ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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28 de maio de 2014

Uma bela tentativa, mas...


A homossexualidade continua despertando grandes polêmicas em todos os campos, desde o religioso, pelo moral, social e cinematográfico, até o político. Enquanto a reflexão não sai da pura teoria, os efeitos de tal discussão - além de elevar a temperatura do discurso - geralmente permanecem na mesma dimensão, quer dizer, na teoria. Eu sempre senti  falta de uma voz nestas polêmicas. A voz essencial e mas preciosa: de próprias pessoas homossexuais que não se limitariam ao que "está escrito na Bíblia" ou ao que "dizem as estatísticas", mas compartilhariam a sua experiência pessoal. Foi por isso que fiquei tão feliz, quando o Papa Francisco, em sua entrevista à revista "La Civiltá Cattolica", no ano passado, disse: "Deus, quando olha a uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem". [Leia mais aqui

Pois bem... A quem "eles" irão querer escutar? Um(a) homossexual que se sente feliz, ao realizar o maior sonho de sua vida, tendo vivido em um relacionamento duradouro e feliz? Certamente não, pois o objetivo "deles" é encontrar mais um pau para bater no cachorro. A meta aqui, por mais que pareça ser, não é um diálogo, nem qualquer tentativa de conhecer objetivamente o "nosso" lado. Quando se parte daquela predominante repulsa à homossexualidade (leia-se: a homofobia), nenhum diálogo é possível, tampouco qualquer conhecimento objetivo.

Achei necessária esta introdução à leitura de uma entrevista, publicada recentemente no portal "Alateia" e intitulada "Ser homossexual é um sofrimento, não uma escolha nem um pecado em si". O entrevistado é Philippe Ariño, homossexual espanhol de 34 anos, que mora atualmente na França.

Nesta entrevista (e também em outra, ao portal "Zenit" - aqui), Philippe faz uma apologia à continência sexual, o que, em si, até parece louvável. Como o seu argumento, porém, usa o exemplo das próprias frustrações nos relacionamentos homossexuais do passado: "Ao me relacionar com outros homens ou olhar para eles de maneira possessiva, eu sentia satisfação no momento. Mas estava sozinho e nunca me sentia completo. É então que caímos na tentação de achar que podemos viver a sexualidade como os outros, mas, na verdade, a sexualidade só pode ser vivida na diferença sexual".

A mesma frustração pessoal do rapaz aparece ainda mais claramente em seguida: "Antes eu me sentia sempre inferior aos homens, porque a homossexualidade é invejosa. Agora, após descobrir que Deus me ama e que sou seu filho, querido e amado, não me sinto inferior a nenhum homem. Assim, depois de muitos anos, descobri a beleza da amizade masculina, que eu não trocaria pelas relações do passado - quando eu fingia estar me realizando".

Sem dúvida, para quem nunca experimentou o amor em sua relação homossexual, não é tão difícil preferir a amizade e não querer trocá-la pelas relações frustradas do passado. A lógica das afirmações acima lembram-me muito aqueles testemunhos fervorosos de ex-católicos que "encontraram Jesus" em uma comunidade evangélica e se tornaram fiéis devotos (não raramente fanáticos), só porque - devido à própria ignorância e à preguiça - no passado viviam como "católicos de carteirinha". Nada mais fácil do que transferir aos outros a culpa pelos próprios defeitos pessoais...

A frustração do passado é uma geradora de desprezo em relação a todos que, numa realidade semelhante, conseguiram ser felizes. O texto da entrevista traz a pergunta (associada a uma imposição): "Pessoas como você, que abandonam seu passado, não são muito queridas pela comunidade LGBT. Como você se relaciona com o universo que frequentava?". A resposta revela o real objetivo da entrevista "politicamente correta":

"Eles me colocaram na lista negra. Ficam me ameaçando [sic!] e me etiquetam de homofóbico, mas eu não teria sobrevivido junto deles: é um mundo de mentiras, que exteriormente se mostra alegre, mas dentro está cheio de raiva e tristeza. (...) Os ativistas podem aplaudir quando você fala, mas você só é visto em sua sexualidade, como se fosse um animal [sic!] ou um indivíduo de série B que precisa ter direitos especiais. É por isso que eu digo que somos os piores inimigos de nós mesmos".

Quem quiser, leia o texto inteiro da entrevista. Entre outros assuntos, há indiretas à adoção das crianças pelos casais homoafetivos, junto com a crítica do casamento entre as pessoas do mesmo sexo e, finalmente, a "definição" do relacionamento homossexual como "uma amizade ambígua, incapaz de amor, da qual só deriva o sofrimento".

Uma analogia simples que me vem à mente é com alguém que, por algum motivo, nunca aprendeu a nadar (ou a andar de bicicleta) e agora cria uma "definição" daquilo, como algo terrível, impossível, prejudicial e, certamente, antinatural. Isso acontece sempre quando se procura colocar as próprias frustrações pessoais como uma base do discurso.

Enfim, Philippe Ariño, por mais que se apresente como um homossexual e católico, não me representa...

16 de maio de 2014

Onde está o Demônio?


É um saco viver numa época em que a menor notícia boa tem que ser ofuscada pelos fanáticos da Igreja Católica Apostólica Furiosa. Coitados, não sabem (porque não consta na Bíblia) que a mentira - à qual com tanta frequência recorrem - tem pernas curtas e ainda é a obra do Demônio (isso sim, eles devem saber, pois consta na Bíblia: Jo 8, 44). Vamos, porém, aos poucos, seguindo a ordem das coisas...

1. A NOTÍCIA BOA
No último dia 6 de maio (terça-feira), o Papa Francisco teve como um dos concelebrantes da Santa Missa na capela da Casa de Santa Marta, o Padre Michele De Paolis (salesiano italiano, nascido em 09 de março de 1921), um dos fundadores da Comunidade "Emmaus" (1978) e, segundo algumas fontes, cofundador do grupo  italiano AGEDO (associação de amigos, parentes e pais de pessoas homossexuais e transexuais, fundada em 1992 na cidade de Milão [breve história em italiano, aqui]). O próprio Padre Michele assim relata o encontro [fonte, em italiano - o texto traduzido graças aos recursos da tecnologia]: 

Eu concelebrei com o Papa Francisco. Li o Evangelho. Após a celebração, o Papa recebeu os presentes em outra sala. Eu e o meu companheiro fomos os últimos. Em apenas alguns minutos - muito intensos - eu falava de "pedras rejeitadas", com as quais convivo. Entreguei ao Papa alguns presentes (um crucifixo, um cálice com a patena em madeira de oliveira, belíssimos) e falei sobre as nossas iniciativas em andamento, relacionadas aos imigrantes de Lampedusa. O Papa ficou muito feliz. Eu disse ao Papa: "Nós adoraríamos ser recebidos em uma audiência com o pessoal da [Comunidade] Emmaus! É possível?" Ele respondeu: "Tudo é possível! Converse com o Cardeal Maradiaga e combine tudo com ele". Em seguida, ele beijou a minha mão! Eu o abracei e chorei... 

A informação sobre o encontro do Padre Michele com o Papa Francisco foi publicada na página "Católicos LGBT's" no facebook. A mesma página cita o trecho de um artigo do Padre Michele De Paolis, escrito para um grupo LGBT de Lecce (Itália):

Aqueles que desejam transformá-los em 'heterossexuais', por assim dizer, estarão forçando-os a agir contra a sua natureza e tornando-os psicopatas infelizes. Precisamos colocar em nossas cabeças que Deus, nosso Pai, quer que nós, suas crianças, sejamos felizes e frutifiquemos com os dons que Ele colocou em nossa natureza! (...) Vocês têm o direito de procurar um parceiro. E não se preocupem: onde existe o ágape, existe Deus. Vivam a sua vida com alegria. E com a nossa mãe Igreja precisamos ter paciência. A atitude da Igreja com os homossexuais mudará. Neste sentido, inúmeras iniciativas já foram empenhadas. 

2. A NOTÍCIA RUIM
A "fumaça de Satanás", isto é, a repercussão na "mídia católica [furiosa]" foi abundante. As aspas referem-se tanto ao termo "mídia" (pois trata-se de portais, páginas etc. - nada que seja um veículo oficial da Igreja, enquanto instituição), quanto à palavra "católica" (porque, no momento em que o autor questiona a legitimidade do ministério petrino do Papa Francisco, de fato, deixa de ser católico).

A notícia sobre o encontro do Padre Michele De Paolis com o Papa Francisco foi repetida pelos blogueiros (ditos) católicos e - como de costume - distorcida. 

Um blog de Portugal, "perspectivas", assinado por Orlando Braga, abre mão de sua "catolicidade" ao dizer (aqui): 

A quem "o papa" beija as mãos? Na foto, vemos o cardeal Bergoglio, também conhecido por "papa Francisco", a beijar as mãos de Michele de Paolis, um clérigo salesiano de 93 anos. (...) O beija-mão aconteceu no passado dia 6 de Maio depois de uma missa em Santa-Marta. O dito "papa" convidou Michele de Paolis para ler o Evangelho do dia. Depois da missa, o "papa" inclinou-se profundamente perante ele e beijou-lhe as mãos. (...) Estará o leitor a imaginar o "papa" a beijar as mãos a um franciscano da Imaculada, ou a um qualquer membro da SSPX [Associação de São Pio X - veja aqui]? Se imagina, desiluda-se! O "papa" só demonstra a sua infinita humildade e beija as mãos a quem defende o "casamento" gay, o "casamento" gay entre sacerdotes da Igreja Católica [sic!], a legalização da pedofilia e da eutanásia [sic! sic!]. É desta gente que o "papa" gosta.

A verdadeira cusparada de desprezo (baseada em uma série de equívocos) encontrei na página "Rainha Maria" (olha o nome!). O autor do texto, Dilson Kutscher, publica uma foto e escreve a seguir:



Quando o demônio faz homilia em missa concelebrada pelo Pontífice no Vaticano [é o título da matéria]. (...) Padre Michele que apoia a ordenação de mulheres, o casamento gay, o fim do celibato, faz homilia em missa concelebrada pelo Pontífice (que festa para Satanás ver aquele que se diz servo de Cristo apoiar tais coisas e ainda fazer homilia numa missa concelebrada por um papa em pleno Vaticano). Dom [quer dizer, Padre] Michele concelebrou com o Papa argentino e pregou, como mostra a imagem acima, a homilia na Casa Santa Marta. Pelo visto, o Papa Francisco, ao permitir que este padre apóstata modernista, concelebre junto com ele e ainda faça a homilia, deve concordar em seu coração, com as mesmas posições apóstatas modernistas deste padre. Francisco concelebrando com este padre e permitindo que o mesmo faça a homilia, passa de forma sutil e indireta, uma mensagem de apoio à ordenação das mulheres, ao casamento gay e ao fim do celibato (as vezes os atos demonstram mais do que palavras escritas em documentos, declarações etc.).

Talvez não seja suficiente citar, mais uma vez, o relato do próprio Padre Michele que disse: "Li o Evangelho", nem mesmo a afirmação do citado acima esquisitão que, mesmo tratando o Papa de cardeal Bergoglio, também conhecido por 'papa Francisco', escreveu que o Padre foi convidado pelo Papa para ler o Evangelho do dia. Recorrendo a mais uma fonte, o portal "Especial sobre o Papa" da Comunidade Católica "Canção Nova", encontramos [AQUI] o texto da homilia proferida pelo próprio Santo Padre no dia 06 de maio na capela da Casa da Santa Marta no Vaticano. Logo, dizer que "o demônio faz homilia em missa concelebrada pelo Pontífice", é a prova não apenas de uma total incompetência jornalística, mas, antes de tudo, o sinal claro da falta de boa vontade e de compromisso com a verdade.

O mesmo ponto de vista, privado de boa vontade e baseado na mentira, encontramos em outras páginas na internet, por exemplo:

"blogonicus": "Papa Francisco beija a mão de sacerdote anti-clerical (sic!) e gayzista". Aqui, o autor (Danilo) reproduz a matéria (e as inverdades) da página "Rainha Maria", acrescentando apenas o neologismo "gayzista" (criado provavelmente por Olavo de Carvalho e repetido pelo Padre Paulo Ricardo). A mesma matéria foi reproduzida pela página "Sinais do Reino" (de uma autoria desconhecida).

O portal "Fratres in unum", além de repudiar o encontro do Papa com o Padre Michele (e ironizar, especialmente a atitude do Santo Padre de beijar a mão do sacerdote), presta, de fato, um serviço à verdade, citando algumas frases do Padre Michele (sem mencionar as fontes):

Estou espantado com o fato de que muitos homens da Igreja (...) ignoram completamente o fenômeno da homossexualidade, que a ciência já esclareceu de modo inequívoco: a orientação homossexual não é escolhida livremente pela pessoa. O rapaz e a moça se descobrem dessa maneira: trata-se de uma abordagem profundamente enraizada na personalidade, que constitui um aspecto essencial da própria identidade: não é uma doença, não é uma perversão. O rapaz ou a moça homossexual podem dizer a Deus: "Você nos fez assim!". 

Algumas pessoas de Igreja dizem: "Tudo bem ser homossexual, mas não deve ter relações sexuais, não podem amar uns aos outros!" Isso é a máxima hipocrisia. É como dizer a uma planta que cresce: "Você não deve florescer, não deve dar frutos!". Isso sim é contra a natureza.

Confesso a vocês que no começo eu também tinha meus preconceitos. Então, estudei e consegui. Sucessivamente tentei entrar na lógica do Evangelho; eu queria olhar para as coisas da parte de Deus. Entendo que o Pai não exclui do seu amor nenhum de seus filhos e não julga a pessoa com base em seus impulsos sexuais, que são atribuições da natureza e não de uma escolha voluntária.

29 de março de 2014

Um "honesto" desonesto

Foto [editada] do Portal
do Ministério Público Federal

Paulo Vasconcelos Jacobina é Procurador Regional da República, Membro do Ministério Público, Bacharel em Direito e Mestre em Direito Econômico. É também autor de várias publicações profissionais e... religiosas. Em uma entrevista, concedida em 2012 ao portal "Missão Eylon", Paulo conta um pouco da história de sua conversão ao catolicismo. A conversa foi realizada na ocasião do lançamento de um dos seus livros, "Cartas a Probo", apresentado como "uma conversa cristã cobre o espiritismo". O final da entrevista merece uma atenção especial:

- [representante não assinado do portal]: Por que "Cartas a Probo"? Qual o significado do nome Probo?

- [Paulo Vasconcelos Jacobina]: Probo significa honesto, leal, no sentido de que estas cartas representam uma busca honesta e leal da verdade: são dirigidas aos que estão buscando a verdade lealmente, mesmo que em caminhos diferentes dos nossos. São um verdadeiro voto de confiança no leitor: sejamos honestos, leais no caminho da busca, e certamente Deus não deixará de nos iluminar com a Sua verdade.

É difícil não ficar admirado com tamanha apologia da honestidade, uma virtude tão rara hoje em dia. Naturalmente, espera-se que todos os textos deste autor tenham a mesma marca. Infelizmente, a admiração inicial muda de conteúdo. Continua sendo uma admiração, mas o seu sentido é negativo, torna-se um espanto. A expectativa transforma-se em decepção. Basta ler o mais recente artigo de Paulo Vasconcelos Jacobina, publicado no portal católico de notícias "Zenit" (28 de março de 2014), "Criminalizar discordâncias majoritárias sob o rótulo de fobia não é democrático".

Ainda que consigamos engolir a sua argumentação sobre a democracia, bem como a comparação (tolerável, mesmo que distante) com a situação das minorias muçulmanas no ocidente, não há possibilidade alguma de considerar honesta a sua afirmação sobre as ambições dos ativistas de "certas minorias sexuais", no contexto da luta pelo Plano Nacional de Educação. A desonestidade consiste em atribuir a estes ativistas os objetivos que, de fato, não existem, denegrindo assim a sua imagem. Certamente, como um profissional de Direito, o Procurador Regional da República e membro do Ministério Público, o autor entende a natureza e o peso de calúnia, difamação e injúria. Eis a sua tese:

Para essa militância radical, não somente a prática do incitamento a crimes contra homossexuais é considerado como "homofobia", mas qualquer posicionamento público, de cunho filosófico, científico ou religioso que não parta dos mesmos pressupostos que as minorias sexuais usam para ver-se e interpretar-se. Afirmar a possibilidade de que um ser humano controle seus impulsos sexuais, ou mesmo um simples chamado à castidade, à fidelidade, à responsabilidade com a prole e com o outro, a valorização da abertura à vida na conduta sexual, em nome de religião ou de aperfeiçoamento moral, ficariam classificados como "fala de ódio", "homofobia" e "intolerância" a serem combatidos e criminalizados pelo Estado.

Isso não é verdade, caro Doutor Jacobina! Embora não faltem indivíduos promíscuos entre as pessoas homossexuais, assim como entre as heterossexuais, nós estamos falando sobre os seres humanos que levam a sério a sua vida e o seu compromisso com a sociedade. Muitos, inclusive, vivem séria e profundamente a sua relação com Deus e com a Igreja (apesar de toda falta de acolhimento por parte da comunidade eclesial). Embora, em outra parte de sua entrevista, o senhor tenha considerado "democrático (...) aguentar não somente a discordância e até avacalhação humorística que deve ser resolvida no campo de debates francos", não tem nada de franco criar a imagem de pessoas homossexuais e de seus movimentos como inimigos de castidade, fidelidade e responsabilidade, ou como criaturas bizarras, movidas apenas por seus incontroláveis impulsos sexuais. Ainda que a nossa "conduta sexual" não possua uma natural abertura à vida (no sentido do ato de procriação), nós não desvalorizamos a própria abertura à vida, nem as pessoas que receberam este dom. Graças a Deus e graças aos avanços de democracia, os casais homoafetivos, em um número cada vez maior, têm a alegria de adotar os filhos. Posso lhe assegurar de que a responsabilidade pela prole nestas famílias supera a realidade de muitos casais heterossexuais.

A distorção de uma realidade, só por falta de conhecimento, misturada com a autêntica fobia e com a "democrática avacalhação humorística", leva muitos fanáticos aos crimes de agressão verbal e física, não raramente ao homicídio. A discriminação das pessoas homossexuais, principalmente com a base das convicções religiosas, ainda é um triste fato que, apesar dos inquestionáveis avanços da verdadeira democracia que respeita os direitos humanos, é um câncer no tecido da sociedade. O que me entristece é que os que se apresentam como honestos e leais defensores da verdade (ainda em nome de Jesus), acabam recorrendo à desonestidade para que, através de sua eloquência e de seus títulos, implantar ainda mais intolerância naqueles que se deixam levar por este tipo de discursos.
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Observação: Paulo Vasconcelos Jacobina, em seus artigos publicados no portal católico de notícias "Zenit", dedica-se quase exclusivamente aos assuntos ligados a pessoas homossexuais. Provavelmente não será um exagero imaginar o grau de sua "honestidade" ao abordar tal temática:

25 de março de 2014

A orientação e os juristas


O portal da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro divulgou uma nota sobre a reunião plenária da União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro - UJURCAT-RJ. O texto traz a conclusão daquela reunião plenária:

A União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro - UJURCAT-RJ em sua reunião plenária, realizada no dia 24 de março de 2014, com a presença de Sua Eminência Cardeal Dom Orani João Tempesta, digníssimo arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, aprovou por unanimidade posição contrária a inserção do termo 'gênero' e da expressão 'orientação sexual' como princípio e/ou diretriz do Plano Nacional de Educação - PNE. Trata-se de termo e de expressão carregados de ambiguidade e de ideologias, que não se prestam a definição de diretriz e de princípio. A propósito a referência à vedação de discriminação por motivo de sexo, prevista no Artigo 3°, inciso IV, da Constituição Federal, é adequada, consentânea e legítima e tem o apoio da UJURCAT.

Não pretendo entrar em discussão sobre o primeiro dos termos, isto é, 'gênero' que, de fato, precisa de uma definição mais clara ou, ao menos, mais conhecida para deixar de ser "um termo carregado de ambiguidade". A meu ver, o problema não é a falta de definição, mas a existência de muitas definições. Escrevi sobre uma delas neste blog (aqui).

O que me deixou curioso é a "posição contrária" dos juristas católicos do Rio em relação à expressão "orientação sexual". Se não for a orientação, então, é o que? A opção? Gostaria muito de crer que não seja isso o que queriam dizer os juristas católicos do Rio! Qual, então, é o problema em usar a expressão "orientação sexual", se ela aparece, também, em alguns documentos oficiais da própria Igreja? Existe, aliás, certa inconsequência na linguagem, digamos, institucional, da Igreja Católica.

Por um lado, o representante da Santa Sé na ONU, em dezembro de 2008, apresentou a posição da Igreja sobre a proposta da "Declaração sobre os direitos humanos, orientação sexual e identidade de gênero", com as seguintes afirmações:

Em particular, as categorias "orientação sexual" e "identidade de gênero", usadas no texto, não encontram reconhecimento, nem clara e partilhada definição no direito internacional. Se elas tivessem que ser tomadas em consideração na proclamação e na tradução prática dos direitos fundamentais, seriam causa de uma grave incerteza jurídica, como também viriam a minar a habilidade dos Estados para aderir e pôr em prática convenções e padrões novos e já existentes sobre os direitos humanos.

Até aqui, a argumentação da UJURCAT-RJ está dentro do padrão. Será mesmo que existe um "padrão" no discurso oficial da Igreja? Em um outro documento que só aparentemente não tem nada a ver com as declarações do representante da Santa Sé na ONU, encontramos a mesma expressão "orientação sexual", porém, sem qualquer contestação da mesma:

Na avaliação da possibilidade em viver, na fidelidade e alegria, o carisma do celibato, como um dom total da própria vida à imagem de Cristo, Cabeça e Pastor da Igreja, tenha-se presente que não basta certificar-se da capacidade de abstinência do exercício da genitalidade, mas é necessário igualmente avaliar a orientação sexual segundo as indicações promulgadas por esta Congregação. [Congregação para Educação Católica, Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candidatos ao sacerdócio; n. 8; Vaticano, 2008].

O texto indica mais um documento: "Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais e da sua admissão ao seminário e às ordens sacras". Aqui, de fato, não encontramos a controversa expressão "orientação sexual", porque o texto insiste em repetir a fórmula "tendências homossexuais profundamente radicadas", além de introduzir a teoria sobre as "tendências homossexuais que sejam apenas expressão de um problema transitório como, por exemplo, o de uma adolescência ainda não completa" e que "devem ser claramente superadas, pelo menos três anos antes da Ordenação Diaconal" [n. 2].

Em mais um documento, "Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais", a Igreja tenta explicar a sua postura em relação à expressão "orientação sexual":

A pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual. Toda e qualquer pessoa que vive sobre a face da terra conhece problemas e dificuldades pessoais, mas possui também oportunidades de crescimento, recursos, talentos e dons próprios. A Igreja oferece ao [talvez "no" - obs. minha] atendimento da pessoas humana aquele contexto de que hoje se sente exigência extrema, e o faz exatamente quando se recusa a considerar a pessoa meramente como um "heterossexual" ou um "homossexual", sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna. [n. 16] 

A mesma instituição (a Igreja católica), ainda que em um tom de crítica, não hesita ao usar a mesma expressão "orientação sexual". Em uma nota sobre o livro de Pe. André Guindon, "The sexual creators. An ethical proposal for concerned christians" (1986), a Santa Sé diz:

Parece que ele [Pe. André Guindon] não reconhece muita liberdade às pessoas homossexuais, em relação com a orientação sexual das mesmas, nem a possibilidade de abstinência sexual. (...) A possibilidade de uma pessoa homossexual mudar para uma orientação heterossexual, mediante a psicoterapia [sic!], é ridicularizada e rejeitada

Existe, portanto, algo chamado "orientação sexual"? Uma coisa semelhante afirmou o Beato João Paulo II, ainda no início de seu pontificado, quando elogiou os bispos norte-americanos por terem escrito uma carta ao Povo de Deus:

Como homens que têm palavras de verdade e o poder de Deus (2  Cor 6, 7), como autênticos mestres da lei de Deus e pastores compadecidos, afirmastes também com justiça: "O comportamento homossexual... enquanto coisa distinta da orientação sexual, é moralmente desonesto". Na clareza [sic!] desta verdade, exemplificastes a caridade efetiva de Cristo: não traístes aqueles que, por causa da homossexualidade, se encontram perante problemas mais difíceis, como aconteceria se, em nome da compreensão e da compaixão, ou por qualquer outro motivo, tivésseis despertado uma falsa esperança a qualquer irmão ou irmã.

Percebe-se, então, que o termo "orientação sexual" tem conquistado o espaço na linguagem e no entendimento da Igreja, assim como (ou, ainda mais) na cultura da sociedade em geral. Notamos, ao mesmo tempo, uma constante tentativa de fuga desse assunto por parte da Igreja, enquanto instituição. As agremiações do tipo da UJURCAT, citada acima, podem contribuir melhor para a compreensão mais ampla de uma realidade que talvez nunca tenha a sua definição completa e absoluta, mas nem por isso deixa de fazer parte vital da nossa existência e da nossa convivência. Além disso, o termo "orientação" é muito mais correto do que a palavra "opção" que continua circulando por aí e ainda causa bastante confusão. Não canso de dizer que o fato de ser um homossexual não é a minha opção. Talvez seja a orientação e, sem dúvida, é a minha identidade.

16 de março de 2014

A pobreza multifocal


Confesso que nunca gostei da ideia de associar a Campanha da Fraternidade à Quaresma. A reflexão sobre os mais graves problemas sociais é, sem dúvida, muitíssimo importante, porém, a Quaresma em si, já traz tanto conteúdo que acrescentar mais um (por mais que se tente estabelecer analogias), só pode trazer prejuízo. É como acrescentar a água no feijão. A panela fica mais cheia, mas o sabor se perde, fica diluído. Ou, então, tendo no armário uma prateleira cheia e outra pela metade, mesmo assim, insistir em enfiar mais coisas, justamente naquela que está cheia. Será que não faria mais sentido, por exemplo, inaugurar a Campanha da Fraternidade naquele espaço entre o Natal e as Cinzas, prosseguindo, depois, ao longo do tempo comum? Do jeito como está, nem a Quaresma, nem a Campanha, conseguem penetrar suficientemente o coração do povo. Será que a superficialidade é proposital? Enfim... foi apenas um pequeno desabafo, à margem do tema principal. 

O Papa Francisco propõe uma reflexão para a Quaresma deste ano. É sobre Jesus que se fez pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9). Vale a pena ler a sua mensagem. Ciente da confusão cultural e linguística, o Papa procura explicar o verdadeiro sentido da pobreza, enquanto uma virtude. Nada de "coitadismo" e nada de limitação da pobreza à dimensão apenas material. Francisco fala, entre outras coisas, de pobreza moral e espiritual (além da material) e destaca a miséria como um grito dos sofredores que devemos ouvir e atender. A pobreza, em sua dimensão evangélica, é essencialmente uma vocação de cada cristão, chamado a imitar o Mestre Jesus que, através do despojamento por amor, redimiu a humanidade. Diz o Papa:

A finalidade de Jesus se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas - como diz São Paulo - "para vos enriquecer com a sua pobreza". Não se trata de um jogo de palavras, de uma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! (...) Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha.

A lógica de Deus, da qual fala o Papa, é a lógica do amor. Quem já amou, sabe disso. De quantas coisas somos capazes de abrir mão, só para manifestar o nosso amor por aquela pessoa especial. E fazemos isso sem amargura. Pelo contrário, ficamos felizes (ricos em felicidade), ao ver a pessoa amada feliz. E isso acontece tanto entre as pessoas heterossexuais, quanto homossexuais. A experiência do amor não depende da orientação (identidade) sexual e não se limita com ela. Neste ponto tenho mais uma observação...

Muitos cristãos (talvez a sua maioria) associam as pessoas homossexuais ao pecado, à promiscuidade, à depravação... enfim, mandam-nos logo para o inferno. Até no mesmo texto da mensagem do Papa identificam-nos imediatamente com a "miséria moral". O Santo Padre diz: "a miséria moral (...) consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. (...) Esta forma de miséria (...) anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência.

Ora, ser homossexual não equivale ao ser escravo do vício e do pecado. As crianças de 7-8 anos aprendem na catequese que o pecado é algo voluntário (além de consciente e contrário à vontade de Deus). Eu não sou gay porque quero ser gay. A homossexualidade nunca foi uma opção, apesar de tantos insistirem em usar tal termo. E tem mais: ser gay não significa necessariamente recusar o amor de Deus e considerar-se auto-suficiente a ponto de julgar não necessitar de Deus. Muito pelo contrário. Por isso acrescento à lista de misérias, proposta pelo Papa, a miséria intelectual de todos aqueles que, em nome de Jesus (ou por outra razão), rotulam as pessoas homossexuais (e as demais da diversidade LGBT) de "pobres pecadores" e tentam sentar-se no trono de Deus, o único Justo Juiz, prevendo para nós a condenação eterna e a exclusão social e eclesial até a morte (ou até o momento em que decidirmos abandonar a homossexualidade e abraçar a única forma "legítima" de sentir e de amar, isto é, a heterossexualidade).

25 de fevereiro de 2014

Uganda


Dizer que a humanidade é uma grande família é repetir aquela linda teoria que não tem muito a ver com a realidade. No mesmo dia em que a presidente Dilma tinha afirmado que faz parte do bom senso não se meter nos negócios de outros países e que o que importa é que sejam reconhecidas as coquistas sociais na Venezuela (certamente, a vida que perderam os manifestantes, executados pelo regime do Maduro imaturo, não se enquadram nessas conquistas), um outro presidente, chamado Yoveri Museveni, lá em Uganda, disse: "Os estrangeiros não podem nos dar ordens. É nosso país. Eles devem nos apoiar, ou senão guardar sua ajuda. Eu aconselho aos amigos ocidentais que não façam deste assunto um problema, porque eles têm muito a perder". Será que ele se inspirou na "presidenta"? É claro, não podia faltar as referências religiosas. O deputado David Bahati, que promoveu a lei, considerou que esse "voto contra o demônio" é "uma vitória para a Uganda".

O primeiro pensamento que surgiu na minha mente foi: "Graças a Deus que eu não moro em Uganda"... O segundo (ainda no mesmo espírito mesquinho e egoísta) dizia: "Graças a Deus que Uganda não é uma potência, ou referência mundial, semelhante aos Estados Unidos". Mas, quando respirei um pouco e permiti que a notícia tocasse nas camadas um pouco mais nobres da minha humanidade, refleti: "Meu Deus! E os homossexuais de Uganda? Como agora será a vida deles?!"...

A lei prevê a sentença de prisão perpétua no caso de reincidência, criminaliza qualquer tipo de "promoção" da homossexualidade e obriga os cidadãos (certamente punindo qualquer desobediência nesse caso) a denunciarem qualquer pessoa que se identifique como homossexual. A pressão internacional obteve a correção do projeto original que incluía a pena da morte para quem fosse flagrado pela segunda vez realizando um ato homossexual. Como se sabe, porém, cada lei tem também uma dimensão educativa, portanto não serão muito surpreendentes os atos de "julgamento popular", com o direito ao linchamento dos acusados (se presenciamos isso no Brasil, imaginem em Uganda!)...

Só nos resta pedir a misericórdia de Deus e, com a mesma insistência, levantar a nossa voz em protesto, inclusive em campanhas de coleta de assinaturas e outras formas de apelos às autoridades do mundo todo. Ainda que tenhamos - como eu tive - os impulsos bastante mesquinhos e egoístas, tentemos pensar nos outros que, de fato, são nossos irmãos, apesar de morarem em um lugar tão distante e desconhecido.

PEÇA QUE OS LÍDERES DE UGANDA E DO MUNDO TODO PROTEJAM AS PESSOAS LGBT EM UGANDA. ASSINE A PETIÇÃO AQUI
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Obs. 1.: As informações obtive na página "Homorrealidade" e sobre a campanha de assinaturas, no facebook.
Obs. 2.: Achei curioso o fato de que, ao transmitir a mesma notícia nos telejornais da TV Globo, o apresentador William Bonner usou o termo "homossexualidade" e - mais tarde - outro apresentador, William Waack, a palavra "homossexualismo"...
Obs, 3.: Leia também, no Blog "Diversidade Católica", sobre o mesmo assunto: "O Núncio Apostólico em Uganda contra a nova lei anti-gay" e "A maré está virando contra a homofobia"

7 de fevereiro de 2014

Deixar lesbianismo?


A frase acima [o título] parece estar incompleta. É a minha reação espontânea que faz acrescentar ali as palavras que faltavam. Seria assim: "Deixar de usar o termo 'lesbianismo', bem como 'homossexualismo' e 'gayzismo' - este último que nem existe nos dicionários legítimos e sérios, pois é uma debochada criação de Olavo de Carvalho [o ex-mago] e repetida pelo seu discípulo, padre Paulo Ricardo, seguido pelos milhares católicos homofóbicos". Tudo bem, a "minha frase" ficou mais longa e distante da "revelação" feita pelo portal "nova guia". O título original da matéria é: "Atriz global Claudia Jimenez deixa lesbianismo".

O título é como a chave de uma fechadura. Se estiver enferrujada, não vai funcionar bem. Não preciso ser um profissional de jornalismo para detectar os erros grosseiros, pelo menos dois, na abertura da matéria. Não sei de onde surgiu a mania de chamar atores e atrizes da Rede Globo de Televisão de "globais", se 99% deles não passam de nacionais. É quase como atribuir aos atores da Band o apelido de bandidos. Mas isso é de menos.

O que é que queria dizer a expressão "deixar lesbianismo"? Será que a pessoa que fez esse "anúncio de um milagre" ouviu falar de bissexualidade? De fato, vivemos numa época de notícias igualmente rápidas e superficiais. Isto é, uma época da difusão de burrices, a verdadeira epidemia de palavras sem conteúdo.

O próprio artigo cita os desabafos da atriz que disse, por exemplo: "Não tinha sensualidade, era muito mais gorda do que sou hoje. Não tinha forma nem vaidade. Achava que não tinha cacife para seduzir um homem. Como tinha de ser amada, me joguei nas mulheres". Tirando a curiosa ingenuidade da atriz, ao considerar mais fácil encontrar (sim, seduzir) alguém dentro de uma minoria, parece ser uma enorme arrogância afirmar que para se relacionar, ou - usando a sua expressão - se jogar nos braços de uma mulher, não precisava de sensualidade, forma e vaidade. Por que? Porque o relacionamento homoafetivo é um vaso sanitário?

A matéria fornece várias "pérolas" que seriam cômicas se não fossem trágicas: "As declarações da atriz, que não associa homossexualidade a algo inato à pessoa e sim como comportamento que pode ser superado, deixou a militância LGBT do país em polvorosa"; "Claudia deixou nas entrelinhas que sua opção pelo lesbianismo se deveu a diversos fatores externos como trauma de infância, rejeição e carência afetiva". No cotexto da última frase, acho interessante mencionar aqui o título da entrevista, concedida pela atriz ao jornal "Folha de São Paulo" (que, aliás, é a única fonte devidamente citada no artigo): "Claudia Jimenez diz que rejeição fez florescer seu lado cômico". Coerência jornalística? Que nada!

Quando a gente pensa que uma tese bizarra já tenha sido superada, neste caso de "cura gay", de repente aparece alguém que lança uma declaração brilhante, como esta: "Que outros sigam o exemplo de Claudia. Há saída para o comportamento homossexual". Só faltou o final lógico da frase: "...no caso de pessoas bissexuais".

20 de janeiro de 2014

Homofobia - palavra estranha


Escrevi recentemente que - em certo sentido - concordo com aafirmação usada pelo padre Paulo Ricardo: "Não existe nenhuma homofobia". Para ser mais exato, o padre disse: "Não existe nenhuma homofobia em considerarmos a estrutura do mundo real". De fato, a polêmica mais importante seria sobre o conceito do "mundo real", mas o início daquela frase despertou na minha memória o questionamento de outro tipo. Quando usei a expressão "em certo sentido", fiz referência, de fato, a um e único sentido. Enquanto a homofobia - como a entendemos - lamentavelmente continua existindo e até parece aumentar, o próprio termo não me deixa sossegado. O que quero dizer é que não existe a homofobia do ponto de vista linguístico (etimológico, fraseológico etc.). O que, de fato, existe e tanto nos atormenta é uma "heterofobia".

Analisemos um pouco a história:

A palavra homossexual é um híbrido do grego e do latim com o primeiro elemento derivado do grego homos'mesmo' e o segundo elemento derivado do latim sexus'sexo', conotando portanto, atos sexuais e afetivos entre pessoas do mesmo sexo. Especialistas em literatura psiquiátrica concordam em posicionar o surgimento do termo homossexualismo no século XIX, por volta da década de 1860 ou 1870, criado pelo discurso médico para identificar o sujeito homossexual. A primeira aparição conhecida do termo homossexual na impressão foi encontrada em um panfleto de 1869, publicado anonimamente, pelo romancista alemão nascido na Áustria, Karl-Maria Kertbeny. [fonte]

palavra homofobia é um neologismo criado pelo psicólogo George Weinberg, em 1971, numa obra impressa, combinando a palavra grega phobos ("fobia"), com o prefixo homo-, como remissão à palavra "homossexual". O problema é que tal prefixo ('homo') é também uma palavra completa (como vimos acima) e a mencionada remissão à palavra 'homossexual' não parece tão óbvia. Se, portanto, a palavra 'fobia' - "medo, aversão irreprimível" (do grego antigo φόβος) associarmos ao termo 'homo' (também do grego antigo ὁμός - 'mesmo, igual'), vamos descrever o "medo do igual" o que não é o caso da homofobia real, cujos tristes efeitos sofremos diariamente na própria pele. O medo, a aversão irreprimível, a agressão irracional... tudo isso dirige-se a nós, justamente por sermos diferentes. Na língua grega existe o termo 'heteros' (ετερός) que quer dizer 'diferente'. Por analogia (e, segundo os estudiosos, como a resposta à criação do termo "homossexual") surgiu a palavra "heterossexual", com a mesma lógica de associar um elemento derivado do grego ('heteros' - 'outro, diferente') e o outro, derivado do latim ('sexus' - 'sexo'), para indicar atos sexuais e afetivos entre pessoas de sexos opostos. Logo, o mencionado acima "medo causado pelas pessoas diferentes (no contexto sexual)" seria 'heterofobia' e não 'homofobia'.

Vale mencionar aqui mais um termo, desta vez composto de duas palavras gregas e que descreve a realidade muito próxima à homofobia. É a xenofobia (do grego ξένοςxénos -'estrangeiro' φόβοςphóbos - 'medo') é o medo, aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros, a desconfiança em relação a pessoas estranhas ao meio daquele que as julga ou que vêm de fora do seu país. A xenofobia pode manifestar-se de várias formas, incluindo o medo de perda de identidade, suspeição acerca de suas atividades, agressão e desejo de eliminar a sua presença para assegurar uma suposta pureza.
A xenofobia pode ter como alvo não apenas pessoas de outros países, mas de outras culturas, subculturas ou sistemas de crenças. O medo do desconhecido pode ser mascarado no indivíduo como aversão ou ódio, gerando preconceitos. Em senso mais restrito, xenofobia é o medo excessivo e descontrolado do desconhecido. Neste sentido, é umadoença e insere-se no grupo das perturbações fóbicas,caracterizadas por ansiedade clinicamente significativa, provocada pela exposição a uma situação ou objeto temido. Para o tratamento da xenofobia são normalmente utilizados os métodos da terapia comportamental. Em alguns casos mais graves é habitual a administração de medicamentos que tenham por objetivo principal a diminuição da ansiedade extrema, uma vez que esta impede que se realizem as sessões terapêuticas de uma forma eficaz. Em outros casos, pode-se desenvolver crenças irracionais (geralmente preconceituosas), pelo que também é recomendado que se busquem estratégias cognitivas que trabalhem tais crenças.[fonte]

Bem... Não pretendo promover aqui uma revolução linguística ou a nova reforma ortográfica/etimológica etc. Procuro apenas analisar os termos que usamos.

O verdadeiro problema começa quando alguém insiste em negar a existência de algo real. É o caso de "homoafetividade" que, enquanto um termo, não deixa tantas dúvidas, porém é questionada como a mais autêntica experiência vivida pelas pessoas homossexuais. O "filósofo" Olavo de Carvalho, em um dos seus discursos, exibidos no YouTube, disse literalmente: Vamos falar o português claro: no que consiste a homoafetividade masculina, né? Consiste um comer o cu do outro, meu filho. Consiste na boa e velha sodomia, você tá entendendo? (Leia aqui e, se realmente quiser, assista os vídeos no mesmo link).

Terminando as minhas divagações sobre os termos e as expressões (com seus respectivos significados), gostaria de afirmar com a mais triste veemência: a homofobia existe, sim... A página virtual "Homofobia mata" é um dos veículos que comprovam i documentam esse trágico fenômeno.

Para finalizar, recorro ao texto do Deputado Federal Jean Wyllys, publicado na "Carta Capital":

Eu já disse uma vez e vou repetir. Cada uma dessas vítimas tem um algoz material — o assassino, aquele que enfia a faca, que puxa o gatilho, que "desce o pau", como o pastor Malafaia pediu numa de suas famosas declarações televisivas. Mas há outros algozes, que também têm sangue nas mãos. São aqueles que, no Congresso, no governo e nas igrejas fundamentalistas, promovem, festejam, incitam ou fecham os olhos, por conveniência, oportunismo, poder e dinheiro, cada vez que mais um Kaique é morto. Eles também são assassinos.

Como deputado federal, mas também como cidadão gay desse país, e antes disso tudo, como ser humano não consegue conviver com a violência e o ódio como se fossem naturais, ficarei à disposição da família e dos amigos de Kaique e farei tudo o que puder para que esse e outros crimes sejam esclarecidos e não fiquem impunes. Como dizia o poeta Pablo Neruda, chileno como Daniel Zamudio, "por esses mortos, nossos mortos, eu peço castigo".

18 de janeiro de 2014

Ser homossexual ou gay?


Escrevi várias vezes aqui sobre a dificuldade de promover o diálogo construtivo entre o dois "universos": o católico (ou cristão em geral) e o "LGBT". Os obstáculos começam bem antes do preconceito mútuo em si. Na verdade, tais obstáculos originam-se na incapacidade de usar as palavras com a devida compreensão. Isso começa na escola primária, as consegue se infiltrar até nas faculdades de teologia. Vale observar aqui que cada um desses "universos" possui a sua linguagem própria, sempre com uma margem de incompatibilidade que pode ser superada com uma dose de boa vontade e um pouco de esforço. Observo esse esforço, por exemplo, na assim chamada "grande mídia" que, aos poucos, vai modificando a sua terminologia, ao transmitir as notícias ligadas à Igreja. Agora conseguimos ouvir, com mais frequência, que o fulano de tal vai ser canonizado (e não santificado) pela Igreja etc. A Igreja, por sua vez e pelo menos em seus documentos oficiais, também consegue rever a sua linguagem, relacionada à homossexualidade. Um texto de 2002, assinado pelo Prefeito do Pontifício Conselho para a Família, traz uma distinção bastante curiosa: É inadmissível que se queira fazer passar como uma união legítima, e inclusivamente como "matrimônio", as uniões de pessoas homossexuais e lésbicas, até mesmo com a reivindicação do direito a adotar filhos. Nos documentos mais recentes esse equívoco já não aparece. O próprio conceito das uniões de pessoas do mesmo sexo parece ganhar, também, cada vez mais espaço, passando de algo "inadmissível" a um fato existente e digno de atenção. A evolução linguística, entretanto, parece não ter alcançado a mente de outros autores que, ainda que de maneira não tão oficial, também falam em nome da Igreja. Este é o caso do padre Paulo Ricardo, que em uma entrevista ao portal "Destrave", vinculado à "Canção Nova", afirma:

É preciso antes distinguir a pessoa homossexual do movimento gay. Homossexual é a pessoa que tem atração por outra do mesmo sexo. O gay é uma pessoa que assumiu uma postura política, ele é um militante. Nós católicos queremos acolher todos os homossexuais que estejam dispostos a renunciar ao gayzismo, porque este sim é incompatível com a moral cristã. 

Sem entrar na polêmica sobre o neologismo (copiado pelo padre do "filósofo" Olavo de Carvalho), pergunto: por que a postura política do movimento gay é incompatível com a moral cristã? Lutar contra o preconceito, defender a dignidade humana e zelar pela segurança das pessoas, não se encaixa aos deveres de um cristão? Ou a perseguição dos cristãos é ruim, enquanto a perseguição das pessoas homossexuais é boa e legítima? A militância católica fundamentalista está OK, mas a militância LGBT não está? Onde começa uma postura política? Não seria no momento em que, nas eleições de qualquer tipo, nego o meu voto ao candidato homofóbico? Ou quando mantenho e atualizo um blog, publicando as opiniões favoráveis às pessoas homossexuais?

Realmente, neste contexto, qualquer diálogo torna-se praticamente impossível...

Na mesma entrevista, o padre diz mais uma coisa: Não existe nenhuma homofobia em considerarmos a estrutura do mundo real. A estrutura do mundo real diz o seguinte: não existe nenhum modo de haver uma união genital entre duas pessoas do mesmo sexo. O cardeal Ratzinger, quando ainda prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, assinou um documento no qual dizia que nenhuma ideologia – no caso aqui a ideologia gay – será capaz de mudar a estrutura da realidade. Então eles podem repetir quanto quiserem, mas da união entre duas pessoas do mesmo sexo não sai vida e a união entre um homem e uma mulher gera vida. Esta é a estrutura do mundo real.

Quer dizer, eu sou irreal... É claro que ninguém vai aceitar dialogar comigo, afinal, eu não existo. Com todo respeito ao Papa emérito (citado acima cardeal Ratzinger), a "ideologia gay" não só é capaz de mudar a estrutura da realidade, mas já está fazendo isso há muito tempo. A antiga estrutura da "realidade", hermética e unânime em rejeitar as pessoas diferentes, está se abrindo, cada vez mais, à "ideologia do Evangelho" que consiste em atitudes de acolhimento, compreensão e, justamente, nas tentativas de diálogo.

Quanto à expressão do autor: "Não existe nenhuma homofobia", quero surpreender os meus (eventuais) Leitores e afirmar que - em certo sentido - concordo com isso. Prometo explicar melhor esta questão na próxima vez...

13 de janeiro de 2014

Travando a Igreja


Citei ontem a frase de D. João Carlos Petrini, o Presidente da Comissão Vida e Família da CNBB que disse que "o Papa Francisco está destravando a Igreja". O esforço do Pontífice é visível a cada momento. Ao mesmo tempo, parecendo uns vermes que saem de baixo da terra, surgem textos e atitudes que, sem sombra de dúvida, procuram o contrário, isto é, travar a Igreja. É isso mesmo, pois a mais prejudicada fica, exatamente, a Igreja, cujo nome usam os pretensiosos teólogos e moralistas do fundo do quintal. O prejuízo é tanto maior, quanto mais os mesmos recorrem aos poderosos meios de comunicação social, em particular, à internet. Eu sei que a Igreja, enquanto instituição, é (e quase sempre foi) uma máquina enorme e, portanto, lenta em suas reações. O indevido uso de seu nome, porém, merece ser detectado e repudiado de forma exemplar. É o caso do portal "Pro Ecclesia Catholica ~ Lutar pela Verdade, Mesmo Que Seja Preciso Morrer Por Ela" (detesto quando alguém escreve assim, abusando das maiúsculas) que venho apontar como merecedor de todo repúdio. Em nome de Jesus!

Em uma de suas publicações recentes, o portal pergunta (e responde): "Por que dizer não à adoção de crianças por casais homossexuais?". O autor, Pedro Henrique Alves (quem quiser, pode localizá-lo no facebook), começa a sua brilhante argumentação com a tese: "Vivemos um dilema social que é o problema dos órfãos". Ainda bem que ele não tenha optado pelo caminho mais curto, a exemplo do cientista "apocalíptico" do romance de Dan Brown "Inferno". No livro, "o dilema" foi o crescimento avassalador da população mundial que precisava ser desacelerado de maneira tanto rápida, quanto radical. Mesmo que o autor do texto sobre a adoção de crianças por casais homossexuais não tenha chegado à conclusão tão drástica, há um passo apenas, entre a propaganda fanática e o aumento do preconceito e da violência homofóbica. Sinceramente, eu fico tranquilo em relação aos estudiosos e atentos, mas preocupo-me com todos aqueles que a palavra "católico" priva de qualquer reflexão inteligente e objetiva. Estes, sim, facilmente caem nas ciladas do discurso fundamentalista.

Os leitores sensíveis às regras da língua portuguesa rapidamente ficam com uma pulga atrás da orelha, diante da seguinte introdução do autor: "Para uma maior compreensão do artigo seguiremos a linha das minhas 4 linhas argumentações [sic! - talvez tenha sido um erro de digitação e o certo seria "lindas"] sendo que elas serão colocada [sic!] em tópicos para maior visualização". Vejamos, portanto, essas linhas, ou lindas argumentações:

1- Problema: Imposição cultural
Hoje vemos que não curamos esta ferida social (o problema dos órfãos), mas avançamos. Porém não é difícil constatar que alguns grupos com a intenção de se consolidar, e estruturar suas opiniões [sic!] usam de assuntos terminantemente sérios para se impor como solução. Isso se dá claramente na adoção de crianças por "casais" homossexuais. Não estou dizendo que estes casais tenham a intenção de impor os seus dilemas sexuais aos outros, porém aqueles militantes que estão por trás das leis de legalização das adoções por parte dos homossexuais, que assim se fazem de anjos guardiões que pouco estão se importando com estas crianças e sim, usando deste meio para conseguir se infiltrar na sociedade cristã [sic!] a fim de (talvez "afim") de satisfazer as organizações internacionais que pressionam o governo para uma nova moral mundial.  

A teoria (o a obsessão) de uma grande e misteriosa conspiração mundial sempre faz muito sucesso. Olavo de Carvalho que o diga. O autor do artigo em questão, sem dúvida, tem aquele ex-mago filósofo por mestre. Basta ver os termos que usa (por exemplo "gayzismo")...

2- Problema: Imposição [da] homossexualidade como uma nova vertente sexual
Sabemos por estudos e principalmente pelo DR. Gerard Van den Aardweg (...) que o homossexualismo não é genético (...) e sim da esfera comportamental ou traumática [sic!]. Sendo assim o Dr. Gerard explica que a criança até atingir sua fase adulta de maturidade emocional, ela é totalmente influenciável e as condições de onde ela vive e com quem vive a influenciará (influenciarão) a tomar para si suas características futuras [sic!] na parte emocional, intelectual e sexual. Através dessa influência a militância gay vê a oportunidade de se consolidar na sociedade, fazendo das crianças presas fáceis e moldáveis para seus planos [sic! sic!]. Esta mesma estratégia é utilizada por exemplo através da cartilha Gay.

Agora vem a parte mais impressionante. Merece um prêmio, quem conseguir acompanhar o raciocínio a seguir. E uma reprovação, quem não perceber uma contradição mais que grosseira:

Não estou aqui colocando um ponto final sobre a sincera vontade de um ou dois homossexuais de ajudar sinceramente uma criança órfã, mas sim explicitar que uma criação de uma criança por um casal homossexual não é benéfica e sim traumática para a criança que se verá em um ambiente que lhe trará confusão e questionamentos sobre si e sua sexualidade, questões que não são abertas a interpretações ou argumentações, como se houvesse uma escolha a qual sexo seguir, sendo sexo é uma característica inerente a vontade e não está no âmbito da faculdade de escolha. Todos nós se nos colocarmos nus em frente (aqui fiquei na dúvida se é para nos colocarmos uns em frente dos outros, o que seria talvez um pouco indecente, ou, por exemplo, em frente de um espelho) veremos que temos o órgão sexual feminino ou masculino, temos útero e vagina ou pênis e testículos (independentemente de cirurgias), e não que alguém esteja impedido de escolher ser hétero ou não, pois isso é uma escolha que esta no campo ideológico, afinal isso é a liberdade de escolha, porém, não se pode igualizar a heterossexualidade com a homossexualidade como se ambas fossem biológica e geneticamente comprovada ser inerente ao ser humano; não há como apresentar o homossexual como um 3º sexo, e sim uma opção de vida e não um gênero sexual.


Bem... talvez isso já seja suficiente para formar uma opinião clara sobre o autor e as suas divagações. Nos dois pontos restantes do texto temos algo sobre os "traumas psicológicos" da criança adotada pelos homossexuais (uma difusão do “gayzismo” como uma vertente da sexualidade; conceitos totalmente confusos que na cabeça de uma criança causa grande tempestade de ideias imaturas quanto a si mesma; muitas dificuldades no desenvolvimento emocional etc.) e, finalmente, sobre a "política fútil" (Enquanto houver interesses de grupos minoritários sendo colocados acima dos interesses do Povo, aquela parte da constituição que diz “Todo poder emana do povo” é apenas uma grande “tertúlia flácida para dormitar bovino”. O povo brasileiro em sua maioria é terminantemente Cristão e contra a adoção de crianças por parte de homossexuais, ou será que irão negar isto também?)...


O antídoto está, simplesmente, no bom senso. Quem quiser, entretanto, desintoxicar a mente, pode recorrer ao texto "Contribuições da psicologia em relação à adoção de crianças por casais homoafetivos: uma revisão de literatura", publicado por Revistas Unijorge. O artigo sério, objetivo, baseado realmente nas pesquisas científicas e assinado por nomes de peso e autoridade muito maiores do que o nome de um estudante de teologia disléxico, portador de um cérebro bem lavado. No texto vamos encontrar as respostas para todas as (eventuais) dúvidas causadas pela desastrosa argumentação citada acima. Escolhi apenas duas frases que podem servir como resumo de toda reflexão sensata e serena:

Foi percebido que, para a criança, conviver com o homoafetivo se constitui em uma maior possibilidade de desenvolvimento do respeito e tolerância às diferenças individuais, características estas muito valiosas para vida em sociedade.

A adoção de crianças por casais homoafetivos não se apresenta como fator prejudicial ao desenvolvimento saudável da criança, pois assim como os casais heteroafetivos, os homoafetivos possuem condições de cuidar, educar e fornecer o que preciso for ao filho.

11 de janeiro de 2014

Canção nova ou velha?


A "Canção Nova" (para quem não sabe) é uma comunidade católica (carismática), dedicada à evangelização, principalmente através dos meios de comunicação social. A mais conhecida, obviamente, é a TV Canção Nova. A sede da comunidade está na cidade de Cachoeira Paulista (SP) e lá acontecem os maiores eventos promovidos por ela e transmitidos ao vivo pela própria emissora. Durante os famosos acampamentos e retiros da Canção Nova discursam vários pregadores que, para tal privilégio, precisam ser reconhecidos pela sua fidelidade à determinada linha doutrinal da Igreja. Com outras palavras, não é qualquer um, mesmo sendo bispo, padre, ou diácono (isto é, pregador autorizado pela Igreja para esse ofício) que pode ser admitido ao púlpito (e às câmeras) da Canção Nova. Não encontraremos por lá, por exemplo, os padres: José Trasferetti, James Alison, Luis Corrêa Lima, José Lisboa Moreira de Oliveira e muitos outros. É mais fácil contar com a presença do midiático padre Reginaldo Manzotti ou do ferrenho defensor da doutrina e da tradição, padre Paulo Ricardo. Este último está presente, agora mesmo, no acampamento "Revolução Jesus - Livres para amar" (08-12/01/2014). O portal da Canção Nova publicou a transcrição de sua palestra. Entre outras coisas, padre Paulo Ricardo, fala sobre os homossexuais [os grifes são meus]:

Você pode repetir quantas vezes quiser que a união entre dois homens e que a união de duas mulheres são a mesma coisa que a união de um homem com uma mulher. Você pode repetir várias vezes isso, mas isso é artificial, pois o mundo real grita que, quando um homem se une com uma mulher, acontece o milagre da vida. Quando dois homens se unem não acontece nada; e quando duas mulheres se unem também não acontece nada; e este é o mundo real. Desculpem-me, não estou discriminando ninguém. A Igreja não quer discriminar os homossexuais como se eles fossem inferiores. A Igreja quer somente dizer: Existe uma obra inscrita na criação, se nós obedecermos ao nosso Criador, ao ''Fabricante'', vai ser melhor para todos. As pessoas dizem que ficamos castrando os homossexuais ao afirmarmos que eles não podem usar o sexo como querem. Mas ninguém pode usar o sexo como quiser. A Igreja não discrimina ninguém, ela pede a castidade para todos. Os casais [homem e mulher] também são chamados à castidade.

Para explicar melhor a minha resposta, recorro a outro trecho da mesma pregação:

O sexo só pode ser realizado em um projeto de família, em queum homem e uma mulher se unem de forma permanente para gerar filhos, não estou dizendo que ele é feito só para isso, mas ele tem a ver com esta obra linda de gerar crianças. Este é o projeto de Deus e é, porque perdemos a noção disso, que a moral sexual se tornou tão complicada para nós.

E mais um trecho:

(…) temos dois caminhos, temos que escolher entre eles. O primeiro caminho é o mais comum, a aliança de amor, chamada de "matrimônio" e o outro caminho chamado é o "celibato", que também é uma aliança de amor, uma oferenda da sua sexualidade para Deus. (…) Quem é solteiro, está solto, disponível. Um padre, como eu, não é solteiro. O padre é comprometido em uma aliança de amor com Deus e deve viver assim. Nós precisamos entender isso, ninguém tem vocação para ser solto, para ser solteiro, no entanto, hoje, nossa sociedade acha que liberdade é você ser solteiro, mas não é assim. A liberdade do amor acontece quando selamos uma aliança de amor, quando celebramos uma aliança de amor nós somos livres para amar.

1. Um homem e uma mulher se unem de forma permanente para gerar filhos - sem dúvida, padre! Nenhuma das pessoas homossexuais pretende negar isso, afinal todos nós viemos a este mundo por meio de uma união desse tipo (bem, nem sempre tenha sido uma união permanente, mas sem dúvida alguma, trata-se de união entre um homem e uma mulher).

2. O senhor padre diz que esse projeto de família (que une um homem e uma mulher) não é feito só para gerar filhos, mas tem a ver com essa obra linda de gerar crianças. Eu sempre pensei que o projeto de Deus em relação ao ser humano tem a ver com o amor e não necessariamente com essa obra linda de gerar crianças. O celibato que - usando as suas palavras – é uma oferenda da sexualidade para Deus - não tem nada a ver com essa obra linda de gerar crianças. Além disso, a Igreja reconhece como válido o matrimônio entre um homem e uma mulher que, por algum motivo independente de sua vontade, não podem ter filhos.

3. O senhor, padre Paulo Ricardo, diz que ninguém tem vocação para ser solto, para ser solteiro, no entanto, hoje, nossa sociedade acha que liberdade é você ser solteiro, mas não é assim. Por que, então, o Beato João Paulo II afirmouEstou também contente por encontrar pessoas que pertencem aos vários setores da Igreja: diáconos e seminaristas, religiosos e religiosas, maridos e esposas, mães e pais, solteiros, noivos, viúvas, jovens e crianças. Todos juntos podemos assim celebrar a nossa união eclesial em Cristo?

4. Em sua palestra, o senhor disse: Quando dois homens se unem não acontece nada; e quando duas mulheres se unem também não acontece nada; e este é o mundo real. O senhor já conversou, alguma vez, com um casal homossexual? Já tentou ouvir, com calma, o que é que acontece entre essas pessoas? O que é que as une? Senhor seria capaz de compreender que as suas próprias palavras aplicam-se na experiência de muitos casais homoafetivos: a liberdade do amor acontece quando selamos uma aliança de amor, quando celebramos uma aliança de amor nós somos livres para amar. Este, padre Paulo Ricardo, é o mundo real.

5. Para terminar, senhor padre, recorro de novo às suas palavras:As pessoas dizem que ficamos castrando os homossexuais ao afirmarmos que eles não podem usar o sexo como querem. Mas ninguém pode usar o sexo como quiser. Pois é, Padre! Eu acho que aqui está o "x" da questão. Ninguém pode usar o sexo como quiser. Por mais que eu quisesse fazer sexo com uma mulher, simplesmente não posso, não consigo. Quem pretende nos "transformar" ("converter", se quiser esse termo) em heterossexuais, está de fato tentando nos castrar. O próprio Catecismo, ao qual o senhor es refere tanto, diz: Cabe a cada um, homem e mulher, reconhecer e aceitar sua identidade sexual(CIC, 2333) Por isso não é questão de "usar o sexo como quiser", mas de acordo com a própria identidade sexual.

6. A última coisa. O padre afirma: Desculpem-me, não estou discriminando ninguém. A Igreja não quer discriminar os homossexuais como se eles fossem inferiores. (…) A Igreja não discrimina ninguém (...). NÃO ME DIGA!

10 de janeiro de 2014

No polêmico mundo da verdade


A Palavra de Deus (a mesma que se fez carne e habitou entre nós) é a luz para guiar os nossos passos. Nem sempre, porém, o homem, a quem o próprio Deus dirigiu a sua mensagem, é capaz de compreendê-la. Muitas vezes, ao longo da história do cristianismo, a voz divina era utilizada como a arma contra alguém, apesar de uma advertência muito clara, fornecida pela própria Bilblia: Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares. (Ef 6, 12)

O ditado popular afirma que o amor é cego. Na prática, o coração apaixonado deposita a confiança infinita (e - porque não dizer - ingênua) no ser amado. Assim acontece em nossa dimensão humana. É impossível conhecer por completo as profundezas do amor divino. Entretanto, a minha impressão é essa: Deus se arriscou demais, tendo confiado a sua Palavra ao homem. Por outro lado, Ele é perfeito e onisciente, isto é, sabe tudo. Deve ter, então, o seu propósito divino neste ato tão arriscado. Tudo isso, espero, Ele mesmo vai revelar para nós um dia. Com outras palavras, não preciso me preocupar com a "ingenuidade" de Deus. O que me atormenta, é a mediocridade, a soberba e a estupidez daqueles que são considerados (ou se autodenominam) "homens de Deus". Tal título, muito provavelmente, gera neles a sensação de serem verdadeiros donos da verdade, únicos intérpretes da Palavra, monopolistas do divino. Eles se sentem confirmados em todas essas prerrogativas principalmente na hora de condenar alguém...

Acabo de ler um texto, escrito por José Victorino de Andrade, EP (aqui apresentado como diácono, embora, em outras matérias, citado como padre, de qualquer maneira é o membro do "ramo sacerdotal dos Arautos do Evangelho - Virgo Flos Carmeli") e publicado hoje pelo portal católico de notícias "Gaudium Press". O autor começa a sua reflexão como aquele homem da parábola de Jesus: construindo a sua casa sobre a areia, isto é, usando uma tese, no mínimo, duvidosa:

O homem hodierno julgar-se-ia menos moderno se não criticasse os antigos. Para ele, as verdades passaram a possuir uma validade. As descobertas do passado foram ultrapassadas pelo presente, e sofrerão reparos no futuro. Tudo é transitório. Apenas a opinião alheia se enche de brios, pouco disposta a dialogar, ou pelo menos, a reconhecer uma verdade exterior.

Consequentemente, muitos autores contemporâneos, ao pretenderem apoderar-se da verdade, sentam-se em sua cátedra embevecida de pretensões infalíveis, cujos escritos destilam os seus próprios dogmas, muito distantes, por vezes, do mundo real. E quanto mais escandalosos, provavelmente, mais publicitados e comentados.

Bem... se pensarmos em todos os tormentos, pelos quais passaram os gênios da humanidade, tais como Giordano Bruno, Galileu, Copérnico, Maquiavel, Erasmo de Roterdão, Espinosa, Pascal, Descartes, Voltaire, Victor Hugo, Balzac e tantos outros, o ponto de vista apresentado pelo autor do texto não será uma novidade no "mundo eclesiástico". Lembro-me de uma carta, se não me engano, escrita por São Francisco Xavier (ou um dos outros grandes missionários daquela época), na qual sobressai o espanto, diante da "descoberta" de que os nativos também possuíam a alma... Enfim, o que o autor do artigo descreve em tom de ironia, é um fato, uma lei da civilização. Algumas "verdades" foram, de fato, ultrapassadas, por meio de novas descobertas e confirmadas pela ciência. Assim, um dia o homem deixou de caminhar pela terra plana, pois descobriu que o planeta é redondo. Um dia, também, os homossexuais deixaram de ser considerados doentes (alo menos pela ciência) e estão prestes a ser admitidos como seres humanos, portadores de direitos iguais ao resto da humanidade. E, exatamente assim como nos tempos da "revolução cosmológica", hoje também são os eclesiásticos (graças a Deus, não todos) que, usando as palavras do artigo, sentam-se em sua cátedra embevecida de pretensões infalíveis, cujos escritos destilam os seus próprios dogmas, muito distantes, por vezes, do mundo real, para detonar a "revolução moral"...

José Victorino descreve a sociedade moderna dessa maneira: Numa cultura hedonista, na qual a igreja foi substituída pelo shopping, a beleza da virtude pela estética corporal, o jejum e a penitência pela dieta e o suor no ginásio, uma religião de dogmas e prescrições morais só poderia surgir ao pensamento contemporâneo como algo ultrapassado, impositivo, que asfixia a própria pretensão de verdade.

Em vez de debater cada ponto desta crítica, faço uma pergunta. O que fez a Igreja, ou melhor, os seus teólogos, pregadores, dignitários, catequistas, pais e mães católicos, para convencer as novas gerações sobre o valor incomparável da igreja (templo), sobre a citada beleza da virtude, a preciosidade de jejum e penitência, e a veracidade de dogmas e prescrições morais? Talvez não lhes tenha sobrado o tempo para essa formação positiva, pois dedicaram-se exclusivamente à obra de censurar os pecadores. Mais ou menos assim, como no caso da formação no seminário sobre o celibato que - de acordo com os relatos de um padre, meu amigo - baseava-se na imagem infernal da tragédia que seria a traição daquele voto. Ou seja, nada de "teologia positiva do celibato"...

O autor do artigo também faz perguntas. E ele mesmo responde. Vejamos:

Como convidar o homem a sair de si, e dos seus preconceitos recentemente criados, a esmo, conforme o cardápio apresentado por verdades relativizadas, engolidas sem mastigar, que o empanturram de critérios pouco judiciosos, assimilados com a mesma rapidez com que muda o canal da TV?

A resposta não é uma verdade abstrata, mas uma pessoa concreta: Jesus Cristo, a "Palavra eterna que se exprime na criação e comunica na história da salvação" (Verbum Domini n. 11). Para o cristão, a Verdade absoluta, Deus, encarnou e fez-se homem (Cf. Jo 1, 14), possui um rosto - "Quem me vê, vê o Pai" (Jo 14, 9) - e um nome, não havendo debaixo do céu salvação em nenhum outro (Cf. At. 4, 12). Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (Cf. Jo 14, 6). Esta é a grande novidade do cristianismo, um Deus pessoal, não distante, que entra na História.

Deu para entender? E o que dizer das pessoas que não saem de si mesmas, dos seus preconceitos e das verdades relativizadas, engolidas sem mastigar, EM NOME DE JESUS, ou pelo menos, em nome da doutrina da Igreja (que nem sempre é a mesma coisa)???

O autor conclui: Descobrimos assim que a verdade não é abstrata, variável, limitada, mas que é o próprio Deus encarnado, que entrando na história concreta dos homens, com Palavras de vida eterna, orienta-os na sua peregrinação terrena, convidando-os a conformar a sua vida à luz da Revelação.

A única questão é aprender a ler com humildade a Palavra de Deus. Ele que é Amor infinito e assim se revela, convida-nos a conformarmos (que quer dizer também "corrigirmos") a nossa vida à luz desta revelação.