ao estado anterior de “relaxada”, mas pula mais alto e, só depois de alguns movimentos para cima e para baixo, alcança o equilíbrio. O que, no caso de mola ou bola acontece em poucos instantes, na história da humanidade leva bastante tempo. Podemos dizer que a comunidade GLBTS, oprimida por séculos, está ganhando a oportunidade de respirar. É claro que vai saltar o mais alto possível. Até mesmo para assegurar os seus direitos, negados por tanto tempo. Provavelmente, vai acontecer algum exagero, o que é natural. Exatamente, como aconteceu na abolição da escravatura, na emancipação da mulher, nos movimentos antirracistas, sem falar dos judeus, depois do Holocausto. Quem tem boa memória ou gosta de vasculhar a história, vai constatar que, em todos estes fenômenos, houve alguns equívocos. O mesmo acontece com a criança que começa a dar primeiros passos. Alguém viu uma criança que tenha desistido de ficar em pé por causa de tombos que levou? Como dizia Kleber Bambam do BBB-1, “faz parte”. Por isso, digo a todos os apavorados com as reivindicações da “lobby gay”: tenham paciência! Se vocês também colaborarem, em breve vamos alcançar o equilíbrio, desejado por todos. Haverá novo céu e nova terra. Nos parques da cidade veremos casais hetero e homossexuais, passeando de mãos dadas. Ninguém em nossas escolas vai ridicularizar e agredir os meninos efeminados e meninas com jeito de garoto. Em nossas festas de família haverá casais homossexuais e os pais irão convidar o namorado do filho para um churrasco. No exército, no futebol e em todas as outras áreas, ninguém vai ficar barrado no seguimento de sua carreira profissional. Haverá Pastoral para Homossexuais e os gays serão admitidos ao sacerdócio. Desaparecerão deputados idiotas e padres, jornalistas, professores (etc.) preconceituosos. Homossexuais poderão doar sangue.

Sonho? Delírio? Ou a lei da mola e da bola.
Se deixar quieto, haverá equilíbrio.