ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



_____________________________________________________________________________



Mostrando postagens com marcador Papa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Papa. Mostrar todas as postagens

16 de maio de 2014

Onde está o Demônio?


É um saco viver numa época em que a menor notícia boa tem que ser ofuscada pelos fanáticos da Igreja Católica Apostólica Furiosa. Coitados, não sabem (porque não consta na Bíblia) que a mentira - à qual com tanta frequência recorrem - tem pernas curtas e ainda é a obra do Demônio (isso sim, eles devem saber, pois consta na Bíblia: Jo 8, 44). Vamos, porém, aos poucos, seguindo a ordem das coisas...

1. A NOTÍCIA BOA
No último dia 6 de maio (terça-feira), o Papa Francisco teve como um dos concelebrantes da Santa Missa na capela da Casa de Santa Marta, o Padre Michele De Paolis (salesiano italiano, nascido em 09 de março de 1921), um dos fundadores da Comunidade "Emmaus" (1978) e, segundo algumas fontes, cofundador do grupo  italiano AGEDO (associação de amigos, parentes e pais de pessoas homossexuais e transexuais, fundada em 1992 na cidade de Milão [breve história em italiano, aqui]). O próprio Padre Michele assim relata o encontro [fonte, em italiano - o texto traduzido graças aos recursos da tecnologia]: 

Eu concelebrei com o Papa Francisco. Li o Evangelho. Após a celebração, o Papa recebeu os presentes em outra sala. Eu e o meu companheiro fomos os últimos. Em apenas alguns minutos - muito intensos - eu falava de "pedras rejeitadas", com as quais convivo. Entreguei ao Papa alguns presentes (um crucifixo, um cálice com a patena em madeira de oliveira, belíssimos) e falei sobre as nossas iniciativas em andamento, relacionadas aos imigrantes de Lampedusa. O Papa ficou muito feliz. Eu disse ao Papa: "Nós adoraríamos ser recebidos em uma audiência com o pessoal da [Comunidade] Emmaus! É possível?" Ele respondeu: "Tudo é possível! Converse com o Cardeal Maradiaga e combine tudo com ele". Em seguida, ele beijou a minha mão! Eu o abracei e chorei... 

A informação sobre o encontro do Padre Michele com o Papa Francisco foi publicada na página "Católicos LGBT's" no facebook. A mesma página cita o trecho de um artigo do Padre Michele De Paolis, escrito para um grupo LGBT de Lecce (Itália):

Aqueles que desejam transformá-los em 'heterossexuais', por assim dizer, estarão forçando-os a agir contra a sua natureza e tornando-os psicopatas infelizes. Precisamos colocar em nossas cabeças que Deus, nosso Pai, quer que nós, suas crianças, sejamos felizes e frutifiquemos com os dons que Ele colocou em nossa natureza! (...) Vocês têm o direito de procurar um parceiro. E não se preocupem: onde existe o ágape, existe Deus. Vivam a sua vida com alegria. E com a nossa mãe Igreja precisamos ter paciência. A atitude da Igreja com os homossexuais mudará. Neste sentido, inúmeras iniciativas já foram empenhadas. 

2. A NOTÍCIA RUIM
A "fumaça de Satanás", isto é, a repercussão na "mídia católica [furiosa]" foi abundante. As aspas referem-se tanto ao termo "mídia" (pois trata-se de portais, páginas etc. - nada que seja um veículo oficial da Igreja, enquanto instituição), quanto à palavra "católica" (porque, no momento em que o autor questiona a legitimidade do ministério petrino do Papa Francisco, de fato, deixa de ser católico).

A notícia sobre o encontro do Padre Michele De Paolis com o Papa Francisco foi repetida pelos blogueiros (ditos) católicos e - como de costume - distorcida. 

Um blog de Portugal, "perspectivas", assinado por Orlando Braga, abre mão de sua "catolicidade" ao dizer (aqui): 

A quem "o papa" beija as mãos? Na foto, vemos o cardeal Bergoglio, também conhecido por "papa Francisco", a beijar as mãos de Michele de Paolis, um clérigo salesiano de 93 anos. (...) O beija-mão aconteceu no passado dia 6 de Maio depois de uma missa em Santa-Marta. O dito "papa" convidou Michele de Paolis para ler o Evangelho do dia. Depois da missa, o "papa" inclinou-se profundamente perante ele e beijou-lhe as mãos. (...) Estará o leitor a imaginar o "papa" a beijar as mãos a um franciscano da Imaculada, ou a um qualquer membro da SSPX [Associação de São Pio X - veja aqui]? Se imagina, desiluda-se! O "papa" só demonstra a sua infinita humildade e beija as mãos a quem defende o "casamento" gay, o "casamento" gay entre sacerdotes da Igreja Católica [sic!], a legalização da pedofilia e da eutanásia [sic! sic!]. É desta gente que o "papa" gosta.

A verdadeira cusparada de desprezo (baseada em uma série de equívocos) encontrei na página "Rainha Maria" (olha o nome!). O autor do texto, Dilson Kutscher, publica uma foto e escreve a seguir:



Quando o demônio faz homilia em missa concelebrada pelo Pontífice no Vaticano [é o título da matéria]. (...) Padre Michele que apoia a ordenação de mulheres, o casamento gay, o fim do celibato, faz homilia em missa concelebrada pelo Pontífice (que festa para Satanás ver aquele que se diz servo de Cristo apoiar tais coisas e ainda fazer homilia numa missa concelebrada por um papa em pleno Vaticano). Dom [quer dizer, Padre] Michele concelebrou com o Papa argentino e pregou, como mostra a imagem acima, a homilia na Casa Santa Marta. Pelo visto, o Papa Francisco, ao permitir que este padre apóstata modernista, concelebre junto com ele e ainda faça a homilia, deve concordar em seu coração, com as mesmas posições apóstatas modernistas deste padre. Francisco concelebrando com este padre e permitindo que o mesmo faça a homilia, passa de forma sutil e indireta, uma mensagem de apoio à ordenação das mulheres, ao casamento gay e ao fim do celibato (as vezes os atos demonstram mais do que palavras escritas em documentos, declarações etc.).

Talvez não seja suficiente citar, mais uma vez, o relato do próprio Padre Michele que disse: "Li o Evangelho", nem mesmo a afirmação do citado acima esquisitão que, mesmo tratando o Papa de cardeal Bergoglio, também conhecido por 'papa Francisco', escreveu que o Padre foi convidado pelo Papa para ler o Evangelho do dia. Recorrendo a mais uma fonte, o portal "Especial sobre o Papa" da Comunidade Católica "Canção Nova", encontramos [AQUI] o texto da homilia proferida pelo próprio Santo Padre no dia 06 de maio na capela da Casa da Santa Marta no Vaticano. Logo, dizer que "o demônio faz homilia em missa concelebrada pelo Pontífice", é a prova não apenas de uma total incompetência jornalística, mas, antes de tudo, o sinal claro da falta de boa vontade e de compromisso com a verdade.

O mesmo ponto de vista, privado de boa vontade e baseado na mentira, encontramos em outras páginas na internet, por exemplo:

"blogonicus": "Papa Francisco beija a mão de sacerdote anti-clerical (sic!) e gayzista". Aqui, o autor (Danilo) reproduz a matéria (e as inverdades) da página "Rainha Maria", acrescentando apenas o neologismo "gayzista" (criado provavelmente por Olavo de Carvalho e repetido pelo Padre Paulo Ricardo). A mesma matéria foi reproduzida pela página "Sinais do Reino" (de uma autoria desconhecida).

O portal "Fratres in unum", além de repudiar o encontro do Papa com o Padre Michele (e ironizar, especialmente a atitude do Santo Padre de beijar a mão do sacerdote), presta, de fato, um serviço à verdade, citando algumas frases do Padre Michele (sem mencionar as fontes):

Estou espantado com o fato de que muitos homens da Igreja (...) ignoram completamente o fenômeno da homossexualidade, que a ciência já esclareceu de modo inequívoco: a orientação homossexual não é escolhida livremente pela pessoa. O rapaz e a moça se descobrem dessa maneira: trata-se de uma abordagem profundamente enraizada na personalidade, que constitui um aspecto essencial da própria identidade: não é uma doença, não é uma perversão. O rapaz ou a moça homossexual podem dizer a Deus: "Você nos fez assim!". 

Algumas pessoas de Igreja dizem: "Tudo bem ser homossexual, mas não deve ter relações sexuais, não podem amar uns aos outros!" Isso é a máxima hipocrisia. É como dizer a uma planta que cresce: "Você não deve florescer, não deve dar frutos!". Isso sim é contra a natureza.

Confesso a vocês que no começo eu também tinha meus preconceitos. Então, estudei e consegui. Sucessivamente tentei entrar na lógica do Evangelho; eu queria olhar para as coisas da parte de Deus. Entendo que o Pai não exclui do seu amor nenhum de seus filhos e não julga a pessoa com base em seus impulsos sexuais, que são atribuições da natureza e não de uma escolha voluntária.

16 de março de 2014

A pobreza multifocal


Confesso que nunca gostei da ideia de associar a Campanha da Fraternidade à Quaresma. A reflexão sobre os mais graves problemas sociais é, sem dúvida, muitíssimo importante, porém, a Quaresma em si, já traz tanto conteúdo que acrescentar mais um (por mais que se tente estabelecer analogias), só pode trazer prejuízo. É como acrescentar a água no feijão. A panela fica mais cheia, mas o sabor se perde, fica diluído. Ou, então, tendo no armário uma prateleira cheia e outra pela metade, mesmo assim, insistir em enfiar mais coisas, justamente naquela que está cheia. Será que não faria mais sentido, por exemplo, inaugurar a Campanha da Fraternidade naquele espaço entre o Natal e as Cinzas, prosseguindo, depois, ao longo do tempo comum? Do jeito como está, nem a Quaresma, nem a Campanha, conseguem penetrar suficientemente o coração do povo. Será que a superficialidade é proposital? Enfim... foi apenas um pequeno desabafo, à margem do tema principal. 

O Papa Francisco propõe uma reflexão para a Quaresma deste ano. É sobre Jesus que se fez pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9). Vale a pena ler a sua mensagem. Ciente da confusão cultural e linguística, o Papa procura explicar o verdadeiro sentido da pobreza, enquanto uma virtude. Nada de "coitadismo" e nada de limitação da pobreza à dimensão apenas material. Francisco fala, entre outras coisas, de pobreza moral e espiritual (além da material) e destaca a miséria como um grito dos sofredores que devemos ouvir e atender. A pobreza, em sua dimensão evangélica, é essencialmente uma vocação de cada cristão, chamado a imitar o Mestre Jesus que, através do despojamento por amor, redimiu a humanidade. Diz o Papa:

A finalidade de Jesus se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas - como diz São Paulo - "para vos enriquecer com a sua pobreza". Não se trata de um jogo de palavras, de uma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! (...) Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha.

A lógica de Deus, da qual fala o Papa, é a lógica do amor. Quem já amou, sabe disso. De quantas coisas somos capazes de abrir mão, só para manifestar o nosso amor por aquela pessoa especial. E fazemos isso sem amargura. Pelo contrário, ficamos felizes (ricos em felicidade), ao ver a pessoa amada feliz. E isso acontece tanto entre as pessoas heterossexuais, quanto homossexuais. A experiência do amor não depende da orientação (identidade) sexual e não se limita com ela. Neste ponto tenho mais uma observação...

Muitos cristãos (talvez a sua maioria) associam as pessoas homossexuais ao pecado, à promiscuidade, à depravação... enfim, mandam-nos logo para o inferno. Até no mesmo texto da mensagem do Papa identificam-nos imediatamente com a "miséria moral". O Santo Padre diz: "a miséria moral (...) consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. (...) Esta forma de miséria (...) anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência.

Ora, ser homossexual não equivale ao ser escravo do vício e do pecado. As crianças de 7-8 anos aprendem na catequese que o pecado é algo voluntário (além de consciente e contrário à vontade de Deus). Eu não sou gay porque quero ser gay. A homossexualidade nunca foi uma opção, apesar de tantos insistirem em usar tal termo. E tem mais: ser gay não significa necessariamente recusar o amor de Deus e considerar-se auto-suficiente a ponto de julgar não necessitar de Deus. Muito pelo contrário. Por isso acrescento à lista de misérias, proposta pelo Papa, a miséria intelectual de todos aqueles que, em nome de Jesus (ou por outra razão), rotulam as pessoas homossexuais (e as demais da diversidade LGBT) de "pobres pecadores" e tentam sentar-se no trono de Deus, o único Justo Juiz, prevendo para nós a condenação eterna e a exclusão social e eclesial até a morte (ou até o momento em que decidirmos abandonar a homossexualidade e abraçar a única forma "legítima" de sentir e de amar, isto é, a heterossexualidade).

25 de fevereiro de 2014

O Papa e as famílias


A Santa Sé divulgou hoje, 25 de fevereiro, a Carta às Famílias, escrita pelo Papa Francisco. O texto, como tudo do Papa Francisco, é simples, objetivo e cheio de carinho. Eu leio a "Carta" com bastante esperança, lembrando de uma atenção nova e diferente da Igreja, voltada aos casais formados pelas pessoas do mesmo sexo. Talvez tenha chegado a hora de corrigir as afirmações anteriores, baseados nitidamente no medo perante o desconhecido que definiam como sendo abominável a "equiparação" das uniões homossexuais ao matrimônio e à família (escrevi sobre isso, p.ex. aqui). Como sabemos, o questionário, elaborado pelo Vaticano e enviado aos quatro cantos do mundo, aborda também o tema das uniões de pessoas do mesmo sexo, como um dos temas do próximo Sínodo dos Bispos. Falando, justamente do Sínodo, cujo tema será "Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização", o Papa Francisco faz um pedido importante: "(...) unamo-nos todos em oração para que a Igreja realize (...) um verdadeiro caminho de discernimento e adote os meios pastorais adequados para ajudarem as famílias a enfrentar os desafios atuais com a luz e a força que provêm do Evangelho". No início da "Carta", o Papa coloca-se, literalmente, à porta da casa de cada família, para conversar. Não é difícil imaginar este homem, entrando no lar formado por dois homens ou duas mulheres, assim como à mais humilde casa de uma mãe solteira ou mesmo de um casal heterossexual que vive sem o vinculo sacramental do Matrimônio. O Papa diz a cada uma dessas famílias: "Efetivamente, hoje, a Igreja é chamada a anunciar o Evangelho, enfrentando também as novas urgências pastorais que dizem respeito à família". E acrescenta: "[Jesus] é a fonte inesgotável daquele amor que vence todo o isolamento, toda a solidão, toda a tristeza". No final ainda diz: "Queridas famílias, a vossa oração pelo Sínodo dos Bispos será o tesouro precioso que enriquecerá a Igreja".

Há quem diga que não faz bem criar as expectativas, afinal trata-se de um sínodo, isto é, de uma reunião de trabalho que reunirá muitos bispos do mundo inteiro e que, em sua grande maioria, não têm a mente tão aberta quanto o Papa. Por outro lado, como disse o cardeal alemão Walter Kasper, "a Igreja não é uma democracia (...), porque, no final, quem decide é o Papa". Temos ainda outros sinais de esperança. É o pronunciamento do Secretário do Sínodo dos Bispos, o cardeal Lorenzo Baldisseri que, entre outras coisas, disse: "As respostas [ao questionário enviado pela Santa Sé aos católicos do mundo inteiro] apresentam muito sofrimento, sobretudo da parte dos que se sentem excluídos ou abandonados pela Igreja, por se encontrarem num estado de vida que não corresponde à sua doutrina e à sua disciplina". O mesmo cardeal afirmou ainda que as respostas ao questionário que já chegaram ao Vaticano (em aproximadamente 80% do total esperado), sublinham "a urgência de tomar consciência das realidades vividas pelas pessoas, de retomar o diálogo pastoral com as pessoas que se afastaram, por várias razões". E acrescenta: "A figura do Papa Francisco comprova, dia após dia, uma nova abordagem humana e cristã que faz vibrar as pessoas, dispondo-as à escuta e ao acolhimento daquilo que é bom para elas, mesmo quando há sofrimento".

Finalizo a reflexão com as palavras do próprio Papa, pronunciadas no início do recente "Consistório sobre a família", no dia 20 de fevereiro. Podemos notar facilmente que tanto o otimismo exagerado, quanto o pessimismo desesperado, não deve nos acompanhar. Antes, o realismo...

Eu diria que são dois lados da mesma moeda...
De um lado: "Nestes dias, refletiremos especialmente sobre a família que é a célula fundamental da sociedade humana. Desde o início, o Criador colocou a sua bênção sobre o homem e a mulher, para que fossem fecundos e se multiplicassem sobre a terra; e assim a família torna presente, no mundo, como que o reflexo de Deus, Uno e Trino".
Do outro lado: "Procuraremos aprofundar a teologia da família e a pastoral que devemos implementar nas condições atuais. Façamo-lo com profundidade e sem cairmos na 'casuística', porque decairia, inevitavelmente, o nível do nosso trabalho. Hoje, a família é desprezada, é maltratada, pelo que nos é pedido para reconhecermos como é belo, verdadeiro e bom, formar uma família, ser família hoje; reconhecermos como isso é indispensável para a vida do mundo, para o futuro da humanidade".

20 de fevereiro de 2014

Os namorados em Roma


Não sei se entre aqueles milhares de namorados (noivos), reunidos com o Papa na Praça de São Pedro no último dia 14 de fevereiro (em vários lugares celebrado como o Dia dos Namorados - "Valentine's-Day"), estava algum casal homoafetivo. Juro que eu estaria lá, caso tivesse um namorado e estivesse em Roma. Os textos principais deste encontro, a saber: Diálogo do Papa com os casais e a Oração dos namorados, não tinham nada a ver com a condenação de "formas alternativas do amor humano" (que poderíamos esperar na época de Bento XVI), mas trouxeram a serenidade e o júbilo de um relacionamento projetado para "até que a morte os separe". Evidentemente, havia referências diretas e indiretas ao relacionamento tradicional, consagrado e sacramentado, isto é, heterossexual. Não se ouviu, portanto, qualquer menção "revolucionária" ao namoro gay (também seria difícil esperar, eu acho). Porém, os casais homoafetivos, a meu ver, podem fazer um excelente proveito com essas reflexões. 

As pessoas homossexuais que acreditam em Cristo e - de alguma maneira - identificam-se com a Igreja (neste caso, católica), têm alguns desafios a mais, em comparação com outras pessoas, por exemplo, os heterossexuais, os ateus/agnósticos e os seguidores de outras doutrinas (não vou detalhar aqui as diferenças entre as religiões). Em primeiro lugar aparece o desafio, talvez maior entre todos, que consiste em reconciliar em si mesmo as duas dimensões da própria identidade, quer dizer, a homossexualidade e a fé. O caminho não é curto nem fácil, porém possível. Aliás, é necessário para quem não se vê capaz de abrir mão de nenhuma dessas dimensões. A maior parte do trabalho a ser feito resume-se em superação (redefinição) de conceitos, opiniões, pontos de vista que tentam (com muito sucesso, infelizmente) apresentar as duas coisas, justamente, como irreconciliáveis, tipo água-fogo, água-óleo etc. A superação dessa visão do inferno é libertadora e não é nenhuma blasfêmia ou heresia. É uma descoberta, é uma ressurreição. Depois dese primeiro (mais longo, mais profundo e mais importante) passo, vêm outros, como a recuperação da alegria de um relacionamento com Deus-Amor, o novo gosto pela oração e a repensada, criativa e não menos alegre leitura da Palavra de Deus. A partir desta perspectiva, fica possível e muito útil, tomar nas mãos o texto da pequena oração dos namorados, composta especialmente para o encontro com o Papa:

Deus Pai, fonte de amor,
abre nossos corações e nossas mentes
para reconhecer em Ti
a origem e a meta
do nosso caminho de namorados.

Sim, sim! Ele é a origem e a meta do caminho de namorados que se entregam um ao outro no amor, cheio de confiança, dedicação, carinho, diálogo e tantos outros atributos, capazes de elevar uma relação interpessoal bem acima de um mero desejo carnal que (não esquecido nem ignorado) é muito mais uma consequência do que o motivo e a finalidade máxima dos dois. Dois rapazes e duas moças que creem em Deus Pai, podem conseguir enxergar nele a fonte do amor que os/as une, por mais que o seu relacionamento tenha sido taxado de diabólico ou antinatural. 

Jesus Cristo, esposo amado,
ensina-nos a vida de fidelidade e do respeito,
mostra-nos a verdade de nossos sentimentos,
faz-nos disponíveis ao dom da vida.

Embora essa parte da oração faça alusão direta à procriação, podemos entender que a disponibilidade ao dom da vida vai muito além desse significado restrito. Quanto mais sou capaz de reconhecer a minha vida e a vida do meu amado como um dom de Deus, haverá mais firmeza, zelo, cuidado e respeito pelo próprio relacionamento. E, se Deus permitir, a mesma disponibilidade ao dom da vida, levará à experiência da vocação à paternidade (maternidade), ainda que por meio de uma adoção. Além disso, a visão da vida como o dom, será suficiente para encarar, com fé e aceitação, a chegada da morte...

Espírito Santo, fogo do amor,
acende em nós a paixão pelo Reino,
a valentia para assumir
decisões grandes e responsáveis,
a sabedoria da ternura e do perdão.

Sem dúvida, os homossexuais batizados podem contribuir para a construção do Reino de Deus. Podem e devem, afinal, este Reino é de amor, de acolhimento, de louvor ao Criador, de libertação dos cativos e de cura dos feridos. E nem precisa dizer de quanta valentia se exige das pessoas homossexuais que levam a sério a sua própria visibilidade e a decisão de compartilhar sua vida com alguém. Tampouco é necessário frisar a importância da sabedoria da ternura e do perdão em um relacionamento de pessoas do mesmo sexo, pois neste ponto não há diferença entre as sexualidades.

Deus, Trindade do Amor,
guia os nossos passos.
Amém.

As mesmas linhas de pensamento encontramos nas respostas do Papa aos representantes dos casais reunidos na Praça de São Pedro. As três perguntas perfeitamente dizem respeito às nossas inquietações:

1) Santidade, muitos, hoje, pensam que prometer fidelidade para toda a vida é um compromisso muito difícil. Muitos sentem que o desafio de viver juntos para sempre é bonito, fascinante, mas muito exigente, quase impossível. Pedimos que sua palavra possa nos iluminar sobre esse aspecto. 

Se os namorados (noivos) heterossexuais têm essa preocupação, imagine-se os homossexuais. Além da onipresente "cultura do descartável", da qual o Papa fala com frequência, acrescenta-se a pressão interna e externa, experimentada por todos "não-heterossexuais" que têm muito mais dificuldades em acreditar que "isso pode dar certo". O Papa dá dicas simples e concretas que, de novo, servem muitíssimo bem às pessoas do mesmo sexo que queiram levar a vida em comum (leia aqui). Em resumo, trata-se de uma construção, dia após dia e não apenas sobre a base de sentimentos. O Papa recomenda também a oração pelo relacionamento: "Senhor, dá-nos hoje, o nosso amor cotidiano".

2) Santidade, viver juntos todos os dias é belo, dá alegria, sustenta. Mas é um desafio a ser enfrentado. Acreditamos que devemos aprender a nos amar. Há um "estilo" de vida conjugal, uma espiritualidade do cotidiano que queremos aprender. O Senhor pode nos ajudar nisso, Santo Padre?

Aqui a resposta do Papa é ainda mais simples e bastante prática. É a capacidade de usar, conscientemente, os termos (ou melhor, as posturas): "Posso?", "Obrigado!" e "Desculpe!". Nada de invadir, com as "botas de montanha", a vida e a intimidade do outro. Nada de ingratidão, mas muita sensibilidade e reconhecimento. Finalmente, a sincera humildade em admitir os próprios erros e pedir o perdão por eles. Literalmente o Papa disse (entre outras coisas): "A gentileza preserva o amor"; 'É necessário saber dizer 'obrigado' para caminhar bem juntos"; "Jesus, que nos conhece bem, nos ensinou um segredo: nunca terminar um dia sem pedir perdão...".  

3) Santidade, nestes meses, estamos nos preparativos para o nosso casamento. O Senhor pode nos dar algum conselho para celebrar bem o nosso matrimônio?

Bem... No momento, esta é a questão que preocupa exclusivamente os casais heterossexuais, sobretudo no contexto do Sacramento do Matrimônio. Caberia aqui a pergunta sobre a celebração de uma bênção nupcial para os casais homoafetivos (enquanto o Sacramento está fora de qualquer cogitação). Mas, a resposta do Papa vai além e é, de fato, a continuação do tema de um "estilo de vida conjugal", mencionado anteriormente. O Papa Francisco disse (aqui vai a resposta inteira):

Façam de um modo que seja uma verdadeira festa, uma festa cristã, não uma festa social! A razão mais profunda da alegria desse dia nos indica o Evangelho de João: vocês se recordam do milagre nas bodas de Caná? Em um certo momento, o vinho faltou e a festa parecia arruinada. Por sugestão de Maria, naquele momento, Jesus se revela pela primeira vez e realiza um sinal: transforma a água em vinho e, assim, salva a festa de núpcias.
O que aconteceu em Caná há dois mil anos acontece, na realidade, em cada festa de núpcias: o que fará pleno e profundamente verdadeiro o matrimônio de vocês será a presença do Senhor que se revela e dá a sua graça. É a sua presença que oferece o “vinho bom”, é Ele o segredo da alegria plena, que realmente aquece o coração.
Ao mesmo tempo, no entanto, é bom que o matrimônio de vocês seja sóbrio e faça sobressair o que é realmente importante. Alguns estão mais preocupados com os sinais exteriores, com o banquete, fotografias, roupas e flores… São coisas importantes em uma festa, mas somente se forem capazes de apontar o verdadeiro motivo da alegria de vocês: a bênção do Senhor sobre o amor de vocês. Façam de modo que, como o vinho em Caná, os sinais exteriores da festa revelem a presença do Senhor e recorde a vocês e a todos os presentes a origem e o motivo de vossa alegria.

27 de outubro de 2013

A família em foco

 
Termina hoje em Roma a Jornada das Famílias em ocasião do Ano da Fé. Entre os textos que se destacam, estão dois discursos do Papa (aos participantes da Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para as Famílias, no dia 25 e às próprias famílias reunidas em Roma, no dia 26) e a sua homilia de hoje.
 
É uma oportunidade para esclarecer alguns pontos que, até agora, geram várias polêmicas e referem-se ao lugar de pessoas homossexuais no contexto da família. A maioria das pessoas não heterossexuais reconhece o valor e a importância do Sacramento do Matrimônio, designado aos casais formados pelo homem e pela mulher. Afinal, todos nós nascemos em família, ainda que - em vários casos - imperfeita, incompleta e não necessariamente construída na base do Sacramento. O que, porém, precisa ser dito uma vez por todas, nenhum homossexual é contra o Sacramento do Matrimônio, nem contra a família baseada no casal heterossexual. Ainda mais claramente devemos declarar a nossa absoluta contestação das opiniões que apontam as pessoas LGBT (e a sua luta pelos direitos humanos, inclusive pelo reconhecimento da união estável) como "grave ameaça à família tradicional enquanto instituição fundamental da sociedade". É pelo contrário. Nós reconhecemos o papel da família tradicional e a sua função majoritária na construção da sociedade. A família tradicional é, sim, o fundamento, porém, nenhuma construção limita-se apenas ao fundamento. É inevitável e verdadeiramente preciosa a inspiração que os casais homossexuais recebem dessas famílias. Ainda que muitos autores e militantes dos movimentos LGBT critiquem a "heteronormatividade", não temos como (e a maioria realmente não quer) ignorar esse papel fundamental, exercido pela família composta de papai, mamãe e demais familiares. Por isso não vamos enxergar como retrocesso, aquilo tudo que o Papa Francisco tem dito sobre o Sacramento do Matrimônio. Notamos, ao mesmo tempo, que as suas palavras sobre as coisas essenciais na vida de um casal heterossexual, aplicam-se perfeitamente aos casais homossexuais. Por exemplo:
 
Cada um de nós constrói a sua própria personalidade na família, crescendo com a mãe e o pai, irmãos e irmãs, respirando o calor da casa. A família é o lugar onde nós recebemos o nome, é o lugar dos afetos, o espaço de intimidade, onde se aprende a arte do diálogo e da comunicação interpessoal. Na família, a pessoa torna-se consciente de sua própria dignidade e, especialmente, se a educação é cristã, reconhece a dignidade de cada pessoa humana, especialmente dos doentes, dos fracos e marginalizados. [1]
 
Muitas vezes a vida é gravosa, frequentemente mesmo trágica! Ainda recentemente o ouvíamos… Trabalhar é fatigante; procurar trabalho é fatigante. E encontrar emprego hoje pede-nos tanta fadiga! Mas, aquilo que mais pesa na vida não é isto: aquilo que pesa mais do que tudo isso é a falta de amor. Pesa não receber um sorriso, não ser benquisto. Pesam certos silêncios, às vezes mesmo em família, entre marido e esposa, entre pais e filhos, entre irmãos. Sem amor, a fadiga torna-se mais pesada, intolerável. Penso nos idosos sozinhos, nas famílias em dificuldade porque sem ajuda para sustentarem quem em casa precisa de especiais atenções e cuidados. «Vinde a Mim todos os que estais cansados e oprimidos», diz Jesus. [2]
 
Queridas famílias, como bem sabeis, a verdadeira alegria que se experimenta na família não é algo superficial, não vem das coisas, das circunstâncias favoráveis... A alegria verdadeira vem da harmonia profunda entre as pessoas, que todos sentem no coração, e que nos faz sentir a beleza de estarmos juntos, de nos apoiarmos uns aos outros no caminho da vida. Mas, na base deste sentimento de alegria profunda está a presença de Deus, a presença de Deus na família, está o seu amor acolhedor, misericordioso, cheio de respeito por todos. E, acima de tudo, um amor paciente: a paciência é uma virtude de Deus e nos ensina, na família, a ter este amor paciente, um com o outro. Ter paciência entre nós. Amor paciente. Só Deus sabe criar a harmonia a partir das diferenças. Se falta o amor de Deus, a família também perde a harmonia, prevalecem os individualismos, se apaga a alegria. Pelo contrário, a família que vive a alegria da fé, comunica-a espontaneamente, é sal da terra e luz do mundo, é fermento para toda a sociedade. [3]
 
Certamente, o caminho para o reconhecimento pleno e oficial - principalmente por parte da Igreja - de famílias construídas com a base em casais homossexuais, é ainda muito longo. O primeiro passo consiste em parar de considerar tal fenômeno uma ameaça. Depois, sem dúvida, é preciso conhecer de perto a experiência dessas novas famílias. Talvez nunca se chegue a admitir o Sacramento do Matrimônio (e nem esse mesmo termo) aos casais homossexuais. Mas, reconhecer o seu direito de existir, inclusive dentro da comunidade eclesial, é possível. O que se faz necessário, é a remoção de preconceitos (de ambos os lados) e um diálogo sereno, sempre pautado pela fé e boa vontade.

21 de outubro de 2013

Aos confins

 
Dá para perceber que deixei de lado os assuntos que envolvem a Igreja, o Papa e afins. Deve ter sido por causa do "meu coreano imaginário" [1, 2, 3] que me faz sair mais de casa e focar atenção nos transeuntes. Sair, foi uma ideia que trouxe do casamento do meu amigo. Ele disse que conheceu o seu amado na rua, através de um olhar. Nestes dias tive vontade de abordar um ou outro cidadão na rua. Por enquanto, a timidez impede uma atitude mais louca corajosa da minha parte, mas, ao menos, não tenho medo de olhar...
 
Entretanto, não abandonei a minha Igreja, ainda que esteja pensando em mudar um pouco (ou bastante) a minha maneira de participar nela (isso, talvez, seja - mais tarde - o assunto de postagem neste blog).
 
Tivemos ontem o Dia Mundial das Missões, lembrando de que todo este mês é, tradicionalmente, dedicado a essa dimensão fundamental da Igreja. Como era de se esperar, o Papa Francisco presenteou-nos com um bela reflexão, confirmando os seus pensamentos anteriores que alguns fundamentalistas tradicionalistas católicas procuravam relativizar, por serem transmitidos em forma de entrevistas. Agora, sim, é uma mensagem pontifícia.
 
O Santo Padre repete, por exemplo, que a missionariedade da Igreja não é proselitismo, mas testemunho de vida que ilumina o caminho, que traz esperança e amor. A mesma expressão, usada pelo Papa na entrevista com o jornalista Eugenio Scalfari, causou o espanto entre os mencionados acima católicos tradicionalistas.
 
Outro termo que volta no ensinamento do Papa Francisco, é a periferia. Achei muito feliz e importante, a explicação dada por ele, no texto em questão:
 
Toda a comunidade é «adulta», quando professa a fé, celebra-a com alegria na liturgia, vive a caridade e anuncia sem cessar a Palavra de Deus, saindo do próprio recinto para levá-la até às «periferias», sobretudo a quem ainda não teve a oportunidade de conhecer Cristo. A solidez da nossa fé, a nível pessoal e comunitário, mede-se também pela capacidade de a comunicarmos a outros, de a espalharmos, de a vivermos na caridade, de a testemunharmos a quantos nos encontram e partilham conosco o caminho da vida. (...) A missionariedade não é questão apenas de territórios geográficos, mas de povos, culturas e indivíduos, precisamente porque os «confins» da fé não atravessam apenas lugares e tradições humanas, mas o coração de cada homem e mulher.
 
Mais uma orientação, digamos, metodológica, chamou a minha atenção:
 
Com frequência, os obstáculos à obra de evangelização encontram-se, não no exterior, mas dentro da própria comunidade eclesial. Às vezes, estão relaxados o fervor, a alegria, a coragem, a esperança de anunciar a todos a Mensagem de Cristo e ajudar os homens do nosso tempo a encontrá-Lo. Por vezes há ainda quem pense que levar a verdade do Evangelho seja uma violência à liberdade. A propósito, são iluminantes estas palavras de Paulo VI: «Seria certamente um erro impor qualquer coisa à consciência dos nossos irmãos. Mas propor a essa consciência a verdade evangélica e a salvação em Jesus Cristo, com absoluta clareza e com todo o respeito pelas opções livres que essa consciência fará (...), é uma homenagem a essa liberdade» (Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 80). Devemos sempre ter a coragem e a alegria de propor, com respeito, o encontro com Cristo e de nos fazermos portadores do seu Evangelho; Jesus veio ao nosso meio para nos indicar o caminho da salvação e confiou, também a nós, a missão de a fazer conhecer a todos, até aos confins do mundo.
 
Os homossexuais (e todos os outros não heterossexuais), também são uma periferia existencial que a Igreja é chamada a descobrir. A evangelização, sem imposição, é capaz de convencer, até os mais rejeitados, desprezados e marginalizados, de que - como escreveu o Papa:
 
A fé é um dom precioso de Deus, que abre a nossa mente para O podermos conhecer e amar. Ele quer entrar em relação conosco, para nos fazer participantes da sua própria vida e encher plenamente a nossa vida de significado, tornando-a melhor e mais bela. Deus nos ama! Mas a fé pede para ser acolhida, ou seja, pede a nossa resposta pessoal, a coragem de nos confiarmos a Deus e vivermos o seu amor, agradecidos pela sua infinita misericórdia. Trata-se de um dom que não está reservado a poucos, mas é oferecido a todos com generosidade: todos deveriam poder experimentar a alegria de se sentirem amados por Deus, a alegria da salvação.

8 de outubro de 2013

Quando um gay é padre

 
Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. (Papa Francisco, entrevista).
 
O título deste texto parece estar "deslocado". Seria mais lógico escrever "quando um padre é gay". Mas, escrevi de propósito. Eu sei que muitos homossexuais "se descobriram" ainda na adolescência, mas pode acontecer o contrário, ou seja - neste caso - o cara sentiu a vocação, entrou no seminário, tornou-se padre e só depois se deu conta que era gay. Conto de fadas? De fato, a figura de sacerdote católico, não é das mais simpáticas hoje em dia. A postura de muitos padres que conhecíamos, o "tsunami" de notícias sobre a pedofilia (comprovada, ou não) de muitos, a nossa própria percepção da Igreja, enquanto uma instituição hipócrita e homofóbica... tudo isso contribuiu para com essa antipatia generalizada em relação aos clérigos (o que chamamos de anticlericalismo). Quando, então, surge uma história como essa (de um padre que demorou em reconhecer a sua própria homossexualidade), logo questionamos tudo e nem temos mais vontade de prosseguir a leitura.
 
Pode ser, entretanto, que as palavras do Papa, produzam em nós um pouco de paciente atenção. Pois, entramos no mistério do homem e devemos (podemos?) acompanha-lo a partir da sua condição. É necessário sempre considerar a pessoa.
 
Como - certamente - seria difícil escutar um desabafo desses, fica mais fácil ler. O blog Engasgay informa sobre um ex-padre argentino (Andrés Gioeni) que tinha escrito uma carta ao Papa Francisco. A carta (na íntegra, em espanhol) pode ser encontrada no facebook. Existe, na mesma rede social, um grupo, chamado "Para que el Papa Francisco responda la carta de Andrés" - tudo indica, então, que a história é verídica.
 
 
O que chama a minha atenção, é a parte em que o ex-padre conta a sua história:
 
Fiquei oito anos no seminário. Não me sentia sozinho, tinha uma família lá. Foi mais difícil quando virei sacerdote, aos 27. Vi que não era tão fácil, tinha muitas responsabilidades, ficava sozinho. Mas gostava de celebrar a missa. Aí comecei a me dar conta do que estava acontecendo: algo que não era, para mim, natural. Eu me condenava. No seminário, a questão da homossexualidade só era tratada em algumas aulas. No dia a dia, era um tabu. Olhando agora para trás, vejo que no seminário já sabia [que era gay], mas eu negava. Se percebia que estava gostando de algum companheiro, logo me reprimia, falava a mim mesmo: "O que está acontecendo? Está louco?". Dois seminaristas fizeram insinuações pra mim, queriam me namorar. Eu achava que fosse loucura, negava aquilo. Eles saíram do seminário, eu fiquei. Me dei conta de que era gay mesmo quando já era sacerdote. (...) E passei a me perguntar se era algo transitório ou para a vida. Quando me dei conta que era para a vida, cortei laços com a igreja. Vim para Buenos Aires começar uma nova vida.
 
O texto acima parece não fazer parte da carta em si. No texto enviado ao Papa, consta: Eu era uma vez um padre, pastor, compartilhava o zelo missionário e a necessidade de afirmar a abertura eclesial. Então eu decidi me abrir a um outro lado, quando descobri a minha própria tendência homossexual e admiti a minha incapacidade de exercer o ministério pastoral em celibato. Hoje os meus caminhos vão em outras direções e a minha vocação é tingida com outros tons. Um pouco antes, na mesma carta, Andrés usa a expressão "meu agnosticismo atual".
 
Deixando de lado as condenações apressadas, quase automáticas e os rótulos do tipo "hipócrita", "safado", "perverso", etc., faço algumas perguntas. O que deveria fazer um padre com a própria experiência, parecida com a do Andrés? Qual é a postura mais correta, em relação à própria consciência, ao ministério, à Igreja, à fé?
 
Sondando as opiniões de alguns amigos, católicos praticantes e (a princípio) livres da homofobia que ofusca a objetividade, o que mais ouvi era a opinião de que tal padre deveria deixar o ministério. Na linguagem oficial da Igreja, isso se chama "o pedido de demissão do estado clerical" e acontece por meio de um processo canônico que pode incluir, também, a dispensa do celibato. Na prática, isso significa que o ex-padre continua sendo um membro da Igreja, podendo levar a vida sacramental (Confissão, Comunhão), inclusive casar na igreja (com uma mulher). Sim, alguns detalhes mudam de figura quando ele se decide viver na prática a sua homossexualidade. Aí, como cada pessoa que opta pela prática de atos homossexuais como um estilo de vida, tal indivíduo (ex-padre em questão) não receberá a absolvição, nem poderá comungar. Vale acrescentar que, mesmo assim, ainda não se trata de excomunhão. Essa última sentença ocorre (entre vários outros casos), quando um padre abandona o ministério, sem mencionado processo canônico, ou é expulso pela própria Igreja. Enfim, nenhuma dessas situações, até a própria excomunhão, não precisa levar ninguém ao agnosticismo...
 
Será que existe alguma saída diferente? Imagino um padre que tenha admitido a própria homossexualidade, só depois da ordenação sacerdotal. Tendo passado por todas as etapas de negação, revolta, depressão, acusação de Deus e dos outros - finalmente reconcilia-se consigo mesmo e, ainda que desafiando as leis da Igreja, considera correto o exercício de seu ministério com a própria sexualidade, inclusive com a prática de atos homossexuais. É claro que, mesmo definindo a homossexualidade como algo permitido (ou, até, concedido) por Deus, o maior questionamento refere-se ao celibato. Eu já ouvi um padre que disse: "O celibato impede que eu me case, mas como a Igreja não considera válida a união homoafetiva, então, mesmo vivendo com outro homem, não estou quebrando o celibato". Bem... parece uma desculpa esfarrapada e aquela das mais grossas. Afinal, o celibato não é apenas um sinônimo de "solteirice consagrada por causa do Reino de Deus", mas também a castidade. Talvez seja, então, uma definição diferente da própria castidade? Tipo: "Eu pecaria contra castidade, caso traísse o meu namorado". Evidentemente, isso já está a um milhão de anos-luz da doutrina da Igreja...
 
Concluindo: a questão é mais que complexa. Não deve ser tão rara, como parece (algo desse tipo conta o filme polonês "Em nome..."). Porém, a verdadeira conclusão é a mesma que a introdução a este texto:
 
É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. (Papa Francisco, entrevista). 

4 de outubro de 2013

Ir ao encontro

 
O Papa Francisco está em Assis. É uma visita cheia de simbologia, por isso as palavras do Santo Padre ganham ainda mais peso, tornam-se "constituintes". Na verdade, a "Constituição" não é nova. É o Evangelho. Nova é a leitura, afim de promover uma nova prática. Exatamente como fez, há séculos, São Francisco de Assis. O próprio Papa disse: queridos amigos, eu não dei a vocês receitas novas. Não o fiz e não acreditem em quem diz que eu o fiz. Não existem. (...) Escutar a Palavra, caminhar junto em fraternidade, anunciar o Evangelho nas periferias! Quem escuta/lê as palavras do Papa, já percebeu que as periferias ocupam um lugar especial no seu coração. É a importância de sair para ir ao encontro do outro, nas periferias, que são lugares, mas, sobretudos, pessoas, situações de vida. Tudo isso o Papa disse aos membros do clero em Assis. E continuou: Quais são as vossas periferias? Procuremos pensar. Perguntemo-nos quais são as periferias desta Diocese. Certamente, em um primeiro sentido, são as zonas da Diocese que são suscetíveis de estar no limite, fora dos feixes de luz dos holofotes. Mas são também pessoas, realidades humanas de fato marginalizadas, desprezadas. São pessoas que talvez se encontram fisicamente próximas ao “centro”, mas espiritualmente estão distantes. Não tenham medo de sair e ir ao encontro destas pessoas, destas situações. Não se deixem bloquear pelos preconceitos, hábitos, rigidez mental ou pastoral, do famoso “se faz sempre assim!”. Mas se pode ir às periferias somente se se leva a Palavra de Deus no coração e se caminha com a Igreja, como São Francisco. Caso contrário, levamos a nós mesmos, e não a Palavra de Deus e isto não é bom, não serve para ninguém! Não somos nós que salvamos o mundo: é o Senhor que o salva!
 
 
 
A denúncia do "famoso «se faz sempre assim»" é um grito revolucionário. É preciso, porém, perceber a diferença entre a revolução e a anarquia. Encaixa-se aqui a frase bíblica: Examinai tudo: abraçai o que é bom (1 Ts 5, 21). Neste contexto podemos recordar o trabalho de um dos pioneiros que descobriram a "periferia da homossexualidade" e foram até lá para levar a Palavra de Deus. É o Padre José Trasferetti que assim conta esta história (o texto é de 2002):
 
Comecei a trabalhar com homossexuais em 1995. Eu trabalhava em uma paróquia de periferia em Campinas, São Paulo, e lá passei a ter contatos com homossexuais e travestis que moravam perto da igreja da paróquia. Foi uma amizade muito gostosa que eu criei com esse grupo e, a partir dessa data, comecei a me interessar pelo tema de forma teológica. Então, além do aspecto pastoral, eu quis incluir o aspecto teológico, ou seja, passei a estudar o tema. E aí então comecei a produzir. Saiu o primeiro livro "Pastoral dos homossexuais" [leia o resumo]; depois (...) "Deus por onde andas?" (...) [e] "Homossexuais e Ética Cristã". E estou preparando outros temas também. (em 2001 foi publicado o livro de Ademildo Gomes e José Trasferetti "Homossexualidade, orientações formativas e pastorais") Então, eu tenho muito interesse pastoral e também interesses teóricos sobre essa questão. Acho que precisamos evoluir mais nessa área e eu gostaria de contribuir educando as comunidades religiosas, os seminaristas, os padres porque eu sinto que existe uma grande ignorância ao redor desse tema. É preciso romper essa ignorância e ampliar nossos conhecimentos, porque somente ampliando nossos conhecimentos é que nós vamos combater a homofobia ainda reinante na sociedade e nas igrejas.
 
Estudar e escrever já é uma forma de ir às periferias. É claro, nada substitui a presença física, o "andar junto" do qual fala o Papa. Os livros ajudam na formação da consciência e facilitam a abertura do coração. Encorajam à ação. Assim como as palavras do Papa...

"A Igreja dos puros" é uma heresia

 
Confesso que me senti entalado, como que em uma lama pegajosa e fedorenta, ao ler vários textos nos sites, portais e páginas, onde escrevem aqueles que se declaram "guardiões da Santa Tradição Católica", repudiam o modernismo pós-conciliar e detonam cada nova fala do Papa Francisco. Evidentemente, depois da última entrevista do Santo Padre, os caras entraram em desespero e, praticamente, excomungaram Francisco. O meu alívio veio logo depois. Se alguém ainda duvida na ação do Espírito Santo, atribua isso, então, à intuição do Papa. Tenho certeza de que o Santo Padre não perde tempo para ler as matérias daquele tipo, menos ainda, os furiosos comentários que se multiplicam como uma praga, mas tudo o que foi dito na última catequese papal, durante a Audiência Geral no dia 02 de outubro, torna-se uma resposta direta e clara aos uivos dos fundamentalistas "católicos" (que, aliás, perderam a própria catolicidade, desde o momento em que contestaram as decisões da Santa Igreja, definidas no Concílio Vaticano II).
 
Como sempre, vale a pena ler o texto todo. Eu cito aqui alguns trechos:
 
Vocês poderiam dizer-me: mas a Igreja é formada por pecadores, vemos isso todos os dias. E isto é verdade: somos uma Igreja de pecadores; e nós pecadores somos chamados a deixar-nos transformar, renovar, santificar por Deus. Houve na história a tentação de alguns que afirmavam: a Igreja é somente a Igreja dos puros, daqueles que são totalmente coerentes e os outros seguem afastados. Isto não é verdade! Isto é uma heresia! A Igreja, que é santa, não rejeita os pecadores; não rejeita todos nós; não rejeita porque chama todos, acolhe-os, está aberta também aos mais distantes, chama todos a deixar-se envolver pela misericórdia, pela ternura e pelo perdão do Pai, que oferece a todos a possibilidade de encontrá-Lo, de caminhar rumo à santidade. “Mas, padre, eu sou um pecador, tenho grandes pecados, como posso sentir-me parte da Igreja?”. Querido irmão, querida irmã, é propriamente isto que deseja o Senhor; que você lhe diga: “Senhor, estou aqui, com os meus pecados”. Alguém de vocês está aqui sem os próprios pecados? Alguém de vocês? Ninguém, nenhum de nós. Todos levamos conosco os nosso pecados. Mas o Senhor quer ouvir que lhe digamos: “Perdoa-me, ajuda-me a caminhar, transforma o meu coração!”. E o Senhor pode transformar o coração. Na Igreja, o Deus que encontramos não é um juiz implacável, mas é como o Pai da parábola evangélica. Você pode ser como o filho que deixou a casa, que tocou o fundo do distanciamento de Deus. Quando tens a força de dizer: quero voltar pra casa, encontrarás a porta aberta, Deus vem ao seu encontro porque te espera sempre, Deus te espera sempre. Deus te abraça, te beija e faz festa. Assim é o Senhor, assim é a ternura do nosso Pai celeste. O Senhor nos quer parte de uma Igreja que sabe abrir os braços para acolher todos, que não é a casa de poucos, mas a casa de todos, onde todos podem ser renovados, transformados, santificados pelo seu amor, os mais fortes e os mais frágeis, os pecadores, os indiferentes, aqueles que se sentem desencorajados e perdidos. A Igreja oferece a todos a possibilidade de percorrer o caminho da santidade, que é o caminho do cristão: faz-nos encontrar Jesus Cristo nos Sacramentos, especialmente na Confissão e na Eucaristia; comunica-nos a Palavra de Deus, faz-nos viver na caridade, no amor de Deus para com todos. Perguntemo-nos então: deixamo-nos santificar? Somos uma Igreja que chama e acolhe de braços abertos os pecadores, que dá coragem, esperança, ou somos uma Igreja fechada em si mesma? Somos uma Igreja na qual se vive o amor de Deus, na qual se tem atenção para com o outro, na qual se reza uns pelos outros?
 
Conheço muitos homossexuais que se sentem indignos, até mesmo, de entrar na igreja para participar da Missa. Outros, já escutaram essa "sentença" (de não serem dignos), por parte dos pais, irmãos, amigos, colegas de escola, padres e muitos outros. Muitos desistiram de procurar o caminho para a Igreja, devido à leitura de alguns documentos oficiais dela. Não me surpreendo, portanto, ao ver um tipo de desconfiança, em relação às palavras do Papa. Uns insistem em afirmar de que não se trata de ensinamento oficial da Igreja, mas de opiniões pessoais de um tal de Bergoglio (que por acaso, ou talvez, por engano, ocupa o trono de Pedro). Outros imaginam (de certa forma, até esperam, assustados) um "cala-a-boca", dado ao Papa, por seus adversários da cúpula vaticana. Há quem pense: "eles vão acabar com ele". Realmente, quando se lê as declarações dos fundamentalistas "católicos", do tipo: "chegou a hora do combate", a gente começa a se preocupar. Mas, aqui, surpreendentemente, vou concordar - em um ponto - com os tradicionalistas: o Papa é o Papa e a Igreja é a Igreja. Um Papa não vai mudar a Igreja.
 
Tenho, porém, uma má notícia aos contestadores de Francisco. Na mesma medida, em que o Papa fala pela Igreja, é a Igreja que fala através do Papa. Não é o Papa que vai demolir, de repente, a Igreja. É a Igreja que se revela no Papa e em suas palavras. Ele apenas transmite a mudança (a conversão) da Igreja. Mesmo que alguém queira calar o Papa, é o Espírito Santo que conduz a Igreja à plena verdade. Basta ler a história! É uma ótima leitura, especialmente neste dia, dedicado a um outro Francisco... 

2 de outubro de 2013

O Papa entrevistado

 
O Papa Francisco não gosta de dar entrevistas.
Imagine, se ele gostasse!
 
Durante o voo ao Brasil para a JMJ, o Papa disse: Verdadeiramente eu não dou entrevistas, mas é porque não sei, não consigo. Sou assim! Sinto um pouco de dificuldade em fazê-lo, mas agradeço a companhia. Na viagem de volta a Roma, um dos jornalistas franceses, Antoine-Marie Izoard, retrucou: Para um Papa que não quer dar entrevistas, estamos-lhe verdadeiramente gratos. O padre Antonio Spadaro, SJ, assim relata o desabafo do Papa, antes de iniciar "oficialmente" a conversa: Pouco antes da audiência que concedeu aos jesuítas da "Civiltà Cattolica", o Papa tinha-me falado da sua grande dificuldade em dar entrevistas. Tinha-me dito que prefere pensar, mais do que dar respostas imediatas em entrevistas de momento. Sente que as respostas corretas lhe vêm depois de ter dado a primeira resposta.
 
Podemos ler hoje, na íntegra, uma nova entrevista do Papa. Desta vez é o relato de sua conversa com o jornalista italiano Eugenio Scalfari (fundador e primeiro diretor do jornal "la Repubblica", que - de acordo com várias fontes - "se autoidentifica ateu"). Antes de entrar ao mérito da entrevista, gostaria de lembrar que as declarações do tipo "entrevista inédita e histórica" ignoram a existência de entrevistas, inclusive em forma de livros, concedidas aos jornalistas por outros Papas. Os relatos de conversas papais de hoje inserem-se, sem dúvida, em um gênero literário escolhido pelos Papas na segunda metade do século XX: com uma série aberta em 1967 pelos "Diálogos" de Paulo VI com Jean Guitton, continuada por João Paulo II, em suas conversas com André Frossard e Vittorio Messori e pelo Papa Bento XVI, em suas conversas com Peter Seewald (iniciadas anda antes de sua eleição para ocupar a sede petrina). De fato, cada entrevista é única, inédita e exclusiva (o termo adorado pelos jornalistas), mas vale a pena reconhecer o trabalho e os méritos de outros colegas, entrevistadores dos Papas.
 
Em sua nova entrevista, o Papa repete os temas que o acompanham desde o início. Claro, é sempre uma abordagem nova, uma espécie de insistência de quem sente a necessidade de explicar, talvez porque perceba alguma dificuldade de ouvintes em compreender certas ideias. Mais ou menos assim, como você conversa com um estrangeiro e procura, com os gestos, a mímica e o tom de voz, ajuda-lo a entender do que você está falando. Temos, portanto, aqui - de novo - a cultura do diálogo, o amor ao próximo, as injustiças sociais, a necessidade de reformas na Igreja e no mundo.
 
Acho muito importante destacar o estilo da conversa que pouco ou nada tem de uma clássica entrevista jornalística. O tom, os temas, o senso de humor em cutucar o interlocutor e fazer piada, os desabafos muito íntimos sobre as experiências pessoais... tudo isso cria um clima de um bate-papo de velhos amigos, com o direito de um tapinha nas costas, entre um e outro puxão de orelha. Neste caso, a cordialidade não é banalidade, nem diplomacia superficial. Impressionam ripostas rápidas e certeiras, sem violar a profunda reverência de um para o outro. O início e o final da conversa me deixaram esperançoso por uma continuação. O Papa disse no início: Às vezes, após um encontro, desejo marcar outro porque novas ideias surgem e descubro novas necessidade. Isso é importante: conhecer as pessoas, ouvir, expandir nosso círculo de ideias. E termina com uma promessa: Eu lhe direi mais da próxima vez.
 
Recomendo a leitura de texto na íntegra e não apenas em fragmentos, fornecidos pela mídia (de diversas opções ideológicas). Quem quiser, leia também, os comentários de vários "católicos fundamentalistas" a-p-a-v-o-r-a-d-o-s, na mesma página, logo depois da entrevista. Certamente, entre os trechos mais criticados por eles, estão os que eu vou agora citar aqui.
 
  • O proselitismo é uma solene tolice ("nonsense" - outras fontes dizem besteira - "sciochezza" - seria bom verificar o original), não tem sentido. Nós temos que conhecer um ao outro, ouvir um ao outro e melhorar o nosso conhecimento do mundo ao nosso redor. Às vezes, após um encontro, desejo marcar outro porque novas ideias surgem e descubro novas necessidade. Isso é importante: conhecer as pessoas, ouvir, expandir nosso círculo de ideias. O mundo é cruzado por vias que se aproximam e se separam, mas o importante é que elas levem ao Bem.
  • Você sabe o que é ágape? É o amor pelos outros, como Nosso Senhor pregou. Não é fazer proselitismo, é amar. Amar o próximo, aquele fermento que serve ao bem comum.
  • Não gosto da palavra narcisismo. Ela indica um amor excessivo por si mesmo e isso não é bom, pode produzir sérios danos não só à alma do que dele sofre, mas também no relacionamento com outros, com a sociedade na qual se vive. O verdadeiro problema é que aqueles mais afetados por isso — que é, na realidade, um tipo de desordem mental — são pessoas que têm muito poder. Normalmente os chefes são narcisistas. Os líderes na Igreja frequentemente foram narcisistas, bajulados e negativamente influenciados por seus cortesãos. A corte é a lepra do Papado.
  • (...) quando encontro um clericalista, de repente, me torno anticlerical. O clericalismo não deveria ter qualquer coisa a ver com o cristianismo.
  • Pessoalmente, creio que ser uma minoria é realmente um ponto forte. Temos que se um fermento de vida e amor, e o fermento é infinitamente menor do que uma massa de frutas, flores e das árvores que nascem delas. Creio já ter dito que a nossa meta não é fazer proselitismo, mas ouvir às necessidades, desejos e desilusões, desespero, esperança.
  • Precisamos incluir os excluídos e pegar a paz.
  • Demos um passo à frente em nosso diálogo. Observamos que na sociedade e no mundo em que vivemos o egoísmo tem aumentado mais do que o amor pelos outros, e que os homens de boa vontade precisarão trabalhar, cada qual com os seus pontos fortes e experiência, para garantir que o amor aos outros aumente até que seja igual e possivelmente exceda o amor por si mesmo.
  • Pessoalmente creio que o chamado liberalismo irrestrito somente faz do forte mais forte e do fraco mais fraco e exclui os mais excluídos. Precisamos de grande liberdade, não descriminação, não demagogia e muito amor. Precisamos de regras para conduzir e também, se necessário, intervenção direta do estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis.

30 de setembro de 2013

A coragem do diálogo

 
Mais uma vez, as palavras do Papa Francisco. Mais uma vez, o receio de que a sua voz tenha sido aquela que grita no deserto, portanto, ouvida por... ninguém. Ou, mesmo ouvida, ignorada por todos. Pior: ouvida e entendida, mas "traduzida", isto é, distorcida, para que não alcance o seu objetivo.
 
O Papa discursou hoje aos participantes do encontro internacional para a paz, promovido pela Comunidade de Santo Egídio. O encontro, chamado “A coragem da esperança - religiões e culturas em diálogo”, reuniu em Roma 400 representantes das principais religiões e representantes da vida política e cultural da Europa e do mundo vindos de 60 países. Entre as palavras do Santo Padre, destaco:
 
No mundo, na sociedade, há pouca paz também porque falta o diálogo, é difícil sair do estreito horizonte dos próprios interesses para abrir-se a uma verdadeira e sincera comparação. Pela paz é necessário um diálogo determinado, paciente, forte, inteligente, para o qual nada está perdido.  O diálogo pode vencer a guerra. O diálogo faz viver junto pessoas de diferentes gerações, que muitas vezes se ignoram; faz viver junto cidadãos de diversas proveniências étnicas, de diversas convicções. O diálogo é o caminho da paz. Porque o diálogo favorece o entendimento, a harmonia, a concórdia, a paz. Por isto é vital que cresça, que se alargue entre os povos de toda condição e convicção como uma rede de paz que protege o mundo e, sobretudo, protege os mais frágeis.
 
De modo especial, digamos com força, todos, continuamente, que não pode haver alguma justificativa religiosa para a violência. Não pode haver alguma justificativa religiosa para a violência, de nenhum modo que essa se manifeste. (...) Os líderes religiosos são chamados a ser verdadeiros “dialogantes”, a agir na construção da paz não como intermediários, mas como autênticos mediadores. (...) Cada um de nós é chamado a ser um artesão da paz, unindo e não dividindo, eliminando o ódio e não o conservando, abrindo os caminhos do diálogo e não levantando novos muros! Dialogar, encontrar-nos para instaurar no mundo a cultura do diálogo, a cultura do encontro.
 
Para que um diálogo seja possível, é necessário remover os principais obstáculos, inclusive alguns conceitos ultrapassados. Foi isso que aconteceu no início de uma nova fase de diálogo entre católicos e judeus. Em 1963, por ocasião da Sexta-Feira Santa, João XXIII mandou suspender a oração da liturgia que se referia aos judeus por “pérfidos” (leia mais aqui). Naquela mesma época foi dado um passo para frente no diálogo entre católicos e ortodoxos: em 1965, mediante um ato conjunto, o Patriarca Ecumênico Atenágoras e o Papa Paulo VI eliminaram e cancelaram da memória e da vida da Igreja a sentença da excomunhão entre Roma e Constantinopla. Recentemente o Conselho Pontifício da Cultura, inspirado nas palavras do Papa Bento XVI, criou  um projeto chamado "Átrio dos gentios", como lugar de encontro e de diálogo, espaço de expressão para os que não creem e para os que se colocam questões sobre a própria fé, uma janela sobre o mundo, sobre a cultura contemporânea e uma escuta das vozes que aí ressoam.
 
Será possível o diálogo entre as pessoas homossexuais e a Igreja? Quais são os (pre)conceitos que deveriam ser repensados, antes de sentar à "mesa redonda" e conversar?
 
A Igreja, mesmo tendo declarado ser de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam, continua insistindo que a necessária reação diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Em outro documento, a Igreja afirma: A homossexualidade, que impede à pessoa de alcançar  a sua maturidade sexual, seja do ponto de vista individual, como interpessoal, é um problema que deve ser assumido pelo sujeito e pelo educador, quando se apresentar o caso, com toda a objetividade. A ideia de definir a homossexualidade como falta de maturidade, aparece em outros textos e parece ser a base de toda a doutrina da Igreja sobre este assunto.
 
A consequência direta de considerar as pessoas homossexuais como imaturas é a categórica negação de quaisquer direitos, inclusive civis, a essas pessoas. O texto de "Algumas reflexões acerca da resposta a propostas legislativas sobre a não-discriminação das pessoas homossexuais", assinado em 1992 pela Congregação para a Doutrina da Fé, diz, por exemplo:  As pessoas homossexuais, como seres humanos, têm os mesmos direitos de todas as pessoas, inclusivamente o direito de não serem tratadas de maneira que ofenda a sua dignidade pessoal. Entre outros direitos, todas as pessoas têm o direito de trabalhar, de ter uma habitação, etc. Todavia, estes direitos não são absolutos. Podem ser legitimamente limitados por motivos de conduta externa desordenada. Isto, às vezes, é não só lícito, mas obrigatório. (...) Incluir a «tendência homossexual» entre as reflexões, na base das quais é ilegal discriminar, pode facilmente levar a afirmar que a homossexualidade é uma fonte positiva de direitos humanos, por exemplo, no que se refere aos chamados direitos de ação afirmativa ou ao tratamento preferencial no que se refere à admissão ao trabalho. Isto é ainda mais deletério se considerarmos que não existe um direito à homossexualidade, o que não deveria, portanto, constituir a base para reivindicações jurídicas. A passagem do reconhecimento da homossexualidade como fator, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à proteção legislativa e à promoção da homossexualidade. A homossexualidade de uma pessoa seria invocada em oposição a uma discriminação declarada e, assim, o exercício dos direitos seria defendido exatamente mediante a afirmação da condição homossexual, em vez de em termos de uma violação dos direitos humanos básicos. (...) Além disso, existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.
 
Se não fosse tão triste, mereceria uma boa gargalhada. O problema consiste na postura da Igreja que nega às pessoas homossexuais (por serem imaturas) os mais básicos direitos humanos. Muito provavelmente, o direito ao diálogo, encontra-se no meio da lista de "direitos inexistentes", declarada pela Igreja. A minha esperança está nos exemplos da história recente. Os inexistentes (pérfidos) judeus foram, finalmente, considerados dignos de diálogo, assim como os inexistentes (excomungados) ortodoxos, sem falar dos gentios que, apesar desse nome, nitidamente pejorativo, foram admitidos ao "átrio" da Igreja...
 
Quanto à imaturidade, vale a pena citar aqui a opinião de A. W. Richard Sipe, da Escola de Medicina da Universidade John Hopkins (o texto reproduzido no livro "Abuso espiritual & vício religioso" de Matthew Linn, Sheila Fabricant Linn e Dennis Linn; Ed. Verus, Campinas, SP; 2000):
 
É evidente que a Igreja instituída está num estágio pré-adolescente de desenvolvimento psicossexual. Este é um período tipicamente anterior aos 11 anos de idade. (...) Em geral o sexo é exteriormente rejeitado com rigor, mas é secretamente explorado. A severidade se estende a regras rigorosas de inclusão e de exclusão. Controle e anulação são de extrema importância. Essa estrutura instituída, apesar de incluir os indivíduos que a superaram em maturidade, está dominada e entrincheirada num nível de funcionamento que não pode enfrentar as realidades sexuais da adolescência, muito menos a igualdade e sexualidade de homens e mulheres maduros (p. 50).
 
Os autores do livro desenvolvem este pensamento: Uma Igreja estagnada, presa no estágio pré-adolescente de desenvolvimento, é limitada em sua habilidade de lidar com questões sexuais e ditar normas sexuais (...). Assim sendo, muitos católicos questionam as normas da Igreja em assuntos da sexualidade, tais como divórcio, novo casamento, controle de natalidade, aborto, homossexualidade, celibato obrigatório para os padres, ordenação de mulheres e limitações, para os homens, do poder de tomar decisões importantes. Muitas dessas pessoas apreciam os bons valores da Igreja, tais como a sacralidade em todas as circunstâncias da vida humana, a intuição de que a reprodução é um elo sagrado com a criatividade de Deus e o valor sacramental do amor conjugal. Contudo esses valores se perdem nas discussões sobre questões sexuais. Uma das razões por que isso acontece pode ser o fato de a Igreja instituída, que interpreta e promove esses valores, estar frequentemente presa no estágio pré-adolescente do desenvolvimento psicossexual. Assim, a mensagem principal que muitas pessoas recebem não é a dos bons valores da Igreja, mas o medo fundamental das mulheres e da sexualidade. É essa atitude negativa e medrosa que muitas pessoas rejeitam quando questionam os ensinamentos da Igreja sobre sexualidade (p. 50-51).
 
Sem dúvida, a coragem de dialogar, é um dos elementos fundamentais de maturidade.

28 de setembro de 2013

João Paulo I

 
Neste 35° aniversário da morte de João Paulo I (28. 09. 1978), não pretendo falar de teorias de conspiração, intrigas no Vaticano e coisas parecidas. Quero agradecer a Deus por este raio de luz que iluminou a Igreja durante 33 dias. O "Papa do sorriso" deixou poucas palavras, mas vale a pena recordar algumas, pois não perderam a sua atualidade e, sem dúvida, podemos identificar nelas uma espécie de testamento espiritual daquele que, desde então, acompanha-nos como intercessor.
 
O site oficial da Santa Sé disponibiliza 29 textos, escritos ou pronunciados pelo Papa João Paulo I, entre homilias, discursos, cartas e mensagens. Vale a pena recordar aqui algumas de suas palavras:
 
  • Na aula de filosofia dizia-me o professor: — Tu conheces a torre de São Marcos? — Conheço. — Isso significa que ela entrou dalgum modo na tua mente: fisicamente ficou onde estava, mas no teu íntimo ela imprimiu quase um retrato seu, intelectual. Mas tu, por tua vez, amas a torre de São Marcos? Significa isto que aquele retrato te impele de dentro e te inclina, quase te leva e te faz ir, com o espírito, até à torre que está fora. Numa palavra: amar significa viajar, correr com o coração para o objeto amado. Diz a Imitação de Cristo: quem ama "currit, volat, laetatur": corre, voa e alegra-se (Imitação de Cristo, 1. III, c. V, n. 4). [Audiência, 27. 09. 1978]
  • As vezes diz-se: "estamos numa sociedade toda estragada, toda sem moral". Mas tal afirmação não é verdade. Há ainda tanta gente boa, tanta gente honesta. Pergunte-se antes: Que fazer para melhorar a sociedade? Eu responderia: Procure cada um de nós ser bom e contagiar os outros com uma bondade toda penetrada pela mansidão e pelo amor ensinado por Cristo. A regra de ouro de Cristo foi: "Não fazeres aos outros aquilo que não queres te seja feito a ti. Fazeres aos outros o que queres te seja feito a ti. Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". (...) Não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode. Peçamos ao Senhor a graça de que uma nova onda de amor para com o próximo invada este pobre mundo. [Angelus, 24. 09. 1978]
  • Uma alvorada de esperança paira sobre o mundo, mesmo se, de vez em quando, trevas densíssimas — que se distinguem pelos sinistros fulgores do ódio, do sangue e da guerra — parecem obscurecê-la. O humilde Vigário de Cristo, que, de ânimo tímido mas cheio de confiança, inicia a sua missão, está inteiramente pronto a servir a Igreja e a sociedade civil, sem qualquer discriminação de raças ou de ideologias, com o objetivo de que para o mundo nasça um dia mais claro e mais suave. [Radiomensagem, 27. 08. 1978]