Tradicionalmente, na ocasião de Natal e de Páscoa, o Papa proclama uma mensagem especial, dirigida "à cidade [de Roma] e ao mundo". Neste ano, Bento XVI disse: Esta minha mensagem quer chegar a todos e, como anúncio profético, sobretudo aos povos e às comunidades que estão a sofrer uma hora de paixão, para que Cristo Ressuscitado lhes abra o caminho da liberdade, da justiça e da paz. (Leia a mensagem na íntegra aqui) Nós, homossexuais, também somos uma comunidade, um povo. E também, com frequência, sofremos uma hora de paixão. Nós também pedimos que Cristo Ressuscitado nos abra o caminho da liberdade, da justiça e da paz. Por isso escutamos com atenção as palavras do Papa: Tal como os raios do sol, na primavera, fazem brotar e desabrochar os rebentos nos ramos das árvores, assim também a irradiação que dimana da Ressurreição de Cristo dá força e significado a cada esperança humana, a cada expectativa, desejo, projeto. Por isso, hoje, o universo inteiro se alegra, implicado na primavera da humanidade, que se faz intérprete do tácito hino de louvor da criação. O aleluia pascal, que ressoa na Igreja peregrina no mundo, exprime a exultação silenciosa do universo e sobretudo o anseio de cada alma humana aberta sinceramente a Deus, mais ainda, agradecida pela sua infinita bondade, beleza e verdade. «Na vossa ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra». A este convite ao louvor, que hoje se eleva do coração da Igreja, os «céus» respondem plenamente: as multidões dos anjos, dos santos e dos beatos unem-se unânimes à nossa exultação. No Céu, tudo é paz e alegria. Mas, infelizmente, não é assim sobre a terra! Aqui, neste nosso mundo, o aleluia pascal contrasta ainda com os lamentos e gritos que provêm de tantas situações dolorosas: miséria, fome, doenças, guerras, violências. E todavia foi por isto mesmo que Cristo morreu e ressuscitou! Ele morreu também por causa dos nossos pecados de hoje, e também para a redenção da nossa história de hoje Ele ressuscitou. Apresento a Jesus Ressuscitado o projeto de uma Pastoral de Homossexuais, levada a sério, estruturada, acolhida e acompanhada pela Igreja em todos os níveis. É um projeto de formação contínua e de plena participação de homossexuais na vida da Igreja. É um projeto de superação da homofobia e de outros tipos de preconceito, começando pelos católicos - sejam os membros da hierarquia, sejam os leigos. Se a situação continuar do jeito que está, isso significaraá que, mais uma vez, a palavra de Cristo e de seu representante, o Papa, não está sendo ouvida nem obedecida.
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30 de abril de 2011
9 de abril de 2011
Campanha da Fraternidade [2]
A Campanha da Fraternidade, há décadas, tem sido a oportunidade para promover novas iniciativas. Algumas delas perduram, enquanto a maior parte de assuntos e projetos, cai no esquecimento. Mesmo assim, vale a pena aproveitar os impulsos e inspirações que aparecem. Escrevi (aqui) um pouco mais sobre a Campanha e hoje acrescento algo sobre a sua dinâmica, sem entrar no conteúdo em si (a ecologia). O livreto da CF-2001, elaborado pela Coordenação Arquidiocesana de Pastoral do Rio de Janeiro traz, no 4° encontro (p. 15), uma proposta interessante (transcrevo, inclusive, a forma original do diálogo entre participantes):
T. [todos] Podemos nos unir para fazer pequenos gestos, que vão, mais tarde, fazer toda a diferença.
L. [leitor] Exatamente! Um dos gestos mais importantes é a criação da consciência ecolôgica em todas as pessoas, de modo que ninguém fique pensando que isso é coisa de maluco.
T. [todos] As comunidades poderiam ter uma pastoral da ecologia.
L. [leitor] Seria um grupo com a finalidade de promover estudos sobre o tema, levantamento da relidade local, pistas para reciclagem e economia de energia... Há tantos caminhos! [aqui há referência ao Texto-base da CF 2011, n° 204ss.]
D. [dirigente] Um pequeno grupo preocupado com este assunto faria muito bem a todas as comunidades. Na história da Igreja, muitas atividades, que hoje são grandes e bem conhecidas, surgiram assim, de pequenas iniciativas. Vamos ver o que pode ser feito em nossa comunidade.
Notemos neste trecho uma dica prática para a formação de outros grupos, por exemplo, os de uma Pastoral para Homossexuais (podemos chamá-la de "Pastoral da Diversidade"). Basta substituir os termos "ecológica", "ecologia", "reciclagem", "economia de energia", por outros, mais apropriados à nossa proposta. A dinâmica e a motivação são as mesmas.
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4 de abril de 2011
A fé em andamento
Embora usemos com frequência a expressão: "o ato de crer", a fé não é uma relidade estagnada. A dinâmica, o movimento constante, é a sua natureza própria. Neste sentido, o ato de crer, seria um dos passos da jornada de fé. Assim como numa caminhada, cada passo é algo novo, também cada ato de crer é diferente. Podemos perceber isso na passagem do Evangelho de hoje (Jo 4, 43-54). O funcionário do rei dá seu primeiro passo ao sair de casa à procura de Jesus. Não desiste do seu propósito diante da declaração de Jesus: Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais. Podemos falar aqui de uma fé desafiada que, se fosse pequena ou fraca, iria desistir naquele exato momento. O homem, no entanto, insiste: Senhor, desce, antes que meu filho morra! Agora vem um desafio ainda maior: Podes ir, teu filho está vivo. Ou seja, Jesus não atende ao pedido do pai angustiado de maneira que este imaginava. Acredito ser esta a verdade muito importante para a nossa percepção da fé e de oração. Quantas vezes as nossas preces tomam uma forma de instruções para Deus! Nesta altura, o homem do Evangelho, dá o segundo passo: acredita na palvra de Jesus e vai para casa. É, mais ou menos, como a resposta de Simão Pedro, no início de sua vocação: Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos; mas por causa de tua palavra, lançarei a rede. (Lc 5, 5) Aquele funcionário do rei, um pai preocupado, pode ter pensado assim: "Imaginei que o Mestre fosse para minha casa para curar o menino, mas por causa de sua palavra, eu vou embora sozinho". Vai com fé e não com revolta no coração. E a fé está sempre acompanhada pela esperança, ambas sustentadas pelo amor (a fé, a esperança e a caridade, são inseparáveis). Alguém pode ter criticado aquele homem: "Poxa, você não trouxe Jesus?", mas ele está seguro: Tendo uma tal esperança, procedemos com toda a segurança. (2Cor 3, 12) Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos em apuros, mas não desesperançados. (2Cor 4, 8) Pois, se labutamos e lutamos, é porque pusemos a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos, principalmente dos que têm fé. (1Tm 4, 10) A fé é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se vêem. (Hbr 11, 1). O Papa Bento XVI, em sua encíclica sobre a esperança, "Spe salvi" (leia esta encíclica aqui), escreveu que «esperança» equivale a «fé» (n. 2). O Evangelho relata os detalhes do retorno daquele homem para casa: os empregados com boas notícias e a preocupação do pai com a hora em que o filho tinha melhorado. Tenho a impressão de que, naquele momento, esse homem estava mais interessado com o detalhe do horário, do que com o estado de saúde do próprio filho, mas talvez tenha siddo assim, porque, de fato, ele não estava mais preocupado com o filho, mesmo sem tê-lo visto. Tinha acreditado de verdade. O terceiro passo da sua jornada de fé, porém, ocorreu já em casa: Ele abraçou a fé, juntamente com toda a sua família. (Jo 4, 53). Três etapas: acreditou, foi embora (agiu, contra a lógica e contra os sentimentos) e, finalmente, abraçou a fé. E, quando o evangelista conclui a descrição deste episódio, com a informação de que esse foi o segundo sinal de Jesus. Realizou-o quando voltou da Judeia para a Galileia. (v. 54) - podemos interpretá-lo de duas maneiras: a cura do menino foi, sem dúvida, um sinal (no Evangelho é o sinônimo de milagre), mas também (o que parece sugerir a sequência imediata das afirmações de João), não deixa de ser um sinal a mudança de vida daquela família que abraçou a fé (ou seja, a sua conversão).
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Para nós, homossexuais e cristãos, é muito importante esta lição de fé. Primeiro, porque temos motivos de sobra para deistir, diante das palavras (muitas vezes ouvidas dentro da própria Igreja) que pretendem nos desencorajar. É bom lembrarmos aqui, mais uma vez, a frase de São Paulo, citada acima: Pois, se labutamos e lutamos, é porque pusemos a nossa esperança no Deus vivo (1Tm 4, 10). Para terminar, vou repetir a minha opinião, sobre a enorme necessidade de um trabalho sério, estruturado, apoiado de verdade pela Igreja, que podemos chamar de "Pastoral para Homossexuais". Nós precisamos urgentemente de uma formação espiritual de qualidade. Não podemos continuar abandonados e desprezados pela Igreja. Caso contrário, a própria Igreja permanecerá em estado de omissão grave.
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24 de março de 2011
Rico e Lázaro
Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. (Lc 16, 19) O maior problema deste homem não era a riqueza, mas a ausência de caridade no seu coração insensível e indiferente: Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. (v. 20) Evidentemente, o estilo de vida daquele homem rico, contribuía ainda mais, para essa insensibilidade. Em outros momentos, Jesus dizia: Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. (Mt 6,21) e É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus. (Mt 19, 24). Lembro-me de uma pregação na qual o padre tinha falado sobre o vidro que, enquanto permanece limpo, conseguimos enxergar através dele as pessoas e todas as outras coisas, mas basta cobri-lo com uma fina camada de prata e o vidro torna-se um espelho. Não dá mais para ver nada e ninguém, a não ser a nossa própria imagem. A riqueza tem capacidade de aprisionar o coração humano e mergulhá-lo no profundo egoísmo. Li, recentemente, no "Diálogo" de Santa Catarina de Sena, a seginte explicação: Se o apetite sensível procura os bens materiais, a eles orienta-se a inteligência; e quando a mesma toma como objeto os bens passageiros, surgem o egoísmo, o desprezo pelas virtudes, o apego ao vício e, como consequência, o orgulho e a impaciência. Por sua vez, a memória encher-se-á com tais elementos, fornecidos pelo afeto sensual, obscurecendo-se a inteligência, que não mais vê senão aparências da luz. (16, 1)
O "mundo gay" estende-se por todas as camadas da sociedade, mas a mídia (inclusive a do próprio "mundo gay") apresenta mais frequentemente os homossexuais que se vestem com roupas finas e elegantes e fazem (ou participam de) festas esplêndidas todos os dias. Basta acessar qualquer portal GLBTS ou assistir, por exemplo, a série "Queer as folk", para confirmar isso. Eu mesmo tenho amigos que dedicam todo seu tempo livre à "balada", como dizem por aqui. Por sua vez, é conhecida a sensibilidade dos homossexuais em relação a "roupas finas e elegantes", bem maior que dos heterossexuais. Repito: tudo isso, em si, não é um problema, mas não deixa de ser um perigo. Por isso, mais uma vez, insisto quanto à necessidade de um acompanhamento pastoral, ou de uma formação espiritual, para homossexuais. E faço um apelo aos meios de comunicação do "mundo gay": não se esqueçam que, neste nosso mundo, há "pobres Lázaros", também. Tenho uma edição da revista "Junior" de 2008 (n° 6) [veja informações sobre a revista aqui]. Uma das matérias ("À margem da margem", p. 38) fala sobre a vida dos homossexuais que moram nas ruas de São Paulo. São vários depoimentos emocinantes e surpreendentes, sobre preconceito, violência, rejeição e... esperança. Um dos entrevistados, Ramon de 35 anos, conta a sua passagem de um a outro personagem da parábola de Jesus: Sou modelista, estou desempregado hoje por safadeza mesmo, admito. Estou na rua por causa de muita farra que fiz quando tive dinheiro, era muito mão-aberta, gastava com comidas caras, roupas caras, pagava até a droga dos outros - e olha que não uso drogas. Meu sonho é montar uma grife de roupas ou seguir carreira de cozinheiro, mas primeiro preciso conquistar a confiança das pessoas para elas me darem emprego. Sou de Belo Horizonte, vim para São Paulo para ter uma vida com mais liberdade, bem longe da minha família, que é muito religiosa e não aceita minha homossexualidade. Outro entrevistado, Mourane Gutierrez de 47 anos, resume a sua vida assim: Saio do albergue às 7h30 e vou fazer meu trabalho com os portadores de HIV que estão nas ruas de São Paulo. Volto só no fim da tarde para dormir. Sei como é ruim estar na rua, e isso é ainda pior para quem tem HIV. A rua não te dá dignidade nenhuma, você vive à beira de todo mundo, ninguém te olha. Já faz oito meses que estou nessa luta diária. Não vou prá balada, não paquero ninguém, quase não me divirto, não me sobra tempo e eu fico bem cansado. Queria muito ter tempo tempo para caçar.
O meu sonho é uma Pastoral para Homossexuais que, além de toda formação espiritual, teria estruturas para trabalho social para com os homossexuais-Lázaros, abandonados até pelo próprio "mundo gay".
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15 de março de 2011
Pai nosso
Jesus retoma um dos assuntos com os quais tinha iniciado este tempo da Quaresma: a oração. Outros são: a esmola e o jejum (veja esta reflexão). O Evangelho de hoje (Mt 6, 7-15) traz a oração "Pai nosso", sobre qual ja foi dito e escrito tanto, que vou me limitar apenas a um comentário, para não ser um "repetidor de ideias" (usando o termo de Augusto Cury).
Insisto aqui no assunto de estrago que faz a falta de uma séria e estruturada Pastoral para Homossexuais, ou - pelo menos - de um tratamento mais digno das pessoas com esta identidade (ou condição) dentro da Igreja. Geralmente funciona isso da segiunte maneira (ainda que não necessariamente com estas palavras): "Você está todo errado, por isso nem vou lhe dar atenção". E se, neste mesmo momeno, perguntarmos ao autor desta resposta tão caridosa e cristã, se o 'Pai nosso' é também o Pai dos homossexuais? - com certeza não vai querer se envolver nessa conversa. As consequências são devastadoras. Um(-a) homossexual - estou falando daqueles que ainda conseguem buscar uma vida espiritual - carrega "nas costas" o peso de culpa, muitas vezes só pelo fato de sentir algo diferente e, exatamente por isso, não se sente digno(-a) de falar com Deus. Abandona a oração e cai, ainda mais, no "abismo" de abandono e solidão. Tenho certeza absoluta de que deveria acontecer, justamente, o contrário. Se o motivo de eu não falar com Deus é algum tipo de "vergonha", significa que estou transferindo para Deus as características puramente humanas. Eu posso sentir algum constrangimento perante as pessoas e não por estar errado, mas por conhecer (e experimentar na pele) a incompreensão da mente preconceituosa. Uma das atitudes movidas pela vergonha é a tentativa de se esconder ou de esconder "aquilo". E isso não funciona com Deus. Enquanto as pessoas se perguntam: "Será que ele é?", Deus sabe perfeitamente quem sou. E mais: em Deus o saber e o amar são a mesma coisa. Por isso não devo sentir nenhum constrangimento (a não ser aquele que vem da grandeza do amor divino), ao me aproximar de Deus. Até mesmo quando a minha consciência (e não as pessoas) me diz que pequei, não devo fugir de Deus, mas chegar perto e dizer: "Como o Senhor já sabe, pequei...". Santa Teresa d'Àvila deixou um testemunho muito interessante a respeito disso: Comecei (...) a meter-me tanto em ocasiões de pecado muito grandes e a andar tão estragada minha alma em muitas vaidades, que eu já tinha vergonha de voltar a me aproximar de Deus em tão particular amizade como é a conversa da oração. (...) Esse foi o mais terrível engano que o demônio me podia fazer sob o véu de parecer humildade, pois comecei a temer ter oração, por ver-me tão perdida. ("Livro da vida", cap. 7, 1)
Lembro-me de uma pregação, na qual o padre estava contando sobre o ancião que foi procurado por um jovem. "Diga-me, o que eu faço para ser santo?" - prguntou jovem. "Pega um pedaço de papel e escreve a oração 'Pai nosso'. Depois medita sobre estas palavras todos os dias. Isso é suficiente" - respondeu o ancião.
Quero propor aos (eventuais) Leitores este exercício, pelo menos por uma semana. Tenho certeza que os frutos não serão poucos nem pequenos.
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10 de março de 2011
Campanha da Fraternidade [1]
A Campanha da Fraternidade, idealizada pelos padres da Cáritas Brasileira em 1961, foi realizada no ano seguinte em Natal (Rio Grande do Norte). Este projeto foi lançado, em nível nacional em 1963, sob o impulso do Concílio Vaticano II e realizado pela primeira vez na quaresma de 1964. Os conhecedores do assunto dividem a CF em três etapas: Renovação da Igreja e do cristão (1964-1971), Realidade social do povo e promoção da justiça social (1972-1984) e Situações existenciais do povo brasileiro (desde 1985). A Campanha da Fraternidade é uma atividade ampla de evangelização desenvolvida num determinado tempo (quaresma), para ajudar os cristãos e as pessoas de boa vontade a viverem a fraternidade em compromissos concretos no processo de transformação da sociedade a partir de um problema específico que exige a participação de todos na sua solução. É grande instrumento para desenvolver o espírito quaresmal de conversão, renovação interior e ação comunitária como a verdadeira penitência que Deus quer de nós em preparação da Páscoa.
Meu comentário:
Meu comentário:
Considero a Campanha da Fraternidade uma iniciativa preciosa. Entre tantos frutos deste trabalho registro aqui a criação da Pastoral para Homossexuais pelo Padre Antônio Transferetti. Ele mesmo conta essa hostória: Em 1995, o tema da Campanha da Fraternidade foi A Fraternidade e os Excluídos. Como homossexuais, travestis e prostitutas são excluídos pela sociedade, resolvi trabalhar com eles. Estudei a homossexualidade para entender mais de perto os problemas que eles enfrentam. Fazíamos reuniões nas quais eles contavam seus problemas e dramas pessoais. Também fazíamos trabalho de orientação sexual e prevenção a doenças sexualmente transmissíveis. (Leia o texto da entrevista aqui). Tenho, entretanto, uma observação a respeito da associação da Campanha com a Quaresma. Para ser mais claro: imagine que você está numa estação de metrô e chega uma composição, curiosamente, com vários vagões quase vazios e apenas um totalmente cheio de passageiros. Qual seria a sua decisão mais lógica? Certamente a de entrar num vagão mais vazio. Tenho a impressão de que a CNBB, ao lançar a Campanha da Fraternidade exatamente no tempo da Quaresma, preferiu "enfiar" o povo no vagão cheio. Com efeito, o conteúdo próprio deste tempo litúrgico, tão rico e profundo, acaba sendo esvaziado. Para mim isso é um resquício inquestionável da funesta influência da TL (teologia da libertação). É uma pena! Há tantos períodos durante o ano que seriam ótimos para concentrar a nossa atenção nos desafios e propósitos da Campanha da Fraternidade. Como resultado, temos aqueles paupérrimos (em conteúdo) textos da Via Sacra e de outros exercícios quaresmais. Cria-se na nossa mente uma convicção errada sobre a finalidade da Quaresma. Encontrei no blog da Diversidade Católica (aqui) uma reflexão que segue um pouco essa ideia [o blog em sí é ótimo e sou um dos seus seguidores"]: (A Quaresma) é um período em que toda a Igreja busca silenciar-se para tirar desse silêncio os frutos de uma reflexão aguda sobre o que cada um de nós pode fazer para melhorar a sua realidade e a dos que estão à sua volta. Eu diria que não é só isso. Há algo mais para refletir. O Papa Bento XVI, no livro-entrevista "Luz do mundo", fala sobre isso: O nosso sermão, o nosso anúncio é predominantemente orientado para a organização do mundo melhor, enquanto que o mundo verdadeiramente melhor já quase não é mencionado. Aqui temos de fazer um exame de consciência. Naturalmente que se tenta ir ao encontro dos ouvintes, dizer-lhes o que está no horizonte. Mas a nossa missão é ao mesmo tempo abrir esse horizonte, ampliar e olhar para além disso. Estas coisas são conceitos difíceis para os homens de hoje. Parecem-lhes irreais. Querem, em vez disso, respostas concretas para o agora, para o sofrimento do dia-a-dia. Mas essas respostas ficam incompletas se não sentirem e reconhecerem intimamente que vão para além desta vida materialista, que existe um juízo, que existem a misericórdia e a eternidade. Nessa medida, temos também de encontrar novas palavras e novos meios para possibilitar ao homem a ruptura com a finitude. (p. 170)
Voltando ao assunto, espero celebrar um dia a Campanha da Fraternidade com o tema "Fraternidade e pessoas homossexuais". O lema pode ser tirado, por exemplo, da 1 Carta de São João: "O amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus" (1Jo 4, 7)
Voltando ao assunto, espero celebrar um dia a Campanha da Fraternidade com o tema "Fraternidade e pessoas homossexuais". O lema pode ser tirado, por exemplo, da 1 Carta de São João: "O amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus" (1Jo 4, 7)
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8 de fevereiro de 2011
Reflexões sobre a "Carta" [3]
Continuo as reflexões sobre a "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais", publicada em 1986 pela Congregação para a Doutrina da Fé (um dos mais importantes órgãos da Santa Sé) e assinada pelo então prefeito desta Congregação, Cardeal Joseph Ratzinger (hoje o Papa Bento XVI). O texto da "Carta" pode ser localizado no site do Vaticano (aqui) e as minhas duas reflexões anteriores aqui e aqui. O documento transmite uma afirmação muito séria sem, no entanto, fornecer provas ou, ao menos, exemplos. Infelizmente, apesar do suposto propósito da "Carta" (o "atendimento pastoral das pessoas homossexuais"), uma frase desses tem o poder de detonar qualquer impulso de boa vontade e de coragem que eventuais agentes de pastoral (começando pelos bispos e padres) possam ter. Pior, para um leitor católico (portanto aquele que recebe as orientações do Vaticano como dogmas), aquela expressão pode causar uma distorção séria na sua visão do mundo e até levar a justificar pensamentos e atos preconceituosos. É mais ou menos isso que Jesus falou hoje na liturgia da Missa: "Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens. Vós sabeis muito bem como anular o mandamento de Deus, a fim de guardar as vossas tradições." (Mc 7, 8-9)
Para chegar à frase em questão, cito um trecho maior do texto: Mesmo dentro da Igreja formou-se uma corrente, constituída por grupos de pressão com denominações diferentes e diferente amplitude, que tenta impôr-se como representante de todas as pessoas homossexuais que são católicas. (...) Embora a prática do homossexualismo esteja ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de grande número de pessoas, os fautores desta corrente não desistem da sua ação e recusam levar em consideração as proporções do risco que ela implica. (n. 9). Qual seria esta "séria ameaça" à vida e ao bem-estar de grande número de pessoas? Tentar mostrar que o Criador, numa infinita riqueza de suas obras, chamou à existência, também, as pessoas homossexuais, concedendo-lhes, igualmente, a vocação para amar e serem amadas? Ou, então, porque a presença de homossexuais na sociedade (e na Igreja), teria enfraquecido a instituição de família? Tenho certeza que não só não enfraquece, mas - pelo contrário - amplia e enriquece a experiência familiar de amar incondicionalmente! Falando francamente, quem nesta história toda, está realmente ameaçado, tanto na sua vida, quanto no seu bem-estar? Um pouco mais adiante, o próprio documento responde (sem querer): É de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam. Eles revelam uma falta de respeito pelos outros que fere os princípios elementares sobre os quais se alicerça uma sadia convivência civil. A dignidade própria de cada pessoa deve ser respeitada sempre, nas palavras, nas ações e nas legislações. E acrescenta: Todavia, a necessária reação diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Quando tal afirmação é aceita e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, ou quando se adota uma legislação civil para tutelar um comportamento ao qual ninguém pode reivindicar direito algum, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos. Pois é, a Igreja não se surpreende com os comportamentos "irracionais e violentos". Será porque ela própria fornece argumentos para tais comportamentos? É muito triste tudo isso...
Para chegar à frase em questão, cito um trecho maior do texto: Mesmo dentro da Igreja formou-se uma corrente, constituída por grupos de pressão com denominações diferentes e diferente amplitude, que tenta impôr-se como representante de todas as pessoas homossexuais que são católicas. (...) Embora a prática do homossexualismo esteja ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de grande número de pessoas, os fautores desta corrente não desistem da sua ação e recusam levar em consideração as proporções do risco que ela implica. (n. 9). Qual seria esta "séria ameaça" à vida e ao bem-estar de grande número de pessoas? Tentar mostrar que o Criador, numa infinita riqueza de suas obras, chamou à existência, também, as pessoas homossexuais, concedendo-lhes, igualmente, a vocação para amar e serem amadas? Ou, então, porque a presença de homossexuais na sociedade (e na Igreja), teria enfraquecido a instituição de família? Tenho certeza que não só não enfraquece, mas - pelo contrário - amplia e enriquece a experiência familiar de amar incondicionalmente! Falando francamente, quem nesta história toda, está realmente ameaçado, tanto na sua vida, quanto no seu bem-estar? Um pouco mais adiante, o próprio documento responde (sem querer): É de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam. Eles revelam uma falta de respeito pelos outros que fere os princípios elementares sobre os quais se alicerça uma sadia convivência civil. A dignidade própria de cada pessoa deve ser respeitada sempre, nas palavras, nas ações e nas legislações. E acrescenta: Todavia, a necessária reação diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Quando tal afirmação é aceita e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, ou quando se adota uma legislação civil para tutelar um comportamento ao qual ninguém pode reivindicar direito algum, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos. Pois é, a Igreja não se surpreende com os comportamentos "irracionais e violentos". Será porque ela própria fornece argumentos para tais comportamentos? É muito triste tudo isso...
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26 de janeiro de 2011
Reflexões sobre a "Carta" [2]
Depois de uma pequena pausa, estou retornando à leitura da "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais". O documento foi assinado pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Ratzinger (hoje o Papa Bento XVI), em 01 de outubro de 1986. Como todos os textos deste tipo, a "Carta" possui, também, uma observação final: "O Sumo Pontífice João Paulo II, no decurso da Audiência concedida ao Prefeito abaixo-assinado, aprovou e ordenou a publicação da presente Carta, decidida em reunião ordinária desta Congregação." O texto completo encontra-se aqui e a minha primeira reflexão, aqui. Francamente falando, logo depois daquela primeira postagem, fiquei bastante desanimado, mas como fui eu mesmo quem abraçou o desafio, vai aqui a segunda reflexão...
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Pessoalmente, acho louvável a própria iniciativa da Igreja de se ocupar com as pessoas homossexuais. É claro que a questão seguinte é: como fazer isso. Confesso que li a "Carta" diversas vezes e não encontrei uma resposta clara. O que sobressai (para mim, de uma maneira bastante irritante) é a cautela, para não dizer o medo. É uma preocupação impregnada ao longo do texto inteiro. Como se a Igreja falasse aos bispos e padres que, por acaso, quisessem se aventurar em tal atividade: "Tudo bem, vocês tem a nossa autorização, mas saibam que, certamente, vão se queimar! Por isso, pensem bem, antes de começar esse negócio!". Outra coisa (voltando agora à sequência da leitura) é a referência à ciência: Naturalmente, não se pretende elaborar neste texto um tratado exaustivo sobre um problema tão complexo. Prefere-se concentrar a atenção no contexto específico da perspectiva moral católica. Esta encontra apoio também nos resultados seguros das ciências humanas, as quais, também, possuem objeto e método que lhes são próprios e gozam de legítima autonomia. (n.2) Em seguida, acrescenta-se: a Igreja está em condições não somente de poder aprender das descobertas científicas, mas também de transcender-lhes o horizonte; ela tem a certeza de que a sua visão mais completa respeita a complexa realidade da pessoa humana que, nas suas dimensões espiritual e corpórea, foi criada por Deus e, por sua graça, é chamada a ser herdeira da vida eterna. (idem) Foi sobre isso que escrevi, anteriormente, algumas coisas e, também, argumentei numa conversa com o blogueiro Maicon (veja aqui, especialmente: os comentários). Eu acredito na importância da ciência nesta questão toda, pois é dela que surgem argumentos para o diálogo. Entretanto, o texto da "Carta", mesmo tendo dito sobre o "fenômeno do homossexualismo" (a expressão que pode sugerir um "olhar científico), surpreende depois com a seguinte afirmação: Alguns afirmam que a tendência homossexual, em certos casos, não é fruto de uma opção deliberada e que a pessoa homossexual não tem outra alternativa, sendo obrigada a se comportar de modo homossexual. Por conseguinte, afirma-se que, em tais casos, ela agiria sem culpa, não sendo realmente livre. A minha reação imediata para tal opinião não pode ser citada aqui literalmente, pois lembra bastante os gritos de torcedores numa partida de futebol. Será que é assim que a Igreja "transcende o horizonte da ciência", quer dizer, ignora totalmente as conclusões de suas pesquisas sérias e multidisciplinares? O termo "certos casos" induz à compreensão que seriam poucos estes casos. Onde está o resto desses casos, ou seja, aqueles que se tornaram "deliberadamente" gays e lésbicas? Que tipo de ser humano escolhe o que sentir? Quem é capaz de escolher a vida marcada pela constante discriminação e perseguição, privando-se de uma "felicidade normal" (abençoada pela Igreja-instituição), com o casamento, família e filhos, além de toda garantia de sucesso social e profissional? São, exatamente, estas frazes que põem em dúvida o documento inteiro, embora contenha certo incentivo à criação da Pastoral específica para homossexuais. Já escrevi, na reflexão anterior, que algum alívio em relação a contradições deste documento, é a evolução de pensamento da Igreja como tal. Ainda que esta evolução seja terrivelmente lenta, pelo menos a esperança não morre, por assim dizer. Para provar isso, cito algumas frases do Catecismo da Igreja Católica (de 1992): A homossexualidade se reveste de formas muito variáveis ao longo dos séculos e das culturas. Sua gênese psíquisa continua amplamente inexplicada. (...) Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. (CIC, 2357 e 2358). É muito interessante que, desta vez, não se fala de uma "opção". Talvez a lógica, finalmente, tenha funcionado...
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Pastoral para Homossexuais
17 de janeiro de 2011
Reflexões sobre a "Carta" [1]
Mencionei recentemente a "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais" (o texto deste documento está no site do Vaticano: aqui). Vou completar os dados sobre ela: dirigida aos bispos da Igreja Católica e assinada pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI) e por um secretário, no dia 01 de outubro de 1986. Acho útil lembrar logo a data para facilitar a nossa percepção de uma eventual evolução do pensamento da Igreja. Por exemplo, a redação do Catecismo da Igreja Católica foi concluída em 1992 e, já nestes poucos anos, podemos notar algumas diferenças na definição da homossexualidade (sobre isso vou falar em outra ocasião). Tive a ideia de analisar aqui a "Carta" toda (aos poucos), mas não sei se tenho paciência suficiente para isso. Mas, vamos lá. Naquela vez citei uma pequena parte, transcrita do final deste documento, só para mostrar a recomendação da Igreja para promover uma pastoral específica, voltada aos homossexuais. Hoje vou começar a mostrar o quanto a própria Igreja ainda precisa superar, dentro do seu próprio ponto de vista, para que tal pastoral possa existir de fato e trazer algum benefício (tanto para os homossexuais quanto para a Igreja).
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O problema do homossexualismo e do juízo ético acerca dos atos homossexuais tornou-se cada vez mais objeto de debate público, mesmo em ambientes católicos. ("Carta", n° 1) Ainda bem que se tornou cada vez mais objeto de debate público. É, sem dúvida, o mérito e a conquista de vários homossexuais e pessoas simpatizantes, organizados ou não, numa campanha pela visibilidade que, por sua vez, é a reação mais que justificada, diante de toda a intolerância, muitas vezes manifestada de forma violenta. Há, também, contribuição da ciência e da mídia. O final da primeira frase desta Carta parece expressar um espanto, parecido com aquele de Cristóvão Colombo, na hora de descobrir a América. Como se a Igreja esperasse um silêncio por parte dos seus próprios membros acerca de uma realidade que toca, em massa, os mesmos católicos. Se a Igreja fala sobre políticos, trabalhadores, migrantes, cientistas, alcoólatras, aidéticos, cegos, jovens, crianças e idosos, homens e mulheres, negros e brancos (etc., etc.), é porque, em primeiro lugar reconhece, em seu próprio meio, a presença e o valor dessas pessoas. Jesus falou sobre a importância de “reconhecer os sinais dos tempos” e, ainda que muito lentamente, a Igreja sempre procurou manter o olhar atento ao mundo e a todos os fenômenos que nele ocorrem. Portanto a expressão “mesmo em ambientes católicos”, co contexto do crescente debate sobre “o homossexualismo”, de um lado não surpreende tanto, por retratar a postura costumeira da Igreja enquanto instituição, mas por outro cria, logo no início, uma sensação desanimadora diante de todo o documento. Imagine uma notícia semelhante: "Nesta tarde caiu a chuva na nossa cidade. Várias pessoas ficaram molhadas, mesmo as católicas". Enquanto muitos documentos da Igreja começam de uma maneira animadora (por exemplo "Gaudium et spes" do Concílio Vaticano II), esta Carta nem um pouco. Outro problema é chamar o “homossexualismo” de “problema”. Digamos que desencoraja também. Se alguém falasse do “problema” da cor de pele ou do "problema" do judaísmo, teria – sim! - um grande problema. Pois bem, é só o início da carta. Teremos mais "pepinos" pela frente...
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16 de janeiro de 2011
A Igreja recomenda
A ideia de uma Pastoral, estruturada para acolher e atender os homossexuais, não é minha. A própria Igreja, através de alguns documentos, recomenda este trabalho. A Congregação para a Doutrina da Fé, chefiada por vários anos pelo atual Papa Bento XVI (então Cardeal Joseph Ratzinger), enviou a todos os bispos da Igreja Católica a "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"(leia aqui o texto completo). Apesar de apresentar várias opiniões discutíveis (até mesmo do ponto de vista da ciência), o documento traz um incentivo (não sei se posso chamá-lo de uma ordem) aos bispos: Esta Congregação encoraja, pois, os Bispos a promoverem, nas suas dioceses, uma pastoral para as pessoas homossexuais, plenamente concorde com o ensinamento da Igreja. (...) Um programa pastoral autêntico ajudará as pessoas homossexuais em todos os níveis da sua vida espiritual, mediante os sacramentos e, particularmente, a frequente e sincera confissão sacramental, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual. Desta forma, a comunidade cristã na sua totalidade pode chegar a reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando-lhes tanto a desilusão como o isolamento. Desta abordagem diversificada podem advir muitas vantagens, entre as quais não menos importante é a constatação de que uma pessoa homossexual, como, de resto, qualquer ser humano, tem uma profunda exigência de ser ajudada contemporaneamente em vários níveis. Evidentemente, os trechos acima, parecem bastante animadores e, realmente, vale a pena aproveitá-los para dar o primeiro passo. O resto do texto é, digamos, extremamente cauteloso (para não dizer contraditório), mas isso também podemos compreender. O próprio assunto continua ainda assustando os líderes da Igreja, assim como a maioria do povo. Precisamos de tempo, de perseverança e de uma corajosa clareza na hora apresentar ao povo tal projeto. Lembro-me, neste momento, das primeiras iniciativas em implantar as casas de acolhimento para portadores do vírus HIV (anos 80). Houve muitos protestos, não raro bastante violentos, promovidos pelos habitantes naquelas localidades. Muitas casas, simplesmente, não tiveram chance alguma para começar a sua missão. E tudo isso devido uma tremanda falta de conhecimento básico da coisa. Assim como, naquela época (e às vezes até hoje), as pessoas acreditavam que o vírus "se pega" respirando com o mesmo ar, do mesmo jeito muitos acham que os gays, só pela sua presença, irão "perverter os normais", especialmente as crianças e os jovens, mas também alguns piedosos e honestos pais e mães de família. Outra "ideia genial" diz que a moda, promovida pelo poderoso lobby gay, faz com que "a praga entra até na Igreja, como se não bastasse a invasão na mídia e o escândalo das paradas de orgulho gay". Resumindo: temos argumento nas mãos (a recomendação do Vaticano), mas também um árduo e longo trabalho pela frente. Vamos? Alguém se arrisca?
14 de janeiro de 2011
Pastoral para Homossexuais
Continuo a reflexão inspirada na passagem do Evangelho de hoje (Mc 2, 1-12), iniciada nesta madrugada (leia aqui ou desca um pouco no blog). Talvez por ter sido a madrugada, escrevi que esta passagem bíblica "é a imagem, ou melhor, a "Carta Magna" (a constituição) de uma verdadeira Pastoral para Homossexuais". Não retiro as minhas palavras, embora sejam, talvez, enfáticas demais. Acrescento logo: esse não é o único texto do Evangelho que me leva a compreender melhor, ou idealizar, uma Pastoral voltada aos Homossexuais: a necessidade de sua existência, a estrutura e a metodologia. Em outras ocasiões proponho-me desenvolver esta reflexão. Volto, por ora, à cena com o paralítico, trazido pelos quatro amigos, até Jesus. Uma coisa me impressiona devido à diferença em relação a tantos outros casos de cura realizada por Jesus. Com frequência o Senhor revela a fé daquela pessoa curada como - digamos - um "veículo" da graça acontecida. Ou, então, como a condição necessária para tal cura. Mais ainda: como que "saíndo de cena", Jesus aponta a fé como a própria causa do milagre. Vejamos alguns exemplos. O centurião romano que pedia a cura para seu servo amado (em breve uma reflexão especial sobre este caso), ouviu as palavras do Senhor admirado: "Nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé" (Lc 7, 9) e "seja-te feito conforme a tua fé" (Mt 8, 13). À mulher que sofria de hemorragia disse: "Tua fé te salvou" (Mt 9, 22; Mc 5, 34; Lc 8, 48). O mesmo declarou ao cego Bartimeu (Mc 10, 52; Lc 18, 42) e na versão de Mateus (9, 29) a dois cegos: "Seja-vos feito segundo vossa fé". Temos ainda a cananéia que pedia a libertação do demônio para sua filha (Mt 15,29): "Ó mulher, grande é a tua fé! Seja-te feito como desejas", a pecadora perdoada (Lc 7, 50), o único dos dez leprosos curados que voltou para agradecer (Lc 17, 19). Sempre: "Tua fé te salvou!" Tua fé. No milagre com o paralítico em questão acontece algo diferente. Diz o Evangelista que os quatro homens abriram o teto, bem em cima do lugar onde ele estava e, pelo buraco, desceram a maca em que o paralítico estava deitado. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Filho, os teus pecados são perdoados” e depois: "eu te digo: levanta-te, pega a tua maca, e vai para casa!" (Mc 2, 4-5 e 11), ou seja, a fé dos amigos contribuiu para a cura daquele homem. Aqui está a essência de todo e qualquer projeto ou trabalho pastoral. Inclusive da Pastoral para Homossexuais. Como falei na postagem anterior, longe de mim identificar a homossexualidade com a paralisia. Mas existe, sim (e entre os homossexuais numa dimensão bem preocupante) a paralisia espiritual que se manifesta em várias formas: o afastamento da Igreja, o abandono da oração e da Bíblia, a sensação de exclusão ou excomunhão e, não raro, uma postura de desprezo, em relação a tudo que está ligado à Igreja, ao cristianismo e à religião em geral. A consequência mais grave e dolorosa é o afastamento do próprio Deus. A perda da fé. O papel da Pastoral, portanto, é levar aquela pessoa (que tem suas razões para tal jeito de ser) até Jesus. Fazer com que aconteça este encontro pessoal com o Salvador. Ele tem o poder de perdoar os pecados (quem de nós não precisa disso?) e de dizer: "Levanta-te e vai para casa" (vai e leva a tua vida, sê feliz, íntegro, realizado). É um caminho, sem dúvida, longo, acidentado, desafiador, mas único. E necessário. É um caminho "pelo amor de Deus". E aos irmãos.
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A fé - um projeto ousado
Nesta sexta-feira da I semana do tempo comum lemos o Evangelho segundo São Marcos (Mc 2, 1-12): Reuniu-se uma tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto à porta. E ele os instruía. Trouxeram-lhe um paralítico, carregado por quatro homens. Como não pudessem apresentar-lho por causa da multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Jesus se achava e, por uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico. Sabemos o que aconteceu depois, mas já esta descrição inicial merece muita atenção. Pessoalmente, vejo nestes poucos versículos, uma inspiração para uma autêntica e vitoriosa Pastoral para Homossexuais. Vou explicando passo a passo. Primeiro: cinco homens, um deles paralítico, carregado pelos quatro demais. Impossível não notar uma incrível e profunda sintonia entre eles. Uma meta bem definida: encontrar Jesus. E não é uma pretensão, uma fantasia ou uma conquista qualquer. É uma necessidade. E, também, uma expressão concreta e corajosa da fé. Com outras palavras: estes homens são "os necessitados de Jesus". Não me detenho - de propósito - sobre o mal específico do qual sofria aquele homem, só para não criar uma falsa associação de homossexualidade com a paralisia. Não é este o meu objetivo. Insisto em dizer que os homossexuais têm pleno direito de serem pessoas religiosas e terem o seu espaço na Igreja. Voltando ao texto do Evangelho: os quatro homens abraçam o desafio e não desanimam com as dificuldades que, desde o início, não são poucas nem pequenas. Já o próprio peso, carregado não se sabe por quanto tempo e que tipo de caminhos, exigia força, equilíbrio, delicadeza e perseverança. Eles não estavam levando um saco de batatas e tinham plena consciência disso. E, exatamente como acontece na vida, quando já estavam perto da meta, surgiu de surpresa um obstáculo novo e maior de todos. Este momento é muito importante para perceber todo o sentido da mensagem. Diz Marcos que os quatro homens não conseguiram apresentar o paralítico a Jesus por causa da multidão. Que multidão é essa? São os ouvintes de Jesus, seus seguidores, discípulos. Mas que multidão é essa que impede - também hoje - os necessitados chegarem perto de Jesus? São os ouvintes dele, seguidores, discípulos. Os cristãos. Agora percebemos que para uma "equipe de necessitados" que realmente deseja encontrar Jesus, um "muro" feito de seguidores de Jesus, ou um "muro" da instituição chamada Igreja, é mais difícil a ser escalado do que o muro daquela casa. Aqueles quatro homens, entretanto, mostram uma determinação extraordinária que só pode nascer no coração cheio de amor. O amor que não desiste e que descobre, ou inventa, soluções. Para mim, esta é a imagem, ou melhor, a "Carta Magna" (a constituição) de uma verdadeira Pastoral para Homossexuais. Aquela barreira humana (intransponível, como dizem, "em nome de Jesus") vai existir sempre. Mas, enquanto existir este amor corajoso, criativo, delicado e inteligente, no coração dos cristãos que não abandonam a sua fé só por serem homossexuais, será possível o maravilhoso encontro com Jesus que acolhe e apoia, atende e compreende, porque ama. É por isso que acredito nesta ideia de uma Pastoral específica para nós. Ela pode funcionar em pequenos grupos - como este do Evangelho - desde que tenha o mesmo objetivo (de encontrar Jesus) e a mesma união. E tudo isso inspirado e alimentado pelo amor ao Senhor e aos irmãos.
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11 de janeiro de 2011
Homossexuais e Eucaristia (2)
Na postagem anterior sobre este assunto (aqui) citei a opinião do então Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI). Mais precisamente, o texto refere-se à situação dos "casais de segunda união" (casados na igreja, depois divorciados e casados novamente, sem o Sacramento do Matrimônio). Temos, portanto, uma analogia entre esses casais e as pessos homossexuais que vivem, também, numa união não reconhecida pela Igreja como legal (legítima). Um ponto de vista bastante diferente sobre a relação entre "tais pessoas" e a Eucaristia, apresenta o padre jesuíta Matthew Linn, no livro escrito em conjunto com o seu irmão Dennis e a cunhada Sheila Fabricant Linn ("Abuso espiritual & vício religioso"; Editora Verus, Campinas-SP, 2000; p. 76-77 e 136). Estes três autores formam uma equipe de pregadores de retiros e escritores (outros livros deles: "Cura dos oito estágios da vida" e "Não perdoe cedo demais", da mesma editora) - sempre no contexto (com aprovação, supõe-se) da Igreja Católica. Embora o texto não fale (de novo), literalmente, sobre os homossexuais, podemos facilmente e sem exagero algum, inclui-los na lista de "casos" mencionados. Resta agora apenas uma reflexão pessoal de cada homossexual que se identifica (apesar de todas as dificuldades) com a Igreja Católica.
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[Padre Matthew Linn, jesuíta]: Durante anos segui ao pé da letra a lei que recebessem a comunhão somente aqueles que reconhecessem a autoridade do papa, não fossem divorciados e não estivessem em pecado mortal. Eu negava comunhão a uma parte do corpo místico de Cristo, embora afirmasse durante a comunhão que me tornava um com o corpo de Cristo. Ignorei o fato de Jesus ter dado comunhão a Judas e de nós chegarmos como pessoas feridas, rezando: “Dizei uma só palavra e serei salvo.” Hoje acredito que a Eucaristia é um sacramento de salvação para ser recebido em resposta ao amor de Deus, não como medalha de honra ao mérito do amor de Deus conseguido através de boas ações. O rebelde em mim quer deixar de lado a letra da lei e agir de acordo com uma lei de amor mais elevada (cf. Mt 22, 34-40). Mas a criança responsável e obediente em mim tem medo de desconsiderar a lei. Sou tentado a obedecer por medo e acho difícil pôr de lado a lei e, com amor, convidar todos para a comunhão. Obedeço por medo, porque não quero arriscar ser censurado pelos bispos e outras autoridades da Igreja. Como é que posso então amar com minha energia rebelde e ainda manter satisfeita minha criança obediente e responsável? Nos nossos retiros, quando me perguntam sobre a comunhão, cito duas regras, dizendo: “Temos uma regra que não permite que eu publicamente convide a todos para receber a comunhão. Temos outra regra (eu sorrio) que me diz para não recusar comunhão a ninguém que venha recebê-la. Faça o que você acredita que Jesus quer que você faça.” Aposto que você pode adivinhar o que acontece. Rezo pelo dia em que essas regras farisaicas acabem sendo postas de lado. Até lá, isso é o melhor que posso fazer, porque ainda sou uma criança responsável em processo de cura, assim como é o resto da Igreja. (p. 76-77)
Através dos séculos, quando os cristãos recebem a Eucaristia, as palavras permanecem as mesmas: “O Corpo de Cristo”, às quais a pessoa que comunga responde: “Amém”. Santo Agostinho lembrou às pessoas que comungam que “amém” quer dizer: “Sim, eu sou”. Ao dizer “amém”, o comungante faz a afirmação mais radical possível para um cristão, ou seja: “Sim, eu sou o corpo de Cristo”. Até o nome “cristão”, que vem de alter Christus (outro Cristo), declara: “Sim, eu sou o corpo de Cristo”. Durante os primeiros séculos da Igreja, todos os cristãos, e não somente os padres, eram considerados e reconhecidos como aqueles cuja identidade mais profunda era aquela do alter Christus. Porque nossa mais profunda identidade é Cristo (cf. Gal 2, 20), nossa resposta à lei canônica, à autoridade da Igreja ou a qualquer situação da vida reflete nosso verdadeiro eu, até o ponto de podermos dizer (...): “Eu fiz o que Jesus teria feito!” (p. 136)
(Matthew* Linn, Sheila Fabricant Linn, Dennis Linn; “Abuso espiritual & vício religioso”; Editora Verus, Campinas, SP, 2000) * Matthew é sacerdote jesuíta.
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Homossexuais e Eucaristia (1)
Provavelmente a maioria dos homossexuais católicos vive um grave conflito interior em relação à Eucaristia. Muitos, simplesmente, abandonaram a Missa e a Comunhão, desde o momento em que assumiram (ainda que apenas perante si mesmos) a sua identidade homossexual. Outros tiveram experiências traumáticas ao procurarem a Confissão ou aconselhamento junto a um sacerdote. Alguns (talvez graças a uma sensibilidade de sua consciência) recorrem ao Sacramento da Reconciliação, desde que não estejam vivendo num relacionamento "estável", mas procuram a absolvição (e o acesso à Eucaristia) depois de cada "pecado contra castidade". Acredito que, devido à dolorosa ausência de formação espiritual específica, voltada diretamente aos homossexuais (Pastoral para Homossexuais!), existe grande confusão neste assunto. Quem não abandonou definitivamente a Igreja, procura "improvisar". Ou, então, encontra algum meio para "casar" a sua fé com a própria sexualidade. Como não encontrei ainda o texto que fale exatamente sobre esta questão, resolvi recorrer às opiniões mais "genéricas" que podem ser interpretadas, também, no contexto da homossexualidade. Nesta primeira parte da reflexão "Homossexuais e Eucaristia", trago o ponto de vista do Cardeal Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI). No livro-entrevista com Peter Seewald, "O sal da terra" (Editora Imago; Rio de Janeiro, 1997, p. 163-165), então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, fala sobre os "casais de segunda união" (aqueles que vivem uma vida conjugal sem o Sacramento do Matrimônio, por terem sido casados anteriormente com outras pessoas) e a sua relação com a Comunhão Eucarística. Faço esta citação por considerar bastante próxima a analogia destes casais (heterossexuais, mas não sacramentais) com o relacionamento homoafetivo. Digo logo que a opinião do atual Papa não é muito animadora. Na próxima postagem prometo apresentar um outro ponto de vista...
.....................................................................................................[Cardeal Joseph Ratzinger sobre as pessoas que vivem num casamento civil não reconhecido pela Igreja]:
Neste caso, devo precisar primeiro, num sentido jurídico, que essas pessoas não estão excomungadas num sentido formal. A excomunhão é um conjunto de medidas punitivas da Igreja, é uma limitação de se ser membro da Igreja. Essa punição da Igreja não lhes foi imposta. Mesmo que, por assim dizer, o que salta logo à vista, o fato de não poderem comungar, se aplique a eles. Mas, como disse, não estão excomungados num sentido jurídico. São membros da Igreja que não podem comungar por causa de determinada situação na vida. Não há nenhuma dúvida de que isso seja um grande peso, precisamente no nosso mundo, em que o número de casamentos desfeitos aumenta cada vez mais. Julgo que esse peso pode ser suportado quando, por um lado, se torna claro que também existem outras pessoas que não podem comungar. O problema só se tornou tão dramático porque a comunhão é, por assim dizer, um rito social, e uma pessoa é realmente marcada quando não participa. Quando se voltar a tornar visível que muitas pessoas têm de dizer a si mesmas que têm alguma coisa na consciência, e que assim não podem ir à comunhão, e quando, como diz São Paulo, desse modo se voltar a fazer a distinção do Corpo de Cristo, logo tudo será diferente. É uma condição. O segundo ponto é que devem sentir que, apesar disso, são aceitas pela Igreja, que a Igreja sofre com elas. [Peter Seewald: "Parece uma ilusão".] Naturalmente, isso deveria poder tornar-se visível na vida de uma comunidade. E, pelo contrário, também se faz alguma coisa pela Igreja e pela humanidade ao tomar essa renúncia sobre si, ao dar, por assim dizer, testemunho do caráter único do casamento. Julgo que disso também faz parte algo que é muito importante: que se reconheça que o sofrimento e a renúncia podem ser algo positivo, e que temos de voltar a encontrar uma nova relação com eles. E, por fim, que voltemos a tomar consciência de que também se pode participar da missa, da Eucaristia, de modo fecundo, sem ir sempre à comunhão. É uma questão difícil, mas julgo que, quando diversos fatores que estão relacionados uns com os outros se resolverem, também isso será mais fácil de suportar. [Peter Seewald: "O padre pronuncia as palavras: “Felizes os convidados para a ceia do Senhor”. Por conseguinte, os outros deveriam sentir-se infelizes.] Infelizmente, a tradução tornou o sentido da frase pouco claro. Essa expressão não se relaciona diretamente com a Eucaristia. É tirada do Apocalipse e refere-se ao convite para o banquete nupcial definitivo, representado na Eucaristia. Quem, portanto, não pode comungar no momento, não tem de estar excluído do banquete nupcial eterno. Trata-se sempre de um exame de consciência, de que se pense ser algum dia capaz desse banquete eterno, e que agora também se comungue. Mesmo quem agora não possa comungar, é admoestado através desse apelo, como também todos os outros, a pensar no seu caminho, que um dia será aceito nesse banquete nupcial eterno. E talvez, porque sofreu, possa ter ainda melhor aceitação. (p. 163-165)
(Cardeal Joseph Ratzinger&Peter Seewald; “O sal da terra”; Editora Imago; Rio de Janeiro, 1997)
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20 de dezembro de 2010
NOVENA DE NATAL (7° dia)
OS PASTORES
TEXTO BÍBLICO: Lc 2, 8-11. 15-16Havia naquela região pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor lhes apareceu, e a glória do Senhor os envolveu de luz. Os pastores ficaram com muito medo. O anjo então lhes disse: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor! (...) Quando os anjos se afastaram deles, para o céu, os pastores disseram uns aos outros: “Vamos a Belém, para ver a realização desta palavra que o Senhor nos deu a conhecer”. Foram, pois, às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura.
LEITURA/REFLEXÃO1) Estamos, sem dúvida, diante dos privilegiados daquela hora: os pastores. O anjo não foi avisar nem ao rabino da cidade de Belém, nem às locais autoridades civis. Será porque Deus já conhecia a dureza de coração daquela elite religioso-social, ou porque a figura de um pastor foi sempre muito querida para o Altíssimo? Não são raras as vezes, em que Ele próprio se revela como pastor que as suas ovelhas conduz e guia (cf. Sl 23), apascenta seu rebanho, reúne os dispersos, carrega os cordeiros nas dobras de seu manto e conduz lentamente as ovelhas que amamentam (cf. Is 40, 11); inquieta-se por causa de seu rebanho, apascenta suas ovelhas em boas pastagens, procura a ovelha perdida e reconduz a desgarrada, cura a ovelha ferida e restabelece a doente, vela sobre a que estiver gorda e vigorosa (cf. Ez 34, 11-16). Finalmente, afirma em Jesus: Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância. Conheço as minhas ovelhas e elas conhecem a mim. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor (cf. Jo 10, 11-16).
2) A Igreja sempre procurou viver o ideal do bom pastor. Esta é a sua missão e toda a razão de sua existência. É a sua identidade. Guiada pelo Espírito Santo, ao longo da história e pelos caminhos da humanidade, a Igreja compreendeu que tudo que ela própria faz, requer uma dimensão pastoral. Com o tempo, a palavra pastoral, entrou no vocabulário eclesial e tornou-se o sinônimo de toda ação e de todo projeto. Já em nossos tempos (com o impulso do Concílio Vaticano II), multiplicaram-se as pastorais específicas (que podemos comparar, por exemplo, com os ministérios de um governo do estado). As pastorais vão amadurecendo e ganhando estruturas próprias e, também, surgem outras, de acordo com as novas circunstâncias que o mundo apresenta. Não deve ser surpresa alguma, no contexto desta novena e deste blog, que vou refletir hoje sobre a pastoral dos (ou para com os) homossexuais. Não é uma ideia nova nem minha, pois já existe, ainda que um pouco timidamente.
3) Antes de falar sobre alguns trabalhos concretos, realizados e, de certa forma, reconhecidos, quero voltar à declaração oficial da Igreja, apresentada no Catecismo da Igreja Católica (n° 2358 e 1359): Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizr a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.
Em breve, vamos analisar a "Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais" (Congregação para a Doutrina da Fé, 1986). Leia na íntegra aqui.
LEITURA/REFLEXÃO1) Estamos, sem dúvida, diante dos privilegiados daquela hora: os pastores. O anjo não foi avisar nem ao rabino da cidade de Belém, nem às locais autoridades civis. Será porque Deus já conhecia a dureza de coração daquela elite religioso-social, ou porque a figura de um pastor foi sempre muito querida para o Altíssimo? Não são raras as vezes, em que Ele próprio se revela como pastor que as suas ovelhas conduz e guia (cf. Sl 23), apascenta seu rebanho, reúne os dispersos, carrega os cordeiros nas dobras de seu manto e conduz lentamente as ovelhas que amamentam (cf. Is 40, 11); inquieta-se por causa de seu rebanho, apascenta suas ovelhas em boas pastagens, procura a ovelha perdida e reconduz a desgarrada, cura a ovelha ferida e restabelece a doente, vela sobre a que estiver gorda e vigorosa (cf. Ez 34, 11-16). Finalmente, afirma em Jesus: Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância. Conheço as minhas ovelhas e elas conhecem a mim. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor (cf. Jo 10, 11-16).
2) A Igreja sempre procurou viver o ideal do bom pastor. Esta é a sua missão e toda a razão de sua existência. É a sua identidade. Guiada pelo Espírito Santo, ao longo da história e pelos caminhos da humanidade, a Igreja compreendeu que tudo que ela própria faz, requer uma dimensão pastoral. Com o tempo, a palavra pastoral, entrou no vocabulário eclesial e tornou-se o sinônimo de toda ação e de todo projeto. Já em nossos tempos (com o impulso do Concílio Vaticano II), multiplicaram-se as pastorais específicas (que podemos comparar, por exemplo, com os ministérios de um governo do estado). As pastorais vão amadurecendo e ganhando estruturas próprias e, também, surgem outras, de acordo com as novas circunstâncias que o mundo apresenta. Não deve ser surpresa alguma, no contexto desta novena e deste blog, que vou refletir hoje sobre a pastoral dos (ou para com os) homossexuais. Não é uma ideia nova nem minha, pois já existe, ainda que um pouco timidamente.
3) Antes de falar sobre alguns trabalhos concretos, realizados e, de certa forma, reconhecidos, quero voltar à declaração oficial da Igreja, apresentada no Catecismo da Igreja Católica (n° 2358 e 1359): Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizr a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.
Em breve, vamos analisar a "Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais" (Congregação para a Doutrina da Fé, 1986). Leia na íntegra aqui.
4) Em 1998 foi lançado o livro de um sacerdote católico, doutor em teologia e filosofia, o Padre José Trasferetti, “Pastoral com Homossexuais: Retratos de uma experiência” (Editora Vozes, Petrópolis, RJ). Sobre esta obra leia um artigo aqui. O padre fala sobre a sua experiência, também, numa entrevista, concedida à revista ISTOÉ em 1997 (veja aqui o texto na íntegra) : Conheço artigos de alguns teólogos, mas não tenho ciência de nenhuma outra paróquia que faça um trabalho voltado para esse segmento da população. Defendo a criação de uma pastoral do homossexual justamente para poder ampliar e enriquecer essa experiência. É importante dizer que não estamos falando do homossexual que vai para Miami. Me refiro sempre aos pobres, que não têm acolhida em nenhum outro lugar. Um sem-terra, por exemplo, é excluído, mas participa da sociedade. Os gays não. Principalmente os travestis. (...) No começo houve muita preocupação. Muitos tinham dificuldades para entender esse comportamento e vieram perguntar se a igreja não ficaria cheia de homossexuais, se era certo um gay entrar na igreja. Outros me trataram com deboche, chegavam a dizer: "Lá vem o padre das bichas." Mas não tardaram a aceitar, até porque minha paróquia abriga muitos familiares desses homossexuais.
5) Sem dúvida, a pastoral com (ou para) homossexuais é necessária. É urgente. Mas, ao mesmo tempo, precisa de muita sabedoria e delicadeza, também em seus métodos. As dificuldades surgem não só por parte dos “demais paroquianos”, ainda muito preconceituosos, mas também e não menos, no meio dos próprios homossexuais. É como um choque de dois mundos opostos, pelo menos assim parece. Na minha opinião, deve ser realizado um “trabalho de formiguinha”, bem discreto, mas destemido (nada de timidez ou medo!). Creio que a dinâmica das CEB-s (Comunidade Eclesiais de Base), também conhecidos como Círculos Bíblicos ou Grupos de Partilha (de estudo, de reflexão, etc.), seja a melhor de todas. As reuniões podem ser realizadas, inicialmente, nas casas dos participantes. Um dos componentes seria, com certeza, o Grupo de Pais de Homossexuais (já mencionado nesta novena). Haverá padres, teólogos e outros profissionais para fornecerem o material, elaborado para esta finalidade. Se não houver, podem ser utilizados os textos já existentes: livros, artigos, textos publicados na web. Afinal de contas, é a própria Bíblia que é uma fonte, mais que suficiente, para começar um trabalho. Uma Bíblia + a fé + a boa vontade + a coragem = a pastoral de homossexuais. O ideal seria o trabalho com a presença permanente de um padre, diácono ou catequista. Alguém acha impossível? Pois eu não acho.
5) Sem dúvida, a pastoral com (ou para) homossexuais é necessária. É urgente. Mas, ao mesmo tempo, precisa de muita sabedoria e delicadeza, também em seus métodos. As dificuldades surgem não só por parte dos “demais paroquianos”, ainda muito preconceituosos, mas também e não menos, no meio dos próprios homossexuais. É como um choque de dois mundos opostos, pelo menos assim parece. Na minha opinião, deve ser realizado um “trabalho de formiguinha”, bem discreto, mas destemido (nada de timidez ou medo!). Creio que a dinâmica das CEB-s (Comunidade Eclesiais de Base), também conhecidos como Círculos Bíblicos ou Grupos de Partilha (de estudo, de reflexão, etc.), seja a melhor de todas. As reuniões podem ser realizadas, inicialmente, nas casas dos participantes. Um dos componentes seria, com certeza, o Grupo de Pais de Homossexuais (já mencionado nesta novena). Haverá padres, teólogos e outros profissionais para fornecerem o material, elaborado para esta finalidade. Se não houver, podem ser utilizados os textos já existentes: livros, artigos, textos publicados na web. Afinal de contas, é a própria Bíblia que é uma fonte, mais que suficiente, para começar um trabalho. Uma Bíblia + a fé + a boa vontade + a coragem = a pastoral de homossexuais. O ideal seria o trabalho com a presença permanente de um padre, diácono ou catequista. Alguém acha impossível? Pois eu não acho.
ORAÇÃO
Provavelmente o mais conhecido entre todos os Salmos (22[23]) servirá hoje como inspiração para louvor e prece. Como de costume, termino com um “Pai nosso” e uma “Ave Maria”.
O Senhor é o pastor que me conduz;
não me falta coisa alguma.
Pelos prados e campinas verdejantes
ele me leva a descansar.
Para as águas refrescantes me encaminha,
e restaura as minhas forças.
Ele me guia no caminho mais seguro,
pela honra do seu nome.
Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso,
nenhum mal eu temerei;
estais comigo com bastão e com cajado;
eles me dão a segurança!
Preparais à minha frente uma mesa,
bem à vista do inimigo,
e com óleo vós ungis minha cabeça;
o meu cálice transborda.
Felicidade e todo bem hão de seguir-me
por toda a minha vida;
e, na casa do Senhor, habitarei
pelos tempos infinitos.
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