ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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16 de outubro de 2013

감사합니다 엄마

 
Continua o meu sonho conto sobre o namoro com um rapaz coreano. Acabamos de chegar na casa da minha mãe e ela, muito rapidamente, passou a adorá-lo. O sentimento é, também, nitidamente recíproco. Essa afinidade começou logo no primeiro dia, no final do almoço. A minha mãe estava inicialmente muito preocupada com as diferenças culturais, especialmente no que se refere aos costumes culinários e à etiqueta à mesa. A minha declaração de que o rapaz era moderno, tranquilizou a minha mãe, até o susto que ela levou, por um delicioso instante, depois da refeição. Como de costume, a minha mãe tirou os pratos da mesa e foi à cozinha para fazer o café (sagrado, lá em casa). Ela toma um café solúvel com leite, no copo e sabe que eu gosto de acompanha-la da mesma maneira. O meu café é sempre um pouco mais forte e cada um coloca a sua dose de açúcar no copo (ou seja, o café não é adoçado na hora de ser feito). Como, porém, tratava-se de uma visita e ainda tão exótica, a minha mãe, educadamente, perguntou da cozinha se ele também queria o café ou, por exemplo, um chá. Agora não sei se foi de um propósito minuciosamente elaborado, mas o fato é que ele pediu um chá preto. Dentro de alguns instantes, a minha mãe chegou, carregando três copos em uma bandeja. Estávamos sentados no mesmo sofá, eu no meio, o rapaz e a minha mãe nas pontas. Ele me pediu para trocar de lugar e se sentou mais perto da minha mãe. A cena em seguir merece uma atenção redobrada...
 
Ele tem este costume com as pessoas que considera amigas: quando fala, segura com as duas mãos a mão do outro. A minha mãe contou-me depois que "ele tem alguma coisa no toque que dá uma sensação de ternura e de paz" ("Mãe! Eu que o diga!"). Segurando, portanto, a mão da minha mãe e olhando bem nos seus olhos, ele começou a falar pausadamente...
 
"Mãe! [sic!] Eu conheço muito bem os costumes e as tradições milenares da minha pátria. Sei também cumpri-los todos, com muita reverência, pois reconheço o seu valor. Entre as regras tradicionais da Coréia está a forma de servir o chá. É uma bebida nobre que requer o recipiente igualmente nobre, isto é, a porcelana. Para os coreanos, servir o chá em um copo de vidro, configura o grave insulto. (Nessa hora, a minha mãe tinha a mistura de susto e vergonha, estampada no rosto). Ele continuou, segurando as mãos dela e disse: Eu sou um coreano moderno, aprendi no Brasil muitas coisas novas i boas. Uma delas é a capacidade de respeitar profundamente os costumes antigos, sem estar aprisionado neles. Para mim, o modo tradicional de servir o chá, é um entre outros. Nem melhor, nem pior. É apenas um dos modos. Por isso vou tomar com muito gosto o chá que senhora fez para mim, pois o que importa, é o seu carinho e a sua gentileza ao fazê-lo e não a embalagem no qual ele veio. Com a mesma gratidão, eu tomaria o seu chá, servido em qualquer recipiente."
 
Quando tudo parecia bem resolvido e a sensação de alívio tinha aparecido no rosto da minha mãe, ele prosseguiu: "Aproveitando este exemplo, queria lhe falar sobre outra coisa. Tanto na tradição coreana, quanto na cultura de todas as nações, o casamento entre homem e mulher é mais frequente e considerado normal, a ponto de todas as outras formas serem vistas, pela maioria, como um insulto, ou absurdo. Eu, porém, compreendo este modo como um entre outros. Respeito, reconheço o seu valor milenar e majoritário. Porém, para mim, é apenas um dos modos. É por isso que gostaria de declarar à senhora o meu desejo e pedir o seu consentimento para que eu possa me casar com o seu filho. Na verdade, foi ele que me pediu em casamento, mas é o mesmo sentimento e a mesma vontade que eu trago no meu coração."
 
Não sei se foi a força da comparação, ou as suas mãos "mágicas", mas o que importa é que a minha mãe ficou emocionada e deu a ele um demorado abraço regado de lágrimas. Depois disse simplesmente: "Vocês têm o meu apoio para sempre. Cuidem bem um do outro e se amem muito!"
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Dicionário:
감사합니다  엄마 - (kam-sa-ham-ni-da, oem-ma) Muito obrigado, mamãe!

14 de outubro de 2013

동생 사랑해요


Nunca tentei escrever um conto com a temática gay, menos ainda, um conto erótico (embora a erótica em si, esteja presente, já em um simples olhar ou um aperto de mão). Tenho tido, porém, há vários dias, um sonho que - se é que eu consiga raciocinar - está passando na minha mente, sem que eu esteja dormindo. Não sei se a inspiração tenha sido, simplesmente, o fruto de vários filmes que assisti recentemente, ou trata-se de outra fonte (???). O curioso é que eu não estou elaborando as cenas (lugares, personagens e episódios), mas tudo isso vem à minha cabeça pronto e muito detalhado. A coisa, as vezes, está tomando uma dimensão tão intensa que começo a me preocupar com a minha saúde mental. Pode ser, também, o sinal de avanço da minha idade que, como sempre ouvia dizer, em certa altura faz a gente retornar à infância. Não consigo (nem tento) esquecer de longos períodos da época de meus 10-13 anos (apenas suponho essa idade), em que vivia numa espécie de mundos paralelos, em companhia de amigos imaginários, com os quais conversava mais do que com as pessoas reais. Fazíamos passeios fascinantes e sempre tínhamos assuntos para conversar. Depois... cresci e a coisa se dissipou. Até agora...
 
No meu sonho atual, estou vivendo o intenso namoro, com um jovem... coreano (alguém consegue me explicar, de onde veio esse detalhe?). Ele nasceu na Coréia do Sul, embora a sua família tinha conseguido fugir do regime norte-coreano, ainda na época dos avós dele. Com alguns anos de idade, os pais dele mudaram-se para o Brasil, concretamente, para o Rio de Janeiro, onde abriram um restaurante de comida coreana. Ainda não passou na minha cabeça o capítulo que contasse o momento e a maneira de nos conhecermos, mas - muito provavelmente - tenha sido, justamente, naquele restaurante, onde o rapaz já trabalhava, revelando o seu grande talento na cozinha. Há história sobre o  fim de namoro dele com um europeu, talvez alemão, que ajudava, também, no mesmo restaurante. Pelo que consta, eu apareço naquela hora (aqui faltam alguns detalhes). O que está se desenvolvendo é o nosso projeto de casamento (é sério!). Isso inclui a viagem que fazemos juntos, para que ele conheça a minha família. Grandes cenas acontecem na casa da minha mãe que, inclusive, está adorando o seu futuro genro. Embora o meu irmão tenha sido mais lento nessa aceitação, o rapaz torna-se grande amigo das minhas sobrinhas. O próximo passo será a outra viagem, desta vez, à Coréia, mas essa já faz parte da nossa lua de mel, depois do casamento, aqui no Rio. Por enquanto, estamos na casa da minha mãe. Ele arrasa na cozinha, revela um dom de apaziguar os cachorros, quer dormir no chão e tem ótima comunicação com a minha mãe. Os mais impressionantes são os detalhes, gestos, conversas. Não há cenas eróticas (como falei antes). Estamos perdidamente apaixonados e o plano é de abrirmos juntos um outro restaurante. O trabalho paralelo seria de um pequeno centro de cultura coreana, além do escritório de tradução (obviamente, coreano-português e vice-versa). Ele, além de coreano e português, conhece bem o inglês. Enfim, o rapaz é lindo, meigo, inteligente e algo me diz que ainda vou encontra-lo na vida real. Ou é apenas um delírio?

Traduzindo o título:

동생 ( dong-seng ) : Quando um(a) menino(a) chama um(a) menino(a) mais novo(a)
사랑해요 (sarang-heyo) - eu amo você

13 de outubro de 2013

O casório

 
Estou de volta, depois de participar de um momento histórico: a cerimônia de assinatura de declaração de pacto de união estável, entre A. e V. Não houve a pergunta sobre os possíveis impedimentos ao casamento (com aquela famosa frase: "Diga agora ou cale-se para sempre!"), aliás, não houve qualquer pergunta, nem a presença de um juiz. Enfim, não se trata de um casamento, no sentido literal da palavra, ainda que os efeitos tenham sido os mesmos - pelo menos, no coração dos noivos (que o documento define com a palavra feia "contratantes") e, certamente, de todos os convidados, visivelmente emocionados. Um dos noivos fez o seu breve pronunciamento, os dois assinaram o documento, trocaram as alianças e a festa continuou, em forma de um esplêndido jantar.
 
O que mais chamou a minha atenção, foi a sensação de maior naturalidade na face da terra. Ninguém ficou cochichando pelos cantos, não houve um comentário sequer, sobre o fato de dois homens declararem o início de uma nova fase de suas vidas que, desde agora, tornam-se uma vida só. O grupo de convidados contou com a presença de umas 40 pessoas, entre os familiares (não todos compareceram e alguns nem ficaram sabendo da cerimônia), os amigos e a equipe do bufê. Ninguém estranhou a presença de algumas crianças na festa...
 
Eu perco a minha timidez, depois do segundo copo de caipirinha... Puxei o assunto da diferença de idade dos noivos (24 - 50 e poucos), em algumas conversas particulares, tentei fazer - em vão - as intervenções relacionadas ao beijo dos dois e da leitura - em voz alta - do texto daquele documento que tinha sido assinado. A única coisa que consegui, foi convencer os noivos (contratantes, nubentes, enfim...) a brindarem com o champanhe, cruzando os braços, mais ou menos assim, como os alemães e outros europeus, bebem o "brüderschaft" (um brinde à amizade que resulta em abandonar as formalidades e começar a chamar determinada pessoa pelo nome).
 
Depois do 4° copo de caipirinha, comecei as minhas investidas em relação a um jovem convidado, segundo o meu amigo (o noivo), um gay declarado. Consegui conversar um pouco com ele, descobri que mora no bairro vizinho e tal. Queria mais, mas como ele faz parte do grupo de amigos do outro noivo, provavelmente surgirão novas ocasiões para prosseguir o contato. Só para encerrar esse assunto, os 4 copos (relativamente pequenos) de caipirinha, não me deixam embriagado. Antes, ajudam-me a sair do casulo de timidez exagerada (e quase sair do armário). Falando nisso, descobri que a minha amiga que também estava presente ali, simplesmente sabe que eu sou gay, mesmo sem termos conversado sobre isso...
 
Enfim, foi uma noite feliz, marcada pelas gargalhadas saudáveis e mesas fartas. E, o que mais importante, o espírito de amor pairava sobre todos. Talvez tenha faltado um buquê de flores, jogado pelos noivos na minha direção (também reclamei!), mas o momento não deixou de ser contagiante de verdade. O namorado da minha amiga fez a ela o pedido de casamento. E ainda tem gente dizendo que "as uniões de pessoas do mesmo sexo ameaçam a família, enquanto célula fundamental da sociedade". Quem pensa assim, deveria participar de cerimônias como essa.
 
Parabéns aos pombinhos que, nesta altura, devem ter desembrulhado todos os presentes...

27 de setembro de 2013

Impressionismo cinematográfico

Procurei uma palavra que retratasse a minha impressão, depois de assistir o filme coreano "Hello my love" e me veio à mente, justamente, o impressionismo. O termo, obviamente, pertence ao mundo da arte de pintura (é um movimento artístico surgido na França no século XIX que criou uma nova visão conceitual da natureza utilizando pinceladas soltas dando ênfase na luz e no movimento - leia mais aqui). As cores frequentemente são empregadas puras na tela, em pinceladas desassociadas. Os impressionistas retratam em suas telas os reflexos e efeitos que a luz do sol produz nas cores da natureza. A fonte das cores está nos raios do sol. Uma mudança no ângulo destes raios implica na alteração de cores e tons. É comum um mesmo motivo ser retratado diversas vezes no mesmo local, porém com as variações causadas pela mudanças nas horas do dia e nas estações ao longo do ano. O estilo artístico que hoje fascina tanta gente, nem sempre foi acolhido com tanto entusiasmo. As maiores críticas recebeu logo no início. O pintor e crítico de Arte, Louis Leroy disse: “Selvagens obstinados, não querem por preguiça ou incapacidade terminar seus quadros. Contentam-se com uns borrões que representam suas impressões. Que farsantes! Impressionistas!”
 
Eu sei que o filme em questão pode despertar diversas emoções e muitos podem, simplesmente, não compartilhar o meu entusiasmo. Afinal, estamos diante de uma cultura oriental, tão distante da nossa. O tema principal gira em torno da homoafetividade, mas, o que posso dizer é que - como um soldado que põe tudo que tem dentro de um saco - o diretor, junto com toda a equipe do filme (que está longe de ser um saco) conseguiu, dentro de um pouco mais de 90 minutos, misturar - sem confundir - tanta coisa: amor e ódio, absurdo e mais pura lógica, fidelidade e traição, comédia e tragédia, covardia e coragem, religião, superstições e homofobia, sensualidade que não escandaliza, belíssimas paisagens e música, profundo mergulho na antiquíssima tradição oriental com o toque da moderna cultura ocidental, canalhice e nobreza, muita, muita chuva e realmente muita bebida, lágrimas e gargalhadas, homo- e hetroafetividade, família e amizade, sangue e morte, violência e ternura... e milhares de outras coisas. Vale acrescentar que o filme envolve, a ponto de você rir, chorar, xingar e torcer pelo final feliz. E tem mais: o elemento-surpresa, até o último minuto da história. E tudo isso protagonizado pelos lindos atores e atrizes!
 
É um filme a ser saboreado, como (e com) um bom vinho (que faz parte integral da trama). Recomendo especialmente aos casais (inclusive heterossexuais).
 
 

Casamento homoafetivo - longo cminho

 
São inquestionáveis as conquistas no campo dos direitos humanos. A comunidade GLBTTS está comemorando hoje mais um passo: O Tribunal Superior do Trabalho decidiu que que uniões heteroafetivas e homoafetivas tenham o tratamento igualitário pelas empresas. O reconhecimento legal de união estável entre as pessoas do mesmo sexo foi grande vitória. Mais tarde, o Conselho Nacional de Justiça proibiu cartórios de recusar a celebração de casamento civil de pessoas do mesmo sexo ou de negar a conversão de união estável de homossexuais em casamento.
 
Quase todos os dias de manhã escuto a Band News FM e foi um dia desses que ouvi a expressão, usada por Ricardo Boechat: "o efeito educativo da lei". Uma rápida busca me levou ao resumo de uma matéria de estudo, chamada Sociologia Jurídica (Autor: Prof. Rogério José de Almeida da PUC - Goiás), falando especificamente sobre a eficácia das normas jurídicas e seus efeitos sociais. Um dos tópicos chamou mais a minha atenção: quando se faz necessário educar o comportamento, tendo em vista modificações que se quer introduzir na cultura, a questão é de um efeito educativo do Direito com função transformadora. Entretanto, a simples edição de uma norma jurídica, mesmo armada de punição, é insuficiente para corresponder a uma efetiva aplicação.
 
Conclusão: é preciso comemorar, sim, mas, ao mesmo tempo, não se pode baixar a guarda e deixar de trabalhar, principalmente, em função de mudança da mentalidade vigente. No recente debate sobre a homofobia, voltava, com frequência, a questão dos cidadãos que precisam conhecer as leis e aprender a recorrer a elas para defender a sua dignidade. Dizia-se: "agora, pelo menos, temos os instrumentos em nossas mãos". No triste contexto da homofobia, isso é muito importante.
 
A minha pergunta, porém, vai mais longe. Queria saber (infelizmente só na teoria, pois continuo solteiro!), qual é o efeito de todas essas conquistas legais (repito: inquestionáveis) na vida real dos casais homoafetivos? Sem dúvida, é uma satisfação, poder exibir a certidão de casamento, diante dos familiares, amigos, empregadores, etc. É, também, um "escudo", quando a autodefesa se faz necessária, diante das mesmas pessoas...
 
Mas, para o próprio casal? Será que este reconhecimento legal e oficial da união ajuda a consolidar a própria união? Estou dizendo, principalmente, sobre a situação extrema - não muito rara entre os casais heterossexuais - que consiste em permanecer juntos apenas por causa daquele papel, quando todo o resto já tenha acabado. Vale acrescentar aqui o mesmo (ou, ainda mais forte e profundo) efeito educativo da lei religiosa, no caso do Sacramento do Matrimônio, ou, então, a existência dos filhos. Nessas situações extremas, os cônjuges (heterossexuais, casados na igreja e comprometidos com os próprios filhos), podem dizer: "O nosso amor acabou, não há mais nada entre nós, dormimos em quartos diferentes, mas vamos continuar juntos, por causa dos filhos, do Sacramento, dos efeitos civis do casamento e, ainda, por causa da opinião pública". Eu sei que isso, com frequência, torna a vida um absurdo, um inferno, mas o casal continua junto. Em alguns casos, aquele "um só fio" pelo qual o casamento sobreviveu, torna-se a chance de recomeço.
 
Imagino, então, um casal homoafetivo que confirmou a sua união perante a sociedade, no cartório e tem, para provar isso, um papel timbrado, carimbado e assinado. Será que, na hora de uma grave crise de relacionamento, a lei terá algum efeito educativo para o próprio casal? Ou um dos maridos, uma das esposas, dirá: "Isso não significa mais nada para mim! Até, porque significa quase nada, aos olhos da sociedade".
 
Clecius Borges (psicólogo, psicoterapeuta e escritor), em seu livro "Muito além do arco-íris" aborda este assunto (especificamente relacionado aos homens gays; seria interessante conhecer melhor, também, a mesma questão do ponto de vista de mulheres homossexuais):
 
Muitos homens gays, de diferentes idades e estratos sociais, se queixam da dificuldade de manter um relacionamento amoroso sério por um período maior do que alguns meses. (...) A maioria se contenta em apontar os outros, e o "mundo gay" de forma geral, como responsáveis pelo seu infortúnio. (...) Suas falas costumam ser recheadas de afirmações como: "Relacionamentos gays não duram mesmo", ou "Gays só pensam em sexo". Assim justificam seu fracasso, aplacam sua frustração e, sobretudo, se eximem de questionar os verdadeiros motivos pelos quais não conseguem, ou não desejam de fato, estabelecer um relacionamento profundo com outro homem gay.
 
Embora a dificuldade de amar seja relativamente comum entre homens em geral, ela aparece de forma mais intensa e frequente no universo dos homens gays. Isso se dá por uma série de fatores, direta ou indiretamente associados ao que chamamos em geral de homofobia. A homofobia de que falamos aqui é o conjunto de representações simbólicas negativas e degradantes da homossexualidade, em suas diversas manifestações, assim como ações concretas de opressão, discriminação e opressão social a que são submetidos os homossexuais ao longo da vida.
 
Em consequência desse processo contínuo e sistemático de opressão social, homens gays crescem sem espelhos que reflitam positivamente sua qualidade de amor e, portanto, não têm a possibilidade de se imaginar num relacionamento conjugal que lhes ofereça o continente afetivo pelo qual sua alma anseia. Estimulados e, de modo perverso, induzidos pela sociedade a viver uma vida marginalizada, muitas vezes associam sua inclinação homoerótica a uma sexualidade desvinculada, ou seja, sem os vínculos que conduzem à intimidade amorosa. (p. 18-20)
 
É isso... Só me resta desejar, rezar e torcer, para que as recentes conquistas legais tenham, realmente, o efeito educativo, tanto para a sociedade, quanto (ou, ainda mais!) para os próprios casais.

10 de setembro de 2013

O amigo do noivo

 
(...)  o amigo, que está aí esperando, se enche de alegria quando ouve a voz do noivo. Esta é a minha alegria, e ela é muito grande (Jo 3, 29).
 
Recebi recentemente o convite para um casamento. O meu amigo vai se casar com o seu namorado no mês que vem. OK... na verdade é o seguinte: só o termo "amigo" está exato nas afirmações acima. Na verdade, o meu amigo não veio para me fazer um convite, mas para saber o que eu penso a respeito... Também fiquei na dúvida se trata-se de um casamento civil mesmo, ou apenas de um ato de formalizar a união estável, através da certidão e da escritura registrada no cartório. Tentei, mais tarde, tirar essa dúvida, mas, até o momento presente, não obtive resposta. Pelo que descobri, a união estável registrada no cartório não altera o estado civil – ou seja, os dois continuam solteiros. Já o casamento, registrado no cartório de registros públicos, altera o estado civil e faz do cônjuge um “herdeiro necessário”, que não pode ficar sem ao menos parte da herança. Assim como no casamento convencional, os noivos podem escolher o regime de bens (comunhão parcial, comunhão total ou separação total) e mudar o sobrenome (veja o esclarecimento no portal do governo brasileiro). Por outro lado, desde o mês de abril deste ano, aqui no Estado do Rio (e em vários outros), todo casal homoafetivo pode solicitar junto ao cartório, a habilitação direta para o casamento civil... (leia a matéria no JB).
 
Entretanto, lembro-me de que o meu amigo tinha dito sobre o pedido de casamento que recebeu do seu namorado. Tratava-se, de fato (entre outras coisas, é claro), das questões de herança. O meu amigo é relativamente jovem (sim, maior de idade) e o seu amado tem uns 50 anos... Enfim, perante à questão principal, esses são apenas detalhes e a questão é o que é que eu penso sobre isso...
 
Confesso que fiquei, por um (demorado) momento, simplesmente calado. O que é que eu deveria responder? Já percebi que o povo tem, entre as suas mais (con)sagradas frases, aquela que é capaz de extrair lágrimas, até do mais macho entre os machos e que diz, simplesmente: "Eu estou realizando o meu sonho". Diante desta afirmação, até o mais chato e perspicaz jornalista, fica calado (quem não se lembra dessas mesmas palavras na boca do Neymar, ao afirmar a sua transferência para o "Barça"?). Enfim, isso encerraria a nossa conversa: "Vai lá e realiza o teu sonho", mas confesso que fiquei na dúvida. Afinal, mesmo sendo homossexual, ainda me considero um católico (e o meu amigo, também é). Na mesma hora vieram à minha memória todas aquelas frases - praticamente gritos - da doutrina católica (seguem alguns trechos de "Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais" da Congregação para a Doutrina da Fé, de 2003):
 
- Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. O matrimônio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural. Os atos homossexuais, de fato, «fecham o ato sexual ao dom da vida. Não são fruto de uma verdadeira complementaridade afetiva e sexual. Não se podem, de maneira nenhuma, aprovar». (n. 4);
- Em presença do reconhecimento legal das uniões homossexuais ou da equiparação legal das mesmas ao matrimônio, com acesso aos direitos próprios deste último, é um dever opor-se-lhe de modo claro e incisivo. Há que abster-se de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação. Nesta matéria, cada qual pode reivindicar o direito à objeção de consciência. (n. 5);
- As uniões homossexuais não desempenham, nem mesmo em sentido analógico remoto, as funções pelas quais o matrimônio e a família merecem um reconhecimento específico e qualificado. Há, pelo contrário, razões válidas para afirmar que tais uniões são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efetiva incidência sobre o tecido social. (n. 8);
- (...) todos os fiéis são obrigados a opor-se ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (n. 10).
- A Igreja ensina que o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. O bem comum exige que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial como base da família, célula primária da sociedade. Reconhecer legalmente as uniões homossexuais ou equipará-las ao matrimônio, significaria, não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade atual, mas também ofuscar valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade. A Igreja não pode abdicar de defender tais valores, para o bem dos homens e de toda a sociedade. (n. 11).
 
E agora, José? Fiquei pensativo, porque, de um lado acredito em milagres e um deles seria a mudança de opinião da Igreja sobre esse assunto. Por outro lado, há bastante tempo, discuto (inclusive aqui, neste blog) e discordo de certas afirmações, contidas nos textos doutrinais da Igreja. Seria eu, portanto, um "fiel rebelde" (o mesmo que "o infiel")? Seria eu, ainda, um católico?
 
Enfim, comecei depois "enrolar" um pouco o meu amigo, só para adiar a minha resposta definitiva. Perguntei sobre algumas coisas, falei sobre outras, até chegar à conclusão: "Não sei o que dizer". Sei, porém, o que vou fazer: vou ao casamento do meu amigo e darei a ele o meu total apoio. Afinal, sou o amigo do noivo!
 
Confesso que surgiu, na ocasião, um desejo no meu coração de... casar também. Bem... no meu caso é um pouco mais complicado. A princípio, falta um candidato...

27 de agosto de 2013

As lágrimas de Mônica


 
É famosa a frase do bispo Santo Ambrósio, dirigida à mãe de Santo Agostinho, Santa Mônica. É o próprio Agostinho que, em suas "Confissões", traz esta citação: "Vai-te em paz, mulher, e continua a viver assim, que não é possível que pereça o filho de tantas lágrimas". (Santo Agostinho, "Confissões", L. III, cap. XII). As lágrimas da mãe, por sua vez, aparecem quase sempre no momento daquela revelação feita pelo filho, ou filha: "Mãe, eu sou gay/lésbica". É claro que as lágrimas em si podem ter diversos motivos, tais como a comoção, tristeza, medo, decepção, raiva. Não preciso dizer que as mais esperadas seriam aquelas provocadas pela comoção, misturada com a admiração e até alegria ("Até que enfim! Eu já sabia, mas fico comovida com a coragem e a sinceridade do meu filho!"). Infelizmente, com mais frequência, misturam-se a surpresa, a decepção, a vergonha e a raiva. E não é tanto pela decepção do tipo: "Ah, eu queria tanto ter netos e agora o que eu faço?!". Nessas horas - o que comprovam os testemunhos dos filhos, bem como uma longa lista de livros e filmes - o maior argumento é a opinião dos outros, mais especificamente, a opinião sobre ela, a mãe, sobre ambos os pais e sobre toda família. Não preciso, de novo, dizer que mais aceitável seria a preocupação da mãe com a opinião alheia a respeito de seu filho, tipo: "Ai, meu Deus! Existe tanto preconceito contra os homossexuais! Como o meu filho/a minha filha vai viver neste mundo cruel?!". Na pior - e mais frequente - versão, o filho, ou filha homossexual, torna-se uma mancha na imaculada até então imagem daquela família. É a questão da vizinhança e, no caso de uma família cristã, a convivência na própria comunidade religiosa.
 
O próximo passo, depois de tal descoberta - no caso de uma mãe, ou de um pai, membro de uma comunidade cristã, mais especificamente, católica - será recorrer ao magistério da Igreja. Seja em forma de um aconselhamento feito pelo sacerdote, seja através da busca de documentos oficiais, relacionados ao assunto, muito provavelmente a mãe, ou o pai, irá encontrar as "Orientações educativas sobre o amor humano - linhas gerais para uma educação sexual", emitidas em 1983 pela Sagrada Congregação para a Educação Católica (na íntegra aqui).
 
Uma das afirmações iniciais parece encorajadora: A família, de fato é o melhor ambiente para cumprir a obrigação de garantir uma gradual educação da vida sexual. Ela tem uma carga afetiva capaz de fazer aceitar sem traumas mesmo as realidades mais delicadas e a integrá-las harmonicamente numa personalidade equilibrada e rica (n. 48).  O afeto e a confiança recíproca que se vivem na família são necessários ao desenvolvimento harmónico e equilibrado da criança desde o seu nascimento. Para que os laços afetivos naturais que unem os pais aos filhos sejam positivos no grau máximo, os pais sob a base de um sereno equilíbrio sexual, instaurem uma relação de confiança e de diálogo com os filhos, adequada à idade e desenvolvimento deles (n. 49).
 
Um pouco mais tarde aparece o que nos interessa mais: A homossexualidade, que impede à pessoa de alcançar  a sua maturidade sexual, seja do ponto de vista individual, como interpessoal, é um problema que deve ser assumido pelo sujeito e pelo educador, quando se apresentar o caso, com toda a objetividade. «Na ação pastoral estes homossexuais devem ser acolhidos com compreensão e sustentados na esperança de superar as suas dificuldades pessoais e sua desadaptação social. A sua culpabilidade será julgada com prudência; porém não se pode usar nenhum método pastoral que, julgando estes atos conformes à condição daquelas pessoas, lhes atribua uma justificação moral. Conforme a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são atos carentes da sua regra essencial e indispensável». Será tarefa da família e do educador procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade: descobrir se se trata de fatores fisiológicos ou psicológicos, se esta será o resultado de uma falsa educação ou da falta de uma evolução sexual normal, se provém de um hábito contraído ou de maus exemplos ou de outros fatores.  Muito particularmente, ao procurar as causas desta desordem, a família e os educadores, deverão ter em conta os elementos de juízo propostos pelo Magistério, e ao mesmo tempo servir-se do contributo que as várias disciplinas podem oferecer. Dever-se-á, de fato, levar em consideração, para avaliar, elementos de diversa índole : falta de afeto, imaturidade, impulsos obsessivos, sedução, isolamento social, depravação de costumes, licenciosidade de espetáculos e de publicações. E além de tudo isto, existe mais no profundo, a congênita fraqueza do homem, como consequência do pecado original; esta fraqueza pode levar à perda do sentido de Deus e do homem e ter suas repercussões na esfera da sexualidade. Descobertas e entendidas as causas, a família e os educadores devem proporcionar uma ajuda eficaz no processo de crescimento integral: acolhendo com compreensão, criando um clima de confiança, encorajando o indivíduo à libertação e domínio de si, promovendo um autêntico esforço moral para a conversão ao amor de Deus e do próximo; sugerindo, se for necessário, a assistência médico-psicológica de uma pessoa que atenda e respeite os ensinamentos da Igreja (n. 101-104).
 
Com outras palavras, o mesmo Magistério que, ao abordar o tema da homossexualidade, afirma que "a sua gênese psíquica continua em grande parte por explicar" (CIC, 2357), recomenda aos pais, como o primeiro passo, "procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade" e descobrir de que se trata. "Descobertas e entendidas as causas, a família e os educadores devem proporcionar uma ajuda eficaz no processo de crescimento integral (...), encorajando o indivíduo à libertação". De qualquer maneira, o conflito interior parece inevitável. Ou a mãe/o pai seguirá a intuição do seu coração e aceitará a homossexualidade do filho/da filha, mas assim desobedecerá a ordem do Magistério, ou fará o contrário: em obediência ao Magistério deixará morrer o ingênuo amor materno/paterno em seu coração.
 
Como podemos ver, as lágrimas de Mônica podem ser provocadas de várias maneiras. Queira Deus que nenhuma mãe tenha coragem de enxugar as suas lágrimas com as lágrimas do filho, ou da filha...

Dilemas



Ele na minha casa?
Eu na casa dele?
Nós dois em uma casa nova?
...tudo isso, no caso de morarmos juntos...

Cada um independente no sentido profissional e financeiro?
Eu trabalhando e ele estudando?
Ele trabalhando e eu desempregado?

...e no caso de não morarmos juntos...
Encontros no final de semana?
Motel? ...tudo bem: Hotel, pousada?

De qualquer maneira é necessária a estabilidade financeira de, pelo menos, um de nós...

É claro, antes de tudo isso deve existir o Outro
e o amor entre nós.

Escrevi tudo isso como um ensaio.
Mas também para dizer que já estou pronto...

Para não ficar aqui só no nível de sonhos, transcrevo um interessante texto de Dom Aloísio Roque Oppermann, SCJ, Arcebispo de Uberaba, publicado na página da CNBB (aqui) no dia 14 de maio de 2011. Achei simpático...
 
Por que os casais hetero não querem e os gays querem?
 
Nos tempos atuais, sobretudo no meio urbano, moços e moças, não fazem muita força para se casar “de papel passado”. A multidão dos que apenas “ajuntam os trapos”, e vão morar juntos, cresce de ano para ano. Basta percorrer um bairro novo. Parece que os jovens temem assumir compromissos definitivos. O computador que hoje é o último grito, amanhã vai para o aterro sanitário. Os parceiros, convidados para uma “união no Senhor”, parecem preferir a provisoriedade. Ademais, as leis civis embaralharam tanto o direito da família, que ninguém mais precisa casar perante a lei. A legislação não favorece a estabilidade familiar. Caso queiram um documento de união civil, basta dirigir-se ao poder público, que o atestado será fornecido em pouco tempo. E logo em seguida, caso o considerarem necessário, podem obter o “divórcio instantâneo”, sem problema. Por que ainda casar, se a nova geração não sente mais utilidade no reconhecimento público da sociedade? E vejam que ainda nem estou falando do casamento religioso.
Agora vejam a luta dos gays. Querem que suas uniões sejam equiparadas às de uma família tradicional. Querem que existam leis que garantam a herança para o parceiro; que cada qual possa ter acesso ao sistema de saúde; que possam adotar crianças... Eles sabem se mexer. Mas não é este seu objetivo principal. Onde querem chegar, é obter o reconhecimento público da sociedade. É exatamente o que “homem e mulher”, no casamento tradicional, julgam poder dispensar. A aprovação pública de casamentos heterossexuais não é apenas útil, mas uma garantia para a estabilidade da família. A legislação civil não se ocupa em facilitar a perenidade da família. Sua maior preocupação é criar leis que facilitem qualquer veleidade de separação. Agora digo uma coisa. Para quem tem fé cristã, e tem verdadeiro amor ao parceiro, receber a bênção de Deus se torna um imperativo categórico. Isso vem em primeiro lugar. Também casar perante a lei civil é de grande valor. Mas vem em segundo lugar.

25 de outubro de 2011

o que realmente importa


Transcrevo o texto de Dom Orani, Arcebispo do Rio (os grifos são meus).

No último final de semana, comemoramos o Dia Mundial das Missões e celebramos o XXX Domingo do Tempo Comum. A Palavra de Deus deste final de semana nos convida a ir para a própria essência da nossa vida cristã e religiosa, trazendo para o centro da nossa reflexão e meditação o preceito do amor, que tem duas direções distintas e inseparáveis: o amor a Deus e o amor aos irmãos. Duas direções que estão integradas em um caminho de santidade e purificação, tendo os olhos fixos naquilo que realmente importa na vida humana e cristã: amar a todos e sempre, a qualquer pessoa, mesmo aquele que possa ser nosso maior inimigo.


Não é fácil viver de amor e no verdadeiro amor! É sempre mais fácil viver de amores superficiais e passageiros, inconclusivos, e que produzem apenas algum momento de prazer. O amor verdadeiro, que usa a linguagem de Cristo e é centrado em Cristo, nos convida a subir até o cume do Calvário, onde ele se manifesta como uma oblação, da obediência total à vontade de Deus, como uma resposta consciente de que Deus nos ama e nos ama tanto a ponto de dar o seu Filho por nós.

Amarás com todo... com todo... com todo ... Três vezes Jesus repete o convite à totalidade, ao impossível. Porque o homem ama, mas somente o amor de Deus é pleno e eterno, aquele que é o próprio Amor. Repete dois mandamentos antigos e bem conhecidos, mas acrescenta: o segundo é semelhante ao primeiro. Deduz-se com isso que o próximo é semelhante a Deus: este é o escândalo, a revolução trazida pelo Evangelho.

Amar a Deus com todo o coração. Ainda assim o coração dever amar o marido, a esposa, o filho, o amigo, o vizinho, e até mesmo o inimigo. Deus não rouba seu coração, Ele o multiplica.

Não é subtração, mas adição de amor! A novidade do cristianismo não é o mandamento de amar a Deus: amam o seu Deus muitos homens; fazem isso os místicos de todas as religiões. Mesmo aquele de amar o próximo como a si mesmo, já que está presente no Antigo Testamento. A novidade do cristianismo é o amor como aquele de Cristo. Os homens amam, os cristãos amam ao modo de Jesus. O amor é Ele quando lava os pés dos seus discípulos, quando chora pelo amigo morto, quando se alegra pelo nardo perfumado de Maria, quando se dirige ao traidor chamando-o de amigo e ora pelos que o matariam. Nem mesmo o seu sangue mantém para si mesmo, e recomeça pelos que estavam condenados, e tem a intenção de apagar o próprio conceito de inimigo. Amai-vos como eu vos amei. Não quando, mas como; não a quantidade, mas o estilo. Impossível amar quanto Ele, mas podemos seguir os seus passos para compreender o sabor, o fermento, o sal, e inseri-los em nossos dias: como eu fiz, vocês também devem fazer.


Amarás... Todo o nosso futuro está em um verbo, apresentado, porém, não como uma liminar, um imperativo nítido, mas conjugado no futuro, porque amar é uma ação interminável, pois vai durar tanto quanto perdurar o tempo e perdurará para a eternidade. Não uma exigência, mas uma necessidade para a vida, como respirar.

Amar, voz do verbo viver, voz do verbo morrer! O que devo fazer amanhã, Senhor, para estar vivo? Tu amarás. O que farei no mês seguinte ou no próximo ano, e depois, para o meu futuro? Tu amarás. E a humanidade, o seu destino, a sua história? Somente isso: o homem amará. Amar significa não morrer! Vai também e faze o mesmo e encontrarás a vida.


O Evangelho de Mateus deste final de semana, em sua extrema brevidade, é tudo o que pode e deve dizer-se sobre o significado da nossa fé e da nossa esperança. Aos presumidos mestres do tempo de Jesus era bem conhecida a lei de Deus a esse respeito. Já no Antigo Testamento, Deus tinha dado a conhecer os seus pensamentos através dos patriarcas, dos profetas, e tinha colocado no centro da religiosidade do seu povo o amor para com Deus sem limites, sem restrições, sem parcialidade ou reducionismo em todas os sentidos. Se o primeiro e fundamental mandamento do "Eu sou o Senhor vosso Deus, não terás outros deuses além de mim", deve ser traduzido em estilo de vida e de comportamento, ele só pode ser amor e só amor, porque Deus é Amor e Nele está a fonte de todo amor verdadeiro. Isso é bem diferente das paixões e das caricaturas de amor que permeiam a nossa sociedade. Jesus, nesta circunstância, dirige-se aos fariseus em resposta à sua pergunta específica. Não há muito para discutir sobre o tema sobre qual é o maior mandamento – é o amor a Deus e aos irmãos!

Tudo aqui em um nível conceitual e de mensagem e até poderíamos dizer: sob um plano jurídico. O problema é como traduzir este amor ao nível de princípio inspirador da fé e do nosso comportamento cotidiano. Desse mandamento depende a sabedoria, a organização, a perspectiva de cada pessoa e cada instituição. Deus reina onde há paz, justiça e a fraternidade. Onde impera o egoísmo reina a divisão da luta fratricida.

Eis porque já no livro do Êxodo, primeira leitura da Palavra de Deus deste final de semana, somos lembrados de como se traduz em obra o amor pelos outros. Em resumo, disse exatamente isso: que no coração de uma pessoa que ama existe a atenção para o estrangeiro, o órfão, a viúva, o forasteiro que está com problemas de toda espécie, principalmente no econômico. O amor não permite descontos e exceções, todos podem e devem ocupar um lugar especial em nossos corações e em nossas afeições e pensamentos. Ninguém deve ser excluído do nosso amor arraigado em Jesus Cristo.
É uma questão de tornar visível este amor através do testemunho da nossa vida. E, neste domingo, São Paulo Apóstolo nos lembra disso na passagem da Primeira Carta aos Tessalonicenses. Quem coloca Deus no centro de sua vida abandona o caminho do mal e da idolatria, que hoje são o dinheiro, o poder, o prazer, o sucesso, a carreira, a posição social e tudo o que é exterioridade.

Para vivermos em estado permanente de missão e com coragem testemunharmos o Senhor Ressuscitado, presente entre nós, somos chamados a viver com alegria o amor a Deus e ao próximo. Quem assim vive e é testemunha é missionário.

Que o Senhor nos livre de um egoísmo cada vez mais prevalente e emergente em todos os setores. Eis por que as nossas orações dirijam-se ao Senhor com todas as nossas boas intenções e nosso desejo sincero de fazer o bem: "Ó Pai, que fazeis todas as coisas por amor e sois a mais segura defesa dos humildes e dos pobres, dai-nos um coração livre de todos os ídolos para servir somente a Vós e amar nossos irmãos e irmãs segundo o Espírito do vosso Filho, fazendo do mandamento novo a única lei da vida" Amém.

Dom Orani João Tempesta,
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro.

2 de outubro de 2011

O princípio da EPIKÉIA

Recebi o comentário no meu texto anterior (aqui) do Pessoal da Diversidade Católica (conheça o blog aqui) e como o assunto é sério e amplo (certamente não para uma simples "resposta ao comentário"), decidi transcrever aqui alguns trechos do livro "Acompanhamento de vocações homossexuais" (autor: Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira). Os grifos no texto são meus.

Uma parte do comentário que recebi diz: É sempre bom quando se percebe que a homoafetividade e o homoerotismo não são problemáticos em si; a grande delicadeza da doutrina do Magistério, hoje, é justamente a premissa de que o homoerotismo é desordenado e, portanto, o homoafetivo deve manter o celibato... Qual a posição desse autor a respeito?

O livro é tão bom que a sinto vontade de transcrevê-lo, praticamente, na íntegra. Como, porém o conceito de um blog não permite isso, vou me controlar [:)] e citar algumas partes mais importantes. O autor fala várias coisas sobre a homoafetividade e o homoerotismo. É verdade que o livro – em sua maior parte - aborda o tema de acompanhamento vocacional destinado àqueles que são chamados ao sacerdócio ou à vida religiosa, mas não deixa de apontar os princípios para o mesmo trabalho para com os católicos leigos que, igualmente, são chamados a diversos ministérios dentro da comunidade cristã.

Padre José Lisboa declara abertamente que não existem razões suficientes para se excluir alguém das nossas comunidades por causa do seu jeito atual de viver a sexualidade. Todavia, a acolhida não deve acontecer por motivos de piedade, como se a pessoa homossexual fosse alguém miserável, pecador público degenerado, que precisasse de pena e de misericórdia da nossa parte. Acolhe-se a pessoa porque é humana e porque ela é portadora de dignidade e de valores, independentemente daquilo que ela seja. As pessoas homossexuais são portadoras de qualidades e de talentos que não se encontram com facilidade no comum dos mortais. (p. 12)

Quanto ao próprio acompanhamento vocacional, o autor diz: O importante em tudo isso é que a animação vocacional contribua efetivamente para que o vocacionado ou vocacionada homossexual descubra a verdade acerca da sua situação e queira acolher essa verdade. A partir disso poderá fazer uma verificação profunda sobre a possibilidade ou não de abraçar um tipo específico de vocação. Certamente as exigências e as futuras responsabilidades de cada vocação específica são bem diferentes. Aquelas dos leigos e das leigas não são as mesmas da vida consagrada e do ministério ordenado. E vice-versa. Mas os vocacionados e as vocacionadas não podem ser enganados. Não devemos esconder deles as reais dificuldades que poderão enfrentar. (...) Quando há fortes indícios de que a pessoa não tem a mínima estrutura para assumir um tipo de vocação específica, é melhor ajudá-la a repensar o seu projeto. Fazer o contrário é enganar os vocacionados e as vocacionadas homossexuais e contribuir para futuras histórias sofridas e desastrosas. (p. 38)

E agora chegamos ao que interessa: “O acompanhamento de vocações homossexuais inclui também um itinerário voltado especificamente para os cristãos leigos e as cristãs leigas. ‘Se todas as pessoas são pensadas e queridas por Deus, antes mesmo de serem concebidas, como não admitir que Ele tenha planos para elas e também para elas tenha previsto alguma missão? Ninguém vem ao mundo por acaso, e, por isso mesmo, nos planos de Deus ninguém está sobrando’ [Antonio Moser*; “O enigma da esfinge: a sexualidade”, p. 258]. Este princípio teológico justifica a elaboração de um projeto de animação vocacional que contemple o acompanhamento de vocacionados e vocacionadas homossexuais leigos e leigas. (...) O animador ou a animadora vocacional deve ter presente que nem sempre é fácil para as pessoas cumprir determinadas exigências. Muitas vezes certas teorias são elaboradas por burocratas aos quais não falta nada. É muito fácil impor, aos outros, normas que nunca seremos obrigados a cumprir. Mas na prática a teoria é outra. Deve-se então, nesse tipo de acompanhamento vocacional, evitar fardos pesados insuportáveis que nós mesmos não seríamos capazes de carregar (cf. Mt 23, 1-4). (...) Não se pode falar de salvação quando o rigorismo e a rigidez transformam a vida da pessoa num verdadeiro inferno. (...) O trabalho do animador ou da animadora vocacional é contribuir para que cada vocacionado ou vocacionada, particularmente os homossexuais, sejam sensíveis à própria consciência e a sigam fielmente. Assim sendo, deve-se ter muito cuidado para não tentar violentar a consciência das pessoas, tentando impor a todo custo as concepções pessoais. É claro que existe a objetividade dos princípios e das normas. Mas esta serve tão-somente para o bem das pessoas. Em última instância, é o ser humano que decide diante de Deus. (...) Ninguém pode ser forçado a agir contra a sua consciência. (...) À luz da experiência de fé, a homossexualidade se transforma em uma forma concreta de se relacionar co Deus. De fato, vivendo com muita humildade, buscando o equilíbrio na vivência da sexualidade, superando toda forma de conformismo, mas também de perversão ou laxismo, a pessoa homossexual pode chegar a uma verdadeira experiência mística, percebendo-se como alguém amado por Deus. E a partir desta experiência poderá amar de verdade as pessoas, sem angústia e sem manipulações. Basta que para isso o homossexual tenha sido ajudado a libertar-se tanto da imagem de um Deus castrador como da atitude orgulhosa que leva ao fechamento e à auto-suficiência.

(...) O acompanhamento vocacional de homossexuais torna-se mais complexo quando o vocacionado ou vocacionada, a partir da sua convicção de fé, no uso de sua liberdade, decide assumir comportamentos considerados mais ousados e que fogem dos padrões comumente aceitos pela maioria da população católica. Neste caso, é necessário que o animador ou animadora vocacional tenha uma profunda maturidade humana e afetiva, sexual e cristã, para poder continuar realizando a sua missão sem traumas e sem preconceitos. Quem acompanha esses casos, sem deixar de considerar as indicações da fé cristã e as orientações da Igreja, precisará de uma grande liberdade interior para não sucumbir diante das provocações do vocacioando ou vocacionada, como também diante do rigorismo e da intransigência da lei eclesiástica. Vale mais uma vez recordar que a lei existe para promover o bem das pessoas e não o contrário. Alguém, motivado pela fé e pela consciência, pode, muitas vezes, fazer algo diferente daquilo que a lei determina. E na maioria das vezes o faz de um modo mais perfeito. Quando isso acontece tal pessoa está revelando os limites da lei. De fato, é sempre possível que uma lei se torne obsoleta no sentido que não responde mais à sua finalidade que é o bem e a salvação das pessoas. E quando algo se torna antiquado e não mais colabora para a salvação das pessoas precisa ser mudado. E, normalmente, alguém tem de correr esse risco de romper com o estabelecido, mesmo sob a pena de carregar o estigma de herético ou blasfemador. Foi o que aconteceu com Jesus. Nada impede, nem mesmo uma aprovação pontifícia, que uma lei eclesiástica se torne obsoleta. Por isso em todos os casos a lei da vida precisa ser sempre aplicada. Quando a lei não facilita o desenvolvimento da fé, da vida, da graça e da salvação ela não tem mais sentido. No acompanhamento vocacional o animador ou animadora não pode esquecer que a própria moral cristã sempre defendeu o direito a epikéia. Esta á, antes de tudo, uma atitude da pessoa que, olhando para a ordem estabelecida e confrontando-a com a sua situação concreta e para a realidade que lhe cerca, resolve ir além do ordenamento jurídico. É claro que existe sempre o risco do individualismo e do laxismo. Para não cair nesse perigo, a pessoa, antes de decidir avançar, precisa avaliar a sua atitude honestamente, com retidão, sem fazer pouco das normas, das leis e da autoridade. Isso tudo pode trazer conflito, inclusive com as autoridades estabelecidas, mas o princípio da epikéia afirma que a coisa mais importante não é pura e simples fidelidade à lei, mas a fidelidade à própria realidade, guiada pela retidão de consciência e pela decisão de obedecer a um apelo interior. (...) A epikéia, como atitude virtuosa, exige a prontidão para ousar. Em linha de princípio, corre-se este risco em toda situação que esteja sob a legislação positiva. Isto porque, segundo Santo Tomás de Aquino, em todo o campo do direito, a virtude da epikéia é o guia. (...)

Temos de partir do princípio que nem todas as pessoas têm o carisma do celibato. Por isso pode acontecer que um homossexual não consiga permanecer sem a convivência com alguém. A Igreja Católica propõe, por meio de seus documentos, que os homossexuais cristãos pratiquem a castidade. Isso é muito fácil quando não se está na pele da outra pessoa. Mas, como vimos antes, na prática é tudo muito complicado. Como exigir a continência de sujeitos que estão profundamente convencidos de não poder conservá-la e que sabem, ao mesmo tempo, que não podem casar? (pp. 71-74)

Padre José Lisboa cita um dos “casos emblemáticos”, aquele da pessoa homossexual que, sabendo da sua condição, decide em consciência formar um casal com outra pessoa do mesmo sexo, pretendendo continuar a viver como cristão. (...) É importante considerar esse caso porque a legislação de muitos países e a consciência coletiva tendem a aceitar cada vez mais essa situação como normal. E muitos cristãos homossexuais não chegam a formalizar a união por causa do medo de serem afastados da comunidade cristã. No processo de discernimento, o animador ou animadora vocacional precisa propor algumas considerações importantes ao vocacionado em questão. Não será suficiente o argumento do pecado, da condenação e da proibição, uma vez que essa pedagogia normalmente produz efeito contrário, levando a pessoa a uma vida até mais permissiva do que antes. Começando sempre pela reflexão sobre a fidelidade ao projeto de vida plena que Deus tem para cada pessoa, o animador ou animadora pode e deve interrogar o vocacionado sobre suas intenções, sobre o conceito de fidelidade, sobre o sentido da vida a dois. Não deve deixar de lado a proposta do ensinamento da Igreja sobre a questão. Além disso, pode e deve refletir sobre a importância da satisfação plena na realização do ato sexual, uma vez que existe o risco de não haver plena complementação no encontro íntimo entre pessoas do mesmo sexo. As pesquisas feitas por Thévenot** indicam que muitos casais homossexuais não se sentem satisfeitos com a relação e por isso se separam muito rápido. Há casos em que a insatisfação é tão grande que a pessoa, mesmo vivendo com alguém, busca com muita frequência relações sexual-genitais com outras pessoas. Porém, com muita honestidade, é preciso dizer que não faltam exemplos de casais homossexuais que conseguiram fazer uma experiência profunda de Deus-Amor. Para alguns, a vida a dois foi como que uma “terapia da vida”. Mas para chegar a isso tiveram que superar dolorosamente muitos desafios e cultivar muitos valores cristãos entre os quais o perdão, o desprendimento, a pobreza interior. Tiveram de ir além da “paixão fulminante” para abrir-se mais ao dom da ternura, da renúncia de um relacionamento perverso. Certamente não vivem uma união idílica. Permanecem nessas situações difíceis de carência e limites. É preciso confessar, com Thévenot, que, apesar de tudo, é possível encontrar hoje neste tipo de união pessoas vivendo com dignidade a vida cristã.

Existem autores que evocam também para esse caso o princípio da epikéia já mencionado anteriormente. Partem do princípio tomístico de que a verdade e a retidão não são iguais para todos. Por isso, em determinadas situações é possível transgredir legitimamente a lei para salvar o bem das pessoas. Todavia, lembram esses autores, para que o princípio da epikéia possa ser aplicado corretamente é indispensável que a decisão passe pelo crivo da razão, a qual tem a função de regular sabiamente as inclinações e paixões humanas. Não bastam o instinto e a paixão desmedida. De acordo com o mesmo princípio tomístico todas as vezes que agimos sem consultar a razão cometemos um pecado. [comentário no rodapé: Thévenot acredita que por honestidade intelectual este princípio tomístico não pode ser aplicado ao caso dos homossexuais porque, segundo Tomás, a razão da relação sexual reside na conservação da espécie. Hoje, porém, a reprodução não é mais considerada a razão exclusiva da relação sexual (cf. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 48). Também por honestidade intelectual é preciso dizer que, biblicamente falando, a relação sexual é destinada antes de tudo à superação da solidão: “Não é bom que o homem esteja só. Vôo fazer uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2, 18). O filho é a consequência e não a razão principal da relação sexual entre duas pessoas que verdadeiramente se amam.]

Portanto, no acompanhamento vocacional se abre uma brecha para evitar todo tipo de condenação. O papel do animador ou da animadora vocacional não é de ser porta-vos de Satanás, o acusador dos irmãos e irmãs (cf. AP 12, 10), mas de ser mensageiro da salvação trazida por Cristo: “Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que justifica? Quem condenará? Cristo Jesus, que morreu, mais ainda que tenha ressuscitado e está à direita de Deus, intercedendo por nós?” (Rm 8, 33-34). Vimos anteriormente que também as pessoas homossexuais são queridas por Deus e não estão sobrando no mundo. O papel de quem acompanha essas pessoas é ajudá-las a chegar o máximo possível à meta que nos é proposta. (pp. 75-78)
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Notas (minhas)
* Frei Antônio Moser é Diretor Presidente da Editora Vozes, professor de Teologia Moral e Bioética no Instituto Teológico Franciscano (ITF) em Petrópolis/ RJ, Membro do Conselho Administrativo da Diocese de Petrópolis/ RJ, Pároco da Igreja de Santa Clara, Diretor do Centro Educacional Terra Santa, Membro da Comissão de Bioética da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Coordenador do Comitê de Pesquisa em Ética da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), além de conferencista no Brasil e no exterior. Escreveu 25 livros, participou como co-autor e colaborador de inúmeros e publicou incontáveis artigos científicos em revistas nacionais e internacionais. Atualmente desenvolve intensa atividade pastoral, sendo um dos principais especialistas brasileiros em Pastoral Familiar e Bioética.

** Pe. Xavier Thévenot, eminente professor de Teologia Moral no Instituto Católico de Paris, membro da Congregação Salesiana. Os Salesianos de Dom Bosco se dedicam particularmente à educação da juventude, o que dá maior autoridade e crédito a esse autor, em termos de educação da sexualidade.

20 de setembro de 2011

Bento XVI aos namorados

No dia 11 de setembro deste ano o Papa Bento XVI realizou a sua viagem apostólica à cidade italiana de Ancona. No final da tarde o Papa teve o encontro com os namorados. O assunto principal, evidentemente, era a preparação ao matrimônio (heterossexual, entende-se). Ao ler o seu discurso, pensei: ele não tem como não falar sobre este tema, até porque dirige-se a todos e o namoro heterossexual é uma experiência vivida pela maioria daqueles jovens, reunidos lá, na Praça do Plebiscito. Aliás, seria super-curioso promover por lá um plebiscito sobre a união homoafetiva, mas não foi desta vez. Falando sério, o que chamou a minha atenção no texto (aqui), foi uma consoladora ausência daquelas famosas afirmações indiretas (antigamente mais frequentes) que detonam qualquer ideia sobre o amor entre as pessoas do mesmo sexo. Mesmo falando para a maioria heterossexual, o Papa deixou umas dicas preciosas que servem muito bem – na minha opinião – aos que vivem o amor homossexual. Vejamos algumas frases (os grifos são meus):

Nunca percais a esperança. Tende coragem, também nas dificuldades, permanecendo firmes na fé. Tende a certeza de que, em todas as circunstâncias, sois amados e protegidos pelo amor de Deus, que é a nossa força. Deus é bom. Por isso é importante que o encontro com Ele, sobretudo na oração pessoal e comunitária, seja constante, fiel, precisamente como o caminho do vosso amor: amar a Deus e sentir que Ele me ama. Nada nos pode separar do amor de Deus! Depois, tende a certeza de que também a Igreja está próxima de vós, vos ampara, não cessa de olhar para vós com grande confiança.


Como namorados estais a viver uma fase única, que abre para a maravilha do encontro e faz descobrir a beleza de existir e de ser preciosos para alguém, de poder dizer um ao outro: tu és importante para mim. Vivei com intensidade, gradualidade e verdade este caminho. Não renuncieis a perseguir um ideal alto de amor, reflexo e testemunho do amor de Deus!


Gostaria de vos dizer antes de tudo que eviteis fechar-vos em relações intimistas, falsamente animadoras; fazei antes com que a vossa relação se torne fermento de uma presença ativa e responsável na comunidade. Depois, não vos esqueçais de que para ser autêntico, também o amor exige um caminho de amadurecimento: a partir da atração inicial e do «sentir-se bem» com o outro, educai-vos a «amar» o outro, a «querer o bem» do outro. O amor vive de gratuidade, de sacrifício de si, de perdão e de respeito do outro.


Queridos amigos, cada amor humano é sinal do Amor eterno que nos criou, e cuja graça santifica a escolha de um homem e de uma mulher de se entregarem reciprocamente a vida no matrimônio. Vivei este tempo do namoro na expectativa confiante desse dom, que deve ser aceite percorrendo um caminho de conhecimento, de respeito, de atenções que nunca deveis perder: só sob esta condição a linguagem do amor permanecerá significativa também com o passar dos anos.


Gostaria de voltar mais uma vez a falar de um aspecto essencial: a experiência do amor tem no seu interior a propensão para Deus. O verdadeiro amor promete o infinito! Por conseguinte, fazei deste vosso tempo de preparação para o matrimônio um percurso de fé: redescobri para a vossa vida de casal a centralidade de Jesus Cristo e do caminhar na Igreja.


Também eu gostaria de vos dizer que estou próximo de vós e de todos os que, como vós, vivem este maravilhoso caminho de amor. Abençoo-vos de coração!

5 de setembro de 2011

corrigir o irmão

Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como um pagão ou um pecador público. (Mt 18, 15-17)

É uma sábia e detalhada lição sobre a estratégia chamada "correção fraterna". Em nossa reflexão pessoal podemos nos colocar de um e de outro lado da questão: como aquele que corrige e aquele que está sendo corrigido. Em minha opinião, a palavra chave é o termo "irmão". Em nenhuma das situações descritas Jesus desiste deste termo. É o ponto de partida. Ou, o ponto de vista. Enquanto vejo o irmão, a minha atitude de corrigi-lo será motivada pelo amor fraterno. No momento em que o irmão se torne "adversário" ou "inimigo", melhor parar com esse negócio de querer corrigi-lo. As duas últimas fases requerem bastante atenção. Quando Jesus recomenda "Dize-o à Igreja", não se trata, certamente, de fazer fofoca, mas de recorrer à autoridade (o primeiro significado de "Igreja") e/ou de envolver a comunidade intercessora (o significado de "Igreja-comunidade"). Diante da resistência máxima daquele irmão vem o último passo: "tratá-lo como se fosse um pagão ou um pecador público". Embora, na nossa mente poluída, isso pode significar atos de rejeição ou, quem sabe, agressividade, basta perguntar: como é que Jesus tratava os pagãos e os pecadores públicos. Notemos que o Senhor continua falando de um irmão que, no caso extremo de "cabeça dura" deve ser tratado como se fosse o pagão ou o pecador público. Com outras palavras: devemos recomeçar (da estaca zero) uma amorosa evangelização daquele irmão.

A mensagem de Jesus fica ainda mais evidente com o texto da segunda leitura de hoje (Rm 13, 8-10): Irmãos! Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei. De fato, os mandamentos: “Não cometerás adultério”, “Não matarás”, “Não roubarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento se resumem neste: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei.

25 de agosto de 2011

Vigiar

A palavra vigiar aparece com frequência no Evangelho. No contexto histórico daqueles tempos (e de muitos séculos seguintes) o termo evoca a função de vigias ou sentinelas. Hoje (no Brasil é o Dia do Soldado) imaginamos aqueles guardas que fazem patrulhamento em torno dos quartéis. De qualquer maneira, a função do vigia é ficar atento, evitar distração, concentrar toda sua atenção em questões de segurança. No Evangelho (Mt 24, 42-51), as advertências do Senhor: "Ficai atentos" e "ficai preparados", referem-se ao fim dos tempos e à vinda gloriosa de Jesus.

A comparação dessa "postura escatológica" com o comportamento dos guardas de hoje (ou das épocas passadas) pode nos levar às conclusões equivocadas. No sentido mais ou menos literal o vigilante pode justificar a sua indiferença perante, por exemplo, qualquer necessidade alheia, dizendo "não posso atendê-lo, pois tenho que vigiar". É como naquela estória contada pelos pregadores. Uma senhora havia tido um sonho no qual o próprio Jesus prometia visitá-la em casa no dia seguinte. A mulher levantou cedo e logo começou os preparativos. Arrumou a casa, trocou a toalha de mesa e até as cortinas da sala. Sempre atenta a qualquer barulho próximo à porta de entrada, dedicou grande parte do dia aos trabalhos na cozinha, preparando o que sabia fazer melhor. Por três vezes, naquele dia, alguém batia à sua porta. Mas sempre era alguém que precisava ser despedido logo para não atrapalhar. Primeiro foi um mendigo pedindo comida, depois uma vizinha querendo um pouco de sal e, finalmente, um vendedor ambulante oferecendo alguns produtos. Com a dose reduzida de paciência a mulher mandou embora cada uma daquelas pessoas dizendo que não podia dar-lhes a devida atenção porque estava esperando alguém muito importante. Assim passou o dia inteiro. Ao anoitecer, a mulher, cansada e decepcionada, foi dormir. No sonho apareceu-lhe Jesus, mas ela nem deixou o Senhor falar. Foi ela que passou o sonho inteirinho reclamando e chamando Jesus de inconsequente, incompetente, furão e malandro. Quando cansou, o Senhor lhe disse apenas: "Minha filha, eu vim, mas, por três vezes, você não permitiu que entrasse na sua casa e me mandou embora". Quando acordou, a mulher tinha compreendido que o próprio Jesus estava presente na pessoa do mendigo, da vizinha e do vendedor ambulante.

Os textos litúrgicos de hoje sugerem a mesma interpretação da palavra "vigiar". Paulo Apóstolo, na primeira leitura (1 Tes 3,7-13) fala sobre a enriquecedora convivência fraterna e a edificação mútua na fé e no amor. Jesus no Evangelho aponta a responsabilidade de uns pelos outros e denuncia à soberba, à agressividade e à falta de caridade como graves pecados contra a vigilância cristã. Em vez de dizer: "Não posso te atender, aceitar e amar porque estou esperando a vinda do Senhor!", devemos aprender a pensar e viver o contrário: "Justamente porque estou esperando a vinda do Senhor, quero te atender, aceitar e amar".

3 de julho de 2011

Coração de Maria

Tendo celebrado a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (leia outra reflexão aqui), a Igreja comemora, no dia seguinte, o Coração Imaculado de Maria Santíssima. E não podia ser de outra maneira, pois estes dois corações, desde o início, agora e por toda a eternidade, permanecem em mais perfeita e profunda comunhão. É o modelo maior e a referência mais sublime de todas as relações de amor. O amor entre Deus e o homem, entre o Criador e a criatura, entre o Senhor e o servo (a serva), entre o Mestre e o discípulo (a discípula), entre a mãe/o pai e o filho(a). E mesmo que possamos usar o termo "sintonia" para definir tal relação entre os corações, devemos saber que as surpresas e os desafios fazem parte integral dessa experiência. O Evangelho escolhido para a liturgia de hoje (Lc 2, 41-51) traz uma revelação importante: o coração imaculado de Maria, este coração eleito desde toda a eternidade e amado por Deus de maneira especialíssima, não foi poupado em nada. O texto de Lucas mostra Maria e José cheios de angústia. Para a Mãe de Jesus era apenas o prenúncio de uma provação incomparavelmente maior, daquela vivida por ela ao pé da cruz. A conclusão é muito prática e dolorosamente palpável para todos que se decidem mergulhar no mistério existencial chamado amor. Seja num ato formal (casamento), seja no informal (e não menos real), as pessoas que se amam, declaram permanecer nessa união "na alegria e na tristeza". Nem todas elas têm a consciência de que as tristezas (angústias) constituem um dos elementos intrínsecos (indispensáveis e inevitáveis) do próprio amor. Mais! Provêm do amor e são a prova vital da autenticidade desse amor. Por isso, ao ouvirmos aquela pergunta (maravilhosa!): "Você me ama?", devemos ter coragem de traduzi-la para vários outros termos, entre os quais está: "você está pronto(a) de sofrer, ficar angustiado(a) por mim, ou, até, por minha causa?". Infelizmente, muitos acham que declarar o amor (e receber tal declaração), significa navegar num mar de rosas. Pode até ser, desde que não se esqueçam de que as rosas, além de lindas pétalas, possuem também os espinhos. Sem eles não seriam rosas. Sem angústias o amor não seria verdadeiro...

2 de julho de 2011

Sagrado Coração de Jesus

Neste ano foi no dia 01 de julho que a Igreja celebrou a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. De acordo com as palavras do Papa Bento XVI, na linguagem bíblica o "coração" indica o centro da pessoa, a sede dos seus sentimentos e das suas intenções. No coração do Redentor nós adoramos o amor de Deus pela humanidade, a sua vontade de salvação universal, a sua misericórdia infinita (leia aqui). Em outra ocasião (aqui), Bento XVI explicou: As raízes desta devoção aprofundam-se no mistério da Encarnação; foi precisamente através do Coração de Jesus que se manifestou de modo sublime o Amor de Deus pela humanidade. Por isso, o culto autêntico do Sagrado Coração conserva o seu valor e atrai sobretudo as almas sequiosas da misericórdia de Deus, que nele encontram a fonte inexaurível da qual haurir a água da Vida, capaz de irrigar os desertos da alma e fazer florescer a esperança.

Por sua vez, Beato João Paulo II, disse: Convido, pois, todos os fiéis a prosseguirem com piedade na sua devoção ao culto do Sagrado Coração de Jesus, adaptando-a ao nosso tempo, a fim de que não cessem de acolher as suas insondáveis riquezas, às quais respondem com alegria no amor a Deus e aos seus irmãos, encontrando assim a paz, entrando num caminho de reconciliação e afirmando a sua esperança de um dia viver em plenitude junto de Deus, na companhia de todos os santos. É também oportuno transmitir às gerações futuras o desejo de encontrarem o Senhor, de n'Ele fixarem o olhar, a fim de responderem ao apelo à santidade e descobrirem a sua missão específica na Igreja e no mundo, realizando assim a própria vocação batismal (o texto na íntegra está aqui).

Acolhamos estes convites e incentivos e procuremos mergulhar nesse oceano infinito do amor de Deus. Repitamos aquela antiga invocação, ao orarmos: "Jesus manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso". Ter o coração manso e humilde não tem nada a ver com timidez ou medo de amar. É, antes, preservar o coração apaixonado, liberto de ódio e rancor. Um coração sincero, sensível, atento, generoso, acolhedor. Isso vale tanto para o coração heterossexual quanto homossexual.

19 de junho de 2011

Trindade = AMOR


Neste domingo, dedicado à Santíssima Trindade, deixo aqui as palavras do Papa Bento XVI, pronunciadas na mesma solenidade, em 2009 (aqui):

Em tudo o que existe está num certo sentido gravado o "nome" da Santíssima Trindade, porque todo o ser, até às últimas partículas, é um ser em relação, e assim transparece o Deus-relação, transparece por fim o Amor criador. Tudo deriva do amor, tende para o amor e se move impelido pelo amor, naturalmente com diferentes graus de consciência e de liberdade. (...) A prova mais forte de que fomos criados à imagem da Trindade é esta:  somente o amor nos torna felizes, porque vivemos em relação, e vivemos para amar e ser amados. Utilizando uma analogia sugerida pela biologia, diríamos que o ser humano traz no seu "genoma" o vestígio profundo da Trindade, de Deus-Amor.

18 de junho de 2011

Deus Trindade

Por que os cristãos acreditam na Trindade? Não é já bastante difícil crer que existe Deus como para acrescentarmos o enigma de que é «uno e trino»? - pergunta Pe. Raniero Cantalamessa (capuchinho, pregador da Casa Pontifícia) em sua homilia (aqui). E continua: A resposta é que os cristãos acreditam que Deus é trino porque creem que Deus é amor! (...) Deus é amor em si mesmo, antes do tempo, porque desde sempre tem em si mesmo um Filho, o Verbo, a quem ama com amor infinito, que é o Espírito Santo. Em todo amor há sempre três realidades ou sujeitos: um que ama, um que é amado e o amor que os une. Ali onde Deus é concebido como poder absoluto, não existe necessidade de mais pessoas, porque o poder pode ser exercido por um só; mas não é assim se Deus é concebido como amor absoluto.

A contemplação da Trindade pode ter um precioso impacto em nossa vida humana. É um mistério de relação. As pessoas divinas são definidas pela teologia como «relações subsistentes». Significa que as pessoas divinas não têm relações, mas que são relações.

A felicidade e a infelicidade na terra dependem em grande medida, sabemos, da qualidade de nossas relações. A Trindade nos revela o segredo para ter relações belas. O que faz bela, livre e gratificante uma relação é o amor em suas diferentes expressões. Aqui se vê quão importante é contemplar a Deus antes de tudo como amor, não como poder: o amor doa, o poder domina. O que envenena uma relação é querer dominar o outro, possui-lo, instrumentalizá-lo, em vez de acolhê-lo e entregar-se.

A primeira leitura da Solenidade [Ex 34, 4b-6. 8-9] nos apresenta o Deus bíblico como «misericordioso e clemente, lento para a cólera e rico no amor e na fidelidade». (...) As guerras santas do passado e o terrorismo religioso do presente são uma traição, não uma apologia, da própria fé. Como se pode matar no nome de um Deus ao qual se continua proclamando «o Misericordioso e o Compassivo»?

Celebremos, portanto, a Solenidade da Santíssima Trindade e, ao contemplarmos o seu mistério indizível, aprendamos a cultivar as nossas relações (para que sejam belas!). Se você tem a felicidade de amar e de ser amado(a), saiba que a própria Trindade Santa se revela em e para você. O seu amor é a epifania de Deus no mundo.

15 de junho de 2011

verdadeira adoração

O Papa Bento XVI dedicou a sua catequese de hoje ao profeta Elias (leia na íntegra aqui). Já é o sexto discurso nessa série de catequeses sobre a oração, proferidas pelo Papa no Vaticano às quartas-feiras. Ao concluir o resumo da história bíblica sobre Elias, Bento XVI disse: Os Padres dizem-nos que também essa história de um profeta é profética, está – dizem – à sombra do futuro, do futuro Cristo; é um passo no caminho rumo a Cristo. E dizem-nos que aqui vemos o verdadeiro fogo de Deus: o amor que guia o Senhor até a cruz, até o dom total de si. A verdadeira adoração de Deus, portanto, é dar a si mesmo a Deus e aos homens, a verdadeira adoração é o amor. E a verdadeira adoração a Deus não destrói, mas renova, transforma. Certamente, o fogo de Deus, o fogo do amor queima, transforma, purifica, mas mesmo assim não destrói, mas sim cria a verdade do nosso ser, recria o nosso coração. E, assim, realmente vivos pela graça do fogo do Espírito Santo, do amor de Deus, somos adoradores em espírito e em verdade.

Em nossa realidade de pessoas homossexuais, muitas vezes ouvimos - e acabamos acreditando - que amar (de um determinado jeito) é errado, portanto, proibido. Entretanto, amamos de maneira que nos foi dada pelo Criador. Como disse o Papa, o amor cria a verdade do nosso ser. Quanto mais nos damos conta do nosso amor, descobrimos melhor quem somos. É interessante, também, olhar ao amor do ponto de vista proposto pelo Papa. A verdadeira adoração é o amor. Será um equívoco dizer: o amor é a verdadeira adoração?

Bento XVI falou sobre o significado da palavra "adoração" aos jovens reunidos na Esplanada de Marienfeld em Colônia, durante XX Jornada Mundial da Juventude (2005): A palavra grega ressoa proskynesis. Ela significa o gesto da submissão, o reconhecimento de Deus como a nossa verdadeira medida, cuja norma aceitamos seguir. Significa que liberdade não quer dizer gozar a vida, considerar-se absolutamente autônomos, mas orientar-se segundo a medida da verdade e do bem, para, desta forma, nos tornarmos nós próprios verdadeiros e bons. Este gesto é necessário, mesmo se a nossa ambição de liberdade num primeiro momento resiste a esta perspectiva. Fazê-la completamente nossa só será possível na segunda passagem que a Última Ceia nos apresenta. A palavra latina para adoração é ad-oratio - contato boca a boca, beijo, abraço e, por conseguinte, fundamentalmente amor. A submissão torna-se união, porque Aquele ao qual nos submetemos é Amor. Assim, submissão adquire um sentido, porque não nos impõe coisas alheias, mas liberta-nos em função da verdade mais íntima do nosso ser. (Leia a homilia do Papa aqui).

Quando você estiver experimentando o amor e, por exemplo, beijando a boca da pessoa amada, não-se esqueça que está adorando a Deus.

13 de junho de 2011

Namoro é Pentecostes



Não sei se você costuma assistir o seriado "CSI-Las Vegas/Nova York/Miami" na Rede Record. Há uma cena que se repete em quase todos os capítulos. O perito insere no sofisticado sistema de identificação os vestígios de impressões digitais coletados na cena do crime. Você já sabe o resultado. Quando a impressão encontrada naquele local corresponde aos dados armazenados no sistema, acende-se uma luz e o sinal sonoro é acionado.

Por que estou falando nisso? Nós também temos um sistema parecido e ainda mais sofisticado. É quando encontramos aquela pessoa única que dará o novo sentido à nossa vida. Justamente, como na tela do computador de um investigador forense, passam diante dos nossos olhos milhares de rostos e siluetas, mas o sistema só apita e acende aquela luz verde, quando encontramos a pessoa certa. Sem dúvida, é um mistério que não acontece sem que o próprio Deus tenha metido o seu dedo ali. Costuma-se chamar isso de química ou, mais popularmente, de um "clima que pinta". Mas não é um clima qualquer e, quando pinta, é algo totalmente diferente. A sensação que a gente tem é como se conhecesse aquela pessoa há séculos, quem sabe, numa outra encarnação (caso a reencarnação existisse). Surgem fenômenos de comunicação ultra-sensorial, algum tipo de telepatia ou, pelo menos, a compreensão instantânea em um só olhar, sorriso ou gesto. Nasce o amor. Começa o namoro.

Veja agora o Cenáculo de Pentecostes. De repente, veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde eles se encontravam. Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava. (At 2, 2-4) Deus também gosta de usar os sinais sonoros e a luz que se acende no momento certo. Maria, os Apóstolos e os demais discípulos foram identificados e alcançados pelo amor de Deus em Pessoa, o Espírito Santo. Cheios deste amor, saíram, corajosos e proclamaram em todas as línguas, o fim da solidão do mundo. Deus começou a namorar a humanidade de um jeito novo.

Por isso acho que a coincidência, neste ano, de Pentecostes com o Dia dos Namorados, não é coincidência.