ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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8 de outubro de 2013

Quando um gay é padre

 
Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. (Papa Francisco, entrevista).
 
O título deste texto parece estar "deslocado". Seria mais lógico escrever "quando um padre é gay". Mas, escrevi de propósito. Eu sei que muitos homossexuais "se descobriram" ainda na adolescência, mas pode acontecer o contrário, ou seja - neste caso - o cara sentiu a vocação, entrou no seminário, tornou-se padre e só depois se deu conta que era gay. Conto de fadas? De fato, a figura de sacerdote católico, não é das mais simpáticas hoje em dia. A postura de muitos padres que conhecíamos, o "tsunami" de notícias sobre a pedofilia (comprovada, ou não) de muitos, a nossa própria percepção da Igreja, enquanto uma instituição hipócrita e homofóbica... tudo isso contribuiu para com essa antipatia generalizada em relação aos clérigos (o que chamamos de anticlericalismo). Quando, então, surge uma história como essa (de um padre que demorou em reconhecer a sua própria homossexualidade), logo questionamos tudo e nem temos mais vontade de prosseguir a leitura.
 
Pode ser, entretanto, que as palavras do Papa, produzam em nós um pouco de paciente atenção. Pois, entramos no mistério do homem e devemos (podemos?) acompanha-lo a partir da sua condição. É necessário sempre considerar a pessoa.
 
Como - certamente - seria difícil escutar um desabafo desses, fica mais fácil ler. O blog Engasgay informa sobre um ex-padre argentino (Andrés Gioeni) que tinha escrito uma carta ao Papa Francisco. A carta (na íntegra, em espanhol) pode ser encontrada no facebook. Existe, na mesma rede social, um grupo, chamado "Para que el Papa Francisco responda la carta de Andrés" - tudo indica, então, que a história é verídica.
 
 
O que chama a minha atenção, é a parte em que o ex-padre conta a sua história:
 
Fiquei oito anos no seminário. Não me sentia sozinho, tinha uma família lá. Foi mais difícil quando virei sacerdote, aos 27. Vi que não era tão fácil, tinha muitas responsabilidades, ficava sozinho. Mas gostava de celebrar a missa. Aí comecei a me dar conta do que estava acontecendo: algo que não era, para mim, natural. Eu me condenava. No seminário, a questão da homossexualidade só era tratada em algumas aulas. No dia a dia, era um tabu. Olhando agora para trás, vejo que no seminário já sabia [que era gay], mas eu negava. Se percebia que estava gostando de algum companheiro, logo me reprimia, falava a mim mesmo: "O que está acontecendo? Está louco?". Dois seminaristas fizeram insinuações pra mim, queriam me namorar. Eu achava que fosse loucura, negava aquilo. Eles saíram do seminário, eu fiquei. Me dei conta de que era gay mesmo quando já era sacerdote. (...) E passei a me perguntar se era algo transitório ou para a vida. Quando me dei conta que era para a vida, cortei laços com a igreja. Vim para Buenos Aires começar uma nova vida.
 
O texto acima parece não fazer parte da carta em si. No texto enviado ao Papa, consta: Eu era uma vez um padre, pastor, compartilhava o zelo missionário e a necessidade de afirmar a abertura eclesial. Então eu decidi me abrir a um outro lado, quando descobri a minha própria tendência homossexual e admiti a minha incapacidade de exercer o ministério pastoral em celibato. Hoje os meus caminhos vão em outras direções e a minha vocação é tingida com outros tons. Um pouco antes, na mesma carta, Andrés usa a expressão "meu agnosticismo atual".
 
Deixando de lado as condenações apressadas, quase automáticas e os rótulos do tipo "hipócrita", "safado", "perverso", etc., faço algumas perguntas. O que deveria fazer um padre com a própria experiência, parecida com a do Andrés? Qual é a postura mais correta, em relação à própria consciência, ao ministério, à Igreja, à fé?
 
Sondando as opiniões de alguns amigos, católicos praticantes e (a princípio) livres da homofobia que ofusca a objetividade, o que mais ouvi era a opinião de que tal padre deveria deixar o ministério. Na linguagem oficial da Igreja, isso se chama "o pedido de demissão do estado clerical" e acontece por meio de um processo canônico que pode incluir, também, a dispensa do celibato. Na prática, isso significa que o ex-padre continua sendo um membro da Igreja, podendo levar a vida sacramental (Confissão, Comunhão), inclusive casar na igreja (com uma mulher). Sim, alguns detalhes mudam de figura quando ele se decide viver na prática a sua homossexualidade. Aí, como cada pessoa que opta pela prática de atos homossexuais como um estilo de vida, tal indivíduo (ex-padre em questão) não receberá a absolvição, nem poderá comungar. Vale acrescentar que, mesmo assim, ainda não se trata de excomunhão. Essa última sentença ocorre (entre vários outros casos), quando um padre abandona o ministério, sem mencionado processo canônico, ou é expulso pela própria Igreja. Enfim, nenhuma dessas situações, até a própria excomunhão, não precisa levar ninguém ao agnosticismo...
 
Será que existe alguma saída diferente? Imagino um padre que tenha admitido a própria homossexualidade, só depois da ordenação sacerdotal. Tendo passado por todas as etapas de negação, revolta, depressão, acusação de Deus e dos outros - finalmente reconcilia-se consigo mesmo e, ainda que desafiando as leis da Igreja, considera correto o exercício de seu ministério com a própria sexualidade, inclusive com a prática de atos homossexuais. É claro que, mesmo definindo a homossexualidade como algo permitido (ou, até, concedido) por Deus, o maior questionamento refere-se ao celibato. Eu já ouvi um padre que disse: "O celibato impede que eu me case, mas como a Igreja não considera válida a união homoafetiva, então, mesmo vivendo com outro homem, não estou quebrando o celibato". Bem... parece uma desculpa esfarrapada e aquela das mais grossas. Afinal, o celibato não é apenas um sinônimo de "solteirice consagrada por causa do Reino de Deus", mas também a castidade. Talvez seja, então, uma definição diferente da própria castidade? Tipo: "Eu pecaria contra castidade, caso traísse o meu namorado". Evidentemente, isso já está a um milhão de anos-luz da doutrina da Igreja...
 
Concluindo: a questão é mais que complexa. Não deve ser tão rara, como parece (algo desse tipo conta o filme polonês "Em nome..."). Porém, a verdadeira conclusão é a mesma que a introdução a este texto:
 
É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. (Papa Francisco, entrevista). 

5 de outubro de 2013

Não brigo por este "gender"

 
Todos se lembram do caso de um policial que, durante o protesto dos professores no Rio, forjou a posse de morteiros para deter um jovem manifestante. Exceto a nota oficial da PM, todas as reações na mídia, nas redes sociais e em conversas particulares, são unânimes: é algo revoltante, vergonhoso, inaceitável e digno de punição. Certamente, os policiais recebem a formação profissional, inclusive a instrução sobre a conduta ética. Por outro lado, as situações extremas e estressantes, facilitam (ainda que não justifiquem) o fracasso moral, principalmente no caso de pessoas que, talvez, não tenham firmeza em sua própria estrutura psíquica, quem sabe, devido, por exemplo, às falhas na educação em casa. Não estou aqui para julgar as pessoas. Há instituições e autoridades para isso. Entretanto, gostaria de usar este exemplo como a introdução a outra questão que considero infinitamente mais grave, com todos os adjetivos já citados: revoltante, vergonhoso e inaceitável. Digo "infinitamente mais grave" porque não se trata de uns policiais despreparados que permitem a confusão externa tomar conta do seu interior. Falo de pessoas cultas, formadas em filosofia e teologia, conhecedores e adeptos (pelo menos assim se declaram) do Evangelho e dos mandamentos de Deus. Pessoas que sabem perfeitamente qual é o conteúdo do 8° Mandamento, ainda que tenham alguma obsessão doentia com o 6°...
 
Assisti - ou, melhor: tentei assistir - o programa do Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, fiel discípulo de Olavo de Carvalho e, também (suponho), de Jesus, sobre a "Ideologia de gênero". A minha dificuldade consistiu não apenas no fato de discordar de sua argumentação, mas também, em algum problema técnico do site que não permitiu (até agora) uma formatação melhor do vídeo [ATUALIZAÇÃO 07/10/2013: o programa editado está aqui]. O padre que gosta de usar a expressão "gayzismo", copiada do seu mestre Olavo de Carvalho, retrata o estudo (e a legislação) a respeito da identidade de gênero, como uma das mais poderosas armas da "ditadura gay(zista)", a mesma que tem por objetivo - segundo ele - a destruição da sociedade e da Igreja (através da destruição de família tradicional), bem como a introdução da "nova ordem mundial". Tudo isso tem o tom apocalíptico e, de fato, serve para difundir, ainda mais, a intolerância, em particular, a homofobia. O discurso do padre é eloquente e sempre inclui a citação de uma série de nomes e fontes internacionais. Essa eloquência, porém, não é capaz de ocultar o falso princípio que, ao ser detectado, desmascara a verdadeira intenção do ensinamento. Não é a defesa da família, nem da sociedade, mas sim, mais uma tentativa de desmoralizar as pessoas homossexuais, atribuindo a elas algo que não existe. É, justamente, como forjar o flagrante, como no caso daquele policial. Por isso digo: essa briga que o padre apresenta, não é minha. Eu não brigo por este "gender", até porque ele não existe, da forma apresentada por este padre.
 
Vou tentar explicar a questão de maneira mais breve possível. Para um estudo maior, recomendo assistir o discurso do padre e ler todos os materiais que ele indica. O resumo da aula encontra-se no texto, publicado junto ao vídeo. É uma espécie de panfleto, certamente preparado para os escudeiros do padre, para ser multiplicado e distribuído pelo Brasil afora (quem sabe, nas Paradas de orgulho gay[zista]). O título do panfleto, diga-se de passagem, pode ser perfeitamente aplicado, em resposta, a toda argumentação da aula: "Gênero" - Defina ou então não use! A palavra gênero foi politizada. Se ela for utilizada em um texto, deve ser definida para que todos possam estar conscientes do seu significado. Algumas feministas radicais usam "gênero" em contraposição ao "sexo". "Sexo" diz respeito à realidade biológica de masculino e feminino. "Gênero" diz respeito ao condicionamento social e às práticas culturais relacionadas com a masculinidade e a feminilidade. Os que defendem esta definição o fazem por crerem que todas as evidentes diferenças entre homem e mulher não são naturais, mas são produzidas pela "socialização opressiva de gênero" e a mulher será livre somente quando não seja obrigada a ser feminina por sua cultura. Além disso, creem que, enquanto o "sexo" é uma realidade fixa, o "gênero" é algo que se pode escolher. Esta interpretação é particularmente popular entre homossexuais e lésbicas [sic! - como se as lésbicas não fossem homossexuais]. Esta definição declara guerra à feminilidade natural.
 
No vídeo, o padre Paulo Ricardo, reforça esta afirmação: Na verdade, o que está por trás, é um outro conceito. O que está por trás é o fato que - segundo essas pessoas - o homem é uma massinha de modelar e você é construído como homem, ou é construída como mulher, ou é construído como homossexual, ou como lésbica, ou como transexual. Isto é uma questão de opção e não é sequer uma coisa fixa.
 
Quem não percebe, exatamente por trás deste discurso, a intenção de desmoralizar a luta GLBTTS pelos próprios direitos e pela dignidade, corre o risco de ser agredido, amanhã mesmo, em uma esquina qualquer, por um "católico" que - induzido ao erro - vai punir você, por ter escolhido ser gay. Afinal, a ira de Deus volta-se contra os infiéis. Certamente, ele não vai entender que você está sendo fiel a si mesmo, à sua identidade, ao seu gênero que, entretanto, não foi criado por você.
 
E quem pensa que a opinião deste padre é algo raro e individual, engana-se redondamente. Basta entrar nos sites "católicos" e conferir. Um deles, "Annales Historiae", publica o mesmo pensamento: A heterossexualidade está na base da complementariedade entre os homens e as mulheres. Mas outros preferem ver nisso um ponto de exploração, de dominação e de intolerância. Para combater esta situação, então eles trabalham incansavelmente para destruir o que eles consideram como um preconceito. (...) O indivíduo é intimado a escolher entre todas estas possibilidades (heterossexual feminino, heterossexual masculino, homossexual masculino, homossexualidade feminina, bissexualidade, transsexualidade e indiferenciado), com o direito fundamental de trocá-las, quando lhe apetece. (Obs.: Os conhecedores de língua portuguesa, ao menos em Portugal, sugerem que se use o termo "transexualidade" - com um "s")
 
É tão óbvia a falte de lógica na argumentação sobre a "opção" que, somente através de uma lavagem cerebral, é possível implantá-la na cabeça de quem quer que seja.
 
O Papa Bento XVI fez uma referência à "ideologia do gênero": [O rabino-chefe de França, Gilles Bernheim] cita o célebre aforismo de Simone de Beauvoir: «Não se nasce mulher; fazem-na mulher – On ne naît pas femme, on le devient». Nestas palavras, manifesta-se o fundamento daquilo que hoje, sob o vocábulo «gender - gênero», é apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia. (...) O homem contesta o fato de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um facto pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez. É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada.
 
Talvez existam pessoas que pensam assim, ou movimentos que queiram difundir tal teoria, mas com certeza não são os homossexuais. Repito: nenhum homossexual acredita ter o poder de decidir sobre a sua própria orientação sexual. A sociedade, tampouco, tem esse poder, porque, se tivesse, já não existiria um homossexual sequer na face da terra, graças à pressão da sociedade, em sua maioria, homofóbica. Quanto à "natureza pré-constituída", sempre pensei que a Igreja tivesse pregado a superioridade da alma em relação ao corpo e das coisas espirituais em relação às materiais. Pois, muito mais do que a minha corporeidade, é a minha psíquica e a afetividade, que definem a direção da minha sexualidade. O que "pré-constituiu" a corporeidade daquela criança que nasceu com 4 pernas na Índia? Ou de outra que nasceu com 4 braços e 4 pernas? Que era a encarnação do deus Vishnu, como tantos afirmavam? Não! Foram realizadas várias cirurgias, para que essas pessoas pudessem ter a vida normal. Foi a corporeidade que impedia essa normalidade de viver. E o que dizer sobre a Letícia Lanz que nasceu com o corpo masculino, mas, em sua essência, sempre foi uma mulher? Ela mesma diz: Por décadas, tenho vivido com um nome que não corresponde à pessoa que eu sou e que, como qualquer outra pessoa, eu também desejaria poder mostrar ao mundo, com orgulho e dignidade, em todos as ocasiões.
 
Pelo que sei, a ciência ainda não possui métodos para consertar o interior de um ser humano. Consegue, porém - e com grande sucesso - adequar o corpo à identidade da pessoa. E todas as tentativas de "adequar" a sexualidade foram desastrosas.
 
Acrescento, no final, mais uma observação. Eu creio, assim como o Papa Bento XVI e como a maioria das pessoas não-heterossexuais, que a criatura humana foi feita por Deus nessa dualidade de homem e mulher. Ser gay, não anula o fato de ser homem, assim como ser lésbica, não anula a feminilidade. Essa é a situação das pessoas transgêneras, a quem devemos o respeito, merecido por cada ser humano. Elas também, assim como todos os seres humanos, não escolheram a sua sexualidade por mero capricho. A dualidade do ser humano contém muitas identidades. Deus que, em Jesus, ordenou: Dizei somente sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno (Mt 5, 37), não criou o mundo preto e branco, mas sim, muito colorido. Tentar corrigir a obra do Criador, ou negar a sua diversidade, é um ato de estupidez e a manifestação de soberba que resulta em violência. É, exatamente, por dizer "sim" a Deus e a si mesmo, que as pessoas não-heterossexuais defendem a sua identidade e lutam por seus direitos.
 
A ilustração que ajuda compreender a diversidade do ser humano, encontrei no blog do Vinícius:
 

4 de outubro de 2013

Ir ao encontro

 
O Papa Francisco está em Assis. É uma visita cheia de simbologia, por isso as palavras do Santo Padre ganham ainda mais peso, tornam-se "constituintes". Na verdade, a "Constituição" não é nova. É o Evangelho. Nova é a leitura, afim de promover uma nova prática. Exatamente como fez, há séculos, São Francisco de Assis. O próprio Papa disse: queridos amigos, eu não dei a vocês receitas novas. Não o fiz e não acreditem em quem diz que eu o fiz. Não existem. (...) Escutar a Palavra, caminhar junto em fraternidade, anunciar o Evangelho nas periferias! Quem escuta/lê as palavras do Papa, já percebeu que as periferias ocupam um lugar especial no seu coração. É a importância de sair para ir ao encontro do outro, nas periferias, que são lugares, mas, sobretudos, pessoas, situações de vida. Tudo isso o Papa disse aos membros do clero em Assis. E continuou: Quais são as vossas periferias? Procuremos pensar. Perguntemo-nos quais são as periferias desta Diocese. Certamente, em um primeiro sentido, são as zonas da Diocese que são suscetíveis de estar no limite, fora dos feixes de luz dos holofotes. Mas são também pessoas, realidades humanas de fato marginalizadas, desprezadas. São pessoas que talvez se encontram fisicamente próximas ao “centro”, mas espiritualmente estão distantes. Não tenham medo de sair e ir ao encontro destas pessoas, destas situações. Não se deixem bloquear pelos preconceitos, hábitos, rigidez mental ou pastoral, do famoso “se faz sempre assim!”. Mas se pode ir às periferias somente se se leva a Palavra de Deus no coração e se caminha com a Igreja, como São Francisco. Caso contrário, levamos a nós mesmos, e não a Palavra de Deus e isto não é bom, não serve para ninguém! Não somos nós que salvamos o mundo: é o Senhor que o salva!
 
 
 
A denúncia do "famoso «se faz sempre assim»" é um grito revolucionário. É preciso, porém, perceber a diferença entre a revolução e a anarquia. Encaixa-se aqui a frase bíblica: Examinai tudo: abraçai o que é bom (1 Ts 5, 21). Neste contexto podemos recordar o trabalho de um dos pioneiros que descobriram a "periferia da homossexualidade" e foram até lá para levar a Palavra de Deus. É o Padre José Trasferetti que assim conta esta história (o texto é de 2002):
 
Comecei a trabalhar com homossexuais em 1995. Eu trabalhava em uma paróquia de periferia em Campinas, São Paulo, e lá passei a ter contatos com homossexuais e travestis que moravam perto da igreja da paróquia. Foi uma amizade muito gostosa que eu criei com esse grupo e, a partir dessa data, comecei a me interessar pelo tema de forma teológica. Então, além do aspecto pastoral, eu quis incluir o aspecto teológico, ou seja, passei a estudar o tema. E aí então comecei a produzir. Saiu o primeiro livro "Pastoral dos homossexuais" [leia o resumo]; depois (...) "Deus por onde andas?" (...) [e] "Homossexuais e Ética Cristã". E estou preparando outros temas também. (em 2001 foi publicado o livro de Ademildo Gomes e José Trasferetti "Homossexualidade, orientações formativas e pastorais") Então, eu tenho muito interesse pastoral e também interesses teóricos sobre essa questão. Acho que precisamos evoluir mais nessa área e eu gostaria de contribuir educando as comunidades religiosas, os seminaristas, os padres porque eu sinto que existe uma grande ignorância ao redor desse tema. É preciso romper essa ignorância e ampliar nossos conhecimentos, porque somente ampliando nossos conhecimentos é que nós vamos combater a homofobia ainda reinante na sociedade e nas igrejas.
 
Estudar e escrever já é uma forma de ir às periferias. É claro, nada substitui a presença física, o "andar junto" do qual fala o Papa. Os livros ajudam na formação da consciência e facilitam a abertura do coração. Encorajam à ação. Assim como as palavras do Papa...

"A Igreja dos puros" é uma heresia

 
Confesso que me senti entalado, como que em uma lama pegajosa e fedorenta, ao ler vários textos nos sites, portais e páginas, onde escrevem aqueles que se declaram "guardiões da Santa Tradição Católica", repudiam o modernismo pós-conciliar e detonam cada nova fala do Papa Francisco. Evidentemente, depois da última entrevista do Santo Padre, os caras entraram em desespero e, praticamente, excomungaram Francisco. O meu alívio veio logo depois. Se alguém ainda duvida na ação do Espírito Santo, atribua isso, então, à intuição do Papa. Tenho certeza de que o Santo Padre não perde tempo para ler as matérias daquele tipo, menos ainda, os furiosos comentários que se multiplicam como uma praga, mas tudo o que foi dito na última catequese papal, durante a Audiência Geral no dia 02 de outubro, torna-se uma resposta direta e clara aos uivos dos fundamentalistas "católicos" (que, aliás, perderam a própria catolicidade, desde o momento em que contestaram as decisões da Santa Igreja, definidas no Concílio Vaticano II).
 
Como sempre, vale a pena ler o texto todo. Eu cito aqui alguns trechos:
 
Vocês poderiam dizer-me: mas a Igreja é formada por pecadores, vemos isso todos os dias. E isto é verdade: somos uma Igreja de pecadores; e nós pecadores somos chamados a deixar-nos transformar, renovar, santificar por Deus. Houve na história a tentação de alguns que afirmavam: a Igreja é somente a Igreja dos puros, daqueles que são totalmente coerentes e os outros seguem afastados. Isto não é verdade! Isto é uma heresia! A Igreja, que é santa, não rejeita os pecadores; não rejeita todos nós; não rejeita porque chama todos, acolhe-os, está aberta também aos mais distantes, chama todos a deixar-se envolver pela misericórdia, pela ternura e pelo perdão do Pai, que oferece a todos a possibilidade de encontrá-Lo, de caminhar rumo à santidade. “Mas, padre, eu sou um pecador, tenho grandes pecados, como posso sentir-me parte da Igreja?”. Querido irmão, querida irmã, é propriamente isto que deseja o Senhor; que você lhe diga: “Senhor, estou aqui, com os meus pecados”. Alguém de vocês está aqui sem os próprios pecados? Alguém de vocês? Ninguém, nenhum de nós. Todos levamos conosco os nosso pecados. Mas o Senhor quer ouvir que lhe digamos: “Perdoa-me, ajuda-me a caminhar, transforma o meu coração!”. E o Senhor pode transformar o coração. Na Igreja, o Deus que encontramos não é um juiz implacável, mas é como o Pai da parábola evangélica. Você pode ser como o filho que deixou a casa, que tocou o fundo do distanciamento de Deus. Quando tens a força de dizer: quero voltar pra casa, encontrarás a porta aberta, Deus vem ao seu encontro porque te espera sempre, Deus te espera sempre. Deus te abraça, te beija e faz festa. Assim é o Senhor, assim é a ternura do nosso Pai celeste. O Senhor nos quer parte de uma Igreja que sabe abrir os braços para acolher todos, que não é a casa de poucos, mas a casa de todos, onde todos podem ser renovados, transformados, santificados pelo seu amor, os mais fortes e os mais frágeis, os pecadores, os indiferentes, aqueles que se sentem desencorajados e perdidos. A Igreja oferece a todos a possibilidade de percorrer o caminho da santidade, que é o caminho do cristão: faz-nos encontrar Jesus Cristo nos Sacramentos, especialmente na Confissão e na Eucaristia; comunica-nos a Palavra de Deus, faz-nos viver na caridade, no amor de Deus para com todos. Perguntemo-nos então: deixamo-nos santificar? Somos uma Igreja que chama e acolhe de braços abertos os pecadores, que dá coragem, esperança, ou somos uma Igreja fechada em si mesma? Somos uma Igreja na qual se vive o amor de Deus, na qual se tem atenção para com o outro, na qual se reza uns pelos outros?
 
Conheço muitos homossexuais que se sentem indignos, até mesmo, de entrar na igreja para participar da Missa. Outros, já escutaram essa "sentença" (de não serem dignos), por parte dos pais, irmãos, amigos, colegas de escola, padres e muitos outros. Muitos desistiram de procurar o caminho para a Igreja, devido à leitura de alguns documentos oficiais dela. Não me surpreendo, portanto, ao ver um tipo de desconfiança, em relação às palavras do Papa. Uns insistem em afirmar de que não se trata de ensinamento oficial da Igreja, mas de opiniões pessoais de um tal de Bergoglio (que por acaso, ou talvez, por engano, ocupa o trono de Pedro). Outros imaginam (de certa forma, até esperam, assustados) um "cala-a-boca", dado ao Papa, por seus adversários da cúpula vaticana. Há quem pense: "eles vão acabar com ele". Realmente, quando se lê as declarações dos fundamentalistas "católicos", do tipo: "chegou a hora do combate", a gente começa a se preocupar. Mas, aqui, surpreendentemente, vou concordar - em um ponto - com os tradicionalistas: o Papa é o Papa e a Igreja é a Igreja. Um Papa não vai mudar a Igreja.
 
Tenho, porém, uma má notícia aos contestadores de Francisco. Na mesma medida, em que o Papa fala pela Igreja, é a Igreja que fala através do Papa. Não é o Papa que vai demolir, de repente, a Igreja. É a Igreja que se revela no Papa e em suas palavras. Ele apenas transmite a mudança (a conversão) da Igreja. Mesmo que alguém queira calar o Papa, é o Espírito Santo que conduz a Igreja à plena verdade. Basta ler a história! É uma ótima leitura, especialmente neste dia, dedicado a um outro Francisco... 

3 de outubro de 2013

proselitismo e consciência

 
Volto à última entrevista do Papa Francisco, concedida ao jornalista Eugenio Scalfari e às reações de alguns católicos que se apresentam como defensores da Tradição (entendida por eles como o sinônimo da verdade absoluta). Basta ler os comentários sobre a entrevista, no site "Fratres in Unum". O próprio portal publica, também, a sua opinião sobre a entrevista do Papa:
 
É muito difícil emitir um juízo sobre as intenções do papa a respeito. Pelo tamanho das “derrapadas doutrinais”, parece-nos que se trate mais de pouca inteligência misturada com a típica loquacidade achista episcopal latino-americana potencializada pelo próprio idealismo pauperista e espiritualista tão agradável à opinião pública e um certo surto de populismo ansioso, desejoso de aparecer e ganhar espaço nas manchetes. (...) Não nos assustemos com estes acontecimentos e com outros ainda piores que possam vir. Precisamos nos manter firmes na fé, pois o luxo da perplexidade já há muito tempo nos foi tirado, e agora nos resta o bom combate.
 
Os comentários sobre a entrevista e sobre o próprio Papa não são diferentes:
 
  • É pecado desejar que esse pontificado não demore?
  • Não é pecado pedir a Deus que nos livre do mal.
  • A coisa está ficando cada vez pior. Acho que nossa única arma é reclamar ao seu direto superior: Nosso Senhor, através de nossas orações. Também escreverei a quem o colocou lá, os cardeais, pelo menos os mais sensíveis à Tradição, para que tentem tomar providências para reduzir os danos…
  • Nossa, quando o Papa disse que não gostava de dar entrevistas fiquei até um pouco aliviado achando que não veríamos muito disso, mas infelizmente estava enganado. Com o número de católicos cada vez menor ele diz que proselitismo é bobagem? E olha que é jesuíta.
  • A entrevista é um desastre monumental. Eu não lembro de um Papa tão absurdamente fraco teologicamente. Proselitismo é besteira? A consciência sabe o certo e o errado? Política e religião são desconexas? Será que ele conhece o catecismo? Certa hora achei que o ateu tinha convencido o papa. Meu Deus!!!! Marana tha
  • Esse Papa não ama a Igreja. Ele só fala mal dela. Que humildade é esta que acha que tudo antes dele estava errado. Ele fala mal dos padres, dos bispos, dos que o antecederam, da cúria… ele não ama a igreja. Esse Papa não tem papa na língua. Fala demais
  • Considero irresponsável e imprudente o Summus Pontifex Ecclesiae Universalis conceder entrevistas. Será que não há ninguém no Vaticano para assessorar nosso Pontífice?
  • A casa caiu. É absolutamente claro que o Comunismo chegou enfim ao Papado.
  • Vivemos o momento histórico do inicio da Nova Era. A cada dia uma nova entrevista de preparação para ações que chocam os católicos. Voltemos para as catacumbas. Rápido!
  • Em breve começará as perseguições a quem ousar falar sobre tradição. Deus nos salve…..
  • Eu já visitei o túmulo de São Francisco de Assis. Se tivesse condições financeiras de voltar à Itália neste momento, voltaria a Assis e rogaria ao poverino para que o pontificado de Bergoglio seja o mais curto possível.
  • Li a entrevista com tristeza, incredulidade e, acima de tudo, com um sentimento de que fui abandonado por aquele que devia ser meu pai na Fé.
  • O Papa está confuso e eu muito mais!
Algumas pessoas expressam, de passagem, a sua admiração pelo Papa Bento XVI. Há quem lance uma ideia bastante curiosa:
 
Na época da renúncia de Bento XVI lembro ter lido em algum lugar que ao anunciar sua renúncia ele cometeu um erro em latim (não lembro se estava escrito ou se errou ao pronunciá-lo) e que isso invalidaria sua renúncia como tal. E se tal teoria for verdade? E se ocorreu mesmo esse erro que invalidaria a renúncia? Diversos acontecimentos nos fizeram e continuam a fazer pensar que o santo padre renunciou por pressões e influências externas… E se Bento XVI o fez de propósito para – mesmo tendo “renunciado” diante de todos – continuar a ser o verdadeiro papa. Pode parecer loucura mas diante dos acontecimentos recentes essa ideia não para de martelar minha consciência, isto é, a ideia de que Bento XVI continua a ser o verdadeiro papa.
 
Deixando de lado as opiniões mais extremas que consideram o Concílio Vaticano II uma heresia e a traição da verdadeira doutrina (como em um dos comentários que diz: A igreja conciliar do Vaticano II não é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana), vale lembrar o que disse sobre o proselitismo (um dos assuntos da entrevista que mais enfureceram os católicos fundamentalistas), o Papa Bento XVI:
 
A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por “atração”: como Cristo “atrai todos a si” com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor. (Missa de inauguração da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, Aparecida, 13 de maio de 2007). Esta afirmação reforça o ensinamento do Beato João Paulo II que escreveu: A nova evangelização não deve de modo algum ser confundida com o proselitismo, sem com isto negar o dever do respeito da verdade, liberdade e dignidade de cada pessoa. (Exortação Apostólica Ecclesia in Europa, n. 32).
 
A própria Igreja, de forma oficial, traz a definição da palavra "proselitismo": Originalmente o termo «proselitismo» nasce em âmbito hebraico, onde «prosélito» indicava aquele que, proveniente dos «gentios», passava a fazer parte do «povo eleito». Assim também no âmbito cristão, o termo proselitismo foi, muitas vezes, usado como sinônimo da atividade missionária. Recentemente, o termo tomou uma conotação negativa como publicidade para a própria religião com meios e motivos contrários ao espírito do Evangelho e que não salvaguardam a liberdade e a dignidade da pessoa.
 
Outro assunto, abordado pelo Papa Francisco em entrevista e que tanto escandalizou os católicos fundamentalistas tradicionalistas, é a consciência. Literalmente, o Papa disse: Cada um de nós tem uma visão do bem e do mal. Temos que encorajar as pessoas a caminhar em direção ao que elas consideram ser o Bem. Eugenio Scalfari responde: Santidade, o senhor escreveu isso em sua carta para mim. A consciência é autônoma, o senhor disse, e todos devem obedecer a sua consciência. Creio que este seja um dos passos mais corajosos dados por um Papa. Santo Padre prossegue: E repito aqui: Cada um tem sua própria ideia de bem e mal e deve escolher seguir o bem e combater o mal como concebe. Isso bastaria para fazer o mundo um lugar melhor.
 
Digo o seguinte: se todos esses leitores-comentaristas, católicos tradicionalistas, fundamentalistas ignorantes, acham o pensamento do Papa uma blasfêmia, uma heresia ou um absurdo - e, ao mesmo tempo, usam a Palavra de Deus para embasar o seu espanto - por que não consideram uma "derrapada doutrinal" a afirmação do Apóstolo Paulo que diz a mesma coisa? Tudo o que não provém de uma convicção é pecado (Rm 14, 23), ou um princípio da própria Igreja, que foi sancionado pelo 4º Concílio de Latrão  (ao qual, diferentemente do Vaticano II, eles se consideram fiéis): "Tudo o que se faz contra a consciência, prepara a condenação" (quidquid fit contra conscientiam, sedificat ad gehennam), ou então, a sentença de Santo Tomás de Aquino: precisa-se seguir a consciência, mesmo contra a força da Igreja (Sent. IV., díst. 38).
 
Uma conclusão:
 

1 de outubro de 2013

+ Gefferson Ferrer



O Portal Gay1 informou ontem sobre a morte de um jovem, Gefferson Ferrer que se jogou do 3° piso, no shopping Taguatinga (Brasília, DF). Segundo o portal, Gefferson havia anunciado a sua morte no facebook. Nesta madrugada, o seu perfil ainda estava disponível, mas agora não existe mais. A sua despedida,
feita algumas horas antes do suicídio, expressa a profunda angústia e solidão. Uma das últimas postagens exibe o pensamento de Curt Cobain: "Se os meus olhos mostrassem a minha alma, todos, ao me verem sorrir, chorariam comigo" e a outra, traz a fase: "Tudo tem conserto menos a morte... a morte conserta tudo". Além dessas citações, havia as palavras do próprio Gefferson: "Obrigado gente pela força e pelo carinho de alguns, mas não tem volta, não... Um dia todos iremos embora e eu vou hoje!!!". Um pouco antes, o rapaz escreveu: "Só merece viver quem tem força pra enfrentar as armadilhas da vida e hoje eu não tenho mais força pra nada! Não tenho direito de amar muito menos de ser Amado. Viver com o coração cheio de dor eu não aguento por isso decidi partir pra nunca mais voltar". A página de notícias "Alto Paraíba" acrescenta a informação que o rapaz estava assistindo o filme "Invocação do mal" e, antes de terminar o filme, saiu e pulou.
 
 
Cada morte nos deixa perturbados, por mais que a cultura modera, justamente, a "cultura da morte", procure banaliza-la. Mais ainda, a morte suicida. Muitos sentem a tentação de julgar, outros de tentar explicar. Na verdade, estamos diante de um mistério, chamado "ser humano". O mistério é tão grande que até a Igreja (católica) que tem tanta dificuldade em modificar os seus pontos de vista e que, antigamente, negava às pessoas que tiraram a própria vida, o lugar na terra "benzida" e reservava um espaço à parte no cemitério para "tais pessoas". Hoje em dia, a Igreja diz: Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do  sofrimento ou da tortura, podem diminuir a responsabilidade do suicida. Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida (CIC, 2282-2283). Na prática, admite-se a suposição de que talvez, nos últimos instantes (entre o ato suicida e a morte efetiva), pela infinita misericórdia de Deus, ter-se-á arrependido de seu ato e obtido o perdão. Vale lembrar aqui o fato de que a Igreja que tenha declarado oficialmente a salvação eterna de muita gente (em forma de beatificação ou canonização), nunca se pronunciou a respeito da condenação no inferno de quem quer que seja.
 
Recentemente, o Papa Francisco, disse: Quantas pessoas tristes, quantas pessoas tristes, sem esperança! Pensai também nos muitos jovens que, depois de terem experimentado tantas coisas, não encontram sentido na vida e procuram o suicídio, como solução. Sabeis quantos suicídios de jovens há hoje no mundo? A cifra é alta! Por quê? Não têm esperança. Experimentaram tantas coisas e a sociedade, que é cruel — é cruel! — não nos pode dar esperança. A esperança é como a graça: não se pode comprar, é um dom de Deus. E nós devemos oferecer a esperança cristã com o nosso testemunho, com a nossa liberdade, com a nossa alegria. O dom da graça que Deus nos dá, traz a esperança. Nós, que temos a alegria de nos apercebermos que não somos órfãos, que temos um Pai, podemos permanecer indiferentes a esta cidade que nos pede, talvez também inconscientemente, sem o saber, uma esperança que ajude a olhar para o futuro com maior confiança e serenidade? Nós não podemos ser indiferentes.
 
Não sei como anda, neste sentido, a doutrina das Igrejas evangélicas. A morte de Gefferson trouxe a recordação de um outro jovem, Saulo Assis de Lima que se jogou de uma torre de telefonia em Porto Velho, Rondônia, em abril deste ano. Os relatos de amigos deste jovem de 23 anos não deixam dúvidas. Saulo foi expulso de casa pela família que é evangélica, por ele ter sido aidético e homossexual. De acordo com diversas fontes, o corpo de Saulo permaneceu muitos dias no IML da cidade. Surgiu, até, uma campanha no facebook: "Um funeral digno para Saulo".
 
Repito: não tenho o conhecimento suficiente sobre a doutrina evangélica e os seus "dogmas" sobre o suicídio. Talvez o ponto de partida tenha sido a história de Judas Iscariotes e uma associação inescrupulosa de versículos bíblicos, tais como: "Judas Iscariotes foi o traidor" (Mt 10, 4); "Satanás entrou em Judas" (Lc 22, 3); "Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!" (Mt 26, 24). Por sua vez, é mais que evidente, o discurso homofóbico da maioria dos pastores evangélicos. Voltemos, porém, ao contexto católico...
 
A Igreja católica que usa o termo "tendências homossexuais profundamente radicadas", na verdade revela a sua própria homofobia, profundamente radicada. Por mais que tente escondê-la sob uma veemente condenação de discriminação (injusta - sic!), logo acrescenta que quando é aceita a afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos. A Igreja não se surpreende com os comportamentos irracionais e violentos contra as pessoas homossexuais, mas é incapaz de admitir a sua própria contribuição para tais comportamentos. Vejamos alguns princípios que servem para a pregação da doutrina, nas igrejas e salas de catequese, nos encontros de oração e retiros, em formação de jovens e de todos os outros fiéis católicos. A Igreja afirma e ensina o seguinte:
 
Na "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"
  • Como acontece com qualquer outra desordem moral, a atividade homossexual impede a autorrealização e a felicidade porque contrária à sabedoria criadora de Deus.
  • Quando se entregam a uma atividade homossexual, elas [as pessoas homossexuais] reforçam dentro delas mesmas uma inclinação sexual desordenada, caracterizada em si mesma pela auto-complacência.
  • Uma pessoa que se comporta de modo homossexual, age imoralmente.
  • São Paulo apresenta o comportamento homossexual como um exemplo da cegueira em que caiu a humanidade.
  • A própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada.
  • O Autor [do Livro de Levítico] exclui do povo de Deus os que têm um comportamento homossexual.
  • O  fenômeno do homossexualismo, em suas múltiplas dimensões e com seus efeitos sobre a sociedade e sobre a vida eclesial, é um problema que afeta propriamente a preocupação pastoral da Igreja.
  • A prática do homossexualismo [está] ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de grande número de pessoas.
  • A opinião segundo a qual a atividade homossexual seria equivalente à expressão sexual do amor conjugal ou, pelo menos, igualmente aceitável, incide diretamente sobre a concepção que a sociedade tem da natureza e dos direitos da família, pondo-os seriamente em perigo.
  • A catequese poderá ajudar inclusive as famílias em que se encontrem pessoas homossexuais, a enfrentar um problema que as atinge tão profundamente.
 
Outros documentos:
  • Os atos homossexuais não se podem, de maneira nenhuma, aprovar. (...) Na Sagrada Escritura, as relações homossexuais são condenadas como graves depravações. (...) As legislações que favorecem as uniões homossexuais são contrárias à reta razão. A legalização das uniões homossexuais acabaria, portanto, por ofuscar a percepção de alguns valores morais fundamentais e desvalorizar a instituição matrimonial. (...) Há razões válidas para afirmar que tais uniões [homossexuais] são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efetiva incidência sobre o tecido social. (...) Todos os fiéis são obrigados a opor-se ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (...) O respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (1)
  • Existem setores onde não se trata de discriminação injusta tomar em consideração a tendência sexual, por exemplo, na adoção ou no cuidado das crianças, nó trabalho dos professores ou dos treinadores atléticos e no recrutamento militar. (...) A passagem do reconhecimento da homossexualidade como fator, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à proteção legislativa e à promoção da homossexualidade. (...) Existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.(2)
  • Certamente, na atividade pastoral estes homossexuais assim hão de ser acolhidos com compreensão e apoiados na esperança de superar as próprias dificuldades pessoais e a sua inadaptação social. (...) Segundo a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são atos destituídos da sua regra essencial e indispensável. Elas são condenadas na Sagrada Escritura como graves depravações e apresentadas aí também como uma consequência triste de uma rejeição de Deus. Este juízo exarado na Escritura Sagrada não permite, porém, concluir que todos aqueles que sofrem de tal anomalia são por isso pessoalmente responsáveis; mas atesta que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados e que eles não podem, em hipótese nenhuma, receber qualquer aprovação. (3)
  • O caminho formativo [dos candidatos ao sacerdócio] deverá ser interrompido no caso do candidato, apesar do seu empenho, do apoio do psicólogo ou da psicoterapia, continuar a manifestar incapacidade para enfrentar de modo realista, ainda que com o progresso do crescimento humano, as suas graves imaturidades (fortes dependências afetivas, notável falta de liberdade nas relações, excessiva rigidez de carácter, falta de lealdade, identidade sexual incerta, tendências homossexuais fortemente enraizadas, etc.). (4)
  • Será tarefa da família e do educador procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade: descobrir se se trata de fatores fisiológicos ou psicológicos, se esta será o resultado de uma falsa educação ou da falta de uma evolução sexual normal, se provém de um hábito contraído ou de maus exemplos ou de outros fatores. (...) Existe mais no profundo, a congênita fraqueza do homem, como consequência do pecado original; esta fraqueza pode levar à perda do sentido de Deus e do homem e ter suas repercussões na esfera da sexualidade. (5)
  • Uma problemática particular, que se pode manifestar no processo de maturação-identificação sexual, é a da homossexualidade, que, aliás, se difunde cada vez mais nas culturas urbanas. (...) Os jovens precisam de ser ajudados a distinguir os conceitos de normalidade e de anomalia, de culpa sugestiva e de desordem objetiva, evitando induzir hostilidade e, por outro lado, esclarecendo bem a orientação estrutural e complementar da sexualidade em relação à realidade do matrimônio, da procriação e da castidade cristã. (...) Muitos casos, especialmente quando a prática de atos homossexuais não se estruturou, podem ser ajudados positivamente por meio de uma terapia apropriada. (...) Os pais, por seu lado, no caso de advertirem nos filhos, em idade infantil ou adolescente, o aparecimento de tal tendência ou dos comportamentos com ela relacionados, façam-se ajudar por pessoas especializadas e qualificadas para darem todo o auxílio possível. (6)
Se estas afirmações não incentivam os atos violentos de homofobia e não agravam o estado de depressão e angústia em pessoas que não conseguem aceitar a própria homossexualidade, então... eu sou o Papai Noel. A Igreja que se declara, tão firmemente, como a "defensora da vida e dos direitos humanos", precisa fazer um sincero e humilde exame de consciência.

30 de setembro de 2013

A coragem do diálogo

 
Mais uma vez, as palavras do Papa Francisco. Mais uma vez, o receio de que a sua voz tenha sido aquela que grita no deserto, portanto, ouvida por... ninguém. Ou, mesmo ouvida, ignorada por todos. Pior: ouvida e entendida, mas "traduzida", isto é, distorcida, para que não alcance o seu objetivo.
 
O Papa discursou hoje aos participantes do encontro internacional para a paz, promovido pela Comunidade de Santo Egídio. O encontro, chamado “A coragem da esperança - religiões e culturas em diálogo”, reuniu em Roma 400 representantes das principais religiões e representantes da vida política e cultural da Europa e do mundo vindos de 60 países. Entre as palavras do Santo Padre, destaco:
 
No mundo, na sociedade, há pouca paz também porque falta o diálogo, é difícil sair do estreito horizonte dos próprios interesses para abrir-se a uma verdadeira e sincera comparação. Pela paz é necessário um diálogo determinado, paciente, forte, inteligente, para o qual nada está perdido.  O diálogo pode vencer a guerra. O diálogo faz viver junto pessoas de diferentes gerações, que muitas vezes se ignoram; faz viver junto cidadãos de diversas proveniências étnicas, de diversas convicções. O diálogo é o caminho da paz. Porque o diálogo favorece o entendimento, a harmonia, a concórdia, a paz. Por isto é vital que cresça, que se alargue entre os povos de toda condição e convicção como uma rede de paz que protege o mundo e, sobretudo, protege os mais frágeis.
 
De modo especial, digamos com força, todos, continuamente, que não pode haver alguma justificativa religiosa para a violência. Não pode haver alguma justificativa religiosa para a violência, de nenhum modo que essa se manifeste. (...) Os líderes religiosos são chamados a ser verdadeiros “dialogantes”, a agir na construção da paz não como intermediários, mas como autênticos mediadores. (...) Cada um de nós é chamado a ser um artesão da paz, unindo e não dividindo, eliminando o ódio e não o conservando, abrindo os caminhos do diálogo e não levantando novos muros! Dialogar, encontrar-nos para instaurar no mundo a cultura do diálogo, a cultura do encontro.
 
Para que um diálogo seja possível, é necessário remover os principais obstáculos, inclusive alguns conceitos ultrapassados. Foi isso que aconteceu no início de uma nova fase de diálogo entre católicos e judeus. Em 1963, por ocasião da Sexta-Feira Santa, João XXIII mandou suspender a oração da liturgia que se referia aos judeus por “pérfidos” (leia mais aqui). Naquela mesma época foi dado um passo para frente no diálogo entre católicos e ortodoxos: em 1965, mediante um ato conjunto, o Patriarca Ecumênico Atenágoras e o Papa Paulo VI eliminaram e cancelaram da memória e da vida da Igreja a sentença da excomunhão entre Roma e Constantinopla. Recentemente o Conselho Pontifício da Cultura, inspirado nas palavras do Papa Bento XVI, criou  um projeto chamado "Átrio dos gentios", como lugar de encontro e de diálogo, espaço de expressão para os que não creem e para os que se colocam questões sobre a própria fé, uma janela sobre o mundo, sobre a cultura contemporânea e uma escuta das vozes que aí ressoam.
 
Será possível o diálogo entre as pessoas homossexuais e a Igreja? Quais são os (pre)conceitos que deveriam ser repensados, antes de sentar à "mesa redonda" e conversar?
 
A Igreja, mesmo tendo declarado ser de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam, continua insistindo que a necessária reação diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Em outro documento, a Igreja afirma: A homossexualidade, que impede à pessoa de alcançar  a sua maturidade sexual, seja do ponto de vista individual, como interpessoal, é um problema que deve ser assumido pelo sujeito e pelo educador, quando se apresentar o caso, com toda a objetividade. A ideia de definir a homossexualidade como falta de maturidade, aparece em outros textos e parece ser a base de toda a doutrina da Igreja sobre este assunto.
 
A consequência direta de considerar as pessoas homossexuais como imaturas é a categórica negação de quaisquer direitos, inclusive civis, a essas pessoas. O texto de "Algumas reflexões acerca da resposta a propostas legislativas sobre a não-discriminação das pessoas homossexuais", assinado em 1992 pela Congregação para a Doutrina da Fé, diz, por exemplo:  As pessoas homossexuais, como seres humanos, têm os mesmos direitos de todas as pessoas, inclusivamente o direito de não serem tratadas de maneira que ofenda a sua dignidade pessoal. Entre outros direitos, todas as pessoas têm o direito de trabalhar, de ter uma habitação, etc. Todavia, estes direitos não são absolutos. Podem ser legitimamente limitados por motivos de conduta externa desordenada. Isto, às vezes, é não só lícito, mas obrigatório. (...) Incluir a «tendência homossexual» entre as reflexões, na base das quais é ilegal discriminar, pode facilmente levar a afirmar que a homossexualidade é uma fonte positiva de direitos humanos, por exemplo, no que se refere aos chamados direitos de ação afirmativa ou ao tratamento preferencial no que se refere à admissão ao trabalho. Isto é ainda mais deletério se considerarmos que não existe um direito à homossexualidade, o que não deveria, portanto, constituir a base para reivindicações jurídicas. A passagem do reconhecimento da homossexualidade como fator, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à proteção legislativa e à promoção da homossexualidade. A homossexualidade de uma pessoa seria invocada em oposição a uma discriminação declarada e, assim, o exercício dos direitos seria defendido exatamente mediante a afirmação da condição homossexual, em vez de em termos de uma violação dos direitos humanos básicos. (...) Além disso, existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.
 
Se não fosse tão triste, mereceria uma boa gargalhada. O problema consiste na postura da Igreja que nega às pessoas homossexuais (por serem imaturas) os mais básicos direitos humanos. Muito provavelmente, o direito ao diálogo, encontra-se no meio da lista de "direitos inexistentes", declarada pela Igreja. A minha esperança está nos exemplos da história recente. Os inexistentes (pérfidos) judeus foram, finalmente, considerados dignos de diálogo, assim como os inexistentes (excomungados) ortodoxos, sem falar dos gentios que, apesar desse nome, nitidamente pejorativo, foram admitidos ao "átrio" da Igreja...
 
Quanto à imaturidade, vale a pena citar aqui a opinião de A. W. Richard Sipe, da Escola de Medicina da Universidade John Hopkins (o texto reproduzido no livro "Abuso espiritual & vício religioso" de Matthew Linn, Sheila Fabricant Linn e Dennis Linn; Ed. Verus, Campinas, SP; 2000):
 
É evidente que a Igreja instituída está num estágio pré-adolescente de desenvolvimento psicossexual. Este é um período tipicamente anterior aos 11 anos de idade. (...) Em geral o sexo é exteriormente rejeitado com rigor, mas é secretamente explorado. A severidade se estende a regras rigorosas de inclusão e de exclusão. Controle e anulação são de extrema importância. Essa estrutura instituída, apesar de incluir os indivíduos que a superaram em maturidade, está dominada e entrincheirada num nível de funcionamento que não pode enfrentar as realidades sexuais da adolescência, muito menos a igualdade e sexualidade de homens e mulheres maduros (p. 50).
 
Os autores do livro desenvolvem este pensamento: Uma Igreja estagnada, presa no estágio pré-adolescente de desenvolvimento, é limitada em sua habilidade de lidar com questões sexuais e ditar normas sexuais (...). Assim sendo, muitos católicos questionam as normas da Igreja em assuntos da sexualidade, tais como divórcio, novo casamento, controle de natalidade, aborto, homossexualidade, celibato obrigatório para os padres, ordenação de mulheres e limitações, para os homens, do poder de tomar decisões importantes. Muitas dessas pessoas apreciam os bons valores da Igreja, tais como a sacralidade em todas as circunstâncias da vida humana, a intuição de que a reprodução é um elo sagrado com a criatividade de Deus e o valor sacramental do amor conjugal. Contudo esses valores se perdem nas discussões sobre questões sexuais. Uma das razões por que isso acontece pode ser o fato de a Igreja instituída, que interpreta e promove esses valores, estar frequentemente presa no estágio pré-adolescente do desenvolvimento psicossexual. Assim, a mensagem principal que muitas pessoas recebem não é a dos bons valores da Igreja, mas o medo fundamental das mulheres e da sexualidade. É essa atitude negativa e medrosa que muitas pessoas rejeitam quando questionam os ensinamentos da Igreja sobre sexualidade (p. 50-51).
 
Sem dúvida, a coragem de dialogar, é um dos elementos fundamentais de maturidade.

29 de setembro de 2013

Lázaro ou o rico?

 
Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas. (Lc 16, 19-21)
 
A reflexão sobre o Evangelho de hoje (Lc 16, 19-31) pode ser feita de várias maneiras. Uma delas é aquela que publiquei neste blog em 2011. A riqueza da Palavra de Deus, porém, permite-nos novas descobertas, principalmente, quando fazemos uma "leitura existencial": Observe, conforme a situação que você está vivendo, que personagem se encaixa melhor em você. Coloque-se no lugar de cada um deles (Pe. Léo). "Com quem nos identificamos?". A razão para o uso de tal abordagem é afinar a nossa inteligência, para que possamos, então, começar a levantar certas questões... (Pe. James Alison). Partindo destes princípios, proponho hoje três pontos de vista diferentes, lembrando de que quem está lendo o texto é um homossexual que recebeu o dom da fé cristã e procura cultivá-la, dentro do contexto de sua específica identidade.
 
1. A primeira, mais imediata e mais nítida interpretação, leva-me a identificar a pessoa homossexual na figura de Lázaro e... a Igreja, sendo representada pelo rico. Por que assim? Se olharmos bem à sociedade de hoje, ainda que não seja no sentido popular da palavra, mas quem se veste com roupas finas e elegantes e faz festas esplêndidas todos os dias, é a Igreja. No chão (e, muitas vezes, sem chão), à porta da igreja, sem poder (ou querer) entrar, está o/a homossexual, cheio de feridas. Recordo aqui as palavras do Papa, de sua recente entrevista, que dizia: Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Por sua vez, a Igreja, faz as suas festas esplêndidas, dedicando-as (pelo menos, este é o propósito) a Deus que é Amor. Além disso, a Igreja declara ter o monopólio do amor e é ela quem decide qual forma de amor é correta e permitida. O pobre Lázaro quer matar a fome com as sobras que caem da mesa do rico e, provavelmente, fica na mesma situação do filho pródigo: O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam (Lc 15, 16). A pessoa homossexual tem fome e sede da graça de Deus e do amor humano. Enquanto "o rico" não lhe der a sua permissão, vêm os cachorros lamber as feridas de Lázaro. Sem o acesso à graça e sem a permissão para amar, o Lázaro deixa-se lamber pelos cachorros do sexo casual, da prostituição, da promiscuidade. Uma lambida de cachorro pode, até, trazer o alívio momentâneo, mas, em consequência, agrava o sofrimento. Lázaro, sujo e lambido pelos cachorros, é nojento aos olhos do rico, por isso, cria-se no coração dele uma particular indiferença. O detalhe da parábola de Jesus fala de festas diárias. Imagino aquele rico, saindo e entrando, todos os dias, por aquela mesma porta, diante da qual, no chão, estava o pobre Lázaro. Afinal, o rico precisava resolver muita coisa em relação às festas, mas, certamente, Lázaro tenha se tronado mais um elemento da paisagem ao qual não se presta mais atenção.
 
2. A primeira leitura do Evangelho pode conservar em nós o "coitadismo". Olhar ao mundo e à Igreja, exclusivamente da posição de vítima, certamente não vai fazer bem a ninguém. Eu sei que existe a homofobia e que a luta contra ela é importante. Entretanto, a minha vida não pode se reduzir ao ponto de vista de Lázaro. Como escrevi em 2011, o "mundo gay" estende-se por todas as camadas da sociedade, mas a mídia (inclusive a do próprio "mundo gay") apresenta, mais frequentemente, os homossexuais que se vestem com roupas finas e elegantes e fazem (ou participam de) festas esplêndidas todos os dias. Por sua vez, é conhecida a sensibilidade dos homossexuais em relação a "roupas finas e elegantes", bem maior que dos heterossexuais. Seria possível, então, ler a mesma parábola de Jesus, identificando o/a homossexual com o rico? E, com o rico que fica insensível em relação ao pobre Lázaro? Quem, então, seria representado por Lázaro? Vamos inverter os papeis. Para muitos homossexuais é, justamente, a Igreja que não merece qualquer atenção. Quantos, entre nós, deixam de lado a Igreja, permitindo que seja lambida pelos cachorros (por exemplo, aqueles que só sabem falar mal dela). E da nossa riqueza não cedemos coisa alguma: nem a mera presença, nem os talentos que temos, nem a nossa fé e, menos ainda, a experiência do nosso amor. Talvez a Igreja queira se alimentar com as sobras que caem de nossas mesas, mas ela é, simplesmente, desprezada.
 
3. Talvez uma terceira tentativa de leitura possa ser mais útil. Independentemente do fato de eu ser gay, ou um "ativista" da Igreja, sou chamado à caridade. As periferias, mencionadas tanto pelo Papa, muitas vezes encontram-se diante da minha porta. Jesus disse: Pobres vós tereis sempre convosco (Mt 26 11) e o Apóstolo Pedro, lembra o antigo provérbio: a caridade cobre a multidão dos pecados (1 P 4, 8; cf. Pr 10, 12). O que importa, é a caridade, a sensibilidade, a partilha. É a questão de imitar o Senhor que faz justiça aos que são oprimidos, dá alimento aos famintos, faz erguer-se o caído, protege o estrangeiro e ampara a viúva e o órfão, como dizia o Salmo de hoje (Sl 145). Faz bem fazer o bem. E não apenas para uma satisfação momentânea, mas em vista à eternidade. Além disso, a experiência de Lázaro, assemelha-nos a Jesus, tanto em sua cruz, quanto na glória.
 
Termino com os votos que, tanto aqui, quanto na eternidade, desapareça aquele grande abismo, do qual fala Abraão na parábola: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós (Lc 16, 26).

28 de setembro de 2013

João Paulo I

 
Neste 35° aniversário da morte de João Paulo I (28. 09. 1978), não pretendo falar de teorias de conspiração, intrigas no Vaticano e coisas parecidas. Quero agradecer a Deus por este raio de luz que iluminou a Igreja durante 33 dias. O "Papa do sorriso" deixou poucas palavras, mas vale a pena recordar algumas, pois não perderam a sua atualidade e, sem dúvida, podemos identificar nelas uma espécie de testamento espiritual daquele que, desde então, acompanha-nos como intercessor.
 
O site oficial da Santa Sé disponibiliza 29 textos, escritos ou pronunciados pelo Papa João Paulo I, entre homilias, discursos, cartas e mensagens. Vale a pena recordar aqui algumas de suas palavras:
 
  • Na aula de filosofia dizia-me o professor: — Tu conheces a torre de São Marcos? — Conheço. — Isso significa que ela entrou dalgum modo na tua mente: fisicamente ficou onde estava, mas no teu íntimo ela imprimiu quase um retrato seu, intelectual. Mas tu, por tua vez, amas a torre de São Marcos? Significa isto que aquele retrato te impele de dentro e te inclina, quase te leva e te faz ir, com o espírito, até à torre que está fora. Numa palavra: amar significa viajar, correr com o coração para o objeto amado. Diz a Imitação de Cristo: quem ama "currit, volat, laetatur": corre, voa e alegra-se (Imitação de Cristo, 1. III, c. V, n. 4). [Audiência, 27. 09. 1978]
  • As vezes diz-se: "estamos numa sociedade toda estragada, toda sem moral". Mas tal afirmação não é verdade. Há ainda tanta gente boa, tanta gente honesta. Pergunte-se antes: Que fazer para melhorar a sociedade? Eu responderia: Procure cada um de nós ser bom e contagiar os outros com uma bondade toda penetrada pela mansidão e pelo amor ensinado por Cristo. A regra de ouro de Cristo foi: "Não fazeres aos outros aquilo que não queres te seja feito a ti. Fazeres aos outros o que queres te seja feito a ti. Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". (...) Não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode. Peçamos ao Senhor a graça de que uma nova onda de amor para com o próximo invada este pobre mundo. [Angelus, 24. 09. 1978]
  • Uma alvorada de esperança paira sobre o mundo, mesmo se, de vez em quando, trevas densíssimas — que se distinguem pelos sinistros fulgores do ódio, do sangue e da guerra — parecem obscurecê-la. O humilde Vigário de Cristo, que, de ânimo tímido mas cheio de confiança, inicia a sua missão, está inteiramente pronto a servir a Igreja e a sociedade civil, sem qualquer discriminação de raças ou de ideologias, com o objetivo de que para o mundo nasça um dia mais claro e mais suave. [Radiomensagem, 27. 08. 1978]

27 de setembro de 2013

Causar


 
De uns tempos pra cá observo o surgimento de novas expressões linguísticas, principalmente entre os jovens e no ambiente das redes sociais. Eu sei que o fenômeno em si é tão antigo quanto a própria humanidade e os idiomas continuam evoluindo, sendo esse o sinal de sua vitalidade. Pois é... Um dos termos que conseguiu se instalar fora das conversas na net, é "causar" (recentemente ouvi isso da boca de uma funcionária - não tão jovem assim - no supermercado). Antigamente as pessoas causavam escândalos, revoluções, comoção, comentários, etc. Hoje em dia, estão apenas... causando. Pode ser até boa essa falta de um substantivo, após o verbo, pois deixa a avaliação da coisa por conta do espectador. Por outro lado, se o "causar" for o único objetivo, eu fico na dúvida em relação aos motivos desse tipo de ação. Como naquele antigo ditado "mal ou bem, mas falem de mim". Enfim, os fenômenos surgem e desaparecem e, talvez, a sobrevivência do "causar" esteja, justamente no... causar.
 
No último dia 25, o artista e fotógrafo espanhol, residente na Itália, Gonzalo Orquín, "causou", exibindo em uma galeria de Roma, 16 fotografias de casais homossexuais, tiradas no interior das igrejas da cidade, sugerindo aquele momento da cerimônia de casamento em que o padre diz: "agora pode beijar a noiva" (veja aqui e aqui).
 
 
De acordo com a mídia internacional (aqui, em inglês), o Vaticano "causou", logo em seguida: "Chegou uma carta do Vicariato de Roma, informando que a Igreja se posiciona contra a exposição. Conversei com os advogados e por razões de segurança decidimos não mostrar as fotos" - disse Orquín à imprensa. O porta-voz do Vicariato de Roma, Claudio Tanturri, disse que as fotos violam a Constituição italiana. "A Constituição italiana garante o respeito pelos sentimentos religiosos das pessoas e o papel dos lugares de culto. Portanto, as fotos não são adequados e não se conformam com a espiritualidade do lugar, ofendem um lugar para a expressão da fé ". O Vicariato de Roma confirmou o envio da carta e ameaçou tomar medidas legais, caso as fotos (que "poderiam ferir os sentimentos religiosos dos fiéis") não fossem retiradas. Gonzalo Orquin disse que todas as dezesseis fotos da exposição foram tiradas em igrejas da cidade, com as pessoas, tanto gays e heterossexuais que se ofereceram para aparecer nas imagens.

Anteriormente - na ocasião do "beijaço para Bento XVI" em Barcelona (2010) - escrevi aqui sobre a minha opinião (negativa) a respeito de certas formas de manifestações que, a princípio, seriam realizadas em prol da visibilidade e dos direitos de pessoas homossexuais. Houve, depois, o "beijaço para o Papa Francisco", aqui no Rio, durante a JMJ. Mais tarde "explodiu a bomba" com o beijo de duas mulheres, durante um culto evangélico, presidido pelo pastor (e deputado federal) Marco Feliciano.
 
Confesso que hoje a minha opinião já não é mais tão negativa. Acho interessante o fato de que a arma do protesto tenha sido o beijo, ou seja, algo totalmente oposto à violência . Podemos começar a discutir aqui sobre essa expressão de carinho e intimidade que o citado pastor tenha definido como "ato de vilipendiação ou de baderna" e o Vicariato de Roma, como algo que viola a Constituição do país, ofende um lugar para a expressão da fé e pode ferir os sentimentos religiosos dos fiéis. Aos mais ofendidos em seus sentimentos religiosos fundamentalistas que quiserem logo trazer a comparação com o beijo de Judas ("Judas, com um beijo trais o Filho do Homem" Lc 22, 48), quero citar outra frase de Jesus (de sua conversa com o fariseu Simão): "Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. (...) Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor." (Lc 7, 45. 47).  Antes, vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: “Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora” (Lc 7, 39-40). A mulher "causou" - o fariseu ficou escandalizado, Jesus, por sua vez, comovido e admirado.
 
A conclusão, portanto, pode ser essa: o "causar" pode ser uma ótima ocasião para avaliarmos os nossos pontos de vista. Certamente é isso que os "causadores" têm em mente, ao tomarem as suas atitudes. Afinal, o maior "causador" na história é o próprio Jesus...