ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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8 de setembro de 2013

Sabedoria da renúncia

 
A Liturgia da Palavra neste 23° Domingo do tempo comum traz a mensagem sobre a sabedoria da renúncia. É preciso saber renunciar e ao que renunciar. É preciso renunciar para alcançar a sabedoria. O texto principal, como sempre, é o Evangelho (Lc 14,25-33) e nele destaca-se a frase de Jesus: "Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo." (v. 27) e outra: "(...) qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!" (v. 33).
 
A mais frequente interpretação aponta aqui a renúncia aos bens materiais. Quase sempre, fala-se, também, de renúncia ao pecado. Não tem nada de errado neste ponto de vista, desde que a própria interpretação não se limite apenas nele. Temos, pois, muito mais coisas para renunciar, o que nos sugere o próprio conjunto de textos deste dia. A primeira leitura (Sb 9,13-18) e o Salmo responsorial (Sl 89) falam de sabedoria e da pequenez do homem diante dela. Indiretamente, portanto, apontam a necessidade de renúncia da própria "sabedoria" (ou inteligência) humana e à exagerada confiança depositada nela: "Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus?" (Sb 9, 16). Admitir não ser o "dono da verdade" requer a humildade, a mesma que Sócrates expressou dizendo: "Só sei que nada sei".
 
Na segunda leitura, o Apóstolo Paulo, recorre, exatamente, a este argumento, ao solicitar ao seu amigo e irmão na fé, a renúncia aos critérios de costumes da época, além de todos os argumentos emocionais, intelectuais e legais (Fm 9b-10.12-17). Renunciar a si mesmo e a tudo que se possui, neste contexto, significa abrir mão de seu próprio ponto de vista, por mais que ele tenha sido apoiado pelos costumes e leis em vigência. Olhar a Onésimo não mais como a um escravo culpado, mas sim, como a um irmão em Cristo e um irmão querido, é a verdadeira revolução.
 
Para nós, o "povo GLBTTS", é uma mensagem de esperança, desde que alguém queira seguir esta orientação da Palavra de Deus. Por que enxergar em cada um de nós apenas esta ou aquela orientação sexual? Inclusive, o próprio termo, leva à associação direta ao ato sexual, embora a palavra "sexo" não se limite apenas a isso. Se eu disser que a criança que nasceu é de sexo masculino, isso não vai significar que um bebê esteja realizando um ato sexual. Todos os "donos da verdade" que abominam até a própria existência das pessoas diferentes em relação ao "padrão" heterossexual, esquecem da verdade revelada por Deus: "Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus?" 
 
Um pouco mais humildade encontramos na afirmação da Igreja que diz: "A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atração sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar" (CIC 2357). Em outro "texto fundamental", a Igreja diz: "A Igreja, guardiã do depósito da palavra de Deus do qual tira os princípios para a ordem religiosa e moral, ainda que não tenha sempre resposta imediata para todos os problemas, deseja unir a luz da revelação com a perícia de todos, para que se ilumine o caminho no qual a humanidade entrou recentemente." (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral "Gaudium et Spes", n. 33) O mesmo documento, um pouco antes, afirma também: "Dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos os homens têm a mesma natureza e mesma origem; redimidos por Cristo, todos gozam da mesma vocação e destinação divina; deve-se portanto reconhecer cada vez mais a igualdade fundamental entre todos. Na verdade nem todos os homens não se equiparam na capacidade física, que é variada, e nas forças intelectuais e morais, que são diversas. Contudo qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa, seja ela social ou cultural, ou funde-se no  sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião deve ser superada e eliminada,  porque contrária ao plano de Deus. É de lamentar realmente que  aqueles direitos fundamentais da pessoa não sejam ainda garantidos por toda a parte. É o caso quando se nega à mulher a faculdade de escolher livremente o seu esposo, de abraçar seu estado de vida ou o acesso à mesma cultura e educação que se admitem para o homem. Além disso, ainda que haja entre os homens justas diferenças, a igual dignidade das pessoas postula que se chegue a uma condição de vida mais humana e mais equitativa. Pois as excessivas desigualdades econômicas e sociais entre os membros e povos da única família humana, provocam escândalo e são  contrárias à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e à paz social e internacional. As instituições humanas, particulares ou públicas, se esforcem por servir à dignidade e ao  fim do homem. Ao mesmo tempo lutem denodamente contra qualquer espécie  de servidão tanto social quanto política e respeitem os direitos fundamentais do homem sob qualquer regime político. Além disso, é necessário que estas instituições pouco a pouco se adaptem às exigências espirituais, superiores a tudo, ainda que às vezes seja necessário um tempo bastante longo para chegarem ao fim desejado" (n. 29).

5 de setembro de 2013

Dois depoimentos

Publico dois vídeos, cada um com o depoimento sobre a homossexualidade e a possibilidade/necessidade da aceitação pela família. Esta postagem poderia ser intitulada como "em nome do pai e do filho", mas como escrevo aqui sobre os assuntos ligados à religião, tal frase, certamente, teria causado uma confusão (embora, a aceitação de um filho, ou uma filha homossexual, feita "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", seja a melhor de todas!). Os depoentes aqui apresentados não são, literalmente, pai e filho (quer dizer, um não é o filho do outro), mas, de certa maneira, representam milhares de pais e filhos.

Allex, um jovem gay, fala sobre a dificuldade de "sair do armário". Quem quiser, acesse este vídeo diretamente no YouTube e leia os comentários. A maior polêmica foi causada pelo fato de Allex ter usado o termo "dom" em relação à homossexualidade. Queria contribuir aqui para tal entendimento, citando a opinião de um padre jesuíta, James L. Empereur que, em seu livro "Direção espiritual e homossexualidade" (Edições Loyola; São Paulo, 2006), referindo-se aos homossexuais cristãos (mas que, na minha opinião, pode ser estendido a todos os outros... já citei este livro aqui):
 
Os gays cristãos possuem um carisma análogo ao carisma de uma vocação religiosa. (...) O que diferencia o carisma do homem gay do carisma de um homem membro de uma ordem religiosa é que o do homem gay é um carisma sexual. Assim como Deus ofereceu certo dom aos sacerdotes, irmãos ou irmãs na vida religiosa para que seguissem o evangelho com certo caráter público, assim Ele ofereceu aos homens gays e mulheres lésbicas um dom sexual especial, que exibe de maneira pública a diversidade e a beleza de Deus em nosso mundo. Todas as criaturas de Deus expõem a obra de Deus, mas o mundo também precisa de variação para que a riqueza dessa obra seja inequivocamente evidente. Deus dá a gays e lésbicas a variação um tanto surpreendente de sua sexualidade para ajudar seus irmãos e irmãs a ter uma compreensão maior da realidade de seu Deus.
 
O segundo vídeo transmite belas palavras de um pai que ama o seu filho gay. É o senhor Paulo Próspero que tive a honra de ouvir, ao vivo, no "I Encontro de Relatos e Experiências", promovido pelo Grupo Diversidade Católica, durante a JMJ no Rio, em julho deste ano (veja aqui as impressões do evento). O depoimento dele, publicado aqui, foi exibido no programa da TV Globo "Encontro com Fátima Bernardes", em março deste ano. A frase que se torna um resumo de mensagem de Paulo Próspero para cada pai e cada mãe de filho, ou filha de homossexual, pode ser essa: "O resultado que se tem, quando a gente aceita um filho, é uma coisa espetacular!".  
 
O depoimento de Allex:
 
 
O depoimento de Paulo Próspero:
 
 

28 de agosto de 2013

O direito de existir


 
Como de costume, o contexto desta reflexão é, digamos, multifocal. De um lado a comemoração dos 50 anos do discurso de Martin Luther King ("I have a dream"), de outro, a memória litúrgica de Santo Agostinho e, sempre como uma espécie de pano de fundo, a experiência de um homossexual que busca as respostas em Deus. Há uma analogia entre toda a batalha contra o racismo (simbolizada na trajetória e no martírio de Martin Luther King) e a luta, ainda em andamento, pelos direitos de GLBTT. Entre estes direitos destaca-se o reconhecimento da própria existência: "Sim, nós existimos, somos reais, ainda que diferentes, mas, justamente pelo fato de existir, temos o direito de sermos conhecidos e respeitados". Bem, no caso da luta contra o racismo, ninguém negava a existência real das pessoas com a cor da pele diferente daquela mais clara. O problema era (e, para muitos, infelizmente, ainda é) a ideia de que teriam sido seres inferiores, por isso não mereceriam gozar dos mesmos direitos. Em relação aos "não-heterossexuais", há quem duvide em sua existência, mas isso deve ter sido motivado pela burrice, ou má vontade (todas aquelas teorias sobre um "passageiro estado de confusão emocional" e outras ainda mais bizarras). Em geral, porem, já podemos dizer que a nossa existência é admitida. Agora a batalha é pelos direitos, pela igualdade, pelo respeito - tudo isso, como o primeiro grau para, finalmente, subir à altura de uma convivência verdadeiramente fraterna. Resumindo: quero que você admita o fato da minha existência, depois que você não me despreze, a fim de podermos, futuramente, conviver no estado de verdadeira harmonia, paz e - como Cristo quer - no amor mútuo.
 
É justamente neste contexto que trago aqui alguns trechos de uma grande obra de Santo Agostinho, "O livre arbítrio" (o arquivo em pdf, com o texto inteiro, pode ser lido aqui).
 
A ideia inicial é esta: "Todos os seres, pelo fato de existirem, são, com todo direito, dignos de serem apreciados. Porque, pelo simples fato de existirem, são bons" (Livro III, cap. 7, n. 21). Um pouco mais adiante, Agostinho continua: só a inveja poderia levar a dizer: "Esta realidade não deveria existir assim". Ou ainda: "Aquela deveria ser de outro modo". (...) E aquele que dissesse: "Esta aqui não deveria existir" seria igualmente mau e invejoso, visto que, ao recusar-lhe a existência, ver-se-ia forçado a considerar tal outra menos perfeita. Seria, por exemplo, como se dissesse: "A lua não deveria existir". Ora, a claridade de uma candeia que seja, ainda que bem inferior, continua bela em seu gênero e agradável, quando as trevas cobrem a terra, e assim mostra-se ela bem apropriada aos afazeres noturnos. Devido a tudo isso, meu interlocutor deve bem confessar que a referida candeia é digna de ser louvada em sua humilde limitação. Negá-lo, seria próprio de um doido ou de um obstinado. Como, pois, ousar dizer convenientemente: "A lua não deveria existir entre os seres", quando ao dizer: "A candeia não deveria existir", essa pessoa já é digna de zombaria? E caso não afirmasse: "A lua não deveria existir", mas sim: "Deveria ser semelhante ao sol", ela não se daria conta de que esse desejo reduz-se a : "A lua não deveria existir, mas deveria haver dois sóis". Nisso engana-se duplamente, porque acrescentar ao mesmo tempo nova perfeição às coisas que já são perfeitas em sua natureza é desejar como que outro sol. E diminuir a sua perfeição é como desejar eliminar a lua.
Talvez meu interlocutor dirá, a propósito desse exemplo, que ele não se lamenta de modo algum a respeito da lua, porque o esplendor menor que ela possui não é de natureza a torná-la infeliz. Mas que é a respeito das almas que ele se contrista. Não devido à obscuridade delas, mas, precisamente, por causa do seu estado de desgraça. Seja, mas que ele considere então, atentamente, que se a lua não é infeliz por sua opacidade, do mesmo modo o sol não é feliz por seu brilho. Pois, ainda que sendo corpos celestes, são contudo corpos e, pelo que diz respeito à luz, são capazes de serem percebidos por nossos olhos corporais: nunca, porém, os corpos como corpos podem sentir felicidade ou desdita, ainda que possam ser corpos de seres felizes ou infelizes. Mas a comparação tirada desses corpos luminosos ensina-nos o seguinte: contemplando a diversidade dos corpos, vês uns mais brilhantes do que outros, mas estarias no erro ao pedir a supressão dos mais obscuros ou o nivelamento com os mais brilhantes. Pois, se os consideras a todos em sua relação com a perfeição do universo, quanto mais eles diferem de brilho entre si, mais te é fácil constatar que todos eles existem. Aliás, o conjunto não te parece perfeito, senão porque coexistem corpos mais nobres com outros mais humildes. Considera, por aí, igualmente, a diversidade existente nas almas e encontrarás como compreender que essa miséria da qual te lamentas também possui seu papel na perfeição do universo. 
(Santo Agostinho, "O livre arbítrio"; Livro III, cap. 9, n. 24-25)
 

24 de agosto de 2013

Descobrir o essencial


 
 
Lembro-me de um professor da minha faculdade que, em uma das aulas de metodologia, falava sobre o fenômeno de generalização. Há quem acredite - dizia ele - que os anões e as loiras são a causa de todos os males na  história da humanidade. As generalizações, além de comprovarem uma considerável falta de inteligência, costumam ser perigosas, o que nos mostra, justamente, a história da humanidade.
 
Feita essa ressalva e apesar da mesma, vou recorrer a uma generalização. Creio que a falta de reflexão mais profunda e a consequente incapacidade de compreender as coisas, ou até as palavras, são, de fato, a causa de uma enorme parte dos males que atingem a humanidade, inclusive e em particular, a nós, os homossexuais.
 
Vejamos a questão, talvez, mais delicada e dolorosa e que nos incomoda tanto, mas também nos inspira para retomarmos a briga, a luta, ou - melhor entre todas as opções - o diálogo. É um verdadeiro paradoxo. De um lado, aqueles que acreditam em Deus, em particular, os cristãos, têm o acesso à verdade sobre a vida, a natureza do ser humano, a sua origem e a meta de sua existência. Por outro lado, são os mesmos religiosos e, de novo, em particular os cristãos, que nutrem dentro de si o mais autêntico ódio em relação aos seres humanos que possuem uma orientação sexual diferente daquela que é considerada clássica (ou a única correta), isto é, a heterossexual. Aliás, o clássico nesta história é o próprio ódio que até mereceria ser chamado de "ódio cristão".
 
Vamos aos pormenores. Em vários momentos de sua pregação, Jesus usa o exemplo de administração dos bens que pertencem ao patrão, ou rei - no caso, ao próprio Deus. Constatamos com facilidade que um dos principais bens entre todos que nos foram entregues (arrendados) por Deus é a própria vida: em primeiro lugar, a nossa, mas também a vida de outras pessoas, neste caso, em graus diferentes, de acordo com a natureza dos laços que nos unem com aquelas pessoas. Destacam-se aqui, evidentemente, os laços entre pais e filhos, entre irmãos de sangue e outros parentes, entre cônjuges e assim por diante. Até aqui, como parece, não escrevi nada que tenha sido especialmente revelador. Acredito, porém, que seja necessário começar pelos fundamentos, por mais óbvios que pareçam.
 
Na celebração do Sacramento do Matrimônio, os noivos respondem afirmativamente à pergunta (entre outras) sobre os filhos. "Estais dispostos a receber com amor os filhos que Deus vos confiar, educando-os na lei de Cristo e da Igreja?". Com outras palavras: todos os seres humanos pertencem a Deus, são a sua propriedade exclusiva e é Ele quem entrega um, ou mais, a outros seres humanos que se tornam assim os administradores deste grande bem, a vida humana que, entretanto, continua a pertencer a Deus. É neste contexto que vale a pena reler todas as parábolas de Jesus, sobretudo aquelas que falam da vinha e dos agricultores. É claro que os agricultores lucram com a vinha e os seus frutos, mesmo assim, nunca se tornam verdadeiros donos, pois trata-se da propriedade de um senhor. Este, por sua vez, espera e cobra a parte que lhe cabe. Assim, os pais lucram com a vida dos filhos, bem como os esposos, irmãos, parentes, amigos, membros de uma comunidade... É claro que não se trate de um lucro material, mas sim, espiritual. Todos se beneficiam com a presença do outro e todos são responsáveis, diante de Deus, pela vida dos outros, repito: cada qual, no grau que é próprio para cada tipo de laço existente entre as pessoas. Na parábola do Bom Samaritano Jesus afirma que somos responsáveis, até mesmo pelos desconhecidos.
 
Há uma verdade, revelada em forma de pergunta, na parábola que conta a história de trabalhadores da vinha, contratados em diversos horários do dia. Na hora do pagamento e diante da murmuração daqueles que esperavam o prêmio adicional por terem suportado o calor do dia inteiro, porém acabaram sendo igualados a outros que trabalharam apenas uma hora, o patrão responde com simplicidade: "Companheiro, não estou sendo injusto contigo. Não combinamos diária? Toma o que é teu e vai! Eu quero dar a este último o mesmo que dei a ti. Acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?" (Mt 20, 13-15).
 
Acaso, Deus não tem o direito de fazer o que quer com a vida humana que lhe pertence e é apenas administrada por nós?
 
Com outras palavras: "Amados pais! Não combinamos a sua tarefa de acolher com amor e educar os filhos que me pertencem? Seguindo esta vocação vocês contarão com o meu auxílio e irão receber o prêmio da vida eterna. Tenho, porém, o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence. Posso fazer com que a vida do seu filho dure apenas alguns dias, ou muitos anos, que seja marcada por uma brilhante inteligência, pelos dons e talentos extraordinários, ou carregue algo que vocês chamam de deficiência, mas, aos meus olhos, é um carisma especial. Pode, igualmente, ser definida (ou, se preferirem o termo: permitida) por mim como hetero ou homossexual. Eu posso fazer o que quero com aquilo que me pertence. A vocês cabe acolher, amar e cuidar, para depois devolver a mim".
 
Como é que você, em primeiro momento, pede para ter filhos, fica feliz quando os recebe e, depois de certo tempo, afirma que não os quer mais, que não foi assim que você imaginava e por isso essa, ou aquela pessoa não é mais o seu filho, ou a sua filha? E tudo isso porque o filho é diferente da maioria. Um dos argumentos mais repetidos é: "o que os outros vão dizer de mi?". É tão fácil esquecer de que na prestação de contas, o que vai importar é aquilo que diz a nosso respeito Deus e não os outros. "Muito bem, empregado bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu confiar-te-ei muito mais. Vem participar da minha alegria!" (Mt 25, 21).
 
É como naquela história que contam sobre uma mulher que foi conversar com o padre, pois estava apavorada, ao descobrir que sua filha Catarina era lésbica. O padre ouviu o desabafo da mulher e pediu que ela orasse bastante, repetindo diante de Deus, com frequência e durante vários dias, uma pergunta: "Meu Deus! Quem é Catarina?". A mulher relatou depois que quando tentava ouvir a resposta de Deus nos momentos de silêncio, recomendados pelo padre, durante vários dias ouvia apenas o grito: "Catarina é lésbica, é pecadora, suja e nojenta! Catarina é uma vergonha!". Percebia, porém, que foi o seu coração, a sua mente e as suas emoções que lhe forneciam tal resposta. Depois de certo tempo começou a ouvir, cada vez mais nitidamente, a resposta: "Catarina é a minha filha". A própria memória ajudou-lhe a percorrer pelos momentos mais felizes que ela tinha experimentado com a filha, desde a sua gestação. Inicialmente, esta associação das recordações felizes com a "terrível descoberta", trazia desconforto, mas, finalmente, a mulher enxergou a verdade: "Em sua essência, Catarina é a minha filha. É minha filha amada e nada vai mudar isso!". Esta afirmação libertadora levou a mulher à descoberta ainda mais importante. Catarina, na verdade e antes de tudo, é a filha amada de Deus e foi Ele quem me encarregou a administrar este bem tão precioso que, ainda que sob os meus cuidados, pertence a Ele. Eu fui escolhida para cuidar dela com amor e, depois, devolvê-la nas mãos do Senhor. É isso que, a partir de hoje, vou fazer, em vez de julgar, criticar, condenar, ou rejeitar. Amar significa acolher e cuidar, tentar compreender, fazer de tudo para defender. É isso que vou fazer.
 
É bom acrescentar que esse processo não foi rápido, nem fácil, mas foi possível, porque a mulher não parou na superfície da reflexão. Ela avançou para as águas mais profundas e somente assim foi capaz de descobrir a verdade sobre Deus, sobre si mesma, sobre a sua filha e sobre o mundo em geral. Tornou-se uma mulher nova, foi curada de preconceito, cuja raiz - o egoísmo, reforçado pela soberba - foi arrancada do seu coração. Naquele dia a salvação entrou em sua casa (cf. Lc 19, 9).
 
Há um tempo, a telenovela "Amor à vida", exibida pela TV Globo, aborda, entre outros, o assunto da relação de um pai para com o seu filho gay. As cenas e as conversas chegam a ser irritantes. Provavelmente por terem sido muito reais...

22 de agosto de 2013

Os poloneses LGBT escrevem ao Papa

 
 
O grupo ecumênico polonês de cristãos LGBTQ  (lesbians, gays, bisexuals, transsexuals, queers)  "Wiara i Tęcza" (em português: "Fé e Arco-íris"), no último dia 20 de agosto, enviou ao Papa Francisco uma carta. No site do grupo (aqui), além da versão original em polonês, encontra-se, também, o texto em inglês. Pode ser localizada, também, a versão em inglês de um resumo sobre o Grupo (aqui).
 
Publico aqui uma tradução livre desta carta:
 
 
Varsóvia, 20 de agosto de 2013
Sua Santidade
Santo Padre Francisco
Papa
Segrataria di Stato
Palazzo Apostolico
00120 Città del Vaticano
 
"O Reino do Céu é ainda como uma rede lançada ao mar.
Ela apanha peixes de todo tipo".
Mt 13,47
 
 
Querido Santo Padre,
recebemos uma notícia feliz de que, ao retornar do encontro com a juventude no Brasil, o Senhor referiu-se com compreensão e simpatia às pessoas de orientação sexual diferente da heterossexual. Gostaríamos de lhe assegurar que existem na Igreja e diante das suas portas muitas pessoas que, há muito tempo, estavam esperando por estas palavras. Essas pessoas viviam, por muito tempo, com a sensação de injustiça, opressão, solidão e rejeição que experimentavam por parte da querida para elas  comunidade de sua própria Igreja. O exemplo de suas palavras, com certeza, irá ajudar a superar na Igreja tão dolorosa para nós desconfiança, o até aberta hostilidade, por parte dos nossos irmãos na fé.
 
Somos um grupo ecumênico polonês de cristãos LGBT, na maioria católicos romanos. Escolhemos o nome de "Fé e Arco-íris", para expressar as irredutíveis características de nossa identidade. Desejamos permanecer fiéis à comunidade da Igreja, porém não vemos a possibilidade de renunciar à específica da vida amorosa que nos foi concedida para compartilhar.
 
Acreditamos que com essa especial natureza da vida amorosa agraciou-nos, de acordo com a sua vontade, o próprio Deus, para que pudéssemos descobrir a sua misteriosa presença nos caminhos diferentes do que a maioria das pessoas. Cremos, também e nisso apoia-nos a convicção baseada no atual conhecimento científico sobre o ser humano, de que esse caminho da vida amorosa é de um direito igual ao do caminho das pessoas heterossexuais. Enxergamos a esperança no cumprimento dos ensinamentos revelados a nós por nosso Senhor Jesus Cristo, com os quais inspiram-se, geralmente, as pessoas de boa vontade que esperam a vinda do Seu Reino. Esses ensinamentos são: a amizade, o respeito mútuo, o cuidado, a fidelidade, a sinceridade e todas as outras regras, pelas quais os cristãos põem em destaque a dignidade humana em cada pessoa, as mesmas que menosprezaram em seu comportamento os habitantes da antiga Sodoma.
 
Há muito tempo aguardávamos as palavras de conforto e consolação - hoje agradecemos por elas a Deus, pois despertam em nós a esperança para o futuro. Continuaremos esperando, até passarem os tempos difíceis, assim como baixaram outrora as águas do dilúvio bíblico. Cansados com a inundação de intolerância, buscamos no horizonte o arco-íris de reconciliação e ternura, que encerrará os tempos, em que obriga-se nos a viver em isolamento e clandestinidade, com medo dos nossos próximos. Confiamos que chegarão dias, nos quais, em uma igualdade com os outros, poderemos, de maneira que nos é própria, experimentar o grande dom e sinal da presença de Deus no mundo - o insondável mistério do amor.
 
Pedimos, Santo Padre, a sua recordação e a oração - ao nosso Deus que é o próprio Amor.
Garantimos-lhe, também, a nossa oração na intenção de Vossa Santidade e de toda a Igreja.
 
Cristãos poloneses LGBT do Grupo "Fé e Arco-íris".
 
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OBS: A foto (uma montagem que inclui o logotipo do Grupo "Fé i Arco-íris") tem a finalidade de ilustrar a esperança de uma resposta. Afinal, o Papa Francisco - pelo que contam - costuma responder às cartas recebidas, inclusive de pessoas simples e pobres...


25 de julho de 2013

Andorinha é indispensável



Acabo de chegar do 1° Encontro de Relatos e Experiências: "O JOVEM HOMOSSEXUAL NA IGREJA", promovido pelo Grupo Diversidade Católica, no contexto da Jornada Mundial da Juventude Rio 2013. É impossível descrever tudo em poucas palavras. A primeira coisa que me vem à mente é uma cena do filme "Karate Kid", em que o mestre Sr. Han leva o garoto Dre a um monastério Shaolin, subindo as longas escadas. Ao entrarem numa das salas do templo o Sr. Han lhe apresenta uma mesa de pedra, com a fonte de água jorrando por dentro dela e diz: ''Essa é a água mágica do Kung Fu, se você beber dela, nada pode te derrotar''. Mais detalhadamente, é o jeito de beber aquela água, mergulhando a cara inteira, que me vem à mente, ao tentar resumir as minhas sensações, depois do encontro de hoje. A realidade é tão profunda e rica que seriam necessárias horas e mais horas, para poder conversar mais e compartilhar relatos e experiências com maior atenção. Sou - muito provavelmente - um sonhador obstinado, mas logo imaginei as próximas JMJ, com esse Encontro, incluído em sua programação oficial. Impossível? Algum tempo atrás, a visão de uma mulher de calça, também considerava-se impossível. Sim, passou pela fase de ser um escândalo (de origem diabólica), até chegar a ser algo considerado, simplesmente, normal. Tudo bem, o processo da aceitação de um "mundo GLBTS" na Igreja (e vice-versa) é muito mais complexo e demorado, mas a dinâmica é a mesma. Sobre essa dinâmica conversei com um dos participantes do encontro, já no caminho para o lanche. Fiquei com o desejo de muitos outros encontros desse tipo. Foi ótimo rencontrar "velhos" amigos e amigas e, finalmente, ver alguns outros que, conhecidos em uma dimensão virtual, tornaram-se reais.

Dizem que uma andorinha não faz verão. Talvez não o faça, mas é indispensável!

Parabéns, Diversidade Católica e todos que estiveram presentes! Obrigado!

5 de outubro de 2011

o povo GLBTS

São Benedito, celebrado hoje, nasceu na Itália por volta do ano de 1526 no seio de família pobre, descendente de escravos oriundos da Etiópia, daí o fato de ser chamado de Benedito, o Preto ou Mouro. Uniu-se aos eremitas organizados por São Jerônimo de Lanza por desejar entregar-se a uma vida de maior perfeição cristã, já que eles viviam conforme a regra de São Francisco de Assis, tanto assim que foi a sua observância que mereceu o cargo de superior daquela corporação de eremitas. Assumiu com dedicação e responsabilidade o cargo de mestre de noviços, e terminando o seu tempo de superior, voltou com a máxima simplicidade e naturalidade para os serviços da cozinha, onde ficou até a sua morte, em 05 de abril de 1589.

A oração da Missa diz: Ó Deus, quem em são Benedito, o Negro, manifestais as vossas maravilhas, chamando à vossa Igreja homens de todos os povos, raças e nações, concedei, por sua intercessão, que todos, feitos vossos filhos e filhas pelo batismo, convivam como verdadeiros irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

A expressão “homens de todos os povos, raças e nações” chamou a minha atenção. Primeiro, fui procurar no Dicionário do Aurélio (on-line aqui). Povo s.m. Conjunto de homens que vivem em sociedade. / Conjunto de indivíduos que constituem uma nação. / Conjunto de indivíduos de uma região, cidade, vila ou aldeia. / Conjunto de pessoas que não habitam o mesmo país, mas que estão ligadas por sua origem, sua religião ou por qualquer outro laço. / Conjunto dos cidadãos de um país em relação aos governantes. / Conjunto de pessoas que pertencem à classe mais pobre, à classe operária ou à classe dos não-proprietários; plebe. / Lugarejo, aldeia, vila, pequena povoação: um povo. / Público, considerado em seu conjunto. / Multidão de gente, as massas. / Fam. Família, a gente da casa.

Daí o termo que usei no título desta postagem: “o povo GLBTS”. Ainda que existam diferenças de pensamento e de comportamento, além de certas animosidades (talvez inevitáveis por ora), sem dúvida podemos falar de um “povo”. Se, portanto, Deus quis formar a Igreja de todos os povos, obviamente, é impossível excluir dessa realidade o povo GLBTS. Quem procura fazê-lo, esta pecando contra a vontade de Deus.

Os textos oficiais da Igreja católica, naquele seu típico estilo medroso (pois vai muito além de cautela), mencionam indiretamente a existência de tal “povo”. Infelizmente, tudo o que tem de dizer nesse assunto, a Igreja faz em tom de advertência. Vejamos uns trechos da “Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais”, assinada em 1986 pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, atual Papa Bento XVI (na íntegra aqui):

(...) Um número cada vez mais largo de pessoas, mesmo dentro da Igreja, exerce fortíssima pressão para levá-la a aceitar a condição homossexual como se não fosse desordenada e a legitimar os atos homossexuais. Os que, no interior da Igreja, pressionam nesta direção, frequentemente mantêm estreita ligação com os que agem fora dela. Ora, tais grupos externos são movidos por uma visão oposta à verdade acerca da pessoa humana, verdade que nos foi revelada plenamente no mistério de Cristo. Embora de modo não de todo consciente, eles manifestam uma ideologia materialista, que nega a natureza transcendente da pessoa humana bem como a vocação sobrenatural de cada indivíduo. (...) Mesmo dentro da Igreja formou-se uma corrente, constituída por grupos de pressão com denominações diferentes e diferente amplitude, que tenta impor-se como representante de todas as pessoas homossexuais que são católicas. Na realidade, seus adeptos são, na maioria dos casos, pessoas que, ou desconhecem o ensinamento da Igreja, ou procuram subvertê-lo de alguma maneira. Tenta-se reunir sob a égide do catolicismo pessoas homossexuais que não têm a mínima intenção de abandonar o seu comportamento homossexual. Uma das táticas usadas é a de afirmar, em tom de protesto, que qualquer crítica ou reserva às pessoas homossexuais, à sua atitude ou ao seu estilo de vida, é simplesmente uma forma de injusta discriminação. Em algumas nações funciona, como consequência, uma tentativa de pura e simples manipulação da Igreja, conquistando-se o apoio dos pastores, frequentemente em boa fé, no esforço que visa mudar as normas da legislação civil. Finalidade de tal ação é ajustar esta legislação à concepção própria de tais grupos de pressão, para a qual o homossexualismo é, pelo menos, uma realidade perfeitamente inócua, quando não totalmente boa. (nn. 8-9)

Alguns grupos costumam até mesmo qualificar de «católicas» as suas organizações ou as pessoas às quais pretendem dirigir-se, mas, na realidade, não defendem nem promovem o ensinamento do Magistério; ao contrário, às vezes, atacam-no abertamente. Mesmo reafirmando a vontade de conformar sua vida ao ensinamento de Jesus, de fato os membros desses grupos abandonam o ensinamento da Sua Igreja. Este comportamento contraditório de forma alguma pode receber o apoio dos Bispos. (n. 14)

Deve ser retirado todo apoio a qualquer organização que procure subverter o ensinamento da Igreja, que seja ambígua quanto a ele ou que o transcure completamente. Tal apoio, mesmo só aparente, pode dar origem a mal-entendidos graves. Uma atenção especial deveria ser dedicada à programação de celebrações religiosas e ao uso, por parte desses grupos, de edifícios de propriedade da Igreja, inclusive a possibilidade de dispor das escolas e dos institutos católicos de estudos superiores. Para alguns, tal permissão de utilizar uma propriedade da Igreja pode parecer apenas um gesto de justiça e de caridade, mas, na realidade, ela contradiz as finalidades mesmas para as quais aquelas instituições foram fundadas, e pode ser fonte de mal-entendidos e de escândalo. (n. 17)

Para que não fiquemos totalmente desanimados, termino com outra citação. É do livro de Pe. José Lisboa “Acompanhamento de vocações homossexuais” que, partindo do principio de que “nada impede, nem mesmo uma aprovação pontifícia, que uma lei eclesiástica se torne obsoleta” (p. 72; leia também aqui), apresenta as seguintes orientações:

[Entre outros, um] caso emblemático é aquele da pessoa homossexual que decide viver a sua vocação cristã participando de um movimento de pessoas homossexuais. Quando isso acontece, o papel do animador ou da animadora vocacional é, em primeiro lugar, lembrar ao vocacionado ou vocacionada que tal participação não é algo eticamente neutro. Esse fato tem consequências, especialmente quando se trata de alguém que ocupa uma função paradigmática dentro da comunidade eclesial. Uma vez colocada essa premissa, a pessoa que acompanha quem está em discernimento precisa ajudá-lo a verificar atentamente qual a ideologia que está por trás do movimento. Será indispensável que a pessoa tome consciência do grau de liberdade que o envolvimento num movimento desse tipo deixa para os seus participantes. Às vezes a participação cm associações desse tipo, sobretudo quando são de inspiração cristã, pode ajudar a superar uma serie de dificuldades, especialmente o problema da solidão sofrida pelos homossexuais, em razão do isolamento da sociedade provocado pela discriminação e pelo preconceito. Porém, há casos de grupos fechados e desorientados, verdadeiros guetos, bastante complicados. Estes mais do que ajudar a resolver os problemas só fazem aumentar as dificuldades. Especialmente para aquelas pessoas que ainda não superaram certas dificuldades provenientes da descoberta da sua condição de homossexual.

Thévenot [Pe. Xavier Thévenot, professor de Teologia Moral no Instituto Católico de Paris] acredita que se o homossexual tem clareza da sua situação, conhece bem o ambiente, é capaz de avaliar as propostas do grupo e é suficientemente maduro para reagir a toda tentativa de manipulação e de fechamento do movimento, nada o impede de participar do mesmo. Todavia, lembra ainda esse autor, seria aconselhável que esse não fosse o único compromisso social da pessoa e que ela pudesse avaliar a sua participação com outros cristãos que não fazem parte do movimento homossexual. (pp. 78-79)

2 de outubro de 2011

O princípio da EPIKÉIA

Recebi o comentário no meu texto anterior (aqui) do Pessoal da Diversidade Católica (conheça o blog aqui) e como o assunto é sério e amplo (certamente não para uma simples "resposta ao comentário"), decidi transcrever aqui alguns trechos do livro "Acompanhamento de vocações homossexuais" (autor: Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira). Os grifos no texto são meus.

Uma parte do comentário que recebi diz: É sempre bom quando se percebe que a homoafetividade e o homoerotismo não são problemáticos em si; a grande delicadeza da doutrina do Magistério, hoje, é justamente a premissa de que o homoerotismo é desordenado e, portanto, o homoafetivo deve manter o celibato... Qual a posição desse autor a respeito?

O livro é tão bom que a sinto vontade de transcrevê-lo, praticamente, na íntegra. Como, porém o conceito de um blog não permite isso, vou me controlar [:)] e citar algumas partes mais importantes. O autor fala várias coisas sobre a homoafetividade e o homoerotismo. É verdade que o livro – em sua maior parte - aborda o tema de acompanhamento vocacional destinado àqueles que são chamados ao sacerdócio ou à vida religiosa, mas não deixa de apontar os princípios para o mesmo trabalho para com os católicos leigos que, igualmente, são chamados a diversos ministérios dentro da comunidade cristã.

Padre José Lisboa declara abertamente que não existem razões suficientes para se excluir alguém das nossas comunidades por causa do seu jeito atual de viver a sexualidade. Todavia, a acolhida não deve acontecer por motivos de piedade, como se a pessoa homossexual fosse alguém miserável, pecador público degenerado, que precisasse de pena e de misericórdia da nossa parte. Acolhe-se a pessoa porque é humana e porque ela é portadora de dignidade e de valores, independentemente daquilo que ela seja. As pessoas homossexuais são portadoras de qualidades e de talentos que não se encontram com facilidade no comum dos mortais. (p. 12)

Quanto ao próprio acompanhamento vocacional, o autor diz: O importante em tudo isso é que a animação vocacional contribua efetivamente para que o vocacionado ou vocacionada homossexual descubra a verdade acerca da sua situação e queira acolher essa verdade. A partir disso poderá fazer uma verificação profunda sobre a possibilidade ou não de abraçar um tipo específico de vocação. Certamente as exigências e as futuras responsabilidades de cada vocação específica são bem diferentes. Aquelas dos leigos e das leigas não são as mesmas da vida consagrada e do ministério ordenado. E vice-versa. Mas os vocacionados e as vocacionadas não podem ser enganados. Não devemos esconder deles as reais dificuldades que poderão enfrentar. (...) Quando há fortes indícios de que a pessoa não tem a mínima estrutura para assumir um tipo de vocação específica, é melhor ajudá-la a repensar o seu projeto. Fazer o contrário é enganar os vocacionados e as vocacionadas homossexuais e contribuir para futuras histórias sofridas e desastrosas. (p. 38)

E agora chegamos ao que interessa: “O acompanhamento de vocações homossexuais inclui também um itinerário voltado especificamente para os cristãos leigos e as cristãs leigas. ‘Se todas as pessoas são pensadas e queridas por Deus, antes mesmo de serem concebidas, como não admitir que Ele tenha planos para elas e também para elas tenha previsto alguma missão? Ninguém vem ao mundo por acaso, e, por isso mesmo, nos planos de Deus ninguém está sobrando’ [Antonio Moser*; “O enigma da esfinge: a sexualidade”, p. 258]. Este princípio teológico justifica a elaboração de um projeto de animação vocacional que contemple o acompanhamento de vocacionados e vocacionadas homossexuais leigos e leigas. (...) O animador ou a animadora vocacional deve ter presente que nem sempre é fácil para as pessoas cumprir determinadas exigências. Muitas vezes certas teorias são elaboradas por burocratas aos quais não falta nada. É muito fácil impor, aos outros, normas que nunca seremos obrigados a cumprir. Mas na prática a teoria é outra. Deve-se então, nesse tipo de acompanhamento vocacional, evitar fardos pesados insuportáveis que nós mesmos não seríamos capazes de carregar (cf. Mt 23, 1-4). (...) Não se pode falar de salvação quando o rigorismo e a rigidez transformam a vida da pessoa num verdadeiro inferno. (...) O trabalho do animador ou da animadora vocacional é contribuir para que cada vocacionado ou vocacionada, particularmente os homossexuais, sejam sensíveis à própria consciência e a sigam fielmente. Assim sendo, deve-se ter muito cuidado para não tentar violentar a consciência das pessoas, tentando impor a todo custo as concepções pessoais. É claro que existe a objetividade dos princípios e das normas. Mas esta serve tão-somente para o bem das pessoas. Em última instância, é o ser humano que decide diante de Deus. (...) Ninguém pode ser forçado a agir contra a sua consciência. (...) À luz da experiência de fé, a homossexualidade se transforma em uma forma concreta de se relacionar co Deus. De fato, vivendo com muita humildade, buscando o equilíbrio na vivência da sexualidade, superando toda forma de conformismo, mas também de perversão ou laxismo, a pessoa homossexual pode chegar a uma verdadeira experiência mística, percebendo-se como alguém amado por Deus. E a partir desta experiência poderá amar de verdade as pessoas, sem angústia e sem manipulações. Basta que para isso o homossexual tenha sido ajudado a libertar-se tanto da imagem de um Deus castrador como da atitude orgulhosa que leva ao fechamento e à auto-suficiência.

(...) O acompanhamento vocacional de homossexuais torna-se mais complexo quando o vocacionado ou vocacionada, a partir da sua convicção de fé, no uso de sua liberdade, decide assumir comportamentos considerados mais ousados e que fogem dos padrões comumente aceitos pela maioria da população católica. Neste caso, é necessário que o animador ou animadora vocacional tenha uma profunda maturidade humana e afetiva, sexual e cristã, para poder continuar realizando a sua missão sem traumas e sem preconceitos. Quem acompanha esses casos, sem deixar de considerar as indicações da fé cristã e as orientações da Igreja, precisará de uma grande liberdade interior para não sucumbir diante das provocações do vocacioando ou vocacionada, como também diante do rigorismo e da intransigência da lei eclesiástica. Vale mais uma vez recordar que a lei existe para promover o bem das pessoas e não o contrário. Alguém, motivado pela fé e pela consciência, pode, muitas vezes, fazer algo diferente daquilo que a lei determina. E na maioria das vezes o faz de um modo mais perfeito. Quando isso acontece tal pessoa está revelando os limites da lei. De fato, é sempre possível que uma lei se torne obsoleta no sentido que não responde mais à sua finalidade que é o bem e a salvação das pessoas. E quando algo se torna antiquado e não mais colabora para a salvação das pessoas precisa ser mudado. E, normalmente, alguém tem de correr esse risco de romper com o estabelecido, mesmo sob a pena de carregar o estigma de herético ou blasfemador. Foi o que aconteceu com Jesus. Nada impede, nem mesmo uma aprovação pontifícia, que uma lei eclesiástica se torne obsoleta. Por isso em todos os casos a lei da vida precisa ser sempre aplicada. Quando a lei não facilita o desenvolvimento da fé, da vida, da graça e da salvação ela não tem mais sentido. No acompanhamento vocacional o animador ou animadora não pode esquecer que a própria moral cristã sempre defendeu o direito a epikéia. Esta á, antes de tudo, uma atitude da pessoa que, olhando para a ordem estabelecida e confrontando-a com a sua situação concreta e para a realidade que lhe cerca, resolve ir além do ordenamento jurídico. É claro que existe sempre o risco do individualismo e do laxismo. Para não cair nesse perigo, a pessoa, antes de decidir avançar, precisa avaliar a sua atitude honestamente, com retidão, sem fazer pouco das normas, das leis e da autoridade. Isso tudo pode trazer conflito, inclusive com as autoridades estabelecidas, mas o princípio da epikéia afirma que a coisa mais importante não é pura e simples fidelidade à lei, mas a fidelidade à própria realidade, guiada pela retidão de consciência e pela decisão de obedecer a um apelo interior. (...) A epikéia, como atitude virtuosa, exige a prontidão para ousar. Em linha de princípio, corre-se este risco em toda situação que esteja sob a legislação positiva. Isto porque, segundo Santo Tomás de Aquino, em todo o campo do direito, a virtude da epikéia é o guia. (...)

Temos de partir do princípio que nem todas as pessoas têm o carisma do celibato. Por isso pode acontecer que um homossexual não consiga permanecer sem a convivência com alguém. A Igreja Católica propõe, por meio de seus documentos, que os homossexuais cristãos pratiquem a castidade. Isso é muito fácil quando não se está na pele da outra pessoa. Mas, como vimos antes, na prática é tudo muito complicado. Como exigir a continência de sujeitos que estão profundamente convencidos de não poder conservá-la e que sabem, ao mesmo tempo, que não podem casar? (pp. 71-74)

Padre José Lisboa cita um dos “casos emblemáticos”, aquele da pessoa homossexual que, sabendo da sua condição, decide em consciência formar um casal com outra pessoa do mesmo sexo, pretendendo continuar a viver como cristão. (...) É importante considerar esse caso porque a legislação de muitos países e a consciência coletiva tendem a aceitar cada vez mais essa situação como normal. E muitos cristãos homossexuais não chegam a formalizar a união por causa do medo de serem afastados da comunidade cristã. No processo de discernimento, o animador ou animadora vocacional precisa propor algumas considerações importantes ao vocacionado em questão. Não será suficiente o argumento do pecado, da condenação e da proibição, uma vez que essa pedagogia normalmente produz efeito contrário, levando a pessoa a uma vida até mais permissiva do que antes. Começando sempre pela reflexão sobre a fidelidade ao projeto de vida plena que Deus tem para cada pessoa, o animador ou animadora pode e deve interrogar o vocacionado sobre suas intenções, sobre o conceito de fidelidade, sobre o sentido da vida a dois. Não deve deixar de lado a proposta do ensinamento da Igreja sobre a questão. Além disso, pode e deve refletir sobre a importância da satisfação plena na realização do ato sexual, uma vez que existe o risco de não haver plena complementação no encontro íntimo entre pessoas do mesmo sexo. As pesquisas feitas por Thévenot** indicam que muitos casais homossexuais não se sentem satisfeitos com a relação e por isso se separam muito rápido. Há casos em que a insatisfação é tão grande que a pessoa, mesmo vivendo com alguém, busca com muita frequência relações sexual-genitais com outras pessoas. Porém, com muita honestidade, é preciso dizer que não faltam exemplos de casais homossexuais que conseguiram fazer uma experiência profunda de Deus-Amor. Para alguns, a vida a dois foi como que uma “terapia da vida”. Mas para chegar a isso tiveram que superar dolorosamente muitos desafios e cultivar muitos valores cristãos entre os quais o perdão, o desprendimento, a pobreza interior. Tiveram de ir além da “paixão fulminante” para abrir-se mais ao dom da ternura, da renúncia de um relacionamento perverso. Certamente não vivem uma união idílica. Permanecem nessas situações difíceis de carência e limites. É preciso confessar, com Thévenot, que, apesar de tudo, é possível encontrar hoje neste tipo de união pessoas vivendo com dignidade a vida cristã.

Existem autores que evocam também para esse caso o princípio da epikéia já mencionado anteriormente. Partem do princípio tomístico de que a verdade e a retidão não são iguais para todos. Por isso, em determinadas situações é possível transgredir legitimamente a lei para salvar o bem das pessoas. Todavia, lembram esses autores, para que o princípio da epikéia possa ser aplicado corretamente é indispensável que a decisão passe pelo crivo da razão, a qual tem a função de regular sabiamente as inclinações e paixões humanas. Não bastam o instinto e a paixão desmedida. De acordo com o mesmo princípio tomístico todas as vezes que agimos sem consultar a razão cometemos um pecado. [comentário no rodapé: Thévenot acredita que por honestidade intelectual este princípio tomístico não pode ser aplicado ao caso dos homossexuais porque, segundo Tomás, a razão da relação sexual reside na conservação da espécie. Hoje, porém, a reprodução não é mais considerada a razão exclusiva da relação sexual (cf. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 48). Também por honestidade intelectual é preciso dizer que, biblicamente falando, a relação sexual é destinada antes de tudo à superação da solidão: “Não é bom que o homem esteja só. Vôo fazer uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2, 18). O filho é a consequência e não a razão principal da relação sexual entre duas pessoas que verdadeiramente se amam.]

Portanto, no acompanhamento vocacional se abre uma brecha para evitar todo tipo de condenação. O papel do animador ou da animadora vocacional não é de ser porta-vos de Satanás, o acusador dos irmãos e irmãs (cf. AP 12, 10), mas de ser mensageiro da salvação trazida por Cristo: “Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que justifica? Quem condenará? Cristo Jesus, que morreu, mais ainda que tenha ressuscitado e está à direita de Deus, intercedendo por nós?” (Rm 8, 33-34). Vimos anteriormente que também as pessoas homossexuais são queridas por Deus e não estão sobrando no mundo. O papel de quem acompanha essas pessoas é ajudá-las a chegar o máximo possível à meta que nos é proposta. (pp. 75-78)
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Notas (minhas)
* Frei Antônio Moser é Diretor Presidente da Editora Vozes, professor de Teologia Moral e Bioética no Instituto Teológico Franciscano (ITF) em Petrópolis/ RJ, Membro do Conselho Administrativo da Diocese de Petrópolis/ RJ, Pároco da Igreja de Santa Clara, Diretor do Centro Educacional Terra Santa, Membro da Comissão de Bioética da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Coordenador do Comitê de Pesquisa em Ética da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), além de conferencista no Brasil e no exterior. Escreveu 25 livros, participou como co-autor e colaborador de inúmeros e publicou incontáveis artigos científicos em revistas nacionais e internacionais. Atualmente desenvolve intensa atividade pastoral, sendo um dos principais especialistas brasileiros em Pastoral Familiar e Bioética.

** Pe. Xavier Thévenot, eminente professor de Teologia Moral no Instituto Católico de Paris, membro da Congregação Salesiana. Os Salesianos de Dom Bosco se dedicam particularmente à educação da juventude, o que dá maior autoridade e crédito a esse autor, em termos de educação da sexualidade.

25 de agosto de 2011

Orações para Bobby

Acabei de assistir (finalmente!) o filme "Prayers for Bobby" ["Orações para Bobby"]. Profundo, emocionante e, principalmente, real. Quem dera que todos os pais assistissem também! Aliás, as famílias inteiras. E, de modo especial, os jovens homossexuais que enfrentam duras batalhas (internas e externas! Recomendo a todos (inclusive aos padres, pastores e demais agentes de pastoral em qualquer Igreja cristã). O filme pode ser encontrado, por exemplo, no site "Gay Load" (aqui). A frase de Mary Griffith: "A Bíblia diz que as pessoas podem mudar", torna-se realidade, mas de maneira totalmente diferente daquela em que tinha sido pronunciada no início da história.

6 de julho de 2011

Pedro e as portas

No domingo passado a Igreja celebrou a Solenidade de São Pedro e São Paulo. A primeira leitura (At 12, 1-11) contou sobre a milagrosa libertação de Pedro da prisão. Além do carinho e simplicidade de Deus (Põe o cinto e calça tuas sandálias! Veste tua capa e vem comigo! vv. 7-8), impressiona o poder sobrenatural que se manifesta na própria saída da cadeia (As correntes caíram-lhe das mãos. Depois de passarem pela primeira e pela segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. vv. 7. 10). Entretanto, o mais curioso e inspirador é o texto deste mesmo capítulo de Atos dos Apóstolos, não incluído na própria leitura. A passagem lida na Missa termina com Pedro, sozinho, na rua, pois o anjo já o tinha deixado. Ao continuarmos a leitura, vemos Pedro dirigindo-se à casa de Maria, mãe de Marcos (é o próprio Cenáculo). [Pedro] Bateu no portão de entrada, e uma criada, chamada Rosa, foi atender. Ela reconheceu a voz de Pedro, e tanta foi sua alegria que, em vez de abrir a porta, entrou correndo para contar que Pedro estava ali diante da porta. “Estás louca!”, disseram-lhe. Mas ela insistia. Opinaram então: “Deve ser o seu anjo”. Pedro entretanto continuava a bater. Finalmente abriram a porta. Viram então que era ele; e ficaram atônitos. (At 12, 13-16)

Enquanto Deus abre todas as portas aos seus amados e escolhidos, a porta da Igreja demora para abir. Enquanto os amados de Deus continuam batendo e chamando, há, dentro da comunidade, quem diga: "Estás louco(a). Não abre! Toma cuidado!". Entre tanta gente, também nós, homossexuais, ainda estamos diante da porta e continuamos a bater...

1 de julho de 2011

A serenidade de Dunand

O site português "Rumos Novos" (aqui) publicou a entrevista com Jean-Michel Dunand, autor do livro De la honte à la lumière ("Da vergonha à luz"). Para facilitar a leitura aqui no Brasil, a mesma entrevista foi adaptada e publicada pelo IHU (Instituto Humanitas Unisinos - aqui). Agora resta-nos esperar a edição do próprio livro por aqui.

O que chama a minha atenção é a serenidade de Dunand. Sua resposta à pergunta "O que você está pedindo à Igreja hoje?" revela um coração livre de revolta:

Eu não reivindico nada, exceto o direito de viver sem ser amputado de uma parte perdida de mim mesmo. Como católico, eu quero poder viver a minha fé e o desenvolvimento da minha sexualidade e da minha ternura partilhadas com alguém do mesmo sexo. Eu não sou um ativista que lança a bandeira da causa gay. Mas eu não posso aderir a estas certezas segundo as quais "a homossexualidade é contra a natureza e fora do plano de Deus". Isto leva a um impasse. Se eu reivindico algo é uma mudança e uma humildade do olhar. Com as pessoas “homossensíveis” – prefiro falar assim, pois não nos reduz à sexualidade – estamos muitas vezes diante de percursos fraturados, de vidas acidentadas. Mas também de verdadeiras sensibilidades em relação à beleza, à arte, à espiritualidade. Veja o número de homossexuais entre os grandes artistas, designers de moda... Estes são, em todos os casos, vidas singulares que não se pode julgar sem conhecer, nem vasculhar sua intimidade. Diante da mulher adúltera do Evangelho, o que Jesus faz? Ele não a questiona, mas afasta os olhos, inclinando-se ao chão para escrever; ele afasta também os acusadores, pois todos vão se retirando na medida em que ele os faz perceber seu próprio pecado. Não encerremos as pessoas em nossas normas e em nossos olhares inflexíveis.

Jean-Michel Dunand deixa uma mensagem importante para todos os cristãos: Antes de arriscar uma palavra, ter tempo para ouvir as pessoas homossexuais. Antes de discutir sobre ideias, conhecer vidas. Foi poder falar e ser ouvido que, pessoalmente, me salvou. No meu trabalho eu sou discreto sobre a minha vida pessoal, mas eu sei que eu tenho a confiança do meu bispo, do meu diretor diocesano, do meu diretor da escola, eu sou franco com eles. Foi Freud quem disse: “Quando alguém fala, é dia!” É talvez justamente por que faça dia que eu escrevi e publiquei este livro.
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Jean-Michel Dunand

24 de junho de 2011

Corpus Christi

Transcrevo algumas frases da homilia de Bento XVI, pronunciada nesta quinta-feira (Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo), na Basílica de São João de Latrão em Roma. O texto na íntegra pode ser encontrado no site da Canção Nova (aqui). Como de costume, sublinhei algumas afirmações do Papa.

Aquilo que Jesus nos deu na intimidade do Cenáculo, hoje o manifestamos abertamente, porque o amor de Cristo não é reservado a alguns, mas é destinado a todos.

A Eucaristia, enquanto une-nos a Cristo, abre-nos também aos outros, torna-nos membros uns dos outros: não somos mais divididos, mas uma coisa somente n'Ele. A comunhão eucarística me une à pessoa que tenho ao lado, e com a qual talvez não tenha sequer um bom relacionamento, mas também aos irmãos distantes, em todas as partes do mundo.

Quem reconhece Jesus na Hóstia Santa reconhece-o no irmão que sofre, que tem fome e sede, que é forasteiro, nu, doente, encarcerado; e está atento a cada pessoa, compromete-se, de modo concreto, com todos aqueles que estão em necessidade. Do dom de amor de Cristo provém, portanto, a nossa especial responsabilidade de cristãos na construção de uma sociedade solidária, justa, fraterna.

O Evangelho procura sempre a unidade da família humana, uma unidade não imposta do alto, nem por interesses ideológicos ou econômicos, mas sim a partir do senso de responsabilidade de uns com relação aos outros, porque nos reconhecemos membros de um mesmo corpo, do corpo de Cristo, porque aprendemos e aprendemos constantemente do Sacramento do Altar que a partilha, o amor é o caminho da verdadeira justiça.

Sem ilusões, sem utopias ideológicas, nós caminhamos pelas estradas do mundo, levando dentro de nós o Corpo do Senhor, como a Virgem Maria no mistério da Visitação. Com a humildade de saber-nos simples grãos, preservamos a firme certeza de que o amor de Deus, encarnado em Cristo, é mais forte que o mal, a violência e a morte. Sabemos que Deus prepara para todos os homens céus novos e terra nova, em que reinam a paz e a justiça – e na fé entrevemos o mundo novo, que é a nossa verdadeira pátria.

23 de junho de 2011

Analogias de Corpus Christi

Em grande parte do mundo celebra-se hoje a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi). Algumas regiões têm os mesmos festejos transferidos para o próximo domingo. De acordo com a doutrina da Igreja católica, esta festa, estendida pelo papa Urbano IV, em 1264 a toda a Igreja Latina, constitui, por um lado, uma resposta de fé e de culto às doutrinas heréticas acerca do mistério da presença real de Cristo na Eucaristia e, por outro, foi a coroação de um movimento de grande devoção ao augusto Sacramento do altar. A Igreja sempre defendeu o seu direito de manifestar publicamente a própria fé, quer dizer, a sua identidade de um povo reunido em torno de Cristo vivo, realmente presente na Santíssima Eucaristia. A motivação original de responder às heresias do século XIII, ganhou um novo sentido diante da crescente laicização da sociedade moderna. É como dizer ao mundo de hoje: nós, católicos, não concordamos em permanecer trancados em nossas igrejas e, por isso, saímos pelas ruas e praças públicas para manifestar a todos quem somos e em que acreditamos. Uma vez por ano, portanto, tiramos Jesus Eucarístico do sacrário para levá-lo, atravessando cidades e aldeias.

Ora, quem não sabe, o sacrário (ou tabernáculo) é uma espécie de armário, onde fica guardado o Santíssimo Sacramento (as Hóstias consagradas durante a Missa). Seria uma blasfêmia dizer que, na Solenidade de Corpus Christi, o próprio Jesus, sai do armário? Seria um abuso tecer analogias entre a procissão eucarística pelas ruas, com a manifestação pública realizada, também, uma vez por ano e promovida pelas pessoas que vivem a sua realidade de GLBTS? Aqui e ali, trata-se de mostrar o conteúdo das convicções pessoais, ou melhor, o amor que essas ou aquelas pessoas vivem e cultivam. Ambos os grupos não concordam em levar uma vida clandestina e, por isso, fazem questão de manifestar-se publicamente. E essa regra vale tanto para os momentos solenes (procissões e paradas), quanto para todas as manifestações públicas, ainda que feitas individualmente. Assim como um católico pode fazer o sinal da cruz ao passar em frente de uma igreja, do mesmo modo, as pessoas que se amam, têm o direito de expressar o seu afeto em público. A proibição arbitrária desses gestos deve ser vista como intolerância. Sabemos que, na prática, não é bem assim. Enquanto a Igreja protesta contra qualquer legislação que pretenda limitar a sua liberdade religiosa, ela mesma toma atitudes exatamente contrárias quando a questão é a liberdade de expressão do mundo GLBTS.

Observação final [1]: Não concordo com as iniciativas de alguns militantes da diversidade sexual que fazem questão em promover eventos, justamente, nos dias de comemorações religiosas. A ideia de confronto não me soa bem. Por outro lado, não compreendo e não aceito a incoerência daqueles que defendem o seu direito de expressão pública e, ao mesmo tempo, condenam os outros por lutarem pelo mesmo direito.

Observação final [2]: Ao falar sobre analogias, não pretendo dizer que a procissão de Corpus Christi seja a mesma coisa que a Parada do Orgulho Gay. Estou mostrando apenas as motivações e dinâmicas parecidas, bem como a semelhança maior que consiste em manifestação pública do amor. Evidentemente, há diferenças. Na procissão eucarística adoramos a divindade do Filho do Homem. Na parada do orgulho GLBT proclamamos a humanidade dos filhos de Deus.

Leia, também, aqui sobre Jesus que sai do armário.
Outros textos para a Festa de Corpus Christi:

18 de junho de 2011

Viver na Igreja

Mencionei, há um tempo, a Terceira Lei de Newton (“Para cada ação há sempre uma reação, oposta e de mesma intensidade”) [aqui] e hoje volto a usá-la como o ponto de partida para nova reflexão. Confesso (mais uma vez) que o artigo de Dom Odilo Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, deixou-me um tanto inquieto/irritado. Daí a minha reação [1, 2], talvez dura demais. Continuo sustentando a minha opinião de que o autor (naquele texto) tenha usurpado para si o direito divino de julgar as pessoas (e o amor delas), o que, para um representante de Cristo na terra, simplesmente, não convém. Jesus deixou isso muito claro: Não julgueis, e não sereis julgados (Mt 7, 1) e São Paulo (no final do texto interpretado por muitos como condenação da homossexualidade), também adverte: Assim, és inescusável, ó homem, quem quer que sejas, que te arvoras em juiz. (Rm 2, 1 - tradução da Bíblia Ave Maria). Percebi, entretanto, que eu mesmo, ao entrar nessa "briga", caí na mesma cilada, ainda que indiretamente. Quer dizer, julguei-o, por ele ter julgado. É que a minha crítica, mesmo que se refira a um texto apenas, pode deixar uma impressão generalizada (e injustamente negativa) sobre o autor em questão. Certamente, trata-se de um servo de Deus, pastor da Igreja, homem de confiança do Papa, etc. Sim, sendo um homem, é passível de erros (só o Papa é infalível, e só em alguns casos específicos), mas não é por isso que vamos jogar no lixo tudo o que ele escreve. Como prova, recomendo agora um artigo diferente (e excelente) de Dom Odilo. Não espero que o cardeal aprove o contexto desta minha recomendação, mas acho que as suas palavras possam servir perfeitamente para motivar as nossas tentativas em promover uma séria e bem estruturada Pastoral de/para Homossexuais (ou, melhor, da Diversidade). Transcrevo apenas um trecho, mas o artigo inteiro merece atenção (leia aqui). Sublinhei algumas frases...

A vida cristã pode ser definida como “seguimento de Cristo”; é estar a caminho com Jesus Cristo, pela vida afora (“eu estarei sempre com vocês...”), deixando-se atrair sempre mais por ele, aprendendo dele e tentando praticar o que dele aprendemos. Não vamos sozinhos, mas conosco seguem, no mesmo caminho, tantos outros irmãos, também discípulos do Senhor e membros da Igreja, que nos apóiam e aos quais devemos apoiar; acompanham-nos os santos do céu com sua intercessão e seu exemplo de vida, dando-nos força e coragem para perseverar e seguir em frente.

Viver “na Igreja” e sentir-se parte dela é essencial na vida cristã; caminhar sozinhos é muito difícil e desaconselhável; vamos com os irmãos, na Igreja, comunidade de fé, na comunhão dos santos. Ninguém é filho de Deus sozinho, nem discípulo solitário do Senhor... Por isso, a vida cristã requer a participação nos atos de vida comunitária, como a santa Missa dominical, as outras celebrações da Igreja e os sacramentos. Em tempos de afirmação crescente do individualismo, é necessário cultivar intensamente a dimensão comunitária da fé e da vida cristã.

14 de junho de 2011

A Igreja



O "Portal Um" publicou (aqui) a homilia de Bento XVI proferida no dia de Pentecostes. Além das belas frases sobre Jesus [que] tem dignidade divina e Deus [que] tem o rosto humano de Jesus, o Papa fala bastante sobre a Igreja. Esperamos, cada vez mais, que essas palavras não fiquem, simplesmente, no ar, mas que se tornem realidade:

Recitando o Credo, nós entramos no mistério do primeiro Pentecostes: da confusão de Babel, daquelas vozes que clamam uma contra a outra, acontece uma transformação radical: a multiplicidade torna-se unidade multiforme, do poder unificador da Verdade cresce a compreensão. No Credo que nos une de todos os cantos da Terra, que, através do Espírito Santo, faz com que nos compreendamos mesmo na diversidade de línguas, através da fé, esperança e amor, se forma a nova comunidade da Igreja de Deus.

O Espírito Santo vivifica a Igreja. Ela não deriva da vontade humana, da reflexão, da habilidade do homem e da sua capacidade de organização, porque se assim fosse há muito tempo ela teria morrido, conforme passam todas as coisas humanas. Ela é o Corpo de Cristo, animada pelo Espírito Santo.

A Igreja é Católica desde o primeiro momento, que a sua universalidade não é fruto da inclusão sucessiva de várias comunidades. Desde o primeiro instante, o Espírito Santo a criou como a Igreja de todos os povos; ela abraça o mundo inteiro, supera todas as fronteiras de raça, classe e nação; derruba todas as barreiras e une as pessoas na profissão do Deus Uno e Trino. Desde o início, a Igreja é una, católica e apostólica: esta é a sua verdadeira natureza e como tal deve ser reconhecida. Ela é santa, não por causa da capacidade de seus membros, mas porque o próprio Deus, com o seu Espírito, a cria e santifica para sempre.

Eu já li (ou ouvi), em algum lugar que, em muitos ambientes e por várias autoridades, os termos "raça" e "classe" são considerados ultrapassados. Por outro lado, nunca me reparei com a expressão "raça/classe" homossexual (ou, mais aplamente: GLBTT), mas - tirando qualquer impressão pejorativa - acredito que, tal (pelo menos) "classe" exista mesmo e, apesar de algumas dificuldades, aos poucos, esteja tomando consciência disso. E não é a "classe" no sentido marxista, quer dizer, não é um grupo de pessoas que procura apenas estar contra outras classes, mas é - como se costuma dizer às vezes - uma comunidade. Como seria bom e bonito, se os gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e transgêneros, construíssem uma "classe", baseada no respeito mútuo, no intercâmbio de seus conhecimentos e experiências e não apenas numa luta contra alguém (muitas vezes, contra o "resto do mundo"). E, seria ainda melhor e mais bonito se essa comunidade/classe fosse reconhecida e acolhida pela Igreja, como sugere - ainda que indiretamente - o discurso do Papa.


12 de junho de 2011

Ciganos



O Papa Bento XVI recebeu em audiência milhares de ciganos europeus neste sábado, dia 11/06, na Sala Paulo VI, no Vaticano. O encontro foi promovido pelo Pontifício Conselho da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes no marco do 75° aniversário do martírio e do 150° do nascimento do Beato Zeferino Giménez Malla (1861-1936), cigano de origem espanhola. O Papa disse: "O Servo de Deus Paulo VI dirigiu aos Ciganos, em 1965, estas inesquecíveis palavras: 'Vós, na Igreja, não estais às margens, mas, sob certos aspectos, estais no centro, estais no coração. Vós estais no coração da Igreja'. Também eu repito hoje com afeto: vós estais no coração da Igreja! Sois uma amada porção do Povo de Deus peregrino. [...] A Igreja caminha convosco e vos convida a viver segundo os compromissos exigentes do Evangelho, confiando na força de Cristo, rumo a um futuro melhor". O Papa salientou que a história do povo cigano é complexa e também dolorosa em alguns períodos. Sem uma pátria ou porção territorial definida, enfrentam o sério problema das difíceis relações com as sociedades em que vivem, provando o "sabor amargo" da falta de acolhida e da perseguição, como aconteceu durante a II Guerra Mundial, quando milhares de ciganos foram mortos nos campos de extermínio. "A consciência europeia não pode esquecer tanta dor! Nunca mais o vosso povo seja objeto de rejeição, perseguição e desprezo! Por sua parte, sempre buscais a justiça, a legalidade, a reconciliação e esforçai-vos para não serdes nunca causa de sofrimento aos outros!" - disse Bento XVI.

Esta notícia foi publicada no portal da "Canção Nova" (aqui). Transcrevo as palavras do Papa e faço uma analogia. De acordo com a Wikipedia (aqui), o termo "ciganos" é um exônimo para roma (singular: rom; em português, "homem") e designa um conjunto de populações nômades que têm em comum a origem indiana e cuja língua provinha, originalmente, do noroeste do subcontinente indiano. Essas populações constituem minorias étnicas em inúmeros países, entre a Índia e o Atlântico. Desde o século XV, os ciganos sofrem perseguições por serem considerados vagabundos e delinquentes. O clima de suspeitas e preconceitos se percebe no florescimento de lendas e provérbios tendendo a pôr os ciganos sob mau prisma, a ponto de recorrer-se à Bíblia para considerá-los descendentes de Caim, e portanto, malditos. Difundiu-se também a lenda de que eles teriam fabricado os pregos que serviram para crucificar Jesus. Durante a Segunda Guerra Mundial, entre duzentos e quinhentos mil ciganos europeus teriam sido exterminados nos campos de concentração nazistas. Em julho de 2010, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, decidiu, após dois incidentes envolvendo membros franceses da comunidade cigana, promover o retorno em massa dos roma à Romênia e Bulgária, o que suscitou uma grande polêmica . Em alguns países europeus, a palavra "cigano", continua sendo usada como sinônimo de ladrão, mentiroso e bruxo.

Os Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros, também constituem minorias em todos os países do mundo. Também são considerados vagabundos, deliquentes e malditos. Para tal opinião, não raramente, recorre-se à Bíblia, equiparando-os aos habitantes de Sodoma. Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de homossexuais foram exterminados nos campos de concentração nazistas. Os atos de agressão e discriminação continuam até hoje.

Simplesmente, gostaríamos de ouvir a declaração do Papa de que não estamos à margem (nem fora), mas, sim, no coração da Igreja, somos uma amada porção do Povo de Deus peregrino e a Igreja caminha conosco. E também: "Nunca mais vocês sejam objeto de rejeição, perseguição e desprezo!"

Isso não é inveja em relação aos ciganos. Eles são nossos irmãos e nos inspiram, assim como ontem inspiraram o Papa...

10 de junho de 2011

James Alison - o Livro


Recebi ontem em casa o livro de James Alison (padre jesuíta), "Fé além do ressentimento. Fragmentos católicos em voz gay" (Editora É Realizações; São Paulo, 2010). Quero recomendá-lo a todos! Li, por enquanto, apenas o "Prefácio à edição brasileira", escrito pelo autor e a "Apresentação", feita pelo teólogo, Pe. João Batista Libanio (o texto disponível no site da Editora "É Realizações" aqui). Pe. J.B. Libanio tem a sua própria página na internet - aqui (confira a sua biografia na Wikipedia - aqui). O autor do livro, Pe. James Alison (nascido em 1959 em Londres, mora em São Paulo) pode ser localizado no seu própro portal - aqui. Como a apresentação da obra pode ser lida na íntegra através do link indicado acima, vou transcrever apenas um pequeno trecho (só para despertar a curiosidade!): [James] Evita gerar no leitor extremos do sentimento de rejeição da condição gay ou de compaixão pela vítima ou de revolta contra o sistema social ou contra a máquina eclesiástica. Atravessam-lhe a obra transparência e honestidade do relato. Em qualquer situação existencial, gay ou não, o leitor se toca. A pessoa gay certamente encontra uma palavra de libertação, não pela via barata da contestação, mas por honesto processo reestruturante interno, baseado fundamentalmente na ação criativa e bondosa de Deus e apoiado por inúmeras passagens da Escritura feita em voz gay.

Pe. James Alisson escreve no "Prefácio à edição brasileira": Os capítulos deste livro são diversas tentativas de permanecer fiel à vocação de teólogo católico sem evitar o campo onde é mais difícil proclamar a verdade na cultura atual da nossa Igreja: o campo gay. É um campo minado de escândalo, de meias verdades, de silêncios covardes, de rabos presos, de enrustidos que perseguem os outros, de mendacidade em geral, e produz em todos nós efeitos espirituais e morais sumamente tóxicos. Porém, creio que a minha tarefa como teólogo e como padre não é deixar-me fascinar por aquilo que estrututa a mendacidade e viver gritando contra; é oferecer recursos para aqueles que queiram ousar avançar além das posições oficiais, posições que, como se torna cada vez mais evidente, fundamentam-se numa falsa caracterização daquilo que é a pessoa gay.

A parte que mais me toca no texto é: O meu sonho como padre, um sonho que por enquanto vive sem nenhum apoio ou aprovação eclesiástica, é criar uma pastoral que tenha coração para abarcar o desenvolvimento humano completo e a formação profissional de tantos jovens gays nas nossas cidades que ou vivem assombrados pela rejeição familiar ou procuram sobreviver por meio do sexo pago. 
 
A informação importante para quem estiver preocupado com a legitimidade (católica) das opiniões contidas no livro: (...) nem este livro, um dos raros escritos por um padre católico assumidamente gay que mostra um desacordo com a posição oficial, nem os outros mais recentes, nos quais tenho aprofundado mais a mesma matéria, receberam qualquer tipo de crítica eclesiástica nas suas versões inglesa, espanhola ou italiana, nem o seu autor sofreu qualquer espécie de reprimenda oficial. Tomara que no Brasil seja possível impedir que a Igreja destrua a sua credibilidade entre os próprios fiéis reproduzindo es reações defensivas e contrárias à verdade nessa esfera, atitude que a tem caracterizado em muitos outros países, e possamos começar a trabalhar esses assuntos à luz do dia, de maneira honesta, serena e adulta.

Padre James Alison
Pois bem. Essa é apenas uma introdução. Se Deus quiser, vou voltar ao assunto ainda muitas vezes. Por enquanto deixo aqui algumas dicas sobre a compra do livro.

Fiz a solicitação do produto no site da Editora É Realizações (aqui) na quarta-feira (dia 06) e, como decidi utilizar o boleto bancário, efetuei o pagamento no dia seguinte (evidentemente, há várias opções de pagamento com diversos cartões de crédito). O preço líquido é de R$ 55,00 e o frete é calculado de acordo com o local de entrega (definido pelo CEP) + custo do serviço de entrega, em três opções: PAC-CORREIO [R$ 11,90]; E-SEDEX [R$ 7,43]; SEDEX [R$ 20,70] (preços referentes à entrega no Rio de Janeiro). Tudo levou uma semana. Outro detalhe: a encomenda chega em uma embalagem comum (leia-se discreta) - há quem se preocupe com isso. Em qualquer sistema de busca na web, podem ser encontradas outras livrarias virtuais que possibilitam a compra, com preços e condiçãoes de pagamento/entrega semelhantes.

BOA LEITURA!