ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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1 de setembro de 2013

O grito da PAZ

 

Hoje, queridos irmãos e irmãs, queria fazer-me intérprete do grito que se eleva, com crescente angústia, em todos os cantos da terra, em todos os povos, em cada coração, na única grande família que é a humanidade: o grito da paz! É um grito que diz com força: queremos um mundo de paz, queremos ser homens e mulheres de paz, queremos que nesta nossa sociedade, dilacerada por divisões e conflitos, possa irromper a paz! Nunca mais a guerra! Nunca mais a guerra! A paz é um dom demasiado precioso, que deve ser promovido e tutelado.
 
Estas são as palavras do Papa Francisco, pronunciadas hoje, 01 de setembro de 2013, na Praça de São Pedro, na ocasião da oração do Angelus (leia na íntegra aqui).
 
Como destacam as principais agências de notícias, visivelmente preocupado, Francisco dedicou inteiramente seu encontro de domingo à situação na Síria, onde a guerra civil já matou mais de 100 mil pessoas em três anos. Foi a primeira vez que o Papa não fez alguma menção à liturgia do dia antes de rezar a oração mariana do Angelus no Vaticano.

Gostaria de acrescentar aqui uma importante afirmação. Embora o Santo Padre tenha se referido particularmente à situação na Síria, as suas palavras expressam um princípio que se aplica em todas as situações, em todos os tempos e lugares. Quem de nós não tenha experimentado, tantas vezes, as dolorosas consequências da falta de paz? Entre as situações, às quais dedico este espaço, encontra-se a constante "guerra civil", em toda a face da terra, mais frequentemente chamada de homofobia. Também nesta perspectiva vale a pena meditar as palavras do Papa Francisco.
 
O que podemos fazer pela paz no mundo? Como dizia o Papa João XXIII, a todos corresponde a tarefa de estabelecer um novo sistema de relações de convivência baseados na justiça e no amor (cf. Pacem in terris).
 
Possa uma corrente de compromisso pela paz unir todos os homens e mulheres de boa vontade! Trata-se de um forte e premente convite que dirijo a toda a Igreja Católica, mas que estendo a todos os cristãos de outras confissões, aos homens e mulheres de todas as religiões e também àqueles irmãos e irmãs que não creem: a paz é um bem que supera qualquer barreira, porque é um bem de toda a humanidade.
 
Repito em alta voz: não é a cultura do confronto, a cultura do conflito, aquela que constrói a convivência nos povos e entre os povos, mas sim esta: a cultura do encontro, a cultura do diálogo: este é o único caminho para a paz.
 
Que o grito da paz se erga alto para que chegue até o coração de cada um, e que todos abandonem as armas e se deixem guiar pelo desejo de paz.
 
Por isso, irmãos e irmãs, decidi convocar para toda a Igreja, no próximo dia 7 de setembro, véspera da Natividade de Maria, Rainha da Paz, um dia de jejum e de oração pela paz na Síria, no Oriente Médio, e no mundo inteiro, e convido também a unir-se a esta iniciativa, no modo que considerem mais oportuno, os irmãos cristãos não católicos, aqueles que pertencem a outras religiões e os homens de boa vontade.
 
No dia 7 de setembro, na Praça de São Pedro, aqui, das 19h00min até as 24h00min, nos reuniremos em oração e em espírito de penitência para invocar de Deus este grande dom para a amada nação síria e para todas as situações de conflito e de violência no mundo. A humanidade precisa ver gestos de paz e escutar palavras de esperança e de paz! Peço a todas as Igrejas particulares que, além de viver este dia de jejum, organizem algum ato litúrgico por esta intenção.
 
Peçamos a Maria que nos ajude a responder à violência, ao conflito e à guerra com a força do diálogo, da reconciliação e do amor. Ela é mãe: que Ela nos ajude a encontrar a paz; todos nós somos seus filhos! Ajudai-nos, Maria, a superar este momento difícil e a nos comprometer a construir, todos os dias e em todo lugar, uma autêntica cultura do encontro e da paz. Maria, Rainha da paz, rogai por nós!

30 de agosto de 2013

Quando fores velho

 
 
Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres. (Jo 21, 18)
 
A ONU informa (leia aqui):
- nos próximos dez anos, o número de pessoas com mais de 60 anos no planeta vai aumentar em quase 200 milhões, superando a marca de um bilhão de pessoas.
- Em 2050, os idosos chegarão a dois bilhões de pessoas – ou 20% da população mundial.
-  Em 2000, a população idosa do planeta superou pela primeira vez o número de crianças com menos de 5 anos e em 2050, o número de pessoas com mais de 60 anos vá superar também a população de jovens com menos de 15 anos.
- No Brasil, a previsão é que o número de idosos triplique de hoje até 2050 – passando de 21 milhões para 64 milhões. Por essas previsões, a proporção de pessoas mais velhas no total da população brasileira passaria de 10%, em 2012, para 29%, em 2050.
 
O envelhecimento é um fato, mas não passa de estatísticas, enquanto não se tornar uma experiência própria. E quando isso acontece, pode ser assustador até um simples fato de olhar para um calendário. Pior ainda quando você começa a perceber que um simples resfriado que, há pouco, você curava com algumas doses de suco de laranja com acerola + uma aspirina, hoje em dia dura mais e exige, quem sabe, um antibiótico, ou pior, uma detestável visita ao médico. Mas a mais assustadora é a solidão. Se você (como eu!) não se sente realizado na "pegação", no sexo casual, mas procura um relacionamento duradouro e mesmo que você consiga tal façanha (digamos, com um jovem que curta os "maduros", ou "coroas"), a sensação de insegurança parece inevitável. "Será que consigo segurá-lo comigo, ou, qualquer dia desses, ele vai sair à procura de algo mais?". É a questão de baixa autoestima? Provavelmente. Muito provavelmente ela faz parte do processo de envelhecimento.
 
Assim chamada "consciência coletiva", reforçada bastante pela mídia, traz a imagem de um gay velho, uma figura bizarra, ridícula, certamente de um indivíduo frustrado, esquisito, inevitavelmente perverso: um palhaço cheio de rugas que ninguém leva a sério, a não ser como uma fonte de dinheiro fácil.
 
Ora, estou falando apenas de primeiras impressões, pois a realidade pode ser diferente. A diferença de idade (digamos, de uns 30 anos, por exemplo), evoca a relação entre pai e filho. O fato muito comprovado é que são inúmeros homossexuais que carregam profundos traumas em relação ao próprio pai. Não é, portanto, de se surpreender que a preferência de vários gays jovens seja direcionada às pessoas mais velhas. É uma natural busca de segurança, carinho, experiência e - porque não - uma estabilidade material. Tudo isso, porém, requer um cuidadoso discernimento. Somente o amor verdadeiro, profundo e comprovado será capaz de sustentar uma relação assim.
 
No blog "Grisalhos" encontrei um comentário interessante de um jovem ("Neto"): Bem, tenho 22 anos e comecei a me relacionar com homens há pouco mais de um ano…sempre gostei dos grisalhos, mas todos que eu conheci nem cheguei além de uma conversa, porque no bate papo mesmo eles me dispensavam logo depois que eu falava a minha idade, eles diziam: “22 anos?.. tô fora, não quero bancar malandro!”….mas eu não desisti…Há oito meses atrás conheci no Disponível meu atual esposo, tem 45 anos, moramos juntos, o salario dele é 10 vezes maior que o meu, mais tenho meu trabalho e nunca pedi um centavo dele. E temos também uma regra, nada de presentes caros, ele só pode me dar presentes que eu posso pagar., assim quando eu compro presente pra ele não me sinto tão envergonhado de dar um presentinho simples a ele.. mas isso é o de menos, amo meu esposo mais que tudo nessa vida, e esse amor sinto que é reciproco…
É uma das respostas à matéria que conta a história de Olívio, um gay de 70 anos. As suas palavras resumem a preocupação com a perspectiva (ou já realidade) de velhice: Querido, estou sozinho e vou morrer sozinho. Quem quer um velho gay? Todos que eu encontro querem o meu dinheiro. Sexo é coisa do passado… E o vento levou. (...) Apareceu glaucoma, labirintite, pressão alta e uma lesão interna que vou ter que fazer biópsia. Tô morrendo de medo, não da biópsia, mas por não ter ninguém para ir comigo. Acho que vou pagar um michê para me acompanhar no hospital. Ninguém merece né, um michê acompanhante de um velho gay doente. 
 
Termino com uma mensagem do Papa Francisco que, embora tenha vindo para um encontro mundial com a juventude, chamou atenção à realidade de idade avançada.
 
Como os avós são importantes na vida da família, para comunicar o patrimônio de humanidade e de fé que é essencial para qualquer sociedade! E como é importante o encontro e o diálogo entre as gerações, principalmente dentro da família. (...) Esta relação, este diálogo entre as gerações é um tesouro que deve ser conservado e alimentado! Nesta Jornada Mundial da Juventude, os jovens querem saudar os avós. Eles saúdam os seus avós com muito carinho. Aos avós. Saudamos os avós. Eles, os jovens, saúdam os seus avós com muito carinho e lhes agradecem pelo testemunho de sabedoria que nos oferecem continuamente. (Angelus do Papa Francisco no Palácio São Joaquim, Rio de Janeiro, durante JMJ, 26. 07. 2013)

25 de agosto de 2013

A porta


 
Nem sempre, ao ouvir as pregações em nossas igrejas, percebemos que o Evangelho é a Boa Nova. Graças a Deus, temos hoje o primeiro entre todos os pregadores - o Papa Francisco - que nos ajuda a resgatar o verdadeiro sentido do Evangelho. Transcrevo aqui uma parte de sua meditação, feita na ocasião da oração do "Ângelus", hoje, no Vaticano. O texto na íntegra pode ser encontrado aqui.
O Papa Francisco disse:

A imagem da porta volta várias vezes no Evangelho e remete àquela da casa, do lar, onde encontramos segurança, amor, calor. Jesus nos diz que há uma porta que nos faz entrar na família de Deus, no calor da casa de Deus, da comunhão com Ele. Esta porta é o próprio Jesus (cf. Jo 10, 9). Ele é a porta. Ele é a passagem para a salvação. Ele nos conduz ao Pai. E a porta que é Jesus não está nunca fechada, esta porta não está nunca fechada, está aberta sempre e a todos, sem distinção, sem exclusão, sem privilégios. Porque, vocês sabem, Jesus não exclui ninguém. Algum de vocês poderia dizer-me: “Mas padre, com certeza eu sou excluído, porque sou um grande pecador: fiz tantas coisas más, fiz tantas, na vida”. Não, você não está excluído! Justamente por isso você é o preferido, porque Jesus prefere o pecador, sempre, para perdoá-lo, para amá-lo. Jesus está esperando você para te abraçar, te perdoar. Não tenha medo: Ele te espera. Animado, tenha coragem para entrar pela sua porta. Todos são convidados a atravessar esta porta, a atravessar a porta da fé, a entrar na sua vida e a fazê-Lo entrar na nossa vida, para que Ele a transforme, a renove, dê a ela alegria plena e duradoura.
Nos dias de hoje, passamos diante de tantas portas que nos convidam a entrar prometendo uma felicidade que depois percebemos que dura somente um instante, que é um fim em si mesma e não tem futuro. Mas eu pergunto a vocês: nós, por qual porta queremos entrar? E quem queremos fazer entrar pela porta da nossa vida? Gostaria de dizer com força: não devemos ter medo de atravessar a porta da fé em Jesus, de deixá-Lo entrar sempre mais na nossa vida, de sair de nossos egoísmos, dos nossos fechamentos, das nossas indiferenças com os outros. Porque Jesus ilumina a nossa vida com uma luz que não se apaga mais. Não é um fogo de artifício, não é um flash! Não, é uma luz tranquila que dura sempre e nos dá paz. Assim é a luz que encontramos se entramos pela porta de Jesus.
Certo, aquela de Jesus é uma porta estreita, não porque seja uma sala de tortura. Não, não por isto! Mas porque nos pede para abrir o nosso coração a Ele, para reconhecer-nos pecadores, necessitados da sua salvação, do seu perdão, do seu amor, de ter humildade para acolher a sua misericórdia e fazer-nos renovar por Ele. Jesus no Evangelho nos diz que ser cristãos não é ter uma “etiqueta”! Eu pergunto a vocês: vocês são cristãos de etiqueta ou de verdade? E cada um responda para si! Não cristãos, nunca cristãos de etiqueta! Cristãos de verdade, de coração. Ser cristão é viver e testemunhar a fé na oração, nas obras de caridade, no promover a justiça, no fazer o bem. Pela porta estreita que é Cristo deve passar toda a nossa vida.

22 de agosto de 2013

Os poloneses LGBT escrevem ao Papa

 
 
O grupo ecumênico polonês de cristãos LGBTQ  (lesbians, gays, bisexuals, transsexuals, queers)  "Wiara i Tęcza" (em português: "Fé e Arco-íris"), no último dia 20 de agosto, enviou ao Papa Francisco uma carta. No site do grupo (aqui), além da versão original em polonês, encontra-se, também, o texto em inglês. Pode ser localizada, também, a versão em inglês de um resumo sobre o Grupo (aqui).
 
Publico aqui uma tradução livre desta carta:
 
 
Varsóvia, 20 de agosto de 2013
Sua Santidade
Santo Padre Francisco
Papa
Segrataria di Stato
Palazzo Apostolico
00120 Città del Vaticano
 
"O Reino do Céu é ainda como uma rede lançada ao mar.
Ela apanha peixes de todo tipo".
Mt 13,47
 
 
Querido Santo Padre,
recebemos uma notícia feliz de que, ao retornar do encontro com a juventude no Brasil, o Senhor referiu-se com compreensão e simpatia às pessoas de orientação sexual diferente da heterossexual. Gostaríamos de lhe assegurar que existem na Igreja e diante das suas portas muitas pessoas que, há muito tempo, estavam esperando por estas palavras. Essas pessoas viviam, por muito tempo, com a sensação de injustiça, opressão, solidão e rejeição que experimentavam por parte da querida para elas  comunidade de sua própria Igreja. O exemplo de suas palavras, com certeza, irá ajudar a superar na Igreja tão dolorosa para nós desconfiança, o até aberta hostilidade, por parte dos nossos irmãos na fé.
 
Somos um grupo ecumênico polonês de cristãos LGBT, na maioria católicos romanos. Escolhemos o nome de "Fé e Arco-íris", para expressar as irredutíveis características de nossa identidade. Desejamos permanecer fiéis à comunidade da Igreja, porém não vemos a possibilidade de renunciar à específica da vida amorosa que nos foi concedida para compartilhar.
 
Acreditamos que com essa especial natureza da vida amorosa agraciou-nos, de acordo com a sua vontade, o próprio Deus, para que pudéssemos descobrir a sua misteriosa presença nos caminhos diferentes do que a maioria das pessoas. Cremos, também e nisso apoia-nos a convicção baseada no atual conhecimento científico sobre o ser humano, de que esse caminho da vida amorosa é de um direito igual ao do caminho das pessoas heterossexuais. Enxergamos a esperança no cumprimento dos ensinamentos revelados a nós por nosso Senhor Jesus Cristo, com os quais inspiram-se, geralmente, as pessoas de boa vontade que esperam a vinda do Seu Reino. Esses ensinamentos são: a amizade, o respeito mútuo, o cuidado, a fidelidade, a sinceridade e todas as outras regras, pelas quais os cristãos põem em destaque a dignidade humana em cada pessoa, as mesmas que menosprezaram em seu comportamento os habitantes da antiga Sodoma.
 
Há muito tempo aguardávamos as palavras de conforto e consolação - hoje agradecemos por elas a Deus, pois despertam em nós a esperança para o futuro. Continuaremos esperando, até passarem os tempos difíceis, assim como baixaram outrora as águas do dilúvio bíblico. Cansados com a inundação de intolerância, buscamos no horizonte o arco-íris de reconciliação e ternura, que encerrará os tempos, em que obriga-se nos a viver em isolamento e clandestinidade, com medo dos nossos próximos. Confiamos que chegarão dias, nos quais, em uma igualdade com os outros, poderemos, de maneira que nos é própria, experimentar o grande dom e sinal da presença de Deus no mundo - o insondável mistério do amor.
 
Pedimos, Santo Padre, a sua recordação e a oração - ao nosso Deus que é o próprio Amor.
Garantimos-lhe, também, a nossa oração na intenção de Vossa Santidade e de toda a Igreja.
 
Cristãos poloneses LGBT do Grupo "Fé e Arco-íris".
 
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OBS: A foto (uma montagem que inclui o logotipo do Grupo "Fé i Arco-íris") tem a finalidade de ilustrar a esperança de uma resposta. Afinal, o Papa Francisco - pelo que contam - costuma responder às cartas recebidas, inclusive de pessoas simples e pobres...


27 de julho de 2013

A cultura do encontro

Escuto as palavras do Papa Francisco nesta manhã de sábado, penúltimo dia de sua visita ao Brasil. Vem à minha mente um ditado, repetido, na época, por alguns jornais europeus, em relação ao Papa João Paulo II: “Gostamos do cantor, mas não escutamos as suas canções”. Será que o mesmo acontecerá com Francisco? Existem várias maneiras de atingir o profeta: “Vinde, disseram então, e tramemos uma conspiração contra Jeremias! Por falta de um sacerdote não perecerá a lei, nem pela falta de um sábio, o conselho, ou pela falta de um profeta, a palavra divina. Vinde e firamo-lo com a língua, não lhe demos ouvidos às palavras (Jer 18 , 18).

Aos bispos, sacerdotes e outros religiosos, reunidos hoje pela manhã na Catedral do Rio, o Papa disse, entre outras coisas (na íntegra aqui):

Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente esperando o Evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não freqüentam a paróquia. Também eles são convidados para a Mesa do Senhor.

Em muitos ambientes, infelizmente, ganhou espaço a cultura da exclusão, a “cultura do descartável”. Não há lugar para o idoso, nem para o filho indesejado; não há tempo para se deter com o pobre caído à margem da estrada. Às vezes parece que, para alguns, as relações humanas sejam regidas por dois “dogmas” modernos: eficiência e pragmatismo. Queridos Bispos, sacerdotes, religiosos e também vocês, seminaristas, que se preparam para o ministério, tenham a coragem de ir contra a corrente. Não renunciemos a este dom de Deus: a única família dos seus filhos. O encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade e a fraternidade são os elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana.

Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. Permitam-me dizer: deveríamos ser quase obsessivos neste aspecto! Não queremos ser presunçosos, impondo as “nossas verdades”. O que nos guia é a certeza humilde e feliz de quem foi encontrado, alcançado e transformado pela Verdade que é Cristo, e não pode deixar de anunciá-la (cf. Lc 24, 13-35).

Mais tarde, no Teatro Municipal do Rio, o Santo Padre reforçou, ainda mais, a ideia da “cultura do encontro”, dirigindo-se à Classe Dirigente do Brasil (na íntegra aqui):

É importante, antes de tudo, valorizar a originalidade dinâmica que caracteriza a cultura brasileira, com a sua extraordinária capacidade para integrar elementos diversos. (...)

O futuro exige de nós uma visão humanista da economia e uma política que realize cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evitando elitismos e erradicando a pobreza. Que ninguém fique privado do necessário, e que a todos sejam asseguradas dignidade, fraternidade e solidariedade: esta é a via a seguir. (...)

Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo. (...)

A única maneira para uma pessoa, uma família, uma sociedade crescer, a única maneira para fazer avançar a vida dos povos é a cultura do encontro; uma cultura segundo a qual todos têm algo de bom para dar, e todos podem receber em troca algo de bom. O outro tem sempre algo para nos dar, desde que saibamos nos aproximar dele com uma atitude aberta e disponível, sem preconceitos. Só assim pode crescer o bom entendimento entre as culturas e as religiões, a estima de umas pelas outras, livre de suposições gratuitas e no respeito pelos direitos de cada uma. Hoje, ou se aposta na cultura do encontro, ou todos perdem; percorrer a estrada justa torna o caminho fecundo e seguro. (...)

A fraternidade entre os homens e a colaboração para construir uma sociedade mais justa não constituem uma utopia, mas são o resultado de um esforço harmônico de todos em favor do bem comum.

Só nos resta ouvir com atenção, passar adiante, sem nunca deixar de pôr em prática...

26 de julho de 2013

VI estação da Via Sacra JMJ Rio2013

Está acontecendo, neste exato momento, a Via Sacra com os jovens, acompanhados pelo Papa Francisco. Durante esta tarde acompanhei a programação da TV Canção Nova e um dos entrevistados foi o padre Joãozinho (João Carlos Almeida, scj), que admitiu ter sido um dos autores das meditaçãoes da Via Sacra, junto com o padre Zezinho (José Fernandes de Oliveira, scj). Disse ele, entre outras coisas, que divulgaria no seu blog (aqui) os textos, no tempo real, ao serem pronunciados na celebração. Tal procedimento teria sido tomado, devido um "segredo", pedido pelos organizadores da JMJ. O padre não sabia, talvez, que todos os textos da Via Sacra (e muito mais) já foram publicados pelo site do Vaticano (aqui - é um arquivo em pdf). O que chamou a minha atenção, foi a diferença entre os textos da VI Estação ("Verônica enxuga o rosto de Jesus"). O padre Joãozinho divulga no seu blog a seguinte meditação (aqui):

6ª ESTAÇÃO - Verônica enxuga o rosto de Jesus
(Is 53, 2-3)
A mulher que não se calou
Meditação (CONSAGRADA QUE LUTA PELA VIDA):
Senhor Jesus, Cristo Redentor, eis-me aqui! Sou consagrada ao teu divino Coração no serviço ao meu irmão. Não posso me calar quando encontro nas vias-sacras da vida tantas vítimas de uma “cultura de morte”: mulheres prostituídas e famílias na miséria, enfermos sem atendimento e idosos desprezados, migrantes sem terra e jovens desempregados. Ao enxugar as lágrimas, o suor e o sangue do rosto destes irmãos e irmãs vejo maravilhada que a tua face fica estampada no lenço da minha solidariedade (Cf. Mt 25,31-46).

O texto publicado pelo Vaticano (e, se prestei atenção, também lido há pouco na praia de Copacabana), diz (aqui - p. 89):

ESTAÇÃO - Verônica enxuga o rosto de Jesus

A mulher que não se calou.
Tinha um rosto de homem do povo.
Tinha marcas de luto e de dor.
Tanto sofreu que de escarros e sangue se desfigurou.
Mas alguém o seu rosto enxugou.

Meditação:

Senhor Jesus, Cristo Redentor, eis-me aqui! Sou consagrada ao teu divino Coração no serviço ao meu irmão. Não posso me calar quando encontro nas vias-sacras da vida tantas vítimas de uma « cultura de morte »: mulheres prostituídas e famílias na miséria, enfermos sem atendimento e idosos desprezados, migrantes sem terra e jovens desempregados, pessoas excluídas da cultura digital e minorias tratadas com preconceito... a lista é grande, meu Senhor. Ao enxugar as lágrimas, o suor e o sangue do rosto destes irmãos e irmãs vejo maravilhada que a tua face fica estampada no lenço da minha solidariedade (Cf. Mt 25, 31-46). Ensina-me a sempre unir mística e militância, fé e vida, céu e terra, porque o Pai é nosso e somos irmãos, mas o pão também é nosso e somos cristãos, ou seja, gente que acredita no milagre de repartir.

Será um caso de censura? Ou de autocensura?

25 de julho de 2013

Andorinha é indispensável



Acabo de chegar do 1° Encontro de Relatos e Experiências: "O JOVEM HOMOSSEXUAL NA IGREJA", promovido pelo Grupo Diversidade Católica, no contexto da Jornada Mundial da Juventude Rio 2013. É impossível descrever tudo em poucas palavras. A primeira coisa que me vem à mente é uma cena do filme "Karate Kid", em que o mestre Sr. Han leva o garoto Dre a um monastério Shaolin, subindo as longas escadas. Ao entrarem numa das salas do templo o Sr. Han lhe apresenta uma mesa de pedra, com a fonte de água jorrando por dentro dela e diz: ''Essa é a água mágica do Kung Fu, se você beber dela, nada pode te derrotar''. Mais detalhadamente, é o jeito de beber aquela água, mergulhando a cara inteira, que me vem à mente, ao tentar resumir as minhas sensações, depois do encontro de hoje. A realidade é tão profunda e rica que seriam necessárias horas e mais horas, para poder conversar mais e compartilhar relatos e experiências com maior atenção. Sou - muito provavelmente - um sonhador obstinado, mas logo imaginei as próximas JMJ, com esse Encontro, incluído em sua programação oficial. Impossível? Algum tempo atrás, a visão de uma mulher de calça, também considerava-se impossível. Sim, passou pela fase de ser um escândalo (de origem diabólica), até chegar a ser algo considerado, simplesmente, normal. Tudo bem, o processo da aceitação de um "mundo GLBTS" na Igreja (e vice-versa) é muito mais complexo e demorado, mas a dinâmica é a mesma. Sobre essa dinâmica conversei com um dos participantes do encontro, já no caminho para o lanche. Fiquei com o desejo de muitos outros encontros desse tipo. Foi ótimo rencontrar "velhos" amigos e amigas e, finalmente, ver alguns outros que, conhecidos em uma dimensão virtual, tornaram-se reais.

Dizem que uma andorinha não faz verão. Talvez não o faça, mas é indispensável!

Parabéns, Diversidade Católica e todos que estiveram presentes! Obrigado!

19 de maio de 2013

Pentecostes: novidade, harmonia, missão




O Papa Francisco, celebrando hoje a Solenidade de Pentecostes, dirigiu a todos nós uma belíssima mensagem (leia na íntegra aqui). A simplicidade e a coragem são as características notáveis da pregação do Papa Francisco. E quando leio as suas palavras, da perspectiva de um homossexual, batizado na Igreja Católica, encontro nelas uma mensagem de consolação e esperança. Os trechos que especialmente chamaram a minha atenção são estes:

A novidade causa sempre um pouco de medo, porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos nós a construir, programar, projetar a nossa vida de acordo com os nossos esquemas, as nossas seguranças, os nossos gostos. E isto verifica-se também quando se trata de Deus [...] temos medo que Deus nos faça seguir novas estradas, faça sair do nosso horizonte frequentemente limitado, fechado, egoísta, para nos abrir aos seus horizontes. Mas, em toda a história da salvação, quando Deus Se revela traz novidade – Deus traz sempre novidade. [...] A novidade que Deus traz à nossa vida é verdadeiramente o que nos realiza, o que nos dá a verdadeira alegria, a verdadeira serenidade, porque Deus nos ama e quer apenas o nosso bem. Perguntemo-nos hoje a nós mesmos: Permanecemos abertos às “surpresas de Deus”? Ou fechamo-nos, com medo, à novidade do Espírito Santo? Mostramo-nos corajosos para seguir as novas estradas que a novidade de Deus nos oferece, ou pomo-nos à defesa fechando-nos em estruturas caducas que perderam a capacidade de acolhimento? [...] À primeira vista o Espírito Santo parece criar desordem na Igreja, porque traz a diversidade dos carismas, dos dons. Mas não; sob a sua ação, tudo isso é uma grande riqueza, porque o Espírito Santo é o Espírito de unidade, que não significa uniformidade, mas a recondução do todo à harmonia. Só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. [...] Se [...] nos deixamos guiar pelo Espírito, a riqueza, a variedade, a diversidade nunca dão origem ao conflito, porque Ele nos impele a viver a variedade na comunhão da Igreja. [...] O Espírito Santo é a alma da missão. O Espírito Santo ergue o nosso olhar para o horizonte e impele-nos para as periferias da existência a fim de anunciar a vida de Jesus Cristo. Perguntemo-nos, se tendemos a fechar-nos em nós mesmos, no nosso grupo, ou se deixamos que o Espírito Santo nos abra à missão.

Há alguns anos tenho conversado com várias pessoas a respeito de uma "Pastoral para homossexuais". A ideia, evidentemente, não é minha. Por mais incrível que pareça, ela vem da própria Santa Sé (leia a "Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"). Sempre procurei, como interlocutores nesse assunto, as pessoas que se identificam com a Igreja Católica e que são (ou simpatizam com) homossexuais. Todas as reações, até agora, variam entre o espanto e um pouco de admiração para com a ideia (desde que fique em dimensão de ideias). Ou seja, nunca consegui chegar, com ninguém, à decisão: "Está bem! Vamos começar!".

Continuo, então, escrevendo. E clamando pelo novo Pentecostes!