ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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16 de setembro de 2013

A prova de fogo


Escrevi recentemente sobre a hetronormatividade como algo que, infelizmente, ainda existe e, muito provavelmente, tem uma vida longa pela frente. A minha tese é que, apesar de todos os seus defeitos, esse fenômeno pode contribuir para o bem das pessoas que não sejam heterossexuais. Evidentemente, é necessário retirar tudo que naquele sistema filosófico-social tenha qualquer cheiro de preconceito. Porém, como se trata de relacionamento amoroso entre dois seres humanos, independentemente de sua orientação sexual, podemos encontrar nas experiências de casais heterossexuais muita coisa útil e aproveitá-la para nossa vivência homossexual. Como uma verdadeira "prova de fogo", gostaria de convidar a todos a uma sessão cinematográfica. Este, também, é o título do filme: "A prova de fogo".
 
Provavelmente seja necessário deixar aqui uma advertência: o filme é evangélico, dura quase duas horas e aborda o tema de relacionamento conjugal, evidentemente, heterossexual. A pergunta que fiz a mim mesmo e quero fazer aos eventuais leitores/espectadores, é: o que posso aprender com a experiência de um casal, formado por um homem e uma mulher e ainda buscando os argumentos na Bíblia e na fé? Bem... eu acho que, neste caso, posso aprender muito. E digo mais: lamento não ter conhecido este filme (e o livro "O Desafio de Amar" que é uma referência para o roteiro) na época em que vivi cada um dos meus relacionamentos. Creio muito que eles (ou, pelo menos um deles) pudesse ter uma história diferente e hoje eu não estaria sozinho... Mas, tenho a esperança de que, um dia, poderei colocar em prática algumas orientações práticas do filme (e do livro). Só falta um candidato que queira experimentar isso comigo...  
 
 
Agora vem o que interessa. Imagino que não vou conseguir convencer ninguém de ler o texto somente depois de assistir o filme, embora fosse melhor, na minha modesta opinião. Enfim, tanto faz, pode continuar a leitura...

O principal destinatário deste material (o filme + o livro) é alguém que enfrenta problemas de relacionamento, principalmente conjugal, mas, igualmente, pode servir aos namorados e, até, aquele solteiro que queira realizar uma espécie de simulação para se preparar ao futuro convívio com alguém especial. O meu propósito é provar que as orientações, elaboradas originalmente com a finalidade de ajudar os casais heterossexuais, podem se aplicar muito bem nos relacionamentos homossexuais, requerendo apenas pouquíssimas adaptações.

O livro de Stephen & Alex Kendrick com Lawrence Kibrought, "O desafio de amar" (BV Films Editora Ltda, Niterói - RJ, 2009) traz a seguinte apresentação:

O desafio de amar é um desafio de 40 dias para maridos e esposas que desejam entender e praticar o amor incondicional. Independentemente de como está o seu casamento, ameaçado ou saudável, O desafio de amar é uma estrada que precisa ser seguida. É hora de descobrir os segredos de um casamento cheio de vida e da verdadeira intimidade. Aceite o desafio! "Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba". (1 Coríntios 13:7-8). OUSE AMAR  

A realização deste desafio de amar fica muito melhor com o livro que, além de uma tarefa para cada dia, traz uma fundamentação bíblica e a motivação detalhada para cada passo (e ainda tem espaço para as anotações). Encontrei o livro nas seguintes livrarias: Saraiva, Submarino, gospelgoods. Pode ser encontrado, também, em forma de arquivo pdf para baixar, p. ex.: aqui.

Para quem não tiver vontade de ler o livro, transcrevo aqui as tarefas para 40 dias que podem ser modificadas, de acordo com a situação em que cada um está vivendo. Evidentemente, a realização mais completa, só é possível no caso de um casal que mora junto, mas - com adaptações que se fizerem necessárias - as tarefas podem ser cumpridas, também, pelos namorados. A dinâmica do desafio prevê a ação, digamos, unilateral e um tanto secreta (para preservar o elemento surpresa). Quer dizer: um segue o desafio e surpreende o outro. Aconselha-se, também, o uso de anotações (um caderno ou, quem sabe, um blog...).

Vamos lá...

1° dia [O Amor é paciente] :  Decida demonstrar paciência e de modo algum diga algo negativo para o seu cônjuge (namorado). Se a tentação surgir, não diga nada. É melhor segurar a língua do que dizer algo de que possa se arrepender depois. (Leituras bíblicas: Ef 4, 2; 1Tes 5, 15; Tg 1, 19; Pr 14, 29; 15, 18)

2° dia [O Amor é bondoso]: Além de, mais uma vez, não dizer palavras negativas ao seu cônjuge (namorado) hoje, demonstre bondade com, no mínimo, um gesto inesperado. (Leituras bíblicas: Ef 4, 32; Lc 10, 30-35; Pr 31, 26)

3° dia [O Amor não é egoísta]: Aquilo em que você colocar seu tempo, energia e dinheiro, será mais importante para você. É difícil se importar com algo em que você não está investindo. Além de evitar comentários negativos, compre para o seu cônjuge (namorado) alguma coisa que diga: "eu estava pensando em você hoje". (Leituras bíblicas: Rm 12, 1; 1Cor 13, 5; Flp 2, 3; Tg 3, 16)

4° dia [O Amor é atencioso]: Faça contato com o seu cônjuge (namorado) em algum momento durante a agitação do dia. Não faça outra coisa senão perguntar como ele está e se tem algo que você pode fazer por ele. (Leituras bíblicas: Gn 2, 18; Flp 1, 3)

5° dia [O Amor não maltrata]: Peça ao seu cônjuge (namorado) para lhe dizer três coisas sobre você que o deixam desconfortável e irritado. Faça isso sem atacá-lo e sem justificar seu comportamento. Preocupe-se apenas com a perspectiva dele. (Leituras bíblicas: Lc 6, 31; Pr 25, 24)

6° dia [O Amor não se irrita facilmente]: Escolha hoje para reagir de maneira amorosa, apesar das circunstâncias do seu casamento (namoro, relacionamento). Comece fazendo uma lista das áreas em que você precisa separar um tempo para respirar. Então, faça uma lista das motivações negativas e abra mão delas. (Leituras bíblicas: Mt 12, 34; Col 3, 12-14; Flp 4, 6-7; Tg 4, 1-3; Ef 4, 31)

7° dia [O Amor acredita sempre no melhor]: Para o desafio de hoje, pegue duas folhas de papel. Na primeira, passe alguns minutos escrevendo coisas positivas a respeito do seu cônjuge (namorado). Depois, na segunda folha, faça o mesmo com as coisas negativas. Coloque as duas folhas em um lugar secreto para o próximo dia. Existe um propósito e um plano diferente para cada uma dessas listas. Em algum ponto durante o resto do dia, escolha um atributo positivo e agradeça ao seu cônjuge (namorado) por ter essa característica. (Leituras bíblicas: 1Cor 13, 7; Flp 4, 8)

8° dia [O Amor não arde em ciúmes]: Decida ser o maior fã do seu cônjuge (namorado), e decida rejeitar qualquer pensamento invejoso. Para ajudá-lo a manter o coração em seu cônjuge (namorado) e a focar nas conquistas dele, pegue a lista de atributos negativos que você fez ontem e, discretamente, queime-a. Depois, compartilhe com seu cônjuge (namorado) o quanto você está feliz com o sucesso que ele conquistou recentemente. (Leituras bíblicas: Rm 12, 15; Tg 3, 16. 4, 1-2; Ct 8, 6; Pr 27, 4)

9° dia [O Amor deixa boas impressões]: Pense em uma maneira especial de cumprimentar o seu cônjuge (namorado) hoje. Faça isso com um sorriso e com entusiasmo. Então, decida mudar a maneira como o cumprimenta de modo que reflita o seu amor por ele. (Leituras bíblicas: 1Pd 5, 14; Fm 7)

10° dia [O Amor é incondicional]: Faça algo fora do normal para o seu cônjuge (namorado) - algo que prove (para você e para ele) que o seu amor é baseado em suas escolhas e em nada mais. Lave o carro dele. Limpe a cozinha. Compre a sobremesa favorita dele. Dobre as roupas lavadas. Demonstre amor pela simples alegria de serem parceiros no casamento (namoro). (Leituras bíblicas: Rm 5, 8; 1Jo 30, 10. 4, 19)

11° dia [O Amor cuida]: Quais as necessidades do seu marido (namorado) podem ser supridas por você hoje? Você pode adiar uma viagem de negócios? Fazer uma massagem nas costas ou no pé dele? Tem algum trabalho doméstico onde possa ajudar? Escolha um gesto hoje, diga, "eu cuido de você" e faça isso com um sorriso. (Leitura bíblica: Mc 10, 51)

12° dia [O Amor deixa o outro vencer]: Demonstre amor através da disposição, escolhendo ceder em uma área de desacordo entre você e seu cônjuge (namorado). Diga a ele que você está colocando a preferência dele em primeiro lugar. (Leituras bíblicas: Rm 12, 18; Flp 2, 4-5; Tg 3, 17)

13° dia [O Amor é justo]: Converse com o seu cônjuge (namorado) e estabeleça regras saudáveis de conflito. Se ele não estiver pronto para isso, então escreva os seus limites pessoais para a "briga". Decida colocá-los em prática quando o próximo desentendimento ocorrer. (Leituras bíblicas: Mt 7, 3; Mc 3, 25; Rm 12, 16)

14° dia [O Amor sente prazer]: Propositadamente, negligencie uma atividade que normalmente faria. Para gastar um tempo de qualidade com o seu cônjuge (namorado). Faça algo que ele amaria fazer, ou um projeto que ele gostaria muito de realizar. Apenas estejam juntos. (Leituras bíblicas: Ct 2, 3-4; Pr 23, 26)

15° dia [O Amor é nobre]: Escolha uma maneira de demonstrar honra e respeito ao seu cônjuge (namorado) que vá além da sua rotina. Pode ser abrir a porta para ele. Pode ser separar as roupas que ele irá vestir. Pode ser a forma como você ouve e fala com ele. Mostre ao seu cônjuge (namorado) que ele é altamente honrado aos seus olhos. (Leituras bíblicas: Rm 12, 10; 13, 7)

16° dia [O Amor intercede]: Comece hoje orando pelo coração do seu cônjuge (namorado). Ore por três áreas específicas da vida dele onde você deseja que Deus trabalhe. Ore por seu casamento (namoro, relacionamento). (Leituras bíblicas: Mt 7, 7; Lc 18, 1; Flp 4, 6-7; Tg 5, 16; 3Jo 2)

17° dia [O Amor traz intimidade]: Decida guardar os segredos do seu cônjuge (namorado), (a menos que seja perigoso para ele ou para você) e orar por ele. Fale com ele e demonstre amor, apesar desses segredos. Ouça-o quando ele compartilha com você seus pensamentos mais secretos e suas lutas. Faça com que ele se sinta seguro. (Leituras bíblicas: Gn 2, 25; Pr 17, 9; Ct 6, 3; 1Jo 4, 18)

18° dia [O Amor busca entender]: Prepare um jantar especial em casa só para vocês dois. O jantar pode ser tão agradável quanto você preferir. Separe este momento para conhecer seu cônjuge (namorado) melhor, talvez em áreas que vocês raramente conversam. Decida fazer desta uma noite agradável para você e para o seu amor. (Leituras bíblicas: Pr 3, 13; 4, 7; 24, 3-4)

19° dia [É impossível Amar?]: Olhe os desafios dos dias anteriores. Existe algum que parecia impossível para você? Você percebeu que precisa de Deus para mudar seu coração e lhe dar capacidade para amar? Peça a Ele para mostrar onde você precisa da intervenção Dele, e peça força e graça para cumprir o seu destino eterno. (Leituras bíblicas: Mt 19, 26; 1Jo 4, 7)

20° dia [Jesus Cristo é amor]: Desafio você a conhecer a Deus pela palavra. Desafio você a crer em Jesus como seu Salvador. Desafio você a orar: "Senhor Jesus, sou pecador, mas o Senhor mostrou o seu amor por mim morrendo para perdoar os meus pecados e o Senhor provou o seu poder de me salvar da morte através da ressurreição. Senhor, mude o meu coração, e salve-me pela sua graça." (Leituras bíblicas: Rm 5, 7-8; 2Cor 6, 2; Ef 2, 8-9; 1Jo 4, 8)

21° dia [O Amor é saciado em Deus]: Separe hoje um tempo para orar e ler a Bíblia. Tente ler um capítulo de Provérbios (são trinta e um - um suprimento para o mês todo), ou um capítulo do Evangelho (Mt, Mc, Lc, Jo) a cada dia. Enquanto você faz isso, mergulhe no amor e nas promessas que Deus tem para você. Isso lhe proporcionará crescimento na sua caminhada com Ele. (Leituras bíblicas: Jo 4, 10; Flp 4, 6-7. 19; Is 58, 11)

22° dia [O Amor é fiel]: Amar é uma escolha. Não um sentimento. É uma ação inicial não uma ação automática. Hoje, escolha estar comprometido a amar, mesmo que seu cônjuge (namorado) tenha perdido o interesse em receber o seu amor. Diga a ele hoje, com palavras semelhantes a essas, "eu amo você e ponto final. Eu escolho amar você mesmo se você não me amar em troca". (Leitura bíblica: Lc 6, 32-33)

23°dia [O Amor sempre protege]: Remova qualquer coisa que esteja atrapalhando seu relacionamento, qualquer vício ou influência que esteja se infiltrando em seu amor e afastando seu coração do seu cônjuge (namorado). (Leituras bíblicas: Mt 24, 43; 1Cor 13, 7)

24° dia [Amor  x  cobiça]: Acabe com a cobiça agora. Identifique todo objeto dela em sua vida e remova-o. Rejeite todas as mentiras em que você acreditava ter prazer. A cobiça não pode terá permissão de ficar por perto. Ela deve ser destruída e exterminada - hoje - e substituída pelas promessas de Deus e por um coração cheio do seu perfeito amor. (Leituras bíblicas: Mt 6, 25-34; 1Tm 6, 7)

25° dia [O Amor perdoa]: Seja o que for que você ainda não perdoou em seu cônjuge (namorado), perdoe hoje. Esqueça. Assim como pedimos a Deus para "perdoar as nossas ofensas" a cada dia, devemos pedir a Deus para ajudar-nos a "perdoar a quem nos tem ofendido" a cada dia também. A falta de perdão tem mantido você e seu cônjuge (namorado) na prisão por muito tempo. Diga de coração, "eu escolhi perdoar". (Leitura bíblica: Mt 18, 21-35)

26° dia [O Amor é responsável]: Separe um tempo para orar pelas áreas onde você tem errado. Peça o perdão de Deus, então, humilhe-se a ponto de admiti-los ao seu cônjuge (namorado). Faça isso sinceramente e verdadeiramente. Peça perdão a seu cônjuge (namorado) também. Não importa como ele irá responder, certifique-se de ter assumido sua responsabilidade em amor. Mesmo se ele responder com uma crítica, aceite-a como um conselho. (Leituras bíblicas: Rm 2, 1; 1Jo 1, 8-9)

27° dia [O Amor encoraja]: Elimine do seu lar (do seu namoro, do seu convívio) o veneno das expectativas erradas. Pense em uma área onde seu cônjuge (namorado) tenha dito que você está esperando muito, e diga a ele que você está arrependido por ter exigido muito dele. Prometa que você procurará entendê-lo, e o assegure de seu amor incondicional. (Leituras bíblicas: 1Tes 5, 11; Hbr 10, 24)

28° dia [O Amor se sacrifica]: Qual é a maior necessidade do seu cônjuge (namorado) nesse momento? Existe alguma necessidade que você pode suprir hoje através de um ato corajoso de sacrifício da sua parte? Independente da necessidade ser grande ou pequena. Proponha-se a fazer o que você puder para suprir essa necessidade. (Leituras bíblicas: Mt 25, 35-36; Gl 6, 2; 1Jo 3, 16)

29° dia [A motivação do Amor]: Antes de ver seu cônjuge (namorado) hoje, ore por ele e por suas necessidades. Diga "eu te amo", sendo fácil para você ou não. Então expresse amor de maneira sensível. Volte-se a Deus em oração mais uma vez, agradecendo a Ele por ter lhe dado o privilégio de amar essa pessoa tão especial - incondicionalmente. Assim como Ele ama vocês dois. (Leituras bíblicas: Jo 15, 12-17; Cl 3, 23)

30° dia [O Amor traz unidade]: Separe uma área que causa divisão em seu casamento (namoro, relacionamento) e olhe para ela hoje como uma oportunidade de orar. Peça a Deus para revelar o que há no seu ração que está ameaçando sua unidade com seu cônjuge (namorado). Ore para que Deus faça o mesmo com ele. E se for apropriado, discuta abertamente esse problema, buscando em Deus a unidade. (Leituras bíblicas: Gn 1, 26; Jo 17, 11)

31° dia [O Amor e o casamento]: Existe algum "rompimento" (com a família ou os amigos) que você ainda não teve coragem de realizar? Confesse-o ao seu cônjuge (namorado) hoje, e decida agir corretamente. A unidade do seu casamento (namoro, relacionamento) depende disso. Siga a unidade com o compromisso com seu cônjuge (namorado) e com Deus de fazer do seu casamento (namoro) o relacionamento humano mais importante da sua vida. (Leitura bíblica: Lc 9, 57-62)

32° dia [O Amor satisfaz as necessidades sexuais]: Se possível, relacione-se sexualmente com o seu marido (namorado) hoje. Faça isso de maneira que honre o que seu cônjuge (namorado) lhe disse (ou deixou implícito) a respeito das necessidades dele em relação à sexualidade. Peça a Deus para que esse momento seja agradável para os dois e para que também seja um caminho para uma intimidade cada vez maior. (Leitura bíblica: Ct 5, 10-16). Observação: No caso de namorados que ainda não tiveram a experiência de intimidade sexual, a tarefa deste dia não deve ser compreendida como obrigatória, no sentido literal. Pode ser substituída pelas atitudes de carinho e de intimidade, dentro dos atuais padrões de relacionamento.

33° dia [O Amor completa um ao outro]: Faça-o saber hoje que você deseja incluí-lo em suas próximas decisões, e que você precisa do seu conselho e ponto de vista. Se você ignorou as ideias dele no passado, admita seu descuido e peça-o para perdoá-lo. (Leituras bíblicas: Cl 3, 14-15; Ecl 4, 9-11)

34° dia [O Amor celebra a Deus]: Encontre um exemplo específico e recente de quando seu cônjuge (namorado) demonstrou o caráter cristão de forma notável. Elogie-o verbalmente por isto em algum momento do dia. (Leitura bíblica: 2Ts 1, 3-4)

35° dia [O Amor presta contas]: Busque um conselheiro para casais - alguém que seja um cristão firme e que será honesto e amoroso (e isento de homofobia). Se você sente que o aconselhamento é necessário, então dê o primeiro passo para marcar o primeiro encontro. Durante esse processo, peça a Deus para direcionar suas decisões e discernimento. (Leitura bíblica: Lc 3, 10-14)

36° dia [O Amor é a palavra de Deus]: Tenha o compromisso de ler a Bíblia todos os dias. Encontre um livro devocional ou outra fonte que lhe servirá como guia. Se seu cônjuge (namorado) está aberto a isto, veja se ele se comprometerá a ler a Bíblia diariamente (ou frequentemente) com você. Inicie submetendo cada área da sua vida à direção da palavra de Deus e comece a construir a sua vida e seu casamento (namoro, relacionamento) na rocha. (Leituras bíblicas: Rm 15, 4; 2Tm 3, 14)

37° dia [O Amor concorda em Oração]: Pergunte ao seu cônjuge (namorado) se vocês podem começar a orar juntos. Conversem sobre a melhor hora para fazer isso, seja pela manha na hora do almoço ou antes de dormir. Utilize este tempo para colocar suas preocupações, discórdias e necessidades diante do Senhor. Não esqueça de agradecê-lo pela provisão e pelas bênçãos. Mesmo se o seu cônjuge (namorado) se recusara fazer isso, decida ter esse tempo de oração diariamente, ainda que sozinho. (Leituras bíblicas: Lc 11, 5-13; Mt 18, 19-20)

38° dia [O Amor realiza sonhos]: Pergunte a si mesmo o que o seu cônjuge (namorado) iria querer, se fosse possível de obter. Leve isso em oração e comece a mapear um plano para atender a alguns (se não todos) desses desejos, em todos os níveis possíveis. (Leituras bíblicas: Rm 5, 8; 2Cor 9, 8)

39° dia [O Amor permanece]: Passe um tempo orando individualmente, então escreva uma carta de comprometimento ao seu cônjuge (namorado). Inclua a razão pela qual está se comprometendo com este casamento até a morte (ou namoro, relacionamento) e que decidiu amá-lo, não importam as razões. Deixe-a em um lugar onde o seu cônjuge (namorado) possa encontrá-la. (Leituras bíblicas: 1Cor 13, 8; 1Jo 3, 16.18)

40° dia [O Amor é uma aliança]: Escreva novas promessas assim como você fez no dia do seu casamento (compromisso, início de namoro). Guarde-as em algum lugar da sua casa. Talvez, se for apropriado (e possível), você possa renovar essas promessas formalmente diante de um ministro e com a família presente. Faça dessas promessas um testamento vivo do valor do casamento (namoro) aos olhos de Deus e da grande honra de ser um com seu cônjuge (namorado). (Leituras bíblicas: Jo 15, 9; 1Sm 18, 1-4)

Parabéns! Você chegou ao final de O Desafio de Amar - o livro. Mas a experiência e o desafio de amar o seu cônjuge (namorado) é algo que não tem que ter um fim. Continua para o resto da sua vida. Este livro termina no 40° dia, mas quem disse que o seu desafio terminou? E, à medida que você vê o seu casamento (namoro, relacionamento) por essa perspectiva, nós desafiamos você a considerá-lo como uma aliança e não como um contrato. Essas duas palavras são parecidas em significado e intenção, mas, na realidade, são bastante diferentes. Ver o casamento como um contrato é como dizer ao seu cônjuge: "Eu tomo você para mim e vamos ver se dá certo". Porém, vê-lo como uma aliança muda a fala para: "Eu me entrego a você e me comprometo com este casamento por toda a minha vida".  

14 de setembro de 2013

Tem ou não tem problema?


A cultura popular cristã, ou se alguém quiser, a consciência coletiva cristã popular, enfim, a mentalidade, o mundo, ou seja qual for o nome que tenhamos usado, sempre com o destaque no "popular", reage com repulsa a qualquer referência à intimidade entre as pessoas do mesmo sexo, especialmente, entre os homens (até porque a mulher, naquele mesmo ambiente, é frequentemente ignorada). Não precisamos de provas científicas para constatar a influência que tal cultura exerce nos costumes e comportamentos da sociedade, por mais laica que ela própria se declare. Alguém já viu o abraço de dois homens? Evita-se o contato frontal, é algo que parece com a pegada de lado, com uns tapinhas que lembram os golpes de luta. Se passar além disso, já surge aquele "Opa!". Se tocar no assunto de sentimentos, ou de intimidade entre os homens, logo aparece o comentário sobre a "coisa do gay". É algo tão vergonhoso, nojento e estranho que a melhor coisa é, simplesmente, evitar o assunto. Entretanto, a própria cultura cristã, naquela dimensão que chamamos de espiritualidade, ou mística (e, por isso, não pertence ao nível popular), tais referências não só existem, mas ainda ganham a intensidade extraordinária.

Vejamos algumas afirmações:

Desde o século III, o celibato encontrou seu lugar na vida e na espiritualidade cristãs como estado superior ao casamento, comparado com a condição angélica, esponsais com Cristo, núpcias místicas, oferecimento total e perfeito a Deus (compare aqui). Embora a ideia das núpcias místicas com Cristo tenha sido mais difundida entre as mulheres (Santa Catarina, Santa Teresa, Santa Teresinha, etc.), também é conhecida e experimentada entre os homens. O clássico é, sem dúvida, São João da Cruz que, em vários textos, exalta essa dimensão da vida espiritual. A referência direta é o amor entre homem e mulher. Ainda que se possa tentar interpretar essa imagem tendo Cristo como "ele" e a alma como "ela", não deixa de ser a união íntima entre "ele" (Cristo, verdadeiro homem) e "ele" (no caso, João da Cruz, também verdadeiro homem, composto de alma e corpo). O grande místico espanhol do século XVI não teve problema em escrever, por exemplo, no "Cântico espiritual":

(I) Onde é que te escondeste,
Amado, e me deixaste com gemido?
Como o cervo fugiste,
Havendo‑me ferido;
Saí, por ti clamando, e eras já ido.
 
(XI) Mostra tua presença!
Mate‑me a tua vista e formosura;
Olha que esta doença
De amor jamais se cura,
A não ser com a presença e com a figura.
 
(XXIV) Nosso leito é florido,
De covas de leões entrelaçado,
Em púrpura estendido,
De paz edificado,
De mil escudos de ouro coroado.
 
(XXVI) Na interior adega
Do Amado meu, bebi; quando saía,
Por toda aquela várzea
já nada mais sabia,
E o rebanho perdi que antes seguia.
 
(XXVII) Ali me abriu seu peito
E ciência me ensinou mui deleitosa;
E a ele, em dom perfeito,
Me dei, sem deixar coisa,
E então lhe prometi ser sua esposa.
 
(XXXVI) Gozemo‑nos, Amado!
Vamo‑nos ver em tua formosura,
No monte e na colina,
Onde brota a água pura;
Entremos mais adentro na espessura.

Na verdade, toda essa questão de relação íntima entre dois seres do sexo masculino, é bem anterior à experiência mística do século XVI. A teologia cristã, embora sempre consciente de que se trata de um "mistério indizível", quando procura expor a dinâmica da Santíssima Trindade, diz: o Pai gera o Filho, o Filho é gerado pelo Pai, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho (Catecismo da Igreja Católica, Compêndio, n. 48). Evidentemente, tal afirmação não quer dizer que as três Pessoas da Santíssima Trindade sejam de "sexo masculino", ainda que essa tenha sido a imagem comum: é o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ao mesmo tempo, a frase "o Pai gera o Filho", leva-nos à analogia com a família humana. Disse sobre isso o Papa Bento XVI: Não é só a Igreja que é chamada a ser imagem do Deus Uno em Três Pessoas, mas também a família fundada no matrimônio entre o homem e a mulher. Talvez para tentar superar aquela "masculinização" de Deus, o Papa João Paulo I, em seu brevíssimo pontificado de apenas 33 dias, tenha se referido a Deus-Mãe, sem deixar de espantar, tanto os teólogos, quanto a parte "popular" da Igreja, isto é o povo. O Papa dizia, por exemplo:

(...) somos objeto, da parte de Deus, de um amor que não se apaga. Sabemos que tem os olhos sempre abertos para nos ver, mesmo quando parece que é de noite. Ele é papai; mais ainda, é mãe. Não quer fazer-nos mal, só nos quer fazer bem, a todos. Os filhos, se por acaso estão doentes, possuem um título a mais para serem amados pela mãe. (Angelus, 10. 09. 1978)

...bem que o Catecismo explica isso assim: Ao designar Deus com o nome de «Pai», a linguagem da fé indica principalmente dois aspectos: que Deus é a origem primeira de tudo e a autoridade transcendente, e, ao mesmo tempo, que é bondade e solicitude amorosa para com todos os seus filhos. Esta ternura paternal de Deus também pode ser expressa pela imagem da maternidade, que indica melhor a imanência de Deus, a intimidade entre Deus e a sua criatura. (...) Convém, então, lembrar que Deus transcende a distinção humana dos sexos. Não é homem nem mulher: é Deus. Transcende também a paternidade e a maternidade humanas, sem deixar de ser de ambas a origem e a medida: ninguém é pai como Deus. (CIC, 239). Nesta linha expressa-se, também, Bento XVI, em seu livro "Jesus de Nazaré": Não é Deus também mãe? Há a comparação do amor de Deus com o amor de uma mãe: "Como uma mãe consola os seus filhos, assim Eu vos consolo" (Is 66, 13) (...) Se na linguagem formada a partir da corporeidade do homem parece inscrito o amor da mãe na imagem de Deus, vale porém, ao mesmo tempo, que Deus nunca é designado como mãe nem com esta invocação alguém a Ele se dirija, nem no Antigo nem no Novo Testamento. "Mãe" não é na Bíblia um título divino. (...) Naturalmente, Deus não é nem homem nem mulher, mas precisamente Deus, o criador do homem e da mulher. (Bento XVI, "Jesus de Nazaré", vol. I, p. 130).

Deus não é nem homem nem mulher, entretanto, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, "distinta na sua essência única e igual na sua majestade" (cf. Prefácio "O Mistério da Santíssima Trindade"), veio a este mundo como verdadeiro ser humano (sem deixar de ser verdadeiro Deus) e ser humano do sexo masculino. É com este Deus-Homem sou convidado a viver em mais profunda intimidade que, na experiência mística, assemelha-se e muito, à intimidade conjugal.

Ora, não estou reduzindo a vida mística ao nível do ato sexual puramente carnal. Apenas procuro mostrar que a linguagem e a simbologia cristã, com seus mais firmes fundamentos na Bíblia, recorrem à imagem de intimidade humana e, neste caso, a intimidade de dois seres humanos do mesmo sexo. Parece que o próprio Deus revela o seu mistério através de uma realidade que - devido às limitações da mentalidade humana - causa espanto, nojo e medo em tanta gente.

Afinal, na tradição espiritual cristã, tem ou não tem problema com a intimidade entre dois homens?

Exaltar a CRUZ

 
A festa litúrgica da Exaltação da Santa Cruz inspira-se na tradição que conta a história da descoberta da cruz de Jesus Cristo, por volta do ano 326. Helena, a mãe do imperador Constantino teria recebido a revelação do local, onde se encontravam as três cruzes e, entre elas, aquela na qual morreu Jesus. No local da descoberta foi construída a igreja do Santo Sepulcro por ordem de Helena e dedicada em 335, com uma parte da cruz em exposição. Em 13 de setembro ocorreu a dedicação da igreja e a cruz foi posta em exposição no dia 14, para que os fiéis pudessem orar e venerá-la.
 
A Igreja convida-nos à reflexão sobre o mistério da Cruz, relembrando as palavras de Jesus: Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. (Jo 3, 13-14) e, também: Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim (Mt 10, 38). 
 
A tradição cristã (que podemos chamar de "sabedoria espiritual do povo") sempre associou a cruz ao sofrimento (à provação, em geral) e ao cumprimento do dever, interpretando assim a exigência de "tomar a cruz" expressa nas palavras de Jesus. É um caminho à santificação e, consequentemente, à salvação e à vida eterna.
 
Do ponto de vista de uma pessoa homossexual, a Exaltação da Santa Cruz, pode ser uma ocasião para refletir sobre a sua condição e, de fato, exaltá-la. O texto do Catecismo da Igreja Católica, justamente assim, descreve a situação:

Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objetivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição. (CIC, 2358)
 
Na Carta aos Gálatas (3, 13) lemos: Cristo remiu-nos da maldição da lei, fazendo-se por nós maldição, pois está escrito: Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro (Dt 21, 23). Se a cruz que no Antigo Testamento foi o sinônimo de maldição e Jesus teve o poder de transformá-la em maior fonte de bênção, por que não podemos assim contemplar algo que faz parte integral de nossa identidade? O Catecismo diz que, sendo cristãos, devemos unir à cruz do Senhor as nossas dificuldades. Pergunto, pois: é unir à cruz na visão do Antigo, ou do Novo Testamento? Em outra Carta, São Paulo escreve: nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos - força de Deus e sabedoria de Deus (2Cor 1, 23-24).
 
ORAÇÃO:
(a primeira parte inspirada no texto de Pe. Reginaldo Manzotti)
 
Ó Santa Cruz, Cruz Bendita onde a humanidade foi redimida
e o Filho do homem teve suas mãos e seus pés transpassados
e teve seu peito aberto de onde jorrou água e sangue.
Ó Santa Cruz, instrumento de morte e de castigo,
mas que no Sangue Redentor se tornou sinal de nossa salvação.
Ó Cruz Bendita, chave de nossa eternidade,
coroa de nossa salvação, na cruz do Senhor eu coloco estas intenções:
 
Por todos os homossexuais,
crucificados em suas famílias
e em qualquer parte da sociedade,
muitas vezes por "motivos religiosos"...
Por todos os homossexuais
que não aceitam a sua própria condição,
pelos que vivem em depressão e solidão,
por aqueles que atentam contra a própria vida...
Pelos que foram expulsos de casa
abandonados pelos amigos
desprezados por colegas na escola e no trabalho,
agredidos na rua
e rejeitados pela Igreja.
 
Que todos possam descobrir
a Cruz gloriosa e vitoriosa.
Que encontrem na Cruz a força
para viver, lutar e amar
e que cheguem pela Cruz
à glória da eternidade.
Amém.

13 de setembro de 2013

Mês da Bíblia (5) - 2° encontro

Foto: meh sea by ~oasis1

Sigo a proposta da CNBB de reflexão bíblica, baseada no texto do Evangelho de Lucas, de acordo com alguns temas principais. A minha leitura tem como o pano de fundo a identidade homossexual e católica, ambas em busca de conhecimento mútuo, através de um diálogo sereno e objetivo.
 
O segundo encontro aborda temas da vocação, missão e as exigências do discipulado. Este tema está em ressonância com a perspectiva do tema deste ano, que é o discipulado-missionário em Lucas e objetiva mostrar a radicalidade, na resposta dos chamados ao discipulado (Lc 5,11) e acentua o desprendimento que é uma atitude própria de todo discípulo, no seguimento de Jesus e, sobretudo no Evangelho Segundo Lucas.
 
O texto indicado é: "Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo, e seguiram a Jesus." (Lc 5, 11) Talvez seja interessante olhar o contexto mais amplo, principalmente os acontecimentos anteriores. É a passagem que contém o convite de um pregador (então pouco conhecido) aos pescadores: "Avance para águas mais profundas, e lancem as redes para a pesca." (Lc 5, 4) e a pesca milagrosa, acompanhada pelo espanto de Simão e de seus companheiros (cf. Lc 5, 6-9). Chama atenção, também, a prontidão de Simão em contrariar a própria lógica e experiência, para obedecer a estranha ordem do homem estranho... O "avançar às águas mais profundas" aconteceu tanto no sentido literal, quanto em forma de uma "viagem interior". Uma viagem na contramão, diga-se de passagem. É muito importante notar isso: Jesus mostra os novos horizontes e as realidades desconhecidas. Depois, convida a explorá-los. Não posso deixar de lembrar aqui de algumas afirmações do Pe. Frederico Lombardi, o porta-voz da Santa Sé, durante a entrevista concedida à Rádio Vaticano: O Papa Francisco fala muito de uma Igreja não auto-referencial, de uma Igreja de missão, de uma Igreja que olha para além de si mesma e a todo o mundo. A mim, veio em mente a belíssima Carta de João Paulo II no final do Jubileu, "Duc in altum", dirigida à Igreja do terceiro milênio. Assim, me parece que efetivamente, com o Papa Francisco, a barca da Igreja esteja viajando, sem medo, antes, com alegria de poder encontrar o mistério de Deus em novos horizontes.
 
Por mais óbvio que pareça, é extremamente importante admitir: existem, sim, novos horizontes, novos caminhos, novos rumos. É, justamente, o nome "Rumos novos" que foi escolhido para definir o "grupo de homossexuais católicos de Portugal que encoraja a animação da fé com homossexuais e suas famílias e que, acompanhado por um número cada vez maior de participantes de todas as idades, está lançando um novo olhar à Igreja Católica, reclamando a sua pertença ao Corpo de Cristo".

Eu sei que esta perspectiva de leitura e de reflexão bíblica pode irritar muita gente. Imagino os comentários, baseados principalmente na interpretação direta do texto de Lucas, mais ou menos neste sentido: "Aqueles homens, chamados por Cristo, deixaram as barcas e seguiram a Jesus e isso significa que vocês, gays e outros pervertidos, devem deixar esta vida de pecado e seguir os mandamentos de Deus e a doutrina da Igreja!". Bem, no momento, seria difícil esperar outra coisa. Tudo o que se refere aos dilemas de consciência, inclusive os conceitos de pecado, é delicado e não se resume, nem resolve, com apenas uma frase radical. É necessário o diálogo e o Papa Francisco tem falado sobre isso desde o início. Bento XVI também deixou orientações claras a esse respeito, por exemplo:  é absolutamente necessário o diálogo, conhecer-se reciprocamente, respeitar-se e procurar colaborar de todas as formas possíveis para as grandes finalidades da humanidade, ou para as suas grandes necessidades, para superar fanatismos e criar um espírito de paz e de amor. E isto está também no espírito do Evangelho, cujo sentido é precisamente que o espírito de amor, que aprendemos de Jesus, a paz de Jesus que Ele nos doou através da cruz, se torne presente universalmente no mundo. Neste sentido o diálogo deve ser diálogo verdadeiro, no respeito pelo próximo e na aceitação da sua alteridade; mas deve ser também  evangélico, no sentido que a sua finalidade fundamental é ajudar os homens a viver no amor e fazer com que este amor se possa expandir em todas as partes do mundo.

Sem dúvida, os homossexuais têm muitas "barcas a serem deixadas na margem", para seguir Jesus, sobretudo o pecado. O pecado, porém, está associado à condição humana e não apenas homossexual. Sim, as pessoas homossexuais enfrentam muitas situações particulares (inclusive, devido à falta de assistência pastoral séria), mas a solução não está na generalização, nem no preconceito. Esta é, de fato, a primeira "barca" que precisa ser abandonada. Seguir Jesus consiste em empregar a sua maneira de ir ao encontro do outro, sempre com o coração cheio de compreensão.

11 de setembro de 2013

Mês da Bíblia (4) - 1° encontro

 
Como já mencionei (aqui), a Comissão Bíblico-Catequética da CNBB propõe, para o Mês da Bíblia deste ano,  4 encontros e a celebração final, com os seguintes temas:

1° Lc 4,14-30 (o início da missão pública de Jesus na Galileia que tem como centro a proclamação do cumprimento do texto do profeta Isaías [Is 61,1-2] sobre a missão do Messias e a salvação que é anunciada a todos).

2° Temas da vocação, missão e as exigências do discipulado (de acordo com o tema deste ano: "O discipulado-missionário em Lucas"; objetiva mostrar a radicalidade, na resposta dos chamados ao discipulado [Lc 5,11] e o desprendimento - uma atitude própria de todo discípulo, no seguimento de Jesus).

3° O papel das mulheres, no seguimento de Jesus.

4° Os desafios e problemas no seguimento (Lc 15).

A celebração final: o resumo dos encontros baseado no texto de Lc 24,13-35 (o caminho catequético-litúrgico, marcado pelo escutar e reler as Escrituras, à luz do Mistério Pascal de Jesus e o reavivar a certeza de que é no partir o pão, que o encontro com o Ressuscitado se faz sempre presente. É por meio desse encontro que somos chamados a anunciar a Alegre Notícia: Jesus ressuscitou e vive em nosso meio.
 
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Escrevi (em 2011) uma reflexão sobre os acontecimentos na sinagoga de Nazaré à luz da experiência de "coming out", que se aplica, de forma nítida, à atitude de Jesus naquela época. Seguindo o método de "leitura existencial", procuro me identificar com um, ou outro personagem do texto. Como na mencionada reflexão tentei olhar da perspectiva daquele que sai do armário (embora eu, particularmente, ainda tenha adiado esse ato, em seu sentido pleno e público). Talvez seja interessante colocar-me, agora, no meio daquela gente que recebe a notícia: "Vejam, eu sou o que sou", pelo menos em dois aspectos. Como reajo quando alguém (de quem eu nem desconfiava) diz: "Eu sou gay"? Realmente, a primeira ideia é: "Eu não desconfiava!". Há quem diga que existe tal de "gaydar" (um "radar" interior, uma intuição, para reconhecer os gays). No meu caso funciona raramente. Não sou muito atento, eu acho, embora já tenha tido alguns, pouquíssimos, acertos. Outra ideia é - penso eu - associada a um tipo de inveja (olha, não é tão fácil admitir os próprios medos e outros erros). Mas, de fato, a minha admiração pela coragem daquela pessoa que revela publicamente a sua homossexualidade, mistura-se com uma espécie de autocobrança: "por que eu ainda não tive essa coragem?". Vem, ainda, o julgamento, do tipo: "Pelo qual motivo ele/ela está fazendo isso?" - indiretamente surge outra pergunta por trás: "Por que eu ainda não fiz isso?"... Aí, é claro, começa aquela interminável discussão interior, baseada sobretudo nas comparações (eu me comparo com os outros) e na série de justificativas: "Ah, para ele/ela é muito fácil!" (não sei o que estou dizendo!), ou "Ah, hoje em dia está na moda assumir a homossexualidade" (ideia bastante superficial)... Enfim, de qualquer maneira, a minha postura não está muito diferente daquelas mostradas no Evangelho (anda que apenas dentro da minha cabeça). Pode parecer estranho, mas, apesar de toda essa tempestade mental, ainda sou capaz de ficar feliz com o "coming out" de quem quer que seja e - com toda sinceridade - dou o meu total apoio. Voltando, ainda, ao assunto da minha própria e definitiva saída do armário, posso dizer que - ainda que parcialmente - fiz isso em alguns ambientes e/ou círculos de pessoas (incluindo aqueles nos quais fui tirado do armário forçadamente). Pode ser que os meus receios nesta questão tenham a ver com o tipo desastrado que sou. Algumas vezes, ao tentar me revelar como gay, deixei a pessoa assustada e com a impressão de ter "dado em cima" dela (a pessoa, mas, neste caso, seria "dele" rs). Em alguns casos, os velhos e novos amigos, deixaram de falar comigo a partir daquele momento. E eu não quero mais perder amigos. Quero fazer amigos, mas não é sempre que consigo...
 
Lembro-me de um livro que fala sobre a necessidade de comunicação. É o "Arrancar máscaras! Abandonar papéis" de John Powell e Loretta Brady (tenho a edição da Loyola-SP de 1985). Entre outras coisas importantes, os autores fazem as seguintes perguntas: "A comunicação é importante para mim?", "Quero realmente conhecer e ser conhecido?",  "Se eu fosse me revelar honestamente a alguém, o que receio pudesse acontecer?" (p. 25). Em um dos primeiros capítulos colocam, também, essa regra: "Somente quando estamos dispostos a partilhar todo o nosso eu, imperfeições e tudo, estamos realmente nos comunicando. Mas, mais do que isso, minha franqueza terá um efeito definitivo nos outros. A honestidade, como tudo o que é humano, é contagiante. O fato de eu sair de trás de muros protetores para encontrá-lo frente a frente vai inspirá-lo a fazer o mesmo. Quando somos verdadeiros e honestos a respeito de nossa vulnerabilidade, os outros ficam aliviados" (p. 65-66).
 
Bem... Não sei se isso funciona, exatamente assim, no caso de homossexuais.
 
Existe, porém, um outro "coming out", não menos complicado do que o "clássico". Estou pensando naquela situação em que um(-a) homossexual, dentro da "comunidade GLBT", revela-se como pessoa religiosa, principalmente cristã (acho que existe maior tolerância neste ambiente para quem se declara um espírita, ou budista, ou seguidor de alguma outra "doutrina exótica"... e, quanto mais exótica, melhor). Eu sei que a intolerância gera intolerância e a antipatia em relação às Igrejas cristãs é bastante comum no meio GLBT, tendo sua razão em mágoas e injustiças, sofridas na própria pele. Para um gay católico, ou protestante, a carga do preconceito sofrido, tem dose dupla. Assim, muita gente, na minha opinião, permanece em dois armários ao mesmo tempo...
 
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Retomando a leitura da passagem do Evangelho de Lucas (4, 16-30), proposta para este primeiro encontro do Mês da Bíblia, há mais uma coisa que chama a minha atenção. O texto diz:
 
Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor." E enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Ele começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir. (Lc 4, 17-21)
 
É claro que Jesus tem a total autoridade e liberdade para ler a passagem bíblica que quiser. Entretanto, se olhássemos com atenção à citação de Isaías, notaríamos uma curiosidade. O texto faz parte do capítulo 61 da profecia de Isaías e, em sua versão original, a última frase tem uma continuação lógica: depois de falar "para publicar o ano da graça do Senhor", acrescenta "e um dia de vingança de nosso Deus". Pode não ter tanta importância, mas acho interessante a maneira de pregar que Jesus escolheu, evitando tudo que tenha qualquer conotação de violência, ou de castigo (neste caso, a vingança). Quem sabe, os pregadores de hoje, possam aprender algo com este detalhe...

8 de setembro de 2013

Sabedoria da renúncia

 
A Liturgia da Palavra neste 23° Domingo do tempo comum traz a mensagem sobre a sabedoria da renúncia. É preciso saber renunciar e ao que renunciar. É preciso renunciar para alcançar a sabedoria. O texto principal, como sempre, é o Evangelho (Lc 14,25-33) e nele destaca-se a frase de Jesus: "Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo." (v. 27) e outra: "(...) qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!" (v. 33).
 
A mais frequente interpretação aponta aqui a renúncia aos bens materiais. Quase sempre, fala-se, também, de renúncia ao pecado. Não tem nada de errado neste ponto de vista, desde que a própria interpretação não se limite apenas nele. Temos, pois, muito mais coisas para renunciar, o que nos sugere o próprio conjunto de textos deste dia. A primeira leitura (Sb 9,13-18) e o Salmo responsorial (Sl 89) falam de sabedoria e da pequenez do homem diante dela. Indiretamente, portanto, apontam a necessidade de renúncia da própria "sabedoria" (ou inteligência) humana e à exagerada confiança depositada nela: "Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus?" (Sb 9, 16). Admitir não ser o "dono da verdade" requer a humildade, a mesma que Sócrates expressou dizendo: "Só sei que nada sei".
 
Na segunda leitura, o Apóstolo Paulo, recorre, exatamente, a este argumento, ao solicitar ao seu amigo e irmão na fé, a renúncia aos critérios de costumes da época, além de todos os argumentos emocionais, intelectuais e legais (Fm 9b-10.12-17). Renunciar a si mesmo e a tudo que se possui, neste contexto, significa abrir mão de seu próprio ponto de vista, por mais que ele tenha sido apoiado pelos costumes e leis em vigência. Olhar a Onésimo não mais como a um escravo culpado, mas sim, como a um irmão em Cristo e um irmão querido, é a verdadeira revolução.
 
Para nós, o "povo GLBTTS", é uma mensagem de esperança, desde que alguém queira seguir esta orientação da Palavra de Deus. Por que enxergar em cada um de nós apenas esta ou aquela orientação sexual? Inclusive, o próprio termo, leva à associação direta ao ato sexual, embora a palavra "sexo" não se limite apenas a isso. Se eu disser que a criança que nasceu é de sexo masculino, isso não vai significar que um bebê esteja realizando um ato sexual. Todos os "donos da verdade" que abominam até a própria existência das pessoas diferentes em relação ao "padrão" heterossexual, esquecem da verdade revelada por Deus: "Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus?" 
 
Um pouco mais humildade encontramos na afirmação da Igreja que diz: "A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atração sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar" (CIC 2357). Em outro "texto fundamental", a Igreja diz: "A Igreja, guardiã do depósito da palavra de Deus do qual tira os princípios para a ordem religiosa e moral, ainda que não tenha sempre resposta imediata para todos os problemas, deseja unir a luz da revelação com a perícia de todos, para que se ilumine o caminho no qual a humanidade entrou recentemente." (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral "Gaudium et Spes", n. 33) O mesmo documento, um pouco antes, afirma também: "Dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos os homens têm a mesma natureza e mesma origem; redimidos por Cristo, todos gozam da mesma vocação e destinação divina; deve-se portanto reconhecer cada vez mais a igualdade fundamental entre todos. Na verdade nem todos os homens não se equiparam na capacidade física, que é variada, e nas forças intelectuais e morais, que são diversas. Contudo qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa, seja ela social ou cultural, ou funde-se no  sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião deve ser superada e eliminada,  porque contrária ao plano de Deus. É de lamentar realmente que  aqueles direitos fundamentais da pessoa não sejam ainda garantidos por toda a parte. É o caso quando se nega à mulher a faculdade de escolher livremente o seu esposo, de abraçar seu estado de vida ou o acesso à mesma cultura e educação que se admitem para o homem. Além disso, ainda que haja entre os homens justas diferenças, a igual dignidade das pessoas postula que se chegue a uma condição de vida mais humana e mais equitativa. Pois as excessivas desigualdades econômicas e sociais entre os membros e povos da única família humana, provocam escândalo e são  contrárias à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e à paz social e internacional. As instituições humanas, particulares ou públicas, se esforcem por servir à dignidade e ao  fim do homem. Ao mesmo tempo lutem denodamente contra qualquer espécie  de servidão tanto social quanto política e respeitem os direitos fundamentais do homem sob qualquer regime político. Além disso, é necessário que estas instituições pouco a pouco se adaptem às exigências espirituais, superiores a tudo, ainda que às vezes seja necessário um tempo bastante longo para chegarem ao fim desejado" (n. 29).

7 de setembro de 2013

A prece pela PAZ

Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. (Mt 5, 9)
A tua fé te salvou. Vai em paz! (Mc 5, 34; cf. Lc 7, 50; 8, 48;) 
Tende sal em vós e vivei em paz uns com os outros. (Mc 9, 50)
Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa! (Lc 10, 5)
Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!... Mas não, isso está oculto aos teus olhos. (Lc 19, 42)
A paz esteja convosco! (Lc 24, 36)
Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. (Jo 14, 27)
Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo. (Jo 16, 33)
Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. (At 10, 36)
A vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e da parte do Senhor Jesus Cristo! (Rm 1, 7)
A aspiração do espírito é a vida e a paz. (Rm 8, 6)
Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens. (Rm 12, 18)
O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e gozo no Espírito Santo. (Rm 14, 17)
Apliquemo-nos ao que contribui para a paz e para a mútua edificação. (Rm 14, 19)
O Deus da paz esteja com todos vós. (Rm 15, 33)
Deus vos chamou a viver em paz. (1Cor 7, 15)
Deus não é Deus de confusão, mas de paz. (1Cor 14, 33)
Vivei em paz, e o Deus de amor e paz estará convosco. (2Cor 13, 11)
O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade. (Ga 5, 22-23)
Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava. (Ef 2, 14)
Veio para anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz também àqueles que estavam perto. (Ef 2, 17)
Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. (Ef 4, 3)
A paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus. (Flp 4, 7)
Ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus. (Col 1, 20)
Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. (Col 3, 15)
Conservai a paz entre vós. (1Tes 5, 13)
O Senhor da paz vos conceda a paz em todo o tempo e em todas as circunstâncias. (2Tes 3, 16)
Procurai a paz com todos. (Hbr 12, 14)
O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz. (Tg 3, 18)
Busque a paz e siga-a. (1P 3, 11)
A paz esteja com todos vós que estais em Cristo. (1P 5, 14)
A paz esteja contigo! (3J 1, 15)



Senhor Jesus, Príncipe da Paz! Confesso que nem sempre fui amigo da paz. Agredi pessoas, senti raiva, guardei mágoa. Menti. Fui egoísta. Julguei pelas aparências. Falei mal dos outros... Com tudo isso que carrego nas minha costas, venho hoje para Vos pedir o dom da PAZ. A paz para Síria e para o mundo inteiro. Não peço, invocando os meus méritos, pois não tenho nada, além de confiança e arrependimento. Escutai o grito de tantos filhos e filhas de Deus que desejam a paz. Especialmente aqueles que vivem nos lugares atingidos pela violência e pela guerra. Inspirai o mesmo desejo de paz nos corações daqueles que têm o poder sobre as nações. Protegei cada pessoa que tem a sua paz ameaçada. Impedi atitudes de discriminação por qualquer motivo. Despertai no coração de cada ser humano a boa vontade. Dai a cada um de nós a compreensão de que somos todos irmãos, filhos do mesmo Pai celeste. Acolhei as preces da Vossa Igreja e de cada ser humano que clama pela paz. Acolhei o pedido de Maria, Rainha da Paz, Vossa Mãe. Senhor Jesus, Príncipe da Paz! 

2 de setembro de 2013

Mês da Bíblia (3) - leitura existencial

 
 
"Leitura existencial" (vivencial, existencialista, etc.) é um dos métodos de estudo bíblico que, a princípio, não exige muito, além de atenção e imaginação - sempre acompanhadas pela fé e oração. Vários autores recomendam este método. Entre eles, gostaria de citar o Pe. Léo, scj (Léo Tarcísio Gonçalves Pereira - 1961-2007; sacerdote dehoniano, escritor, pregador, compositor e cantor, fundador da Comunidade Bethânia que trabalha com a recuperação de dependentes químicos). Em seu livro "Roteiros bíblicos de cura interior" (Edições Loyola, São Paulo, 2005), o Pe. Léo escreve:
 
Como estamos nos orientando por roteiros bíblicos, que são experiências vividas por pessoas em situações similares às nossas, devemos fazer ao máximo o uso da imaginação (p. 23). Conforme os roteiros que vamos rezando, precisamos aprender a nos colocar dentro da cena. Não adianta nada ler esses roteiros somo se fossem uma informação geral sobre um tema. Esses roteiros são exercícios práticos. Precisam ser vividos. Nenhum de nós chegará a alcançar as metas desejadas se não seguir pelas trilhas que a Bíblia vai apresentando. Somos convidados a fazer a mesma experiência. Somos convidados a ouvir o que o Senhor está nos falando, a respeito de nossa vida, a partir da rota que estamos seguindo (p. 25). Tome consciência da presença de Jesus. Peça ao Espírito Santo que venha em socorro de sua fraqueza. Leia e releia o texto bíblico até conseguir memorizar suas partes principais. Depois tente reproduzir, para si mesmo, mentalmente, o esquema do texto. A partir disso comece a se inserir na história. A Bíblia não é um livro escrito para contar a história de fulano, sicrano ou beltrano. A Bíblia é o livro escrito sobre a sua história. É um roteiro no mais amplo e perfeito sentido dessa palavra. Retome o texto. Observe, conforme a situação que você está vivendo, que personagem se encaixa melhor em você. Coloque-se no lugar de cada um deles. Pergunte, muitas vezes, para Deus o que ele quer lhe falar. Peça, muitas vezes, as luzes do Espírito Santo. E não se canse de rezar a partir desses roteiros. Com certeza essa oração lhe fará um bem imenso. Experimente (p. 28-29).
 
A mesma proposta metodológica de leitura da Bíblia propõe o Pe. James Alison (James Nicholas Francis Alison, inglês, nascido em 1959 em Londres, sacerdote, teólogo, escritor. Estudou, viveu e trabalhou na Inglaterra, no México, Brasil, Bolívia, Chile e Estados Unidos. Obteve o doutorado em Teologia pelas Faculdades Jesuítas de Belo Horizonte. Além de teólogo, é um dos raros padres e teólogos católicos assumidamente gays). Em seu livro "Fé além do ressentimento - fragmentos católicos em voz gay" (Editora É Realizações, São Paulo, 2010), o Pe. James escreve:
 
A leitura não ficará restrita a um simples comentário, será uma tentativa de fazer um experimento sobre a própria perspectiva da leitura. Isso significa que faremos estas perguntas: "Quem está lendo esta passagem?", "Com quem nos identificamos?". A razão para o uso de tal abordagem é afinar a nossa inteligência, para que possamos, então, começar a levantar certas questões sobre aspectos fundamentais da moral, de como falamos sobre essas coisas, ou mesmo de como as vivemos de uma forma mais ou menos coerente e convincente. (...) Minha intenção não é causar escândalo, mas provocar um tipo de discussão que habilite a formação de um caminho mais completo para se viver uma vida cristã (p. 35).

1 de setembro de 2013

Mês da Bíblia 2013 (2)


 
O vídeo dura quase uma hora e meia e não só traz uma variedade de sérios argumentos, em forma de estudo sistemático, mas também é o excelente exemplo de uma conversa serena e objetiva, tão diferente da maior parte de discussões sobre o mesmo tema: "Bíblia e homossexualidade: exegese e hermenêutica". Neste Mês da Bíblia é uma grande oportunidade de abrir o Livro Sagrado, de maneira mais consciente, sem medo e não se deixar intimidar pela postura de tantos fundamentalistas e ignorantes que falam "em nome de Deus".

31 de agosto de 2013

Mês da Bíblia 2013 (1)


by ~aheathphoto

 
"O Evangelho segundo Lucas sob o prisma do discipulado-missionário", conforme o enfoque do Projeto de Evangelização "O Brasil na missão Continental", é o tema do mês da Bíblia de 2013. O tema escolhido releva o Evangelho do Ano Litúrgico C, e os cinco aspectos fundamentais do processo do discipulado: o encontro com Jesus Cristo, a conversão, o seguimento, a comunhão fraterna e a missão propriamente dita. O lema indicado pela Comissão Bíblico-Catequética da Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) é: “Alegrai-vos comigo, encontrei o que estava perdido” (Lc 15) [mais informações aqui].
 
A primeira ideia que aparece, ao associarmos o enfoque do tema e o lema deste Mês da Bíblia ("O Brasil na missão Continental" + “Alegrai-vos comigo, encontrei o que estava perdido”), é a (mencionada com mais frequência na ocasião da visita do Papa) perda dos fiéis católicos, principalmente aqueles que "mudam de religião" (na verdade, não é a religião, mas confissão, ou denominação cristã) e tornam-se evangélicos, além de todos os outros que, simplesmente, deixam a Igreja Católica de forma mais ou menos definitiva (entre eles estão aqueles que, ainda que se identifiquem com ela, deixam de praticar os atos religiosos e outros que, de maneira mais drástica, passam a se considerar como "pessoas sem religião").
 
Sem dúvida, em todos estes grupos de pessoas, estão os homossexuais que experimentam o preconceito, tanto de maneira prática e muito concreta, quanto em forma, digamos, teórica, ou seja, como um conflito interior que impede a união de duas identidades: a católica e a homossexual. É neste contexto que o atual Mês da Bíblia torna-se uma excelente oportunidade para refletir ainda mais sobre estes assuntos, procurando construir possíveis pontes. Este é o propósito de algumas próximas publicações neste blog.

A Comissão Bíblico-Catequética da propõe (em forma de um subsídio) 4 encontros e a celebração final, com os seguintes temas:

O primeiro encontro tratará sobre Lc 4,14-30 (a narrativa do início da missão pública de Jesus na Galileia que tem como centro a proclamação do cumprimento do texto do profeta Isaías [Is 61,1-2] sobre a missão do Messias e a salvação que é anunciada a todos).

O segundo encontro aborda temas da vocação, missão e as exigências do discipulado. Este tema está em ressonância com a perspectiva do tema deste ano, que é o discipulado-missionário em Lucas e objetiva mostrar a radicalidade, na resposta dos chamados ao discipulado (Lc 5,11) e acentua o desprendimento que é uma atitude própria de todo discípulo, no seguimento de Jesus e, sobretudo no Evangelho Segundo Lucas.

O terceiro encontro aprofundará o papel das mulheres, no seguimento de Jesus.

O quarto encontro tratará sobre os desafios e problemas no seguimento, priorizando Lc 15.
A celebração final será um resumo dos encontros baseado no texto de Lc 24,13-35. É um relato exclusivo de Lucas e descreve o caminho catequético-litúrgico, marcado pelo escutar e reler as Escrituras, à luz do Mistério Pascal de Jesus e o reavivar a certeza de que é no partir o pão, que o encontro com o Ressuscitado se faz sempre presente. É por meio desse encontro que somos chamados a anunciar a Alegre Notícia: Jesus ressuscitou e vive em nosso meio.

Aqui faremos também algumas reflexões no contexto da homossexualidade, vivida à luz da fé e sob a direção da Palavra de Deus. Para isso teremos a oportunidade de relembrar alguns métodos simples de leitura bíblica e de partilha em um grupo - vale lembrar que, de certo modo, um casal, também, pode se tornar um "círculo bíblico" e a leitura orante da Bíblia certamente irá reforçar os laços que unem aqueles que se amam.

29 de agosto de 2013

João Batista e casamento

Saint John the Baptist (Guido Reni, 1637)
Dulwich Picture Gallery, London, UK
 
 
A Igreja celebra hoje a memória do Martírio de São João Batista. Há quem diga, nesta ocasião, que os ideais pelos quais ele derramou o seu sangue, hoje em dia tenham sido ameaçados pela postura usurpadora do movimento GLBSTT em relação ao matrimônio, quer dizer, "a união entre as pessoas do mesmo sexo equiparada ao matrimônio que, por sua natureza, é a união entre homem e mulher". A lógica apresentada pela Igreja é esta: "A sociedade deve a sua sobrevivência à família fundada sobre o matrimônio. É, portanto, uma contradição equiparar à célula fundamental da sociedade o que constitui a sua negação. A consequência imediata e inevitável do reconhecimento legal das uniões homossexuais seria a redefinição do matrimônio, o qual se converteria numa instituição que, na sua essência legalmente reconhecida, perderia a referência essencial aos fatores ligados à heterossexualidade, como são, por exemplo, as funções procriadora e educadora. Se, do ponto de vista legal, o matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente for considerado apenas como um dos matrimônios possíveis, o conceito de matrimônio sofrerá uma alteração radical, com grave prejuízo para o bem comum." (Congregação para a Doutrina da Fé, "Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais", Vaticano, 2003).
 
Interessante, porém, é o fato de ser, tranquilamente, equiparada a essa mesma "célula fundamental da sociedade", isto é, a família, tanta coisa que, também, pode ser considerada a sua negação. A própria humanidade é chamada de "família das nações", os cristãos de várias denominações são vistos como "a grande família cristã", a Igreja como "família de Deus", o Instituto das religiosas como uma "família em Cristo", sem falar de expressões mais populares, de fora do âmbito eclesial, como, por exemplo "família vascaína". É claro que trata-se apenas de interpretação de termos e expressões, mas o fenômeno em si (o de usar o mesmo nome para tantas realidades distintas) mostra que tal de "equiparação" não deve causar tanto escândalo. Pelo contrário: é, justamente, por ser a "célula fundamental da sociedade", que a família torna-se uma belíssima inspiração para muitas experiências, baseadas na convivência entre as pessoas. Se os funcionários de uma empresa chegam a dizer que o trabalho e todas as outras relações entre as pessoas lembram o clima familiar, o chefe só pode ficar satisfeito. O mesmo acontece dentro de uma escola, no clube esportivo, em qualquer equipe de trabalho, mesmo que nenhuma dessas entidades tenha "funções procriadoras". Falando nisso, vale a pena prestar atenção a um detalhe, relacionado ao Sacramento do Matrimônio. Não é verdade que - como tanta gente afirma - a procriação tenha sido a sua única, ou mesmo a mais importante finalidade e, portanto, a razão de existir. O mesmo pode ser dito sobre o ato sexual. Muitos adversários e críticos da Igreja citam essa "única razão" como prova maior da caducidade da doutrina católica sobre o Matrimônio. Há, entretanto, algo mais. O Papa João Paulo II, em sua Exortação Apostólica "Familiaris consortio", aponta quatro finalidades (deveres gerais) da família: 1) a formação de uma comunidade de pessoas;  2) o serviço à vida; 3) a participação no desenvolvimento da sociedade; 4) a participação na vida e na missão da Igreja (n. 17 e seguintes).
 
Contemplando a família composta por duas pessoas do mesmo sexo, percebemos que apenas no ponto 2) - no seu sentido mais literal possível - a sua participação (o cumprimento do dever) pode se realizar de forma diferente. O próprio texto da Exortação afirma: "A fecundidade do amor conjugal não se restringe somente à procriação dos filhos, mesmo que entendida na dimensão especificamente humana: alarga-se e enriquece-se com todos aqueles frutos da vida moral, espiritual e sobrenatural que o pai e a mãe são chamados a doar aos filhos e, através dos filhos, à Igreja e ao mundo." (n. 28).
A mesma verdade repete o Catecismo da Igreja Católica: "A fecundidade do amor conjugal se estende aos frutos da vida moral, espiritual e sobrenatural que os pais transmitem a seus filhos pela educação. Os pais são os principais e primeiros educadores de seus filhos. Neste sentido, a tarefa fundamental do Matrimônio e da família é estar a serviço da vida." (n. 1653) E acrescenta algo muito importante: "Os esposos a quem Deus não concedeu a graça de ter filhos podem, no entanto, ter uma vida conjugal cheia de sentido, humana e cristãmente falando. O seu Matrimônio pode irradiar uma fecundidade de caridade, de acolhimento e de sacrifício." (n. 1654) [obs.: as citações do CIC acima foram corrigidas, de acordo com a edição brasileira]. Embora o Código de Direito Canônico afirme que "a impotência para copular, antecedente e perpétua, absoluta ou relativa, por parte do homem ou da mulher, dirime o matrimônio por sua própria natureza" (Cân. 1084 §1), logo depois declara: "A esterilidade não proíbe nem dirime o matrimônio" (Cân. 1084 §3), ou seja, a fecundidade biológica não é a condição sine qua non do Matrimônio, e/ou da família.
 
Voltando ao santo de hoje, João Batista acusou o rei Herodes de adultério (conf. Mc 6, 17-29), quer dizer de infidelidade conjugal que, diga-se de passagem, é algo que destrói, tanto o casamento hetero, quanto homossexual. É por isso que escrevi antes: a família, por ser a "célula fundamental da sociedade", torna-se uma belíssima inspiração para muitas experiências, inclusive para a união entre as pessoas do mesmo sexo.


25 de agosto de 2013

A porta


 
Nem sempre, ao ouvir as pregações em nossas igrejas, percebemos que o Evangelho é a Boa Nova. Graças a Deus, temos hoje o primeiro entre todos os pregadores - o Papa Francisco - que nos ajuda a resgatar o verdadeiro sentido do Evangelho. Transcrevo aqui uma parte de sua meditação, feita na ocasião da oração do "Ângelus", hoje, no Vaticano. O texto na íntegra pode ser encontrado aqui.
O Papa Francisco disse:

A imagem da porta volta várias vezes no Evangelho e remete àquela da casa, do lar, onde encontramos segurança, amor, calor. Jesus nos diz que há uma porta que nos faz entrar na família de Deus, no calor da casa de Deus, da comunhão com Ele. Esta porta é o próprio Jesus (cf. Jo 10, 9). Ele é a porta. Ele é a passagem para a salvação. Ele nos conduz ao Pai. E a porta que é Jesus não está nunca fechada, esta porta não está nunca fechada, está aberta sempre e a todos, sem distinção, sem exclusão, sem privilégios. Porque, vocês sabem, Jesus não exclui ninguém. Algum de vocês poderia dizer-me: “Mas padre, com certeza eu sou excluído, porque sou um grande pecador: fiz tantas coisas más, fiz tantas, na vida”. Não, você não está excluído! Justamente por isso você é o preferido, porque Jesus prefere o pecador, sempre, para perdoá-lo, para amá-lo. Jesus está esperando você para te abraçar, te perdoar. Não tenha medo: Ele te espera. Animado, tenha coragem para entrar pela sua porta. Todos são convidados a atravessar esta porta, a atravessar a porta da fé, a entrar na sua vida e a fazê-Lo entrar na nossa vida, para que Ele a transforme, a renove, dê a ela alegria plena e duradoura.
Nos dias de hoje, passamos diante de tantas portas que nos convidam a entrar prometendo uma felicidade que depois percebemos que dura somente um instante, que é um fim em si mesma e não tem futuro. Mas eu pergunto a vocês: nós, por qual porta queremos entrar? E quem queremos fazer entrar pela porta da nossa vida? Gostaria de dizer com força: não devemos ter medo de atravessar a porta da fé em Jesus, de deixá-Lo entrar sempre mais na nossa vida, de sair de nossos egoísmos, dos nossos fechamentos, das nossas indiferenças com os outros. Porque Jesus ilumina a nossa vida com uma luz que não se apaga mais. Não é um fogo de artifício, não é um flash! Não, é uma luz tranquila que dura sempre e nos dá paz. Assim é a luz que encontramos se entramos pela porta de Jesus.
Certo, aquela de Jesus é uma porta estreita, não porque seja uma sala de tortura. Não, não por isto! Mas porque nos pede para abrir o nosso coração a Ele, para reconhecer-nos pecadores, necessitados da sua salvação, do seu perdão, do seu amor, de ter humildade para acolher a sua misericórdia e fazer-nos renovar por Ele. Jesus no Evangelho nos diz que ser cristãos não é ter uma “etiqueta”! Eu pergunto a vocês: vocês são cristãos de etiqueta ou de verdade? E cada um responda para si! Não cristãos, nunca cristãos de etiqueta! Cristãos de verdade, de coração. Ser cristão é viver e testemunhar a fé na oração, nas obras de caridade, no promover a justiça, no fazer o bem. Pela porta estreita que é Cristo deve passar toda a nossa vida.

24 de agosto de 2013

Descobrir o essencial


 
 
Lembro-me de um professor da minha faculdade que, em uma das aulas de metodologia, falava sobre o fenômeno de generalização. Há quem acredite - dizia ele - que os anões e as loiras são a causa de todos os males na  história da humanidade. As generalizações, além de comprovarem uma considerável falta de inteligência, costumam ser perigosas, o que nos mostra, justamente, a história da humanidade.
 
Feita essa ressalva e apesar da mesma, vou recorrer a uma generalização. Creio que a falta de reflexão mais profunda e a consequente incapacidade de compreender as coisas, ou até as palavras, são, de fato, a causa de uma enorme parte dos males que atingem a humanidade, inclusive e em particular, a nós, os homossexuais.
 
Vejamos a questão, talvez, mais delicada e dolorosa e que nos incomoda tanto, mas também nos inspira para retomarmos a briga, a luta, ou - melhor entre todas as opções - o diálogo. É um verdadeiro paradoxo. De um lado, aqueles que acreditam em Deus, em particular, os cristãos, têm o acesso à verdade sobre a vida, a natureza do ser humano, a sua origem e a meta de sua existência. Por outro lado, são os mesmos religiosos e, de novo, em particular os cristãos, que nutrem dentro de si o mais autêntico ódio em relação aos seres humanos que possuem uma orientação sexual diferente daquela que é considerada clássica (ou a única correta), isto é, a heterossexual. Aliás, o clássico nesta história é o próprio ódio que até mereceria ser chamado de "ódio cristão".
 
Vamos aos pormenores. Em vários momentos de sua pregação, Jesus usa o exemplo de administração dos bens que pertencem ao patrão, ou rei - no caso, ao próprio Deus. Constatamos com facilidade que um dos principais bens entre todos que nos foram entregues (arrendados) por Deus é a própria vida: em primeiro lugar, a nossa, mas também a vida de outras pessoas, neste caso, em graus diferentes, de acordo com a natureza dos laços que nos unem com aquelas pessoas. Destacam-se aqui, evidentemente, os laços entre pais e filhos, entre irmãos de sangue e outros parentes, entre cônjuges e assim por diante. Até aqui, como parece, não escrevi nada que tenha sido especialmente revelador. Acredito, porém, que seja necessário começar pelos fundamentos, por mais óbvios que pareçam.
 
Na celebração do Sacramento do Matrimônio, os noivos respondem afirmativamente à pergunta (entre outras) sobre os filhos. "Estais dispostos a receber com amor os filhos que Deus vos confiar, educando-os na lei de Cristo e da Igreja?". Com outras palavras: todos os seres humanos pertencem a Deus, são a sua propriedade exclusiva e é Ele quem entrega um, ou mais, a outros seres humanos que se tornam assim os administradores deste grande bem, a vida humana que, entretanto, continua a pertencer a Deus. É neste contexto que vale a pena reler todas as parábolas de Jesus, sobretudo aquelas que falam da vinha e dos agricultores. É claro que os agricultores lucram com a vinha e os seus frutos, mesmo assim, nunca se tornam verdadeiros donos, pois trata-se da propriedade de um senhor. Este, por sua vez, espera e cobra a parte que lhe cabe. Assim, os pais lucram com a vida dos filhos, bem como os esposos, irmãos, parentes, amigos, membros de uma comunidade... É claro que não se trate de um lucro material, mas sim, espiritual. Todos se beneficiam com a presença do outro e todos são responsáveis, diante de Deus, pela vida dos outros, repito: cada qual, no grau que é próprio para cada tipo de laço existente entre as pessoas. Na parábola do Bom Samaritano Jesus afirma que somos responsáveis, até mesmo pelos desconhecidos.
 
Há uma verdade, revelada em forma de pergunta, na parábola que conta a história de trabalhadores da vinha, contratados em diversos horários do dia. Na hora do pagamento e diante da murmuração daqueles que esperavam o prêmio adicional por terem suportado o calor do dia inteiro, porém acabaram sendo igualados a outros que trabalharam apenas uma hora, o patrão responde com simplicidade: "Companheiro, não estou sendo injusto contigo. Não combinamos diária? Toma o que é teu e vai! Eu quero dar a este último o mesmo que dei a ti. Acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?" (Mt 20, 13-15).
 
Acaso, Deus não tem o direito de fazer o que quer com a vida humana que lhe pertence e é apenas administrada por nós?
 
Com outras palavras: "Amados pais! Não combinamos a sua tarefa de acolher com amor e educar os filhos que me pertencem? Seguindo esta vocação vocês contarão com o meu auxílio e irão receber o prêmio da vida eterna. Tenho, porém, o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence. Posso fazer com que a vida do seu filho dure apenas alguns dias, ou muitos anos, que seja marcada por uma brilhante inteligência, pelos dons e talentos extraordinários, ou carregue algo que vocês chamam de deficiência, mas, aos meus olhos, é um carisma especial. Pode, igualmente, ser definida (ou, se preferirem o termo: permitida) por mim como hetero ou homossexual. Eu posso fazer o que quero com aquilo que me pertence. A vocês cabe acolher, amar e cuidar, para depois devolver a mim".
 
Como é que você, em primeiro momento, pede para ter filhos, fica feliz quando os recebe e, depois de certo tempo, afirma que não os quer mais, que não foi assim que você imaginava e por isso essa, ou aquela pessoa não é mais o seu filho, ou a sua filha? E tudo isso porque o filho é diferente da maioria. Um dos argumentos mais repetidos é: "o que os outros vão dizer de mi?". É tão fácil esquecer de que na prestação de contas, o que vai importar é aquilo que diz a nosso respeito Deus e não os outros. "Muito bem, empregado bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu confiar-te-ei muito mais. Vem participar da minha alegria!" (Mt 25, 21).
 
É como naquela história que contam sobre uma mulher que foi conversar com o padre, pois estava apavorada, ao descobrir que sua filha Catarina era lésbica. O padre ouviu o desabafo da mulher e pediu que ela orasse bastante, repetindo diante de Deus, com frequência e durante vários dias, uma pergunta: "Meu Deus! Quem é Catarina?". A mulher relatou depois que quando tentava ouvir a resposta de Deus nos momentos de silêncio, recomendados pelo padre, durante vários dias ouvia apenas o grito: "Catarina é lésbica, é pecadora, suja e nojenta! Catarina é uma vergonha!". Percebia, porém, que foi o seu coração, a sua mente e as suas emoções que lhe forneciam tal resposta. Depois de certo tempo começou a ouvir, cada vez mais nitidamente, a resposta: "Catarina é a minha filha". A própria memória ajudou-lhe a percorrer pelos momentos mais felizes que ela tinha experimentado com a filha, desde a sua gestação. Inicialmente, esta associação das recordações felizes com a "terrível descoberta", trazia desconforto, mas, finalmente, a mulher enxergou a verdade: "Em sua essência, Catarina é a minha filha. É minha filha amada e nada vai mudar isso!". Esta afirmação libertadora levou a mulher à descoberta ainda mais importante. Catarina, na verdade e antes de tudo, é a filha amada de Deus e foi Ele quem me encarregou a administrar este bem tão precioso que, ainda que sob os meus cuidados, pertence a Ele. Eu fui escolhida para cuidar dela com amor e, depois, devolvê-la nas mãos do Senhor. É isso que, a partir de hoje, vou fazer, em vez de julgar, criticar, condenar, ou rejeitar. Amar significa acolher e cuidar, tentar compreender, fazer de tudo para defender. É isso que vou fazer.
 
É bom acrescentar que esse processo não foi rápido, nem fácil, mas foi possível, porque a mulher não parou na superfície da reflexão. Ela avançou para as águas mais profundas e somente assim foi capaz de descobrir a verdade sobre Deus, sobre si mesma, sobre a sua filha e sobre o mundo em geral. Tornou-se uma mulher nova, foi curada de preconceito, cuja raiz - o egoísmo, reforçado pela soberba - foi arrancada do seu coração. Naquele dia a salvação entrou em sua casa (cf. Lc 19, 9).
 
Há um tempo, a telenovela "Amor à vida", exibida pela TV Globo, aborda, entre outros, o assunto da relação de um pai para com o seu filho gay. As cenas e as conversas chegam a ser irritantes. Provavelmente por terem sido muito reais...