ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



_____________________________________________________________________________



Mostrando postagens com marcador críticas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador críticas. Mostrar todas as postagens

13 de outubro de 2013

O antidepressivo chamado gratidão

 
A palavra "depressão" tem vários significados. Além de ser o nome de um distúrbio mental, altamente debilitante, a ponto de ser considerado por muitos como o “mal do século”, o termo é usado no estudo de geografia (uma região da superfície da Terra cuja altitude é mais baixa que a região à sua volta. Quando esta região situa-se numa altitude abaixo do nível do mar, ela é chamada de depressão absoluta), meteorologia (uma zona da atmosfera onde a pressão atmosférica é mais baixa que à sua volta) e economia (longo período de estagnação econômica mais prolongado e severa do que uma recessão). Para quem não é um perito em psicologia/psiquiatria, em geografia, nem meteorologia/climatologia (tipo: eu), a imaginação leva a visualizar uma linha que marca o "nível zero". Logo, aquilo que estiver abaixo dessa linha, está em depressão.
 
Acredito na existência de uma depressão espiritual/intelectual/social que talvez não seja uma doença, mas consiste em uma séria limitação do horizonte existencial, ou seja, da percepção que temos de nós mesmos e do mundo em nossa volta. Uma das áreas mais prejudicadas é a dimensão espiritual (ou religiosa) e a outra, sem dúvida, é a nossa convivência com os demais seres humanos. Basicamente, trata-se de uma espécie de "deslocamento" dos valores para baixo. A nossa cultura/mentalidade é, de modo geral, malcontente. A nossa mídia é negativista. As nossas conversas revelam, em sua maior parte, a grande insatisfação com tudo e com todos. Perdemos a capacidade de enxergar o bem, porque o bem passou a ser visto como o "nível zero". E o zero não merece atenção, é apenas normal. É como o ar com o qual respiramos, mesmo sem percebê-lo. A consequência imediata dessa situação é uma falta de gratidão, quase absoluta. Provavelmente, até a palavra usada para expressar a gratidão, tenha sido contestada, por se associar à obrigação que, por sua vez, é a maior inimiga do relativismo vigente.
 
Atenção! Eu não estou pregando um "lulismo-paz-e-amor" barato, nem pretendo anestesiar a sensibilidade para com os males que assolam o nosso mundo. Denunciar o mal, lutar contra as injustiças, apontar os problemas... não tem nada a ver com a depressão cultural. É, antes, um ato de coragem, um sinal de boa vontade, enfim... é tudo de bom. O que estou tentando dizer é que, talvez devido à epidemia do mal e à sua ampla divulgação, tenhamos perdido a noção daquilo que é positivo, precioso, enriquecedor, o que torna a nossa vida melhor, o que nos faz crescer e, finalmente, desperta(ria) em nós a gratidão.
 
Os textos bíblicos da liturgia de hoje falam sobre isso. A questão de gratidão/ingratidão está mais nítida no Evangelho (Lc 17, 11-19): Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. Então Jesus lhe perguntou: “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?". O mesmo tema, frisando mais a gratidão (sem mencionar o lado oposto), apresenta o texto da I leitura (2Rs 5, 14-17). O sírio Naamã, já surpreendido pela simplicidade da graça de Deus, desdobra-se ao procurar a melhor maneira para agradecer pela cura. Descobre, finalmente, que a melhor forma de agradecer a Deus é o culto prestado a Ele. A ideia continua no Salmo (Sl 97): O Senhor fez conhecer a salvação e às nações, sua justiça; recordou o seu amor sempre fiel pela casa de Israel. Paulo, na segunda leitura (2Tm 2, 8-13), conclui com um conselho e um desabafo: Lembra-te de Jesus Cristo (...), suporto qualquer coisa.
 
Confesso que me entristece o fato de ver/ler/ouvir tantas declarações de agnosticismo e ateísmo (explícitos), de menor ou maior distanciamento dessa ou daquela religião, feitas pelos representantes do "mundo GLBTTS". Tudo bem, a ação gera a reação. Sinto, porém, por trás dessa contestação, aquela lógica da depressão cultural.  Por mais que alguém diga que tenha abandonado a instituição religiosa e não o próprio Deus, a direção continua a mesma. É possível pensar assim: "Eu abandono um «deus» que me foi transmitido pela Igreja e vou procurar o Deus verdadeiro". Se for realmente isso, tudo bem, mas na prática, abandona-se a religião e se esquece de Deus, ou não se acredita mais nem na sua existência.
 
Lembro-me de uma senhora que, em certa época, era a minha vizinha. Ela, desde a infância, tinha um grave defeito nos pés que não lhe permitia andar. A mulher vivia acamada, mas não me lembro de ter conhecido a pessoa que fosse mais alegre e otimista. Ela vivia louvando e agradecendo a Deus. Várias pessoas iam lá, na casa dela, para receber (não para dar!) o conforto em seus problemas e ela levava todo mundo à oração, à leitura da Bíblia e ao louvor. Muita gente saía de lá com a motivação renovada para agradecer a Deus.
 
Consciente de toda intolerância, homofobia, rejeição familiar e social e de tudo o mais que afeta a vida das pessoas GLBTT, pergunto: nós, de fato, não temos nenhum motivo para agradecer a Deus? O que somos e temos, consideramos - simplesmente - como o "nível zero" e o resto como "abaixo de zero"? Será que não podemos descobrir a gratidão (a Deus, às pessoas), como o antídoto para depressão? Eu sou capaz de dizer: "Agradeço a Deus pelo fato de eu ser gay"?

12 de outubro de 2013

O ser humano agredido

 
As redes sociais, especialmente o facebook, é uma espécie de mídia popular, onde cada um se torna jornalista, sociólogo, filósofo, político, juiz esportivo etc. Muita gente compartilha, multiplica, curte e comenta. Revela-se assim o nível intelectual das pessoas, bem como os seus (pre)conceitos, medos e preocupações. Sai, escondido sob a fachada do cotidiano, o caráter. Acabo de ler um texto bastante característico:
 
Um homossexual agredido é manchete de qualquer jornal brasileiro. Já a morte de dezenas de cristãos, em virtude de atos de violência planejados, como expressão de anticristianismo, é solenemente ignorada pela imprensa.
 
A polêmica entre os cristãos (de várias denominações) e os componentes do mundo GLBTTS continua. O que foi dito em tom de reclamação, só pode ter a seguinte resposta:
 
A cada minuto acontece o ato de violência contra o ser humano. Estão sendo agredidos os cristãos, os muçulmanos, os espíritas, os budistas, os hinduístas, os ateus, os heterossexuais, os homossexuais, os bissexuais, os travestís, os transgêneros, os idosos, as mulheres, os jovens, as crianças, os pobres, os ricos, os motoristas, os pedestres, os negros, os asiáticos, os nordestinos, os europeus... os seres humanos.
 
Os autores de comentários daquele tipo não se dão conta de que a maneira de expor as suas ideias em nada contribui para com a diminuição de violência. Bem pelo contrário. Sustentar a ideologia de "nós e eles" é um método eficaz de alimentar as antipatias que desabrocham em atos de violência.
 
Denunciar os atos de violência contra os cristãos é importante, afinal o cristianismo está na base de nossa sociedade ocidental e muitos se identificam com ele. Qual é, então, o propósito de fazer esse tipo de comparação? Será o espírito do Dia das Crianças que se espalhou hoje um pouco mais do que em outros dias? Alguém já viu um grupo de crianças brincando, onde acontecem as cenas de alta inveja, só pelo fato de que aquele coleguinha pegou um brinquedo abandonado que - de repente - outra criança resolveu pegar também, justamente, na mesma hora?

9 de outubro de 2013

Em parte, sou um conservador

 
O conservadorismo e o progressismo são dois conceitos que preenchem a cena política, revelam-se nas conversas à mesa do boteco e detectam-se em todos os níveis da vida eclesial. A regra que diz: "Os opostos se atraem", muitas vezes precisa de uma vírgula, para constatar: "atraem-se, para a guerra". Paradoxalmente, porém, com certa frequência, descobrimos que os mesmos opostos conseguem coexistir - sem entrar em guerra - dentro da mesma pessoa. Entre os famosos, o excelente exemplo, é o Beato João Paulo II, de quem se diz que era um progressista em questões da doutrina social e o conservador, em relação à doutrina moral. Mas, talvez, o paradoxo tenha sido apenas aparente. Se olharmos a um dos princípios fundamentais que, além do Evangelho, movia a atuação desta Papa - e este principio é o personalismo ético - ali mesmo iremos encontrar a luta pelos direitos trabalhistas, o combate à fome, o apelo pala paz, bem ao lado de absoluta proibição de preservativos, a veemente condenação das práticas (e uniões) homossexuais, do aborto e do divórcio.
 
É neste sentido que eu mesmo me defino como um conservador parcial. De um lado, penso sobre a releitura das passagens bíblicas sobre a criação do ser humano, a redefinição do conceito de castidade e o reconhecimento de homossexualidade como planejada (e não apenas admitida) por Deus. Por outro lado, porém, defendo a monogamia (mesmo em uniões homoafetivas) e questiono a parte mais radical da "ideologia trans".
 
Acho muito precioso e construtivo o livro de Klecius Borges, "Muito além do arco-íris - amor, sexo e relacionamentos na terapia homoafetiva". A obra reúne os questionamentos, trazidos pelos gays ao consultório de psicoterapia e apresenta os conselhos de um profissional (o próprio autor, psicoterapeuta, analista junguiano e mestre em psicologia clínica). Várias ideias sobre a estratégia de superação de traumas e problemas de relacionamento, são ótimas e, sem dúvida, muito úteis. O ponto de partida para todo este trabalho é o questionamento da heteronormatividade. Pergunto-me, entretanto, se a monogamia faz parte da (rejeitada) heteronormatividade, ou antes, é um princípio de "antroponormatividade", ou seja, define a forma de um laço afetivo fundamental que faz parte da natureza humana.
 
A proposta de experimentar o relacionamento poliamoroso (que permite ter um envolvimento sexual e emocional com mais de um parceiro), aparece várias vezes nas páginas do livro. Clecius escreve, por exemplo: Criados numa cultura homocentrada, na qual o casamento monogâmico representa o modelo saudável de relacionamento, e a não exclusividade sexual é tratada como traição, passível de várias penalidades, inclusive o divórcio, é natural que os homens gays (assim como os héteros) internalizem esse modelo a ser respeitado (p. 26-27). Relatando o caso de Samuel e Léo, o autor escreve: O que Samuel, e certamente também Léo, não sabe é que essa maneira de amar tem hoje um nome, poliamorosidade - isto é, o desejo e a capacidade de amar e de se relacionar amorosa e sexualmente com mais de um parceiro sem alimentar os sentimentos de posse e de exclusividade comuns nos relacionamentos tradicionais -, e é cada vez mais aceita e praticada por grupos de vanguarda comportamental. (...) compreendê-la e aceitá-la como uma forma legítima e saudável (...) me parece muito promissor, pois nela está plantada a semente de uma transformação criativa dos modelos tradicionais que, como sabemos, podem ser profundamente aprisionadores (p 72 e 74).
 
A minha opinião negativa sobre tal proposta, baseia-se na experiência própria e diz respeito apenas da minha perspectiva existencial. Enquanto não critico, nem condeno, as pessoas que vivem assim por opção livre e consciente, eu mesmo não consigo me ver nessa situação. Ainda que eu ame (de certa forma) e considere amigos, todos os meus 3 ex-namorados, não consigo imaginar a vida em formação de um triângulo (neste caso: um quadrado) como a união poliamorosa (poligâmica). Confesso que a cena de intimidade entre nós 4, até me parece possível (e interessante), mas apenas como travessura e não um estado permanente de "namoro". Acredito que o desejo primordial de poder chamar alguém de "(só) meu", faça parte na natureza do ser humano e não seja o atributo da heteronormatividade.
 
Mencionada acima, a minha contestação de algumas ideias mais extremas da "ideologia trans" é ainda mais firme. Tenho consciência de estar diante de um profundo, delicado e complexo mistério do ser humano, em busca de adequação da própria corporeidade com a afetividade e a identidade sexual. Estou totalmente a favor de todos os esforços possíveis que possam trazer a paz e a felicidade a uma pessoa. Reconheço, também, o enorme sacrifício com que as pessoas transgêneras pagam por isso. Não sou capaz, porem, de compreender aquela parte da teoria do gênero que propõe a livre e frequente mudança de sexo. Para mim, isso é a falta de identidade. Essa sugestão podemos observar na enquete "Teste a sua dependência de gênero", proposta pelo site da Letícia Lanz.
 
É possível perceber aqui que, em certas coisas, sou tradicionalista e conservador. Já era mais do que isso. Demorei mais de 30 anos para admitir a minha própria homossexualidade. Talvez, daqui a outros 30 anos (caso esteja vivo), aceite as ideias apresentadas aqui. Vou ter que admitir, também, que - devido à minha idade - tudo isso permanecera, realmente, apenas no nível das ideias. 

5 de outubro de 2013

Não brigo por este "gender"

 
Todos se lembram do caso de um policial que, durante o protesto dos professores no Rio, forjou a posse de morteiros para deter um jovem manifestante. Exceto a nota oficial da PM, todas as reações na mídia, nas redes sociais e em conversas particulares, são unânimes: é algo revoltante, vergonhoso, inaceitável e digno de punição. Certamente, os policiais recebem a formação profissional, inclusive a instrução sobre a conduta ética. Por outro lado, as situações extremas e estressantes, facilitam (ainda que não justifiquem) o fracasso moral, principalmente no caso de pessoas que, talvez, não tenham firmeza em sua própria estrutura psíquica, quem sabe, devido, por exemplo, às falhas na educação em casa. Não estou aqui para julgar as pessoas. Há instituições e autoridades para isso. Entretanto, gostaria de usar este exemplo como a introdução a outra questão que considero infinitamente mais grave, com todos os adjetivos já citados: revoltante, vergonhoso e inaceitável. Digo "infinitamente mais grave" porque não se trata de uns policiais despreparados que permitem a confusão externa tomar conta do seu interior. Falo de pessoas cultas, formadas em filosofia e teologia, conhecedores e adeptos (pelo menos assim se declaram) do Evangelho e dos mandamentos de Deus. Pessoas que sabem perfeitamente qual é o conteúdo do 8° Mandamento, ainda que tenham alguma obsessão doentia com o 6°...
 
Assisti - ou, melhor: tentei assistir - o programa do Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, fiel discípulo de Olavo de Carvalho e, também (suponho), de Jesus, sobre a "Ideologia de gênero". A minha dificuldade consistiu não apenas no fato de discordar de sua argumentação, mas também, em algum problema técnico do site que não permitiu (até agora) uma formatação melhor do vídeo [ATUALIZAÇÃO 07/10/2013: o programa editado está aqui]. O padre que gosta de usar a expressão "gayzismo", copiada do seu mestre Olavo de Carvalho, retrata o estudo (e a legislação) a respeito da identidade de gênero, como uma das mais poderosas armas da "ditadura gay(zista)", a mesma que tem por objetivo - segundo ele - a destruição da sociedade e da Igreja (através da destruição de família tradicional), bem como a introdução da "nova ordem mundial". Tudo isso tem o tom apocalíptico e, de fato, serve para difundir, ainda mais, a intolerância, em particular, a homofobia. O discurso do padre é eloquente e sempre inclui a citação de uma série de nomes e fontes internacionais. Essa eloquência, porém, não é capaz de ocultar o falso princípio que, ao ser detectado, desmascara a verdadeira intenção do ensinamento. Não é a defesa da família, nem da sociedade, mas sim, mais uma tentativa de desmoralizar as pessoas homossexuais, atribuindo a elas algo que não existe. É, justamente, como forjar o flagrante, como no caso daquele policial. Por isso digo: essa briga que o padre apresenta, não é minha. Eu não brigo por este "gender", até porque ele não existe, da forma apresentada por este padre.
 
Vou tentar explicar a questão de maneira mais breve possível. Para um estudo maior, recomendo assistir o discurso do padre e ler todos os materiais que ele indica. O resumo da aula encontra-se no texto, publicado junto ao vídeo. É uma espécie de panfleto, certamente preparado para os escudeiros do padre, para ser multiplicado e distribuído pelo Brasil afora (quem sabe, nas Paradas de orgulho gay[zista]). O título do panfleto, diga-se de passagem, pode ser perfeitamente aplicado, em resposta, a toda argumentação da aula: "Gênero" - Defina ou então não use! A palavra gênero foi politizada. Se ela for utilizada em um texto, deve ser definida para que todos possam estar conscientes do seu significado. Algumas feministas radicais usam "gênero" em contraposição ao "sexo". "Sexo" diz respeito à realidade biológica de masculino e feminino. "Gênero" diz respeito ao condicionamento social e às práticas culturais relacionadas com a masculinidade e a feminilidade. Os que defendem esta definição o fazem por crerem que todas as evidentes diferenças entre homem e mulher não são naturais, mas são produzidas pela "socialização opressiva de gênero" e a mulher será livre somente quando não seja obrigada a ser feminina por sua cultura. Além disso, creem que, enquanto o "sexo" é uma realidade fixa, o "gênero" é algo que se pode escolher. Esta interpretação é particularmente popular entre homossexuais e lésbicas [sic! - como se as lésbicas não fossem homossexuais]. Esta definição declara guerra à feminilidade natural.
 
No vídeo, o padre Paulo Ricardo, reforça esta afirmação: Na verdade, o que está por trás, é um outro conceito. O que está por trás é o fato que - segundo essas pessoas - o homem é uma massinha de modelar e você é construído como homem, ou é construída como mulher, ou é construído como homossexual, ou como lésbica, ou como transexual. Isto é uma questão de opção e não é sequer uma coisa fixa.
 
Quem não percebe, exatamente por trás deste discurso, a intenção de desmoralizar a luta GLBTTS pelos próprios direitos e pela dignidade, corre o risco de ser agredido, amanhã mesmo, em uma esquina qualquer, por um "católico" que - induzido ao erro - vai punir você, por ter escolhido ser gay. Afinal, a ira de Deus volta-se contra os infiéis. Certamente, ele não vai entender que você está sendo fiel a si mesmo, à sua identidade, ao seu gênero que, entretanto, não foi criado por você.
 
E quem pensa que a opinião deste padre é algo raro e individual, engana-se redondamente. Basta entrar nos sites "católicos" e conferir. Um deles, "Annales Historiae", publica o mesmo pensamento: A heterossexualidade está na base da complementariedade entre os homens e as mulheres. Mas outros preferem ver nisso um ponto de exploração, de dominação e de intolerância. Para combater esta situação, então eles trabalham incansavelmente para destruir o que eles consideram como um preconceito. (...) O indivíduo é intimado a escolher entre todas estas possibilidades (heterossexual feminino, heterossexual masculino, homossexual masculino, homossexualidade feminina, bissexualidade, transsexualidade e indiferenciado), com o direito fundamental de trocá-las, quando lhe apetece. (Obs.: Os conhecedores de língua portuguesa, ao menos em Portugal, sugerem que se use o termo "transexualidade" - com um "s")
 
É tão óbvia a falte de lógica na argumentação sobre a "opção" que, somente através de uma lavagem cerebral, é possível implantá-la na cabeça de quem quer que seja.
 
O Papa Bento XVI fez uma referência à "ideologia do gênero": [O rabino-chefe de França, Gilles Bernheim] cita o célebre aforismo de Simone de Beauvoir: «Não se nasce mulher; fazem-na mulher – On ne naît pas femme, on le devient». Nestas palavras, manifesta-se o fundamento daquilo que hoje, sob o vocábulo «gender - gênero», é apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia. (...) O homem contesta o fato de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um facto pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez. É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada.
 
Talvez existam pessoas que pensam assim, ou movimentos que queiram difundir tal teoria, mas com certeza não são os homossexuais. Repito: nenhum homossexual acredita ter o poder de decidir sobre a sua própria orientação sexual. A sociedade, tampouco, tem esse poder, porque, se tivesse, já não existiria um homossexual sequer na face da terra, graças à pressão da sociedade, em sua maioria, homofóbica. Quanto à "natureza pré-constituída", sempre pensei que a Igreja tivesse pregado a superioridade da alma em relação ao corpo e das coisas espirituais em relação às materiais. Pois, muito mais do que a minha corporeidade, é a minha psíquica e a afetividade, que definem a direção da minha sexualidade. O que "pré-constituiu" a corporeidade daquela criança que nasceu com 4 pernas na Índia? Ou de outra que nasceu com 4 braços e 4 pernas? Que era a encarnação do deus Vishnu, como tantos afirmavam? Não! Foram realizadas várias cirurgias, para que essas pessoas pudessem ter a vida normal. Foi a corporeidade que impedia essa normalidade de viver. E o que dizer sobre a Letícia Lanz que nasceu com o corpo masculino, mas, em sua essência, sempre foi uma mulher? Ela mesma diz: Por décadas, tenho vivido com um nome que não corresponde à pessoa que eu sou e que, como qualquer outra pessoa, eu também desejaria poder mostrar ao mundo, com orgulho e dignidade, em todos as ocasiões.
 
Pelo que sei, a ciência ainda não possui métodos para consertar o interior de um ser humano. Consegue, porém - e com grande sucesso - adequar o corpo à identidade da pessoa. E todas as tentativas de "adequar" a sexualidade foram desastrosas.
 
Acrescento, no final, mais uma observação. Eu creio, assim como o Papa Bento XVI e como a maioria das pessoas não-heterossexuais, que a criatura humana foi feita por Deus nessa dualidade de homem e mulher. Ser gay, não anula o fato de ser homem, assim como ser lésbica, não anula a feminilidade. Essa é a situação das pessoas transgêneras, a quem devemos o respeito, merecido por cada ser humano. Elas também, assim como todos os seres humanos, não escolheram a sua sexualidade por mero capricho. A dualidade do ser humano contém muitas identidades. Deus que, em Jesus, ordenou: Dizei somente sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno (Mt 5, 37), não criou o mundo preto e branco, mas sim, muito colorido. Tentar corrigir a obra do Criador, ou negar a sua diversidade, é um ato de estupidez e a manifestação de soberba que resulta em violência. É, exatamente, por dizer "sim" a Deus e a si mesmo, que as pessoas não-heterossexuais defendem a sua identidade e lutam por seus direitos.
 
A ilustração que ajuda compreender a diversidade do ser humano, encontrei no blog do Vinícius:
 

3 de outubro de 2013

proselitismo e consciência

 
Volto à última entrevista do Papa Francisco, concedida ao jornalista Eugenio Scalfari e às reações de alguns católicos que se apresentam como defensores da Tradição (entendida por eles como o sinônimo da verdade absoluta). Basta ler os comentários sobre a entrevista, no site "Fratres in Unum". O próprio portal publica, também, a sua opinião sobre a entrevista do Papa:
 
É muito difícil emitir um juízo sobre as intenções do papa a respeito. Pelo tamanho das “derrapadas doutrinais”, parece-nos que se trate mais de pouca inteligência misturada com a típica loquacidade achista episcopal latino-americana potencializada pelo próprio idealismo pauperista e espiritualista tão agradável à opinião pública e um certo surto de populismo ansioso, desejoso de aparecer e ganhar espaço nas manchetes. (...) Não nos assustemos com estes acontecimentos e com outros ainda piores que possam vir. Precisamos nos manter firmes na fé, pois o luxo da perplexidade já há muito tempo nos foi tirado, e agora nos resta o bom combate.
 
Os comentários sobre a entrevista e sobre o próprio Papa não são diferentes:
 
  • É pecado desejar que esse pontificado não demore?
  • Não é pecado pedir a Deus que nos livre do mal.
  • A coisa está ficando cada vez pior. Acho que nossa única arma é reclamar ao seu direto superior: Nosso Senhor, através de nossas orações. Também escreverei a quem o colocou lá, os cardeais, pelo menos os mais sensíveis à Tradição, para que tentem tomar providências para reduzir os danos…
  • Nossa, quando o Papa disse que não gostava de dar entrevistas fiquei até um pouco aliviado achando que não veríamos muito disso, mas infelizmente estava enganado. Com o número de católicos cada vez menor ele diz que proselitismo é bobagem? E olha que é jesuíta.
  • A entrevista é um desastre monumental. Eu não lembro de um Papa tão absurdamente fraco teologicamente. Proselitismo é besteira? A consciência sabe o certo e o errado? Política e religião são desconexas? Será que ele conhece o catecismo? Certa hora achei que o ateu tinha convencido o papa. Meu Deus!!!! Marana tha
  • Esse Papa não ama a Igreja. Ele só fala mal dela. Que humildade é esta que acha que tudo antes dele estava errado. Ele fala mal dos padres, dos bispos, dos que o antecederam, da cúria… ele não ama a igreja. Esse Papa não tem papa na língua. Fala demais
  • Considero irresponsável e imprudente o Summus Pontifex Ecclesiae Universalis conceder entrevistas. Será que não há ninguém no Vaticano para assessorar nosso Pontífice?
  • A casa caiu. É absolutamente claro que o Comunismo chegou enfim ao Papado.
  • Vivemos o momento histórico do inicio da Nova Era. A cada dia uma nova entrevista de preparação para ações que chocam os católicos. Voltemos para as catacumbas. Rápido!
  • Em breve começará as perseguições a quem ousar falar sobre tradição. Deus nos salve…..
  • Eu já visitei o túmulo de São Francisco de Assis. Se tivesse condições financeiras de voltar à Itália neste momento, voltaria a Assis e rogaria ao poverino para que o pontificado de Bergoglio seja o mais curto possível.
  • Li a entrevista com tristeza, incredulidade e, acima de tudo, com um sentimento de que fui abandonado por aquele que devia ser meu pai na Fé.
  • O Papa está confuso e eu muito mais!
Algumas pessoas expressam, de passagem, a sua admiração pelo Papa Bento XVI. Há quem lance uma ideia bastante curiosa:
 
Na época da renúncia de Bento XVI lembro ter lido em algum lugar que ao anunciar sua renúncia ele cometeu um erro em latim (não lembro se estava escrito ou se errou ao pronunciá-lo) e que isso invalidaria sua renúncia como tal. E se tal teoria for verdade? E se ocorreu mesmo esse erro que invalidaria a renúncia? Diversos acontecimentos nos fizeram e continuam a fazer pensar que o santo padre renunciou por pressões e influências externas… E se Bento XVI o fez de propósito para – mesmo tendo “renunciado” diante de todos – continuar a ser o verdadeiro papa. Pode parecer loucura mas diante dos acontecimentos recentes essa ideia não para de martelar minha consciência, isto é, a ideia de que Bento XVI continua a ser o verdadeiro papa.
 
Deixando de lado as opiniões mais extremas que consideram o Concílio Vaticano II uma heresia e a traição da verdadeira doutrina (como em um dos comentários que diz: A igreja conciliar do Vaticano II não é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana), vale lembrar o que disse sobre o proselitismo (um dos assuntos da entrevista que mais enfureceram os católicos fundamentalistas), o Papa Bento XVI:
 
A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por “atração”: como Cristo “atrai todos a si” com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor. (Missa de inauguração da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, Aparecida, 13 de maio de 2007). Esta afirmação reforça o ensinamento do Beato João Paulo II que escreveu: A nova evangelização não deve de modo algum ser confundida com o proselitismo, sem com isto negar o dever do respeito da verdade, liberdade e dignidade de cada pessoa. (Exortação Apostólica Ecclesia in Europa, n. 32).
 
A própria Igreja, de forma oficial, traz a definição da palavra "proselitismo": Originalmente o termo «proselitismo» nasce em âmbito hebraico, onde «prosélito» indicava aquele que, proveniente dos «gentios», passava a fazer parte do «povo eleito». Assim também no âmbito cristão, o termo proselitismo foi, muitas vezes, usado como sinônimo da atividade missionária. Recentemente, o termo tomou uma conotação negativa como publicidade para a própria religião com meios e motivos contrários ao espírito do Evangelho e que não salvaguardam a liberdade e a dignidade da pessoa.
 
Outro assunto, abordado pelo Papa Francisco em entrevista e que tanto escandalizou os católicos fundamentalistas tradicionalistas, é a consciência. Literalmente, o Papa disse: Cada um de nós tem uma visão do bem e do mal. Temos que encorajar as pessoas a caminhar em direção ao que elas consideram ser o Bem. Eugenio Scalfari responde: Santidade, o senhor escreveu isso em sua carta para mim. A consciência é autônoma, o senhor disse, e todos devem obedecer a sua consciência. Creio que este seja um dos passos mais corajosos dados por um Papa. Santo Padre prossegue: E repito aqui: Cada um tem sua própria ideia de bem e mal e deve escolher seguir o bem e combater o mal como concebe. Isso bastaria para fazer o mundo um lugar melhor.
 
Digo o seguinte: se todos esses leitores-comentaristas, católicos tradicionalistas, fundamentalistas ignorantes, acham o pensamento do Papa uma blasfêmia, uma heresia ou um absurdo - e, ao mesmo tempo, usam a Palavra de Deus para embasar o seu espanto - por que não consideram uma "derrapada doutrinal" a afirmação do Apóstolo Paulo que diz a mesma coisa? Tudo o que não provém de uma convicção é pecado (Rm 14, 23), ou um princípio da própria Igreja, que foi sancionado pelo 4º Concílio de Latrão  (ao qual, diferentemente do Vaticano II, eles se consideram fiéis): "Tudo o que se faz contra a consciência, prepara a condenação" (quidquid fit contra conscientiam, sedificat ad gehennam), ou então, a sentença de Santo Tomás de Aquino: precisa-se seguir a consciência, mesmo contra a força da Igreja (Sent. IV., díst. 38).
 
Uma conclusão:
 

24 de setembro de 2013

Luta livre ou vale-tudo?

 
No estilo de luta livre esportiva nem tudo é permitido e a aplicação de golpes proibidos por um dos atletas resulta em desclassificação. Por sua vez, a luta livre vale-tudo, ainda que parecida com o estilo do combate livre, permite socos, golpes, cotoveladas e joelhadas. Mesmo assim, continuam proibidas as condutas consideradas antiesportivas: cabeçada, dedo no olho, mordida, puxão de cabelo, além de utilizar linguagem imprópria ou abusiva no ringue. Enfim, não é permitido o golpe baixo intencional.
 
Podemos fazer aqui uma analogia com as regras que regem, até o combate militar. Todos nós acompanhamos a situação na Síria e o assunto mais falado é, justamente, o uso de armas químicas. Neste contexto, está sendo lembrada uma lista de ações militares que estão fora do conceito de uma guerra justa, ou seja: diferentemente do que diz o pensamento popular "tudo vale no amor e na guerra", não é tudo que vale. Entre as formas ilegítimas de guerra (portanto, proibidas), definidas em acordos internacionais, destacam-se: ataques contra civis não engajados nas batalhas, incluindo qualquer violência sexual, recrutar ou utilizar crianças menores de 15 anos nas forças armadas, matar ou ferir militares que tenham deposto suas armas ou não estejam em condição de se defender, o tratamento desumano de prisioneiros, incluindo torturas físicas ou psicológicas, usar gases tóxicos e outros tipos de armas químicas, ou utilizar armamentos capazes de causar ferimentos desumanos e muitas outras ações. Ainda que o termo "guerra justa" esteja presente no pensamento da Igreja, pelo menos, desde Santo Agostinho, até os dias de hoje (cf. CIC 2307-2317), a opinião sobre a guerra que representa o meio mais bárbaro e mais ineficaz para resolver os conflitos (João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1982, n. 12), está muito clara: Entre os sinais de esperança, há que incluir ainda o crescimento, em muitos estratos da opinião pública, de uma nova sensibilidade cada vez mais contrária à guerra como instrumento de solução dos conflitos entre os povos, e sempre mais inclinada à busca de instrumentos eficazes, mas « não violentos », para bloquear o agressor armado. João Paulo II, Encíclica Evangelium vitae, n. 27).
 
Feitas essas ressalvas, vou ao assunto principal. A impressão que tenho é que existe uma área, na qual não funcionam as mínimas regras de conduta, análogas às leis de guerra ou de luta livre. É a mídia, inclusive, a mídia católica. Vale lembrar aqui uma definição clara, fornecida pela própria Igreja: É necessário, sobretudo, que todos os interessados na utilização destes meios de comunicação formem retamente a consciência acerca de tal uso, em especial no que se refere a algumas questões agudamente debatidas nos nossos dias. A primeira questão refere-se à chamada informação, ou obtenção e divulgação das notícias. É evidente que tal informação, em virtude do progresso atual da sociedade humana e dos vínculos mais estreitos entre os seus membros, resulta muito útil e, na maioria das vezes, necessária, pois a comunicação pública e oportuna de notícias sobre acontecimentos e coisas facilita aos homens um conhecimento mais amplo e contínuo dos fatos, de tal modo que pode contribuir eficazmente para o bem comum e maior progresso de toda a sociedade humana. Existe, pois, no seio da sociedade humana, o direito à informação sobre aquelas coisas que convêm aos homens, segundo as circunstâncias de cada um, tanto particularmente como constituídos em sociedade. No entanto, o uso reto deste direito exige que a informação seja sempre objetivamente verdadeira e, salvas a justiça e a caridade, íntegra. Quanto ao modo, tem de ser, além disso, honesto e conveniente, isto é, que respeite as leis morais do homem, os seus legítimos direitos e dignidade, tanto na obtenção da notícia como na sua divulgação (Decreto Inter Mirifica do Concílio Vaticano II, n. 5).
 
O espaço virtual está repleto de entidades (sites, páginas, blogs), ditas "católicas" que, apesar dessa pretensão em (ab-)usar o adjetivo "católico", ferem gravemente os legítimos direitos e a dignidade das pessoas, sempre quando lhes convém. O exemplo de hoje é o caso de um padre australiano, Greg Reynolds que foi destituído e excomungado pelo Papa Francisco. Um destes "católicos" meios de comunicação, o portal "Logos - apologética cristã" escreve em tom de vitória: Papa Francisco excomunga padre pró-casamento gay. Ele não é o liberal que a mídia quer. E acrescenta: A mídia secularista, golpista e desonesta, junto com os famigerados militantes e ativistas gays e abortistas tiveram sua alegria de curta duração: o papa é fiel e ardente defensor da moral tradicional. No mesmo texto desta "notícia do dia", o próprio portal se contradiz. Depois de comemorar a derrota dos inimigos, diz: O documento de excomunhão – escrito em latim e não dando o motivo – e de 31 de maio, o que significa que está sob a autoridade do papa Francisco, que ganhou as manchetes na quinta-feira pedindo uma Igreja menos obcecada por regras. Percebendo, talvez, a própria contradição, acrescenta: O documento pode não dar nenhuma razão explícita, mas a razão é implícita e bem compreendida: Reynolds ofendeu a Igreja Mãe com sua política (opiniões radicais sobre mulheres no clero e “casamento” gay).
 
Pesquisando, porém, mais um pouco, podemos chegar facilmente a outras informações que, convenientemente, o portal "Logos" omite. O portal "Ecclesia", informa que na manhã desta terça-feira, 24, agências de notícias internacionais divulgaram o decreto de excomunhão contra o padre australiano Greg Reynolds que se manifestou em reiteradas ocasiões a favor do casamento homossexual e a ordenação de mulheres. (...) Há dois anos o ex-padre havia sido afastado da paróquia a que pertencia em Melbourne e agora recebeu oficialmente o parecer da Igreja quanto ao seu futuro. Segundo Reynolds, o documento de excomunhão, escrito em latim, foi emitido sobre a autorização do próprio Papa Francisco. Após ter sido suspenso em 2011 das funções sacerdotais dedicou os últimos meses a fundação de um grupo chamado "Inclusive Catholics", dedicado a promover o ativismo gay dentro da Igreja.
 
Outro portal católico, "Fratres in unum", citando as testemunhas oculares, diz que em 5 de agosto [de 2012] um cão recebeu a comunhão em uma celebração de “católicos inclusivos”, um movimento de Melbourne lançado pelo Padre Greg Reynolds, um padre suspenso da arquidiocese. Após defender a ordenação de mulheres em uma homilia de 2010, o Padre Reynolds teve as suas faculdades suspensas pelo Arcebispo Denis Hart e renunciou ao seu pastoreio. Atualmente ele organiza celebrações para um grupo variado de católicos desafetos. O periódico The Age noticiou que uma mulher conduziu a celebração, enquanto o Padre Reynolds “desempenhava um pequeno papel da maneira que podia.” Parece improvável, portanto, que a cerimônia tenha sido uma Missa válida ou que o pão fosse realmente consagrado. Contudo, The Ager relatou que a congregação suspirou quando um participante administrou a comunhão ao cão. O Arcebispo Hart emitiu uma declaração dizendo “que é uma abominação qualquer pessoa alimentar um cão com a Eucaristia.” Em um protesto ao The Age, o Arcebispo disse que o relato do jornal sobre a cerimônia “somente pode ser entendido como uma tentativa de ridicularizar o catolicismo”.
 
A conclusão é simples: antes de uivar a "derrota dos gayzistas", os usuários da mídia (principalmente católica), teriam que cumprir o seu dever de consciência para com a virtude de honestidade e renunciar à tentação de manipular a informação.
 

Padre Pio e a natureza

 
Hoje é o dia que a Igreja dedica à celebração da memória de um dos mais famosos Santos dos tempos recentes: o Padre Pio de Pietrelcina. A sua fama refere-se, principalmente, aos estigmas (as chagas de Cristo, carregadas pelo Padre Pio durante 50 anos), mas também a outros dons extraordinários, como a bilocação (o dom sobrenatural de estar em dois lugares simultaneamente), a leitura da mente/consciência dos penitentes e aos milagres que ele realizava. O que surpreende na história deste santo é que ele tinha sido perseguido pela Igreja, inclusive pelo Santo Ofício (antes chamado Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal  e, atualmente, Congregação para a Doutrina da Fé) e, mais tarde, pela mesma Igreja, foi canonizado. Longe de ter sido um pedido de perdão em nome da Igreja, o rito de canonização do Padre Pio, em 2002, contou com esta observação de João Paulo II: A imagem evangélica do "jugo" recorda as numerosas provas que o humilde capuchinho de San Giovanni Rotondo teve que enfrentar. Hoje contemplamos nele como é suave o "jugo" de Cristo e verdadeiramente leve o seu fardo quando é carregado com amor fiel. A vida e a missão do Padre Pio testemunham que as dificuldades e os sofrimentos, se forem aceitos por amor, transformam-se num caminho privilegiado de santidade, que abre perspectivas de um bem maior, que só Deus conhece. Na cerimônia da beatificação, em 1999, as palavras do Papa foram um pouco mais diretas: Não menos dolorosas, e humanamente talvez ainda mais fortes, foram as provações que teve de suportar como consequência, dir-se-ia, dos seus singulares carismas. Na história da santidade às vezes acontece que o escolhido, por especial permissão de Deus, é objeto de incompreensões.
 
Aqui fica um pouco mais claro o título deste texto. A Igreja tem algum tipo de obsessão em relação à natureza. Uma instituição que se apresenta ao mundo como "guardiã do sobrenatural", tem dificuldade de reconhecer os fenômenos que não se encaixam no conceito de "natureza". A Congregação para as Causas dos Santos, declara: O mundo muda, mas os santos, embora também mudem com o mundo que se transforma, representam sempre o mesmo rosto vivo de Cristo. Não existe nisto, porventura, um indício inconfundível da vitalidade peculiar, metacultural e meta-histórica para nós, católicos, "sobrenatural" é a palavra justa do anúncio e da Graça cristã?
 
Pois é, Deus não se submete às leis da natureza. Ou, talvez, Ele mesmo tenha revelado as dimensões desconhecidas dessa mesma natureza. Já o rei Salomão, considerado um dos maiores sábios na história da humanidade, assim expressou a sua pequenez: Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa no céu? E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos céus vós não lhe enviais vosso Espírito Santo? (Sb 9, 16-17). Façamos aqui uma conexão direta com a promessa que Jesus deu aos seus discípulos, depois de ter constatado a limitação deles: Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade (Jo 16, 12-13). É importante notar aqui que, mesmo depois de terem sido revestidos com o poder do alto (cf. Lc 24, 49), os Apóstolos apresentavam grandes dificuldades em compreender os desígnios de Deus. Não foi e não está sendo diferente na Igreja, até o dia de hoje. Com outras palavras, a ação do Espírito Santo que consiste em conduzir a Igreja à plena verdade, continua e continuará até o fim dos tempos. As palavras de Jesus "Sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?" não perderam a sua atualidade.
 
Vejamos agora, qual é a maior razão das dificuldades que a Igreja tem em relação ao reconhecimento dos direitos de pessoas homossexuais:
 
- Os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados. (CIC, 2357)
- O Catecismo distingue entre os atos homossexuais e as tendências homossexuais. Quanto aos atos, ensina que, na Sagrada Escritura, esses são apresentados como pecados graves. A Tradição considerou-os constantemente como intrinsecamente imorais e contrários à lei natural. Por conseguinte, não podem ser aprovados em caso algum. (Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais..., n. 2)
- Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimónio e a família. O matrimónio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural. (Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, n. 4)
 
Um site "ultracatólico" (Veritatis splendor), tenta explicar as coisas assim:
O homossexualismo pertence à primeira classe dos pecados de luxúria. Ele não se contenta em usar da natureza contra a reta razão: viola a própria natureza. Entre os vícios contra a natureza, ele ocupa o segundo lugar, perdendo apenas para a bestialidade. Talvez seja por sua especial gravidade que esse pecado tenha sido escolhido como motivo de "orgulho", com marchas, campanhas e ameaça de perseguição aos discordantes ("homofóbicos"). Quem exalta o homossexualismo deve fazê-lo com a intenção de afrontar a Deus ao máximo.
Os que não entendem que o homossexualismo seja antinatural, talvez usem "natural" no sentido de "habitual". O hábito, porém, não se confunde com a natureza. Um hábito acrescentado à natureza produz uma inclinação que a natureza, por si só, não tem. Um hábito contrário à natureza é capaz de inclinar a faculdade a agir contra a natureza. Tal inclinação habitual, não é, porém, natural.
Como se diz em algumas ocasiões, será necessário começar por Adão e Eva, mas isso só na próxima vez. Apenas vou adiantar que é, justamente, o contrário do que "explica" o site acima. Por exemplo, por mais que seja habitual, voar de avião, é totalmente antinatural.
-------------------------------------------------------------
Fica comigo, Senhor,
pois é só a Ti que procuro,
Teu amor, Tua graça, Tua vontade,
Teu coração, Teu Espírito, porque Te amo,
e a única recompensa que Te peço
é poder amar-te sempre mais.
Como este amor resoluto desejo
amar-Te de todo o coração
enquanto estiver na terra,
para continuar a te amar perfeitamente
por toda a eternidade.
Amém.
(S. Padre Pio)

21 de setembro de 2013

As curiosidades do fundamentalismo

 
Recebo, via e-mail, os anúncios de novas edições do programa de Padre Paulo Ricardo e de seus artigos, através de assinatura que fiz, há algum tempo. O nome do site é "Christo nihil praeponere". Nestes dias aconteceu algo curioso: recebi o anúncio de um novo artigo, abri, dei uma olhada e deixei para ler melhor, mais tarde. Aconteceu, porém, o misterioso sumiço da matéria (veja aqui) e a página não está mais disponível. Ainda bem que estamos lidando com o pessoal fervoroso e muito ágil. Há, no espaço cibernético, muitos seguidores desta "doutrina". Encontrei o artigo, assinado pela "Equipe Christo nihil praepondere", na página "Amor mariano", mas, como se trata da mesma linha de pensamento, provavelmente, em breve, o texto também não estará mais disponível.
 
O título do artigo é: "Alguém deixou as janelas abertas" e faz referência muito clara às ideias e atitudes do Beato Papa João XXIII, especialmente à sua decisão de convocar o Concílio Vaticano II. O texto cita o famoso trecho da homilia de Paulo VI de 1972 (original, em italiano, no site do Vaticano), especialmente a afirmação: “por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus”. Em seguida, os autores (?) citam a constatação de seu mestre maior, Olavo de Carvalho: "Ao confessar que (…) ‘a fumaça de satanás entrara pelas janelas do Vaticano’, o papa Paulo VI esqueceu de observar que isso só podia ter acontecido porque alguém, de dentro, deixara as janelas abertas". Diga-se de passagem que, talvez esteja na hora de definir quem é o mestre do Padre Paulo Ricardo: Olavo de Carvalho, ou Jesus Cristo...
 
Vale a pena confrontar aquela frase do "filósofo", com as palavras do próprio Papa Paulo VI: "Para algumas categorias de pessoas olha a Igreja com particular interesse, da janela do Concílio aberta sobre o mundo: para os pobres, para os necessitados, para os aflitos, para os famintos, os que sofrem, os encarcerados, os que têm fome; isto é, olha para toda a humanidade que sofre e chora, pois a Igreja sabe que esta lhe pertence, por direito evangélico; e gosta de repetir a quantos a compõem: «Venite ad me omnes»: vinde a mim todos. (Paulo VI, Discurso na Inauguração da 2a Sessão do Concílio Vaticano II, 29. 09. 1963).
 
O texto do site de Padre Paulo Ricardo, especializado em lançar as mais diversas teorias de conspiração e em criar (ou reproduzir do seu mestre) os neologismos, cheios de amor fraterno (por exemplo "gayzismo"), prossegue: Pensou-se estar inaugurando na Igreja um “novo Pentecostes”. A perspectiva de muitas pessoas na década de 1960 e também nas gerações seguintes era que se vivia uma “primavera” na Igreja. Ao contrário, hoje se experimenta o que o Cardeal Walter Kasper chamou de “uma Igreja com aspecto de inverno”, com “claros sinais de crise”.
 
Façamos mais uma acareação. O Papa Bento XVI, durante a sua viagem a Portugal em 2010, disse no encontro com os bispos: "confesso-vos a agradável surpresa que tive ao contatar com os movimentos e novas comunidades eclesiais. Observando-os, tive a alegria e a graça de ver como, num momento de fadiga da Igreja, num momento em que se falava de «inverno da Igreja», o Espírito Santo criava uma nova primavera, fazendo despertar nos jovens e adultos a alegria de serem cristãos, de viverem na Igreja que é o Corpo vivo de Cristo. Graças aos carismas, a radicalidade do Evangelho, o conteúdo objetivo da fé, o fluxo vivo da sua tradição comunicam-se persuasivamente e são acolhidos como experiência pessoal, como adesão da liberdade ao evento presente de Cristo."
 
A constatação que o texto desaparecido, originalmente publicado na página do Padre Paulo Ricardo, que, talvez, precisasse de uma modificação do nome, para "Ego nihil praepondere", é seguinte: "Não é preciso ir muito além para perceber que inúmeras ovelhas, ao redor do mundo, ao invés de serem apascentadas por bons pastores – exemplos do Pastor supremo das almas, Jesus Cristo –, eram conduzidas e ameaçadas por lobos vorazes. Estes lobos vestidos em pele de cordeiro, ao invés de oferecer aos filhos da Igreja o seu ensinamento de dois mil anos, o seu riquíssimo patrimônio espiritual e o valoroso exemplo dos santos, deixavam perdidas as ovelhas com um falso evangelho que eles mesmos tinham inventado." Ainda que não diga claramente, o "autor" faz alusão às expressões de São Paulo: Estou admirado de que tão depressa passeis daquele que vos chamou à graça de Cristo para um evangelho diferente. De fato, não há dois (evangelhos): há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado! (Ga 1, 6-9).
 
Tudo bem, vejamos como é que se cria um "evangelho diferente", fazendo com que a boa nova deixa de ser tão boa. Quando não é possível ocultar aquilo que já foi dito (o exemplo é o mencionado artigo, publicado e retirado do site), trata-se de desvirtuar o sentido das palavras - algo que, inclusive, os mesmos "donos da verdade" atribuem aos seus adversários. Podemos lembrar aqui mais uma expressão de Paulo que diz, logo depois de ter abordado os assuntos ligados aos "homens [que] arderam em desejos uns para com os outros" (Rm 1, 27): Assim, és inescusável, ó homem, quem quer que sejas, que te arvoras em juiz. Naquilo que julgas a outrem, a ti mesmo te condenas; pois tu, que julgas, fazes as mesmas coisas que eles. (Rm 2, 1).
 
Vamos ao que interessa. Nestes dias, as palavras do Papa Francisco, pronunciadas em uma entrevista, repercutiram bastante na mídia. Algumas afirmações foram recebidos com entusiasmo por muitos que identificaram nelas a boa nova de esperança. As palavras do Papa são claras. Como fazer, então, para que perdessem essa clareza? Vejamos em outro blog, ainda mais radical do que aquele do Padre Paulo Ricardo.
 
Chama-se "Deus lo vult" (de Jorge Ferraz de Recife que apresenta a sua obra assim: "Deus lo vult", é a versão latina do “Dieu le veut!” francês, que significa “Deus o quer!” e que foi o grito dado pelos soldados franceses em resposta à convocação das Cruzadas feita pelo Papa – brado que se tornou daí em diante o grito de guerra dos cruzados) e fala, inclusive, no tom tão característico e conhecido, por exemplo, nas ruas do Brasil e do mundo, sobre os homossexuais e, de modo particular, sobre os homossexuais católicos e as suas associações, tais como "Diversidade Católica" (se quiser, leia aqui: Deus lo vult).
 
Mas, não é sobre isso que pretendo falar hoje. Volto às repercussões da entrevista do Papa. O blog (por que não mudar, para "Deus non lo vult", ou "Ego lo vult"?) - visivelmente assustado com a clareza das expressões do Santo Padre - "ajuda" a interpretar o pensamento do Pontífice, para que se possam evitar perturbações provocadas pela situação atual e por outras idênticas a ela que já apareceram e sem dúvidas ainda haverão de aparecer enquanto houver jornalismo medíocre no mundo [sic!]. Qual é o método? É o mesmo que tentou argumentar a respeito de pequeno (ou nenhum) valor das declarações do Papa sobre os gays, só por terem sido dadas em um avião e não em forma de algum documento pontifício. Desta vez, a alegação é seguinte: Como se trata de uma entrevista, o Papa Francisco está dando uma resposta para uma pergunta específica, e portanto é óbvio que o alcance de suas palavras deve estar circunscrito ao contexto dela. É evidente que elas não servem para guiar toda e qualquer ação dos católicos, pela simples razão de não ter sido isso o que foi perguntado a Sua Santidade.
 
Deu para perceber? Resposta do Papa a uma pergunta específica, não serve para guiar toda e qualquer ação dos católicos. Vejamos, qual foi uma dessas perguntas específicas (notemos que o próprio Papa facilita aqui a reflexão, até de gente pouco inteligente, ou cega no seu fundamentalismo):  Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com uma outra pergunta: “Diz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a?” É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Um pouco antes, no mesmo texto, o Santo Padre faz referência às pessoas homossexuais que se sentem rejeitadas pela Igreja: Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isto.
 
Estas são as (tristes e perigosas) curiosidades do fundamentalismo. 
 
Jesus quer outra coisa:

17 de setembro de 2013

Olavo de Carvalho

 
Recentemente, um amigo meu me mostrou o livro de Olavo de Carvalho "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota" que tinha comprado. A apresentação dele foi feita com aquele brilho nos olhos que me deixou curioso. O amigo me disse que, para compreender melhor o conteúdo do livro, ele vai intercalar a leitura com os inúmeros vídeos, gravados pelo autor e disponíveis no YouTube. Curioso por natureza, fui lá para ver do que se trata. Já sabia que o cara é um filósofo e jornalista. Descobri que é, também, ex-astrólogo (o que explica muita coisa). Bem... assisti alguns vídeos e já sei que NÃO VOU LER aquele livro. Para mim foi mais que suficiente, ouvir as declarações do tipo:

- Vamos falar o português claro: no que consiste a homoafetividade masculina, né? Consiste um comer o cu do outro, meu filho. Consiste na boa e velha sodomia, você tá entendendo?

- A homofobia jamais existiu!

- [referindo-se ao Deputado Jean Wyllys] Você está nos acusando de incentivar uma violência que nem sequer existe. Você me pega esses 100 casos, onde não tem conexão alguma entre o discurso religioso e esses crimes... Ele vem com esses 100 casos de gays mortos que ele não tem nem sequer a prova que foi por preconceito antigay... Vocês, gauzistas, matam os cristãos desde I século! Vocês são os assassinos de cristãos! Desde o século I vocês são!  

Quem tiver paciência, assista esses dois vídeos (existem muitos outros!), mas a minha conclusão, inspirada no título daquele livro, é: O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, é ler os livros de Olavo de Carvalho e assistir os vídeos dele...
 
Quem quiser, tire as suas próprias conclusões (porra! - como diria Olavo de Carvalho)


 

27 de agosto de 2013

As lágrimas de Mônica


 
É famosa a frase do bispo Santo Ambrósio, dirigida à mãe de Santo Agostinho, Santa Mônica. É o próprio Agostinho que, em suas "Confissões", traz esta citação: "Vai-te em paz, mulher, e continua a viver assim, que não é possível que pereça o filho de tantas lágrimas". (Santo Agostinho, "Confissões", L. III, cap. XII). As lágrimas da mãe, por sua vez, aparecem quase sempre no momento daquela revelação feita pelo filho, ou filha: "Mãe, eu sou gay/lésbica". É claro que as lágrimas em si podem ter diversos motivos, tais como a comoção, tristeza, medo, decepção, raiva. Não preciso dizer que as mais esperadas seriam aquelas provocadas pela comoção, misturada com a admiração e até alegria ("Até que enfim! Eu já sabia, mas fico comovida com a coragem e a sinceridade do meu filho!"). Infelizmente, com mais frequência, misturam-se a surpresa, a decepção, a vergonha e a raiva. E não é tanto pela decepção do tipo: "Ah, eu queria tanto ter netos e agora o que eu faço?!". Nessas horas - o que comprovam os testemunhos dos filhos, bem como uma longa lista de livros e filmes - o maior argumento é a opinião dos outros, mais especificamente, a opinião sobre ela, a mãe, sobre ambos os pais e sobre toda família. Não preciso, de novo, dizer que mais aceitável seria a preocupação da mãe com a opinião alheia a respeito de seu filho, tipo: "Ai, meu Deus! Existe tanto preconceito contra os homossexuais! Como o meu filho/a minha filha vai viver neste mundo cruel?!". Na pior - e mais frequente - versão, o filho, ou filha homossexual, torna-se uma mancha na imaculada até então imagem daquela família. É a questão da vizinhança e, no caso de uma família cristã, a convivência na própria comunidade religiosa.
 
O próximo passo, depois de tal descoberta - no caso de uma mãe, ou de um pai, membro de uma comunidade cristã, mais especificamente, católica - será recorrer ao magistério da Igreja. Seja em forma de um aconselhamento feito pelo sacerdote, seja através da busca de documentos oficiais, relacionados ao assunto, muito provavelmente a mãe, ou o pai, irá encontrar as "Orientações educativas sobre o amor humano - linhas gerais para uma educação sexual", emitidas em 1983 pela Sagrada Congregação para a Educação Católica (na íntegra aqui).
 
Uma das afirmações iniciais parece encorajadora: A família, de fato é o melhor ambiente para cumprir a obrigação de garantir uma gradual educação da vida sexual. Ela tem uma carga afetiva capaz de fazer aceitar sem traumas mesmo as realidades mais delicadas e a integrá-las harmonicamente numa personalidade equilibrada e rica (n. 48).  O afeto e a confiança recíproca que se vivem na família são necessários ao desenvolvimento harmónico e equilibrado da criança desde o seu nascimento. Para que os laços afetivos naturais que unem os pais aos filhos sejam positivos no grau máximo, os pais sob a base de um sereno equilíbrio sexual, instaurem uma relação de confiança e de diálogo com os filhos, adequada à idade e desenvolvimento deles (n. 49).
 
Um pouco mais tarde aparece o que nos interessa mais: A homossexualidade, que impede à pessoa de alcançar  a sua maturidade sexual, seja do ponto de vista individual, como interpessoal, é um problema que deve ser assumido pelo sujeito e pelo educador, quando se apresentar o caso, com toda a objetividade. «Na ação pastoral estes homossexuais devem ser acolhidos com compreensão e sustentados na esperança de superar as suas dificuldades pessoais e sua desadaptação social. A sua culpabilidade será julgada com prudência; porém não se pode usar nenhum método pastoral que, julgando estes atos conformes à condição daquelas pessoas, lhes atribua uma justificação moral. Conforme a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são atos carentes da sua regra essencial e indispensável». Será tarefa da família e do educador procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade: descobrir se se trata de fatores fisiológicos ou psicológicos, se esta será o resultado de uma falsa educação ou da falta de uma evolução sexual normal, se provém de um hábito contraído ou de maus exemplos ou de outros fatores.  Muito particularmente, ao procurar as causas desta desordem, a família e os educadores, deverão ter em conta os elementos de juízo propostos pelo Magistério, e ao mesmo tempo servir-se do contributo que as várias disciplinas podem oferecer. Dever-se-á, de fato, levar em consideração, para avaliar, elementos de diversa índole : falta de afeto, imaturidade, impulsos obsessivos, sedução, isolamento social, depravação de costumes, licenciosidade de espetáculos e de publicações. E além de tudo isto, existe mais no profundo, a congênita fraqueza do homem, como consequência do pecado original; esta fraqueza pode levar à perda do sentido de Deus e do homem e ter suas repercussões na esfera da sexualidade. Descobertas e entendidas as causas, a família e os educadores devem proporcionar uma ajuda eficaz no processo de crescimento integral: acolhendo com compreensão, criando um clima de confiança, encorajando o indivíduo à libertação e domínio de si, promovendo um autêntico esforço moral para a conversão ao amor de Deus e do próximo; sugerindo, se for necessário, a assistência médico-psicológica de uma pessoa que atenda e respeite os ensinamentos da Igreja (n. 101-104).
 
Com outras palavras, o mesmo Magistério que, ao abordar o tema da homossexualidade, afirma que "a sua gênese psíquica continua em grande parte por explicar" (CIC, 2357), recomenda aos pais, como o primeiro passo, "procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade" e descobrir de que se trata. "Descobertas e entendidas as causas, a família e os educadores devem proporcionar uma ajuda eficaz no processo de crescimento integral (...), encorajando o indivíduo à libertação". De qualquer maneira, o conflito interior parece inevitável. Ou a mãe/o pai seguirá a intuição do seu coração e aceitará a homossexualidade do filho/da filha, mas assim desobedecerá a ordem do Magistério, ou fará o contrário: em obediência ao Magistério deixará morrer o ingênuo amor materno/paterno em seu coração.
 
Como podemos ver, as lágrimas de Mônica podem ser provocadas de várias maneiras. Queira Deus que nenhuma mãe tenha coragem de enxugar as suas lágrimas com as lágrimas do filho, ou da filha...

26 de julho de 2013

VI estação da Via Sacra JMJ Rio2013

Está acontecendo, neste exato momento, a Via Sacra com os jovens, acompanhados pelo Papa Francisco. Durante esta tarde acompanhei a programação da TV Canção Nova e um dos entrevistados foi o padre Joãozinho (João Carlos Almeida, scj), que admitiu ter sido um dos autores das meditaçãoes da Via Sacra, junto com o padre Zezinho (José Fernandes de Oliveira, scj). Disse ele, entre outras coisas, que divulgaria no seu blog (aqui) os textos, no tempo real, ao serem pronunciados na celebração. Tal procedimento teria sido tomado, devido um "segredo", pedido pelos organizadores da JMJ. O padre não sabia, talvez, que todos os textos da Via Sacra (e muito mais) já foram publicados pelo site do Vaticano (aqui - é um arquivo em pdf). O que chamou a minha atenção, foi a diferença entre os textos da VI Estação ("Verônica enxuga o rosto de Jesus"). O padre Joãozinho divulga no seu blog a seguinte meditação (aqui):

6ª ESTAÇÃO - Verônica enxuga o rosto de Jesus
(Is 53, 2-3)
A mulher que não se calou
Meditação (CONSAGRADA QUE LUTA PELA VIDA):
Senhor Jesus, Cristo Redentor, eis-me aqui! Sou consagrada ao teu divino Coração no serviço ao meu irmão. Não posso me calar quando encontro nas vias-sacras da vida tantas vítimas de uma “cultura de morte”: mulheres prostituídas e famílias na miséria, enfermos sem atendimento e idosos desprezados, migrantes sem terra e jovens desempregados. Ao enxugar as lágrimas, o suor e o sangue do rosto destes irmãos e irmãs vejo maravilhada que a tua face fica estampada no lenço da minha solidariedade (Cf. Mt 25,31-46).

O texto publicado pelo Vaticano (e, se prestei atenção, também lido há pouco na praia de Copacabana), diz (aqui - p. 89):

ESTAÇÃO - Verônica enxuga o rosto de Jesus

A mulher que não se calou.
Tinha um rosto de homem do povo.
Tinha marcas de luto e de dor.
Tanto sofreu que de escarros e sangue se desfigurou.
Mas alguém o seu rosto enxugou.

Meditação:

Senhor Jesus, Cristo Redentor, eis-me aqui! Sou consagrada ao teu divino Coração no serviço ao meu irmão. Não posso me calar quando encontro nas vias-sacras da vida tantas vítimas de uma « cultura de morte »: mulheres prostituídas e famílias na miséria, enfermos sem atendimento e idosos desprezados, migrantes sem terra e jovens desempregados, pessoas excluídas da cultura digital e minorias tratadas com preconceito... a lista é grande, meu Senhor. Ao enxugar as lágrimas, o suor e o sangue do rosto destes irmãos e irmãs vejo maravilhada que a tua face fica estampada no lenço da minha solidariedade (Cf. Mt 25, 31-46). Ensina-me a sempre unir mística e militância, fé e vida, céu e terra, porque o Pai é nosso e somos irmãos, mas o pão também é nosso e somos cristãos, ou seja, gente que acredita no milagre de repartir.

Será um caso de censura? Ou de autocensura?

30 de maio de 2013

A arte de confundir



#<>#<>#<>#<>#<>#<>#

Antes de comentar uma situação concreta e atual, gostaria de recorrer à reflexão bíblica, para mostrar a verdadeira origem da confusão que consiste em levar os interlocutores (sejam ouvintes, ou leitores) a conclusões precipitadas e equivocadas, usando para tal objetivo o proposital e maléfico jogo de palavras. Vamos ao Livro de Gênesis: A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse a mulher: É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?” (Gn 3, ,1). Com outras palavras: "Querida mulher, eu vim para ajudar, mas permita-me, primeiro, confundir a sua cabeça!"...

Agora vamos aos fatos. Padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, Presidente do Pró-Vida de Anápolis, escreveu uma carta à Presidência da CNBB, sobre a recente "Nota sobre uniões estáveis de pessoas do mesmo sexo", emitida pela instituição. Não vou analisar, hoje, nenhum dos mencionados textos em sua totalidade, quero, porém, apontar um fenômeno que, imediatamente, me lembrou a passagem bíblica, mencionada acima.

Enquanto os Bispos do Brasil, de acordo com o oficial e atual ensinamento da Igreja, escrevem: "Desejamos também recordar nossa rejeição à grave discriminação contra pessoas devido à sua orientação sexual, manifestando-lhes nosso profundo respeito", o Padre Lodi, com a reverência devida aos Sucessores dos Apóstolos, toma a ousada [e astuta] liberdade, para chamar a sua atenção (os grifes são meus):

Logo no primeiro parágrafo, diz a Nota: "Desejamos também recordar nossa rejeição à grave discriminação contra pessoas devido à sua orientação sexual...". A Santa Sé tem evitado sistematicamente usar o termo "orientação sexual", tão caro à ideologia de gênero. Com efeito, o homossexualismo – dado o seu caráter antinatural – não é uma "orientação", mas uma desorientação sexual. Quanto à discriminação contra as pessoas homossexuais, o Catecismo da Igreja Católica condena-a, mas acrescenta um importante adjetivo, que não foi reproduzido na Nota: "Evitar-se-á para com eles [os homossexuais] todo sinal de discriminação injusta" (Catecismo, n. 2358). Ao usar ao adjetivo "injusta", o Catecismo dá a entender que existem discriminações justas para com os homossexuais. E de fato há. Uma delas é a proibição de se aproximarem da Sagrada Comunhão (o que vale para qualquer pessoa em pecado grave). Outra delas é o impedimento de ingressarem em Seminários ou Institutos Religiosos. Um terceiro exemplo seria o de uma mãe de família que demite a babá que cuida de seus filhos, ao constatar que ela é lésbica... Considerar que toda discriminação aos homossexuais é injusta seria dar direitos ao vício contra a natureza.

O padre que fala de "uma desorientação sexual", mostra claramente a sua desorientação doutrinal, afirmando a existência de "discriminações justas", sendo uma delas, a proibição de [os homossexuais] se aproximarem da Sagrada Comunhão, o que vale para qualquer pessoa em pecado grave. Usando a mesma linguagem - e a lógica - da CNBB, que diz: "As uniões de pessoas do mesmo sexo não podem ser simplesmente equiparadas ao casamento", eu digo: "A homossexualidade não pode ser simplesmente equiparada ao pecado grave", de acordo com a doutrina da Igreja. É o Catecismo da Igreja Católica que, ao mencionar pessoas homossexuais, usa os termos: "experimentam uma atração sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo"; "Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas", o que "constitui, para a maior parte deles, uma provação" [cf. CIC 2357-2359]. Ou seja, em nenhum momento, a Igreja, nem a lógica, define "tendência", "experiência", "atração", ou "provação", como um pecado. Pelo que aprendemos, já na catequese infantil, o pecado consiste em ato consciente e deliberado, contrário à vontade de Deus (em particular, aos seus Mandamentos).

Dizer, portanto, que os homossexuais, só por serem homossexuais, estão vivendo no pecado grave e são proibidos de se aproximarem à Sagrada Comunhão, é uma tentativa nítida de confundir a cabeça, especialmente daqueles que estão vivendo a delicada realidade de conflito interior, entre a sua consciência religiosa e a identidade homossexual. Digo mais: é um ato de agressão aos indefesos. É o claro incentivo à discriminação e ao preconceito, portanto, à violência. É uma atitude demoníaca, cuja essência está em uma total ausência de amor, em astúcia e má fé.

Se você quiser continuar a reflexão sobre a busca de uma atitude mais consciente das pessoas homossexuais, em relação à Eucaristia, leia - neste blog - "Corpus Christi", "Analogias de Corpus Christi", "Homossexuais e Eucaristia (1)" e "Homossexuais e Eucaristia (2)".

Em breve pretendo escrever, um pouquinho, sobre a "ideologia de gênero" (mencionada, também, pelo padre Lodi no texto citado acima). O ponto de partida será um discurso, bem interessante, do Papa (hoje Emérito) Bento VXI.

Até em breve!